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quarta-feira, 10 de junho de 2009

1082) Húbris (3.9.2006)


(Aristóteles)

Volta e meia a gente encontra por aí a palavra “húbris” (substantivo masculino, mesma forma no singular e no plural), principalmente em análises de tragédias teatrais, ou de acontecimentos políticos. O sentido moderno de “húbris” é arrogância, excesso de auto-confiança, desprezo pelos demais, que leva o indivíduo a auto-glorificar-se e a humilhar os derrotados. Nas tragédias clássicas, húbris é aquela pose de superioridade orgulhosa que alguém ostenta quando está “por cima”, e que, por obra e graça do dramaturgo, será devidamente castigada com as tragédias e catástrofes do terceiro ato.

Pessoas cujo sucesso lhes sobe à cabeça e passam a achar-se acima do Bem e do Mal estão acometidas de húbris. Países que ganham uma guerra e impõem castigos humilhantes aos povos vencidos estão indo pelo mesmo caminho. Políticos que se deslumbram com uma posição de Poder e acham que o Poder lhes pertence passam muitas vezes a ser exemplos vivos de húbris, perseguindo adversários, metendo a mão na grana de forma acintosa, adotando uma pose imperial e tratando todo mundo a pontapés.

Aristóteles assim definiu o conceito de húbris: “Húbris consiste em dizeres ou fazeres coisas que causam vergonha à tua vítima, não porque algo possa vir a te acontecer, nem porque algo te aconteceu, mas apenas para tua própria satisfação. Húbris não é um acerto de contas por injúrias passadas: a isto chama-se vingança. Quanto ao prazer envolvido na prática de húbris, sua razão é esta: os indivíduos pensam que tratar mal os demais aumenta a sua própria superioridade”.

Pois é, eu gostaria de ver Aristóteles, vestido naquele lençol branco que parece ter sido sua indumentária oficial, sentando-se de binóculo em punho na Tribuna de Honra do Estádio (por exemplo) Santiago Bernabeu, para assistir à exibição do Real Madrid com seu elenco de galácticos. Jogadores que já ganharam todos os títulos coletivos e todas as honrarias individuais que o futebol pode proporcionar, jogadores de gênio que têm consciência da própria genialidade, que sabem o que fizeram e do que são (ou já foram) capazes, adulados por uma multidão de assessores e empresários, seduzidos pelas beldades da moda. Tudo conspira para que, nessas circunstâncias, eles se reclinem na languidez dos domesticados, e percam a agressividade criativa indispensável para jogar, para pintar, para escrever, para atuar. Uns conseguem. Outros não. C’est la vie.

Aqui no Brasil criamos um conceito tropical e festivo de húbris. Não basta ganhar: é preciso golear, e depois tripudiar sobre o adversário vencido. Vitórias de 1x0 ou 2x1 nos parecem insuficientes para “o melhor futebol do mundo”; só gostamos de 4 pra cima. E depois do placar garantido, é a hora de pedalar, de dar chapéu, de passar a bola por entre as pernas, de trocar 25 ou 30 passes diante do adversário exausto, de fazer embaixadinhas dentro da área. Cuidado. Os deuses do futebol, sentados ao lado de Aristóteles, tudo vêem, e nada esquecem.

segunda-feira, 31 de março de 2008

0334) O mito da Queda (15.4.2004)



(Lúcifer, por Gustave Doré)


Li um debate recente entre o Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, e o escritor Philip Pullman, autor da trilogia Fronteiras do Universo (His Dark Materials), já traduzida no Brasil com os títulos A Bússola Dourada, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar. São romances fantásticos que envolvem questões de Teologia e religião. Pullman tem uma premissa teológica para o Universo do livro, que ele assim descreve: “Nunca existiu um Criador. Ao invés dele, existia a Matéria, que aos poucos adquiriu consciência de si mesma e produziu o Pó. O Pó, portanto, se origina da Matéria, sendo uma forma encontrada por ela para compreender a si própria. A Autoridade foi a primeira figura a se condensar deste Pó, por assim dizer, e desde então passou a ser a entidade mais antiga, a mais poderosa e a mais cheia de credibilidade. Todos os outros anjos passaram a ver nessa entidade o Criador do Universo, mas alguns anjos acharam que não era bem assim, e foi dessa forma que ocorreram a Tentação e a Queda”.

A discussão pode ser encontrada no Daily Telegraph. Mas ela me recorda dois aspectos interessantes da teoria cristã: os conceitos da Queda e do Pecado Original. Toda a religião judaico-cristã é percorrida de ponta a ponta por uma tremenda sensação de culpa, de crime cometido, de punição eterna. É o crime de Lúcifer, o Anjo Que Pensou Que Era Deus (para alguns, mais irreverentes, Lúcifer seria uma espécie de Zé Dirceu cósmico). É o crime de Adão e Eva, que experimentaram o fruto proibido do Conhecimento, o qual cortou o barato do Paraíso e fêz o dois caírem na real. A queda de Lúcifer do Céu para o Inferno e a queda de Adão e Eva do paraíso para o mundo real são mitos simétricos que servem de alerta contra a ambição, a “hubris”, como os gregos definiam a arrogância de quem julga ter poderes ilimitados e estar acima do Bem e do Mal.

Já o mito cristão é um mito na contramão dos anteriores. Jesus se ofereceu como fonte da Revelação e como alvo do mais cruel Castigo. Vejam só: um Deus abandonava seu trono e se dispunha a passar por todos os sacrifícios e contratempos dos homens comuns, e mais, sofrer uma tortura física e uma humilhação pública que só eram destinadas aos piores deles. O Cristianismo criou o Mito oposto ao da Queda pelo orgulho: o da Ascensão pela humildade. Essa anti-hubris teve um inesperado poder de sedução. Ela está em todas as lendas de nobres que jogam foram suas riquezas e vão viver com os pobres (desde Buda até Gandhi e São Francisco de Assis), em todas as histórias de rapazes burgueses que se tornaram marxistas e aderiram à guerrilha armada ou à luta social, e em todos os filhos de boa família que largaram a mansão e as empresas do papai, deixaram o cabelo crescer e foram tocar violão no mato. Não, amigos, não pensem que estou fazendo gozação. Já que é próprio dos deuses descer à Terra e sofrer os percalços da Terra, deve ser próprio dos mitos diluir-se em histórias banais de gente comum.