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sábado, 27 de agosto de 2022

4857) O Rio das antigas (27.8.2022)



(Rio 1890, por Marc Ferrez)
 
Terminei recentemente a vagarosa leitura de Memórias da Cidade do Rio de Janeiro (Ed. José Olympio, 1955), de Vivaldo Coaracy. Foi grande a vontade de voltar de imediato à página 1 e começar tudo-tudo de novo, porque são milhares de fatos, explicações, relatos, transcrições e comentários sobre ruas, becos, avenidas, igrejas, praças e logradouros desta cidade. Tudo no estilo engravatado mas saboroso do historiador.
 
Eu nunca teria sido historiador, porque me faltam a paciência rastreadora e o rigor comparativo; mas sou um bom leitor de romances históricos, porque mantenho até hoje a curiosidade, e uma certa capacidade de mimetismo-mental, oriunda da literatura, que me permite visualizar com relativa facilidade um ambiente social bem descrito.
 
Isto me traz à literatura, porque defendo sempre a importância dos livros que, sem serem uma grande obra de arte literária, conseguem essa rara façanha de “retratar uma época” com certa vivacidade de espírito e empatia sensorial. O enredo pode ser pobre, os personagens de papelão, o diálogo pode ser clichê... mas alguns autores, fracos nesses departamentos, conseguem ser eloquentes no âmbito da descrição. São cronistas, retratistas, “descritores” – mesmo que não sejam contistas ou romancistas. São importantes e necessários, ao seu modo. É importante distinguir.


Em todo caso, larguei “V. Cy” e peguei Coelho Neto, um dos meus romances de formação (era um dos preferidos de meu pai): A Conquista, de 1899, que tenho na segunda edição (Lello & Irmão, Porto), de 1913. Para mim é o melhor livro do autor maranhense, de quem li vários na adolescência (lá em casa tinha uns 15). A conquista é a Abolição da Escravatura, que ele narra do ponto de vista de um grupo de poetas e jornalistas, jovens idealistas, farristas, sem dinheiro e cheios de ideais.
 
É quase um roman à clef, porque é fácil perceber quem é quem: José do Patrocínio aparece sob o próprio nome, mas “Otávio Bivar” é Olavo Bilac, “Paulo Neiva” é Paula Nei, “Anselmo Ribas” e “Ruy Vaz” eram pseudônimos usados pelo próprio Coelho Netto, que se divide nesses dois protagonistas, um de dezoito anos, o outro mais velho e mais rodado.
 
Mas acima de tudo é o retrato do Rio dos anos 1880, que ele reconstitui com um envolvimento que me entusiasma de novo (eu não relia este romance há mais de 40 anos). Eis um trecho da saída dos poetas, tarde da noite, na região dos teatro e restaurantes:
 
Pararam hesitantes no meio do largo. Tílburis moviam-se lentamente; de quando em quando um partia à disparada. A ronda passava vagarosa; os animais caminhavam como sonâmbulos, maquinalmente, a cabeça baixa e os soldados, derreados, iam como embebidos na luz magnífica que o astro branco vertia. O “Stadt Coblenz”, a “Maison Moderne”, o “Caboclo” regurgitavam iluminados; às portas, grupos discutiam aos berros, agitando bengalas e, mais adiante, o “Príncipe Imperial” transbordava. O povo enchia o saguão e despejava-se amontoadamente espraiando-se em direções diferentes, e as luzes do frontão do teatro extinguiram-se subitamente ficando a rua em treva. Rodavam carros abertos, bondes enchiam-se e, de longe, vozes diferentes anunciavam com furor “empadinhas de camarão”.

 

(...) A cidade dormia. Começavam a varrer as ruas. Uma nuvem densa de poeira empanava o brilho dos lampiões e, dentro dessa bruma espessa, dum tom alourado, moviam-se homens cantando e atirando vassouradas: carroças rodavam parando de quando em quando. Raras mulheres, debruçadas às janelas, cochilavam; tílburis passavam à disparada e os dois, em passos apressados, seguiam cosidos aos muros, com os lenços à boca. Apitos trilaram ao longe e, com estrépito sonoro, os soldados da ronda passaram a toda a brida através da poeira como dois cavaleiros fantásticos. Vinham rapazes cantando num vozeirão atroador. (Cap. 1)
 
Coelho Netto é vituperado hoje em dia por seu estilo churrigueresco, ou seja, ele nunca escrevia uma palavra comum se pudesse botar ali um termo alambicado, idiossincrático, abstruso. E, como todo autor que escrevia para preencher espaços, só largava um assunto quando não lhe ocorria mais nada para dizer. Há verdade nisso, mas o fato é que era um escritor sólido, bom segurador de histórias extensas, bom rabiscador de histórias rápidas. Produziu em excesso, talvez; mas sempre sabia o que estava fazendo.
 
A Conquista deve ser seu livro mais solto, mais coloquial, mais cheio de humor, ao descrever um grupo de poetas e jornalistas jovens, namorando atrizes, alugando a pena às ambições deste ou daquele; uma versão mais leve das Ilusões Perdidas (1843) de Balzac.  Lembra também os poetas mexicanos da primeira parte de Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño (o diário do jovem García Madero): seus namoros, seus trocadilhos, seus pequenos golpes de sobrevivência, sua fascinação ingênua pelos grandes poetas do Hemisfério Norte.
 
É o Rio de Machado de Assis, mas Machado, lâmina de outro gume, não o reproduziu com essa riqueza de imagens, essa percepção dos “figurantes” como gente viva, essa vivência de ponta de rua e de lampião da esquina.
 
É um Rio surpreendente, por onde o mundo rural irrompe inesperadamente em plena noite, pegando o leitor de surpresa:
 
Vozes atroaram o silêncio e uma célere trepidação de rebanho em marcha fez com que os rapazes parassem colando-se à parede e logo dois campeiros surgiram, a cavalo, estalando chicotes, cantarolando e, em seguida, uma boiada a trote, os animais muito juntos, em bolo, silenciosos. Os grandes chifres entrebatiam-se e homens atiravam os cavalos à calçada ou passavam por entre os mansos animais, bradando, como nos campos: “Ehôoo!... toca!  Junta... êeh!...”  E a manada seguia e perdeu-se na poeira dourada donde apenas vinham os gritos dos guieiros.
– É o bife.
– Para onde vai isso?
– Para Niterói, creio eu.
Um bêbado resmungava cambaleando, às guinadas. Ouviram tinidos de campainhas e uma tropa de burros desfilou, sacolejando ceirões, a caminho do mercado.
“Vou-me embora... Vou-me embora!
É mentira, não vou não...
Se eu vou m’embora, faceira,
Deixo aqui meu coração”,
cantava languidamente o tropeiro escarranchado na bestinha viajeira, puxando a récua.
– Pleno sertão.
– É verdade.   (Cap. 1)
 
Sertão, cidade, cafés elegantes, pardieiros e cortiços, tudo se mistura nesse Rio de Janeiro que crescia aceleradamente, e que entre 1872 e 1890 praticamente dobrou de população, ultrapassando os 500 mil habitantes. 

A Conquista é um romance histórico, levemente histórico, porque a Abolição ocorre em segundo plano. Mais do que histórico é um romance de costumes, um romance que se volta para o modo como as pessoas vivem, seus valores, suas expectativas, seus objetivos, suas regras de relacionamento, etc. Para mim, além do sabor da escrita, é importante porque retrata uma certa intelectualidade literária urbana (que Machado também retratou em inúmeros contos) num momento crucial de transição.


 (Coelho Netto)


 
 
 






domingo, 26 de março de 2017

4220) A arte de escrever difícil (26.3.2017)




(ilustração: Salvador Dalí)

As palavras difíceis e as palavras fáceis são dois grandes testes para quem escreve.  Podemos chamá-las também de palavras complicadas e palavras simples, ou então de palavras raras e palavras comuns.  Tudo é a mesma coisa.

Acho que hoje em dia a grande maioria dos manuais ou das oficinas literárias aconselha as pessoas a usarem palavras simples.  Houve um tempo em que não era assim.  Palavrório rebuscado (ou, mais simplesmente: vocabulário difícil) era um sinal de talento, de erudição, de poder social. 

Principalmente no Brasil do século 19, um Brasil agrário com milhões de analfabetos, pouquíssimas universidades, e uma elite dirigente que sempre utilizou a cultura livresca e o diploma como filtros obrigatórios para a ascensão social. 

O povo podia ter a cultura que tivesse, mas só era considerado culto quem fosse capaz de usar provérbios em latim, de citar Sófocles ou Platão, de recitar em francês ou utilizar com propriedade termos obscuros. 

Muitos pretendentes a literatos dessa época costumavam folhear o dicionário de caderno em punho, anotando palavras difíceis (Objurgatória! Catafalco! Quejandos! Fâmulo! Tremebundo! Estentórico!) e depois procurando um pretexto para enfiá-la nos seus artigos ou contos. 

Um dos acusados desse cacoete é o quase esquecido Coelho Neto (1864-1934), dono de um vocabulário sonoro e cheio de preciosidades, e que foi por muito tempo considerado o maior escritor brasileiro. 

Abro ao acaso uma página de seu melhor romance, A Conquista, e logo dou de cara com “um pardieiro sombrio e lôbrego”, “lazarone”, “racimos”, “corbelhas”, “tresandava”, “comezaina”, “vinhaça”...  Podemos dar o desconto de que alguns destes termos fossem comuns em 1899, ano do livro; mas a gente vê que Coelho Neto não era autor de colocar uma palavra direta se dispusesse de um sinônimo enfeitado e obscuro. 

Uma boa comparação de estilo pomposo e estilo claro pode ser feita entre seus textos e os de Lima Barreto no recente livro Lima Barreto versus Coelho Neto: Um Fla-Flu Literário, de Mauro Rosso, que compara os artigos de ambos a respeito do futebol.


Guimarães Rosa é um dos primeiros exemplos que nos ocorrem quando pensamos numa linguagem arrevezada, troncha, abstrusa...  Palavras complicadas pareciam não faltar no seu embornal, e qualquer página aberta também ao acaso, como esta de Tutaméia, nos dá “intruge-se”, “lepidão”, “quizília”, “uca”, “sipipira”...

Entram aí regionalismos, arcaísmos, formações novas a partir de radicais conhecidos.  De tantas em tantas linhas uma palavra parece saltar da página e ficar de pé, oferecendo-se ao exame, pedindo para ser interpretada e encaixada na frase.  (E muitas vezes percebemos que a própria frase já nos indica ou insinua o que ela veladamente diz – e nisto reside uma das artes do escrever difícil.) 

E depois que o leitor pega o tom da voz narrativa de Rosa, torna-se um prazer a mais esse descascar das palavras novas para vê-las por dentro.

Existem autores que escrevem difícil numa outra clave musical, quer dizer, com o propósito de despertar um outro tipo de resposta no leitor. 

Há o caso curioso do curitibano Paulo Leminski, cujos poemas curtos eram de uma admirável limpidez de linguagem, e que por outro lado nos deu um dos romances de vocabulário mais idiossincrático em nossa literatura, o Catatau (1975).  Nele encontramos trechos destemperados como:

“Runáticos, versitergeremos, certo.  Nome, porém, não trocaremos por sinamônico algum nenhúnico!  Posso provar: tenho aprovação própria.  Pensar por pensar.  Some um círio suando de pensar, aceso na cabeça e as formigas me comendo e me levando em partículas para suas monarquias soterradas”. 

A citação mais longa é necessária para dar idéia do sabor do texto, da metralhadora verbal com que o autor dispara aparentes disparates sobre nós. 

O romance de Leminski cria um delírio verbal num tom desorientado (mas mantido do princípio ao fim com admirável coerência) para contar a história da viagem imaginária de René Descartes ao Brasil e a impressão que nosso mundo tropical e suas ervas alucinógenas despertam em sua mente lógica e científica. 

Neste caso, juntam-se palavras inventadas, palavras indecifráveis, palavras híbridas, pedaços de raízes gregas e latinas, fragmentos do tupi ou de gírias e jargões específicos. 

A palavra vale um pouco pelo que significa em si, mas talvez valha até mais em função do quanto sustenta essa voz narrativa: caótica, estilhaçada, multicultural. 

Gabriel Garcia Márquez costumava afirmar que coloca muitas palavras nos seus textos sem muita atenção para o seu significado, mas apenas pela sua capacidade de manter e prolongar certa musicalidade necessária ao encantamento da prosa.  “Basta uma palavra no lugar errado”, dizia ele, “e todo o efeito vai por água abaixo”.

Imagino que Coelho Neto queria exibir, para prazer seu e do leitor, seu preciosismo e erudição; que Rosa queria trazer para a língua geral, dentro da jurisdição de seus romances, certos processos internos do linguajar do homem do sertão mineiro.

E que Leminski produzia um caos ordenado para desequilibrar a tendência raciocinante e lógica do leitor e fazê-lo viver a experiência do mundo por dentro do personagem, de suas palavras (e um personagem literário, qualquer um, é uma criatura feita apenas de palavras e nada mais). 

A palavra difícil exige esforço do leitor, e convém que ele receba em troca alguma coisa.





(Uma outra versão deste texto foi publicada na revista Língua Portuguesa, da Editora Segmento, São Paulo, # 64, fevereiro de 2011 )





terça-feira, 7 de outubro de 2014

3624) As vozes de Dickens (7.20.2014)






Um inquietante artigo de Peter Garratt no The Guardian examina a literatura e a vida de Charles Dickens em função do que poderíamos chamar “a arte de ouvir vozes”.  A tese do autor, bastante plausível, é de que Dickens era um desses escritores que praticamente “recebem os espíritos” dos personagens.  Criando os seus romances, improvisava longos diálogos que depois eram passados para o papel.  Diz Garratt que entre 1853 e sua morte em 1870 Dickens realizou 470 performances públicas, que devemos entender como conferências e leituras dos próprios livros com alto grau de teatralidade.  Parece que Dickens eram bom nisso, porque viajou pela Europa e América fazendo essas dramatizações.



Ele cita um testemunho do próprio Dickens sobre o ato da criação literária: “Quando me sento para trabalhar num livro, algum poder benfazejo me mostra aquilo tudo, e atiça meu interesse, e eu não invento nada, não mesmo, eu somente vejo, e passo para o papel.”  Segundo ele, Dickens era interessado em mesmerismo, ilusões e alucinações. (Coisa que, uma geração depois, iria interessar autores como Doyle, Wells, etc.)  Ele provavelmente era um steampunk “avant la lettre”, mas devia ter um certo desdém pela tecnologia.  Seus garotos encardidos, maltratados nos orfanatos, perseguidos nos becos, fugindo de todos, prefiguram essa literatura dos marginais contemporâneos, só que uns marginais num mundo mais Julio Verne do que o dele.



Diz Garratt que “a experiência literária tem muito a ver com a experiência de escutar a conversa alheia.  Ler ficção é um processo de permitir que as vozes dos personagens soem em nosso ouvido interno, e de absorver os sons que produzem.”  Na minha experiência, foi Coelho Neto (Velhos & Novos) o primeiro autor que vi descrever um fenômeno que para mim era óbvio: o fato de que qualquer palavra que lemos vai sendo lida em voz alta por uma voz interior muito semelhante à nossa.  Não diria que é um fenômeno do ouvido (meus tímpanos não ouvem nada), mas do pensamento puro: pensar em palavras é imaginar seu som.


Dickens devia ser um daqueles autores que depois fizeram a fortuna das estenógrafas e dos vendedores de ditafones.  Nem sempre o autor que dita seus livros o faz com arroubos de entusiasmo.  Erle Stanley Gardner, cartesianíssimo autor, nunca perdia de vista a história nem os personagens.  Chandler, Edgar Wallace, todos ditavam para uma máquina tanto quanto Walter Scott ditava para um secretário.  Dickens não pensava em voz alta, provavelmente: tornava-se cada personagem, como num palco só dele. Quem cria assim precisa de alguém que registre.  É uma espécie de mediunidade fingida, para efeito de criação.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

2619) O absoluto literário (27.1.2011)



(ilustração: Wolstenholme)

Isaac Newton acreditava que o Tempo era um valor absoluto. Aliás, não só ele – ele e o resto da humanidade, que entendia do assunto menos do que ele. Einstein provou que o Tempo era relativo a cada observador – ou seja, se dois caras fazem trajetos diferentes pelo espaço, para um passam-se cinco anos, para outro passam-se 50. Isso desorientou os cientistas, porque não havia mais uma régua inalterável para medir as coisas.

Vejam conceitos como, p. ex., “qualidade literária”. Muita gente pensa que existe uma Qualidade absoluta, em algum ponto do Universo, servindo de parâmetro, e que livro bom é o que se aproxima daquilo. Quantas vezes já vi gente dizendo algo como: “Ora, mas se um livro é bom e a pessoa acha ele ruim, então a pessoa está errada”. Ou vice-versa.

Eu acho que Qualidade Literária se parece muito com Bolsa de Valores. As empresas cujas ações são negociadas na Bolsa têm algum valor intrínseco, sem dúvida. Não está errado imaginar que a Petrobrás ou a Vale do Rio Doce têm valor maior que o da editora de livros de poesia que funciona no fundo do quintal do meu vizinho. Mas basta haver, digamos, um boato, e as ações dessa empresas milionárias começam a despencar, sem que o seu valor material tenha decrescido um milímetro. Existe portanto um valor intrínseco (o que a companhia possui) e um valor atribuído: o conjunto das expectativas das pessoas sobre a empresa, que as faz correr atrás de suas ações e pagar qualquer preço por elas (quando acham que a empresa vai bem) ou então tentar livrar-se dessas ações o mais rápido possível e por qualquer preço (quando acham que vai mal).

A qualidade da obra de Proust ou de Coelho Neto depende muito disso. São autores que foram contemporâneos, que produziram obras extensas e complexas, e que foram considerados autores importantes quando vivos. Proust morreu em 1922; Coelho Neto em 1934. Desde então, as ações do primeiro se valorizaram sem parar, enquanto as do segundo caíram. Caíram a ponto de quem ler isto perguntar por que diabos eu estou comparando o genial Proust a esse cara de cujos cem livros ninguém ouviu falar.

Pois é. Os cem livros de Coelho Neto estão aí. Um deles, pelo menos (A Conquista, 1899), continuo achando magnífico. Outros são romances fantásticos dignos de leitura e merecedores de uma reedição (Esfinge, 1908; Imortalidade, 1926). Para o leitor de hoje, contudo, Coelho Neto está distante (e Proust está próximo) de um “absoluto literário” que ninguém consegue definir, a não ser usando tautologias (“é um grande escritor porque escreveu grandes livros”) ou o aval alheio (“a crítica inteira diz que ele é genial”). Qualidade deve ter pouco a ver com estilo ou enredos, e sim com um certo carisma verbal. Qualidade Literária é a medida da resposta provocada num público capaz de multiplicar e justificar essa resposta. Sem que isso aconteça, um livro é como uma vela apagada, um ventilador parado, uma ficha que não caiu.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

2404) O Fla-Flu literário (18.11.2010)




Um Fla-Flu literário (Ed. Bertrand Brasil/Difel, Rio), de Mauro Rosso, é um desses livros que eram necessários mas ninguém sabia, só ficou sabendo depois que ele apareceu. 

Seu conceito é simples. Nos primeiros anos do século 20, quando o futebol estava começando a se consagrar como esporte no Brasil (embora um esporte de elite, não o esporte popular de hoje), havia gente a favor e gente contra, principalmente na imprensa. 

Mauro Rosso escolheu o grande Coelho Neto como exemplo dos a-favor, e o grande Lima Barreto como exemplo dos contra. E reproduz, com fartos comentários e análises, textos dos dois escritores, numa polêmica divertida e esclarecedora.

Uma das ironias do passar do tempo é que Coelho Neto, na época considerado por alguns o maior escritor brasileiro, está hoje completamente esquecido, acho que só quem lembra dele somos eu e Mauro Rosso. E Lima Barreto, o bebum, o maluco, o marginal, é reeditado sem parar, adotado nos vestibulares e estudado nas academias. 

Para ver o que era a literatura brasileira de 1910 ou 1920, é muito educativo ver lado a lado os textos dos dois. Coelho Neto é gongórico e multíloquo (estranhou? pois era assim que ele escrevia), enquanto os textos de Lima Barreto parecem ter sido escritos semana passada. O que dá a todos nós, redatores profissionais, um recado sobre temas como o futuro da língua e as chances de permanência estilística.

Lima criou em 1919 uma “Liga Contra o Futebol”, o qual denomina “o esporte dos pontapés”. Entre outras coisas, porque o via (corretamente, na época) como um esporte das elites, dos estudantes ricos, dos filhinhos de papai, um meio social de onde negros e pobres eram excluídos. Tinha seguidores, como Carlos Sussekind de Mendonça, que publicou em 1921 o livro O sport está deseducando a mocidade brasileira

Coelho Neto amava o futebol por estas mesmas razões, ou melhor, por razões mais compreensíveis, mas indissociáveis destas. Seus filhos “Prego” e “Mano” foram jogadores famosos, e foi a morte deste último por problemas cardíacos que desgostou o pai e acabou por afastá-lo dos campos.

O livro transcreve dezenas de artigos de ambos, mostrando o ambiente social e político que cercou a prática amadorística do futebol nas primeiras décadas do século, no Rio de Janeiro. No final, há um curto mas informativo apêndice intitulado “Futebol e os intelectuais em São Paulo”, no qual ficamos sabendo, entre muitas outras coisas, que uma polêmica semelhante a esta foi travada entre Oswald de Andrade (antifutebol) e José Lins do Rego (pró).

Digno de nota também é o fato de que Lima Barreto a toda hora cita Coelho Neto, direta ou indiretamente. Neto era famoso, rico, paparicado; atacá-lo era receita certa para obter atenção. Mas Coelho Neto recebe isso com olímpica indiferença, e, ironicamente, cita Lima Barreto pelo nome apenas num dos últimos textos transcritos no livro, para elogiá-lo após a morte, chamando-o de “escritor pujante” e “boêmio de gênio”.





sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1713) Machado: contos de boemia (7.9.2008)



(Machado, por Cássio Loredano)

Alguns amigos me criticam por minimizar o talento de Machado de Assis, mas creio que laboram em erro. Considero Machado o maior escritor brasileiro. (“O maior” não existe, mas ele pertence a uma meia dúzia em quem essa carapuça caberia sem cobrir-lhe os olhos). O que há é que neste ano do centenário da sua morte as louvações banais são tantas que acaba baixando em mim um espírito machadiano, frio, analítico, britânico, irreverente... Dá vontade de fazer com os contos dele o que Fortunato fazia com o rato.

Falei aqui sobre o Polígono Boêmio, um dos artifícios narrativos mais comuns em Machado, e que em muitos casos lhe serve como pretexto para fazer um personagem contar uma história aos demais. Essa situação também lhe serve, em outras histórias, para narrar o cotidiano desses grupos. Nestes casos, Machado fica lado a lado com aqueles escritores que contam o Brasil dos jovens intelectuais, que discutem livros, poemas, política, mulheres e amores.

São contos típicos de juventude, e ali se enquadram textos como “Vinte anos! Vinte anos!”, “Uma por outra”, “Um erradio”, etc.. São histórias de juventude boêmia carioca, dos cafés, dos restaurantes, dos teatros. Rapazes intelectuais, com moedas contadas no bolso, filando cigarros uns dos outros, ocasionalmente tendo dinheiro bastante para ir à ópera e depois a um restaurante chique. Flertando com moças da sociedade, filhas de fidalgos da corte, e passando as madrugadas nos cafés, em companhia de cocotes francesas. Recitando sonetos, escrevendo versos de propaganda para casas comerciais em troca de alguns mil-réis, declamando em francês e em latim, envolvendo-se em querelas políticas do Império. Desfechando trocadilhos mordazes e epigramas satíricos contra os adversários de ocasião.

O romance que para mim é o melhor retrato dessa época e desse meio intelectual é o magistral A Conquista, de Coelho Neto. Um pouco dessa “festa móvel” transbordou para livros de memorialismo e de biografia, como No tempo de Paula Nei de Ciro Vieira da Cunha, A vida exuberante de Olavo Bilac de Eloy Pontes, Emílio de Menezes, o último boêmio de Raimundo de Menezes, A vida literária do Brasil – 1900 de Brito Broca. Na segunda metade do século, essa literatura ressurgiu em obras como O Encontro Marcado de Fernando Sabino, Os Novos de Luiz Vilela, A morte de D. J. em Paris de Roberto Drummond.

No que tem de melhor, esses romances e contos nos trazem o espírito de juventude irreprimível que todos nós sentimos em certas fases da vida, que aliás não dependem da idade cronológica. São momentos em que nos sentimos perpassados por um entusiasmo de viver, de experimentar coisas, de criar, de desafiar os clássicos da arte e do pensamento. Momentos assim muitas vezes resultam em grande literatura, quando há grandes escritores envolvidos. Quando não há... resultam na felicidade modesta dos invisíveis, que não é menos felicidade por não resultar em livro.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

0984) Roman à clef (12.5.2006)


(Coelho Neto)

Esta expressão (que se pronuncia “romanaclê”) significa “romance com chave”, e se aplica a certa obras literárias que usam pessoas reais ocultas sob nomes fictícios. Escritores recorrem a isto por diferentes motivos. Às vezes o cara quer descrever o espírito de uma época, os tipos humanos que a caracterizaram, e quer utilizar episódios reais; mas ao mesmo tempo quer ter liberdade suficiente para dar uma ajeitadinha nos fatos, fazer com que ocorram de uma maneira mais interessante do que realmente ocorreram; em suma, copidescar a História. Aí, em vez de um relato autobiográfico, faz um romance-com-chave onde personagens e fatos são alternadamente reais e inventados.

Um dos meus exemplos preferidos é a obra-prima A Conquista, de Coelho Neto, onde ele mostra a vida boêmia e literária do Rio de Janeiro durante a Campanha da Abolição. Alguns personagens históricos aparecem sob seu próprio nome, como José do Patrocínio. Outros, sob nomes mal disfarçados: “Otávio Bivar” é Olavo Bilac, “Paulo Neiva” é Paula Nei, e assim por diante. Outros, como “Anselmo Ribas” e “Ruy Vaz”, são pseudônimos que o próprio Coelho Neto usou na vida literária, e parecem corresponder a diferentes facetas do próprio autor.

Pode ocorrer que o autor queira fugir a eventuais processos jurídicos por estar descrevendo pessoas reais de forma pouco lisonjeira. Contar os milagres e trocar os nomes dos santos passa a ser uma manobra lícita para escapar a um processo (embora nem sempre o autor escape de vinganças por meios não-oficiais). Outras vezes, o autor faz uma alegoria totalmente distanciada da realidade que está descrevendo, mas ainda assim quer deixar claro quem é quem: um exemplo disto é A Revolução dos Bichos de George Orwell, uma sátira à Revolução Russa, onde “Napoleão” é Stálin, “Bola de Neve” é Trotsky, e assim por diante.

Autores que descrevem um ambiente social repleto de gente famosa sabem que bastam dois ou três traços para dar ao leitor a pista sobre quem é quem, como ocorre com obras como as de F. Scott Fitzgerald ou Marcel Proust. Faz parte do espírito da coisa que um “roman à clef” não dê nenhuma pista explícita sobre esse tipo de correspondência, deixando que os críticos literários e as colunas de fofocas (dois círculos que muitas vezes se interseccionam) se encarreguem de montar o quebra-cabeças.

O perigo de um “roman à clef” é permitir que este jogo de identificações e substituições se torne mais importante que a obra literária. Hoje, não precisamos saber a quem correspondem os personagens de Fitzgerald. Seus livros se sustentam sozinhos, sem o álibi da vida real para lhes conferir substância de forma indireta. Sustentam-se enquanto histórias, e seus personagens valem porque são personagens antes de serem ecos ou referências a pessoas que existiram um dia. Infelizmente, na maioria dos romances com chave, se tirarmos a chave não fica quase nada para sustentar o romance.

domingo, 27 de julho de 2008

0468) Coelho Neto (18.9.2004)



Toda semana, quando penso em preencher esta coluna, sofro um calafrio de pânico: “Não dá, não vai dar, não vou conseguir.” Tenho conseguido, em parte com a ajuda de Coelho Neto. Se Coelho Neto conseguia, por que não eu? Este respeitável cronista já foi considerado O Maior Escritor Brasileiro, como tantos outros que hoje empoeiram no arquivo-morto da Literatura. Era um dos autores favoritos de meu pai, que tinha em suas estantes uma longa fileira de títulos seus, editados por Lello & Irmão, de Lisboa. As crônicas de Coelho Neto abordavam muitas vezes assuntos, como a política de 1900, totalmente opacos para um leitor de 14 anos, mas o grande lance era o seu vocabulário, aparentemente inesgotável. Ainda hoje lembro de palavras suas (“imarcessível”, “sotopostos”) que não reencontrei em nenhum outro autor.

Suas crônicas e pequenas histórias estão reunidas em livros como Às Quintas, Velhos e Novos, Lanterna Mágica, Água de Juventa, e foram o meu primeiro contato com esta curiosa atividade humana que é escrever todos os dias. Logo em seguida tomei conhecimento da obra de Humberto de Campos, outro cronista inesgotável, contemporâneo de Coelho Neto (e maranhense, como ele). Não posso deixar de admirar a quantidade de texto que esses caras produziram na era do papel almaço, da pena e do tinteiro. Semanas atrás, numa exposição no Banco Santos, em São Paulo, vi um manuscrito original de Coelho Neto. Era a mesma letra miudinha, desenhadinha, que eu tinha visto na infância, no fac-símile de uma página sua na Enciclopédia Delta-Larousse. Além de escrever caudalosamente, o cara ainda o fazia com uma letra caligráfica, que nunca se alterava.

Seus romances realistas (Sertão, Inverno em Flor, Banzo, Miragem, O Rajá do Pendjab) nunca me interessaram muito, e não creio ter lido nenhum deles até o fim. Guardo deles uma colagem de fazendas no interior, pessoas tuberculosas, escravos sofredores, patriarcas despóticos, casamentos sombrios. Prefiro seus romances fantásticos, como Imortalidade, uma lenda medieval sobre o elixir da vida eterna, e Esfinge, uma curiosa fábula alquímico-esotérica sobre um casal de gêmeos que sofre um acidente e consegue sobreviver com a cabeça da moça sendo transplantada para o corpo do rapaz.

Seu melhor livro, dos que conheço, é A Conquista, crônica da juventude boêmia do Rio na década de 1880, durante a campanha abolicionista. É um “roman à clef”, com personagens históricos que aparecem sob seu verdadeiro nome (como José do Patrocínio) ou sob nomes supostos: Anselmo Ribas e Ruy Vaz (alter-egos do próprio Coelho Neto), Paulo Neiva (Paula Nei), Otávio Bivar (Olavo Bilac), etc. Já pensei em adaptá-lo para o cinema, transpondo a ação para a década de 1980, durante a campanha das “Diretas Já”, e mantendo seus divertidos episódios de poetas e jornalistas sempre na pindaíba, fazendo versos, namorando, pedindo dinheiro emprestado, e vivendo um momento histórico que não se repete.