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segunda-feira, 15 de agosto de 2022

4853) Drummond: "Elegia do Rei do Sião" (15.8.2022)



(Drummond, por Drummond)

 
Carlos Drummond de Andrade utilizou em vários poemas um dos variados efeitos de “distanciamento” que seu contemporâneo Bertolt Brecht preconizava no teatro. No caso, consiste em projetar uma situação humana qualquer num ambiente exótico e distante, muito afastado da realidade imediata do público, para que este não se distraia na comparação de detalhes, na busca de verossimilhanças superficiais.
 
Para que a fábula se revele e se imponha com seu conteúdo cru de fábula.
 
Brecht fez críticas ferozes à Alemanha de seu tempo ambientando peças na China, em Nova York, ou em cidades imaginárias. Fazendo isso, ele dilui toda a “cor local” que tantas vezes interfere em nossa leitura de um livro ou um filme.
 
Drummond fala, em seu primeiro livro, do Czar búlgaro que caçava borboletas, fala de variados ambientes de capa-e-espada em “Balada do Amor Através das Idades” – e comenta com certa ironia a vida deste reizinho do Sião, que morreu porque não conseguiu fazer um filho homem.
 
Ele diz:
 
Pobre rei de Sião que morreu de desgosto
por não ter um filho varão.
Pobre rei de Bangkok educado em Oxford,
pequenino, bonito, decorativo,
que morreu especialmente para nos comover.
 
Há um tom de simpatia, de paternalismo, mas ao mesmo tempo um leve escárnio, como se fosse fácil, ou mesmo obrigatório, mangar dessa masculinidade incompleta. O que talvez fosse uma preocupação do próprio Drummond, que dois anos antes do livro tinha sido pai de Maria Julieta, a única filha que teve. Seria uma prefiguração do seu próprio destino? Drummond viria a escrever depois: “O filho que não fiz / hoje seria homem.” Um poema melancólico e resignado (“Ser”, Claro Enigma, 1948-1951).
 
O filho que desejava, a Ásia não deu,
e seu desejo de um filho era maior que a Ásia.
Pobre rei de Sião que Camões não cantou.


Por que Camões? Por causa do nome “Sião”, que no poema de Drummond se aplica ao país hoje conhecido como Tailândia, mas que Camões usou como sinônimo de “Zion”, ou Israel:

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, m'achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado,
Babilônia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
(Camões, “Redondilhas”, 1595)
 
É o pranto dos israelitas escravizados na Babilônia e lembrando com ardor da pátria perdida, conforme está no livro dos Salmos. Literariamente os “rios da Babilônia” se consagraram como um local de lamentações de um paraíso-terrestre perdido, das canções de exílio de um povo escorraçado. Chegou até à ficção científica, num conto clássico de mundo pós-nuclear, “By the Waters of Babylon” (Stephen Vincent Benet, 1937).
 
Mas o Sião que compete ao poeta mineiro é o Sião tailandês, é o dele, não o de Camões. E o dele nada tem a ver com a pátria destruída, e sim com um reino exótico do Oriente, que por vias transversas acaba cutucando na memória do poeta a lembrança do Rei Salomão e seu harém de concubinas:
 
Amou três mulheres em vez de dez mil
e nenhuma lhe deu um filho varão.
De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como um europeu,
adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.
 
Creio que “veneno terrível” é melodrama inventado pelo poeta, mas o resto é verdadeiro. O rei a que ele se refere é o rei Vajiravudh (1891-1925), que governou sob o nome de Rama VI. O jovem rei passou em branco ao longo de três casamentos, e acabou sendo pai de uma filhinha, a princesa Bejaratana. Ela nasceu em 24 de novembro de 1925, e ele morreu no dia 26, aos 44 anos.


(Vajiravudh, ou Rama VI)

Vajiravudh, educado em Oxford, foi um “rei intelectual”. Seus opositores o acusavam de “ocidentalismo” e de dedicar muito tempo à leitura dos clássicos e pouco à administração do reino – o que parece ser uma injustiça, dada a longa lista de modernizações que promoveu no país. Era uma espécie de D. Pedro II: fundou a primeira universidade do Sião, escreveu poemas, peças de teatro e romances. Traduziu Shakespeare e Agatha Christie, e ajudou a introduzir a literatura de detetive na Tailândia, tendo inclusive criado um personagem inspirado em Hercule Poirot, o detetive Nai-Thong-In.
 
Mesmo um currículo tão simpático parece não ter sido suficiente para reduzir a crueldade com que Drummond descreve seus últimos dias:
 
Seu coração enegreceu de repente,
o corpo ficou todo fofo.
Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.
Pobre reizinho de Sião.
 
É uma mistura de piedade e desdém. Ou, quem sabe, o problema sou eu, com minha leitura de quase um século depois, mexendo nas coisas. Literatura é um fenômeno quântico: cada vez que a gente examina a mesma operação, dá um resultado diferente. Poesia, então, nem se fala.
 
Vajiravudh (que era neto do Rei do Sião retratado no musical hollywoodiano O Rei e Eu, com Yul Brynner e Deborah Kerr) é um personagem que merecia uma elegia melhor. Um monarca do tipo “ponto fora da curva”. Ameaçado de assassinato em 1912 numa tentativa de golpe de vários oficiais do exército, perdoou os golpistas, dizendo que estavam lutando pelo bem do país. Em sua obra literária defendia o antigo código de honra da cavalaria: “Minha alma é de Deus, minha vida é do Rei, meu coração é das damas, minha honra é minha.”
 






sábado, 10 de julho de 2010

2254) Os pais monstros (29.5.2010)



O “Globo” de domingo passado deu uma matéria que, se conseguíssemos eliminar o tom descontraído de um artigo de jornal, poderia facilmente se transformar numa história de terror. O jornalista fala sobre um novo tipo de problema que está aparecendo no meio educacional do Japão: os pais monstros, pais que interferem de todas as maneiras possíveis na educação que seus filhos recebem nas escolas. Ao que parece, há uma faixa de pais (não muito larga, mas muito atuante) que toma para si uma responsabilidade excessiva quanto à educação dos filhos, e não deixa em paz nem a escola nem os professores. Segundo a matéria de Claudia Sarmento, nos EUA esses pais são conhecidos como “pais helicópteros”, porque fazem muito barulho e espalham poeira quando chegam.

Alguns pais plugam gravadores no uniforme dos filhos para gravar todas as aulas e em casa, à noite, examinar o que os professores disseram, e, muitas vezes, discordar deles. Como a cultura japonesa é extremamente formal, uma reprovação no fim do ano é quase uma catástrofe familiar. Nas competições esportivas, os colégios são coagidos a distribuir medalhas com os alunos de acordo com as expectativas ou as ansiedades destes (para que o fracasso não os traumatize), e não com o resultado das provas.

Diz a matéria: “Há mães que exigem que professores busquem seus filhos em casa ou lavem seus uniformes; outras obrigam o colégio a refazer o álbum de fotos escolar porque seus filhos apareceram ao lado de coleguinhas mais bonitos”. E há episódios hilários como o da montagem de uma peça de “Branca de Neve e os 7 Anões” sem anões (ninguém quis o papel) e em que todas as meninas faziam o papel da Princesa. Quando eu vejo essas coisas, sinto um profundo alívio por ter desistido de seguir a carreira de professor.

Pressão sobre professores não é raridade aqui no Brasil. Quem mexe com educação sabe que saímos de um século em que a regra eram professores tirânicos que perseguiam, oprimiam e apavoravam os pobres alunos, para um século em que alunos tirânicos apavoram, oprimem e perseguem os pobres professores. Ninguém é bonzinho a priori. Em escolas públicas de periferia, vemos professores pacatos, fatigados por excesso de trabalho, sofrendo para ajeitar a vida dentro do salário minguado que recebem, e tendo que enfrentar adolescentes belicosos, desafiadores, insubordinados e que muitas vezes vão para a aula drogados ou com armas. E em escolas caras, escolas selecionadíssimas, onde se formam nossas elites econômicas e políticas, já vi professores se queixando de serem humilhados pelos alunos riquinhos. Uma amiga minha ensinou numa escola, aqui no Rio, em que todos os alunos dela vinham para a aula de carro blindado e motorista particular. E quando levavam uma nota baixa ou uma repreensão em sala, diziam: “Vou me queixar de você ao meu pai, você tem idéia de quem é meu pai?”. É assim, amigos. Num país que perdeu seu centro, tudo é periferia.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

2231) O Ético e o Antiético (2.5.2010)


(As melhores coisas do mundo)
 
Algumas cenas do ótimo filme de Laís Bodanzky As melhores coisas do mundo (em cartaz na Capital) me deixaram com um pulga atrás da orelha. São cenas que se referem às atitudes éticas (ou antiéticas) de diferentes personagens, e são cenas cruciais, neste filme que discute, num roteiro cheio de variadas situações, as decisões éticas que os adolescentes vivem sendo forçados a fazer. 

Por exemplo – sacanear ou não sacanear um colega, só de gréia, só pra zoar? Denunciar ou não denunciar um colega que fez algo aparentemente errado? Espionar ou não espionar a vida de alguém que parece estar com problemas? E assim por diante. 

Há uma cena em que uma personagem revela um segredo pessoal, muito íntimo, para outra; e dias depois descobre que o Colégio inteiro ficou sabendo daquilo, o que está gerando problemas enormes para algumas pessoas. Diante das inevitáveis cobranças (“Mas como é que você comenta uma coisa dessa com Fulana, um segredo?”) a personagem desabafa: “Eu jamais imaginei que ela fosse espalhar isso pelo Colégio inteiro. Não é ético!”. 

Um problema frequente nas pessoas que procuram (sinceramente, honestamente, não da-boca-pra-fora) ter um comportamento “pautado pela ética” é que isso se torna tão obsessivo que elas acabam se esquecendo de algo muito simples: que as outras pessoas não são assim. Que muitas pessoas não estão nem aí para o que é ou não é ético, e que, como nesse exemplo acima, a maioria das pessoas é capaz de jogar seus escrúpulos éticos pela janela, em troca de uma fofoca “quente”, da revelação de um segredo desses de fazer arregalar os olhos de quem escuta. 

Em outro momento do filme, uma professora elogia um aluno cuja tese está orientando e alguém sugere, em tom brincalhão, que ela está tendo um caso com o aluno. Ela reage indignada: “Uma orientadora não pode ter um caso com o aluno! Não seria ético!”. Mas o filme dá o exemplo de outro personagem, um professor que acaba tendo um caso (e um caso homossexual) com um aluno a quem serve de orientador. E nada no filme nos leva a crer que esse caso é condenável. Pelo contrário: aceitamos, porque entendemos que foi uma paixão recíproca e sincera entre duas pessoas, e que os papéis de orientador e aluno, nesse caso, recuaram para segundo plano. 

O difícil em ser ético é que não existe uma fórmula pronta, aplicável de modo uniforme a todas as situações. Em ética, como em tantas coisas que envolvem julgamento de situações humanas complexas, cada caso é um caso. Isto não significa que não há valores éticos universais, mas que esses valores, que existem e devem servir sempre de crivo para o comportamento humano, existem justamente para serem aplicados a cada caso, existem para serem testados pelas demandas específicas de cada situação humana. 

O Bem e o Mal, o Certo e o Errado, o Justo e o Injusto são conceitos universais que só têm sentido se passarem pelo teste de cada complexa situação humana, porque é para resolvê-las que eles foram criados.






2229) “As melhores coisas do mundo”(30.4.2010)

Este filme de Laís Bodanzky (em cartaz na Capital) é um dos filmes brasileiros mais simpáticos dos últimos tempos, um filme sobre adolescentes que fala sem preconceitos sobre sexo, drogas e rock-and-roll. Fala sobre homossexualismo, sobre pais que se separam deixando os filhos apavorados; fala sobre garotos e garotas que experimentam drogas, e que se envolvem em fofocas e maledicências via celular. E fala de uma maneira equilibrada, descontraída, sem lições de moral. Me digam qual é o jovem que dá ouvidos a um adulto que tenta dar-lhe lições de moral. Ele pode prestar atenção e dizer “sim senhor” por uma questão de afeto e respeito. Mas na hora de agir, seja lá em que for, vai agir de acordo com a totalidade das informações que tem, com a totalidade das influências que recebe. E aí, meu amigo, é uma área onde os pais não podem ter controle total. A última geração de pais que teve esse controle foi no Sertão, cem anos atrás. O filme tem roteiro de Luiz Bolognesi e se baseia numa série de livros juvenis escritos por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. A história é basicamente o que acontece ao longo de alguns meses com dois irmãos, Pedro e Mano, que estudam no mesmo colégio, e cujos pais, professores universitários, acabaram de se separar. Pedro é mais velho, já transou, tem namorada fixa, faz música, faz teatro. Mano é mais novo, ainda é virgem, não tem namorada, está aprendendo violão quando na verdade queria tocar era guitarra, é apaixonado por uma garota bonita que sai com todo mundo menos com ele. A história tem pequenos episódios que vão desenvolvendo essa situação inicial, e o mais notável do filme é a espontaneidade que existe nos diálogos, nas ações, no contracenar de uma turma de atores muito jovens, simpáticos, descolados. A maior parte do filme acontece dentro do colégio, e é interessante ver como as aulas são apenas um pano-de-fundo. São algo que acontece ali, mas o que é realmente importante para essa galera (e como isso é verdade!) é o que ocorre no recreio, na chegada ou saída das aulas, nos intervalos, até mesmo nas conversas e torpedos trocados durante a aula. O que é o colégio, nessa idade? É um bode que alguém amarrou no meio da sala. Um dia o bode vai ser tirado dali. Enquanto isso, tenta-se aproveitar ao máximo o resto do tempo que não é ocupado pelo bode. Era assim que eu pensava quando adolescente, e algo me diz que, com variantes, é isso que a galera de hoje continua pensando. As melhores coisas do mundo é bom pela fluência narrativa, pela verdade emocional dos atores, pelos diálogos rápidos e criativos, mas acima de tudo porque não fala de drogas e de sexo, mas de escolhas éticas. A todo instante esses garotos e garotas de 14 ou 15 anos estão sendo forçados a fazer escolhas éticas que têm uma importância de vida ou morte para eles. A adolescência é uma idade em que o mundo se acaba dez vezes por dia, e o pior é que no dia seguinte começa tudo de novo.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

2209) A árvore, o filho e o livro (7.4.2010)



“Todo homem”, dizem, “deveria realizar três coisas antes de morrer: plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro”. Parece que o intuito dessa frase é louvar o sentido de permanência e perpetuidade após a morte. Depois de fazer essas três coisas, o sujeito pode morrer em paz, porque deixa três símbolos concretos de sua passagem pela terra. A árvore, o filho e o livro lhe sobrevivem e prolongam sua existência por mais algumas décadas (no caso do filho) e no caso da árvore e do livro, quem sabe? Até por alguns séculos.

Outra interpretação diz que isso nada tem a ver com prolongar a vida. Tem a ver com a educação do sujeito enquanto está vivo. A árvore, por exemplo. O ato de plantar uma árvore muda se dissermos: “Plantar uma árvore e responsabilizar-se pelo seu crescimento”. Árvore demora muito para crescer, dependendo da espécie. Algumas levam séculos. Plantar uma árvore não é apenas, como fazem os políticos no Dia do Meio Ambiente, cavar um buraco e jogar uma semente. É continuar vida afora ali do lado, esperando a folhinha verde apontar, esperando o caulezinho, esperando que a árvore vá ganhando corpo, elevando-se, ficando mais firme, mais rija, capaz de aguentar o vento, capaz depois de aguentar o esbarrão de um bêbo. Capaz de crescer e por fim dar sombra, dar frutos, fornecer o galho para alguém armar um balanço... Não é só plantar a árvore. É esperar que ela fique forte, cuidando dela.

Mesma coisa com os filhos, não é mesmo? Fazer um filho qualquer sujeito distraído faz, em muitos casos sem nem saber que está fazendo. Só se toca disso um mês depois, quando a garota liga aperreada para ele: “Não veio ainda...” Fazer um filho é fazê-lo ao longo da primeira infância, da segunda, da adolescência, da juventude, da vida adulta. E isso não acaba nunca, porque a verdade dos fatos é que mesmo quando a gente está senil e os filhos estão de barbas grisalhas, já pais de uma numerosa família, continuamos tendo motivos para puxar-lhes as orelhas, dar-lhes um carão de vez em quando, obrigá-los a fazer correções de rumo... Ou mesmo, invertendo o processo, responder às dúvidas que nos trazem, dar palpites nos problemas que atravessam. Não, nunca se pode dizer, como na música de Gordurinha: “os meninos ‘tão criados, satisfiz o meu desejo...” Nunca estão. Por definição, nunca poderão estar.

E o livro, esse então nem se fala. Muito escritor pensa que se livrou do livro no instante em que escreveu “FIM”. Ledo engano, ilusão trêda. Aí é que começam os trabalhos, os labores. E não me refiro apenas à publicação. Quando se diz que todo homem deveria escrever um livro antes de morrer, é para que ele saiba que vai ter que responder por esse livro a vida toda, aguentar as críticas, aguentar os elogios (às vezes são mais problemáticos e comprometedores do que as críticas). Ajudar o livro a crescer, e crescer ele próprio em volta desse livro, sabendo que agora é impossível mudá-lo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

2124) Pais e filhos (29.12.2009)



A imprensa adora descobrir (ou inventar) uma pequena fábula natalina para ser encenada no fim do ano, no teleteatro a que chamamos de telejornal. A deste ano foi o destino do menino Sean, que morava no Rio de Janeiro com a família de falecida mãe, e cuja guarda era reivindicada por seu pai biológico, o norte-americano David Goldman. Não vou questionar os meandros jurídicos ou políticos da história, que vocês podem encontrar alhures na imprensa. Basta dizer que na véspera de Natal, uma providencial decisão jurídica do impertérrito ministro Gilmar Mendes possibilitou a Goldman receber o filho no Consulado dos EUA e embarcar imediatamente com ele num avião rumo à Flórida, onde o garoto deve estar (no momento em que escrevo, sexta-feira à noite) sendo apresentado aos encantos “da Disney”.

Um resumo do começo dessa história pode ser lido nesta reportagem da revista Piauí (em: http://bringseanhome.org/piaui_port.html). O processo é complicado porque, além dos detalhes jurídicos, parece ser um daqueles casos em que as duas partes, mutuamente ressentidas e magoadas, fazem e dizem coisas que só contribuem para piorar a situação. O que chama a atenção é o modo como esse “conto de Natal moderno” vem se encaixar certinho com a necessidade, por parte da imprensa (a daqui e a de lá), de ter em mãos na época do Natal um drama familiar pungente, de cortar o coração. Ainda mais este, uma polêmica boa danada para colocar em campos opostos americanos x brasileiros, pais x mães, pais x padrastos...

Isso me lembra outra história emblemática que rolou este ano, a do “Balloon Boy”. Uma família dos EUA mandou aos ares um balão cheio de hélio e alegou para a polícia que o filho de 6 anos tinha subido para a cestinha do balão antes que este se desprendesse do solo. Foi desencadeada uma busca ao balão, atravessando três Estados, e cobrindo cerca de 18km. Quando o balão caiu, nada de guri lá dentro. O pirralho foi encontrado em casa pelos pais, e a partir daí uma série de circunstâncias suspeitas levaram a polícia a concluir que tudo tinha sido um falso alarme. Os pais sabiam o tempo todo que o filho estava em casa; armaram aquele circo para aparecer na mídia e, ao que se diz, ganhar um programa de TV para si. A esta altura, já confessaram a culpa, pagaram multas, e, ao que parece, foram judicialmente “proibidos de lucrar com o episódio”. Sábia medida, porque nos EUA é comum um sujeito matar alguém famoso, ir para a cadeia, escrever um livro e ficar milionário. (Em certas culturas se dá mais importância à conta bancária do que à liberdade.)

O avião em que David Goldman levou o menino para os EUA era fretado pela rede de televisão NBC, que tem direitos exclusivos de explorar jornalisticamente o episódio. A própria TV Globo teve que exibir na íntegra o filme produzido pela NBC na viagem de volta. A diferença entre a história do Balloon Boy e esta é a diferença que existe entre amadores e profissionais.

2118) A casa, a escola e a rua (22.12.2009)



(grafitos de Vitche e Flip)

São nossos três palcos de aprendizado, os três ambientes onde nos ensinam o básico (ou seja, nos ensinam a aprender e a utilizar o aprendido) e depois nos mandam às feras. Cada um desses ambientes tem primazia em diferentes épocas da nossa vida. A primeira infância pertence toda à Casa. Os pais e a família concêntrica passam pro bebê as primeiras noções de qualquer coisa, num processo que muitas vezes vai até a vida adulta. O rapaz ou a moça que sai da casa paterna (geralmente para casar) aos vinte e tantos anos de idade está partindo um cordão umbilical que é real, não tem nada de simbólico. É um cordão psicológico, mas tão real que tem gente que não consegue parti-lo nunca.

A Escola começa quando chega a hora do pirralho ser enviado para seu primeiro jardim-de-infância, onde começa a ser deixado sozinho (longe dos pais), a bater de frente com outros pirralhos que estão passando pelo mesmo susto e desmame, e a ter lições formais num ambiente formal. Escola tem sempre uma conotação chata. Nossos filhos sempre perguntam, principalmente dos 12 anos em diante: “Mas pra quê que eu tenho que estudar essas coisas? Pra que é que eu vou precisar disso?” Não sei, e até a idade em que estou não precisei extrair nenhuma raiz quadrada ou cúbica, não precisei saber quem eram os membros da Regência Trina Provisória, nem alguém jamais me perguntou quais eram os elementos químicos monovalentes, bivalentes ou trivalentes. Mas respondo: “Estudar essas coisas ensina disciplina de estudo, não ensina as coisas em si. Ensina você a enfiar a cara num livro e aprender alguma coisa, e vai precisar disso um dia, quando se defrontar com coisas que lhe interessam mas que exigem esforço para serem assimiladas”.

E finalmente vem a Rua. Essa está sempre presente, de um modo ou de outro, mas é a partir da adolescência que ela rapidamente bota as outras duas no bolso e impõe ao garoto ou à garota suas leis inescapáveis. O mais danado da rua é que ela é sedutora de um modo que Casa e Escola nunca são. Ou talvez devêssemos reconhecer que a Rua parece ter as respostas para as perguntas que os hormônios ficam fazendo 24 horas por dia, 60 segundos por minuto, dentro dos metabolismos turbilhonantes dos nossos filhos. É fácil dizer que essas respostas são o sexo, as drogas e o rock-and-roll. Pelo que me lembro, de quando passei por essa encarnação, o que a rua tinha de mais fascinante era a solidão. O fato de eu saber que ali estava entregue a minhas próprias forças e espertezas, e que na hora de um problema não poderia contar com meus pais, nem com o surrado recurso de “ir me queixar na Secretaria do Colégio”. A Rua é fascinante porque é o nosso destino final. Quando chegamos nela, nunca mais saímos. É para viver na Rua que Casa e Escola nos preparam, é para atuar na Rua que estávamos estudando não importa o quê (frações, pronomes, Tordesilhas, co-senos), porque as perguntas que a Rua nos fará nunca são as que esperávamos.

sábado, 8 de maio de 2010

2014) Liberdade e permissividade (22.8.2009)



Estávamos, um grupo de amigos, conversando sobre o comportamento dos jovens de hoje. Preciso dizer que todos os amigos tinham entre 50 e 60 anos? É engraçado como os velhos observam tanto a vida dos jovens e os jovens não dão a mínima atenção à vida dos velhos. Acho que intuitivamente todos sabem quem tem algo a ensinar a quem. Enfim: – conversava-se, ria-se, e comparava-se o amanhã de ontem (o mundo onde viemos parar) ao ontem de amanhã (o mundo que nossos filhos recordarão um dia). No meio da conversa, falando de comportamento e de relações pessoais, alguém se saiu com uma frase mais ou menos assim: “Antes havia mais repressão, mas havia mais disposição para enfrentá-la. Hoje existe mais permissividade, mais galinhagem, mas, quando existe uma barreira, as pessoas não tem tanta coragem para enfrentar pressões e conseguir mais liberdade”.

Me pareceu uma boa tentativa de focalizar esse enorme paradoxo que a gente observa entre a adolescência dos nossos filhos e a nossa. Como sei que nenhum adolescente lê esta coluna, fico à vontade para comentar com os leitores que o mundo em que fomos jovens pareceria um pesadelo surrealista aos garotos e garotas de hoje. Eles não entenderiam, por exemplo, a nobre instituição do “namoro no terraço”, em que o rapaz e a moça, à noite, ficavam sentados lado a lado, de mãos dadas. No mesmo aposento (que não tinha de ser o terraço – podia ser a sala de visitas, etc.) era obrigatória a presença de uma terceira pessoa, fosse a mãe da moça, uma tia sonolenta, uma avó caduca, um irmão menor... Não fazia diferença quem fosse, o importante era que nem por um segundo aquele rapaz e aquela moça fossem deixados a sós, se não o defloramento da garota seria inevitável. (Não riam, meus jovens. Toda vez que um dos vigias saía da sala, acontecia algo inesquecível.)

Um casal de namorados (mesmo que tivessem 20, 25 anos) só ia ao cinema se fosse acompanhado por uma terceira pessoa, geralmente um irmão mais novo ou uma amiga da futura vítima. (Ainda por cima, o pretendente tinha que bancar três ingressos!) Um amigo já me confessou: “Na primeira vez em que fiquei a sós com Fulana, com quem namorava há mais de um ano, ficamos nos achando estranhos. Não sabíamos como éramos sem uma pessoa olhando”.

Sou um cara otimista, e acho que a cada geração que se sucede a Humanidade vai aposentando formas desnecessárias de sofrimento. Hoje, tudo que falei acima é muito engraçado; na época, daríamos o olho direito e o braço esquerdo pela chance de passar uma noite a sós. Hoje, um rapaz de 18 anos vai (consentidamente) para o apartamento da namorada, cujos pais estão viajando, e provavelmente os dois passam a noite assistindo DVDs e comendo pizza com coca-cola. (Na verdade não é nada disso – aposto que fazem as maiores loucuras, e é a minha mente grisalha que procura se consolar, vendo uvas verdes na parreira de Baco que eles desfrutam.)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

1988) “O Clube do Filme” (23.7.2009)



Este simpático livro do canadense David Gilmour (nenhuma relação com seu xará que toca no Pink Floyd) fala da curiosa solução que ele encontrou para lidar com um filho adolescente que não queria estudar, não queria ir à escola, fumava feito uma caipora, e vivia roendo pela namorada. Quando o garoto, Jesse, começou a ser reprovado, ele – que trabalhava como crítico e roteirista de cinema – propôs um acordo: “Tudo bem, você larga a escola, dorme até a hora que quiser. Mas com duas condições: nada de drogas, e toda semana vai ter que assistir e debater três filmes escolhidos por mim”. Trato feito, e o livro se desenrola a partir daí.

É típico que o primeiro filme escolhido por Gilmour tenha sido Os Incompreendidos de Truffaut, a crônica dos garotos rebeldes, perdidões, fundamentalmente sinceros, revoltados com a hipocrisia dos adultos e os rituais idiotas a que estes os obrigam. Mas o gosto de Gilmour é eclético. Entre as centenas de filmes vistos e debatidos com o filho estão faroestes italianos, filmes-cabeça, policiais “noir” dos anos 1940, musicais da Metro, comédias adolescentes bobas, ficção científica, thriller, histórias românticas... Com sabedoria, Gilmour não tenta empurrar doses de Cinema de Arte e de adaptações dos clássicos para compensar a interrupção dos estudos do filho. Ele sabe que o garoto precisa de motivação para encarar o mundo, precisa conversar, precisa esquecer as dores-de-cotovelo (o garoto vive se apaixonando pelas meninas erradas), e que qualquer filme pode ser a porta para uma discussão que vai dar sempre nos mesmos lugares.

Nunca li nada de Gilmour, mas fiquei curioso pelas suas críticas cinematográficas. Seu gosto difere muitas vezes do meu, mas me senti menos culpado por gostar de Uma Linda Mulher quando o vi dizer que “não existe no filme uma cena verossímil sequer, mas é uma história tão envolvente, contada de forma tão eficaz, com uma cena agradável atrás da outra, que mesmo sendo um filme idiota ele prende a atenção”. Ele e o filho se envolvem em conversas ping-pong (“— O que tornava um filme bom, segundo Howard Hawks? – Três cenas boas e nenhuma ruim”). Ele cria módulos (conjuntos de filmes semelhantes) a que chama de “Tesouros Enterrados” ou “Prazeres Culpados”. O filho cresce, torna-se compositor de rap, ganha e perde garotas e empregos. Os anos passam, e o “clube do filme” continua a ser o espaço que os dois têm para discutir tudo, principalmente sexo, drogas, rock-and-roll e cinema.

O livro é interessante também porque revela certa distâncias culturais inevitáveis. Algumas atitudes do pai canadense nos parecem absurdas ou ingênuas; algumas de suas angústias são por coisas que um pai brasileiro tiraria de letra, aplicando um “cascudo” no transgressor e pronto. Mas não se discute sua coragem em tomar para si (e para o cinema) a tarefa de educar mais um garoto que a escola (e seu sistema paleolítico de “matéria que cai na prova”) perdeu.

terça-feira, 13 de abril de 2010

1904) Sequestro virtual (16.4.2009)



(drangooble)

É um dos golpes mais banais dos bandidos cariocas; não sei se já está em prática na Paraíba. Ligam para a família de uma pessoa, em geral uma criança ou adolescente, e dizem que o garoto foi sequestrado, está em poder deles. A família tem que levar não-sei-quantos-mil reais num lugar assim-assim, agora, já, senão o menino morre. A verossimilhança do golpe é garantida quando o bandido diz: “Se a senhora não acredita que é seu filho, escuta só”. O fone é passado para alguém e ouve-se uma voz abafada, histérica, tartamudeando pedidos de socorro; e logo retorna o primeiro interlocutor: “Vem logo, madame, porque seu filhote tá sangrando muito”.

Qual o pai ou a mãe que não treme na base quando uma bigorna dessas lhe cai na cabeça? Eu me considero um homem de sorte, porque já recebi uma dúzia desses telefonemas, mas na primeira vez que aconteceu era cedo da noite, e enquanto a voz desesperada gritava no receptor “pai, pai, eles vão me matar!” eu estava vendo meu filho a poucos metros, lanchando na cozinha. Desliguei o telefone, depois puxei-o para fora do gancho e deixei ali a noite toda, como a polícia aconselha fazer. Não tendo resposta, os caras ligam para o próximo número da lista e vão tentar a sorte com outro infeliz.

Na segunda vez foi mais dramático. Meu filho estava no colégio, era meio-dia, não tinha chegado ainda. A ladainha era parecida, “pai, pelo amor de Deus, tão me batendo!”. Bati o telefone. Mas ele ainda estava na rua... quem me garantia coisa alguma? Foram dez minutos de suplício psicológico até que a chave girou na porta e surgiu a silhueta desengonçada, mochila às costas, cabelão, camisa “Clockwork Orange”, e aquele ar desligado de quem está sempre pensando noutra coisa e nem sequer estranha chegar em casa para o almoço e ver o pai ajoelhado no centro da sala, beijando o sinteco.

A polícia aconselha ter um código para identificar se é ou não o filho. Zuenir Ventura, no “Globo” sugere tratar os bandidos com ironia. O bandido diz: “Quero dez mil pra devolver seu filho!” E a gente responde: “Dez mil?! Se você me devolver esse pentelho, eu vou querer vinte mil, de indenização!!!”. Talvez funcione. Mas já surgiu uma variante. Falsos pesquisadores ficam rondando a sala de espera dos cinemas, de prancheta em punho. Abordam um adolescente, dizem que é uma pesquisa do Ibope (todo brasileiro acredita na existência do Ibope), pedem nome completo, telefone de casa, nome dos pais, etc. Quando o garoto ou a garota entra na sala de exibição e desliga o celular, eles ligam para casa, já com a ficha completa, sabendo a aparência, como estava vestido, etc., e dizem: “Olhe, madame, só não boto pra falar com a senhora porque meus colegas acabaram de levar ela pro quarto dos fundos”. Os pais ficam no mesmo dilema de Pascal quanto à existência de Deus. A possibilidade de perda, se acreditarmos e aquilo for mentira, é pequena; mas se não acreditarmos e for verdade, quem pode calcular?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

1582) Um crime imperdoável (8.4.2008)



Zezinho é operário da construção civil e gatuno contumaz, acostumado a dar-um-ganho nas posses alheias sempre que arranja um jeito. Trabalha no acabamento de edifícios, e não é raro que esteja finalizando um trabalho num prédio onde outros apartamentos já estão ocupados pelos moradores. No fim de uma tarde propícia, ele dá um jeito de ficar por último. Uma vez sozinho, pega uma gazua (ou cópia de chave, obtida em cumplicidade com o porteiro) e entra em algum apartamento cujos moradores estão fora. Pega coisas miúdas e cai fora. Seu grande golpe até hoje foi um notebook, que levou dentro de um jornal.

Uma noite, Zezinho fez a manobra habitual, mas teve azar. Estava no apartamento há poucos minutos quando ouviu a porta da frente se abrir e o dono da casa entrar. Pelo que o homem murmurava, Zezinho (que se escondeu rapidamente e prendeu a respiração) percebeu que ele trazia a filha semi-adormecida, que a deixava na cama de um dos quartos, e ia à garagem trazer o resto da família. Zezinho amaldiçoou-se pela falta de sorte, mas sabia que tinha alguns minutos para cair fora. Esperou o homem sair. Quando ouviu a batida da porta da frente, contou até vinte e saiu, pé ante pé.

Talvez tenha feito barulho, ou talvez a garota tenha levantado por algum motivo. Ela o viu passando no corredor, assustou-se, correu para a porta gritando pelo pai. Zezinho agarrou a menina, começou a bater nela; a garota chorava e chamava o pai. Desvencilhou-se dele e fugiu para o quarto. Zezinho a perseguiu, desesperado. Ele mesmo não lembra direito o que fez em seguida, mas depois de feito precisava ganhar tempo. A janela tinha uma tela de nylon. Ele a cortou com o que viu à mão. Enfiou por ali o corpo, deixou-o cair, achando que a queda atrairia todo mundo para o térreo. Saiu aos tropeções pela porta da frente do apartamento, e ao chegar às escadas ainda ouviu o elevador se abrindo e as vozes da família.

É absurda, minha história? Pode não ter acontecido, mas improvável não é. Por que até agora ninguém pensou numa história parecida com relação à morte da menina Isabela, dias atrás, em São Paulo? O pai e a madrasta da menina estão presos, e existe uma corrente-pra-frente, da imprensa e da opinião pública, querendo a punição dos dois. Talvez sejam culpados, por que não? Violências irrefletidas acontecem por aí, o tempo todo. Mas parece que, hoje em dia, a hipótese de um pai matar a filha dessa maneira é tão lógica, tão normal, tão previsível, que nem mesmo a hipótese de um suposto “Zezinho” (ou outra qualquer) é considerada. Espero que a polícia a esteja considerando, porque a imprensa em geral, até agora, já decidiu quem é o culpado (embora, escaldada, não o diga com todas as letras). É terrível o que vou dizer; mas de certo modo tenho esperança de que o culpado seja mesmo o casal. Porque se eles forem inocentes, o crime que está sendo cometido contra eles é tão grave quanto o assassinato de uma criança.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

1574) “Juno“ (29.3.2008)




O simpático filme de Jason Reitman é mais uma produção independente que se impõe no mercado americano. Ótimo sinal. Apesar dos blockbusters super-caros sobre super-heróis dos quadrinhos, o mercado dos EUA tem recebido bem estes filmes feitos com pouco dinheiro e que repousam nas qualidades tradicionais do cinema médio americano: roteiros sólidos, bons atores, direção voltada para a velha arte de contar uma história. O problema com essas características é a rapidez com que ficam defasadas depois de alguns anos. Parece que estamos no despontar de uma nova safra. Juno concorreu a três Oscars (filme, roteiro, atriz). Oscar jamais foi sinal de qualidade, mas funciona como termômetro de tendências. E pela segunda vez em dois anos seguidos o Oscar de roteiro original foi para um novato: desta vez Diablo Cody (no ano passado foi Michael Arndt por Pequena Miss Sunshine).

Juno nem parece muito um filme americano; lembra mais um filme canadense ou holandês. O que tem de mais americano são os diálogos, muito engraçados mas quase ininteligíveis pelo acúmulo de gírias (e mesmo nas legendas muita coisa se perde). Grande parte do peso do filme repousa na atriz principal, Ellen Page, que carrega o edifício assobiando, na ponta do dedo mindinho. O papel parece ter sido escrito para ela ou improvisado por ela. É o charme desconcertante de sua personagem, carismática e imprevisível, que nos arrasta para longe daquele atoleiro mortífero, o filme-de-família dos EUA, feito para celebrar sentimentos e valores humanos. Uma espécie de livro de auto ajuda preparado com a fórmula do comercial de chiclete de bola. Juno e Pequena Miss Sunshine podem ser um indício de que o filme-de-família da próxima década conseguirá finalmente tratar de forma tranquila e minimamente franca certos assuntos que o puritanismo dos EUA sempre repeliu com horror e procurou expulsar da tela: aborto, divórcio ou separação, homossexualismo, drogas, gente não-bonita, gente que não dá certo na vida.

Há uma curiosa coincidência comercial nesses dois filmes. Little Miss Sunshine custou cerca de 8 milhões de dólares e arrecadou no mundo inteiro cerca de 100 milhões. Juno custou 6,5 milhões e arrecadou 200 milhões até este mês de março. A esta altura há milhares de produtores e roteiristas de prancheta eletrônica em punho, dando Stop, Rewind e Play em cada palmo desses dois filmes, para extrair deles a fórmula mágica de multiplicar por 10 ou por 20 um investimento. Titanic (o filme mais lucrativo da História recente, em termos absolutos) custou 200 milhões e arrecadou cerca de 2 bilhões, mas, quem é que tem 200 milhões para dar um pontapé inicial num projeto? Muito melhor tentar conseguir essa proporção com um dispêndio mais modesto. Só espero que essa busca pela fórmula não venha a nos deixar soterrados de imitações, como anda ocorrendo no filme-de-serial-killer pós-Silêncio dos Inocentes e fantasia heróica pós-Senhor dos Anéis.

sábado, 22 de agosto de 2009

1213) O filho e o carro (1.2.2007)



Recebo muitos trabalhos enviados por amigos ou desconhecidos: livros, poemas, CDs, crônicas, etc. Quando a gente tem com o autor um certo grau de intimidade, não há problema em dar nossa opinião, quando ele a pede. Mas quando é um desconhecido, e a gente nem sabe se é um principiante ou um artista já encaminhado, é difícil saber que o que dizer. Tenho o maior medo de dizer algo tipo “olhe, Fulano, escreva mais, amadureça mais, você tem muito talento em potencial, etc.” e o cara me responder que é mais velho do que eu e tem 20 livros publicados. Onde vou enfiar a cara?

Quem mostra um trabalho tem muitas vezes a atitude de quem mostra um filho. Uma vez encontrei na rua um conhecido que não via há alguns anos. Cumprimentamo-nos, trocamos um abraço, e ele me mostrou o garoto de uns cinco anos que o acompanhava: “Olha, este aqui é o meu filho”. Olhei pro guri e disse: “Parece muito contigo”. O guri me olhou de cima a baixo e disse: “Deus me livre, meu pai é muito feio”. Rimos muito, porque o que eu tinha dito era uma mentira social, e o guri dissera a verdade pura.

Minha pergunta é: se o guri fosse feio, teria eu o direito de dizer isto? Quem mostra um fiho não está pedindo uma avaliação crítica, está pedido um gesto de aprovação, a ratificação de um vínculo afetivo. Quem tem um filho orgulha-se dele, e ponto final. Um filho é uma extensão de nós mesmos, é prolongamento futuro de nossa passagem sobre a Terra, como uma árvore plantada ou um livro escrito. Quem mostra um filho está mostrando um fato consumado, ao qual nenum juízo crítico pode se aplicar.

Mas há casos em que alguém nos mostra um CD ou um poema com outra atitude. A atitude de quem leva um carro à oficina e diz ao mecânico: “Josias, dá uma olhada nesse carburador, que ele tá meio esquisito”. Às vezes o carburador não tem nada, mas a gente só confirma isto através de Josias, que entende de carburador mais do que nós. O que a pessoa pede nestes casos é uma opinião técnica, um diagnóstico entre colegas de ofício, mesmo que um seja um mestre e o outro um aprendiz. E nestes casos, quem pede deve estar preparado para ouvir o que precisa ser dito, e que nem sempre é agradável.

Não acho que devamos julgar com rigor excessivo o trabalho alheio, principalmente de um autor jovem. Conheço muitos casos de pessoas que desistiram de uma carreira porque a primeira crítica que receberam foi devastadora demais. E todos nós sabemos de autores que começaram medíocres, mas foram crescendo por esforço próprio, e depois de muitos anos produziram obras de alto nível. Devemos ter confiança no futuro. O primeiro CD da banda, os primeiros poemas da jovem universitária, o primeiro romance do rapaz meio prolixo... o talento talvez ainda não esteja ali, mas pode despontar um dia. Não devemos afagar demais sua vaidade, mas devemos dizer: “Pode ir pra casa, e fique tranqüilo. Seu carro não tem nenhum problema. Continue dirigindo que um dia você chega lá”.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

1013) O horizonte de expectativas (15.6.2006)



Já referi nesta coluna (“O ambicioso”, 22.4.2005) uma entrevista em que Gilberto Gil aconselhava os artistas a quererem muito, ousarem muito: “O artista tem que lançar seu verso lá no alto, como o alpinista lança sua corda. Se o verso for longe, ele vai conseguir ir longe também”. Algo assim. Este é um dos pontos em que acho que o Espírito do Tempo, o Zeitgeist de nossa época, tem algo de positivo. Como todos sabem, estamos num tempo que cultua a ambição, a ousadia, a eficiência, a busca de resultados, a demonstração de força, o espetáculo da competição e da competência. Para os jovens, que já nasceram no interior dessa bolha febril da busca do sucesso, parece muito normal. Mas, creiam-me, houve época em que o quente não era fazer sucesso, era ter uma visão-do-mundo (ver “Weltanschauung”, 4.2.2006).

É por causa disto que causa-me espécie um tipo peculiar de desambição que acomete nossos jovens em idade escolar. Por exemplo: tem certos colégios secundários (estou falando em “colégios bons”, na faixa de 700 paus por mês) onde se exige média 6 para passar de ano. O aluno tem três provas trimestrais, e se fizer 18 pontos na soma das notas, tá passado. Maravilha! Só não digo que é mamata porque mamata melhor ainda era no meu tempo. O sujeito passava com 50 pontos: tinha seis provas mensais (valendo 10, claro) e mais a nota da prova final, que era multiplicada por quatro. Vamos e venhamos, o “caba” que não faz 50 pontos num sistema como esse merece sela e cabresto.

Mas os garotos de hoje vivem uma situação interessante. “Eu preciso de 6 pra passar”, dizem eles. E o objetivo deles é o que? Tirar 6. Dão de ombros para a possibilidade de tirar 7 ou 8. “Não precisa,” esclarecem eles, com rara paciência; “se tirar 6, passa”. A nota 6 vira, portanto, o objetivo final de todos os seus esforços. Um garoto já se saiu com esta pérola: “Eu preciso de 6, então não preciso estudar a matéria toda: basta estudar a metade e mais um pouquinho”. Não é uma maravilha, a futura elite deste país?

É claro que pais, mães, professores, fazem o que podem para tirar os garotos dessa roubada. “Você precisa é de 10,” dizem uns. “Tem que tentar tirar 10, mesmo sabendo que um 9, um 8 ou um 7 são notas também boas”. Não adianta: eles se agarram ao 6 como a uma tábua de salvação. Não adianta explicar-lhes que 6 não é o objetivo, e sim o pior resultado aceitável. Seis, para eles, é a nota do alívio, a garantia das férias e do presente prometido “por passar de ano”. É a lei do menor esforço possível para conseguir o mínimo resultado necessário: a Lei da Má Vontade.

É devido a essa mentalidade que quando eles crescem vão jogar futebol, o time entra no mata-mata na Copa do Brasil, aí no primeiro jogo vence por 2x0. Na véspera do segundo jogo os jogadores se saem com esta pérola: “Estamos tranquilos, porque nosso time precisa perder de 1x0 para ser campeão”. E eles entram em campo tentando perder de 1x0. Adivinha no que dá!

quinta-feira, 5 de março de 2009

0866) Canções de filho (25.12.2005)


(Bob e Jesse Dylan)

O leitor deve estar acompanhando minha pesquisa incansável pelos gêneros fundamentais da canção popular do ponto de vista dos letristas (porque do ponto de vista dos músicos são os clichês de sempre: o baião, o maracatu, o samba, o rap...) Eis que agora lhes proponho outro cuja nitidez me parece indiscutível: “canções de filho”. São aquelas em que um pai ou uma mãe descreve seu filho, ou dirige-se a ele, ou conta sua história. Poucos gêneros serão tão emocionalmente delicados e difíceis quanto este, porque podem facilmente descambar para o sentimentalismo água-com-açúcar.

Não é isto, contudo, o que acontece com “Meu Guri”, de Chico Buarque, uma pequena obra-prima narrada do ponto de vista de uma mãe favelada. Ela nos diz tudo sobre o filho, e Chico emprega a difícil técnica ficcional do narrador que conta os fatos sem compreendê-los totalmente (algo que Jorge Luís Borges diz ter aprendido com Kipling e com as sagas da Islândia). Igualmente comovente, para mim, é a beleza de canção de John Lennon “Beautiful Boy”, primor de letra, melodia e arranjo, onde ele diz uma das frases involuntariamente mais cruéis de sua obra: “A vida é aquilo que lhe acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Lennon, cheio de planos para o futuro, seria assassinado semanas depois desse disco ir às lojas.

Bob Dylan, hoje mais conhecido como o pai do vocalista dos Wallflowers, tem também uma pequenina jóia, “Lord, protect my child”, que apareceu apenas na caixa The Bootleg Series, vol. 1-3: “Ele é jovem e ardente, cheio de esperanças e de desejos num mundo que foi estuprado e corrompido... Se eu tombar ao longo do caminho, e não vir a luz do amanhã... Senhor, protegei meu filho”. É uma prece angustiada, rasgada do fundo da garganta, acompanhada pelas guitarras de Mick Taylor e Mark Knopfler.

Vinicius de Morais também tem uma bela parceria com Toquinho, onde fala do filho que queria ter. A letra acompanha a vida do filho, vendo-o crescer, desde o nascimento até a vida adulta, quando ele fecha os olhos do pai num derradeiro gesto de carinho: “Dorme, meu pai, sem cuidado / dorme, que ao entardecer / teu filho sonha acordado / com o filho que ele quer ter”. A música foi gravada por Chico Buarque no disco Sinal Fechado, o que para mim fortaleceu um “link” paterno-filial entre os dois grandes poetas. Chico, que só teve filhas mulheres, tem outra canção tocante, “As minhas meninas”, em que mostra um outro lado dos cuidados paternos: “As meninas são minhas / só minhas -- na minha ilusão; / na canção cristalina da mina da imaginação. / Pode o tempo marcar seus caminhos / nas faces com as linhas das noites de não / e a solidão maltratar as meninas... As minhas, não!”

Depois que os filhos nascem, ninguém dorme mais. A vida vira uma vigília de olhos eternamente abertos e coração eternamente em sobressalto. A gente nunca dá valor à própria vida, mas, com as vidas que a gente cria... pense nuns cuidados!

sábado, 14 de junho de 2008

0409) Os filhos alheios (11.7.2004)



(Eddie Carmel com seus pais - foto de Diane Arbus)

Ver crescer um filho alheio é uma importante lição de vida; às vezes mais educativa do que ver crescerem os nossos. Porque a verdade é que a gente não vê os nossos filhos crescerem. Nossos filhos crescem como as plantas do nosso jardim ou da nossa varanda: ao ritmo de um micromilímetro por dia. Crescem furtivamente como a nossa barba, as nossas unhas, ou a nossa cintura. Estão sempre ali, fazendo barulho, sempre idênticos, e tão imprevisíveis que mesmo as mudanças mais radicais passam despercebidas, porque pensamos que é apenas uma veneta nova que está demorando a passar.

Já os filhos dos outros crescem como os espigões da construção civil. A gente passa um dia numa esquina e lá estão os operários de capacete cor-de-laranja, pipocando suas britadeiras de encontro ao solo, fincando fundações, carregando cimento. Passam-se alguns dias, ou pelo menos é esta a nossa sensação, e quando passamos de novo já tem gente dando polimento nas vidraças da cobertura. Mal nos recuperamos da surpresa e, na vez seguinte, estamos tocando na campainha para visitar um amigo nosso que está morando no vigésimo andar.

Nossos filhos crescem pelo lento processo de aposição de novas e imperceptíveis camadas de vida sobre as camadas anteriores. Só temos noção de que o tempo passou por dentro deles quando ocorre um desses saltos qualitativos que não têm retorno: o primeiro passo, a primeira palavra escrita, a primeira menstruação, a primeira saída-de-casa-a-sós. (Guardo para mim, que sou “gourmet” de detalhes, prazeres mais refinados, como a lembrança do primeiro uso do futuro do subjuntivo, o primeiro livro de Sherlock Holmes, etc.)

O filho alheio, pelo contrário, parece só crescer aos saltos. Num dia, é um bebê que a gente segura no braço para uma foto, na festinha de aniversário. No outro, já é um adolescente magricela, cheio de espinhas. Na vez seguinte é um grandalhão com cavanhaque hip-hop e uma namoradinha que não é de se jogar fora. Sempre que visito amigos meus depois de algum tempo tenho que refrear o irritante clichê de “Fulano cresceu, hem?...” Crianças não sentem prazer em ouvir isto; adolescentes odeiam.. E não quero fazer como uma tia minha, que sempre que me reencontrava (eu já com 40, 45 anos) dizia, assombrada: “Menino, como Braulio tá grande!”.

Filhos alheios crescem aos saltos, como os bairros onde só vamos de vez em quando, ou uma telenovela à qual retornamos depois de alguns meses. Garotos a quem ensinei acordes no violão vêm hoje me presentear seu primeiro CD, fazendo com que eu me sinta vagamente cúmplice (e com um tremendo complexo de inferioridade). Mas o mais danado é você voltar a uma cidade onde já morou, ir a uma festa num bar, ser apresentado a uma moça simpática, dançar com ela, ficar todo animado, e ao encostar no balcão para tomar uma cerveja ouvi-la dizer: “Que legal a gente estar aqui... Mamãe fala tão bem de você!” É, amigos, o tempo não para.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0075) As quatro etapas da vida (18.6.2003)



(minha mãe)

Na primeira etapa da nossa vida, do nascimento até os vinte e poucos anos, somos Filhos dos Nossos Pais. São eles que nos sustentam, nos formatam, nos ensinam o básico do básico, nos preparam para as batalhas do mundo. Ao longo disso, também nos massacram, nos reprimem, entulham nossa mente com advertências terríveis, sufocam nossa iniciativa com ordens, regras, proibições. Chega uma idade em que tudo que a gente quer é cair fora dali, ir morar fora, cometer os próprios erros, sem ninguém nos explicando o tempo todo como evitar uma topada. Aí a gente vai embora, topa até não poder mais, e acaba casando.

Aí começa a segunda etapa: crianças aparecem, e nos tornamos os Pais dos Nossos Filhos. Começamos a ver o mesmo filme, só que agora estamos do outro lado. Somos nós que começamos a dar duro para alimentar, cuidar, prover. Chega a nossa vez de negar o brinquedo, de mandar pentear o cabelo, de obrigar a tomar sopa, de ralhar, de proibir. E também é a nossa vez de pôr no colo, acarinhar, ensinar a ler (tem coisa mais bonita do que um filho lendo, uma filha escrevendo?). Mas a lei do mundo é de ferro. Eles crescem. Sentem-se sufocados. O dedão começa a coçar-lhes, pedindo-lhes a chance de sair de mundo afora, dando as próprias topadas. Adeus!

Pensamos que o filme acabou, mas quando nos viramos de lado, avistamos quem? Eles, nossos pais, que agora estão velhinhos e meio escangalhados pelo catabis da vida. As crianças sumiram, não precisam mais de nós, mas aqui estão estas crianças enrugadas, de cabelos brancos, já batendo biela e precisando de uma supervisão técnica. E nessa terceira fase, por volta dos quarenta, viramos Pais dos Nossos Pais. É nossa vez de proibir coisas (“Papai, largue esse cigarro agora mesmo, onde já se viu”), de dar ordens (“Pois pode ir trocar de roupa que a senhora vai pro médico é agora”). Velamos as suas febres, aturamos seus achaques, pagamos agora em paciência a paciência que velou tantas noites (só agora reconhecemos a cena) à nossa cabeceira.

E eles se vão. Tantos outros estão a ir-se que começamos a pensar se um dia não nos iremos nós também. E na curva vagarosa dos setenta percebemos que nos cansamos um pouco: criamos os filhos, cuidamos dos pais, será que a vida é só trabalho? Será que ninguém vê que a gente não é de ferro, que a gente se cansa, que a pessoa se estressa? E aí, por uma dessas simetrias que parecem desenhadas por mão divina, os papéis mais uma vez se invertem. E viramos os Filhos dos Nossos Filhos. Tudo que demos voltamos a receber. “Vivendo e aprendendo”, diz a sabedoria popular. E ensinando também. Se a vida se limitasse só a aprender, ou só a ensinar, seria de um egoísmo insuportável. Recebemos, e passamos adiante. A melhor maneira de pagar um favor, às vezes, não é devolvê-lo, é passá-lo adiante. Pagar, mas não a quem nos deu, e sim a quem esteja precisando. Se a vida não ensinar isso, não ensinou nada.