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quinta-feira, 19 de abril de 2018

4337) "Bandeira Sobrinho -- Uma Vida e Alguns Versos" (19.4.2018)




Neste sábado, 21 de abril, entre as 15:30 e 16:30 horas, estarei lançando no Rio de Janeiro meu novo romance, Bandeira Sobrinho – Uma Vida e Alguns Versos (Fortaleza: Imeph, 2017).

Vai ser no CRAB (Centro SEBRAE de Referência do Artesanato Brasileiro), Rua Visconde do Rio Branco, 3, na Praça Tiradentes. Fica perto do Teatro Carlos Gomes, em frente ao 13º. BPM: é aquele prédio grande, cor de cenoura, cuja calçada ficou durante anos ocupada por tapumes e andaimes.



Sobre o livro: por um lado, acho que é isso que está se chamando atualmente de “auto-ficção”: uma obra de ficção onde o próprio autor aparece como personagem. Comentei com um amigo meu: “Não sei por que esse alarde todo, porque isso já vem pelo menos desde os contos de Borges.” Ele respondeu: “Pelo menos desde a Divina Comédia.”

O livro conta a vida de um cantador repentista de Campina Grande, com quem ficticiamente convivi a partir de 1975, quando eu era um dos organizadores do Congresso Nacional de Violeiros, um festival de repentistas que acontecia anualmente no Teatro Municipal Severino Cabral. Em sua fase de maior sucesso, o Congresso chegou a lotar com 5 mil pessoas o Ginásio da AABB.

Quem organizava o Congresso eram os cantadores locais: José Gonçalves, Ivanildo Vila Nova, José Laurentino, Juvenal de Oliveira, etc.  A eles juntou-se a chamada “turma do Museu”, que se reunia em atividades cineclubísticas no Museu de Arte da FURNe: eu, José Umbelino Brasil, os irmãos Rômulo e Romero Azevedo, meu irmão Pedro Quirino, o fotógrafo Roberto Coura e vários outros.

Bandeira Sobrinho era um cantador de seus 50 anos na época (eu tinha metade disso) e circulava como um ectoplasma no meio daquela poetaria toda. Circunspecto como Manuel Camilo, casmurro como Zé Alves Sobrinho, ranzinza como Pinto do Monteiro. Por trás dessa fachada cactácea, tinha um coração de ouro, um grande senso de humor, era cachaceiro e raparigueiro como todos os outros. (Ou quase todos.)

Bandeira estava cantando certa vez na casa de uma família bem religiosa, e seu parceiro terminou uma sextilha dizendo:

(...) Porque a fé é meu guia,
minha luz e meu farol.

Bandeira respondeu:

Tenho fé em que o sol
amanhã nasce no leste,
vai cruzar o dia todo
a abóbada celeste
e, como sempre tem feito,
vai se pôr no lado oeste.

Era um agnóstico, o que não o impedia de cultivar um lado místico e ler de Erich von Daniken até Mircea Eliade. Era grande admirador de Ariano Suassuna, e no livro transcrevo as estrofes que fez quando foi pessoalmente conhecer as “Pedras do Reino”, no município de Sao José do Belmonte:

(...) São ruínas requeimadas
do arraial de Canudos?
Ou gigantescos escudos
de tropas enfeitiçadas?
São os degraus das escadas
do Morro da Encantação,
degraus que à noite um Dragão
desce pra beber na Fonte?
Pedra do Reino em Belmonte,
Trono dos Reis do Sertão!

Bandeira tinha um fusquinha no qual peguei muita carona para ir assistir suas cantorias, levando a tiracolo meu gravador National e os bolsos cheios de fita Basf-60. Morou quase sempre no alto da ladeira que leva ao Alto Branco, a Vigolvino Wanderley, com uma breve passagem pela rua Luiza de Castro, nesse mesmo bairro.

Registro cantorias dele no Bar Canarinho, na feira de Campina, em Manuel da Carne de Sol; e episódios pitorescos vividos no saudoso bar Miúra, na Estação Velha, no Bar de Zacarias, por trás do Estádio Plínio Lemos, e no Bar do Cearense, no pé da Venâncio Neiva.

Era uma época gloriosa da cantoria de viola, uma época em que de certa forma o Congresso de Campina marcou de forma indelével, graças principalmente à ousadia e à capacidade de mobilização de Ivanildo Vila Nova e sua turma, os critérios de apresentação profissional dos cantadores.

Eu era um simples estudante universitário, um cabeludo “peru de cantoria”, sempre de gravador ou caneta Bic em punho, registrando versos que somente décadas depois apareceriam em forma de livro.

A boemia ao lado dos repentistas marcou esse pedaço da minha vida, e faço minhas as palavras de Bandeira quando disse:

Dos 20 aos 50 anos
gozei tudo que podia:
fui boêmio sem descanso
e gastei uma energia
que dava pra iluminar
do Rio Grande à Bahia.

Farrista, ele? Que o digam lugares como o Vagalume, na feira, ou a Unidade Moreninha, na Rua das Boninas. Bandeira era muito bem casado com Dona Zita, o que não o impedia de produzir sextilhas como esta:

Todo casal tem a hora
em que pega alguma briga;
a esposa se consola
contando tudo à amiga,
mas pro marido só resta
cabaré e rapariga.

Era um meio pesadamente machista, o dos cantadores, não no sentido da violência e do preconceito, mas da aderência a um código de conduta rígido, implacável, em que o destino da mulher era cuidar da casa e dos filhos, e o do homem era o que ele bem entendesse.

Ainda assim Bandeira era um romântico, capaz de dizer:

Isso é a vida que traz,
isso é a vida que leva.
Um dia lá bem distante,
quando eu mergulhar na treva,
minha última lembrança
serão os olhos de Eva.

Por trás dos versos e das farras boêmias, a história mostra pinceladas de uma Campina Grande que em sua maior parte já se foi: a redação do Diário da Borborema, o estúdio de Rádio Borborema onde era transmitido o programa “Retalhos do Sertão”... Nos últimos capítulos o registro de meus encontros com Bandeira já nos anos 2000, no Recife, ele já uma “lenda viva” da cantoria e eu um roteirista de televisão.

E assim a vida vem, a vida se vai. Como disse o próprio Bandeira Sobrinho:

A minha felicidade
perdeu-se como a fumaça,
foi uma sombra que passa
com o surgir da claridade;
fugiu-me contra a vontade,
fugiu sem eu nem dar fé;
minhalma hoje é a ré
e o destino seu juiz.
A gente só é feliz
quando não sabe que é.

E apois não é mêrmo?!

O livro ainda não tem distribuição na rede de livrarias, mas pode ser pedido diretamente à Editora Imeph, aqui:






sexta-feira, 16 de setembro de 2016

4160) José Laurentino,1943-2016 (16.9.2016)



(foto de Leonardo Silva)

Algum tempo atrás, remexendo aqui numas gavetas, achei um papel dobrado. Era um daqueles papéis onde a gente anota alguma coisa e guarda no bolso de trás, e durante semanas ou meses o papel sai pulando de calça em calça até o sujeito estranhar e ter que olhar o que é aquilo.

Era um papel rabiscado com caneta Bic, uns riscos, uns cálculos, e estas linhas, com a minha letra:

Amigo Zé Laurentino
estive em nossa cidade,
quando ouvi tocar o sino
da igreja da saudade.

Era uma carta que eu comecei a escrever depois de uma das minhas passadas por Campina Grande. Isso aí era o tipo do verso que Zezinho ouvia e dava um riso meio de banda e dizia, vige, que coisa bonita. Poesia de cantadores tem muito dessas imagens meio singelas, que uns acham naïf. Versos que podiam ser de ciranda ou de coco, porque são versos para serem cantados. E é por isso que o poeta faz retinir o sino, porque a melodia pesa pelo menos tanto quanto a retórica.

O projeto de carta ficou por aí mesmo, mas reencontrei Zezinho meses atrás na cerimônia de entrega dos títulos de cidadãos paraibanos a Ivanildo Vila Nova, Santanna o Cantador e Os 3 do Nordeste.  Zezinho tinha perdido a vista por um tempo, mas depois descobriu-se que era algo que podia ser operado, e depois de algum tempo fora do ar ele recuperou a visão em grande parte, o que deve ter sido uma grande alegria.

Tenho lembrado muito da época dos festivais de cantadores em Campina, em função de textos que estou escrevendo ou revisando.

Zé Laurentino pertencia à Associação dos Poetas e Repentistas Nordestinos, atuante em Campina, nessa época tendo à frente José Gonçalves e Ivanildo. E mais Santino Luiz, João Marinho, e outros, mas todos violeiros, e somente Zezinho era o que se chama de poeta matuto.

Os seus grandes sucessos naquela época eram “Matuto no Futebol”, "Esmola Pra São José", "O Mal se Paga com o Bem", “Eu, a Cama e Nobelina”. O linguajar da poesia matuta engana quem pensa que o poeta fala daquele jeito. É uma fala estilizada, uma fala-máscara, que o poeta usa para dar colorido ao seu “número” no palco. Quem escreve versos daquele jeito dificilmente fala daquele jeito.

Não gosto da poesia matuta quando ela envereda por aquela estética de festa junina, onde é obrigatório mostrar um matuto de chapéu esfiapado, sem os dentes da frente, e que anda como um macaco. Não gosto quando ridicularizam o matuto. Gosto quando o matuto (como os humoristas judeus) manga de si mesmo, e, mangando de si mesmo, demonstra ter uma compreensão de si mesmo e do Outro mais profunda que a compreensão do Outro.

Patativa do Assaré tinha um português melhor do que o meu. A voz matuta era opção dramatúrgica para deixar claro o avatar que estava incorporando.

José Laurentino era um poeta de ironia discreta, olho bom para detalhes, riqueza de rimas que pareciam cair do céu para fechar uma estrofe com perfeição. Seus versos que provocavam maiores gargalhadas eram quando ele descreva o beradêro que se mete a jogar de "quipa" e vai defender um pênalti:

Me dero um calção listrado
e um pá de jueieira
também um pá de chuteira,
uma camisa de gola
e eu gritei arra diabo
eu já peguei touro brabo
e segurei pelo rabo
porque não pego uma bola?

E quando eu fui pegá a bola
me atrapaei meu patrão
passou pru entre meus braço
bateu numa região
que foi batendo eu caindo
espulinhando no chão. 


Esse tipo de humor, pra mim, tem alguma coisa de comédia do cinema mudo, alguma coisa de cordel, de comédia de picadeiro de circo.

E a grande graça, pra mim, está nesse verbo “espolinhar”, que é muito típico do interior do Nordeste. Uma palavra rara mas familiar, com uma sugestão visual (“espolinhar”, para mim, é cair no chão e ficar agitando as pernas, dando chutes no ar.)  

Augusto dos Anjos usa a palavra, em “A Meretriz”:

Nesse espolinhamento repugnante
o esqueleto irritado da bacante
estrala... Lembra o ruído harto azorrague
a vergastar ásperos dorsos grossos.

A palavra rara que todo mundo conhece. O mesmo que vemos tantas vezes no teatro de Lurdes Ramalho, de Ariano Suassuna, onde a todo instante brilha um diamante-bruto vocabular incrustado na pedra do idioma comum.

No poema de “Nobelina”, o narrador faz um elogio à sinfonia musical produzida por uma cama com o colchão em movimento, e depois fala de seu noivado com Nobelina. Um dia ele a flagra recebendo a arrastada-de-asa de um carioca, numa festa, e profere a sentença memorável:

Dei uma cordinha a ela
porque mulher é assim:
quando tá com a corda toda
mostra se é boa ou ruim.

Após a notícia do falecimento de José Laurentino, nesta quinta-feira, vi nas redes sociais a citação de um verso feito por ele quando do falecimento de Manoel Monteiro, o cordelista muito atuante em Campina, poucos anos atrás. Zezinho teria dito:

Manoel, por ti eu sinto 
uma saudade sem fim.
Se aí no céu encontrares 
um barzinho, um botequim, 
peça a Deus para que guarde 
um lugarzinho pra mim.