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sábado, 19 de setembro de 2020

4622) A ficção e o entulho de informação (19.9.2020)




(manuscrito de Immanuel Kant)

Que quantidade de informação um romancista deve dar, ao leitor, sobre o mundo que está descrevendo?
 
Depende. Escritores de romances históricos geralmente respondem: “A maior quantidade possível!”. E eu entendo. Passaram anos estudando as Guerras Púnicas, ou o Ciclo da Borracha na Amazônia, ou os reis leoninos da Alta Mesopotâmia.  Leram centenas de livros, fizeram milhares de anotações, e isso tudo vai se perder? De jeito nenhum. O leitor vai ter que pagar com seu tempo o tempo que o escritor consumiu pesquisando.
 
Outros dizem: “Informação nenhuma; não precisa”. Há centenas de romances pós-modernos onde não sabemos sequer em que país se passa a narrativa. Tudo é abstrato. Não sabemos sequer os nomes dos personagens, que são indicados por iniciais.
 
No outro extremo, existem os autores que se acham na obrigação de informar tudo, ou que têm um prazer enorme em informar tudo. Entre os escritores de língua inglesa circula o termo “infodump”, que significa mais ou menos “entulho de informação”. Acontece muito no romance histórico, em que não basta dizer o resultado de uma reunião do Imperador Napoleão com seus generais: é preciso dizer cada plano que foi proposto, debatido, contestado, apoiado, decidido, executado. O autor estudou o tema. Precisa mostrar serviço.
 
Os chamados techno-thrillers de autores como Tom Clancy ou Alastair Reynolds não se limitam a dizer “Fulano puxou a pistola”. Tem que dizer a marca, o calibre, o modelo, o ano, as adaptações feitas pelo personagem, as peculiaridades do mecanismo...
 
Se é um romance de Fantasia Medieval, e alguém mata um porco para uma festa, é preciso explicar (e tome duas ou três páginas falando apenas disso) com que tipo de faca se matava o porco na Escócia de 1450, quantas pessoas eram necessárias para segurar o bruto, como se pelava, como se tratava, com que ervas se temperava, como era preparado cada pedaço...
 
O infodump é a delícia de uns e o pesadelo de outros.


Numa resenha de um livro na revista Locus, Gary K. Wolfe chama a atenção para essa mania de Neal Stephenson (autor que eu muito admiro, aliás):
 
Na reta final do thriller Reamde, a jovem geóloga que é um dos personagens centrais está fugindo desesperadamente de terroristas islâmicos numa floresta do Canadá quando se vê escalando a inclinação de um talude e faz uma pausa para pensar sobre “o ângulo de repouso, que é a inclinação que um determinado monte de material pulverizado adota naturalmente ao longo do tempo, e que explica o formato externo de um formigueiro, de um monte de açúcar, uma pilha de cascalho ou de seixos.” Não é o tipo de coisa em que eu estaria pensando se estivesse sendo perseguido a tiros por terroristas, mas o fato é que eu não sou um personagem de Neal Stephenson.
(“Locus”, # 608, setembro 2011, trad. BT)
 
Stephenson é, dentro da FC norte-americana, um dos campeões indiscutíveis em entender e explicar como a tecnologia do mundo de hoje funciona. Ele estuda e pratica compulsivamente todo tipo de gadget tecnológico que inclui nos seus livros, e são muitos. Eu não diria que ele faz essas coisas “para se amostrar”. Não: ele apenas é um cara que pensa assim, funciona assim, e quando escreve reproduz em sua ficção seus processos espontâneos de pensamento.
 
Só li dois livros dele, ambos excelentes. Um é Snowcrash (1992), publicado no Brasil pela Editora Aleph, com tradução de Fábio Fernandes, lançado numa edição com o título de Nevasca e em outra com o título original. O outro é The Diamond Age (1995), um futuro de ultra-tecnologia onde os chineses reproduzem a Era Vitoriana inglesa nos menores detalhes.
 
O problema com Stephenson é que poucos livros dele têm menos de 900 páginas, e romances de 1.200 páginas não são nenhuma surpresa. É como uma viagem de navio – é agradável, mas você sabe que é um projeto a longo prazo.


Em outro momento, o mesmo Gary K. Wolfe explica, comentando outro romance de Stephenson (Anathem, 2008), sobre uma civilização de eruditos num planeta distante (uma espécie de O Nome da Rosa interplanetário):
 
Em seu aspecto mais ambicioso, ele nos convida para examinar por inteiro o corpo principal da filosofia do Ocidente através do prisma de um mundo inventado; e, embora exista nisso um indiscutível charme de estudante universitário, ficamos pensando se uma parte do entusiástico público leitor de Stephenson não se verá em breve atribuindo a ele a invenção de muitas das idéias que ele recapitula em seu fabuloso “Syntopicon”.
(“Locus”, # 572, setembro 2008).
 
Diga-se desde logo que esses romances de mil páginas não são feitos apenas de digressões enciclopédicas. Stephenson é um narrador compulsivo de aventuras, mestre dos episódios de perseguição, fuga, invasão, conflito, brigas de socos, guerras de exércitos; pode-se dizer que seus romances são videogames de ação e aventura para intelectuais. Personagens com quem a gente se identifica, diálogos espertos, sutilezas psicológicas...
 
Mas o problema continua de pé. É preciso mesmo explicar tantos detalhes assim?
 
A resposta tem que levar em conta que existem pessoas que adoram essas explicações, e outras que não as suportam. Se eu tivesse mais tempo e menos afazeres, leria com imenso prazer, por exemplo, o famoso “Ciclo Barroco” dele, formado por Quicksilver (2003, 944 páginas), The Confusion (2004, 815 páginas) e The System of the World (2004, 915 páginas). 

Mas a vida é curta. O que me aguarda na minha estante, no momento, e de cenho franzido, é o premiado Cryptonomicon (1999, 1.140 páginas).


Lembro-me das aulas do mestre Damon Knight, quando ele dizia às vezes: “Não precisa descrever a espaçonave. Todo mundo já sabe como é uma espaçonave. Mostre somente o detalhe que vai ter importância na história”. É um conselho útil, mas acontece que muitos escritores (e leitores) de FC são engenheiros, sejam profissionais, estudantes, diletantes ou curiosos, e para esses leitores é um pouco frustrante pegar um romance, saber que a espaçonave está indo da Terra para Alfa do Centauro, e não receber um vintém de informação sobre o meio de propulsão utilizado ali.
 
Outra coisa:
 
Não se trata apenas da ficção científica. Vamos dar uma passada nos infodumps dos clássicos brasileiros. Podemos começar com os tratados de geologia e botânica que Euclides da Cunha inseriu em Os Sertões. Ou então pensemos no Romance da Pedra do Reino: basta alguém citar o nome de uma família sertaneja para Ariano Suassuna pegar o leitor e dar uma volta inteira ao quarteirão explicando genealogias e cavalgadas.


Autores regionalistas são usuários aplicados do infodump, porque grande parte do romance regionalista está imbuído de uma missão de retratar, registrar, conservar usos e costumes através da palavra escrita.
 
Daí que nossa ficção rural se dedique a longas digressões sobre cuidados com o gado, sobre novenas e festas tradicionais, sobre o trabalho do vaqueiro ou do agricultor, sobre batuques e festejos... Páginas e páginas onde o autor oitocentista preservou o ambiente que conhecia – e eu, pelo menos, sou agradecido por isto. O livro pode até não ser grande coisa como romance. Ironicamente, é o infodump etnográfico que hoje o torna precioso para nós.



 





segunda-feira, 24 de abril de 2017

4228) Roberto Bolaño e a ficção científica (24.4.2017)





O chileno Roberto Bolaño virou de uns 10 anos pra cá um queridinho da crítica literária. Tenho amigos que detestam os livros dele e amigos que o acham o novo Cortázar, o novo Galeano. Tudo isso é reflexo da qualidade (má ou boa) do que ele escreve? Somente em parte. Na parte maior é reflexo desta praga que chamam de hype (=ráipe), também conhecida como marketing, badalação, tititi, bajulação às cegas, pressão-eufórica-sobre-o-mercado-consumidor apregoando a chegada (parafraseando os Titãs) do Melhor Escritor Latino-Americano De Todos os Tempos Da Semana Passada.

Li agora O Espírito da Ficção Científica de Bolaño (Companhia das Letras, 2016, traduzido por Eduardo Brandão).

É bom? Olha, não amarra as chuteiras dos três excelentes romances dele que já li: Os Detetives Selvagens (1998), Literatura Nazista nas Américas (1996) e Estrela Distante (1996).

É ruim? Olha, me deu muito prazer na leitura. Se bem que um prazer diluído, pelo fato de ser nitidamente um livro menor. Mas se em vez de 182 páginas o livro tivesse o dobro, o prazer seria o mesmo.

Gosto do jeito que Bolaño escreve. Me identifico com uma certa dicção direta, coloquial, que ele consegue manter, mesmo em textos de tom e cadência muito diferentes, e recebo dele umas lições de simplicidade que sempre me fizeram falta como escritor. (Sou do tipo que a frase tem que vir de cabeça pra baixo num trapézio, vestida de arlequim e iluminada com luz-negra, porque se for somente uma frase então não presta.)

O espírito da ficção científica é dado como um livro de 1984, publicado apenas agora, pois foi achado entre os papéis do escritor. 

Coisa publicada após a morte é sempre problemática. Nem tudo que ficou inédito é uma obra-prima à espera da glória. A maioria é de coisas que o autor olhou e pensou: “Isso aqui é meio fraquinho, já fiz uma tentativa disso que deu mais certo. Vou guardar somente por motivos sentimentais”. Aí chega a viúva, cheia de contas a pagar, e anuncia que achou “o melhor livro dele”.

A “tentativa que deu mais certo” é Os Detetives Selvagens, do qual este livro é um primeiro esboço ou um primo-pobre. Jovens intelectuais na pindaíba, morando na Cidade do México, produzindo poemas, namorando garotas mais ricas do que eles, bebendo, metendo-se em confusões...

Espírito é um rascunho de Detetives, até pela estrutura. Poetas jovens e impressionáveis admiram poetas um pouco mais velhos, mais escolados, mais cheios de talento e de expedientes.  A dupla de poetas ingênuos Remo e Jan Schrella, do Espírito, admira José Arco do mesmo modo que o adolescente Juan García Madero, em Detetives, admira a dupla mais calejada formada por Arturo Belano e Ulises Lima.

O contexto é semelhante, tal como a amizade ligeiramente hierárquica mas cordial, a presença de duas irmãs lindas e literárias (praticamente as mesmas que aparecem em Detetives e Estrela Distante). E também as demandas levemente quixotescas. Em Detetives, Belano e Lima reviram o México de cima a baixo à procura de pistas de uma antiga poeta vanguardista, hoje octogenária, Cesárea Tinajero. Em Espírito, Remo e José Arco se dedicam a comprovar (ou desmentir) a afirmativa feita por uma revista obscura de que o México tinha, então, 661 revistas de poesia, sendo que “para o fim do ano vaticinava a arrepiante cifra de mil revistas de poesia, noventa por cento das quais com toda certeza deixariam de existir ou mudariam de nome e de tendência estética no ano vindouro”.

Jovens intelectuais num apartamento, bebendo, fumando, namorando, falando de livros? Não há como não pensar na maciça influência exercida a partir de 1963 por O Jogo da Amarelinha (“Rayuela”) de Julio Cortázar. Um livro que quem ainda não leu sempre associa a um jogo complicado de capítulos saltantes em idas-e-vindas um tanto intimidadoras. Quem leu, sabe que este aspecto, apesar de ser um dos mais visíveis do livro, está longe de esgotá-lo. O Jogo da Amarelinha é essencialmente um livro sobre boêmios exilados, com pouca grana, discutindo arte, amor, literatura, política, aventura existencial.

A diferença mais visível entre este livro de Bolaño e os outros que o influenciaram está no fato de que o jovem Jan Schrella é um fã ardoroso de ficção científica, e boa parte do livro consta das cartas ingênuas, cartas de fã, fã do Terceiro Mundo, enviadas (sem muita esperança de leitura ou de resposta) para autores como Fritz Leiber, Ursula K. Le Guin, Robert Silverberg, Forrest J. Ackerman e outros.

Jan Schrella chega a resumir, num capítulo inteiro, um romance de Gene Wolfe, que ele chama de A Sombra, história de uma nave-geração que chega depois de séculos a um planeta em crise, e não sabe se deve voltar para a Terra. Esse argumento (e o nome de alguns personagens principais: Johann, Helmuth, Grit) não correspondem a nenhum livro de Wolfe que eu tenha lido ou localizado na web, ainda mais se aceitarmos que Bolaño estava escrevendo em 1984.

O espírito da ficção científica não é um livro de FC, e nisso provavelmente irá decepcionar o leitor que tiver esta expectativa. Mas parece muito com livros de memórias como The Futurians (1977) de Damon Knight, sobre sua convivência, em apartamentos compartilhados, com James Blish, Cyril Kornbluth, Judith Merrill, Frederik Pohl...  São os relatos daquela época da vida em que todo mundo é jovem e entusiasmado, todo mundo acredita que a literatura pode mudar o mundo (nem toda literatura, é claro – apenas a que ele escreve).

Damon Knight relata naquele volume de memórias as carraspanas, as publicações, os fanzines, as críticas devastadoras que os contistas faziam aos textos uns dos outros, as namoradas roubadas ou compartilhadas, as peças de gosto duvidoso que se pregavam entre si, as polêmicas, os dinheiros emprestados e não pagos...

Aquela época da vida em que todo mundo sonha com um futuro de glória capaz de redimir os colchões desconfortáveis, a roupa sem lavar, a má bebida, o fumo barato, a incerteza sobre o mês que vem. A literatura envolve tudo isto numa aura de aventura e encanto. Talvez não ajude a ganhar a vida, mas como ajuda a viver.

E, perpassando tudo, aquela sensação de tempo dilatado através da bebida, do fumo, da insônia, da alimentação precária, da presença de mulheres por quem é possível se apaixonar no ato de abrir a porta e vê-las pela primeira vez. A arte de suspender o tempo na medula de uma noite feliz que nunca se acaba, como relata Remo na página 113:

Deveria perguntar a alguém ou consultar algum almanaque, às vezes tenho certeza de que foi a noite mais longa do ano. Tem mais, às vezes seria capaz de jurar que não acabou como acabam todas as noites engolidas de repente ou ruminadas por um bom tempo, com um lento amanhecer. A noite de que falo – noite gatesca de sete vidas e com botas de vinte léguas – desapareceu ou se foi em momentos díspares e, à medida que se ia como um jogo de espelhos, chegava ou persistia uma parte e portanto toda ela. Hidra amabilíssima, capaz de, às seis e meia da manhã, voltar inopinadamente às três e quinze por um espaço de cinco minutos, fenômeno que sem dúvida pode ser incômodo para alguns mas que para outros era mais que uma bênção, um perdão real e uma forma de rebobinar.






segunda-feira, 20 de abril de 2015

3793) Uns títulos (21.4.2015)



Ouvi falar de um cara cujo romance lhe veio à mente de vez, praticamente pronto, e ele passou a limpo o texto durante alguns dias insones. Como tinha que dar um nome ao arquivo onde estava salvando o texto, e ainda não tinha uma boa idéia, olhou de lado, viu um chiclete sobre a mesa, batizou o arquivo como “Trident”, e salvou. Daí em diante ficou usando esse nome, coisa e tal, e aquilo foi se integrando de tal maneira à obra que na hora depois da revisão final, hora de mandar para a editora, ele chegou à conclusão de que seu drama existencialista sobre a vulnerabilidade do Eu na sociedade pós-moderna iria mesmo se intitular Trident, não porque isto tivesse alguma relação com a narrativa, mas porque ele não conseguia mais pensar no livro com outro título senão aquele.

Damon Knight afirmou certa vez, comentando uns contos de Avram Davidson: “Uma das minhas muitas teorias a respeito de contos é que tanto os seus títulos quanto as suas primeiras linhas devem ser memoráveis, porque se não forem memoráveis eles não serão lembrados, e se não forem lembrados os contos não serão reeditados (porque ninguém vai conseguir encontrá-los).”  Knight considera que um dos títulos mais memoráveis das histórias de Davidson é “Meu Namorado Chama-se Jello” (“My Boy Friend’s Name is Jello”). Ele diz que, mesmo tendo lido a história várias vezes, não consegue mais lembrar o que ela conta. Mas o título grudou.

Davidson é autor de um conto ganhador do Prêmio Hugo sob o título de “Or All the Seas with Oysters” (“Ou Todos os Mares com Ostras”). É uma alusão a Conan Doyle, do conto “O detetive agonizante”, em que Sherlock Holmes, doente, delira diante do Dr. Watson e especula sobre os oceanos e a quantidade de ostras que há dentro deles: “Francamente, não consigo compreender por que todo o leito do oceano não é uma única massa compacta de ostras, tão prolíferas me parecem essas criaturas”.  O título de Davidson, aliás, tem pouco a ver com o conteúdo do conto, mas é dos mais inesquecíveis que existem.

Eu tenho uma inveja inofensiva e sincera dos caras que deram a suas histórias ou seus livros títulos como “Sagarana”, “O Homem que Era Quinta-feira”, “Mas Não se Mata Cavalo?”, “O Ganido dos Cães Chicoteados”, “O Carteiro Sempre Toca Duas Vezes”, “Estrelas em Meu Bolso Como Grãos de Areia”, “Cinquenta Anos Falando Sozinho”, “Um Faca Só Lâmina”, “O Acrobata Pede Desculpas e Cai”, “Porque Eu Toquei no Céu”, “O Amor nos Tempos do Cólera”, “Neuromancer”, “Todos os Fogos o Fogo”, “PanAmérica”, “Será que Andróides Sonham com Carneiros Elétricos?”, “Claro Enigma”, “O Desastronauta”, “Os Frutos Dourados do Sol”, “Dormindo nas Chamas”.







sábado, 30 de agosto de 2014

3591) As listas do escritor (30.8.2014)


(ilustração: Hamish Hamilton websaite)

Já me aconteceu mais de uma vez. Tenho uma boa idéia para uma história, sento no teclado e começo a escrever. A certa altura surge uma frase tipo: “Depois de um dia inteiro de cavalgada, ao entardecer chegaram ao Castelo de...”  

E aí pronto. Como vai ser o nome do castelo?  Tem que ser um nome imponente, significativo... Começo a pensar, vou na janela, vou fazer um café, vou folhear livros de História Antiga, e o conto vai pro espaço, porque encalhei naquele ponto e estou ali até hoje.

Muitos escritores, para evitar essas indecisões, fazem listas. Listas de nomes de personagens, divididas por idade, classe social, país, época...  Listas de nomes de lugares: cidades, castelos, casas comerciais, tudo que tiver importância na história e tenha que ser mencionado mais cedo ou mais tarde.  E assim por diante.  

Fazer essas listas ajuda o autor a não perder o pique quando precisar citar um grupo de pessoas, por exemplo, mesmo que depois resolva que o personagem “Juliano” tem mais cara de se chamar “Tarcísio”. O importante é não quebrar o embalo narrativo só porque precisa matutar num detalhe.

Raymond Chandler fazia listas de tudo, e muitas estão reproduzidas em The Notebooks of Raymond Chandler (Ecco Press, 1976). Listas de títulos de histórias, de termos de gíria, de “wisecracks” (aquelas frases irônicas e demolidoras que ele usava nos diálogos), etc.  

Muitas acabam não sendo usadas, mas não há problema. O importante é que o autor fica com bala na agulha, para o momento em que precisar.

Damon Knight, em seu precioso manual Creating Short Fiction (St. Martins’s Press, 1997) sugere que o autor anote nomes próprios interessantes sempre que encontrar um, e vá montando uma lista variada.  Se um personagem é estrangeiro, diz ele, consulte numa enciclopédia o verbete sobre aquele país, mas não use os nomes dos personagens famosos e históricos. Melhor recorrer aos nomes das pessoas que prepararam o verbete, e que vêm no final, na bibliografia. (Um leitor brasileiro acharia estranho uma história norte-americana ambientada no Brasil onde os personagens, gente comum, se chamassem Kubitschek, Collor, Sarney, Roussef...)

Em último caso (sugere Knight) se um nome qualquer não lhe ocorrer na hora, e os nomes da lista não servirem, vale a pena guardar o lugar com um sinal gráfico qualquer e seguir em frente.  Ele sugere barras inclinadas, //.  Nos meus textos eu prefiro usar alguma coisa entre colchetes: [.....].  

“Nove vezes em dez,” diz ele, “um detalhe assim, que pode imobilizar você durante meia hora diante do teclado, será resolvido em um ou dois minutos na próxima vez que você estiver revisando o texto”.







sábado, 20 de agosto de 2011

2640) Repassando, compartilhando (20.8.2011)



O escritor Damon Knight tem um romance de ficção científica chamado A for Anything (em português seria “Q de Qualquer coisa”) onde ele explora uma situação curiosa. Num mundo futuro, inventa-se uma máquina capaz de reproduzir com perfeição qualquer coisa, tipo uma super-xerox universal. Se botar ali uma moeda e acionar a máquina, ela produz uma moeda igual. Se colocar um passarinho vivo, ela produz um clone exato do passarinho, também vivo. Esse invento causa mudanças imprevisíveis na civilização humana.

Algo parecido foi essa varinha de condão que a cultura digital nos presenteou: a possibilidade de com um único clique tirarmos uma cópia, ou 200 cópias, ou 2 mil cópias de um mesmo documento. Com que volúpia as pessoas recebem uma foto colorida, enternecedora, de uma galinha maternalmente amamentando seus pintinhos, e a reenviam para todos os 1.500 contatos de sua caixa de mensagens! Com que simplicidade de esforço elas criam mensagens em grupo entre 180 pessoas, de modo que cada comentário é clicado no “Responder a Todos” e segue instantaneamente para os 179 incautos, mesmo que o comentário seja apenas “kkkkkkkk”, ou “A-do-rei!” ou “Concordo!”! Como é rápido receber os clichês lenda-urbana de sempre (adolescente desaparecida, corrente de Santa Inocência, recado de Bill Gates, proposta de negociata bancária da viúva de um ex-ministro de Uganda, etc.) e seguir o conselho (já internalizado psiquicamente) de “repassar para todos”!

O Facebook adicionou, ao verbo “repassar”, o seu equivalente “Compartilhar”. Para poupar esforço, já que o processo não é tão simples quanto o da caixa de email, introduziu há pouco o sistema de digitação automática, em que a gente nem precisa escrever o nome completo de cada pessoa. Basta colocar “Bra...” e, presto! O Facebook completa o nome do futuro e indefeso recebedor. Isto desencadeou uma febre compartilhante. As pessoas se inebriam com a própria generosidade e compartilham tudo: videoclip de Lady Gaga, entrevista de deputado do DEM de Roraima, foto sensual de participante de A Fazenda, gol de placa em jogo da série C da Venezuela, lista dos “Cem Melhores Tiros de Revólver do Faroeste Italiano”... Gente que não compartilharia um misto quente com um sudanês faminto compartilha pixels e megabytes com a prodigalidade de recém-usuário do novo toque de Midas.

A Digitolândia é o parque de diversões dos indolentes, daqueles que, como dizia Drummond, “querem mudar o mundo, desde que para isto não seja preciso mover uma palha”. Vão um passo além, claro, e movem a palhazinha imponderável do cursor, que não é sequer uma varinha mágica, é mais leve ainda, um asterisco mágico que flutua no universo retangular do monitor, portulano do Novo Mundo onde tudo é de graça e sem esforço. Estou reclamando? De jeito nenhum. No instante em que em digitar o ponto final deste artigo, presto! Repassei, compartilhei com um bilhão de incautos do presente e do futuro.


domingo, 9 de agosto de 2009

1187) O discurso do inconsciente (2.1.2007)




(Damon Knight)

Os freudianos dizem que tudo é intencional, até mesmo o que é involuntário. Neste último caso, a intenção vem do Inconsciente, que está doido para dizer ou fazer uma coisa e ninguém deixa. No primeiro descuido, ele corre para o centro do palco, diz a primeira coisa que lhe vem à cabeça e foge de volta para a escuridão das coxias, antes que o zelador do teatro o persiga a vassouradas. 

E, já que nossa mente funciona assim, tudo pode ser interpretado, tudo pode ser analisado, porque tudo obedece a um plano, ou, na pior das hipóteses, tudo que dizemos é registro sismográfico de um terremoto inaudível que nos faz vibrar de mansinho 24 horas por dia, como um eletrodoméstico ligado.

Damon Knight, com a nitidez instantânea dos escritores de ficção científica, comenta que o termo “inconsciente” é enganador: 

“Quer você esteja dormindo ou acordado, ele está ali, supremamente consciente, percebendo tudo. Você pode cochilar, perder os sentidos, dar um branco – ele, não”. 

Knight chama a nossa consciência a “Mente A”, que não passa de um filtro de acesso à “Mente B” (o inconsciente). A Mente A esquece 90% do que processa; a Mente B não esquece coisa alguma. Diz ele: 

“A Mente A normalmente não percebe a Mente B; a Mente B monitora a Mente A o tempo todo. A Mente A maneja os raciocínios lineares do tipo ‘se X, então Y; se Y, então Z’. Já a Mente B funciona através de redes de associações simultâneas. A Mente B determina o que você faz; a Mente A produz as explicações”.

Pode ser uma descrição simplista, mas serve como uma primeira abordagem. A linguagem jornalística, que busca sempre a concisão, as definições curtas e imediatas, tende a empobrecer os fenômenos. Já vi estudantes jovens perguntando: “Mas em que parte do cérebro fica o Inconsciente?” 

Tendemos a espacializar as coisas, quando na verdade não estamos nos referindo a regiões do cérebro, mas a hierarquias de processos. Essa hierarquia significa que alguns processos mentais ficam se checando uns aos outros o tempo inteiro, ficam se verificando, trocando informações, e isto se dá (penso eu) em torno das nossas sensações corporais imediatas, das nossas pecepções áudio-visuais (o que estamos vendo e ouvindo aqui-e-agora). 

Tudo isto é monitorado por um conjunto de imagens superpostas (ou conceitos mentais formados por memórias entrelaçadas) que me informam quem sou, o que faço,onde estou, que dia é hoje. Aquelas perguntas que a gente se faz todos os dias antes de abrir os olhos, para checar se está tudo bem.

Por baixo disto tudo, há um nível hierárquico distanciado onde se trabalha a todo vapor, mas sem acesso a esta zona de controle recíproco. O Inconsciente se parece aos milhares de operários numa fábrica, que não participam das decisões do dia a dia, mas param a fábrica no instante em que quiserem. Os processos conscientes tocam o barco. O inconsciente se manifesta quando o barco mergulha numa tempestade, ou percebe um iceberg ali na frente.






domingo, 9 de março de 2008

0129) A música dramatúrgica (20.8.2003)

A melhor definição de literatura que eu já vi é do escritor Damon Knight. Dizia ele: “Uma história não é aquela porção de páginas com palavras impressas. Aquilo ali são as instruções verbais para criar a história. A história é o que acontece em sua mente enquanto você lê as instruções.” Tá dito tudo, não é mesmo? A literatura manipula palavras que, a rigor, são apenas sinais gráficos no papel. É uma atividade abstrata. Podemos achar que um filme também é um conjunto de instruções audiovisuais sobre como criar a história, mas aí já seria forçar a barra, porque afinal um filme nos impõe imagens e sons concretos. O mesmo se aplica ao teatro, aos quadrinhos, a às outras formas de arte narrativa. Somente a literatura é feita apenas de instruções verbais que precisam ser transcodificadas em nossa mente para gerar a história.

Escrevo: “um triângulo amarelo dentro de um quadrado azul”, e tenho certeza de que o leitor vê o que sugeri. Se pudéssemos enxergar a visualização feita por mil leitores (se é que tem tanta gente lendo esta coluna), teríamos mil pequenas variações desta imagem básica. Escrevo: “Uma rua deserta de madrugada, um carro que avança lentamente, de faróis apagados”. As variações podem ser incontáveis. Qual é a rua deserta? A Av. Presidente Vargas? A Quinta Avenida? A Maciel Pinheiro (de Campina Grande, de João Pessoa)? Uma rua abstrata? E o carro? É uma fusca, é um Gol, é uma Ferrari reluzente, um DKW-Vemag branco com teto preto? Tudo isto é possível, porque as palavras descreveram mas não especificaram. A arte da prosa e da poesia é essa oscilação entre o que é dito e o que é deixado à imaginação.

Surge daí a minha teoria de “música dramatúrgica”. (Meu negócio é teoria; não me peçam para praticar, dá muito trabalho) A música dramatúrgica é quando você usa a palavra e os efeitos sonoros para criar ambientes, ações, situações, personagens, etc., trazendo ao universo tão repetitivo da canção popular (o cantor cantando, o acompanhamento acompanhando, os vocalistas vocalizando...) algo da literatura escrita e da novela de rádio. Não tenho nada contra as canções tradicionais; passo o dia a escutá-las, mas por isso mesmo começo a matutar: Será que é só isso? Voz, violão, banda, orquestra? Por que não usar o CD para criar pequenas histórias em volta das canções, através de vozes, ruídos, efeitos sonoros, e todos os recursos que as antigas novelas de rádio nos davam?

No rádio, basta um zumbido profundo para dizer: estamos numa espaçonave. Basta um cloc-cloc de cascos para sugerir, a custo zero, um bando de jagunços ou de caubóis. Basta um fundo sonoro de grilos e araras para criar a Floresta Amazônica. Produções milionárias e gratuitas, para enriquecer a textura e o sentido das canções, trasformando-as em áudio-clips, em pequenas histórias que vão além do esquema “cantor + coro + acompanhamento”. Um CD sonoro é um universo de possibilidades, e mal arranhamos a sua superfície.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0052) O país dos bondosos (22.5.2003)



Ser declarado invisível talvez seja preferível a ser eletrocutado, ou a ser trancado numa cela, mas qualquer pessoa que já tenha “levado um gelo” sabe que não é boa coisa. 

 Como punição social, o gelo já foi utilizado até na ficção científica. Damon Knight publicou em 1955 o conto “The Country of the Kind” , a história de uma sociedade utópica do futuro, onde as máquinas proporcionam paz e abundância. Nesta sociedade perfeita, um adolescente comete um crime, após séculos de paz obrigatória. O dilema: o que fazer? Matá-lo, prendê-lo, seria politicamente incorreto.

A solução achada é típica das utopias, lugares onde tudo é tão perfeito que está a um passo do pesadelo. Decide-se que o criminoso será declarado invisível. Ninguém pode falar com ele, tocá-lo, relacionar-se com ele de qualquer forma. Uma modificação genética o faz emitir um cheiro insuportável, que ele próprio não sente, mas que o identifica de forma cabal, por mais que se disfarce. E, caso ele esboce qualquer ato de violência contra uma pessoa, um implante no seu cérebro provoca uma crise epiléptica artificial, que o faz perder os sentidos.

Esse indivíduo, que narra a história na primeira pessoa, caminha pelas ruas como um fantasma, praticando atos de vandalismo que são rapidamente consertados sem que ninguém se queixe.  

Ele entra nas lojas, leva o que bem entende; todos fingem que não viram. Persegue pessoas, insulta-as, ameaça; elas se fazem de surdas. Quando tenta agarrá-las, ou agredi-las, bzzzzz! – o alarme epiléptico dispara, e o põe a nocaute. Em alguns momentos, ele se sente insuportavelmente só; em outros, pensa: “eu sou o rei deste mundo.”

Nessa sociedade milionária e bondosa, o homem invisível descobre um dia uma coisa chamada Arte, uma forma de expressão que existira no passado. Ele fica com a impressão de que tempos de paz só produziam imitações e obras derivativas, mas os períodos violentos produziam grandes artistas: Praxíteles, da Vinci, Rembrandt, Renoir, Picasso... 

Ele invade lojas, rouba materiais; torna-se escultor. Passa a viajar, colocando suas estátuas em lugares públicos, mas ninguém dá atenção a elas a partir do instante em que percebem que são produzidas por ele, pelo Bandido, pelo único ser imperfeito num mundo onde todos são impecáveis.

A história termina com ele vagado pelo mundo, tentando fazer com que as pessoas leiam um cartaz onde escreveu: 

“Você pode ser dono do mundo comigo. Pegue uma coisa pontuda, e apunhale alguém. Pegue uma coisa pesada, e esmague alguém. Basta isto. E você vai ser livre. Qualquer um pode ser livre.”

Isto é uma história de ficção científica? Não tem espaçonaves nem ETs. Mas fala do que, ironicamente, talvez seja o melhor dos futuros que nos aguardam. Talvez não tenhamos a sorte de chegar a isso, mas alguma coisa desse mundo já existe, na paisagem que vejo pela janela enquanto batuco aqui minhas teclinhas.