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sexta-feira, 14 de novembro de 2025

5207) Quem é Susan? (14.11.2025)



 
É um meme que circula por aí há muito tempo, e cada ver que emerge na tela eu solto uma gargalhada. O texto é em inglês. Alguém aplica uma prova para crianças, com problemas simples de Matemática. 
 
O problema destacado na foto diz: 
 
Jane tem 12 lápis, e Kim tem 7 lápis. Quantos lápis Susan tem a mais do que Kim? 
 
E no espaço para a resposta a criança escreveu: 
 
Quem é Susan? 
 
Este pequeno episódio gera tantas idéias que chega dá uma vertigem. 
 
A primeira coisa que me ocorre é: a resposta da criança foi considerada certa? A criança perdeu o ponto? Sei de muitos colégios, e já vi muitos exemplos, em que uma criança questiona uma pergunta-de-prova. Questiona de uma maneira totalmente aceitável, mas perde o ponto e ganha uma repreensão. 
 
(O que, no-fundo-no-fundo, é muito mais educativo do que passar-lhe a mão na trunfa e proclamá-la inteligentinha. A punição por questionar a autoridade avisa: “Filhota, o mundo funciona assim, caia na estrada e perigas ver.”) 
 
A segunda coisa é a pena que eu tenho da professora que elaborou a prova. Esse texto deve ter sido preparado tarde da noite, após um dia estafante, um jantar conflituoso ou às pressas, uma pilha de provas para corrigir, outra prova para preparar, e chega um momento em que as perguntas envolvem tantas “Susans” e “Marys” e o escambau... Não há como não errar, e como não ter pena de quem erra. 
 
A terceira coisa é a quebra existencialista. A criança está crescendo, aprendendo a ler, a escrever, a fazer contas, e é nesta fase que começa a ser-lhe vendido, em suaves e eternas prestações, o enorme Falso Bilhete Premiado da Loteria que é a entrada no mundo adulto. “Estude, pra se formar, arranjar um bom emprego, ganhar dinheiro e casar.” E a venda desse bilhete depende terrivelmente da idéia de que a vida é bela, o mundo é justo, o país vai pra frente, a felicidade é para todos, a honestidade é recompensada... 
 
Enfim: é uma cartela inteira de bilhetes que a criança está comprando com seu esforço. 



 
E de repente, no meio daquilo, aparece o equivalente à cara de um palhaço estirando a língua, botando os polegares nos ouvidos e agitando os dedos. Tem um erro na prova. A realidade está bugada. O mundo é falso. Os professores erram. Os padres pecam. Os jornalistas mentem. A polícia comete crimes. 
 
Quem é Susan? 
 
Esta Susan invisível e intrusa é o sexto lado do Pentágono, a terceira margem do rio? Algo que não podia existir, mas está ali? 
 
Por trás de uma contazinha aritmética inofensiva (12 – 7 = 5) foi introduzida uma serpente daninha e perniciosa no Éden da Matemática: o elemento humano. Enquanto se tratasse apenas de Jane e de Kim, que por definição já faziam parte do problema, tudo se resumia a fazer as contas, de forma impessoal e não-envolvida. Você tem tantos, e você tem tantos. Mas de repente aparece um nome não previsto na equação. Um elemento humano intruso, não-convidado, que não estava na ficha técnica do mundo. 
 
Os problemas escolares de Matemática são assim: não admitem o elemento humano, que está ali só para ilustração. “Joãozinho comprou 50 melancias na feira, mas no trajeto perdeu 8; quantas melancias Joãozinho trouxe para casa?...” Ninguém ousará perguntar: “Mas para que Joãozinho queria tantas melancias? E ele estava sozinho? Ele trouxe as melancias num carrinho, num táxi, num cesto?...”  Essas questões são proibidas. A única função da existência do hipotético Joãozinho é ajudar a entender que 50 – 8 – 42. 
 
Quem é Susan? 
 
Susan é um clinâmen, um salto quântico inesperado, uma mutação não prevista. Alguém que não estava nos cálculos mas de repente irrompeu problema adentro, estraçalhando tudo com sua existência intrusa. 
 
É o “J. Pinto Fernandes” que não estava na história mas chega de repente e arrebata consigo a sapeca Lili, no poema de Carlos Drummond (“Quadrilha”). 
 
Ou então é alguém parente do sujeito que vai passando na rua e alguém lhe grita: “Manuel, tua mulher está passando mal na tua casa em Niterói!...” e ele dispara na carreira, pega um táxi, e quando está no meio da ponte pensa consigo: “Mas... espere aí... eu não me chamo Manuel, eu sou solteiro, e eu não moro em Niterói!...”. 
 
Georges Perec (a quem devo a dica do conceito de clinâmen, já comentado aqui no blog) dizia que o uso de uma “contrainte” na literatura, ou seja, o uso de uma regra auto-imposta pelo autor, deve sempre permitir uma exceção. O sujeito pode dizer: “Vou escrever um texto em que todas as palavras começam pela letra C”, e ele deve ser capaz de obedecer a essa regra; mas no final, depois do texto impecavelmente pronto, ele deve (diz Perec) inserir discretamente, sutilmente, uma palavrinha que não obedece à regra. Uma exceção proposital, que ele poderia perfeitamente ter evitado. Por que? 
 
Veja aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/search/label/clin%C3%A2men
 
Respondo: para contaminar de realidade e de imprevisto esse “constructo” artificial que é a literatura. Para contar (digamos, hipoteticamente) a história completa da família Buendía, com seus prenomes maniacamente repetidos, mas poder, a certa altura, dizer algo como: 
 
Nesse instante, bateram na porta da frente, a avó Úrsula disse: “Aureliano, tem gente batendo, vá ver quem é”. Aureliano abriu a porta para uma moça loura, de olhos azuis. “Quem é a senhorita?”, perguntou. E ela disse: “Eu sou Susan”. 

 




 
 




sábado, 24 de setembro de 2022

4866) É verdade esse bilete (24.9.2022)


O professor Douglas R. Hofstadter, um dos meus cientistas favoritos, propôs em seus livros (principalmente em Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid, 1979) o conceito de “strange loop”, que pode ser traduzido aproximadamente por “laço estranho”. Um loop é algum processo cujo fim se engata no começo, como uma serpente mordendo a ponta da própria cauda. Usa-se muito em música eletrônica – um loop musical é em geral um trecho de alguns segundos que se repete, ciclicamente. Toda vez que chega ao fim, começa outra vez.
 
O “laço estranho” proposto por Hofstadter é mais complexo. Na definição dele, ocorre quando movemos através de níveis superpostos, em que cada um é hierarquicamente superior ao que lhe está por baixo, e quando subimos ou descemos um nível percebemos inesperadamente que estamos de volta no ponto de onde partimos.
 
Aliás, essa sensação desconcertante de estar de volta, sem querer, ao ponto de partida, é muito explorada em filmes de terror por exemplo – pessoas que querem fugir de uma cidade mas todas as ruas levam de volta ao lugar ameaçador do qual querem se distanciar, por exemplo.
 
É uma situação uncanny, e digo isto porque Freud, em seu ensaio O Estranho (“The Uncanny”, 1919) relata uma vez, numa cidade da Itália, em que ele estava andando à toa, e percebeu que tinha entrado na zona do baixo meretrício local. Toda vez que ele pegava uma rua para se afastar dali, a rua fazia uma curva e o trazia de volta. Freud explica?...
 
O problema sugerido por Hofstadter, como falei, é mais complexo. Freud estava vagando num mesmo nível hierárquico, ou seja, num mesmo plano de realidade (a cidade italiana). Mas imaginemos dois planos diferentes. A gravura de M. C. Escher “Print Gallery” mostra um bom exemplo. Um homem, numa galeria de arte, contempla a gravura de uma cidade; em cada área do quadro os objetos são vistos num grau maior de aumento, de forma que o edifício mostrado na gravura exibe uma galeria onde um homem (ele próprio) contempla uma galeria análoga.


A gravura mostrada no quadro contém a cidade, o prédio e a própria galeria onde a gravura está exposta. Isto é um “laço estranho”. Nós retornamos, sem haver nenhuma quebra de continuidade aparente, ao ponto onde estávamos. Hofstadter chama isso de “tangled hierarchies”, hierarquias entrelaçadas – quando em tese deveriam ser isoladas uma da outra, gravura é gravura, realidade é realidade.
 
Um exemplo dos mais divertidos é o filme de Woody Allen A Rosa Púrpura do Cairo, em que se misturam duas hierarquias: o filme que passa na tela, os espectadores na platéia. Atores descem da tela para a sala, batem boca com os que continuam lá em cima, num sincronismo perfeito e sem a menor dificuldade de compreensão para o espectador.


Vou usar de modo um tanto livre esse conceito aplicado a textos. Os exemplos na ficção são inúmeros – livros onde de certa forma a “realidade interna” do livro é quebrada e o mundo do leitor se insinua lá para dentro (ou vice-versa – os personagens “vazam” aqui para fora.)  Mas vou usar alguns memes que aparecem recorrentemente nas redes sociais, alguns devem ser inventados, outros autênticos, não importa: importa que sugerem variantes ao conceito de “hierarquias entrelaçadas”.

 
O primeiro deles é o mais famoso, que usei no título. O garoto, ao que parece, escreveu de forma canhestra e infantil um bilhete para os pais. (Vamos supor, por hipótese de trabalho, que tudo ocorreu assim.)


SENHORES PAES. AMANHÃ NÃO VAI TER AULA POORQUE [sic] PODE SER FERIADO

ASSINADO: TIA. PAULINHA

É VERDADE ESSE BILETE

 

Existe aí uma tentativa ingênua de falsificar um comunicado oficial do colégio. Que já desmorona no aspecto material: o papelucho rasgado, a caligrafia denunciadora, etc. O garoto terá feito isto a sério? Ele chegou a acreditar que os pais acreditariam? Parece que quando chegou A Hora Da Verdade – a temível hora de botar no papel as nossas Grandes Idéias – a rebordosa da realidade bateu com força e ele foi percebendo a enrascada em que se metera.


O problema aumentou quando ele assinou o nome da professora do único jeito que sabia: “Tia Paulinha”. E em desespero de causa ele adicionou a frase que hoje é famosa: “É verdade esse bilete”.
 
Existe aí um “laço estranho” misturando várias hierarquias: o bilhete pretensamente real; os “furos”, evidentes até para o falsificador; a frase em-desespero-de-causa; e por último um fator extra-texto mas não menos importante – o bilhete (ao que parece), foi entregue, mesmo em plena auto-decomposição semiótica.
 
O segundo exemplo é outro que sempre me provoca uma risada de primeira-vez quando o reencontro nas redes sociais.
 
Também escrito num pedaço rasgado de um caderno escolar, o recado diz apenas:
 


Mamãe, a chave está debaixo do tapete.

Ladrão, vai à merda.

Claudete

 

Quem nunca deixou a chave de casa embaixo do tapete “Bem Vindo” à porta? Ou no vaso de planta do terraço? Ou no quadro-de-luz? Ou em cima da soleira da porta? As possibilidades, como sempre, são infinitas. (Eu preciso usar esta frase como meu epitáfio.)
 
Claudete começou a escrever o bilhete pensando em deixá-lo na porta, provavelmente, mas no próprio ato de rabiscar percebeu que não tinha muita diferença entre deixar a chave à mostra e deixar um bilhete revelando onde ela estava escondida.
 
A primeira frase do bilhete é uma informação que se auto-invalida no momento em que é recebida pela pessoa errada. Claudete se aperreou. Como revelar o local da chave à mãe, mas não ao possível ladrão? Ela deixou lá, e desabafou: “Ladrão, vai à merda”.
 
É um “laço estranho”, porque o bilhete se dirigia a duas pessoas, na certeza de que qualquer uma das duas que lesse impediria a outra de fazer o mesmo. E o fato de que o bilhete foi deixado no local (presumo isto, como hipótese de trabalho) é um “gesto informativo” a mais. Ela confiou que a possibilidade do bilhete ir parar nas mãos do ladrão era confortavelmente menor do que de ir para nas mãos da mãe. Deixou o bilhete, e mandou o ladrão à merda. (No que fez muito bem.)
 
O terceiro exemplo é também muito gozado, mas aqui não se trata de um recado, e sim de um diálogo via WhatsApp.
 


Ciço, acho que tô buchuda.

 

Watsapp informa: nosso cliente

não utiliza mais esse serviço móvel

para troca de mensagens instantâneas.

 

Deixa de ser ridículo! Eu sei

que é você! Você escreveu

Whatsapp errado seu imbecil!

Seja um Homem!

 

Informamos também que estamos

apresentando erros hortográficos

em nossa plataforma de mensagens.

 
Este é um diálogo literariamente sofisticado, no sentido de que as palavras dizem uma coisa mas ao mesmo tempo deixam transparecer de maneira cristalina o que está de verdade acontecendo entre as duas pessoas. A moça que inicia a conversa, Francisca, é uma pessoa pé-no-chão e nem um pouco boba, porque logo na primeira resposta ela percebe um erro e entende a manobra de “Ciço”.
 
Ela reclama, bota o cara no canto da parede. E aí percebemos a cara de pau de Ciço, que não se dá por achado, não dá o braço a torcer, e recorre ao “laço estranho” de fingir que é um sistema de respostas automáticas capaz de entender a acusação que lhe é feita por escrito. E quando ele recorre à mais improvável das comprovações (“hortográficos”), percebemos que na verdade Ciço não está querendo convencer a moça de que é o WhatsApp. Está apenas tirando o corpo fora da situação, com uma manobra metalinguística, mas deixando sua intenção muito clara.
 
Estes três exemplos mostram mensagens que se detonam a si mesmas, denunciando as próprias contradições ao entrelaçar diferentes hierarquias: diferentes vozes, diferentes origens do discurso ou diferentes destinatários.
 
Para encerrar, vai aqui um exemplo ilustre, que não sei se é verdadeiro porque o texto é atribuído ao escritor Marcel Proust, mas vem em inglês, e não em francês, como seria de se esperar. Mas enfim – tudo é literatura.

Minha Cara Senhora

Acabo de perceber que esqueci minha bengala

em sua casa, ontem. Por favor, tenha a gentileza

de entregá-la ao portador deste bilhete.

P.S. – Peço perdão por incomodá-la; acabo de

encontrar minha bengala.

Marcel Proust

 








sábado, 12 de março de 2016

4074) Memes e gifs (13.3.2016)



Um que está se multiplicando é o Gif do Falso Desfecho. Alguém posta uma imagem de um lenhador dando as últimas machadadas num tronco gigantesco a ponto de aluir. Ficamos esperando a queda da árvore, guiados por uma frase-isca, “o desfecho é sensacional!” ou “não entendi esse final”, ou “só percebe se prestar muita atenção”.  Mas não, as machadadas (a ação preparatória) ficam rodando em loop e a piada é com a gente.  Quer mais filosofia prática do que isso?

Os gifs são álbuns de figurinhas de fãs: o carrinho percorrendo os corredores do Overlook Hotel em “O Iluminado”, a valsa das espaçonaves em “2001”, uma briga-relâmpago de espadas num épico japonês. Mais interessantes e mais difíceis de capturar são aqueles com alguns segundos de um riso, uma expressão no olhar, um gesto eloquente de um ator. Ou uma pequena simetria de movimentos que, ladrilhada ao longo dos segundos, pode produzir efeitos de humor ou musicais ou emotivos. Algo real, que poucas pessoas lembram, mas está ali.  Uma contração nos lábios de Audrey, uma sacudida-de-ombros de Jardel Filho, um olhar de esguelha de Shelley Winters, uma palitada-de-dentes de Wilson Grey.

Quem capta essas coisas já as tinha na memória, e foi rever o filme à sua procura? Ou estava meramente vendo o filme e aquela pérola repentina cintilou na tela, e ele decidiu recortá-la para si? Meu reino por algum software tipo “Gifmaker”. Você está assistindo um filme no DVD da sala, ou no do notebook, aí gosta de um trechinho, para, volta, vem acompanhando até chegar a cena que você quer. Aí aperta um botão no controle remoto, uma vez para começar gif, duas para encerrar. Fica uma cópia no aparelho e outra vai na mesma hora para seu celular.

Gifs viralizam primeiro quando são compartilhados, repetidos, quantificados. E depois quando começam a ser interferidos ou (para usar um termo da moda) ressignificados. Um meme recente como o de John Travolta, casaco sobre o braço, hesitante, fazendo um gesto vago de “sim, mas cadê?” vira um comentário beckettiano capaz de ser aposto a qualquer situação humana. Buster Keaton perseguido por pedras rolantes numa encosta, uma menininha loura jogando dólares pela janela, Shirley Temple fumando o cachimbo da paz, um homem subindo incansavelmente uma escada que não para se se alongar... 

São gestos congelados no âmbar da imagem, são cartuns animados sem legendas. Uma linguagem que já existia: seguramente os editores de revistas de cem anos atrás já imaginavam a possibilidade de substituir a foto costumeira por uma breve sequência de uma ação animada, em ritornelo constante, ativada no abrir da página.




domingo, 19 de outubro de 2014

3634) Palavras inventadas (18.10.2014)




Falei dias atrás na mania que tem esse povo de, toda vez que eu invento uma palavra, vir se queixar a mim que a palavra não existe. Certamente vivem num universo em que, quando Adão e Eva surgiram, já havia um exemplar do Dicionário Aurélio, ou do Houaiss, informando as palavras que poderiam usar.  

Repito mais uma vez: um dicionário não é um Código Civil dizendo o que pode e o que não pode fazer, é mais parecido com um Guia Telefônico, que faz uma longa lista, altamente provisória, de (quase) tudo que existe no momento, para quem precisar.

As palavras novas podem surgir do zero, invenção total, mas às vezes são derivações que termos que já existiam.  Sempre tem alguém que usa uma palavra pela primeira vez e ela pega. Quando é o povo que faz isso, é impossível saber de onde veio, porque só nos damos conta quando a palavra já tem milhões de usuários.  

Temos mais sorte quando são escritores, cientistas, jornalistas, políticos: muitas vezes o uso deles fica registrado, pode ser rastreado até o texto original.

A palavra “feminista”, por exemplo, é atribuída a Alexandre Dumas Filho, em 1873; seu tradutor para o inglês G. Vandenhoff a traduziu por “feminist” e fez uma ressalva: “perdão pelo neologismo”.  

“Factóide” é um termo hoje em voga na política, para designar fatos inexistentes ou irrelevantes que ganham importância através das telecomunicações. A criação é de Norman Mailer, em 1973, em seu livro sobre Marilyn Monroe.  Hoje, todo mundo usa.  Mas houve um dia em que leitores cautelosos fecharam o livro e pensaram: “Acabo de testemunhar uma contravenção. Alguém usou uma palavra que não existe”.

Um artigo no The Guardian (aqui: http://bit.ly/1lwrt9y) examina essas e outras origens de palavras hoje de uso comum no inglês, e algumas também no português.  Tem palavra mais comum do que “internacional”?  O primeiro uso registrado é de 1789 através de Jeremy Bentham, em An Introduction to the Principles of Morals and Legislation, onde ele propõe o termo “international jurisprudence” para substituir “law of nations”, que considerava equivocado.

"Meme”, palavra hoje tão comum na cultura web, foi criado em 1976 por Richard Dawkin, com um sentido ligeiramente diferente do que tem hoje. Para ele, um meme “representa idéias, comportamentos ou estilos que se espalham de pessoa para pessoa. Pode ser uma dança da moda, um vídeo viral, uma nova moda, um recurso tecnológico ou uma frase de efeito. Assim como os vírus, os memes surgem, se espalham, sofrem mutações e morrem.”  

Hoje, meme (e sua distorção proposital via zoeira, “mene”) é “foto bizarra com legenda humorística superposta”.







domingo, 28 de fevereiro de 2010

1725) Machado: “O Anel de Polícrates” (21.9.2008)





(Machado, por Sergio Leo)

Este conto de Machado (em Papéis Avulsos, 1882) inspira-se na lenda de Polícrates, tirano da ilha grega de Samos. Cumulado de favores pela sorte, Polícrates temeu que o Destino lhe reservasse algum castigo. Um assessor o aconselhou a fazer um sacrifício, desfazendo-se de um bem precioso. Ele atirou ao mar um anel que prezava muito; no dia seguinte, o cozinheiro do palácio abriu o ventre de um peixe, encontrou o anel, e o devolveu ao rei. 

É a versão benigna da tragédia grega. Não se pode fugir ao destino, e mesmo a sorte, quando insistente, parece uma maldição.

Isak Dinesen retoma a lenda (em “O Peixe”, no livro Contos de Inverno) para romancear a história do rei Erik da Dinamarca, que acha no ventre de um peixe um anel de pedra azul. Alguém reconhece nele o anel de uma dama da corte, Ingeborg, cujos olhos eram da mesma cor. O rei diz: 

– Quando as mulheres formosas usam jóias, procuram harmonizá-las com alguma parte do seu rosto ou do seu corpo. Pérolas exprimem a beleza do seu colo ou dos seus seios; rubis e granadas evocam seus lábios, suas unhas, seus mamilos. Você me diz, então, que esta pedra é igual aos olhos dessa dama?... 

A crônica se encerra dizendo: “Srig Andersen matou o rei Erik por vingança, depois que este seduziu sua esposa, Ingeborg”.

Freud comenta Polícrates no ensaio O Estranho (Das Unheimlich), observando que uma sorte excessiva, ou a sistemática realização de todos os desejos, não são algo para se desejar. Diz que o rei do Egito afastou-se de Polícrates horrorizado, ao ver que todos os desejos do amigo eram imediatamente satisfeitos, afirmando que “também o homem feliz tem que temer a inveja dos deuses”. 

Freud vê nessa crença uma manifestação da crença na onipotência dos pensamentos, como se cada desejo intenso que experimentamos fosse imediatamente convertido em realidade.

Machado usa o anel para ilustrar com ironia sua teoria pessoal dos memes, para mim uma visão satírica da vida cultural do Rio, com todo mundo copiando, plagiando, imitando e apropriando-se de idéias alheias. Desenvolve o mesmo tema em “Evolução” (Relíquias de Casa Velha, 1906): o narrador diz uma frase a um conhecido, e no correr dos anos vê o outro repeti-la com pequenas variantes, assenhoreando-se dela pouco a pouco.  

O protagonista de “O Anel de Polícrates", Xavier, é um típico personagem machadiano: o Sonhador Pródigo, o indivíduo com talento mas sem foco, que vive espalhando idéias, iniciando projetos que não leva a cabo, concebendo planos mirabolantes que nunca dão em nada. Machado reverte a alegoria da sorte, contida na lenda grega, usando o anel (a frase) como símbolo do caiporismo de Xavier. Inventor da frase, ele a ouve nos lábios deste e daquele mas não consegue memorizá-la de novo, apossar-se dela. 

A frase é anel e ao mesmo tempo um peixe escorregadio ou ave arisca que sempre lhe foge: “Quando ele supunha pôr a mão em cima da idéia, ela batia as asas, plás, plás, plás, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho”.





quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

0815) Os memes de Machado de Assis (27.10.2005)




“Memes” são aqueles grãos de idéia que se instalam em nossa memória e parecem ter ali uma presença tão vívida que se mantêm à tona de nossa consciência. São aquelas coisas que ouvimos e que por alguma razão nos parecem interessantes, e ficam sempre “na ponta da língua”, prontas para serem passadas adiante na primeira conversa. 

Provérbios, slogans, trocadilhos, clichês, lendas urbanas, preconceitos, fofocas, boatos... 

Grande parte de nosso material bruto para conversa tem algo de meme, funciona como um meme. (Ver “Os memes”, 23.5.2003) Os memes, como a gripe, propagam-se no boca-a-boca, ou melhor, no voz-a-voz. 

Machado de Assis, um fazedor de frases como há poucos, tinha a noção clara de como estas coisas acontecem, e embora não se tenha detido a teorizar o processo, ilustrou-o de forma cabal em pelo menos dois escritos. 

Um destes é “O Anel de Polícrates” (em Papéis Avulsos, 1882), um diálogo entre dois personagens, em que “A” explica para “Z” detalhes da vida de um intelectual, um tal de Xavier (inspirado em Artur de Oliveira, amigo de Machado que morreu tuberculoso aos 30 e poucos anos). 

Xavier tem um dia uma idéia que lhe parece brilhante, e que se cristaliza numa frase: “A vida é como um cavalo xucro, ou manhoso; e quem não for bom cavaleiro, que o pareça”. Xavier profere a frase a um amigo, e nas semanas seguintes a reencontra na mesa ao lado num restaurante, numa roda de comensais num baile, num editorial de jornal, numa comédia no teatro, e por fim, suprema ironia, a ouve dos lábios moribundos do próprio amigo a quem a dissera pela primeira vez. Recomendo a leitura do conto, em que há muito mais que isto. 

O outro texto é “Evolução”, em Relíquias de Casa Velha (1906), que começa de uma maneira bem machadiana: “Chamo-me Inácio; ele, Benedito”. Os dois se conhecem numa viagem de diligência a Vassouras; falam dos problemas viários do país, e Inácio comenta: “Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando; só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro”. 

Daí em diante, Benedito irá se apropriando aos poucos da frase do outro. Dias depois a recorda a Inácio, dizendo; “Como o senhor dizia...” Os anos passam, os dois continuam amigos, Benedito entra para a política. Encontram-se por acaso em Paris, e a certa altura ele lembra a Inácio: “Lembra-se do que nós dizíamos na diligência de Vassouras? O Brasil, etc. etc.” 

Corre mais um ano; Benedito torna-se deputado, redige seu discurso de estréia e o mostra a Inácio, que se depara a certa altura com isto: “E aqui repetirei o que, há alguns anos, dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: o Brasil, etc. etc.” Inácio fica boquiaberto e silencioso, e só lhe ocorre atribuir este fenômeno de mutação da paternidade de uma idéia a um efeito da Lei da Evolução, de Herbert Spencer. 

O mundo das idéias e dos memes, amigos, sempre foi uma Internet “avant la lettre”. Nossos bisavós já copiavam e assinavam embaixo.








quarta-feira, 17 de setembro de 2008

0552) O apóstrofo americano (25.12.2004)




Já falei aqui sobre os memes, os grãos de idéia ou de discurso que se instalam em nossa memória e passam a contaminar nosso pensamento, propagando-se para mentes alheias através da nossa fala, como se fossem vírus de computador (“Os memes”, 23.5.2003). 

Um subgrupo perigoso dessa categoria são os erros lingüísticos, que por alguma razão misteriosa parecem proliferar com muito mais facilidade do que os acertos. E dentre eles, o uso americanizado (e errôneo) do apóstrofo é um dos mais constrangedores. 

Peguem o carro e dêem uma volta. Em qualquer subúrbio de cidade brasileira existirá uma lanchonete chamada “Sanduíche´s”, ou um boteco simpático com o nome de “Mariângela Drink´s”, ou um motel chamado “Love Night´s”.

Meus amigos gramáticos explicariam isto melhor do que eu, mas posso resumir a questão dizendo que em inglês essa letra “S” precedida de um apóstrofo indica o caso genitivo ou possessivo. Assim, “Fred´s” significa “ de Fred” (incluindo as variantes possíveis: “algo que pertence a Fred”, “algo que se refere a Fred”, “algo que provém de Fred”, etc.). 

Também se usa para indicar a supressão de uma ou mais letras (como também ocorre no português), mas em geral é isto. 

O que ocorre é que o uso do apóstrofo em português é muitíssimo mais raro do que em inglês, e chega a ser mesmo um recurso sofisticado, coisa de literatos como Castro Alves que já começava um poema botando pra quebrar: “ ´Stamos em pleno mar...”

O brasileiro médio não é exposto às sofisticações da língua portuguesa, mas é expostíssimo às banalidades da língua inglesa, e nasce daí essa propensão a usar o apóstrofo simplesmente para adornar uma palavra no plural, para torná-la americanizada e mais chique. 

No exemplo inventado acima, “Mariângela Drink´s” leva a crer que aquele bar pertence a uma pessoa chamada Mariângela Drink. Para exprimir a provável intenção da proprietária, o certo seria dizer “Mariângela´s Drinks”.

O uso errôneo do apóstrofo é engraçado, mas mesmo certo ele se torna cômico quando aparece num contexto muito incongruente: “Mandacaru´s Artesanato” é uma coisa meio grotesca, parece um silicone fora do lugar, um enxerto de algo que não combina com o que tinha antes. 

O apóstrofo americano é patético quando revela a nossa fascinação abobalhada por tudo que nos venha dos EUA, por tudo que pareça conferir, pelos poderes mágicos do mero uso, um pouco de civilização, sofisticação, status social. 

Ele exprime também, por outro lado, a nossa adoração infantil pelas coisinhas bonitinhas cuja utilidade nos escapa, mas que nos seduzem pelo que têm de exótico e de “cheguei!”. Gostamos de apóstrofos do mesmo modo que gostamos de ípsilons e agás supérfluos, de piercings, de batoques enfiados no lábio ou na orelha, de dentes de ouro, de cílios postiços, de pega-rapaz na testa, de chaveiros com berloques, de fitas coloridas nas platinelas do pandeiro ou nas cravelhas da viola, de fazer rosca na ponta do bigode.




sexta-feira, 7 de março de 2008

0053) Os memes (23.5.2003)

Memes são idéias que se propagam de uma mente para outra através da troca de informações (a fala, a escrita, etc.), assim como os genes se propagam de uma pessoa para outra através da fecundação sexual. Passamos nossos genes apenas para os nossos filhos, assim como os recebemos apenas de nossos pais; mas os memes existem livres e soltos pelo mundo, e basta acordar de manhã e começar a conversar para que eles entrem em ação. Mal levantamos da cama, ouvimos alguém dizer: “Ai meu Deus, mais uma segunda-feira!...” É um meme cultural nosso: a idéia de que a segunda-feira, dia de trabalho, é um dia mais chato do que o fim-de-semana, dias de lazer. Um meme não precisa ser verdadeiro, basta ser plausível. Não temos nem que acreditar: basta lembrar dele. Ele se abriga em nossa mente, fica ali quietinho, e um belo dia uma cópia dele escapa pela nossa boca, indo habitar a mente de outro hospedeiro.

Os memes mais eficazes podem ser comprimidos numa única frase. A sabedoria popular é um catálogo de memes que justificam qualquer coisa: não se deve falar de corda em casa de enforcado, o hábito não faz o monge, quem não arrisca não petisca, quando a esmola é grande o santo desconfia. São frases que repetimos quase involuntariamente diante de certas situações. Não precisamos pensar. Não precisamos julgar, decidir. A frase estava na agulha, pronta para ser disparada no momento certo.

O impacto inicial de um meme é a sua novidade, mas ele se impõe pela repetição. Quem sabe bem disso são os redatores publicitários, os maiores criadores de memes de nossa sociedade. Carlton, um raro prazer. Coca-Cola, isso é que é. Globo: a gente se vê por aqui. Não é nenhuma Brastemp, mas... Você merece uma Kaiser. Carro a álcool: você ainda vai ter um. Anti-Sardina: o segredo da beleza feminina. Iofoscal: iodo para o sangue, fósforo para o cérebro, cálcio para os ossos. Drops Dulcora: quadradinhos, embrulhadinhos, um a um.

O meme não precisa ser verdadeiro para se impor. Ele primeiro se impõe pela repetição, e a partir daí todos crêem que é verdadeiro. Preconceitos se baseiam em memes muito nítidos: todo baiano é preguiçoso, todo judeu é avarento, todo paraíba é mal-educado, todo carioca é vigarista, todo paulista é arrogante. Os memes são jogados no caldeirão cultural, e alguns deles crescem, se multiplicam. A melhor maneira de examinar um meme preconceituoso é indagar a quem ele interessa. A quem interessa propagar a idéia de que toda loura é burra, de que todo político é ladrão, de que todo crioulo é um assaltante em potencial?

Publicidade, música popular, programas de TV, imprensa: estas são as maiores fábricas de memes de nossa época. Elas sozinhas, contudo, não dão conta do recado. Cada vez que um de nós repete uma dessas idéias, está lhe dando uma sobrevida extra; é como se a reinventasse. O meme renasce como um vírus, e passa a ser nosso toda vez que o passamos adiante. Leva nossa assinatura, nossa responsabilidade.