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terça-feira, 7 de abril de 2026

5229) O Deus da Guerra (7.4.2026)



O deus da guerra (Der Kriegsgott)
Bertolt Brecht (trad. BT)
1949.
(traduzido da versão inglesa de Michael Hamburger)

Eu vi o velho deus da guerra de pé num pântano, entre a parede de pedra e o precipício.
Cheirava a cerveja grátis e a ácido carbólico, e mostrava os testículos às adolescentes, porque tinha sido rejuvenescido por vários cientistas. 
Tinha a voz de um lobo enrouquecido, e declarava seu amor por tudo que era jovem. 
Ao seu lado estava uma mulher grávida, trêmula de medo.
Falando com desenvoltura, dizia ser o maior dos defensores da ordem. 
E contava como por toda parte impunha a ordem nos estábulos, esvaziando-os.
E, assim como quem joga migalhas de pão aos pássaros, alimentava os pobres com migalhas tomadas de outros pobres.
Sua voz ora era forte, ora suave, mas sempre rouca. 
Com a voz forte ele nos falava dos grandes tempos que estavam por vir, e com a voz suave ele ensinava às mulheres como cozinhar corvos e gaivotas.
Seus ombros estavam sempre inquietos, e a toda hora ele olhava para trás, como se temesse ser apunhalado.
E de cinco em cinco minutos ele garantia ao público que iria tomar pouco, muito pouco do seu tempo.
 





quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

5221) A cidade apaga as suas luzes (18.2.3036)

 



A cidade apaga as suas luzes

pouco a pouco, como um corpo

desliga suas funções e amolece

sobre os lençóis amassados.

A cidade não quer dormir, mas dorme.

Amanhã os semi-escravos rolarão no trem,

no ônibus, no metrô, e agradecerão

por mais um dia de prisão perpétua.

 

Hoje, contudo, a cidade ordena que durmam.

Precisam estar a postos logo cedo,

os corpos repousados, refeitos, dispostos

a rodar a manivela da cidade.

 

Por isso a noite não perdoa

e os que não chegaram em casa a tempo

dormirão nas calçadas, na plataforma do trem,

no batente da loja, no cascalho da pracinha,

sobre o capô dos carros e a lona das carroças,

corpos caídos, encolhidos, fetais,

toda a cidade coberta por um tapete de corpos,

trabalhadores abatidos que ressonam,

vigiados pela lua-holofote;

tombaram roncando a caminho de casa

e acordarão aos bocejos com o novo sol.

Dali mesmo retornarão para as engrenagens

agradecendo aos maquinistas

o privilégio de ter vida e sangue para dar.

E levarão nos braços a pedra-travesseiro

e na roupa a fuligem do orvalho.









sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

5210) A Mesa do Banquete era tão Longa (5.12.2025)


 



A mesa do banquete era tão longa

que o meu assento estava na cozinha.

Havia caviar, faisão, vitualhas tantas...

Eu me servi cerveja, e moela com farinha.

 

De longe eu via o mundo e seus senhores,

tanto maiores quanto mais distantes,

e mesmo estes, os que eu avistava,

deviam estar nos ombros de gigantes.

 

Uma orquestra tocava, e não se via

se nos vinha do chão, ou se do céu.

Entre nós desfilavam bailarinas

invisíveis: o corpo era o seu véu.

 

Olhei meu prato. Estava sempre cheio.

E o copo mais pesado que um navio.

Tudo oscilava, os pêndulos, os lustres,

saltimbancos saltavam no vazio.

 

Havia riso, havia amor sem conta,

como corrente de eletricidade

acendendo um clarão de ponta a ponta

dessa mesa maior que uma cidade.

 

Eu me servi do quanto estava exposto.

Do que tinha o direito, e tive a chance,

tudo eu provei, de tudo tive o gosto,

tudo foi meu que estava ao meu alcance.

 

E a mesa se alongou, e alongou tanto

que de repente eu me encontrei na rua.

Saciado de festas e de encantos,

voltei a pé.  E a mesa continua.

 

 







sexta-feira, 28 de novembro de 2025

5209) Sou o Trocador de Estrelas Queimadas (28.11.2025)


 

Sou o Trocador de Estrelas Queimadas.
Aquelas de que ninguém sente falta,
mas é preciso manter brilhando, e se esforçar
para que haja um pouco de ordem no Universo.
Na noite seguinte, lá está ela. Triunfando
para ninguém além de si mesma
e deste operário que a trocou.
 
Um coqueiro faltou na praia?
Um colega já vem arrastando outro
pelas enormes raízes. Aos transeuntes
aquilo passa despercebido.
Estão conferindo seus celulares
enquanto nós, os roadies do cosmos,
pedimos licença e vamos passando.
 
Reconstruímos fachadas. Trazemos de volta
a praça omitida, o prédio faltante.
Corrigimos os erros de continuidade
de uma Realidade já de si precária,
e que não resiste a um exame,
a um questionamento,
a um dedo na ferida.
 
A Existência é uma ferida no Nada,
uma chaga que se espalha.
Seus resultados não passam
de balbucios, contradições,
curto-circuitos de incompletude;
mas alguém precisa
todo dia arredondar a Terra,
e encher o mar todas as noites.
 
 


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

5136) Natal 2024 (24.12.2024)




... e como um zero o ano se arredonda
retornando ao início, ao grão futuro;
eu aperto meu cinto e me asseguro
que agora vai, agora é pra valer... 
Cansei de só estar e nunca ser,
cansei de andar assim de casa às costas,
estas estantes cheias de respostas
todas corretas, mas que não são minhas... 
E o verão, tempestade de andorinhas
de puro fogo, entrou pela janela. 
 
A vida é bala, Bíblia, boi... e a vida é bela
para quem bebe à fonte de água pura
onde a boca devora o que procura
e o instante fugaz se torna eterno. 
“Quanto mais decadente mais moderno”,
o espelho é quem mo diz; e eu me barbeio,
me perfumo, me aprumo, me penteio,
como se fosse o derradeiro dândi
que um dia abandonou Campina Grande
rumo à conquista de outras freguesias. 
 
Era isto, afinal, o que querias?
Pós-prazer, que restou de tal desejo?
Do que eu sonhava, herdei isto que vejo;
do que eu quis, só me coube isto que tenho.
Todo Natal me visto, e aqui venho,
aqui vinho, castanhas, gorgonzolas,
entre arpejos de harpas e violas
votos sinceros de fraternidade...
e o tapete voador desta cidade
decola. Mais um ano. Mais um “round”. 
 
Eu lembro a noite, a lua, o underground,
as calçadas em festa, o riso, as rosas,
as feiticeiras, as misteriosas,
rodas de samba de cerveja erguida,
a catimba de prolongar a vida
mais além do que a vida tem direito;
o beck, o rock, o beijo, o xote... o jeito
de dar ao corpo o pouco que ele pede,
o que transborda, e o que não se mede,
o que o tempo nos traz e leva embora.  
 
Venham, dedos rosados dessa aurora,
tocar em mim e despertar meu sol!
Bacurau, cotovia, rouxinol,
cante aqui quem cantar, eu canto junto! 
Pode tudo faltar, menos assunto;
o mundo é isto, e é maior que o Mangue.
Que força é essa que me empurra o sangue
em seu cego circuito pelas veias?
Eu vou é para a Lapa! E calço as meias,
os sapatos... Tô pronto! E chamo o Uber. 
 
Faço de conta que sou um YouTuber, 
influêncer, tiktoker digital,
mais seguidores do que um general
(e menos divisões que o Vaticano).
Tanto faz! É Natal, é fim de ano,
bola ao centro... e recomeça o jogo.
Veja o exemplo maior: o Botafogo
improvável herói da própria lenda!!!
É Natal. Tudo em volta está à venda.
Menos a noite, a rua, a lua cheia. 
 
Pois seja posta a mesa, e farta a ceia
de quem calcula à pena o pouco e o tanto.
Ergo o brinde, tranquilo no meu canto,
no meu verso, no avesso da alegria...
E na paz provisória deste dia
as cantigas vão se diapasando,
harmonizam-se o quem, o onde, o quando;
tudo parece enfim fazer sentido...
Mais um ano que veio e foi vivido
e em círculo se fecha a linha, a onda... 
 
 
 
 






sábado, 24 de dezembro de 2022

4896) Natal 2022 (24.12.2022)



(ilustração: Unhandeijara Lisboa)

 
...e o mundo se remunda em redemunho,
turbilhão de manchetes impossíveis!
São outros patamares. Outros níveis.
Outras notícias – as mais esperadas,
as mais temidas, as encomendadas,
e a História se rasga e se remenda
na política vã desta fazenda
onde mandam o sobrenome, o dote,
o libambo, a manilha e o chicote –
que podem mais que a pena e a espada.
 
Abro os olhos: a Terra Devastada
nas pupilas, nas telas, monitores...
No rádio se revezam locutores
como enxerto-robô na carne morna. 
É o tropel dos centauros, que retorna,
carpideiras uivantes nas colinas,
fervilhar das arraias assassinas
tilintar de ferrões do povo-inseto...
e a TV que me diz pra “deixar quieto”,
pois o mundo resolve-se a si mesmo.
 
Fico eu aqui, eu caramujo, eu lêsmo,
eu búzio na ilusão que vou ser lido,
me apegando ao meu sétimo sentido
para entender o caos que desabrocha.
Tinha razão o doido Glauber Rocha.
Na fazenda quem manda é o capataz:
os herdeiros consomem mais e mais
dos poços, das jazidas, dos filões,
e a cada dia partem mil vagões
no rumo dos castelos de ultramar. 
 
Então... Querem saber? Vou levantar,
vou fazer um café, vou à janela,
vou dar bom-dia ao mundo que me vela,
que me cuida e pergunta se estou bem.
É matemático: outro ano vem,
mesmo eu não vendo, mesmo eu não estando,
os algarismos se reiterando
trazendo a sensação de algo novo;
e até comove a gente ver o povo
dizer: “É outro ano!...  Agora vai!...”.
 
Minha esperança? Não enche um hai-kai.
Meu otimismo é um dedal e meio.
O apocalipse nuclear não veio
mas, quem sabe, seria boa idéia.
Ah!  Que deus perdoou esta Pompéia
que mais que a outra merecia a lava?!
E o mundo a bomba acende, a tumba cava,
sob um pretexto unânime – o progresso,
o lucro, o dividendo e o sucesso,
e a forca, o fogo, o ferro aos dissidentes.
 
Café tomado – e eu escovo os dentes,
enxáguo a boca do mingau-das-almas.
Minha mãe, minha tia batem palmas,
“muito bem!  um rapaz!  gostei de ver!”
E quem outro é capaz de conceber
em jejum, dez cenários fim-do-mundo?
Quem é capaz, no ano moribundo,
de exumar as guarânias natalinas,
vinhos, passas, maçãs, bebidas finas,
presentes... e pavês presenciais?
 
São os problemas de quem vive em paz!
Outros vivem na guerra. Estou sabendo.
Mísseis caindo, e o bebê nascendo
ao mesmo tempo, a meio quarteirão.
E eu cá tremendo a sós, feito um poltrão...
É só a vida, com ou sem Natal!
Abraça alguém!  Abraço é tão legal,
escreve, lê, escuta, vive, canta...
Quando o sol desce a noite se levanta;
quero comer uma canjica em junho...
 
 







sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

4777) Natal 2021 (24.12.2021)



(ilustração: Yuri Malkov)

1
... e a Terra esturra em chamas de agonia
e mesmo assim não pára de crescer.
O mar, cobrindo a área de lazer,
está da cor de água-de-cimento.
O cortejo parou por um momento
frente ao portão lacrado onde se esconde
a multidão que ouve e não responde
o pesado metal de uma trombeta.
Os ciclones fervilham no planeta
varrendo o pó da civilização.
 
2
É sonho de uma noite de verão
quando acordo, com a lua no meu rosto,
e não sei se é Natal ou se é agosto
que me espreita na fresta da cortina?
E um trator enferruja na piscina.
E uma tribo acampou na catedral.
E tem gente trocando o sangue em sal.
E cachorros gritando a noite inteira
que esta vida é um livro com a primeira
e a última página faltando.
 
3
Quantas noites me restam, procurando
fazer o sol deter-se antes que nasça?
Escrevendo sextilhas com fumaça?
Martelando a bigorna do juízo?
Ninguém sabe de mim. O que eu preciso
é criar, é ser mais, é seguir sendo
como os galhos de mato que crescendo
dilaceram as teias das aranhas;
é crescer, como crescem as montanhas;
e passar – como passam todas elas.
 
4
Como naufragam tantas caravelas,
ou Maceió, que afunda em sumidouros;
o abismo engolindo seus tesouros,
uma cidade a se afogar na terra...
Ou o estrídulo som da motosserra
decepando a medula das sequóias,
e a cidade renderizando as nóias,
e o vírus de plantão se propagando...
e eu correndo, eu fugindo e eu pisando
nos corações de vidro no caminho.
 
 
5
E a multidão me arrasta, e eu sozinho,
e eu nunca mais dormi de olho fechado
e não consigo ficar acordado
(um zumbi esbarrando nas cadeiras);
pandemia comendo pelas beiras
e a alegria embandeirando a sala
e eu fiquei como quem perdeu a mala
numa estação do trem de língua estranha
ou o alpinista que sobe a montanha
e lhe falta a coragem pra descer.
 
6
É Natal!  Outro ano chega ao Z.
Meu Natal incompleto, esburacado,
falta uma banda sempre, falta um lado,
e o machado do tempo está se erguendo...
Não importa se o prédio está ardendo;
minha vida mental é só em mim.
Me deixem quéto, aqui, no meu cantim,
no aconchego da minha quarentena...
Eu capto o mundo inteiro em minha antena,
e afundarei com esse mundo em paz.
 
7
E chegam os bordões celestiais,
Papais Noel, guirlandas, fios de luzes...
Nos presépios, milhares de Jesuses
multiplicam as vidas severinas,
os jingobells, árvores naftalinas,
o vinho sub-20 em cada taça,
o brinde, a selfie, o riso, a uva-passa,
a dor entrelaçada à esperança
(quanto livro perdeu-se na mudança!)...
Passou um ano, e chega mais um dia...
 
 







quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

4656) Natal 2020 (24.12.2020)





(Imagem: Rudy Rucker, The Virgin of Mandelupe)


1
... e o fio enlaça o fio e faz um nó
amarrando a si mesmo, lasso, frouxo,
e eu cá cofio o meu bigode-groucho,
penso no tempo, nos seus vais e vens.
E os anos se sucedem como trens.
Até que chegue aquele... e eu vá embora
pra conferir o enigma do Lá-Fora
pra descobrir num salto o fim do poço,
porque cada filósofo que eu ouço
é implorando que ele me desminta.
 
2
Meu ofício é traçar fios de tinta
para entortá-los em arames-frases
e ocultar o Não-Sol; fazer as pazes
entre o sonho, o sentido, a letra, a lua,
o terror dos sem-voz que vem da rua,
o rangido do mundo aniquilado...
E o verso tem seis faces como um dado
e o dado gira até virar esfera
e o verso vira o avesso do que era
e a fala vira o fio que tudo amarra.
 
3
Na vida tudo é gato, é gambiarra,
versão-pirata de uma coisa-em-si,
sulanca a se passar por givenchy,
sarneys fazendo as vezes de tancredos;
e eu toco a vida assim, cheio de dedos,
como estátua na frente de um teclado.
Fazer o quê? Ficar aqui parado
enquanto ela se escorre como um rio?
Eu quero o vórtice, e o rodopio.
Quero a dor e a beleza, o grão e a fome.
 
4
A mão me estende algo, e me diz: Tome.
A mente fecha os olhos, diz: Esqueça.
Fico no escuro. Espero que apareça
um portento, um milagre, uma visão.
A raiz que rachou um calçadão.
A cheia que encobriu a cobertura.
O besouro que esbarra no miúra
e o revira quadrúpede no ar.
Qual a pedra que eu vim para quebrar
e revelar a drusa multicor?
 
5
Peço perdão a cada cantador
de quem furtei um símile, um refrão,
anacoluto ou aliteração,
rima, cadência, estrofe, vocativo...
Irmão, furtei de ti pra ficar vivo!
E que me furtem os vilões vindouros;
que minhas jóias brilhem nos tesouros
com que enfeitarem suas perseguidas...
Meus versos vão viver, ver novas vidas,
na fervura do século 21.
 
6
Falando nisso, lembro do cartum:
tanque de guerra, areia movediça...
Como explicar que não é só preguiça
a razão que me impede de escrever?
Falta vontade, o empuxo do querer?
Ou falta a glândula de adrenalina?
O ar frio, as calçadas de Campina?
Não importa. Por mim, não tenho mágoa;
vou molhando meu pão na minha água,
vou dizendo o que cabe em minha voz.
 
7
Nascemos sós, e morreremos sós;
por que vivermos sós na travessia?!
A vida pulsa, a veia é tão macia,
mesmo havendo milênios de distância.
A mão estende o vinho com elegância;
mais um gole na fonte da saudade.
É Natal. Na janela, uma cidade
inacessível a mim, também celebra,
e mais um ano de cristal se quebra;
e a vida é sempre nova, e uma só...
 





sábado, 23 de dezembro de 2017

4298) Um poema de John Ashbery (23.12.2017)




(Morreu pouco tempo atrás nos Estados Unidos o poeta John Ashbery, que mereceu longos e elogiosos obituários. Na época o nome não me despertou nenhuma lembrança. Agora, remexendo em arquivos velhos, encontrei este poema que li e salvei há alguns anos, movido por alguma ressonância autobiográfica. É um belo poema sobre o processo criativo literário, familiar a todo escritor que de vez em quando vai à janela. Vai ele aqui com tradução minha. O original é de 1956, do livro “Some Trees”.)


O MANUAL DE INSTRUÇÕES
(John Ashbery)

Sentado à janela do meu prédio, olhando para fora,
penso como seria bom se não tivesse de redigir
um Manual de Instruções a respeito das utilidades de um novo metal.

Olho para a rua lá embaixo e vejo as pessoas,
cada qual passeando cheia de paz interior,
e sinto inveja delas. Tão distantes de mim!
Nenhuma delas tem que se preocupar
com a entrega do Manual no prazo combinado.

E, bem ao meu jeito, começo a sonhar,
apoiando os cotovelos na mesa
e me soerguendo um pouco para olhar pela janela,
e sonho com Guadalajara! A cidade das flores cor de rosa!
A cidade que eu mais desejo conhecer, e nunca conheci, no México!
Mas imagino vê-la agora, sob a pressão de ter que escrever o Manual de Instruções,
vejo a praça pública da cidade, seu coreto cheio de adornos!
A banda está tocando Scheherazade de Rimsky-Korsakov,
e em redor do coreto as garotas das flores
seguram flores cor de rosa e de limão,
cada uma tão atraente em seu vestido de listas em azul-e-rosa (oh! cada tom de rosa e azul!)
e ali perto a barraquinha branca onde mulheres de verde
distribuem frutas verdes e amarelas.

Os casais desfilam: todos estão em clima de feriado.
Primeiro, puxando o desfile, vem um sujeito elegante
vestido de azul escuro. Na cabeça traz um chapéu branco
e exibe um bigode, que foi aparado para aquela ocasião.
Sua querida, sua esposa, é jovem e bela; o xale dela é vermelho, cor-de-rosa e branco.
Suas sandálias são de couro, ao estilo americano,
e ela traz um leque, porque é encabulada, e não quer que a multidão veja seu rosto o tempo inteiro.

Mas todo mundo está tão ocupado, com suas esposas ou suas amadas,
que duvido que notem a esposa do homem de bigode.
E aí vêm os rapazes! Vêm saltando e jogando coisas na calçada
que é feita de ladrilhos cinza. Um deles, um pouco mais velho, traz um palito entre os dentes.
É mais silencioso do que o resto, e finge não reparar nas moças bonitas de vestido branco.
Mas os amigos dele reparam, e gritam provocações para as garotas risonhas.

E no entanto isso tudo vai acabar,
quando os anos ficarem mais profundos,
e o amor os trouxer ao desfile por outros motivos.

Mas acabei perdendo de vista o rapaz com o palito.
Esperem! Ali está ele, do outro lado do coreto,
separado dos amigos, envolvido na conversa com uma garota
de catorze ou quinze anos. Tento escutar o que estão dizendo
mas parece que estão apenas murmurando coisas – palavras tímidas de amor, provavelmente.
Ela é um pouco mais alta do que ele, e abaixa os olhos com calma para os olhos dele, tão sinceros.
Ela está de branco. A brisa agita seus cabelos longos e finos de encontro ao rosto moreno.
Ela está visivelmente apaixonada. O rapaz, o rapaz do palito, está apaixonado também:
os olhos dele o demonstram. Afastando minha visão deste casal
vejo que houve agora um intervalo no concerto.
Os transeuntes estão descansando, tomando refrigerantes no canudinho
(o refrigerante está numa grande jarra de vidro, e quem o serve é uma senhora de azul escuro),
e os músicos se misturam a eles, com seus uniformes brancos, e conversam,
sobre o clima, talvez, ou sobre como as crianças estão se saindo no colégio.

Vamos aproveitar esta oportunidade
e entrar na ponta dos pés nesta ruazinha transversal.
Aqui vocês podem ver uma daquelas casinhas brancas com enfeites verdes
que são tão populares aqui. Olhem! Bem que eu lhes disse.
Dentro está mais fresco à sombra, mas o pátio está banhado de sol.
Uma mulher idosa de vestido cinza está sentada, abanando-se com um leque de folha de palmeiras.
Ela nos convida a entrar no pátio, e nos oferece um refresco para beber.

“Meu filho está na Cidade do México,” diz ela. “Ele os receberia também se estivesse aqui. Mas ele trabalha num Banco, lá.
Olhe, este aqui é o retrato dele.”

E o rapaz de pele morena com dentes de pérola nos sorri naquela velha moldura de couro.
Agradecemos a ela sua hospitalidade, porque está ficando tarde
e precisamos olhar melhor a cidade, antes de irmos embora,
olhar a cidade de cima de um lugar bem alto.

A torre daquela igreja pode servir – aquela em cor de rosa desbotada, de encontro ao azul vívido do céu. Entramos lentamente.

O porteiro, de uniforme marrom e cinza, pergunta há quanto tempo estamos na cidade, e se estamos gostando.
A filha dele varre os degraus, e nos cumprimenta quando passamos rumo à torre.

Logo chegamos ao topo, e a teia quadriculada da cidade se estende aos nossos olhos.
Ali está o bairro nobre, com suas casas rosa e branco, e seus terraços cheios de plantas se esboroando.
Ali o bairro mais pobre, onde as casas são azul escuro.
Ali o mercado, onde os homens vendem chapéus e espantam moscas,
e ali a biblioteca pública, pintada em tons de verde claro e bege.

Olhem! Lá está a praça de onde viemos, onde o pessoal passeia.
Agora há menos gente por lá, agora que o calor do sol ficou mais forte,
mas aquele rapaz e a garota ainda conversam junto ao coreto.

E aquela é a casa da pequena senhora—
lá está ela no pátio, se abanando.

Como foi breve, mas como foi completa, a nossa experiência de Guadalajara!
Vimos o amor entre os jovens, entre os casados, e o amor de uma mãe idosa pelo filho.
Ouvimos a música, provamos as bebidas, olhamos as casas coloridas.
O que nos resta a fazer, senão ficar? Mas isto não é possível.

E quando a derradeira brisa refresca o topo da velha torre,
eu giro a cabeça, e os meus olhos
se voltam para o Manual de Instruções – que me fez sonhar com Guadalajara.









terça-feira, 25 de dezembro de 2012

3065) Natal 2012 (25.12.2012)




(Catryn Arno)


...e estou de volta ao ponto de partida, 
ao trampolim do Tempo que me impele 
a saltar para fora desta pele 
como quem larga a roupa no banheiro. 
Meu último dezembro? Ou o primeiro 
noutro plano que não este de agora? 
É noite. Ruge o trânsito lá fora 
nessa avenida insone que não para 
e as multidões arquejam no Saara 
buscando o oásis do crédito fácil. 

E onde diabos perdi o meu palácio? 
Em que bolso esqueci o meu castelo? 
Quede o meu submarino, aquele yellow, 
que cruzava universos transversais? 
As alucinações sensoriais 
transportaram meu corpo a outro porto 
onde um dia, não sei, voltarei morto 
e encontrarei meu rosto adormecido 
num travesseiro feito do tecido 
que as aranhas bordaram para mim. 

Someone tells me that life is but a dream 
e a guilhotina do despertador 
decepa o sono no melhor do amor 
e me projeta nesta Distopia 
em que mais queima e dói a luz do dia, 
o ferro-em-brasa de qualquer verão, 
do que a treva, a ausência, o nada, o não, 
o Nirvana do zero absoluto... 
Bastam só as besteiras que eu escuto 
pra sonhar em viver como um Beethoven 

pois os surdos não sofrem do que ouvem 
como nós, a nadar no som alheio, 
um rumor que jamais diz a que veio 
mas aumenta o volume e abaixa o nível. 
Bora lá, paladinos do impossível, 
combater o mau gosto, o gosto médio! 
Quero afogar em vodka este tédio, 
sufocar o Medíocre em si mesmo, 
essa tela que berra à balda, a esmo, 
como se fossem gralhas coloridas. 

Este ano custou-me tantas vidas... 
mas eis-me aqui ao fim de tudo, intacto, 
intratável e áspero; o cacto 
de Bandeira, que morre e não se entrega. 
E em dezembro retorna a luta cega 
das comemorações obrigatórias, 
mil cervejas, mil risos, mil histórias, 
tudo festivo como um Facebook 
onde cada usuário emprega um truque 
pra divulgar o seu melhor retrato. 

Nessa luta de cão-e-gato-e-rato 
não dá pra dispensar a hipocrisia, 
que não deixa de ser diplomacia, 
revestida de boas intenções. 
Sendo assim... tragam logo esses garçons, 
o champanhe, a cerveja, os canapés... 
Que seja a vida como os cabarés 
ou a buate que eu chamava “bôite”, 
onde a festa feliz virava a noite 
e o álcool desmanchava o sofrimento. 

Este ano passou feito um momento: 
vupt! – e pronto, é Natal mais uma vez. 
É hora de lembrar o que se fez, 
empurrar o não-feito mais pra frente, 
abraçar, receber e dar presente, 
como a peça mil vezes encenada 
que toda noite vem modificada 
pela corrente oculta dos Acasos 
visto que o Tempo não tolera atrasos 
e que nossa viagem é só de ida...



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2749) Natal 2011 (25.12.2011)



("The Neverending Search", de David Ho)

...e a roda do Zodíaco e seu zoo,
como um filme de doze fotogramas,
sobre esta Terra projetou seus dramas
que nos dão a ilusão chamada vida.
Tridimensional e colorida,
sensorial, corpórea, carne-e-osso...
De onde virá, então, a voz que ouço
sussurrando que tudo é a Matrix?
Compartilho com os nerds e com os geeks
a noção de que o mundo é Simulacro;

uma área que une o micro e o macro
nesta hipernovela em que caminho
de mãos nos bolsos, tranquilão, sozinho,
pelos jardins da General Glicério
fotografando a face do mistério
de existirem jardins, papelarias,
escolas, locadoras, padarias,
este café que acolhe os literatos,
grama verde, remédio contra ratos...
Tudo tão verossímil. Tão real.

Tudo é vento e é fogo, mel e sal,
pedra de gelo e brasa sobre a pele;
tudo que nos atrai e nos repele,
o corpo vivo e seus magnetismos.
Por baixo deste chão, quantos abismos?
Mas eu caminho, e piso sem receio,
e num piscar constato que passeio
em Manaíra, e compro tapioca,
e o pão daqui, igual ao carioca,
sugere a hipótese de um mundo só.

Passa um carro-de-mão com seu forró
estrondando milhões de decibéis;
fico marcando o ritmo com os pés
enquanto espero meu sinal abrir.
Os carros passam sem me pressentir,
sem saber que vivi por mais um ano;
bem ou mal, eis-me aqui, sem nenhum dano
a não ser os de ordem financeira...
Abriu! E eu atravesso na carreira
como o último Beatle de Abbey Road.

Chego à vitrine, apalpo o cartão Gold,
que já está da finura de uma seda...
Natal, poeta, é uma cana azeda
que a gente chupa e louva-lhe a doçura.
Melhor presentear literatura,
dar poemas aos membros da família!
Sai mais barato que trocar mobília,
renovar guarda-roupa e tudo o mais...
Distribuir sextilhas ou hai-kais
e dar o caso como resolvido.

Sigo, a tirar velhas canções do olvido,
afinal é Natal, “bimbalham sinos”,
exumam-se os enfeites naftalinos,
e volta a ressoar pela cidade
Luís Bordón, “A harpa e a cristandade”,
o mesmo que tocava no Alto Branco...
Tanto tempo passou? Pois serei franco,
dentro aqui tudo aquilo ainda existe;
não me venham dizer, de dedo em riste,
que o meu passado se apagou em mim.

E ao futuro, também, só digo Sim;
talvez um simulacro, mas sincero.
E este presente do futuro eu quero:
os olhos calmos de um bebê mutante
que parecem dizer: não chore, cante
(e que me dizem mais quando adormeço);
e assim me redescubro e reconheço
ao zerar cada ano, cada “game”.
Sobrevivi, ou seja, recriei-me,
sempre o mesmo, e mudando em pleno voo...

sábado, 25 de dezembro de 2010

2436) Natal 2010 (25.12.2010)


(xilogravura: Lynd Ward)

... e o Natal, sorrateiro, se aproxima
como quem não quer nada, e já querendo;
vem feérico, álacre, metuendo,
amarrado a cetins e prestações.
E o mundo inteiro estende os seus cartões
e mergulha mais fundo no vermelho...
E daí? As vitrines são espelho
do mais fundo desejo encastoado:
o de amar para em troca ser amado
e comprar com presentes um futuro.

Foi-se o tempo em que a noite era de escuro!
Hoje é tudo um Niágara de luz,
e as turbinas de quantas Itaipus
alimentam tamanha Babilônia?...
Na minha treva, brilha só a insônia.
Na minha festa, uma canção: tumulto.
Quando é Natal eu me concedo indulto
e brindo, e canto, e rio, e até abraço.
Esqueça o que escrevi. Faça o que eu faço,
pois é tempo de encontro e ritual.

Dezembro se derrete em água e sal
nas calçadas do Rio, flamejantes,
como os dezembros que vivemos antes
até que chegue o não viver nenhum.
E eu fico aqui, enchendo o meu balloon
com a mesma linha-guia de Teseu
que no dédalo oscuro se atreveu
deixando apenas texto atrás de si;
meu carretel é tudo que escrevi,
uma ponta na mão, outra lá fora.

Olho a janela. Nem sinal de aurora.
Tão somente a bendita escuridão
(toda noite parece a projeção
de um filme que nos rapta e nos define;
a insone madrugada é o ultra-cine
em que o mundo se enxerga refletido
nesse cristal esférico e polido,
a membrana-por-dentro do Universo)
...e cada estrela dá de graça um verso
e assim será por toda eternidade.

Mas da vida eu já vi mais da metade,
e, mais perto do fim que do começo,
trocaria os vinténs do que conheço,
por um salto de volta à estaca-zero.
Vibrar uníssono com o mundo, eu quero.
Seguir sempre pensando, além centúrias.
Venha a vida, suas dores, suas fúrias,
seus desesperos, seu viscoso tédio.
Quero seguir vivendo; meu remédio
é a mesma doença que me esgota.

Do mundo eu não dispenso nem um jota,
um ceitil, um farelo, um grama, um quark.
Quero tudo, o mais punk ou o mais dark,
mas que seja um aval de Estar Aqui.
Quero sempre viver o que não vi,
avançar, bicicleta em corda-bamba,
mergulhar na ladeira que descamba
rumo a tudo (o que inclui o rumo ao nada)
quero a vida, esta veia dilatada,
latejando num só diapasão.

E quanto vai durar meu turbilhão?
Quanto tempo, o meu vórtice antientrópico?
Este esforço tão vão, mesmo ciclópico,
de vencer o duelo com o Ninguém?
Maior do que Solaris era Lem.
Mais complexo que a trama do “Ulisses”
era Joyce, sua dor, suas doidices.
Toda obra de arte é um resíduo
de um tumulto ambulante, um indivíduo,
que passou como passa um redemunho.

Estou vivo. Abro os olhos. Cerro o punho.
Faz um ano somente. O rio passa.
Pouco importa o esforço da barcaça
de tentar contrapor-se à correnteza.
Melhor soltar-se livre que ser presa
ao sonho de remar rumo à nascente.
Logo... estendo o cartão. Compro o presente.
É Natal. Custa nada, ser feliz?
Custa nada, dizer: “É o que eu quis”,
este loop com o verso lá de cima?...

terça-feira, 8 de junho de 2010

2121) Natal 2009 (25.12.2009)



...eis que volta o Natal, com alegria,
como voltam as estações e festas.
As que foram não voltam. Voltam estas.
Inesperadas. Por primeira vez.
Desorganizam tudo em seu talvez,
em seu impulso de dobrar esquinas.
Nem o recurso de tombar ruínas
cancela a cachoeira dos minutos
que se dissolvem, soltos, dissolutos,
na volúpia gozosa de extinguir-se.

Romper por quê, o encanto desta circe,
se a prisão do prazer nos reconforta?
Se a masmorra tem luz, que se abra a porta;
declinará o preso dessa oferta.
A luz (somente a luz) a luz liberta,
a luz de que são feitas as partículas
da matéria. Minúsculas. Ridículas.
Mas são o barro com que fomos feitos:
as moléculas, ondas e conceitos,
hard e software por onde explode a vida.

Essa miragem auto-produzida,
penélope a tecer o véu de Maya.
Universo, finíssima cambraia
que a cada volta torna-se mais fina
e através de si mesma descortina
o seu próximo estágio em quase ser.
Diluir-se é uma forma de embeber
tudo quanto nos cerca, como a tinta
no papel a secar sente-se extinta
e não sabe que Alguém a está lendo.

Mundo velho a girar!... Mundo tremendo!...
Foi tão bom ter podido conhecer-te,
vir travando contigo a dança, o flerte
em que me fazes crer que sou querido,
que vim pra transformar-te, pressentido
por filósofos, vates e profetas
(translúcidos titãs que tu projetas
nos écrans da memória coletiva):
um homem quer razões para que viva,
já que a morte prescinde de porquês.

O dia. A noite. Dominós. Xadrez.
Alfabeto de polos em contraste.
(Cai no teu colo o que não procuraste...
basta alguém respirar que acaba achando!)
Como dados febris se entrechocando,
as palavras produzem seu resulto.
E o sentido do mundo arfando, oculto,
à espera de quem o desencante.
Que seria do Inferno sem um Dante
sublimando seu fogo em pura luz?

E essa rima de volta me conduz
ao Natal, que já foi festa pagã
e hoje é festa paga; e amanhã
com que moeda nos farão comprá-lo?
Em que templo haverá Missa do Galo
com roleta, carnê, bilheteria?
Que 5 estrelas sobre a estrebaria?
E esses ternos Armani dos pastores?
Em que mundo, senhoras e senhores,
vim parar, sem sair deste planeta?

Já sonhei pertencer ao IRA, ao ETA,
já sonhei apertar a tecla “Enter”
e ver cacos do World Trade Center
a chover sobre toda Nova York...
Já fui mais proletário do que Górki
(e sou mais leninista que Lenine)
mas em mim tudo isso é sonho, é cine,
mise-en-scène, poesia, science-fiction;
olho o mundo com olhos Robert Mitchum
(esse olhos de inextinguível lombra)...

Só me resta afirmar que canto a Sombra
com esta mesma voz que canta a Luz,
pois não sei qual à outra é que produz
e nunca vi a linha que as separa...
Gira mais, mundo velho! Ele não para,
por mais que se o requeime e descongele;
como cobra, o planeta troca a pele,
descartando a nociva Humanidade...
Mas que diabo, é Natal! Tenha a bondade,
encha o copo... Pois bem: como eu dizia...