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terça-feira, 3 de junho de 2025

5182) A Conspiração e o Absurdo (4.6.2025)



 
Uma das minhas frases preferidas é a de Philip K. Dick quando disse que a mente humana precisa de significado tanto quanto o corpo humano precisa de água. Sem isso, definham, ressecam, morrem. 
 
Um dos elementos desse “significado” é o que chamamos de relação causa-efeito: “Isto acontece por causa daquilo, e vai por sua vez ser causa daquilo-outro”. Ou então: vemos meia dúzia de objetos ou elementos soltos, isolados, e precisamos produzir um conceito capaz de uni-los todos, alguma coisa que todos eles têm em comum. E assim por diante. 
 
As famosas “teorias da conspiração”, tão em moda nas redes sociais, não são uma coisa nova na história do mundo. São um segmento de uma tendência maior, a de observar fenômenos inexplicáveis (ou ainda não explicados satisfatoriamente) e conceber uma teoria onde todos eles se encaixem. 
 
Curiosamente, é exatamente isto que um paranóico faz: inventar explicações fantasiosas para fatos banais. Mesmo fantasiosas são impecavelmente lógicas e bem argumentadas. Um paranóico tira da cartola uma teoria impecável demonstrando que está sendo perseguido pela KGB e pela Sociedade Internacional dos Observadores de Pássaros, cujo objetivo conjunto é impedir que ele assuma o trono da Turquia, do qual é o legítimo herdeiro. 
 
As sociedades – ou pelo menos faixas enormes das populações – procedem do mesmo jeito. Percebem fatos isolados e tentam explicá-los através de uma “teoria unificada”. Reduzir o desconhecido ao conhecido. Por mais sem pé nem cabeça que esse “conhecido” possa ser. 
 
E é aí que entram muitas dessas Teorias da Conspiração. As explicações são bizarras? Sim, mas são articuladas com aparente lógica. Vale tudo – menos o Absurdo do não haver explicação. 
 
Andei lendo em revistas já meio antigas umas resenhas do livro The Man From Mars: Ray Palmer’s Amazing Pulp Journey (Penguin, 2013), de Fred Nadis. 



 
Raymond A. Palmer, cujo nome só é lembrado hoje por leitores de ficção científica, é um dos responsáveis pela mentalidade teórico-conspiratória que hoje fervilha nas redes sociais. Foi ele um dos deflagradores principais, de dois cultos que marcaram a segunda metade do século 20: a lenda dos discos voadores e a lenda da Lemúria. 
 
Ray Palmer (1910-1977) foi uma daquelas figuras excêntricas que floresceram na estufa caótica da pulp fiction norte-americana. Foi um garoto doente, confinado à cama e à leitura voraz de revistas populares. Um acidente de carro ainda na infância danificou sua coluna vertebral e afetou sua saúde pelo resto da vida. Palmer, adulto, nunca cresceu acima de 1 metro e 20. Isto não o impediu de ser extrovertido, falastrão, ousado, contestador. 



(Ray Palmer)

 
Era o típíco fã de FC da sua época, publicando histórias e cartas nas revistas, até que foi contratado para editar a revista-fundadora do gênero, Amazing Stories, que andava mal das pernas sob a direção meio sisuda de T. O’Connor Sloane. A circulação da revista tinha caído de 100 mil em 1926 para 40 mil em 1938. 
 
Diz Richard A. Lupoff (Locus 629, junho 2013, p. 23): 
 
Sob a orientação de Palmer e com o apoio da editora Ziff-Davis, Amazing Stories experimentou uma completa renovação, tornando-se uma revista mais colorida e pitoresca. Palmer deixou para trás o tom mais formal e professoral da revista e adotou uma postura mais coloquial e descontraída. Os leitores aceitaram de imediato. Ele substituiu as histórias mais lentas e carregadas de ciência, que eram as preferidas do ex-editor Sloane, por histórias mais excitantes, baseadas em ação e aventura. (trad. BT) 
 
O objetivo de Palmer era, por um lado, atingir um público de adolescentes para quem a principal revista concorrente, Astounding Science Fiction, era demasiado séria. Mesmo assim, coube a Palmer publicar o conto de estréia de Isaac Asimov (“Marooned off Vesta”, março de 1939). 
 
E nessa euforia editorial cai nas mãos de Palmer um conto excêntrico de um desconhecido, Richard Shaver, sobre uma civilização subterrânea que influencia a mente humana através de raios projetados à distância. Palmer viu o potencial da história e a publicou no número de março de 1945, sob o título “I Remember Lemuria”. 



 
A revista saltou para 200 mil exemplares por mês; Palmer percebeu o filão inesgotável que havia ali, e passou a publicar um material cada vez mais  voltado para o cultismo e o ocultismo, afastando-se da ficção científica. 
 
Nesta mesma época, ele embarcou na onda de ufologia que teve início em junho de 1947, quando o aviador Kenneth Arnold avistou uma formação de nove objetos voadores, quando sobrevoava a região do Mount Rainier. Os dois tornaram-se amigos, e a revista Fate, que Palmer fundou em 1948, deu um enorme impulso à onda dos “discos voadores” que tomou conta da América. Outras revistas e livros se seguiram, sempre explorando o filão da mistura entre FC e ocultismo. 



 
O shaverismo e os discos voadores são sintomas típicos da Guerra Fria: “estamos sendo ameaçados por inimigos malignos que nos influenciam à distância e que mandam naves misteriosas para nos espionar e nos sequestrar”. O elemento novo que aparece nesse fenômeno é essa relativa promiscuidade entre a literatura de ficção e as invenções deliberadas da imprensa sensacionalista. 
 
Ficção Científica e Ufologia são duas áreas próximas, mas existe uma certa frcção entre as duas, uma certa tensão. Cada uma, curiosamente, sente-se ofendida quando é confundida ou comparada com a outra. 
 
Para o pessoal da ficção científica, a FC é uma literatura como qualquer outra. Uma literatura baseada na imaginação, mas onde existe um acordo tácito, entre autor e leitor, de que nada daquilo é verdade factual. E para muita gente da FC, os ufologistas são pessoas ingênuas: leem narrativas bizarras, mirabolantes, e acreditam que são verdadeiras. 
 
Para o pessoal da Ufologia, a FC é uma atividade irrelevante justamente por ser assumidamente imaginária; são histórias que não aconteceram e por isso de nada interessam, enquanto que a Ufologia investiga fatos reais, coisas que têm importância. 
 
Raymond Palmer teve um papel importante nesse processo de misturar as águas da ficção e do jornalismo; da história de ficção e da pseudo reportagem. Com isto, ele turbinou ainda mais essa tendência humana a perceber coisas bizarras e extraordinárias que não estão ali. Dizem que a beleza está no olho de quem observa (“beauty is in the eye of the beholder”), mas não é só a beleza, é qualquer coisa que mexa, perturbe, inquiete, fascine, atraia a atenção e desperte associações de idéias que o próprio observador não sabe direito de onde vêm. 



 
Em O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995), Carl Sagan dizia, a respeito da febre de avistamentos de discos voadores: 
 
A maioria das pessoas informava honestamente o que via, mas o que elas viam eram fenômenos naturais, ainda que pouco familiares. Algumas visões de UFO eram na verdade aviões pouco convencionais, aviões convencionais com padrões de iluminação inusitados, balões de alta altitude, insetos luminescentes, planetas vistos em condições atmosféricas incomuns, miragens e aparições ópticas, nuvens lenticulares, fogos de santelmo, parélios, meteoros incluindo bolas de fogo verdes, satélites, ogivas e lançadores de foguetes reenctrando espetacularmente na atmosfera. 
(Companhia das Letras, p. 92, trad. Rosaura Eichenberg) 
 
Quando uma pessoa avista imagens extraordinárias e tenta dar-lhes uma explicação, há duas atitudes científicas possíveis. A primeira é tentar averiguar o que de fato foi visto, independentemente da interpretação do observador. A segunda é ignorar provisoriamente o que foi (ou pode ter sido) avistado e perguntar por que motivo o observador lhe deu aquela explicação, e não outra. 
 
C. G. Jung foi um dos cientistas sérios que se dedicou a entender o que a mente das pessoas e não os seus olhos) estava vendo. Ele dava sempre um descontos nos relatos recolhidos, e fazia esta divertida ressalva: 
 
O que é pior: a maioria destes relatos vem da América, a terra dos superlativos e da ficção científica. (...) Vistos sob essa luz, os avistamentos de Ovnis podem parecer a um observador cético uma história que é contada por todo o mundo, mas difere de um boato comum pelo fato de que é expressa em forma de visões, ou talvez deva sua existência a elas, e agora é mantida viva por elas. Eu chamaria a essa variação, comparativamente rara, um boato visionário. Algo bastante próximo das visões coletivas como, digamos, dos cruzados durante o cerco de Jerusalém, das tropas de Mons na Primeira Guerra Mundial, ou dos fiéis devotos do Papa em Fátima, Portugal. (...) O boato está ligado à psicologia do grande pânico que se alastrou nos Estados Unidos pouco antes da Segunda Guerra Mundial, quando uma transmissão de rádio baseada no romance de H. G. Wells, sobre marcianos invadindo Nova York, causou uma fuga generalizada e numerosos acidentes de carro. Esta transmissão, evidentemente, tocou a emoção latente em conexão com a iminência da guerra. 
(Flying Saucers: a Modern Myth of Things Seen in the Skies, Princeton University Press, 1991, trad. BT)
 
O ser humano aceita e suporta a idéia de qualquer catástrofe ou qualquer conspiração maligna, porque uma catástrofe ou uma conspiração fazem sentido. O que ele não aceita nem suporta é a falta de uma explicação qualquer – é o Absurdo. 
 
 




terça-feira, 3 de maio de 2022

4819) Primeiras Estórias: Um Moço Muito Branco (3.5.2022)




Este texto (em Primeiras Estórias, 1962) é conhecido como “o conto de ficção científica de Guimarães Rosa”. E é de fato um conto de “visita de alienígena” para ninguém botar defeito.
 
O enredo: na década de 1870, depois de uma tempestade cheia de visagens e clarões, aparece num povoado do interior de Minas um rapaz muito alvo, sem roupas, aparentando estar desmemoriado, e incapaz de falar a língua local. É amparado e recolhido por uma família, e começam as especulações sobre quem seria ele, de onde vinha, etc. Uma noite, ele pede ajuda a um negro velho das redondezas, acende uma série de fogueiras numa elevação, e faz descer do céu um aparelho luminoso, que o leva consigo para sempre.


 
Com algumas adaptações poderia ser um esboço de sinopse para um filme como o E.T. de Steven Spielberg.
 
Já escrevi mais longamente sobre este conto num dos capítulos do meu livrinho A Pulp Fiction de Guimarães Rosa (João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008).
https://marcadefantasia.com/livros/veredas/pulpfiction/pulpfiction-a.htm
 
Esse capítulo foi traduzido para o inglês por Elizabeth M. Ginway e incluído na coletânea Latin American Science Fiction – Theory and Practice (New York: Palgrave Macmillan, 2012), editada por Elizabeth M. Ginway e J. Andrew Brown.


O conto foi publicado pela primeira vez em 29 de julho de 1961, em O Globo, onde Guimarães Rosa colaborava periodicamente. Muitos textos publicados no jornal foram aproveitados em Primeiras Estórias (1962). Outras colaborações desse período foram aproveitadas em Tutaméia (1967), que usou também material surgiu da coluna mantida por Rosa em Pulso, um jornal de médicos mantido pelo Laboratório de Sidney Ross, no Rio de Janeiro.


“Um Moço Muito Branco” é o que poderíamos chamar de “conto de disco voador”, um tema tão em voga na época, quando todo mundo estava de olho nas viagens espaciais – o primeiro voo orbital de Yuri Gagárin foi em abril de 1961. A década anterior foi talvez o auge do “filme de disco voador”, em obras como O Dia Em Que a Terra Parou (“The Day the Earth Stood Still”, 1951) ou A Invasão dos Discos Voadores (“Earth vs. Flying Saucers”, 1956).
 
Espaçonaves humanas partindo rumo à Lua ou a Marte se misturavam no imaginário popular, através da imprensa e do cinema, com espaçonaves extra-terrestres que nos estudavam à distância ou se preparavam para nos invadir.
 
A pulp fiction da época (que já havia migrado das revistinhas populares para os livros de bolso) não ficava atrás.
 

(S.O.S. Soucoupes, 1954, de B. R. Bruss, pseudônimo de René Bonnefoy)


Nessa época, lá em casa já havia a tradução brasileira do best-seller de George Adamski, Discos Voadores – a História de suas Aparições – Seu Enigma e sua Explicação (Ed. Globo, 1957), bem como o ilustradíssimo Discos Voadores (Ed. Melhoramentos, 1959) de J. Escobar Faria.





O disco voador é uma das imagens mais fortes do imaginário dos últimos cem anos, e digo isto porque ela precede em muito o famoso “primeiro avistamento” feito por Kenneth Arnold em 1947. É um fenômeno de tal dimensão que o próprio Carl G. Jung dedicou-lhe um livro inteiro, vendo ali um reflexo luminoso e elusivo de conteúdos do nosso inconsciente coletivo.
 
Quem duvidar, confira aqui mais de mil capas de revistas onde essa imagem aparece:
 
https://ufopop.org/ufopop_mags.php
 
E quanto ao conto de Rosa?
 
Num contexto desta natureza, não é de admirar que ele aderisse pelo menos uma vez ao tema, usando-o com aquele tom que lhe era próprio, uma mistura de criança séria e adulto brincalhão, erguendo alto a pipa da fantasia e puxando a linha de volta com os pés plantados no passado barroco de Minas Gerais. (O conto alude à atual cidade do Serro, antes conhecida como “Serro Frio”.)

Na noite de 11 de novembro de 1872, na comarca do Serro Frio, em Minas Gerais, deram-se fatos de pavoroso suceder, referidos nas folhas da época e exarados nas Efemérides. (p. 99)
 
Começa assim o conto, e prossegue com o aparecimento do rapaz, que traz uma comoção duradoura àquele lugarejo onde não acontece nada. A simples presença do rapaz produz reações emocionais exaltadas em muita gente, e ele se comporta como alguém amnésico e incapaz de falar o idioma local.
 
Há uma estranheza permanente em torno dele, embora ninguém demonstre hostilidade. O fato de ter descido do céu é atestado por um preto velho local, José Kakende, meio aluado, testemunha do que aconteceu na noite de sua chegada. No meio da tempestade, Kakende avistou no céu
 
uma artimanha amarelo-escura, avoante trem, chato e redondo, com redoma de vidro sobreposta, azulosa, e que, pousando, de dentro, desceram os Arcanjos, mediante rodas, labaredas e rumores. (p. 101)



E é a Kakende que o rapaz recorre no desfecho da estória, para ajudá-lo a acender fogueiras numa elevação, numa noite escura, e assim atrair uma outro geringonça que desce dos céus e leva o rapaz embora.
 
José Kakende contava somente que o ajudara a acender, de secreto, com formato, nove fogueiras; e, mais, o Kakende soubesse apenas repetir aquelas suas velhas e divagadas visões – de nuvem, chamas, ruídos, redondos, rodas, geringonça e entes.  Com a primeira luz do sol, o moço se fora, tidas asas. (p. 104)

As descrições feitas por Kakende nos lembram, além das histórias de discos voadores propriamente ditos, as visões do profeta Ezequiel na Bíblia (a partir do Capítulo 1),visões que numerosos ufólogos citam como indício de que prodígios emelhantes vêm sendo avistados desde a Antiguidade. 
 

EZEQUIEL 1

(...)
Olhei e vi uma tempestade que vinha do norte: uma nuvem imensa, com relâmpagos e faíscas, cercada por uma luz brilhante. O centro do fogo parecia metal reluzente,
e no meio do fogo havia quatro vultos que pareciam seres viventes. Na aparência tinham forma de ho­mem,
mas cada um deles tinha quatro rostos e quatro asas.
Suas pernas eram retas; seus pés eram como os de um bezerro e reluziam como bronze polido.
De­baixo de suas asas, nos quatro lados, eles tinham mãos humanas. Os quatro tinham rostos e asas,
e as suas asas encostavam umas nas outras. Quando se moviam, andavam para a frente e não se viravam. (...)
15 Enquanto eu olhava para eles, vi uma roda ao lado de cada um deles, diante dos seus quatro rostos.
16 Esta era a aparência das rodas e a sua estrutura: reluziam como o berilo; as quatro tinham aparência semelhante. Cada roda parecia estar entrosada na outra.
17 Quan­do se moviam, seguiam nas quatro direções dos quatro rostos e não se viravam enquanto iam.
18 Seus aros eram altos e impressionantes e estavam cheios de olhos ao redor.
19 Quando os seres viventes se moviam, as rodas ao seu lado se moviam; quando se elevavam do chão, as rodas também se elevavam.
20 Para onde quer que o Espírito fosse, os seres viventes iam, e as rodas os seguiam, porque o mesmo Espírito estava nelas.

 https://www.bibliaon.com/ezequiel_1/

 
Guimarães Rosa faz neste conto uma infusão de memória bíblica, tradição oral e documentação obscura, e com isso propõe uma pequena alegoria mística em que falta pouco para dizer que o moço muito branco é um anjo sem asas, como os de Wim Wenders em Asas do Desejo, tornado material e visível por um acidente-de-percurso qualquer.
 
É um conto com medula religiosa e mineira, mas contaminado pelo imaginário cósmico-espacial do momento em que foi composto. Comentei com mais detalhes este aspecto, ao falar sobre outro conto de Primeiras Estórias com influência da ficção científica e dos voos espaciais:
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/10/4632-primeiras-estorias-terceira-margem.html
 








 









sábado, 5 de setembro de 2015

3912) 7 Ovnis (6.9.2015)




Heng Sin-Yu, 33 anos, Macau, estava trabalhando à noite no seu apartamento e foi à janela fumar um cigarro quando viu cruzando o céu um ponto de luz vermelha que deixava atrás de si um rastro de fagulhas amareladas, e a única coisa que lhe veio à mente foi que alguém no firmamento estava fumando também.

Terzio Pastore, 61 anos, Ravena, passou mais de dez anos frequentando uma colina próxima à fazenda onde vivia, colina esta que se dizia ser frequentada por extraterrestres, e a única coisa estranha que viu em todo esse tempo foi uma gigantesca forma metálica quadrada, maior que a colina, elevando-se ao céu por trás dela, mas como não correspondia à forma de um disco ele decidiu não levar em consideração, e nada publicou.

Camille Nguyen, 62 anos, Pnom Penh, descreveu à imprensa local o artefato que pousou no arrozal perto de sua casa como “uma fila de contêiners de navio enganchados como uma correntinha de clipes e girando em volta de um globo-da-morte com mais de mil motocicletas dentro e uma abertura por onde saíam nuvens com asas e patas”, e a imprensa agradeceu e foi embora.

Paulo César Tostes, 41 anos, Natal, vinha dirigindo à noite pela estrada que leva a Mossoró quando viu uma banda inteira do céu se esverdear, e erguer-se ali uma semi-esfera verde-limão que ficou suspensa no ar e depois voltou a descer, escondendo-se atrás do horizonte. Nessa mesma noite ele deixou de beber.

Laura Rimanelli, 38 anos, Firenze, viu de madrugada uma estrela muito branca no céu, imóvel, tão imóvel que horas depois o céu inteiro tinha girado e ela continuava ali, como se estivesse vigiando, fotografando algo, e como Laura vestia apenas uma camisolinha bem fininha e transparente achou melhor recolher-se para longe da curiosidade erótica dos marcianos, portanto voltou ao quarto e acordou o marido para os folguedos noturnos.

Baldomiro de Sousa Dias, 55 anos, Campina Grande, estava certa noite olhando as águas do Açude Velho da janela do seu 15O andar quando viu uma formação em forma de V com mais de vinte naves passando silenciosamente, piscando em cores variadas, mas quando ergueu os olhos para o céu não viu nada, o que o fez pensar no conceito de “objetos submarinos não identificados”.

Sarah Rosten, 22 anos, Roterdam, estava comprando um sorvete no parque quando avistou um brilho avermelhado no céu azul, de onde desceu um facho de luz que a abduziu, levou-a para o planeta Zadykstra, onde ela se tornou embaixatriz da Terra, casou com o príncipe herdeiro, governou num palácio de cristal e ônix, morreu aos 97 anos aclamada pelos descamisados locais, recebeu o troco e o sorvete e voltou para casa pensativa.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

0764) A maldição de Philip Klass (30.8.2005)



Faleceu nos EUA o jornalista Philip Klass (não deve ser confundido com o escritor Philip Klass, autor de obras de ficção científica sob o pseudônimo de William Tenn), que dedicou sua vida a questionar os ufologistas. Ele morreu aos 85 anos e era uma figura conhecida nos EUA, o tipo do cético que “bota terra” em todas as argumentações dos crédulos. Embora fosse impiedoso com as idéias, Klass era generoso com as pessoas. Costumava dizer que 90% das pessoas que avistavam OVNIs eram pessoas honestas e inteligentes que tinham visto algo que não sabia explicar (por serem leigas) e acabavam embarcando nas lendas sobre discos voadores e extraterrestres.

Klass foi o autor de um texto (muito divulgado) conhecido como “A Maldição”, onde diz: “A todos os ufólogos que me criticam em público, ou que pensam coisas ruins sobre mim em particular, eu deixo aqui consignada a Maldição dos OVNIS: Não importa quantos anos vocês vivam, vocês nunca chegarão a saber mais sobre OVNIs do que aquilo que sabem hoje. Nunca saberão, mais do que sabem hoje, sobre o que os OVNIs são ou de onde eles vêm. Nunca saberão nada, que não já saibam hoje, a respeito do que o Governo sabe sobre os OVNIs. No momento em que vocês estiverem deitados em seus leitos de morte, saberão sobre os OVNIs exatamente o mesmo que sabem agora; e lembrarão desta maldição”.

Parece uma coisa meio pesada, baixo-astral? Que nada, eu ouço essas palavras num tom brincalhão e zombeteiro. Dizer que nunca se virá a saber mais do que se sabe hoje é dizer que não há o que saber, não há o que descobrir, que tudo não passa de uma ilusão coletiva, uma lenda urbana. É claro que bastaria uma única prova irrefutável para invalidar a provocação de Klass, mas aqui pra nós, se em mais de 50 anos essa prova não apareceu, algo me diz que ela está mais longe do que perto.

Visionários sempre poderão relatar que foram abduzidos e levados para Marte ou para o planeta Vulcano; como não podem provar o que afirmam, é o mesmo que dizerem ter ido parar no Inferno de Dante ou no Reino do Vai-Não-Torna. Klass certamente se dirige àqueles ufólogos sinceros e de espírito científico que crêem na existência de uma verdade por trás daquilo tudo. Já conversei, durante o Encontro Para a Nova Consciência, com um ufólogo que pesquisa OVNIs há mais de quinze anos. “Já visse algum?”, perguntei. E ele: “Vi uma meia-dúzia de coisas que não sei explicar, mas não posso sair por aí dizendo que eram naves extra-terrestres. Era apenas uma coisa passando no céu e que eu não sabia o que era, ou seja: era um Objeto Voador Não-Identificado”. Pense num sujeito honesto! Mas ao mesmo tempo ele tinha uma certeza emocional de que existe algo de verdade por trás de toda esta história. Para mim, estes são os personagens verdadeiramente trágicos da Ufologia: os que são arrastados numa direção pela fé, e noutra pelo espírito científico. Para eles, a Maldição de Klass é fonte perpétua de insônia.

segunda-feira, 17 de março de 2008

0272) A sombra sonora de um disco voador (3.2.2004)




Anos atrás, o Diário da Borborema publicou uma matéria sensacional. Um disco voador tinha sido avistado no Distrito Industrial de Campina. Mais do que avistado, tinha sido clicado pelo fotógrafo Machado Bittencourt, que estava voltando de um trabalho qualquer e tinha à mão a câmara pronta para registrar a passagem da espaçonave alienígena. Fotos na primeira página, sensação, os programas de rádio não falavam noutra coisa, e o jornal vendendo mais do que o cordel da morte de Lampião (esse falatório é justamente a gigantesca “sombra sonora” projetada pelos OVNIs). As fotos mostravam com enorme nitidez a espaçonave, no tradicional formato discóide revelado nos EUA pelas fotos famosas de George Adamski.

No dia seguinte, caiu outra bomba. Era mentira! Tudo tinha sido um golpe armado por Machado, para mostrar o quanto era fácil forjar esses troços. O disco não passava de uma calota de automóvel, e as fotos publicadas no dia seguinte mostravam, se bem me lembro, um molecote atirando a calota ao ar enquanto Machado apontava a câmera. O cineasta quase foi escorraçado de Campina pelos acreditantes do dia anterior.

Machado, de quem nunca fui um amigo muito próximo mas que recordo com saudade, estava prestando um serviço muito importante no mundo de hoje, um mundo que se baseia muito em recursos tecnológicos e efeitos especiais. Estava mostrando como é fácil, e como está ao alcance de qualquer um, produzir registros falsos que dão uma enorme impressão de realidade. O mundo de hoje está cheio de São-Tomés ingênuos, que bradam: “É verdade! Existe, sim! Eu vi com meus próprios olhos!” Lamento dizer que tudo isto está errado. O disco-voador do Distrito Industrial não era verdade; não existia; e os que o viram não o fizeram com seus próprios olhos, mas com o olho da câmara de um fotógrafo competente e dotado de um senso de humor irreverente e sardônico.

Desconfiem, amigos. Desconfiem do “manuscrito autêntico do século 16”, que qualquer restaurador da Biblioteca Nacional poderá lhes explicar como se falsifica (papel, tinta, lacre; até as bactérias da época podem ser conseguidas). Desconfiem das aparições sobrenaturais “testemunhadas e documentadas” por pessoas idôneas: as pessoas podem ser idôneas, mas em geral são meio burras, e nunca conversaram com um ilusionista profissional. Desconfiem dos paranormais que entortam utensílios ou materializam objetos: qualquer curso de mágica por correspondência pode transformar num Uri Geller eu, você ou seu tio aposentado que vive em busca de algo para preencher o tempo livre.

Fotos espetaculares de discos voadores foram criadas por Tom Callen, astrônomo do Museu de História Natural de Estocolmo, usando “uma câmara, alguns modelos, um computador, e um software de efeitos gráficos”. Os resultados (e as dicas técnicas) podem ser vistos em: http://www.csicop.org/si/2003-09/faking-ufo-photos.html. (Eita, agora que dei a dica a Paraíba vai virar espaçoporto.)

sexta-feira, 7 de março de 2008

0055) O cético (25.5.2003)



Houve uma época em que eu circulava numa turma de amigos que liam muito sobre Magia Ritual, Ocultismo, Paranormalidade, esse tipo de coisas. Cada um tinha seus pontos de vista a respeito. Um de nós, descrevendo dois outros participantes do grupo, usou esta expressão: “Fulano acredita, mas não vê. Sicrano vê mas não acredita.” 

 Não conheço fórmula melhor para descrever os dois tipos de céticos. 

O cético não é apenas um cara teimoso, que se recusa a acreditar, que tapa os olhos e os ouvidos e fica cantarolando “lá-lá-lá-lá-lá” para não cair em tentação. 

O cético é simplesmente um sujeito exigente. Ele não se deixa levar pela primeira conversa, nem mesmo quando a conversa é a dele próprio.

O cético mais famoso é São Tomé, que, ouvindo o relato dos demais sobre a ressurreição de Cristo, duvidou dela. O episódio está no Evangelho de São João (os outros Evangelhos referem a incredulidade dos discípulos, mas não citam nomes). 

Ao pedir para conferir os ferimentos no corpo de Cristo, Tomé é admoestado: “Tu creste, Tomé, porque me viste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” Este pequeno episódio foi muitas vezes usado por materialistas e ateus para mostrar que a religião adora afirmar sem provas, convencer sem argumentos, dizer sem confirmação. 

Eu mesmo escrevi um poeminha: 

Ninguém me embroma. 
Eu sou como São Tomé. 
Meto o dedo no hematoma 
pra que ninguém me tome 
pelo que é.

Quando eu vejo uma luz passar no céu, eu não penso que é uma espaçonave alienígena, não penso nem sequer que é um “objeto voador não-identificado”. Como vou saber se aquilo é um objeto ou não? Por mim, é apenas uma luminosidade. 

Mas tem gente que basta ver um brilhozinho passando pra dizer logo: 

-- Tá vendo? Olhe aí a prova! São visitantes extra-galácticos! Eles estão observando nosso planeta há séculos, mas não se aproximam porque nós temos bombas atômicas! 

Se eu estiver passando na rua e vir um disco-voador pousar, e uma porção de extra-terrestres saírem de dentro dele, a primeira explicação que vai me ocorrer é que fiquei doido. Me parece muito mais provável.

Nem todo mundo que acredita vê. Perguntei uma vez a um ufólogo se ele já tinha visto um OVNI em seus vinte anos de estudos. “Não,” confessou ele, “toda vez que vejo alguma coisa acabo percebendo que tinha outra explicação, bem simples.” 

Pense num cara honesto! É o contrário de um monte de gente que tem por aí, que diz que foi abduzido, andou “por outras galáxias”... esse pessoal acha que andar por outros planetas é pouco, tem que ser “por outras galáxias”. 

Parece essas pessoas que se convertem ao cristianismo e meses depois já estão falando com Jesus, conversando com os anjos e montando no cavalo de São Jorge.

Um cético não duvida apenas dos outros, duvida de si próprio. O cético é um cara a quem alguém mostra o Everest, e ele diz: “Só acredito que isso é uma montanha se eu conseguir chegar lá em cima.”