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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

4549) Minhas canções: "O Valor do Nordestino" (12.2.2020)



Durante alguns anos da década de 1970, trabalhei na organização do Congresso Nacional de Violeiros, de Campina Grande. Alguém me perguntou uma vez quanto eu ganhava. Resposta: não ganhava nada, era feliz. Tinha um bom pretexto para passar dias, noites e madrugadas conversando sem parar com cantadores de viola. Com o que aprendi nesses anos formei uma poupança de onde faço saques diários até hoje, e que está longe de se esgotar.

Uma das minhas atribuições era fazer parte da Comissão de Seleção – a comissão que escolhe os assuntos e os motes que serão sorteados no palco, em cima da hora, para que os cantadores improvisem. Todo ano eu me auto-nomeava para essa comissão, e era aprovado pelos verdadeiros organizadores do Congresso, os membros da ARPN (Associação de Repentistas e Poetas Nordestinos): José Gonçalves, Ivanildo Vila Nova, José Laurentino, Santino Luiz, Moacir Laurentino, Juvenal de Oliveira...



Um mote que forneci num desses Congresso deu o que falar:

Se não fosse o valor do nordestino,
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Os repentistas reclamaram que o mote era “ruim de rima”, porque só admitia poucas palavras: escarcéu, troféu, xaréu, mundéu... Eu argumentei que tinha mil outras: cordel, anel, coronel, Babel, mel, fel... E ninguém aceitava. A rima tinha que ser exata. Argumentei que o som era o mesmo, e que rima-se pelo som, não pela grafia. Mas o Colosso da Tradição não arredava pé. Cantador gosta de dificuldade!

(É por isso que quando uma vez recitei Morte e Vida Severina, de João Cabral, para alguns deles, ouvi o comentário: “É, a linguagem é bonita, a crítica social também, mas ele rima qualquer-coisa com qualquer-coisa...”)

Algum tempo depois, lembrei-me que não sou cantador, sou, como João Cabral, um mero beneficiário indireto do que eles produzem; e compus uma série de glosas ao meu próprio mote, cantadas em variações da melodia do martelo agalopado.

Quando fui morar em Salvador em 1977, iniciei uma parceria musical com Zelito Miranda, quando ambos fazíamos parte do Teatro Livre da Bahia, sob a direção de João Augusto, em encenações memoráveis como Oxente Gente, Cordel (1978).

Hoje em dia Zelito incendeia multidões com seu “forró temperado”, e ainda canta várias músicas desse tempo, de quando participávamos juntos das famosas “coletivas musicais” de uma época em que, vejam só, a grande queixa dos músicos baianos é que não tocava música baiana nas rádios de Salvador, a não ser os discos dos tropicalistas e dos Novos Baianos.

“O Valor do Nordestino” era um desses trabalhos em martelo agalopado que eu e ele cantávamos juntos, alternando os versos, no Restaurante Universitário, no Teatro Castro Alves, no Teatro Vila Velha, nos palcos improvisados da Ufba e nas Residências Universitárias de que Salvador era cheia.

No espetáculo Oxente Gente, Cordel esta canção era um dos números musicais da nossa dupla, “O Galo de Campina” e “Zé Miranda de Serrinha”.

Fizemos um sem-número de parcerias que nunca foram gravadas, mas esta aqui ficou parcialmente registrada por Zelito num DVD:


Abaixo, a letra original completa, que acabei publicando no folheto (hoje uma raridade!) que acompanhava a peça do Teatro Livre.




Quem vê tanta avenida e edifício,
construção, catedral e viaduto,
muitas vezes nem pensa no matuto
que lutou com suor e sacrifício,
exercendo a dureza de um ofício
sem pensar em medalha nem troféu,
confiando que alguém de lá do céu
compensasse o rigor do seu destino:
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Operário da construção civil
em São Paulo ou no Rio de Janeiro
dá um duro danado o mês inteiro
e o que ganha não chega a ser 3 mil.
Vem de lá do Nordeste do Brasil
faz igreja, faz ponte, faz motel,
faz a vila onde mora o crioléu
e faz casa de luxo pra granfino:
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Quando vem lá do norte ele não passa
de mais um joão-ninguém desempregado
e com tudo que vê fica espantado:
com a pressa, o barulho e a fumaça.
Vai dormir sobre o banco de uma praça
sem emprego, a vagar de déu em déu,
se cobrindo com as folhas de papel
de um jornal semanário ou matutino...
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

A cidade possui um ar cinzento
que irrita a garganta e o pulmão
e no meio da tal poluição
se eleva a floresta de cimento:
espigão de escritório e apartamento
tem a torto e a direito, e a granel,
e quem faz esas torres-de-Babel
é o nortista migrante e peregrino:
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Ele fez pavilhões no Anhembi
fez Congonhas e Ibirapuera,
Interlagos e a Via Anhanguera,
o hotel Hilton, o Othon, o Normandie;
ele fez os degraus do Morumbi
onde a massa alvinegra da Fiel
nos domingos faz festa e escarcéu
grita gol, solta bomba e canta hino...
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Quando vem lá do norte ele não traz
nem bagagem, nem roupa, nem dinheiro,
traz somente a herança de vaqueiro:
duas mãos, a coragem, nada mais...
E constrói avenidas e canais,
constrói posto pra Esso e para a Shell,
constrói torre e antena da Embratel
e constrói a boate e o cassino.
Se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Nordestino em São Paulo ou Guanabara
é tratado dum jeito diferente
porque lá no Nordeste toda a gente
tem respeito a seu nome e sua cara.
Mas no Sul é chamado “pau de arara”,
“paraíba”, “baiano” ou “tabaréu”:
quando fala com gente de anel
só lhe tratam por “zé” ou “severino”...
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Nordestino no Sul é cidadão
que não vale uma prata de dez réis:
quase sempre nem pode pôr os pés
nesse prédio que fez com a própria mão.
Vez por outra ele cai da construção
e o destino se torna mais cruel:
fica morto, a família fica ao léu,
e ninguém diz o nome do assassino...
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

A tarefa que exerce é muito dura,
muito mais que a do próprio arquiteto:
faz coluna, parede, piso e teto,
e o cimento com a pedra ele mistura;
faz com viga e concreto a estrutura,
faz o forro, o lambril, põe o painel;
quando acaba a pintura com um pincel
chega um rico, e se torna o inquilino...
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

Houve um tempo em que o homem do sertão
quando estava faminto e injustiçado
tinha um rifle, um facão bem amolado,
e virava Corisco ou Lampião.
Hoje em dia ele vai num caminhão,
chega lá, constrói ponte e faz hotel;
mas vai lendo um folheto de cordel
que é pra não se esquecer de Virgolino...
se não fosse o valor do nordestino
em São Paulo não tinha arranha-céu.

·         Alguns detalhes nessa letra, que ainda sei de cor quase por inteiro, são bem “de época”. Nomes de hotéis e logradouros, por exemplo, eu tirei dos jornais – quando escrevi estes versos eu não conhecia São Paulo, onde só desembarquei justamente para a encenação da peça onde eles eram cantados.

·         Um conselho aos jovens: saibam que toda vez que vocês mencionarem cifras monetárias numa letra (“e o que ganha não chega a ser 3 mil”) o teor desse verso vai oscilar dramaticamente ao longo das décadas, de acordo com a inflação. Em 1977 (consultei agora) o salário mínimo era de Cr$ 1.106,40 cruzeiros, e a primeira versão da letra referia-se a “2 mil”. Era um dos versos mais chatos de cantar, porque cinco anos depois o mínimo já estava em torno de 23 mil.

·         “Crioléu” parece uma rima forçada, mas na época era uma palavra posta em circulação por Henfil, no Pasquim. A editora Codecri, que o Pasquim manteve durante anos, ganhou seu nome de um hipotético “Comitê de Defesa do Crioléu”, inventado nas tirinhas do irmão de Betinho.

·         Se cobrindo com as folhas de papel de um jornal semanário ou matutino...” – qualquer fã de Jackson do Pandeiro reconhece aí uma alusão clara à canção “Meu Enxoval” (“com quatro mil réis eu compro o enxoval: Diário da Noite e a Última Hora”).

·         “A herança de vaqueiro: duas mãos, a coragem, nada mais”. Não foi intencional, mas ainda acho este verso um comentário inconsciente ao de Carlos Drummond (“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”). 

·         “Vez por outra ele cai da construção”: ecos inevitáveis de Chico Buarque (“Construção”, 1971) e do filme de Ruy Guerra (A Queda, 1978).

·         “Quase sempre nem pode pôr os pés / nesse prédio que fez com a própria mão.” Referência também inevitável a outro grande sucesso da época, a canção “Cidadão”, de Zé Geraldo: “Tá vendo aquele edifício, moço, ajudei a levantar...”











segunda-feira, 8 de agosto de 2016

4144) Eu me lembro 9 - Bahia (8.8.2016)




(pátio do ICBA)

Eu me lembro de um dia, no Corredor da Vitória, em que dois carros se cruzaram, indo em direções opostas, e os motoristas pararam para conversar durante um minuto, enquanto as duas filas de carros esperavam atrás deles, sem dar uma buzinada sequer.

Eu me lembro das batidas de fruta do Diolino, no Rio Vermelho.

Eu me lembro de um histórico comício pela redemocratização com Ulysses Guimarães, no Terreiro de Jesus, com a PM dando prensa.

Eu me lembro de uma noite estar tomando cerveja com uma turma e alguém vir nos chamar para assistir “o enterro da cabeça de Corisco”.

Eu me lembro de ir ver um show de Moraes Moreira e a abertura do show era com um tal de Djavan, que eu nunca tinha ouvido falar, mas quando começou eu reconheci umas dez canções que eu não sabia de quem eram.

Eu me lembro de estar várias vezes no Canela ao anoitecer, com sacolas de supermercado, e o ônibus do Engenho Velho de Federação passar com gente pendurada na porta e mesmo assim eu conseguir entrar.

Eu me lembro do angu incubado que eu ia comer toda semana na Cantina da Lua.

Eu me lembro de quando começou pela primeira vez a tocar reggae com-força nas festas do Restaurante Universitário e da Escola de Teatro.

Eu me lembro de um campinho de pelada que tinha no caminho da Rodoviária e que tinha um enorme toco de árvore bem no meio.

Eu me lembro da feijoada na casa de Maria Edna, feita com feijão mulatinho e uns temperos preternaturais, e que eu já comia chorando de saudade.

Eu me lembro das temporadas do “Oxente gente, cordel” no Vila Velha, quando a gente ficava se aprontando no camarim e perguntando o tempo todo à bilheteria se já tinha vendido mais ingressos do que o número de atores da peça (éramos uns quinze).

Eu me lembro de um show certa vez no jardim do ICBA, quando de repente um cara branco, de meia idade, saltou lá para a frente e dançou como se o mundo fosse se acabar, e no fim do show descobrimos que ele era grego.

Eu me lembro de pedir um suco no balcão de uma lanchonete num domingo de tarde e um dos balconistas, encostados num rádio ligado, dizer: “Espera terminar o primeiro tempo”, e eu esperei.

Eu me lembro do Congresso da UNE, onde a multidão votava erguendo na mão a credencial vermelha, e uns espertos erguiam um maço de Hollywood.

Eu me lembro dos atentados do Homem do Canivete, atacando as mulheres de calças justas em plena rua, e eu acabei fazendo um samba.

Eu me lembro da primeira vez em que entrei numa padaria, pedi cinco pães, e o cara perguntou: “Vara ou cacetinho?”.

Eu me lembro do Beco, ao lado do Teatro Castro Alves, onde tinha um bar cujas mesas eram máquinas de costura.

Eu me lembro de passar tardes inteiras estudando cinema na biblioteca Walter da Silveira, perto da Praça da Sé.

Eu me lembro das empresas de Ônibus Vibemsa e Vidusa (“a Duran”).

Eu me lembro de ir com Homero de Carvalho filmar as catadoras de lixo no lixão, e aquele cheiro ficou nas minhas narinas por uma semana.

Eu me lembro das famosas “coletivas musicais” do final dos anos 1970, quando a regra era “duas músicas pra cada um”, e reclamavam que minhas letras eram quilométricas.

Eu me lembro de uma vez estar cantando com violão na calçada do elevador Lacerda, para divulgar uma peça, e João Paulo, ex-artilheiro do Treze, ia passando e parou pra me dar um abraço.

Eu me lembro das doses de cachaça com açúcar e canela na borda do copo, no Quintal do Raso da Catarina, o bar do Franco.

Eu me lembro do caixa de um banco onde fui descontar um cheque nominal e ele observou que estava faltando o “Neto”no meu nome (“Tecnicamente, este cheque é para seu avô”), mas me pagou assim mesmo. Valeu!