segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

5022) A palavra gole (15.1.2024)




 
Um dos melhores sinônimos de literatura é a expressão popular “palavra puxa palavra”, porque as palavras nunca estão soltas. Estão presas umas às outras, como as contas de compridos colares que não acabam nunca, ou como os átomos que se prendem uns aos outros em moléculas. Você pega um deles com cuidado, quer somente ele, puxa devagarinho com a pinça... e todo o resto vem junto. 
 
Dias atrás eu estava lembrando dos tempos de farra lá em Campina Grande. Nessa época a nossa cachaça preferida era a Casa Grande, alternativa contestatória à predominância econômica da Caranguejo, fabricada às margens do Açude Velho. 
 
A gente estava num bar (não lembro qual) cujo dono se orgulhava de ter algumas cachaças especiais. Um conhecido nosso (não me lembro quem) tinha terminado de enxugar sozinho uma garrafa de Casa Grande, aí o dono do bar disse: 
 
-- Tou vendo que você aprecia a boa cachaça. Eu tenho uma cana-de-cabeça aqui que é do engenho do meu tio, é melhor do que Rainha. Quer provar?... 
 
Era uma provocação, porque o camarada já estava pra lá do meridiano 35, mas na voz de cana-de-cabeça ele se empertigou, focalizou o olhar, hesitou um pouco e, erguendo dois dedos no ar, imitando o gesto do Prof. Raimundo, de Chico Anysio, concedeu: 
 
-- Quero. Mas só um góipizim...
 
Palavra puxa palavra, e nesse mesmo dia eu lembrei outro fato. Na nossa casa do Alto Branco minha mãe dispunha de uma milícia informal de ajudantes domésticas que vez por outra prestavam algum serviço lá em casa. Eram as mulheres humildes que moravam espalhadas pela vizinhança, muitas delas nas casinhas de barro que ficavam por trás do muro do nosso quintal. Um lumpen-matriarcado composto de lavadeiras, engomadeiras, cozinheiras, arrumadeiras, prestadoras de serviços gerais que Mãe às vezes contratava com salário por alguns meses, e em outros momentos apareciam num dia de tarefa específica. 
 
E um dia eu estava zanzando por dentro de casa quando surge à porta dos fundos uma delas, trazendo à cabeça uma pesada trouxa de roupa lavada. Era um dia quente, de sol forte. Mãe a ajudou a botar a trouxa em cima da mesa e disse: 
 
-- Que calor, hein, Dona Maria?... Quer uma agüinha?...
 
E ela disse:
 
-- Só um góipizim, Dona Cleuza... 
 
Um góipe significa um golpe – e para mim era óbvio que um golpe significa um gole
 
As palavras são invisíveis para as pessoas que as usam sem prestar atenção. Eu sou daquele clube para quem elas são mais do que visíveis: são concretas, palpáveis, têm peso e dimensões, têm história e geografia, e, como dizia Guimarães Rosa, “têm canto e plumagem”. 
 
Não me passou despercebido que nas histórias em quadrinhos, toda vez que um personagem “engole em seco” (por nervosismo, constrangimento, etc.) a onomatopéia projetada no espaço é GULP!  E meu inestimável “Webster/Houaiss”, adquirido em 1987 quando comecei a traduzir para a Ed. Record, logo me informou que “to gulp” é de fato “engolir”. 




“Góipe” é uma corruptela de “golpe”, de “gulp”, de “gole”. Vale destacar que a lavadeira de minha mãe, quando usou essa palavra, o fez sem afetação alguma; era a palavra que ela conhecia, num contexto de conversa amigável com uma pessoa de sua convivência. E quando o bêbo aceitou a dose de cana-de-cabeça, usou a corruptela “góipizim” de forma espirituosa, como um gracejo. Ele não falava assim em sua vida normal. Era um daqueles professores jovens do Campus II da UFPB que no fim das manhãs de sábado iam para o Caldo de Peixe tomar umas e outras, e discutir tropicalismo, marxismo, armorialismo. 
 
Adivinhar as origens das palavras e os parentescos entre elas nunca é trabalho jogado fora, para quem quer ser jornalista, escritor, tradutor. Essa mania muitas vezes nos leva a cometer enganos, iludidos por semelhanças superficiais. (Dias atrás, comentei aqui minhas tentativas frustradas de descobrir se a palavra “obrigado” vinha do verbo “brigar”; não vem.) E pode nos proporcionar também uma diversão extra – inventar etimologias fictícias para uma palavra qualquer. 
 
Mas... voltando ao tema principal, como num sinfonia: de que maneira a palavra “golpe” adquiriu a pronúncia popular “góipe”? É um processo lento e sujeito às influências do Acaso, mas que pode ser rastreado. A Linguística tem certamente um termo específico para esse tipo de erosão fonética, ou de amaciamento sonoro. É algo que pode inclusive ser previsto, quando imaginamos como pode ser nosso idioma a 200 anos no futuro; e pode ser deduzido retroativamente, se nos projetarmos 200 anos no passado. 
 
Há uma certa tendência (corrijam-me os linguistas) amolecendo esse som de “L” (e às vezes de “LH”) num “I” que flui mais solto quando articulado em voz alta. (Lembrem-se, nada aqui tem a ver com letras escritas; estamos falando de sons.) 
 
Quando um nordestino pede na feirinha livre “um mói de coentro” ele está pedindo “um molho de coentro”. Quando ele diz que “Isso aqui é muito paia”, está dizendo que “é muito palha”, para dizer que não presta. E nem vou falar em termos como véio e véia, que todo mundo entende. 
 
Prefiro lembrar a piada clássica do barbeiro matuto, que depois de escanhoar o cliente pergunta, solícito: “Qué áico, táico, ou qué que mói?...” (“Quer álcool, talco, ou quer que molhe?...”). 
 
Tudo isto aqui está em formato de afirmações, mas são apenas hipóteses. Uma hipótese deve sempre vir em forma de afirmação, para despertar a sanha contestatória dos leitores, de onde tanto pode vir mero som e fúria, quanto um raio de luz nas trevas do nosso desconhecimento coletivo. 
 
Não tenho nenhuma hipótese de como a palavra “golpe” veio a significar “gole”, ou de como esta, que talvez seja mais antiga, acolheu essa variante. Registro apenas uma terceira ocorrência, muito próxima aos dois: o verbo “golfar” e o substantivo “golfada”. “O sangue golfava de um profundo ferimento que ele tinha no peito...”  “Traz um pano aí, o bebê está golfando...” Em ambos os casos, trata-se de pequenas quantidades de líquido, como num “gole”. 
 
É bom registrar que “golfada”  também sofre a mesma corruptela e aparece na linguagem nordestina como “goipada”, no sentido de “cuspida”, ou de “golfada de vômito”.


 
(DICIONÁRIO DE PARAIBÊS, Vicente Campos Filho)


Já na casa dos 20-30, folheando “bandas desenhadas” francesas, me deparei com a exclamação “Ta gueule!...” que minha inteligência artificial traduzia como “Tua goela!...”, ou seja, tua garganta. Aos poucos, por superposição de diferentes contextos, de Wolinski a Tintin, fui deduzindo um significado tipo “”Fecha essa matraca!...” Permaneceu, no entanto, a associação com “goela”, principalmente através da gíria campinense “bicho-güela”, no sentido de “sujeito falastrão, gabola, mas envolvente, com papo-de-derrubar-avião”.



 
E depois, vasculhando os dicionários à cata de uma palavra nova aqui, outra ali, fui percebendo a quantidade de palavras ligadas entre si por proximidade sonora/estrutural e vizinhança semântica. 
 
Goela = pescoço, garganta, falação 
Güelar = ganhar no papo, na conversa finória. “Preciso güelar um convite pra essa festa, vou dizer que sou músico-reserva da banda.” 
Gola = parte do vestuário em volta da garganta 
Gula = apetite excessivo 
Guloseima = comidinha gostosa 

... e por aí vai.
 
Ao verificar a relação entre “gueule / goela”, não pude deixar de pensar: “E a palavra pescoço?... Que papel desempenha nessa nuvem semântica?...”  
 
Claro que já havia uma certa pulsão rabelaisiana nessa linha de pesquisa, pois todo mundo sabe que “pescoço” em francês é “cou”; se não todo mundo, pelo menos Campina Grande inteira sabe, porque a quantidade de piadas, anedotas e gracejos envolvendo estas palavras daria um livro. 
 
Pescoço em francês é “cou”, mas também é grafado como “col” – e vejam como a Terra é mesmo redonda, a gente dá uma volta tão longa e retorna ao português. “Colo” é pescoço, sim, lembrem da personagem de Arsène Lupin, “Edite, colo de cisne”. Só que devido ao sacolejo dos séculos a palavra aqui foi se espalhando por toda a parte fronteira do corpo – falamos de uma mulher cujo decote a deixa “com o colo à mostra”, falamos de “trazer um bebê ao colo”, falamos de “sentar no colo”... Mas tudo isso, palpito eu, escorre do pescoço. “Colar” (o adereço) deve ter a mesma origem: algo que se usa ao pescoço. 



 
O trajeto dos dominós veio se encaixando assim: golpe / gole / goela / pescoço / cou / ... E num estalo completei mais uma volta e cheguei ao ponto de partida: golpe é francês é coup, de onde vêm as expressões famosas “coup de grâce” (“golpe de misericórdia”) e “coup d’état” (“golpe de estado”). Coup é associado ao verbo “couper”, cortar. Parece que os franceses têm uma tradição guilhotinadora, enquanto outros países optavam pelo fuzilamento e a cadeira elétrica. Quando fui verificar coup, no entanto, o que encontro como sentidos possíveis? 




O mesmo sentido que deu início a este passeio: “golpe” (coup) quer dizer “gole (de bebida)” (coup).
 
Claro que estas associações de idéias não são fixas nem têm todas as mesmas nuances. Cada cultura e, mais, cada pessoa projeta vibraçõezinhas diferentes em tudo que diz. Chego mesmo a concordar com Douglas Hofstadter, quando no seu incrível Le Ton Beau de Marot (1997, cap. 10), ele questiona: 
 
Um novaiorquino do Upper East Side fala a mesma linguagem de outro que é do Upper West Side? “Central Park” significa a mesma coisa para ambos? E o que dizer de “Broadway”? E de “cachorro”? E de “coisa”? E de “um”?
 
Um golpe, no meu dicionário afetivo, seria apenas um góipizim de cachaça que a gente vira, pra esquentar as brasas do juízo e colorir o rosto da Natureza.