Mostrando postagens com marcador Simone de Beauvoir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Simone de Beauvoir. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de junho de 2026

5239) Nove fatos que ocorreram de verdade (17.6.2026)




1
Quando Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil em 1960, passaram por várias cidades e foram recebidos por intelectuais de esquerda como Jorge Amado, Oscar Niemeyer e outros. Numa maratona de conferências e entrevistas, os dois foram de cidade em cidade e, já na trajetória de volta rumo à França, fizeram uma parada em Belém. Sartre mostrou aos paraenses a enorme mala que conduzia, cheia de livros brasileiros autografados por seus autores. “É pena, mas não vou poder levar tudo isto no avião,” explicou o francês. Os livros ficaram todos em Belém do Pará. 
 



2
No inverno de 1974, a escritora alemã Lotte Eisner, radicada na França, adoeceu gravemente. Eisner é a autora de algumas obras clássicas sobre história do cinema, tais como O Écran Demoníaco, sobre o cinema expressionista alemão das primeiras décadas do século 20. Quando Werner Herzog, então um jovem cineasta no começo da carreira, ficou sabendo que ela estava hospitalizada, partiu a pé da cidade de Munique na direção de Paris, na crença de que se fosse capaz de realizar a caminhada isso iria salvar a vida da mestra. Herzog alega que estava imbuído de um conceito que os católicos chamam “a certeza da salvação”. O trajeto lhe exigiu três semanas, e resultou no “diário de viagem” Caminhando Sobre Gelo. Ao chegar a Paris, ele descobriu que Lotte Eisner tinha acabado de receber alta do hospital. Alguns anos depois, Eisner, agora com 87 anos, queixou-se a Herzog de que ele projetara sobre ela um sortilégio para que ela não morresse. “Me libera agora,” pediu Eisner. Herzog concordou, e uma semana depois ela faleceu. 



3
Conta-se que em 1947 um homem chamado Ross Petrie resolveu pregar uma peça a um grupo de amigos, montanhistas amadores, que haviam escalado o Monte Hood, a 80 quilômetros de Portland, no Oregon. É uma escalada difícil, de cerca de 3.500 metros. Depois que os amigos já haviam subido a encosta, e a noite caiu, Ross Petrie escalou o monte, por sua vez, levando consigo uma garrafa de leite e o jornal do dia, que deixou nas proximidades da barraca onde os utros se abrigavam. A escalada do Mount Hood não é das mais fáceis, e sua duração é estimada entre 4 e 7 horas.  Nada é custoso demais para uma piada. 



4
O ator Christopher Walken é conhecido por seu talento e por uma certa excentricidade.  Na década de 1970 ele trabalhava numa montagem teatral em Nova York. Um dia chegou ao teatro, para ensaiar, carregando nos braços um filhote de leão, como se fosse um pacote qualquer. Depositou o leãozinho no chão, e deixou que ele ficasse caminhando pelo espaço onde os colegas ensaiavam. “Não se assustem,” disse. “Ele está de bom humor… agora.” O elenco inteiro congelou, sem saber se aquilo era uma piada, se era um teste, ou outra bizarrice de Walken. Depois foi descoberto que ele estava fazendo trabalho voluntário junto a uma companhia circense. 



5
Durante uma montagem mexicana da peça Orfeu, de Jean Cocteau, um terremoto aconteceu durante a cena das bacantes, danificando o teatro e ferindo várias pessoas. A sala sofreu reparos e a peça se preparava para voltar a cartaz, quando descobriram entre os escombros o corpo do ator que representava Orfeu. 



6
O major Baden Powell (o fundador do Escotismo, e não o violonista brasileiro) foi certa vez visitar uma família amiga, os Hatch, e ao sentar com eles escutou rugidos de animais ferozes embaixo da mesa, claramente feitos por crianças. O major abaixou-se para olhar, e viu embaixo da mesa três crianças de quatro no chão e, rugindo junto com elas, o escritor Lewis Carroll. O autor de Alice no País das Maravilhas tinha o costume de brincar assim, e conta-se que uma vez entrou, de quatro pés e rugindo, numa sala onde estariam crianças reunidas, mas enganou-se de porta e invadiu uma reunião de senhoras que faziam um trabalho beneficente. 



7
Quando o filósofo Bertrand Russell, então com 49 anos, visitou a China, caiu gravemente doente com pneumonia, e a imprensa noticiou o fato. Russell já era um autor respeitado e uma figura pública. Pouco antes, em visita à URSS, tinha sido recebido pessoalmente por Lênin. Numa época de telecomunicações um tanto precárias, a notícia de “gravemente doente” acabou sendo noticiada na imprensa japonesa como “falecido”. Russell, teve, então, o raro prazer de ler na imprensa mundial o próprio obituário, e saber o que iriam dizer dele após sua morte. Ficou sem saber o que de fato disseram quando morreu de verdade em 1970, aos 97 anos. 



8
Na II Guerra Mundial, quando foi derrubado o governo fascista, seus líderes foram mortos e pendurados de cabeça para baixo num posto de gasolina em construção, entre eles o próprio Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. Mesmo com a ferocidade da vingança e da execução pública, o pudor italiano fez com que a saia de Clara Petacci fosse amarrada às pernas com barbante, e assim o corpo foi pendurado mas as “partes íntimas” não ficaram à mostra. 



9
Vladimir Nabokov e sua esposa Vera emigraram para os EUA em 1940, a bordo do SS Champlain. Durante a década seguinte viajaram longamente pelo país, tendo como base a cidade de Wellesley (Massachusetts), onde ele lecionou antes de se fixar na Universidade de Cornell (Ithaca). O romance Lolita (1955) está cheio de referências diretas ou cifradas a estradas, motéis, lojas, postos de gasolina e outros detalhes colhidos nessas viagens, em que o escritor fazia também um levantamento das borboletas de cada região (reza a lenda que Nabokov chegou a se classificar alguma vez como “um lepidopterologista que escrevia livros nas horas vagas”). Em 1961, os Nabokovs passaram a residir no Montreux Palace, onde uma criada-de-quarto suíça jogou diligentemente no lixo uma pilha de mapas rodoviários dos EUA com todas as rotas e anotações (literárias e borboletais) feitas durante aqueles anos na estrada.  


sexta-feira, 7 de março de 2008

0045) Um encontro em Araraquara (14.5.2003)




Um encontro único na História ocorreu no dia 2 de setembro de 1960, numa praça da cidade paulista de Araraquara. Quem o relata é Ignácio de Loyola Brandão, natural dali, e autor de livros notáveis como Zero, Não Verás País Nenhum e muitos outros. 

Era um domingo à tarde: Araraquara estava em festa com a presença do Santos de Pelé, que vinha enfrentar a Ferroviária num jogo pelo Campeonato Paulista. Às vésperas de completar 20 anos, Pelé, campeão mundial aos 17, já era aclamado por grande parte da imprensa como o maior jogador do mundo. 

As façanhas que vinha acumulando justificavam esse entusiasmo, embora ele ainda viesse a conquistar mais outros quatro títulos mundiais (dois pelo Santos, e mais dois pela Seleção), e estivesse ainda a dez anos de sua melhor participação em Copas do Mundo. 

Foi no trajeto entre o hotel e o estádio que Pelé, cercado pela costumeira caravana de fãs, atravessou a praça e percebeu outra romaria que se aproximava em sentido contrário. Em vez dos barulhentos torcedores, esse outro grupo era composto por homens de terno, e mulheres usando os comportados vestidos da época. Uns eram idosos, outros bem mais jovens, e caminhavam sem perder de vista e de ouvido o casal que avançava no centro do grupo: um homenzinho de óculos, com a pálpebra esquerda denunciando o olho prejudicado, e a mulher mais alta do que ele, de pele muito branca e sardenta, traços delicados, olhos concentradamente sérios. 

O casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir estava em viagem pelo Brasil. Ciceroneados por Jorge Amado, os dois iam naquele instante rumo à Faculdade de Filosofia de Araraquara, onde Sartre proferiria uma palestra sobre sua recém-lançada “Crítica da Razão Dialética”. 

O cruzamento fugaz dos dois grupos foi testemunhado por Loyola Brandão, pelo diretor José Celso Martinez Corrêa, pelas tias do dramaturgo Mauro Rasi (recentemente falecido), e por dois estudantes que seguiam a comitiva sartreana, chamados Fernando Henrique e Ruth. 

Fernando Henrique, que naquele instante só tinha olhos para o pai do Existencialismo, não teve tempo de imaginar que, 34 anos depois, seria eleito Presidente da República derrotando o maior líder das esquerdas operárias brasileiras, e que um dos ministros do seu governo seria aquele jovem jogador negro, que dava autógrafos sem perder o sorriso. 

É assim – não é mesmo? – a vida das pessoas. Na hora, tudo é casual, tudo é normal, tudo é comum. Visto em retrospecto, depois que sabemos como aquilo terminou, tudo ganha significado, as associações e comparações podem ser feitas com clareza, tudo parece “ironia do destino”, ou premonição. 

Depois que sabemos em quem aquelas pessoas se tornaram, o simples fato de que elas se cruzaram um dia numa praça é algo mágico. Mágico como a imagem surrealista do encontro entre um guarda-chuva e uma máquina de costura sobre uma mesa de dissecação. 

Como diriam os Existencialistas, só tem sentido porque aconteceu.