
Revi na TV a cabo este “faroeste metafísico” de Jim Jarmusch, um dos seus melhores filmes. Vi pela terceira vez, e a cada vez gosto mais. Digo isto com cautela, porque sei de muita gente que detesta este filme distanciado, irresoluto, onírico. Faltam nele coisas que nos seduzem nos faroestes: o arrebatamento físico das grandes cavalgadas e grandes lutas, as dimensões épicas de heróis e vilões maiores-que-o-mundo, o corte sociológico das guerras de colonização dos EUA. Tudo isto está ausente deste filme feito num preto-e-branco leitoso e pulverulento (o termo é de Cruz e Sousa), de imagens granuladas que parecem não o Oeste do cinema, mas o Oeste fotografado ao vivo no século 19 pelos lambe-lambes que subiram num carroção e rumaram para as pradarias com um tripé às costas.
Bill (Johnny Depp) vai assumir um emprego num lugarejo que não passa de um quarteirão enlameado e malcheiroso. Mete-se numa confusão por causa de uma mulher, que é morta nos seus braços e o obriga a matar o assassino, filho de seu possível empregador. Ferido a bala no peito, ele rouba um cavalo e se embrenha na mata, onde passa a ser perseguido por pistoleiros de aluguel contratados pelo pai furioso da vítima. Ali ele conhece um índio, que diz chamar-se Ninguém, e que se assombra ao saber que o nome do rapaz é William Blake: “Mas não é possível! Eu sei os seus poemas de cor!” E passa a tratá-lo como se ele fosse mesmo o poeta inglês do século 18.
Durante a fuga, cruzam com matadores profissionais, um pistoleiro antropófago, animais feridos, Iggy Pop vestido de velha. O índio tenta arrancar, com a faca, a bala encravada no peito de Blake, mas não consegue. Como dizia João Cabral (Uma faca só lâmina): “Essa bala que um homem / leva às vezes na carne / faz menos rarefeito / todo aquele que a guarde”. Blake, que era um contabilista pacato, é forçado a enfrentar de arma em punho os caçadores de recompensa que o rastreiam. Vai matando gente, abrindo caminho a tiros, enquanto Ninguém (índio que foi criado na cidade grande) age como anjo protetor.
Não sei o que é melhor, se a fotografia láctea de Robby Müller, toda baseada em fumaça, neblina e sombras, ou se a música de Neil Young, arpejos e rasqueados de guitarra elétrica que nunca se resolvem em melodia ou sequência harmônica, e que, como a própria narrativa do filme, parecem mudar de direção o tempo todo, ziguezagueando ao vento das circunstâncias. Nunca o estilo minimalista de Jarmusch se harmonizou tanto com um argumento, com a fuga espectral desse rapaz baleado que parece morrer um pouco mais a cada homem que mata. E a música, recorrente, fragmentada, inconclusiva, parece também se separar, lentamente, em fragmentos que se apartam para sempre uns dos outros. O filme inteiro é um rito de passagem para o reino das sombras e das luzes, uma transição gradual para um mundo onde não há matéria, apenas o oceano luminoso do ser e do não ser.