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sábado, 30 de abril de 2022

4818) A solidão dos fantasmas (30.4.2022)




Num conto de Karen Blixen, “A ceia em Elsinore” (Seven Gothic Tales, 1934), ambientado na primeira metade dos anos 1800, duas irmãs idosas reencontram o irmão que não viam há muitos anos. Tinham tido a notícia da morte dele em outro continente, e agora é sob a forma de fantasma que ele reaparece às duas. Elas não se assustam; pelo contrário. Sentam-se os três à mesa, e começam a relembrar episódios do passado, versos, cantigas da juventude... Aos poucos, ele restaura diante das irmãs a imagem de “um homem que está à vontade na companhia de outras pessoas”.
 
A certa altura, o fantasma começa a perguntar pelos idosos da família. E tio Fulano, ainda está vivo? E tia Sicrana?... E nesse momento a voz da narradora diz:
 
[Fanny] sentiu-se deprimida nesse instante. Todas aquelas pessoas já tinham morrido; ele deveria estar informado sobre isto. A solidão do seu irmão já morto fez descer uma nuvem sombria sobre seu coração.
 
Existe em nossa cultura a noção um tanto vaga de que os mortos vão todos para um mesmo lugar. Mesmo as pessoas que não acreditam exatamente numa divisão do tipo “céu, inferno e purgatório” imaginam que do lado de lá estão as almas de todos os que já se foram, e que de certo modo elas têm mais mobilidade do que temos nós aqui. Lá, seremos puro espírito. Aqui, somos acima de tudo este corpo pesadão, carente de cuidados, criador de problemas.
 
Não. O susto de Fanny é quando constata que os membros da família De Coninck, quando morrem, não ficam reunidos num feriadão eterno, sob o sol e as sombrinhas do relvado, ou aconchegados diante da lareira em tempos de neve. Cada um dos De Coninck que morre (é isto que depreendemos da leitura), vai para um lugar qualquer, e lá fica só. Talvez seja por isso que quando as irmãs lhe perguntam onde ele está agora, o rapaz responde laconicamente: “No inferno”, e não dê mais detalhes.



(Karen Blixen)
 
Crenças religiosas ocupam um espaço à parte, em relação à literatura, que tem suas próprias regras e seus objetivos. Karen Blixen, ou “Isak Dinesen”, como costumava assinar seus livros, está inventando para seu fantasma um destino que ela não pede emprestado a ninguém além da sua imaginação. E tem tanta liberdade para isto quanto May Sinclair, que num de seus contos faz o protagonista, um filósofo, encontrar-se no Além com Immanuel Kant e ter longas e agradáveis discussões filosóficas com ele. Em literatura, quem manda é o Autor. E a Autora.
 
Seria possível supor (literariamente, mesmo que não religiosamente) que as almas humanas não preexistem ao nascimento. Elas se formam no instante da concepção (ou do nascimento, como o autor preferir). Crescem com a pessoa, sofrem, aprendem, desenvolvem-se, enriquecem junto com a pessoa. E no instante da morte, essas almas separam-se pela primeira vez do corpo que lhes deu vida.
 
Para onde vão? O autor pode supor então que umas poderão se agrupar, segundo algum critério de afinidade. E outras ficarão sozinhas.
 
Talvez tenha sido este o castigo de Morten De Coninck, o filho caçula da família. Belo, inteligente, audaz. Fidalgo que se torna pirata, assassino, um aventureiro de sangue nobre que abandonou a família para se tornar um salteador dos mares, e acabar morrendo na forca, num país tropical do Caribe.
 
Rubem Fonseca, num dos seus livros (não lembro agora qual) narra o episódio do homem que, já com a corda no pescoço e os pés sobre o alçapão do cadafalso, pede ao carrasco que lhe conceda um minuto a mais de vida. O carrasco diz: “Para que?”. Ele responde: “Para que eu possa me lembrar por mais um minuto da Bela Eliza.”  E Fonseca completa dizendo que a Bela Eliza não se trata de uma mulher: era o navio com que o jovem pirata aterrorizou os mares.
 
Foi deste conto de Isak Dinesen que Fonseca extraiu esta citação (que eu me lembre, ele não cita a fonte), e o curioso jogo de ambiguidades que ela encerra. Quando ouvimos o pedido do condenado, pensamos que ele quer se lembrar, por mais um minuto, de alguma das muitas mulheres que amou, mas em seguida descobrimos tratar-se de um barco. Mas as duas irmãs de Morten são Fernande (“Fanny”) e Eliza (“Lizzie”). Ele batizou o barco com o nome da irmã, e há mais de um indício de amor incestuoso entre eles.
 
Talvez não uma paixão, mas aquele narcisismo estético e espiritual dos ricos que se consideram superiores a todo mundo, em beleza, em talentos, em encantos. Após o sumiço de Morten – que larga uma noiva no caminho do altar, e desaparece para sempre – Fanny e Lizzie não se casam, embora sejam disputadas pelos “melhores partidos” da Dinamarca na era napoleônica.


("Elsinore", René Magritte, 1944)
 
Uma velha criada da família, Madame Baeck, pensa que “...não tinham sido capazes de encontrar nenhum homem que fosse digno delas, exceto o irmão”. As belas de Elsinore, diz a narradora, mesmo depois dos trinta anos “podiam usar as jovens da cidade para limpar o chão”. São aquelas famílias que evoluem numa sucessão de castelos, mansões, cabriolés, bailes, recepções, reuniões de Estado, casamentos; uma elite “de dinheiro antigo” cada vez mais restrita a si mesma, cada vez mais isolada.
 
Morten procura (conscientemente ou não) romper com isso, larga a noiva fidalga, assume de vez o papel guerreiro que já tinha experimentado no combate a Napoleão. Foge para longe, torna-se fazendeiro e senhor de escravos nas Antilhas. Perde tudo, e acaba morrendo na forca.
 
E indo para esse lugar que ele qualifica como “o inferno”, um lugar onde não se tem notícias do mundo em que habitara.
 
Quando Morten surge na mesa para se reencontrar com as irmãs, ele explica: “Pude vir agora, como vocês estão vendo, porque o Estreito está congelado. Num caso assim, posso vir. É uma regra”.



O Estreito a que ele se refere é a faixa de mar entre Elsinore (“Helsingor”, em dinamarquês) e o porto sueco de Helsingborg. (Os dois nomes não deixam de sugerir “hell”; e Karen Blixen, como se sabe, escrevia seus contos diretamente em inglês.) São apenas quatro quilômetros de mar separando os dois portos. A imagem sugerida por Blixen é que esse estreito representa, de certo modo, a separação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Quando o mar se solidifica no Estreito, as almas podem passar.
 
No fim do conto, o relógio bate meia-noite e o espírito de Morten desaparece da mesa onde está junto às irmãs.
 
[Fanny] ficou imóvel por um longo tempo, sem fazer nenhum gesto. E da noite de inverno lá fora, da direção do norte, veio um ruído profundo, ressoante, como o eco de um disparo de canhão. As crianças de Elsinore conheciam bem o seu significado: era o gelo se partindo em algum lugar, produzindo uma comprida fenda. (trad. BT)
 
Partindo-se o gelo, parte-se a ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e Morten (o nome não é escolhido por acaso) volta para o lugar onde não vê ninguém.



("Sete Narrativas Góticas", Ed. Sesi/Senai) 









quinta-feira, 3 de março de 2022

4799) Os Revenantes, os fantasmas modernos (3.3.2022)




Escrevo de vez em quando sobre fantasmas, não porque acredite neles, mas justamente porque, não acreditando, fico incrível com a persistência desse visionarismo cultural em todos os tempos, em todas as culturas.
 
Na literatura de ficção, a história de fantasmas (ghost story), mesmo sendo tão sujeita a repetições e uso de fórmulas, oferece infinitas possibilidades dramatúrgicas. (Uso “dramaturgia” no sentido mais amplo de “criação de narrativas”; não necessariamente para o teatro.)
 
A principal limitação para a história de fantasmas, pelo meu juízo, é o fato de que a raiz da maioria delas é uma raiz meramente religiosa: a crença de que cada pessoa tem uma alma imortal e que, depois da morte do corpo, essa alma pode ser avistada pelos vivos, comunicar-se com eles, influir no seu comportamento.
 
Nada contra a hipótese religiosa, que é sempre uma fonte suculenta de inspiração. Mas eu tenho interesse especial por histórias de fantasmas onde a “aparição” não é a alma de um penitente em busca de consolo ou vingança, e sim – por exemplo – o resultado de uma fissura entre dois universos paralelos, fazendo com que pessoas de um sejam vistas no outro.
 
Seria uma hipótese mais científica, digamos, embora em termos rigorosamente científicos a existência de universos paralelos esteja tão longe de ser comprovada quanto a da alma imortal.
 
Uma variante que tem se desenvolvido nos anos mais recentes (embora com precedentes históricos um tanto antigões) é a dos revenantes, os retornados, os-que-voltaram. Pessoas oficialmente mortas que, de modo inexplicável, voltam à vida, mantendo características físicas e psicológicas que tinham antes, mantendo a memória de sua vida anterior, e tentando reintegrar-se ao mundo onde foram dados como falecidos.


O exemplo mais atual é o filme francês Les Revenants (2010) de Robin Campillo, que já foi ampliado para série de TV.  Ao ver esse filme, com seus defuntos que voltam à vida intactos, barbeados, limpos, de roupa limpa, mas amnésicos, me veio à mente a trilogia Southern Reach (2014) de Jeff VanderMeer. Comentei aqui essas duas obras:
 
 
Parecem-se um pouco com o clássico de ficção científica Solaris – livro de Stanislaw Lem (1961) e filme de Andrei Tarkovsky (1972).
 
Ali, também, pessoas mortas parecem voltar à vida meio desorientadas, sem lembrar onde estiveram, e sem saber direito o que estão fazendo ali. O protagonista deduz que elas são corpos formados por neutrinos, por influência do planeta Solaris, onde eles se encontram. O planeta acessa as lembranças mais profundas dos astronautas e as “esculpe” em matéria, dando-lhes vida.


No caso mais doloroso, é a esposa do cientista, que se suicidou porque o marido lhe dava pouca atenção. Ela volta agora, linda, jovem, carinhosa, sem saber o que lhe aconteceu, querendo afagos, e o cientista roendo-se em culpa, duplicada agora por esse retorno impossível mas real.
 
Na tradição mística oriental fala-se no conceito de tulpa. Uma tulpa, segundo os tibetanos, é uma réplica de um ser humano produzida pelo pensamento, uma projeção mental que se materializa em carne e osso. Um dos mais entusiasmados investigadores do Oculto, Colin Wilson, em Mysteries (Parte III, cap. 2) fala de pessoas que imaginaram criaturas assim, conseguiram materializá-las, mas depois perderam o controle sobre elas, tendo muito dificuldade para fazê-las desaparecer.



É nessa direção que a série Twin Peaks de David Lynch explora não apenas o reaparecimento de pessoas tidas como mortas mas também a multiplicação de réplicas de uma pessoa específica, como o Agente Cooper (Kyle MacLachlan).


Usos recentes do tema têm sido marcantes nas séries de TV. Katla  (série islandesa, uma temporada, 2021) mostra um povoado próximo a um vulcão em erupção contínua, e o reaparecimento não apenas de pessoas oficialmente mortas e sepultadas, mas de réplicas idênticas a pessoas vivas da região, que de uma hora para outra precisam encarar “clones” de si mesmas, que reivindicam para si os mesmos direitos.


Na literatura brasileira não é difícil encontrar exemplos, como o recente conto de Cristhiano Aguiar, “Lázaro” (em Gótico Nordestino, Alfaguara, 2022), em que os médicos tentam meio às pressas explicar por que razão pessoas mortas de Covid-19 começam a ressuscitar e retornar para a sociedade, que os chama de “lázaros”.

 
Roberto de Sousa Causo, em O Par – Uma Novela Amazônica (São Paulo: Humanitas, 2008), descreve uma Amazônia num futuro próximo, visitada por naves alienígenas e ocupada por forças militares. Um fenômeno estranho, deflagrado pela proximidade dos extraterrestres, faz com que no corpo de alguns indivíduos brotem “caroços” de rápido crescimento que acabam se desprendendo e se transformando em pessoas. No caso do protagonista, a falecida esposa, que passa a fazer-lhe companhia na mata.
 
Estão longe os tempos góticos quando os fantasmas eram silhuetas etéreas, ectoplásmicas, nuvens de brilho luminoso e lunar, produzindo gemidos distantes.
 
Os revenantes, os fantasmas modernos, são feitos de carne e osso, são feitos à imagem e semelhança de si mesmos. Os do filme francês surgem em casa intactos, de roupa limpa e passada (por quem?), corpos inteiros após anos de sepultura (como?).
 
E são materiais, mesmo que não sejam uma escultura de neutrinos como as aparições de Solaris. É como se no tempo de hoje, tempo do hiperrealismo nas fotos, dos vídeos de um milhão de pixels, dos clipezinhos em 5G, da tela-plana digital mostrando rugas e espinhas do âncora, precisássemos de fantasmas à altura desse excesso de realidade.
 
Fantasmas que acabam sendo uma espécie de deep-fake em três dimensões, e mais: com os arquivos de memória do defunto, porque esses revenantes conversam, voltam aos seus quartos, perguntam pela camisa tal, ou pelo livro que estavam lendo, abraçam seus cônjuges que os aceitam com um misto de desejo, saudade, repulsa e desespero.
 
Os fantasmas parecem vir de uma Matrix superposta a este mundo, e causam medo, não porque sejam agressivos ou ameaçadores, longe disso. Causam medo porque diante deles sabemos como são frágeis os nossos conceitos para definir o que é real, e o que não é.  


 
("Les Revenants", 2015)
 





sábado, 13 de junho de 2020

4589) O companheiro invisível (13.6.2020)




Meu hábito de falar sozinho não se deve a algum transtorno esquizóide, tipo “Clube da Luta” onde o mesmo cara pergunta e responde, pensando que é duas pessoas. É apenas o costume de quem escreve letras de música ou textos para atores. A gente precisa sentir, fisicamente, como uma frase é pronunciada pela boca e escutada pelos ouvidos, porque há nuances que a palavra escrita-e-lida não cobre.

Isso às vezes dá a impressão de que há alguém por perto, quando não há, e muitos contos policiais já foram criados usando, em algum momento, essa pista falsa de que “vozes foram ouvidas por trás da porta fechada”, o que seria indício da presença de duas pessoas no local – quando na verdade só havia uma.

Qualquer pessoa sente um pequeno calafrio quando ouve falar na possibilidade da presença de um ser invisível, alguém que uma pessoa vê e outras não. 

Na série de relatos radiofônicos Incrível, Fantástico, Extraordinário (publicado nos anos 1950), o radialista Almirante descreve uma brincadeira de estudantes que tiveram a idéia de pregar um susto às pessoas que saíam de uma missa, tarde da noite, e têm que passar junto ao muro lateral do cemitério.

Os garotos levam lençóis, enrolam-se neles, e quando as pessoas vêm passando eles sobem no muro e começam a andar compassadamente. Digamos que eram dez. O da frente resolve olhar para trás para ver se nenhum deles se acovardou na hora, e começa a contar: 1, 2, 3... E conta 11!  Ele grita: “Tem um a mais!...”  E há uma debandada geral.

Isso é folclore, no sentido de ser uma imagem ou situação que aparece em diferentes culturas, diferentes registros.


(Pieter Bruegel)

 Na parte V (“O Que Disse o Trovão”) de seu poema The Waste Land (1922), T. S. Eliot diz:

Quem é o terceiro que sempre caminha ao teu lado?
Quando eu conto, há apenas você e eu, juntos,
mas quando olho à nossa frente na estrada branca
há sempre outro caminhando ao teu lado,
deslizando, envolto num manto marrom, encapuçado
e não sei se é homem, se é mulher
-- mas quem é esse aí do teu outro lado?
(trad. BT)

Em suas notas, no final do poema, Eliot explica:

Estas linhas foram despertadas pelo relato de um dos homens de uma das expedições à Antártida (esqueço qual delas, mas acho que foi a de Shackleton): ali foi relatado que o grupo de exploradores, já nos limites de sua resistência, tinha a ilusão constante de que havia entre eles um membro a mais do que eles eram capazes de contar.

Sem dúvida um delírio provocado pela fome, o cansaço, o frio da Antártida. 



Em notas a outra edição, Eliot lembra o episódio bíblico em que os apóstolos sentem a presença invisível de Cristo ressuscitado, no caminho para Emaús (Evangelho de Lucas, 24: 13-35): ele caminha ao lado de dois discípulos, que conversam com ele mas não o reconhecem.

O episódio de Shackleton acabou, talvez, inspirando um conto de Sir Arthur Quiller-Couch, “The Seventh Man” (1900), em que um grupo de exploradores no Polo, semelhante ao de Shackleton, se refugia numa cabana rústica, e um deles, em estado delirante, conta e reconta o grupo de seis... e todas as vezes acha sete.

Seu olhar percorreu as silhuetas encurvadas. “Aí estão... Gaffer, David Faed, Dan Cooney, Snipe, e... George Lashman em seu beliche, é claro… e eu.” Mas então quem era o sétimo? Ele começou a contar. Aqui estou eu; Lashman, no beliche; David Faed, Gaffer, Snipe, Dan Cooney… Um, dois, três, quatro – mas isso quer dizer que são sete. Mas então, quem é o sétimo? Será que George saiu do beliche e se agachou ali? Certamente há cinco vultos agachados. Não: lá está George, posso ver perfeitamente, no beliche, e não pode nem se mexer. Então quem é o estranho? Errado de novo: não há nenhum estranho. Ele conhecia aqueles homens todos. Eram seus companheiros. Seria Bill? Não – Bill estava morto e enterrado; nenhum daqueles era Bill, ou parecia Bill. Resolveu tentar de novo. Um, dois, três, quatro, cinco. E nós dois, os doentes, sete. Gaffer, David Faed, Dan Cooney – terei contado Dan duas vezes? Não, Dan está ali, do lado direito, e é um apenas. Cinco homens agachados, e dois deitados de costas; isso dá sete, toda vez. Meu Deus.
(trad. BT)



É uma história de terror tornada mais eficaz por esse fluxo meio alucinatório da voz narrativa desse trecho, em que vemos as coisas pelos olhos do personagem.  Há em alguns momentos uma leve impressão de conto edificante, como se o sétimo homem fosse um anjo que veio protegê-los, ou fosse o companheiro morto, cujo espírito teria voltado com essa mesma função.

O outro detalhe interessante do conto é que, apesar de evocar o episódio de Shackleton, ele insere uma nova referência. Um dos personagens na cabana está lendo um livro, The Turkish Spy, onde é descrito um espetáculo de dança de palco, diante do Rei, cuidadosamente ensaiado por doze dançarinos. A certa altura, a coreografia começa a desandar, e um deles percebe que é porque agora há no palco um número ímpar de pessoas fantasiadas (e mascaradas) dançando – são treze, agora.

Quando o número termina, correm todos, apavorados, para a coxia, e fazem uma rápida contagem: são apenas os doze que estavam previstos.

Esse tipo de efeito é muito eficaz numa história de terror, para sugerir a presença de um fantasma, muito mais do que os clichês habituais da “alma de um falecido” que retorna ao mundo dos vivos para pedir justiça, perdão ou vingança, ou para mostrar onde há um tesouro escondido. É uma interferência direta no “sistema operacional” de nossa mente, que conta treze pessoas onde só podia haver doze, etc.

Vejo um eco de tudo isto no mistério do filme O Terceiro Homem (1949) de Carol Reed, em que os relatos da morte de Harry Lime, atropelado à noite por um carro, numa rua quase deserta, dizem que o corpo saiu dali carregado por três homens. Dois deles são identificados; mas, quem era o terceiro?


Há um eco também no filme O Enigma do Outro Mundo (“The Thing”, 1982), de John Carpenter, desta vez ambientado na Antártida, onde surge um alienígena capaz de matar pessoas e absorver sua matéria, assumindo sua aparência. É um grupo de homens paranóicos, cercados pelo gelo, morrendo de frio e de medo, porque sabem que o “companheiro invisível” pode estar dentro de qualquer deles.


Pois é... É como dizia Augusto dos Anjos:

Andam monstros sombrios pela estrada
e pela estrada, entre estes monstros, ando!
(“Queixas Noturnas”)


(Augusto dos Anjos, por Flávio Tavares) 

Daí que um dia eu saí de casa à noite, para uma reunião de trabalho, no apartamento de alguém. Peguei o metrô, seriam umas 8 da noite, e fui até o endereço que tinham me dado. No meio da rua, bem movimentada àquela hora, tive a sensação de que havia alguém caminhando junto de mim, um pouco atrás. Olhei por cima do ombro: ninguém. Continuei. A sensação voltou. Parei. Deixei os outros transeuntes passarem, em ambas as direções. Retomei a caminhada.

Subi sozinho no elevador, toquei na campainha. O dono da casa abriu, sorriu ao me ver, olhou por cima do meu ombro.

– Está sozinho? – perguntou.

– Sim – disse eu. – Por que?

Ele riu:

– Não sei, tive a sensação de que tinha mais gente, antes de abrir, acho que ouvi vozes.

– Eu não falei com ninguém – disse eu. – Posso entrar?...

– Claro – disse ele. – Entra aí.

Entramos.











quinta-feira, 20 de junho de 2019

4477) O fantasma e o mundo lacunar (20.6.2019)



(Shirley Jackson, em 1951)

Uma coisa que me incomoda às vezes com as histórias de fantasmas é que às vezes elas tendem a uma uniformização de explicações. O que é o fantasma? Ah, é a alma de alguém. A pessoa morreu mas a alma continua presa ao mundo material.

Acho a hipótese válida, não como explicação da realidade, mas como elemento capaz de gerar uma situação narrativa. Uma situação de drama. Ou de comédia. Uma história humana, enfim, e num universo onde coisas assim são possíveis.

Mesmo que esse universo não dure mais que o tempo dessa história.

O espiritismo kardecista – que, curiosamente, é mais uma coisa que Brasil e França compartilham de maneira especial, tal como ocorre com o culto a Santos Dumont – contamina com suas explicações muitas dessas histórias, que giram em torno das consequências morais da transposição do Umbral.

Todo fantasma é uma alma? Pode ser. Pode também ser uma materialização completa de uma pessoa, uma “alma” capaz de pegar num copo, beber água, empunhar um objeto, falar e ser ouvido por alguém.

Shirley Jackson, uma grande escritora, mais conhecida por “The Lottery” (1948) e “The Haunting of Hill House” (1959), tem um conto intitulado “The Lovely House” (1950).

Vou contar dando spoiler, porque apesar de ser uma história muito boa deve ser apenas “uma das 20 melhores de Shirley Jackson”. Tem muitas outras, melhores até, para quem não conhece.

Margaret é uma moça mediana que vai passar uns dias na imponente casa de campo da família de sua amiga Clara Montague. A época parece ser a da II Guerra.  A mansão tem salas e mais salas de obras de arte, de tapeçarias, de murais, de espelhos. É um museu vivo, onde vive o casal Montague e sua filha, e estão à espera do filho que está no exército.

Um lugar meio Downton Abbey, só que menos rico, e com apenas um trio de moradores.

Margaret (que está sempre achando que veste uma roupa inadequada), passa ali alguns dias inesquecíveis, porque a cada corredor e cada passagem há tesouros de arte em volta. A família a trata com fidalguia, com simpatia, tentando deixá-la à vontade.

Chega o filho deles, irmão de Clara. Vem fardado e acompanhado de um capitão, jovem como ele, mas mais lacônico e retraído. A família os recebe, em comitê. Todos falam ao mesmo tempo, dão pausa, depois desatam a falar de novo, riem, vão se descontraindo.

Nos dias seguintes, naquele clima lacônico e meio “vitoriano”, saem para passear, para fazer píquenique, os dois casais: Clara e o capitão; Margaret e Paul, o irmão da amiga. Todos são muito discretos, conversam cheios de reticências, de frases incompletas.

A história de Margaret é contada por ela em primeira pessoa, mas como está fora de seu ambiente e fica deslumbrada com tudo que vê (principalmente com o irmão da amiga, Paul) ela não consegue articular uma frase sequer que não seja um lugar-comum de banquete-em-família ou uma pálida tentativa de esclarecer uma dúvida, que passa despercebida.

É aquele ambiente parecido com A Era da Inocência ou com aqueles intermináveis mal-entendidos de country house nas novelas de Henry James. Viver entre aquelas pessoas atentíssimas era reconhecer a importância crucial de rituais, linguagens, parâmetros e referências.

Algumas peripécias depois, o exército chama Paul de volta e ele lamenta não poder ficar mais tempo no seio da família, que tanto ama. Margaret ergue diante dele algumas esperanças de reencontro futuro, como pipas num dia sem vento.

Quando Margaret desce, ao amanhecer do dia da partida, com o automóvel já resfolegando à porta e as malas enfileiradas no vestíbulo, vê no saguão o casal idoso, donos da casa, a amiga Clara e o capitão, que se dirige ao casal com firmeza, mas com simpatia, dizendo que as tapeçarias estão se desfiando, há vidraças quebradas, etc., e que é bom cuidar melhor da casa.

“Sim, meu filho,” diz o casal, e dá suas justificativas.

E Paul? Quem é Paul?, pergunta-se Margareth, e esta é a linha crucial de todo o conto.

O spoiler é parcial, porque na história há muito mais coisas, mas ela propõe, como várias outras histórias, uma intersecção de universos que vai além da jornada abúlica, ritualística, da alma cristã que ficou presa a um objeto, ou aposento, ou edifício, e não consegue decolar rumo à eternidade.

Sem precisar negar a existência da alma cristã, que nem é mencionada, Shirley Jackson conta-nos um mistério de tempos que coexistem sem que todo mundo o perceba.

Pode haver universos nas lacunas um do outro, como aquelas peças do xadrez a quem é permitido um movimento muito além do mero dia a dia, do avançar-uma-casa da escala de tempo em que vivemos. Seres que têm no Tempo um movimento mais extenso, até mesmo oblíquo, até mesmo em 3-D, como o cavalo...

Shirley Jackson não teoriza isso, nem precisa, nem faz falta, até porque bem de acordo com o espírito meio anacrônico daquele paraíso bucólico (visto através dela, e na última página através dos olhos do capitão) as coisas são enxergadas de maneira impressionista, numa sociedade refinada e obsoleta, onde as pessoas se comunicam por duplos-sentidos, formalidades, e indicações veladas.

Num mundo assim, fica cada vez mais difícil estabelecer um conceito tão básico quanto o do “realidade consensual”.












quinta-feira, 9 de novembro de 2017

4285) "Incrível! Fantástico! Extraordinário!" (9.11.2017)





Falei algum tempo atrás neste blog sobre a figura de Almirante (Henrique Foreis Domingues), radialista, cantor, compositor, um desses personagens fundamentais na história da música popular e do rádio no Brasil.


Almirante criou programas de variedades escutados pelo Brasil todo. Colecionava informações sobre cultura popular, cultura oral, folclore, histórias, crendices, costumes, superstições. Seu arquivo pessoal acabou se transformando no Museu da Imagem e do Som, no Rio.

Incrível! Fantástico! Extraordinário! era um programa radiofônico com histórias verdadeiras de assombração. Quando eu era pequeno, meus pais tinham esse livro das Edições O Cruzeiro, com um longo prefácio falando da importância dos contos de fantasmas, e uma série de “relatos autênticos” que foram dramatizados no programa.


No começo eu tinha medo até de tocar nesse livro. Quando estava em cima de um móvel e eu precisava mexer nele por alguma razão, eu pegava qualquer objeto comprido (uma régua, um cabo de espanador) e o empurrava. Pra não tocar.

Depois cresci, perdi o medo e li o livro todo. Minha história preferida era “A Companheira Macabra”, história de um cara (talvez um estudante de Medicina) que pega uma caveira humana de verdade e a leva de bar em bar, bebendo e dando bebida à caveira. Depois ele encontra uma mulher linda e misteriosa que começa a fazer-lhe companhia. E por aí vai.

Quando vim morar no Rio, encontrei essa primeira edição na Biblioteca Nacional.

E depois, em 1989, a Editora Francisco Alves compilou um segundo volume dos casos relatados por Almirante, com prefácio de Sérgio Cabral. É este exemplar o que tenho comigo hoje.



Os casos eram enviados pelos ouvintes, no Brasil inteiro. Histórias no perfil tradicional do conto de fantasma brasileiro. Uma pessoa que é vista depois de morta, ou no instante em que está morrendo bem longe dali. Pessoas que prometem “fazer uma visita”, morrem, mas vêm cumprir a promessa. E assim por diante.

Como escritor, essas histórias não me interessam, porque a mecânica é sempre a mesma: alguém vê a “alma” de uma pessoa que já morreu, e geralmente isso acontece para “dar uma lição de moral” aos vivos.

Alguns contos, no entanto, têm leves variantes que poderiam servir como ponto de partida para um argumento de ficção.

Como em “Fenômeno de Levitação”, ocorrido em 1949 na estrada Rio-Petrópolis. Um casal se hospeda com a filha pequena, Fanny, para pernoitar à beira da estrada. De noite, dão por falta da menina. Dão o alarma. Vem polícia, vem bombeiro, mais de 100 pessoas buscando a criança sumida. E o autor conclui:

A verdade é que minha querida Fanny, às quatro e meia da manhã do dia 27 de julho daquele ano de 1949, foi encontrada lá embaixo no fundo de um despenhadeiro de uns 80 metros, a mais de 200 metros da casa! Lá estava ela, num ponto dificílimo de ser alcançado, calmamente, sentada, sem um arranhão, sem um ferimento, tão sossegada como se estivesse em sua caminha...

Gosto quando a “vingança” do defunto se dá por outros meios. Em “O Retrato” (caso de 1944), duas irmãs, Elvira e Leonor, eram brigadas; odiavam-se, e não se falavam mais. Leonor morre e anos depois Elvira encontra o ex-cunhado, que lhe pede uma foto da falecida. Elvira vai buscar e percebe que a foto está intacta, mas Leonor não aparece mais nela. Foi apagada.  E conclui:

Seu ódio é tão forte que nem quis deixar com a irmã uma lembrança do que fora em vida.

Dramaturgicamente, o clichê do “fantasma que aparece” poderia ser substituído com vantagem pelo “fantasma que faz desaparecer as coisas relacionadas com a sua vida na Terra”.

Gente morta que aparece a gente viva me parece pouco interessante. Mais intrigantes são mistérios que ocorrem sem nenhuma morte envolvida, como em “A Irmã Ausente”, um caso de 1914 na Bahia.

Um casal tem cinco filhas e, por problemas de saúde, precisa deixar três delas passando um tempo em casa de parentes distantes. Um dia, “M.”, uma das duas crianças que ficaram, afirma que uma das irmãs ausentes, “Si”, apesar de distante apareceu de repente na casa, e ao vê-la assustou-se.

Dias depois a mãe fala com a família onde “Si” estava hospedada e ouve o relato assustado:

Então foi um caso de telepatia, de transmissão de pensamento, pois ontem à noite a Si deitou-se naquele sofá e adormeceu. De repente, ela deu um pulo e acordou toda espantada. Perguntei o que houve, se ela estava com alguma dor e ela respondeu que não, que estava sonhando com a M. E que, quando a irmã chegou perto dela, assustou-se e acordou...

Pode ser telepatia mas pode ser também uma dessas dobras do espaço-tempo em que por uma fração de segundo dois pontos distantes se tocam (como quando vamos dobrar um lençol, pegamos duas quinas distantes e as juntamos uma com ao outra).

As histórias de assombração mais interessantes são as que não têm lição moral, nem exemplo humano, nem valor afetivo, nem catarse emocional. São simplesmente inexplicáveis, como o caminhão carregado de latões (que balançam sem fazer barulho) e sem ninguém ao volante, que repetidamente ultrapassa outro veículo numa estrada deserta à noite (“O Caminhão Fantasma”, 1952) ou o caminhoneiro que ao chegar perto de uma ponte resolve parar no acostamento para tirar um cochilo, desliga o motor, apaga os faróis... e acorda quatro horas depois, mais de 20 km à frente, com o carro ainda desligado (“A Ponte Sinistra”, 1949).

A história de terror tem geralmente o viés, o cacoete, a mania de ser um conto moral, quando poderia ser uma investigação dos bugs, dos “glitches”, dos maus-funcionamentos das leis do Universo; dos erros da Matrix.










sexta-feira, 15 de maio de 2015

3815) "Os Outros" (16.5.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 16, será exibido Os Outros(“The Others”, 2001), de Alejandro Amenábar, o mesmo diretor de outro curioso filme fantástico, Abre los Ojos (1997), depois refilmado nos EUA como Vanilla Sky (de Cameron Crowe).

As histórias de casas mal assombradas não devem ser uma exclusividade nossa. Acho que toda cultura, em geral, examina a hipótese da sobrevivência da alma humana após a morte. Uma primeira divisão, portanto, seria entre as culturas que não admitem nenhuma forma de vida após a morte (morreu, acabou) e as que a acham possível. Entre estas, haveria uma segunda divisão, entre as que acham que a alma vai embora para sempre, cumprir seu destino espiritual, e as que acham que a alma pode voltar em algumas circunstâncias, ou é por algum motivo impedida de abandonar seu ambiente físico.

É no meio desta última crença que podemos situar a origem das histórias de casas assombradas, porque na esmagadora maioria destas histórias a assombração consiste em variadas formas de resíduo espiritual de pessoas que viveram ou morreram ali, ou que de alguma forma ficaram presas àquele espaço.

Eu sou dos que não acreditam em nada disso, embora me disponha a mudar de opinião no dia em que eu vir alguma coisa convincente. (Sou um cientista. Cientista não discute com fatos. O problema é que certos tipos de fato só acontecem com quem não é cientista.) As histórias de casas assombradas são, para mim, metáforas da mente humana. Aquela casa é um crânio, um cérebro. É lá dentro que estão aparecendo coisas que se recusam a morrer, a ir embora.

Os Outros (The Others) é um filme tenso, primorosamente fotografado, e que usa os espaços internos da casa como o principal vetor de inquietação para o personagem, a câmera, o espectador; uma lição de clássicos como Os Inocentes (1961) de Jack Clayton ou Desafio ao Além (1963) de Robert Wise. A “casa nova onde a família vai morar” é um espaço hostil, misterioso, cheio de ameaças. Quando a câmera se põe em movimento por dentro dela, basta isso para produzir o aperto no peito. É um filme de suspense sobrenatural com uma reviravolta final do tipo puxada-de-tapete. Como se alguém estivesse avisando, aos céticos que duvidam dos fantasmas: “Os vivos precisam aceitar que os mortos estão entre nós, e aprender a conviver com eles”.





sexta-feira, 13 de março de 2015

3761) "Os Inocentes" (14.3.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua da Alfândega com Rua 1º. de Março, pertinho do CCBB. (Após a sessão, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida, e estarei presente sempre que possível, o que não é o caso desta estréia.) Pretendo comentar aqui os filmes escolhidos, e o leitor fora do Rio pode encontrar os filmes nas locadoras e na Internet, caso se interesse.

O filme de abertura, hoje, será Os Inocentes (“The Innocents”, 1961) de Jack Clayton, provavelmente o melhor filme do diretor. É um daqueles clássicos filmes de terror em preto e branco, explorando uma fotografia cheia de claro-escuro e os cenários cheios de mistério de uma enorme mansão. São filmes mais elaborados e mais sutis do que a produção normal de terror da época, de produtoras como a Hammer Films (inglesa) e AIP (norte-americana), de orçamento mediano, feitos meio às pressas. O filme de Clayton é uma produção caprichada dirigida por um perfeccionista.

O filme é adaptado do romance Outra Volta do Parafuso (1898) de Henry James, história de uma governanta que vai morar numa mansão no campo para cuidar de um casal de crianças. A mansão é assombrada pelas aparições de um casal de ex-criados, que quando trabalharam ali viviam muito próximos às crianças e agora parecem voltar do túmulo para se apossar delas. A governanta tenta salvar as crianças desse perigo – e algumas teorias dizem que tudo aquilo é um delírio dela própria.

O livro de James é uma das melhores ilustrações da teoria do Fantástico proposta por Tzvetan Todorov em sua Introdução à Literatura Fantástica (1970). Diz Todorov que o Fantástico é uma zona indefinida entre o Estranho (histórias de fatos aparentemente sobrenaturais, mas que no fim recebem explicações realistas) e o Maravilhoso (histórias em que tudo está claramente situado num mundo sobrenatural qualquer). Histórias fantásticas (diz ele) são aquela que se concluem sem que o autor “bata o martelo” com uma explicação clara, deixando no ar a dúvida: aquilo que aconteceu foi sobrenatural ou não?

Os Inocentes é um dos grandes filmes de terror atmosférico, onde existe pouca ou nenhuma violência física, mas tudo é impregnado de uma aura de ameaça, de maldade, de corrupção.  Disse James de sua história: “Em última análise, qual a sensação que eu tinha de transmitir? A sensação de que esse casal fantasma seria capaz, como se diz, de tudo – ou seja, de exercer, com respeito às crianças, a pior ação a que as pequenas vítimas, tão sugestionáveis, pudessem estar sujeitas.”




quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

3674) Detetives do Sobrenatural (3.12.2014)



(ilustração: Romero Cavalcanti)

Corro o risco de estar cansando os leitores que me leem mais regularmente, mas vou comentar de novo minha antologia “Detetives do Sobrenatural”, que acabou de sair pela Casa da Palavra.  A melhor coisa de ser antologista é o dever moral de ler dezenas de volumes de contos alheios, e não tem coisa melhor do que isto, quando a gente tem plenos poderes para escolher o que publicar.  E em alguns casos nem precisa procurar muito, porque na primeira tomada de nota sobre o assunto já aparecem 15 ou 20 histórias já lidas, como opções mais imediatas.

Os Detetives do Oculto, como também são chamados, pisam um terreno minado, porque muitos deles não se limitam a fazer deducções numa poltrona: visitam ambientes “carregados”, encenam rituais, entram em combate direto com forças titânicas, ou satânicas, de ordem supra-material.  O gênero usa até com certa contenção o “mumbo-jumbo” teórico (com palavras tipo “plasma”, “etéreo”, etc.) além de conceitos bastante vitorianos como o duplo, o espelho, o simulacro, o mundo supramaterial... Eles examinam casas onde há fenômenos poltergeist, aparições de fantasmas, ataques de seres estranhos, eventos insólitos e inexplicáveis.

Têm um pouco de Sherlock Holmes, como é o caso (na minha antologia) de Bell (de Meade & Eustace), o Flaxman Low dos Heron, o Carnacki de Hodgson – o mais high-tech de todos, enfrentando horrores pré-lovecraftianos.  Eu chamaria a atenção para dois desses “sleuths”. Um deles é o Tio Abner, de Melville Davisson Post (autor de contos policiais de época, num meio rural austero e tenso).  No conto que escolhi, Abner enfrenta poderes do outro mundo, mas seu confronto é regido pela sua capacidade de ler pistas, de perceber intenções, de dar atenção a detalhezinhos que ninguém percebe.  Um varão tonitruante e contido do Velho Testamento, vestindo roupa de cowboy, com uma mão no revólver e a outra sobre a Bíblia.

O outro é o mais famoso detetive-do-oculto-cantador-de-viola que eu já vi: John the Balladeer, o violeiro errante de Manly Wade Wellman, informadíssimo e fluente em lendas e folclore e cultura de almanaques, sempre tirando da cartola de repentista (e da viola com cordas mágicas de prata) a canção certa para qualquer momento. Digo que ele é o mais famoso porque Wellmann tem também o John Thunstone, de perfil muito semelhante.  Mas os três livros que li com “Silver” John, the Balladeer, são uma espécie de romances regionalistas, com pequenos plots policiais ou de guerra entre poderes ocultos.  Na montanha, na floresta, no vale, no rio, nas estradas dos montes Apalaches, John vive esbarrando a toda hora em inimigos à sua altura.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

3331) Ghost Watchers (31.10.2013)



“Ghost Watchers” é um clube criado em 1998 por um grupo de entusiastas do espíritismo. Não pertencem à religião espírita; são indivíduos que tratam a mediunidade, a vida após a morte e a comunicação com os espíritos de maneira científica, pragmática. 

Investem nas faculdades mediúnicas (que têm de nascença) com o auxílio de drogas legais, disciplinas, exercícios de atenção e de concentração. 

Ficam sensíveis à presença do ectoplasma, de cujas manifestações, dizem, o mundo está cheio, mas são tão irreais para nós quanto um arco-íris para um cego.

Existem reservas de espíritos em determinadas regiões, assim como reservas de pássaros em certas áreas no campo. Na noite em que entrevistei membros do grupo, eles estavam concentrados, passeando como se fossem turistas, no quadrilátero de quatro esquinas: o vetusto hotel, a praça confortável, o cinema outrora imenso, e uma fila de restaurantes lado a lado. 

Fizemos uma visita guiada. Meu favorito foi um menino com a camisa de um time de futebol (que nenhum de nós sabia qual era), fazendo proezas na faixa de pedestres enquanto os carros o trespassavam como a um holograma. Numa alameda lateral da praça vimos desfilar um casal, a mulher com um bebê vistoso ao colo, o homem com chapéu panamá e bengala de castão. Também registramos a presença de uma moça com a blusa aberta, o cabelo preso, rindo e falando num orelhão invisível, ou que talvez não existisse mais ali.

A ruela lateral do teatro é uma mina, porque para ali convergem, mecanizados pelo hábito ou atraídos pela concha repleta de calor humano, todos os vagabundos invisíveis que não entendem direito o que está se passando. 

Vi um exemplar de flashers, aqueles espectros que surgem de repente, tornam real uma cena incrivelmente vívida, e somem logo sem deixar rastros, consumida toda a energia que tinham. 

Vi um Ecto-penitente, que se gruda ao braço dos passantes e o acompanha desfiando seu rosário de penas, cuja depressividade a vítima acaba assimilando sem ter noção do que lhe acontece.

Na segunda noite (de um sábado para um domingo), vimos um número maior, porém menos nítido ou menos focado. Casais de namorados, grupos de amigos abraçados, cantando rua afora. Pessoas conversando baixinho durante horas. 

Explicaram-me que, ao contrário da crença popular, os fantasmas ficam revivendo seus momentos felizes, não vêm pedir nada, prantear nada. Vem visitar este mundo porque é aqui que deixaram gravadas suas lembranças. “É como se o mundo,” disse-me ele, “fosse o suporte onde estão aprisionadas as lembranças deles, e eles ficassem girando nelas, e assim se tornam eternos”.