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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

5090) Os monstros a vapor (9.8.2024)




Quando eu tinha uns dez ou onze anos, Victor Hugo era um dos autores lidos lá em casa, por meu pai, minha mãe, minha irmã Clotilde e eu (os mais novos eram muito pequenos ainda). Eu era pequeno mas metido a esperto, e li tanto Os Miseráveis quanto O Corcunda de Notre-Dame. Entendia tudo?  Entendia todas as palavras, todas as idéias, todos os significados? Claro que não; mas conseguia acompanhar os acontecimentos, e captar alguma coisa dos dramas que aconteciam com aquelas pessoas. 
 
Nessa época aprendi uma lição fundamental como leitor: eu não preciso entender tudo que estou lendo, desde que possa continuar a leitura. Absorvo o que consigo entender. Depois cuido do resto. Nenhuma palavra desconhecida e nenhuma idéia adulta já tiveram o poder de me afastar de um livro. (Isto é exagero, claro. Ainda hoje tem uma porção de livros que eu simplesmente não compreendo, e vou ler outra coisa.) 
 
Hoje lembrei Os Homens do Mar (1866), numa edição do Clube do Livro. (Anos depois encontrei outra tradução, com o título Os Trabalhadores do Mar.) Contava a história de um tal de Gilliatt, pescador jovem que vive à beira-mar, na ilha de Guernsey, no litoral da França. (Onde Hugo morou durante seu exílio.)  Desde o começo achei o lugar fascinante, porque tinha uma pequena elevação de terra que, na maré alta, ficava submersa. Quando a maré baixava, a terra emergia, e nela havia um rochedo escavado em forma de cadeira, uma cadeira que os locais chamam de “Gild-Holm-‘Ur”. 
 
Gilliatt tinha o costume de sentar nessa cadeira e ficar olhando o oceano, enquanto a água da maré montante subia pouco a pouco, molhando seus pés, depois suas pernas... E esta cena se repete tragicamente no final do livro. (Não li o livro todo: outro costume salutar que cultivei era o de abrir qualquer livro em qualquer página e começar a ler em qualquer ponto, para ver se entendia e se gostava.) 
 
Nesse tempo eu já estava escolado em romances espantosos de ficção científica e de terror. Já sabia quem eram Drácula e Frankenstein, então... “sou um ser humano, e nada que seja sobre-humano me é estranho.”  
 
A certa altura do livro de Victor Hugo ele introduz, no mundo rústico de Gilliatt, duas personagens, que dão nome ao capítulo: Durande e Déruchette. Quem serão essas duas? Vamos ver como elas entram no livro, na tradução catita de Machado de Assis. (Que não sei se é a mesma do livro da foto, o volume que li na época.) 
 
(...)
LIVRO TERCEIRO
Durande e Deruchette.
 
I
GARRULICE E EFLÚVIOS
 
Deruchette tinha as mais lindas mãozinhas deste mundo, e pés iguais às mãos, quatro pezinhos de mosca, dizia mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura: o tio Lethierry era toda a sua família e riqueza: o trabalho dela, era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por ciência a beleza, por espirito a inocência, por coração a ignorância; tinha a graciosa indolência crioula, mesclada de travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da infância com um pendor à melancolia, vestuários um pouco insulares, elegantes, mas incorretos, chapéus de flores todo o ano, fronte ingênua, pescoço flexível e tentador, cabelos castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no verão, boca grande e sã, e nessa boca o adorável e perigoso esplendor do sorriso. Eis o que era Deruchette. 
 
Algumas vezes, à noite, após o pôr o sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, à hora em que o crepúsculo dá uma espécie de terror às vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas uma certa massa informe, uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um vulcão, uma espécie de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atirando-se sobre a cidade com um horrível movimento de barbatanas e uma goela donde as chamas irrompiam. Era Durande. (...) 
 
Este trecho me marcou porque corresponde a uma certa sensibilidade despertada nos leitores pela literatura fantástica. 

 

(“La Durande”, desenho de Victor Hugo)

 
A “Durande” que Victor Hugo descreve de maneira tão brilhante (ainda mais pelo contraste entre as descrições dos dois parágrafos) é o barco a vapor do Mestre Lethierry, seu ganha-pão. A descrição horrífica e fantasiosa se justifica dramaturgicamente: trata-se de uma pequena ilha no litoral da França, habitada por gente antiga e rude, e “Durande” é o primeiro barco a vapor que eles conhecem, o que justifica o senso de estranheza e medo diante dele. 
 
Ao prosseguir na leitura, entendi aos poucos o que era Durande. Por algumas horas, no entanto, ou minutos, acreditei piamente que se tratava de um monstro real, um monstro misto de dragão e kraken, domesticado pelo Mestre Lethierry, uma criatura viva que convivia com ele e a mocinha. Na minha cabeça de leitor enxerido, não havia separação entre os gêneros literários. Não havia o realismo e o fantástico. Todo livro era uma história, e em qualquer história podia acontecer qualquer coisa. 
 
Os Homens do Mar pode servir, pelo menos nesse trecho, como precursor de um fantástico pré-steampunk, um registro do impacto das transformações sociais e psicológicas produzidas pela chegada de uma nova tecnologia: a máquina a vapor. Hoje, a descrição técnica de Victor Hugo ao longo do livro é considerada pelos críticos como extremamente precisa, e reflete um bom conhecimento de motores a vapor e de engenharia naval.  
 
Durande me veio à mente (e com ela esse aspecto semi-alegórico da máquina a vapor) ao ver uma referência a um livro que não li, mas tem várias traduções brasileiras: La Bête Humaine (“A Besta Humana”, 1889), de Émile Zola.  
 
É um daqueles romances naturalistas em que um certo determinismo biológico e social predispõe um indivíduo ao crime. Jacques Lantier é um maquinista de trem, e no transcurso da narrativa comete alguns assassinatos, pois é sujeito a acessos sádicos onde mistura o desejo sexual e a vontade de matar (principalmente mulheres). 
 
No clímax do romance, em suas últimas páginas, Lantier, depois de mais uma vez escapar à identificação como assassino de outras pessoas, vai pilotar um trem cheio de soldados bêbados rumo à fronteira, pois acaba de ser declarada a guerra entre a França e a Prússia. 
 
Já era noite, quando os soldados embarcaram, como carneiros, em vagões de gado. Tábuas haviam sido pregadas às paredes para servir de bancos, e os homens se amontoavam ali, superlotando os vagões; uns em pé, uns sentados sobre os outros, apertados, sem poder mexer um braço. (trad. BT) 
 
Depois que o trem parte, Lantier se envolve numa briga com o foguista, Pecqueux, cuja namorada ele havia seduzido. Os dois brigam, se engalfinham na cabine, caem do trem, são despedaçados... e o trem segue a toda velocidade, sem ninguém no comando. (Este final catastrófico foi modificado por Jean Renoir em sua adaptação cinematográfica de 1938.) 



(Jean Renoir, La Bête Humaine, 1938)
 
 
A enorme massa, com dezoito vagões apinhados de homens como gado humano, cruzava os campos desertos emitindo um rugido contínuo; e esses homens que caminhavam para o massacre estavam cantando, cantando a plenos pulmões, fazendo um tal clamor que podia ser ouvido por cima do barulho das rodas. 
 
Chefes de estação e telegrafistas se desesperam, mandando ordens para que todos os trens das próximas estações possam se refugiar em algum desvio e permitir a passagem do trem enlouquecido. 
 
Quem ligava para as vítimas que a máquina teria esmagado em seu trajeto? Ela não ia rumo ao futuro, apesar de tudo, indiferente ao sangue derramado? Sem guia, no meio da escuridão, como um animal cego e mudo que alguém libertou por entre a morte, ela rodava e rodava, carregando sua carne de canhão, cheia daqueles soldados que, embrutecidos pelo cansaço e pela bebida, não paravam de cantar. 
 
O livro termina assim, interrompendo-se antes do desenlace inevitável. A “besta humana” do título, ao longo da novela, era Jacques Lantier, o maquinista sádico e assassino; nestas cenas finais, esse epíteto pode caber ao trem que ele pilotava, e que agora se transforma numa máquina insensível, feroz, cheia de gente e matadora de gente, rumo à guerra que se inicia. Homens que agem como máquinas assassinas, e máquinas que parecem adquirir um espírito assassino próprio. 
 
Na época de Zola, o trem a vapor era um símbolo recente do poder e da ousadia do Homem, um ser de alta tecnologia que a essa altura já adquirira dimensões mitológicas. 




 
 
 




sábado, 6 de abril de 2024

5049) A arte do conto policial (6.4.2024)



 
Tive uma idéia excelente para um conto policial. Eu sou, aliás, o rei das idéias.  Se fosse menos preguiçoso, poderia até ter chegado a ser o rei dos contos policiais, mas escrever, escrever mesmo, concretamente, é um trabalho braçal desnecessário. Muito mais agradável é ter uma idéia atrás da outra, sempre colocando uma pedra em cima da folha para que o vento não a leve, e seguindo adiante. Cada idéia da gente é uma folha. Basta abrir um arquivo, resumir a idéia, jogar um título, dar uma salvada rápida... A vida não foi feita para se perder tempo, nem o tempo foi feito para passar. A vida tem mais é que ser pra sempre. O tempo tem mais é que descansar.
 
A idéia é que um sujeito é encontrado morto em seu escritório. Um homem de certo poder político ou econômico, e tudo indica se tratar de um suicídio. Ele escreveu um bilhete e explodiu a cabeça com um tiro. A arma ainda está presa entre seus dedos imobilizados pela rigidez cadavérica. O detetive examina o bilhete, que diz algo como: “Lamento por todos, mas é o jeito”. 
 
Curiosamente, o bilhete do suicida está datilografado. Estranho, não? Se tem uma coisa em que um suicida geralmente capricha é esse recado final, que deve ser de autoria indiscutível. É aí que o contista precisa driblar as circunstâncias que ele mesmo preparou. 
 
O bilhete tem que ser datilografado, senão não tem história. Suponhamos então que o falecido era idoso, tinha um princípio de Parkinson ou equivalente, a mão tremia muito, e toda sua comunicação por escrito era feita à máquina. O leitor sagaz fareja aí uma preparação qualquer, mas leitores lebres precisam ter paciência com autores tartarugas. 



O detalhe é que a história se passa num mundo pré-computador, num mundo em que um sujeito com alguma grana teria ao seu dispor uma máquina de escrever elétrica. E ele tem uma, justamente por causa do Parkinson (o teclado é mais sensível – não precisa percutir a tecla, basta encostar). 
 
Essas máquinas elétricas tinham dois tipos de fita: a de algodão (mais barata) e a de polietileno. A de algodão rendia mais. Tal como as fitas das velhas máquinas mecânicas, a “Olivetti”, a “Remington”, era um algodão embebido em tinta que admitia várias “passadas”, observando que a cada passada a tinta diminuiria. 



(Fita de polietileno para máquina-de-escrever elétrica)


Já a fita de polietileno, acondicionada num cartucho, era uma faixa negra e estreita, em direção única, onde o martelinho de cada letra cortava o formato exato, colando aquela letrinha negra no papel, e voltava ao repouso enquanto a fita se movia meio milímetro de lado e aguardava a próxima martelada. 
 
Acho que não é preciso mais. Este conto devia ter sido escrito quando essas coisas eram novas. Tudo tem que ser escrito enquanto as coisas são novas. Quando a gente se dá conta, as coisas envelheceram mais rápido do que nós. A gente planeja, e fica tão orgulhoso de finalmente ter planejado alguma idéia engenhosa, mas aí tudo começa a se afundar no oceano pastoso das Coisas Que Não São Mais Assim. Afundam, e se nos apegarmos a elas, afundaremos junto. Uma injustiça com as coisas que eram reais quando nós éramos jovens. 
 
Agora, não, há uma proliferação injusta e afrontosa de novas coisas e nova gente nos empurrando para o fundo do palco, assumindo as luzes, tratando gente como nós como se fôssemos teias-de-aranha. E perguntando, com a arrogância dos desinformados: “O que é máquina-de-escrever elétrica? O que é liquid-paper? O que é orelhão? O que é telex? O que é laquê? O que é combinação? O que é rirri? O que é cabriolé?  O que é lábaro? O que é roscofe?”. 





Voltemos ao mundo das idéias, paraíso onde tudo brilha e nada perece. 
 
A idéia era que extraindo o cartucho de fita de polietileno, onde cada letra percute uma vez apenas, seria possível reconstituir em ordem reversa todas as palavras que tinham sido datilografadas naquela máquina. E assim o detetive descobre que dois bilhetes de suicida haviam sido escritos: o verdadeiro (que foi destruído), e o falso, que foi encontrado junto ao corpo. Não houve assassinato. Foi suicídio mesmo. O que houve foi que alguém descobriu o corpo, leu o bilhete (que o denunciava, ou o prejudicava de alguma forma, não importa, invento depois), e resolveu destruí-lo e escrever o outro, anódino, insípido, não comprometedor, que foi descoberto. 




O detetive faz os malabarismos retóricos de costume, exibe a fita de polietileno, soletra de trás para diante o bilhete que foi encontrado, último texto escrito naquela máquina, e num lance teatral, faz o mesmo com o penúltimo, o bilhete autêntico que foi destruído. E aí é só inventar quem era a família, quais as brigas internas (toda família de milionário tem brigas internas), os dramas da raça humana. Com um parágrafo final arrasador, digno de acompanhamento orquestral. 
 
É aí que o leitor moderno ergue a cabeça da página e pergunta, amuado: “Mas o que é polietileno?”. 
 
Mas agora sim!... E se a solução de um mistério detetivesco dependesse do criminoso (e o detetive, e o leitor, por tabela) entenderem a estrutura e o funcionamento de um candeeiro de querosene, ou de um alambique, ou de um moinho dágua? Quantas pessoas no mundo sabem como essas coisas funcionam? 



 
– Portanto, – diz o detetive, enquanto o falsificador, cabisbaixo, é levado em algemas para a gendarmeria local, – aproveitem o momento. Carpe diem. Escrevam sobre as coisas de hoje, antes que chegue o vendaval do Amanhã. O crime de vocês precisa de um pen-drive? Escrevam hoje – amanhã teremos o chip telepático. Escrevam hoje as suas histórias sobre essas novidades que nos parecem eternas: o tik-tok, o açaí com granola, o air-fryer, o podcast, a tatuagem, a dupla sertaneja. Parecem que vão ficar entre nós para todo o sempre? Tenho uma boa-má notícia: não vão. 
 
“Tudo passa. Só quem não passa, pelo que vejo, é a Seita dos Talibãs do Presente. Hoje em dia a gente não pode dizer, descuidadamente, “vou pegar um táxi” sem que algum espertinho erga o dedo bem satisfeito e corrija: “Um Uber!...”. 
 
São as mesmas pessoas que no meio de uma noitada ouvem a gente dizer: “Nos vemos amanhã”, e corrigem: “Amanhã, não – hoje!!! Já passou de meia-noite!!!”  E ainda apontam para o pulso, orgulhosas. 
 
“É um orgulho que até se justifica, porque essas pessoas vêm com o vendaval, com a folharada. São aquelas que têm a Engenhoca.16 mas a trocam imediatamente pela Engenhoca.17 mal ela desponta no mercado. E para elas, as dezessetes, tudo que for dezesseis é superado, anacrônico, desprezível. 
 
“Vieram com o vendaval, e (sejamos otimistas!) com o vendaval irão embora.” 
 







segunda-feira, 8 de abril de 2019

4454) "A Conversação": os escutadores de segredos (8.4.2019)



Por causa do atraso de um voo noturno, precisei pernoitar longe de casa para pegar um avião na manhã seguinte, e a companhia aérea me botou num hotel. Foi entrar no quarto, ligar a TV e ver que estava começando uma exibição de A Conversação (The Conversation, 1974) de Francis F. Coppola.

Anotei isso no capítulo das coincidências, porque uma semana atrás eu estava placidamente em casa tomando a minha Itaipava e revendo pela enésima vez Blow-Up (1966) de Michelangelo Antonioni, o filme em que o de Coppola se inspirou parcialmente. (Numa entrevista que está no YouTube, ele diz que só viu Blow Up depois de já estar trocando idéias com o colega Irwin Kershner a respeito de um filme sobre espionagem eletrônica.)

O filme de Antonioni é sobre fotografia, o de Coppola é sobre gravação de áudio, mas ambos contam a história de um profissional calejado, introspectivo, desdenhoso, que registra à distância o encontro de um casal de jovens e depois, manipulando os próprios registros, percebe a trama e a execução de um assassinato.

Como se dissesse que toda história de amor tem por trás de si uma dança, uma coreografia de movimentos para escapar à morte, sem conseguir.


No filme de Coppola, o personagem é Harry Caul (Gene Hackman), um “araponga” escutador de conversas alheias, ou, como eles gostam de se apresentar, “um profissional da área de segurança, vigilância e informação”. Ele é contratado por um magnata para espionar o casal e gravar suas conversas. Os dois (de um modo assustadiço e dissimulado) se encontram durante a hora de almoço, numa praça cheia de gente, no centro dos prédios de escritórios, e falam andando sem parar, justamente como quem teme estar sendo espionado.

Harry Caul desenvolveu uma técnica própria com 3 microfones de distâncias variáveis, resultando em 3 diferentes rolos de fita que ele vai depois filtrar, ampliar, equalizar e justapor. As cenas de gravação e depois da recuperação das falas são um primor de montagem (Richard Chew; a edição de som é de Walter Murch), comparável às cenas semelhantes da revelação e ampliação das fotos em Blow Up (montado por Frank Clarke).

Há duas cenas notáveis, uma logo depois da outra. A primeira delas é a surrealista convenção de arapongas, de espiões eletrônicos. Coppola afirma que essas convenções existiam de fato mas foram tornadas ilegais depois de 1968. Eles recriaram uma delas para o filme. São estandes e mais estandes de sujeitos anônimos, nerdosos, envelhecidos, oferecendo suas engenhocas de áudio e vídeo camufladas; e Harry Caul, que até então a gente vê como um zé-ninguém, um mero sujeito arredio e mal-humorado, pela primeira vez é tratado como um ídolo, um craque, “o maior de todos”.


Logo em seguida, Caul leva os amigos (e concorrentes) para o armazém onde faz seus trabalhos. Ali se segue uma complexa sequência de diálogos e marcações onde fica evidente o ambiente cobra-engolindo-cobra em que vive esse pessoal de vigilância. Ninguém confia em ninguém, todos dão tapinhas nas costas de todos, todos estão prontos para furtar os segredos dos colegas na primeira chance que tiverem.

Coppola narra o filme com uma precisão detalhista que está a léguas dos ambientes limpos e vastas extensões de cor uniforme que a gente vê em Blow Up. Gene Hackman, soturno, introvertido, azedo, tem uma atuação minimalista e brilhante, usando roupas desmazeladas, relacionando-se de forma patética com as mulheres. Toca sax sozinho em casa, acompanhando um disco. Seus únicos instantes de prazer são quando se relaciona com instrumentos.



Há algumas piscadelas de olho na direção de Blow Up, como a música de jazz (Herbie Hancock no primeiro filme, Walter Shire no seguinte), sem falar no mímico de rosto pintado que passa perto do casal na praça, numa clara referência ao filme inglês.

O personagem de Harry Caul é também muito mais complexo e mais bem construído do que o Thomas de David Hemmings. Anos atrás, Caul gravou conversas políticas entre dois homens a sós, num barco, no meio de um lago; uma façanha técnica tão impossível que um deles atribuiu o vazamento da conversa ao outro, e mandou torturá-lo e matá-lo junto com a mulher e o filho. Caul é católico, e nunca conseguiu se perdoar por isso.


A Conversação é um filme sobre tecnologia e, curiosamente, eu imagino que um verdadeiro profissional da tecnologia digital de hoje, anos-luz à frente do material analógico e magnético usado pelos personagens do filme, entende tudo que se passa ali e se entusiasma do mesmo jeito. Porque não é o aparelho pesadão e antiquado que conta, é a mente de quem maneja o aparelho. São as pequenas jogadas criativas que se pode produzir com um aparelho qualquer; é o conhecimento refinado do que cada aparelho pode fornecer.

A manipulação política e a manipulação criminosa da tecnologia nunca vão deixar de existir, e ela repousa sempre (para benefício do criminosos e dos políticos) na existência desses nerds quarentões, que vivem para o técnica, que não pensam noutra coisa senão a técnica, que têm dificuldade até de ir para a cama com uma mulher porque a cabeça está pensando em filtros de áudio, em microfonagem de feixe direcional, em bugs miniaturizados e camuflados sabe-se lá onde. Eles só pensam nisso.

Coppola ganhou com este filme uma Palma de Ouro em Cannes, três indicações ao Oscar e uma carrada de prêmios por aí. Curiosamente, mesmo sendo um dos seus melhores filmes (para algumas pessoas, o melhor de todos) ninguém fala mais nele.

Hoje, na época das câmeras big-brother espalhadas pelas metrópoles, dos milhões de celulares fotografando tudo em todo canto, da espionagem do Estado e contra o Estado, da Mídia Ninja, das fake news, do Photoshop e do “audio doctoring”, é talvez mais presciente e mais atual do que os filmes que o diretor fez sobre a Máfia e sobre a Guerra do Vietnam.















quarta-feira, 17 de maio de 2017

4235) As invenções de Kafka (17.5.2017)



Uma biografia recente de Franz Kafka, escrita por Reiner Stach, tem o interessante título de Isto é Kafka? 99 Descobertas. Quando parecia que tudo já havia sido escrito sobre o profeta do mundo irracional do século 20, parece que Stach conseguiu desencavar um número respeitável de fatos a seu respeito.

Não devemos esquecer, também, que por motivos burocráticos e jurídicos uma parte considerável do que Kafka escreveu continua (pasmem!) inédita até hoje. Papéis que ele deixou a cargo de seu amigo Max Brod não foram publicados porque há uma kafkeana batalha judicial em torno deles. Já escrevi a respeito aqui, em “O moído de Kafka”:


Um artigo em The Paris Review sobre a biografia de Stach traz um comentário interessante. O biógrafo teria levantado informações sobre duas “invenções” de Kafka, duas idéias que ele teve para ganhar dinheiro, que explorou em conversas e cartas com amigos, mas que, por um motivo ou outro, não prosperaram.

A primeira dessas idéias ocorreu a Kafka e seu amigo Max Brod entre agosto e setembro de 1911, quando os dois viajavam pela Europa. Kafka pensou em criar um guia de viagem intitulado Billig (“Barato”), dando dicas aos viajantes a respeito de hotéis, transportes, restaurantes, pontos turísticos, etc., que era possível percorrer sem gastar muito dinheiro.

Magino eu que em 1911 fazer turismo na Europa era coisa de rico, aqueles ingleses ou alemães que viajavam de trem ou de navio levando quinze malas de roupas, como a gente vê em Morte em Veneza, nos filmes de James Ivory ou nos livros de Henry James. A idéia dos dois amigos era estender esse privilégio aos menos abonados.

Há um documento, quase todo na caligrafia de Brod, mas com a colaboração de Kafka, em papel timbrado de um hotel em Lugano (Suíça), escrito em setembro de 1911, e diz:

(...) Nossa era tão democrática já proporciona todas as condições para viagens fáceis para qualquer lugar, mas isto é algo que passa praticamente despercebido. Nossa tarefa é coletar estas informações a torná-las conhecidas de modo sistemático. (...)  Muito pouco disto aparece nos guias de viagens. (...) Nós nos dirigimos àqueles que consideram viajar algo muito caro, seja por equívoco, seja por má informação, e que se mantêm em regiões próximas de suas próprias cidades (que têm a sua beleza, mas já são demasiado conhecidas). Queremos fornecer informações sobre outros destinos que custam o mesmo que essas estações de verão, possivelmente incluindo também custos de transporte.

Eles dão algumas dicas sobre a organização dos seus possíveis Guias:

Nada de geografia minuciosa; apenas as rotas. (...) Indicamos apenas um hotel, e outros em ordem descendente, para o caso de aquele estar lotado. (...) [Na caligrafia de Kafka:] Não é para viajantes nem muito rápidos nem muito lentos, mas para um grupo mediano. Desvios são mais fáceis, uma vez que é sempre possível fazer adições num plano bastante preciso. (...)

Outrs dicas registradas pelos dois, em anotações rápidas:

Não temer a moeda errada. Concertos gratuitos. Dias mais baratos (p. ex., galerias de arte) no fim de viagens mais caras. Onde conseguir ingressos grátis como as pessoas locais. Navios a vapor, segunda classe. Não temer a terceira classe na Itália. Cor local. Reforma dos mapas do país e da cidade?

Era um projeto embrionário, ainda na fase de rascunho, como se vê – aquelas páginas em que a gente vai anotando tudo que se conversa, todas as pequenas idéias nascidas da troca de impressões, e que podem depois ser desenvolvidas ou não.

Infelizmente, o projeto de Brod e Kafka – que seria algo como um Europa a 10 dólares por dia daquela época – nunca se concretizou.

A segunda invenção não chega a ser invenção, apenas a anotação rápida de uma idéia; mas seu interesse é por ser algo um pouco mais ficção científica. Em 1913, Kafka teve a idéia da criação de um mecanismo reunindo duas tecnologias que bem ou mal já existiam: o telefone e a máquina de ditar (uma espécie de gravador), também chamada “parlógrafo”.

O escritor certamente teve sua curiosidade despertada devido ao fato de sua noiva na época, Felicia Bauer, trabalhar na filial de Berlim da empresa Carl Lindstrom AG, “onde ela estava encarregada da divulgação do parlógrafo, uma máquina de ditar. Bauer inclusive apareceu num filme de propaganda que Lindstrom produziu e distribuiu.”  No filme, ela é vista durante alguns segundos manipulando um parlógrafo e uma máquina de escrever.

Dizia Franz, escrevendo par a noiva:

A invenção de um cruzamento entre o telefone e o parlógrafo certamente não deve ser difícil. Tenho certeza que depois de amanhã você vai me comunicar que o projeto já alcançou sucesso. Claro que isto teria um impacto enorme nos escritórios editoriais, agências de notícias, etc.

Mais difícil, mas também possível, sem dúvida, seria uma combinação entre o gramofone e o telefone. Mais difícil porque a gente não entende direito o que diz um gramofone, e um parlógrafo não pode pedir a ele que fale com mais clareza. Uma combinação entre o gramofone e o telefone também não teria grande significação de um modo geral, mas para pessoas como eu, que receiam o telefone, seria um alívio. O problema é que pessoas como eu temem também o gramofone, de modo que não seria uma grande ajuda.

A propósito, seria uma ótima idéia se um parlógrafo pudesse ir ao telefone em Berlim, ligar para um gramofone em Praga, e os dois tivessem uma pequena conversa entre si. Mas, minha querida, a combinação do parlógrafo com o telefone tem absolutamente que ser inventada.

O artigo informa que isto de fato já tinha acontecido, com o “Telefonógrafo” patenteado por Ernest O. Kumberg em 1900, invenção que não foi pra frente por ser cara e trabalhosa.

Aqui, o artigo da Paris Review:


Mas para quem lê Kafka fica uma pequena nostalgia de imaginar como ele poderia ter explorado literariamente, num dos seus microcontos de página e meia, esta preciosa idéia como ponto de partida:


(...) seria uma ótima idéia se um parlógrafo pudesse ir ao telefone em Berlim, ligar para um gramofone em Praga, e os dois tivessem uma pequena conversa entre si.







terça-feira, 12 de abril de 2016

4100) O Kafka da era digital (12.4.2016)



(ilustração: Elena Scotti)

A fazenda de Joyce Taylor, 82 anos, no Kansas, tem sido assediada nos últimos anos, para grande espanto na região, por “agentes do FBI, xerifes federais, cobradores da receita federal, ambulâncias tentando socorrer veteranos-de-guerra suicidas, policiais à procura de crianças desaparecidas”.  Ninguém ali sabe por quê. É uma zona rural, e a cidade mais próxima tem 13 mil habitantes. Levou algum tempo para alguém perceber que isso se devia a um erro básico de mapeamento da Internet.

Quando a gente diz que “está na Internet” pensa o que? Eu penso em algo como uma biblioteca, onde a localização exata de um livro obedece a um código numérico. Tendo o número de código, a gente se encaminha para o andar, o setor, a estante, a prateleira, o volume procurado. Do mais amplo para o mais restrito. É como procurar a cidade, o bairro, a rua, o prédio, o apartamento.

A Internet é um pouco assim, só que mais bagunçada. Todo computador (celular, etc.) tem um endereço IP, que é como um CPF, da máquina que você usa. É um número único, que fica registrado cada vez que a gente conecta em algum ponto. (Teoricamente, é assim que a polícia localiza os pretendentes a malfeitores do ciberespaço – os verdadeiros malfeitores sabem como evitar isso.)

Uma matéria recente de Kashmir Hill no websaite Fusion revela o lado avesso desse processo que parece tão certinho. Explica ele que existem empresas especializadas em mapeamento digital, ou seja, em informar a localização de um endereço IP. Digamos que alguém me mandou mensagens ameaçadoras, ou que me aplicou um conto-do-vigário via Internet, e que eu consegui descobrir o endereço IP do computador original, que fica nos EUA. O que faço? Entro em contato com uma empresa como a “MasterMind”, e ela me diz o endereço onde está essa máquina.

Só que o processo de rastrear a máquina é falível, imperfeito, cheio de buracos. Às vezes chega à precisão de indicar um quarteirão, uma casa. Mais frequentemente, diz apenas: “Este IP está na cidade tal”. Quando ela não consegue saber algo mais específico, diz em que país está, mas para isso precisa fornecer coordenadas (latitude e longitude). O que faz a MasterMind, quando um IP é difícil de rastrear, e sabe-se apenas que está nos Estados Unidos? A companhia indica as coordenadas relativas ao centro geográfico do país. (É o mesmo raciocínio, acho eu, que faz com que quando o computador seja iniciado o mouse apareça exatamente no centro do monitor).

Sempre que um endereço de IP fica difícil de rastrear e sabe-se apenas que está no país, o “país” é indicado pelo seu centro geográfico. Acontece que esse centro, conforme foi calculado pela MasterMind, fica perto da fazenda de Joyce Taylor! O autor da matéria pediu um levantamento desses endereços e encontrou nada menos de 600 milhões de endereços IP que ninguém pôde localizar com mais precisão e jogou para o centro dos EUA, ou seja, para a fazenda da pobre sra. Taylor.

A matéria cita vários outros exemplos dessa nuvem de endereços fantasmas que ninguém sabe onde estão situados mas um cálculo meio descuidado (os próprios diretores da empresa admitiram) acabou empurrando para uma direção física, cheia de gente real, cuja vida começou a ser bagunçada unicamente por conta de um “gatilho técnico”. É o Kafka da era digital.

A matéria completa, de Kashmir Hill:
http://fusion.net/story/287592/internet-mapping-glitch-kansas-farm/





terça-feira, 4 de agosto de 2015

3884) A andróide sexy (5.8.2015)





Já falei aqui sobre o conceito do Uncanny Valley (O Vale do Estranho, ou da Estranheza), muito adotado quando se discutem reproduções animadas de seres humanos. O termo tem origem no famoso ensaio de Freud, Das Unheimlich ("The Uncanny", "O Estranho"), de 1919, onde ele examina “coisas, pessoas, impressões, eventos e situações que conseguem despertar em nós um sentimento de estranheza, de forma particularmente poderosa e definida”. Logo no início Freud cita um ensaio de 1906 de E. Jentsch, segundo ele a única abordagem prévia sobre o tema.



Diz Freud: “Jentsch tomou como ótimo exemplo ‘dúvidas quanto a saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo, ou, do modo inverso, se um objeto sem vida não pode ser na verdade animado’; e ele refere-se, a esse respeito, à impressão causada por figuras de cera, bonecos e autômatos engenhosamente construídos.”  Foi certamente essa menção inicial que deixou essas criaturas artificiais, para muita gente, como os melhores símbolos do Unheimlich.



O conceito de Uncanny Valley foi criado para indicar principalmente essa zona crepuscular em que andróides ou bonecos nos dão a impressão de pessoas reais e isso nos produz uma sensação de inquietação, desagrado, ou até repulsa. É diferente de quando vemos uma representação pictórica perfeita: elogiamos a técnica, dizemos que “parece uma pessoa”, mas em nenhum momento aquela tela nos inquieta ou ameaça. Autômatos ou bonecos, no entanto, envolvem uma representação completa do corpo humano, inclusive gestos com as mãos, expressões faciais, sorrisos, o modo de piscar os olhos. E isso produz a sensação do Unheimlich.



No Japão existe uma convenção, o Wonder Festival, para exibição de andróides desse tipo. Na convenção de fevereiro passado, o laboratório A-Lav exibiu Asuna, uma andróide que imita uma garota de 15 anos, sorri, move os olhos. (Aqui: http://tinyurl.com/q55hk67). A impressão de realidade é aumentada pela textura da pele, que é macia e flexível (embora fria).


Não vai demorar muito a produção (que deve começar na clandestinidade) de amantes cibernéticas que sejam um misto entre as atuais bonecas infláveis e andróides como Asuna. A FC prevê há muitos anos essa criação de bonecas do prazer (como a Pris de Blade Runner, interpretada por Daryl Hannah). Mulheres biônicas que não reclamam, não discutem e obedecem as ordens de maridos autoritários ou inseguros. A bem da verdade, é bom admitir que os equivalentes masculinos não devem demorar a entrar também no mercado. Muitos humanos realizarão o sonho utópico do sexo atleticamente satisfatório e sem perguntas, sem confidências, sem indiscreções.


quinta-feira, 26 de março de 2015

3772) A perna artificial (27.3.2015)



Era uma vez um cara que morava perto da linha do trem, e costumava ficar às vezes sentado no chão, perto dos trilhos, pensando na vida. Um dia ele estava distraído, com a perna esquerda em cima dos trilhos, e o trem passou e arrancou a perna dele.  Grande comoção na família, que se mobilizou, fez lista de doações, livro-de-ouro, o escambau, e levantou um milhão de cruzeiros (a história é antiga) para poder dar a ele uma caríssima perna artificial. Foi feito, e a vida voltou à normalidade. Uma tarde, ele estava mais uma vez sentado junto da linha do trem, desta vez com as duas pernas em cima dos trilhos. À distância, o trem apitou para avisar que se aproximava. Ouvindo o apito, ele deixou a perna de carne e osso em cima do trilho e afastou a outra, comentando: “Esta aqui me custou um milhão de cruzeiros!”.

Esta é uma das piadas mais antigas que me lembro de ter escutado. Marcou minha infância, e me fazia rir muito. Quando comecei, já por volta dos vinte-e-tantos anos, a refletir sobre o humor e os processos que ele utiliza, percebi que cada vez que pensava nela surgiram novas associações de idéias. A mais importante, acho, é que ela é uma metáfora terrível da nossa época. A gente tende a valorizar o que conquistou com esforço próprio, não o que trouxe de nascença. A gente valoriza mais a tecnologia do que a biologia, mais a civilização do que a natureza. (Um amigo já me disse: “eu cuido melhor do meu computador do que de mim”.) E com isso corre o risco de ficar sem as duas. É uma boa fábula moral para este Brasil que, segundo Glauber Rocha, “pode beber água de coco de graça, mas prefere pagar por uma Coca-Cola”.

Hoje, o que mais me chama a atenção é o mecanismo tragédia-grega de uma historieta assim. Tudo é fado, tudo é destino, e não se vê um dedo sequer de livre arbítrio nesse personagem aparentemente tão bem posto em si mesmo. Sentar com as pernas em cima de uma linha do trem é meio caminho andado para perdê-las. E quando isto acontece, pensam que o cara ficou com um trauma, uma repulsa pelas coisas ferroviárias? Não, ele continua a sentar no mesmo lugar, com as duas pernas ali, fazendo por conta própria uma reconstituição ritual do trauma, quase que implorando aos Deuses do Plot para que aquele fato espantoso se repita. Anedota não é realismo, é fabulação. Tentar interpretá-la através de motivações emocionais realistas é perdido. Há uma certa literatura (não toda, é claro) que também funciona assim. Críticos desperdiçam hectares de papel cobrando verossimilhança de personagens que são meras funções de uma história que precisa acontecer de uma maneira tão implacável quanto a aproximação de um trem.




sábado, 15 de novembro de 2014

3657) O balão de Dumont (13.11.2014)


Li numa matéria sobre Santos Dumont que o seu quarto balão, chamado (numa contagem descontraidamente brasileira) “no 3” se destacou pelo fato de ter sido o primeiro que se elevou com gás de iluminação, e o primeiro para o qual foi construído um hangar.   O gás de iluminação substituía o hidrogênio, que até então era o gás mais utilizado para inflar os balões da época.   O vôo foi realizado no dia 13 de novembro de 1899 – o dia exato em que, segundo os videntes do "fim do século", o mundo iria se acabar. 

 

Não sei por que motivo nostradâmico se previa o fim do mundo para esta data, e não para 31 de dezembro, o que pelo menos teria alguma lógica cronológica. Vai ver que assim como 13 é 31 ao contrário, novembro é dezembro ao contrário – para essa turma pêndulo-de-foucault, qualquer coisa pode ser demonstrada verbalmente.

 

Santos Dumont, ao que parece, não tinha problemas com o número 13, pois além de desafiar o Apocalipse anunciado, construiu e pilotou um balão com este número, mesmo vindo de duas tentativas abortadas com os números 11 e 12.  O no 13, ao que parece, sofreu algum tipo de sabotagem, mas logo em seguida veio o 14 e seu upgrade 14-Bis, e o resto é história. 

 

Não imagino que Santos Dumont fosse imune a superstições. Ao que parece foi por superstição que ele pulou o número 8, e na prática isso equivale a recear o 13, o 7 ou qualquer outro.  Mas, como temos o hábito mental de tirar lições de fatos aleatórios, aproveitemos para lembrar a reação de Santos Dumont, que foi provavelmente a de dizer: "Não, não tenho medo de que o mundo vá acabar hoje.  Para falar a verdade, acabei de construir um troço complicadíssimo que nem eu mesmo tenho certeza se vai voar ou não, e não tenho tempo de pensar em fim do mundo."

 

O mundo não acabou: o balão de Santos Dumont foi quem acabou voando.  Podemos aproveitar a outra informação (foi para este balão que ele construiu o primeiro hangar) como uma prova de seu otimismo, de sua certeza de que não apenas o mundo não ia acabar, mas talvez chovesse daí a alguns dias, e era preciso guardar o balão num lugar coberto.  Era um sujeito cheio de manias, e quase todas eram de ordem prática.

 
Mas, e o número 8?  Terá sido a prudência de Santos Dumont, evitando este número tão evidentemente perigoso, que salvou o Universo em que vivemos hoje?  Bem, tudo é possível.  Mas o melhor complemento da lição será, talvez, pensar que não comemoramos a data em que Fulano deixou de voar: comemoramos aquela em que ele de fato voou, sem se preocupar com milênios, cabalismos, superstições, e catástrofes anunciadas que afinal só interessam a quem vive passando cheque pré-datado.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

3636) "Distraction" (21.10.2014)


Isaac Asimov disse certa vez que, quando a bomba de Hiroshima explodiu, o mundo inteiro percebeu que estava vivendo numa ilha-da-fantasia, e que as únicas pessoas que viviam no mundo real eram os escritores de ficção científica.  Isto não se deve a alguma suposta capacidade dos escritores de FC para “prever o futuro”.  Nem todo escritor de FC está querendo “prever o futuro” quando escreve.  Alguns querem simplesmente criar uma história fantástica, envolvendo coisas que não existem e ambientes que não se encontram neste mundo daqui.  A possibilidade de estarem “profetizando o que vai acontecer um dia” lhes pareceria ridícula. 


Outros são escritores que conhecem de maneira extensa e profunda o mundo atual; sabem o que está ocorrendo na tecnologia, na economia, na política -- ambientes onde coisas novas acontecem o tempo inteiro, e continuam a acontecer por muito tempo.  Nós é que não sabemos; estamos preocupados com nossas vidas, nosso trabalho, e os fatos comuns em nossa cidade.  Só tomamos conhecimento de alguma revolução tecnológica ou política quando ela explode nas manchetes do mundo inteiro.  Alguém aí já tinha ouvido falar na Al-Qaeda antes do 11 de setembro?  Eu não tinha.



Bruce Sterling é um desses escritores que “sabem tudo” que está ocorrendo no mundo de hoje, e seus livros são rotulados como ficção científica por mera comodidade editorial, e porque alguns deles ocorrem num futuro próximo – dez ou vinte anos para a frente.  Tirando isto, são livros que fazem um retrato rico e impiedoso de coisas já latentes no mundo atual.  Distraction (1998) é a história de Oscar Valparaiso, um personagem meio picaresco, surreal, divertido.  Oscar é uma espécie de bebê-de-proveta criado num laboratório clandestino por traficantes-de-bebês colombianos, e adotado por um astro de Hollywood.  Depois de crescido, ele torna-se coordenador da campanha de um Senador.  O livro começa aí, num período em que os EUA estão entregues ao caos, depois que a concorrência com a China “quebrou” o país, reduzindo-o à bancarrota.



Oscar é aquele cara que tem um “jeitinho brasileiro” para tudo; negociador infatigável, cheio de recursos e de armações, que não desiste de nada.  Tem espírito de marqueteiro de campanha misturado com investidor na Bolsa. A história ocorre em grande parte numa Louisiana de pesadelo (o livro é pré-Katrina), e num futuro em que os EUA estão mais caóticos e entregues às milícias do que a Rússia de hoje. A destruição do país foi econômica e política, uma implosão de dentro para fora. É um futuro plausível, surrealista, mais possível a cada ano que passa.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

3492) O nome do celular (7.5.2014)



Quando aparece uma novidade tecnológica, ela muitas vezes já vem batizada do laboratório (pelos técnicos que a criaram) ou da fábrica (pelos marqueteiros que vão colocá-la ao alcance do público).  Mas também acontece do produto sair com um nome e bem depressa a rua batizá-lo de novo. O produto na rua é outra coisa. É como você batizar um filho de Gumercindo e descobrir que no colégio ele virou Gugu.

O caso do telefone celular é interessante porque nos EUA ele é chamado de “cell phone” e na Inglaterra de “mobile”, e neste caso, pelo menos, seguimos os EUA. A gente não diz “Liga amanhã pro meu móvel”, embora a expressão “telefonia móvel”, para falar da indústria, seja corrente na imprensa e nos documentos jurídicos.

Um blog (aqui: http://tinyurl.com/qcroh6c) fez um levantamento sobre o modo de chamar esse aparelho em vários países. É um levantamento informal, mas em princípio merece uma olhada. O nome “cellphone” (e derivados, como “celular”) é predominante nos EUA, Brasil e Filipinas, e presente na Argentina e Cuba.  O termo “móvel”, nos seus derivados como “mobile”, predomina no Irã, Espanha, Dinamarca, Reino Unido, Nova Zelândia, Índia, Holanda.

Há outros termos interessantes,  como por exemplo “portable”, em francês, que se alterna com “mobile”, porque também é usado para computadores portáteis. A Coréia, a Alemanha, a Indonésia e a China usam “handphone” (ou “handy”), “telefone de mão”, que é simples e intuitivo.  Na Turquia, o também óbvio “pocket phone”, “telefone de bolso”, que seria o meu preferido numa votação, até porque me lembra “pocket book”.  Israel usa “Pelefon” que o saite em inglês traduz por “wonder phone”, “fone maravilha”.

Aqui no Brasil começamos usando “telefone celular” que foi logo abreviado para “celular” para distingui-lo do “telefone de linha”. Todo mundo diz: “Não me liga no telefone, liga no celular”.  Usamos também assim: “Não me liga no fixo, liga no celular”. “Fixo” é uma denominação retroativa, porque esse tipo de telefone só foi chamado assim depois que os telefones móveis apareceram. A interferência mais criativa do Brasil foi criar a piada do “telefone molecular”, que consiste em chamar um moleque, dar-lhe um recado e dizer que vá correndo. É uma cena machadiana (os personagens de Machado de Assis não vivem sem um moleque de recados capaz de disparar pela cidade afora para levar mensagens urgentes), mas ao mesmo tempo fico imaginando um tradutor estrangeiro de um romance nosso que se deparasse com esta expressão; se o contexto não desse mais informações, pensaria tratar-se de uma história de ficção científica.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

3356) Gambiarra (29.11.2013)



Gambiarra é gato, é ligação clandestina, é fiação descoberta, é improvisação informal ligeiramente abaixo do piso de legalidade imposta aos autônomos em geral. 

Gambiarra é arranjo, é ajuste, é quebra-galho, é um pra-ver-se-cola alicerçado pelo norrau de quem faz isso o tempo inteiro.

Na minha infância, “gambiarra” eram aquelas cordas esticadas no ar, com lâmpadas penduradas, numa praça onde ia haver um comício, numa festa ao ar livre, etc. Este me parece ser o sentido português do termo, porque a Wikipédia registra: “Em Portugal, o significado predominante seria ‘extensão de luz’. Entre outros significados, destacam-se ‘ramificação de luzes’ (Ferreira, 1999)”. 

Uma definição em inglês que vi recentemente circulando nas redes sociais diz (tradução minha): 

“Gambiarra é uma definição brasileira para o desvio informal de conhecimento técnico. É uma prática cultural generalizada, que consiste em todo e qualquer tipo de soluções improvisadas para problemas do dia-a-dia, com qualquer material que se tenha à mão”. 

Entre os sinônimos em inglês sugeridos, está o divertido “McGyverism”, que faz referência ao McGyver da série de TV, o agente secreto capaz de inventar soluções improvisadas para tudo. (Eis um saite de gambiarras de cinema/TV: http://shittyrigs.com/).

Gambiarra é quando alguém resolve um problema mecânico, hidráulico, elétrico, etc. usando recursos improvisados. Claro que tanto pode produzir coisas bem feitas quanto mal feitas. A boa gambiarra indica conhecimento do problema e habilidade para resolvê-lo, mesmo que os materiais sejam de má qualidade e que haja maneiras mais eficazes de solucioná-lo. 

A gambiarra mal feita pode produzir curto-circuitos elétricos, estouros / vazamentos / infiltrações hidráulicas, construções de alvenaria tortas e instáveis e assim por diante. A gambiarra não é garantia de trabalho eficiente nem é indício de incompetência.

Já vi amigos da área de Engenharia se queixando de que seus cursos não estimulavam a invenção, e sim a assimilação metódica do que já foi inventado É compreensível: em Elétrica, em Mecânica e em Civil a quantidade de soluções já encontradas é enorme, são séculos de conhecimento acumulado. Diante de tal problema, faz-se assim ou assado. 

O lado negativo, parece, é que quando um problema prático extrapola a tradição alguns engenheiros ficam de mãos atadas, porque não foram ensinados a pensar “fora da caixa”. Vai daí que todo curso prático (Engenharia, Medicina, Arquitetura, etc.) deveria uma cadeira chamada “Gambiarra” que percorresse o currículo do primeiro ao último ano. A arte do improviso, para fazer frente ao Acaso, ao Imprevisível, ao Imponderável.








sábado, 27 de julho de 2013

3249) Mídia transparente (27.7.2013)



Vamos voltar um pouco ao tema da Mídia Ninja e das tecnologias de vigilância mútua entre o aparelho do Estado (e das Corporações) e a população civil. A onipresença das câmeras de segurança em nosso mundo urbano torna possível vigiar em tempo real (ou reconstituir “a posteriori”) os movimentos dos cidadãos através de uma cidade. A grande imprensa mostrou as deslocações do brasileiro Jean Charles antes de ser equivocadamente morto pela polícia londrina, sob suspeita de terrorismo, em 2005, e o modo como o carro da juíza Patrícia Accioly foi seguido pelos policiais que a mataram em Niterói, em 2008. Reconstituições assim poderão ser possíveis (em tese) em relação à maioria das pessoas, pois todas elas estarão em algum momento de seus trajetos urbanos passando pelo campo visual de uma câmera.

Nos EUA, carros da rádio-patrulha levam uma câmera apontada para a dianteira do carro; desse modo, quando os patrulheiros detêm um suspeito e param atrás do carro dele, todas as ações subsequentes (descer, mandar o motorista descer, revistá-lo, algemá-lo, dar-lhe uns safanões quando necessário) estarão sendo registradas para posterior avaliação no tribunal, se for requerido por alguém.

Milhares de câmeras portáteis nas mãos de manifestantes, cobrindo o tumulto de uma passeata, podem ser uma arma poderosa, se não para dissuadir a polícia de praticar as barbaridades costumeiras, pelo menos para atribuir responsabilidades “a posteriori”. Outra arma importante seria (não sei até que ponto isto já é contemplado pelas nossas leis atuais) a exigência de que qualquer procedimento policial fosse obrigatoriamente registrado em vídeo e áudio; e que no caso de a polícia não fornecer essas gravações, quando solicitadas por um juiz, isto fosse considerado um indício de possível culpabilidade. Uma micro-câmera numerada no capacete de cada policial envolvido na repressão de manifestações de rua. (E só faltava agora eles quebrarem a câmera com a mesma cara-de-pau com que arrancam o nome da farda.)

Câmeras no interior das delegacias, principalmente nas salas de interrogatório. É possível? Câmeras nos guichês de atendimento do Detran e outras repartições notórias pelo descaso, corrupção ou bagunça. É possível? Câmeras onde quer que ações governamentais e corporativas possam estar se chocando com o interesse da população. É possível? Se for, é preciso votar para que isto se transforme em lei, e que os bancos de imagens sejam acessíveis à sociedade organizada. Em termos enxadrísticos, o Povo precisa deixar de jogar com as peças pretas. Precisa jogar com as brancas, tomar a iniciativa contra (e colocar em xeque) Governos e Corporações.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

3242) Mídia Ninja (19.7.2013)




Quinze anos atrás, o escritor de FC David Brin publicou um livro intitulado The Transparent Society (1998), em que discutia as consequências da rápida evolução das tecnologias de vigilância eletrônica. O livro desenvolvia um artigo homônimo de 1996 na revista Wired (http://bit.ly/3bGnct) e surgia num contexto em que a imprensa debatia com fervor o medo de estarmos penetrando num mundo totalmente Big Brother, um mundo de vigilância eletrônica permanente do Estado sobre os cidadãos.  Um mundo em que seria possível ao Estado, à polícia, até mesmo às forças de segurança de outra nação (vide a recente denúncia de espionagem norte-americana no Brasil) fiscalizar nossa vida pessoal, ter acesso à nossa vida financeira, rastrear nossos passos.

Brin contra-atacava esse medo dizendo: E se o feitiço virar contra o feiticeiro? E se esses mesmos instrumentos também permitirem ao cidadão vigiar o Estado? E se essas câmerazinhas não estiverem apenas nas mãos da polícia e dos espiões, mas nas mãos de cidadãos que poderão registrar as atividades do aparelho repressor do Estado, ou de quaisquer grupos organizados que os prejudiquem? E se qualquer cidadão puder ter acesso ao que qualquer câmara da cidade está filmando em cada momento? E se a prisão de um cidadão na rua estiver sendo observada por pessoas capazes de testemunhar qualquer arbitrariedade policial, pois o acesso a essas imagens não é privilégio de ninguém?

As recentes manifestações de rua no Brasil têm sido cobertas por manifestantes jovens com minicâmeras transmitindo ao vivo; grupos como Mídia Ninja (“Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”) e Olho da Rua. Noite e madrugada adentro, da minha casa, acompanho tudo que acontece acessando http://twitcasting.tv/ninja2rj/.  A imagem e o som não são 100%, a conexão cai de vez em quando... mas, amigos, esta é a fase irmãos-lumière de uma sociedade transparente como a sugerida por David Brin há 15 anos.

Dizia ele: “A chegada desses implementos em nossas cidades não pode ser retardada. Ricos, poderosos e as figuras de autoridade os terão, seja legalmente ou clandestinamente. As imitações vão se propagar, e vão se tornar menores, mais rápidas, mais baratas e mais inteligentes a cada ano que passe.” Quem vigia os vigilantes? – perguntava Alan Moore em Watchmen. Se nossa sociedade tende a uma perda geral de privacidade, a única maneira de tornar isto uma coisa positiva é estender esse fenômeno aos governos, às autoridades, aos aparelhos de repressão. Eles também estarão sendo vigiados, observados por milhares de pequenas câmaras.  Um Governo não pode exigir para si a privacidade que nega aos seus cidadãos.