quarta-feira, 20 de maio de 2026

5235) A faca e Salman Rushdie (20.5.2026)




Para muita gente, Salman Rushdie é apenas o autor do livro blasfemo Os Versos Satânicos (1989), que desencadeou contra ele o ódio de muçulmanos fanáticos. O romance tratava de maneira desabusada e irreverente algumas figuras sagradas do Islã, e fez com que o aiatolá Khomeini decretasse a famosa Fatwa, a sentença de morte contra o autor. 
 
A oferta de Khomeini pela vida de Rushdie, segundo se diz, chegou a 3 milhões de dólares.
 
Dinheiro que, pelo que entendo, jamais chegou a ir para a conta de ninguém. Os radicais não mataram Rushdie. Mataram seu tradutor japonês – o que mais uma vez demonstra que, na cadeia alimentar da literatura, o tradutor é o primeiro a ser devorado.
 
Conheci o nome do indiano Rushdie (educado em Londres) muito antes disso e, curiosamente, ouvi falar nele pela primeira vez em 1981, num verbete da minha querida The Encyclopedia of Science Fiction (1978; ed. Peter Nicholls e John Clute). Ele era mencionado ali por obra e graça de seu romance de estréia Grimus (1975), uma fábula meio surreal sobre universos paralelos e transcendência mística. 


 
Um livro (fiquei sabendo depois) de que ninguém gosta, exceto eu e Rushdie, talvez. Minto: tenho dois ou três amigos que apreciam o livro. A questão é que como ficção científica ele não se sustenta (nem precisa), porque está mais próximo dos delírios alegóricos de Jodorowsky (tipo A Montanha Sagrada) do que de Blade Runner ou Star Wars.
 
O livro de estréia, contudo, acabou produzindo um episódio que mostra o quanto o Deus da Literatura tem caninos brancos e garras de veludo. Como registra Bryan Appleyard, do The Sunday Times
 
https://web.archive.org/web/20080516000740/http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/books/article2961480.ece
 
Na década de 1970, os escritores Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss eram jurados num concurso para escolher o melhor romance de ficção científica do ano. Decidiram dar esse prêmio a Grimus, o livro de estréia de Salman Rushdie, No último minuto, porém, os organizadores decidiram desclassificar o livro. Não queriam Grimus na prateleira de ficção científica. “Se esse livro tivesse ganho”, disse Aldiss, o sarcástico romancista de 82 anos, o padrinho da FC britânica, “Rushdie teria que ser promovido como autor de FC, e nunca mais ninguém ouviria falar do seu nome.” 
 
Exilado do planeta FC, Rushdie acabou se consagrando em 1981 com Midnight Children, romance fantástico sobre a geração nascida na noite da independência da Índia. Ganhou o Booker Prize, e o resto é história. 



Li agora um dos seus livros mais recentes, Faca: Reflexões Sobre um Atentado (Companhia das Letras, 2024, trad. Cássio Arantes Leite e José Rubens Siqueira). É o relato da tentativa mais recente de cumprir a fatwa. Em agosto de 2022, numa palestra pública nos EUA, Rushdie foi atacado por um fanático que subiu ao palco e, antes de ser contido, desferiu 15 facadas no escritor, atingindo o seu rosto, o peito, o pescoço, uma mão. 
 
Rushdie correu sério perigo de perder a vida, mas recuperou-se parcialmente. Perdeu a visão do olho direito, e parte do uso da mão esquerda, mas voltou a trabalhar, viajar, escrever, dar palestras. E neste livro ele reconstitui e comenta a experiência do atentado. 
 
O escritor indiano lembra em seu livro um outro atentado famoso – a primeira coisa que me veio à cabeça quando eu soube do que tinha ocorrido. Em 1938, o dramaturgo Samuel Beckett foi esfaqueado numa rua de Paris e correu risco de vida. Depois, conseguiu um encontro pessoal com o seu atacante (que estava preso) e perguntou-lhe por que fizera aquilo. O homem respondeu: “Não sei, senhor, me desculpe”. 
 
Salman Rushdie não quis ter nenhum encontro face a face com o homem que tentou tirar sua vida. Mas romancista é romancista, e a parte II de seu livro Faca é a ficcionalização de um diálogo entre os dois. Não me pareceu a melhor parte do livro – o autor, claramente revoltado com o que passou, transforma essa entrevista imaginária numa espécie de desabafo em que ele meio que ridiculariza o criminoso por ser fanático, por não ter cultura literária, e assim por diante. 
 
Depois de meses de internação hospitalar, Rushdie foi se recuperando aos poucos, recebeu alta para voltar ao seu apartamento em New York. Algum tempo depois, pediu para revisitar o lugar onde sofreu o ataque, no Instituto Chautauqua, na cidade de Pittsburgh. Acompanhado de sua mulher, Eliza (que não estava presente no dia do atentado) ele reviu o auditório onde mal tinha começado a falar para a platéia quando aquele homem mascarado (que no livro ele chama de “o A.”, o Agressor) correu para o palco, subiu e o atacou. 
 
O palco também estava vazio, um amplo espaço de tábuas polidas. Tentei recriar o momento para Eliza. Havia duas cadeiras, para Henry e para mim, contei, aproximadamente aqui e aqui, e o microfone que Sony Ton-Aime usou para nos apresentar estava ali. E o A. — quando o vi pela primeira vez — deve ter se levantado de um lugar um pouco mais à direita. Ali. E veio correndo e subiu esses degraus. Aqui. E então me atacou. E quando eu caí foi mais ou menos aqui. Bem aqui. 
 
Diz um ditado popular que “o criminoso sempre volta ao local do crime”. Como toda frase desse tipo, ela tem um tom demasiado taxativo (“sempre”). Seria mais científico dizer: "os criminosos geralmente têm um forte impulso de voltar ao local do crime." 
 
E as vítimas (as quase vítimas-fatais) também. Acho que qualquer psicólogo consegue explicar os mecanismos mentais que levam alguém a esse tipo de acerto de contas com a própria memória. 
 
Varia muito, é claro. Algumas pessoas, passando por um acidente grave, por exemplo, passam a evitar aquela rua, ou aquele transporte que estavam usando, ou qualquer outra coisa que lembre o momento traumático. 
 
Outras, no entanto, sentem a necessidade de fazer uma espécie de “reconstituição ritual do trauma”. Como se fosse uma visita a um local onde lhes aconteceu uma coisa maravilhosa, não uma coisa terrível. E que coisa maravilhosa foi essa? “Eu escapei”, ela dirá. Não é o lugar onde quase morreu, é o lugar onde nasceu de novo. 
 
Pontos dolorosos do nosso passado imploram por uma visita, exigem que voltemos lá. Para quê? Não sabemos, mas essa tentativa de revisitar o trauma fornece um excelente material para romancistas, cineastas, dramaturgos em geral. A obra de Luís Buñuel está cheia de histórias sobre pessoas que sentem a compulsão de recriar uma cena precisa do passado, retornar a um momento do passado, para apagar uma dor que continua acesa. 
 
Rushdie é um prosador brilhante, inventivo, com uma imaginação portentosa. Seus escritos têm um lado londrino, cosmopolita, e têm outro lado que facilmente chuta para o alto o pau-da-barraca do Realismo e mergulha numa aventura surreal sem pedir licença antes nem desculpas depois. É um dos melhores estilistas daquilo que o respeitável James Wood chamou de “realismo histérico”, um tipo de literatura fabulatória onde não se recua diante do grotesco, do improvável, do rebuscado, do incompreensível. 
 
Ele escreveu um livro enorme, Joseph Anton (2012), sobre a fase em que, devido à sentença de morte dos aiatolás, passou alguns anos clandestino, protegido pelo Serviço Secreto da Inglaterra. Mas só o escreveu depois, quando a ameaça afrouxou e ele saiu de novo à luz, vindo inclusive à FLIP, em Paraty, onde tomou cerveja, deu autógrafos e conversou livremente com todo o mundo. 
 
Os romances que produziu com a Fatwa pendendo sobre a cabeça, contudo, conseguiram evitar dois perigos, segundo ele: o vitimismo e o revanchismo. Diz ele, em Faca
 
Imagine que você não saiba nada a meu respeito, que você veio de outro planeta, talvez, e alguém lhe deu meus livros para ler, e você nunca ouviu falar no meu nome nem tem nenhuma informação sobre minha vida ou sobre o ataque contra os Versos satânicos em 1989. Assim, se você lesse meus livros na ordem cronológica, não acredito que pudesse concluir que “alguma calamidade aconteceu na vida desse escritor em 1989”. Os livros têm sua própria jornada a percorrer. 
 
Eu me lembrava de pensar na época que havia duas maneiras de a fatwa me desencaminhar, me destruir enquanto artista: se eu começasse a escrever livros “temerosos” ou se passasse a escrever livros “vingativos”. Ambas as opções destruiriam minha individualidade e independência e fariam de mim nada mais que uma cria daquele ataque. Ele me dominaria e eu não seria mais eu mesmo. 
 
Realismo histérico ou não, a literatura de Rushdie mergulha em referências indianas milenares e ao mesmo tempo mostra ser escrita por um cara que escuta Bob Dylan e torce pelo Tottenham Hotspur. É uma imaginação literária sem barreiras, aceitando as imagens e os enredos do modo como lhe vêm. 
 
Em Faca, ele conta que já em Pittsburgh, na véspera da palestra, ficou algum tempo sozinho, à noite, diante do lago. A lua de agosto estava tão bonita que ele lembrou de trechos de seu romance mais recente, que aborda deuses pertencentes a uma “Linhagem Lunar”. Lembrou de uma piada relativa a Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua; lembrou de um conto de Ítalo Calvino em As Cosmicômicas, em que a Lua está tão próxima da Terra que é possível pular de uma para a outra. 

E nessa associação de idéias lembrou do filme de Georges Méliès, La Voyage dans la Lune, em que o foguete lançado da Terra – na verdade, uma bala de canhão – se crava no olho direito da Lua. E diz: “Eu não fazia idéia do que a manhã seguinte reservava para o meu olho direito.” 


(Méliès, "Viagem à Lua", 1902)
 
O atentado foi brutal, e ele escapou por pouco. Um homem de 75 anos foi esfaqueado por outro de 27, que lhe aplicou quinze facadas em menos de trinta segundos. Um médico disse ao escritor: “O senhor só escapou com vida porque seu assaltante não tinha a mínima idéia de como se mata alguém com uma faca”. 
 
E ele diz:
 
Se não fosse por Henry e a plateia, eu não estaria hoje aqui, escrevendo estas palavras. Não vi o rosto deles e não sei seus nomes, mas foram as primeiras pessoas a salvar minha vida. De forma que, naquela manhã em Chautauqua, vivenciei o pior e o melhor da natureza humana, quase ao mesmo tempo. É isso que somos como espécie: temos dentro de nós tanto a possibilidade de assassinar um velho estranho por quase nenhuma razão, o potencial do Iago de Shakespeare que Coleridge chamou de “malignidade sem causa”, e contemos também o antídoto para essa doença: coragem, desapego, disposição de arriscar a vida para ajudar aquele velho estrangeiro caído no chão. 
 
 




quarta-feira, 13 de maio de 2026

5234) A bola e a fama (13.5.2026)

  




(fotos meramente ilustrativas)

1
 
Minha família se mudou para o Alto Branco em 1961, quando o Alto Branco era um continente à espera de Cristóvão Colombo. Era considerado um bairro distante, e não tinha sequer uma linha de ônibus – havia apenas uma precária linha de kombis onde todo mundo se amontoava e se espremia na maior festa, principalmente em dia de feira. 
 
E tinha vastas extensões de campo aberto, coberto de grama ou de areia fina, alqueires e mais alqueires disponíveis para a prática do esporte bretão. 
 
A maioria da turma da nossa rua estudava de manhã, de modo que a partir das 3 da tarde, quando o sol esfriava, corria todo mundo a jogar futebol. Futebol é um esporte adaptável, mutante. A gente jogava descalço, a bola era de plástico, e a barra eram duas pedras, ou dois montes de roupa. Barra-com-traves era um luxo raro.  


 
Foi um verdadeiro rito-de-passagem quando conseguimos nos cotizar para uma bola de couro marca Drible, número 3, que eu e Severino Brasil compramos na Casa Esporte, ao velho Fuba, e levamos trocando passes pela rua afora até chegar à casa dele na Napoleão Laureano. Já nos víamos como profissionais, porque eu e ele, com quinze anos, trabalhávamos no “Diário da Borborema” e recebíamos salário de verdade. 
 
E vou inserir aqui um personagem fictício mas simbólico. Um amigo nosso, que vou chamar aqui de “Aderbal”, e que era um dos mais animados com o jogo. Seu sonho era ser goleiro, não importava muito se do Treze, do Campinense ou do Paulistano (era no tempo em que existia o Paulistano). Os ídolos dele não eram Pelé nem Garrincha: eram Gilmar, Manga, Pompéia, Marcial, Cabeção... Sem esquecer, é claro, os ídolos locais: Waldemar, Augusto, Brito, Dudinha, Galego, Elias, Apinagés... 



 
Aderbal cultivava a mitologia goleirística com uma dedicação assombrosa. Um dia, apareceu de boné. Chamei Severino de banda.
 
-- Que moda é essa agora?
 
-- Ele disse que é por causa de Yashin – explicou ele. --  O boné protege a visão.
 
-- Então pra semana ele vem de óculos?!...
 
O boné tudo bem, mas o que invocava a gente é que quando vinha uma bola propícia Aderbal caprichava no salto. O modelo dele era Pompéia, do América, que a imprensa chamava “o Constellation”, uma marca de avião daquele tempo. Quando a bola era chutada de longe e vinha descrevendo um arco manso, descendente, Aderbal caprichava e se erguia no ar como um acrobata, corpo esticado, braços estendidos, sob os aplausos da molecada menor que se amontoava em volta do campinho para assistir.
 
-- Aderbal, a bola!
 
-- Não deu! – Ele se erguia esbaforido, espanando a poeira. – Muita força.
 
-- Rapaz, a bola era rasteira, tu pulasse pra cima!
 
Ele não pulava para a bola: pulava para os fotógrafos, aqueles fotógrafos imaginários que na fantasia dele haveriam de preservar seu vôo para as gerações futuras.
 
O jogo, para ele, era uma mera formalidade. O resultado da partida era irrelevante. Todo aquele moído acontecia apenas para que ele se erguesse no ar feito um albatroz e fosse clicado pelos fotógrafos do futuro. E quem de nós tinha o direito de criticar? Éramos meninos, cheios de energia, e todos sonhando. Sonhar com a foto não era muito diferente de sonhar com o gol.
 
Eu, Pedro, Severino, Geraldo, Jovany, Jânio, Fredinho, Pedro Augusto, Marinaldo, Luisão, Zezito, Zé Novo, Chiquinho Perácio, Jacinto, Belo, Nenê, Mizinho... O que importava mesmo era a alegria, no campo da Graminha ou das Barreiras. Ninguém ali estava destinado a sair com foto na página de esportes. (Bem – Luisão, que torcia pelo Campinense, chegou a jogar no Treze, e a treinar no Náutico.)



 
2

A gente pisca o olho, e passaram-se sessenta anos. O mundo é outro e o ser humano é o mesmo.
 
Dias atrás o jornal The New York Times produziu uma matéria intitulada “Os 30 Maiores Compositores Americanos Vivos”. Deu o que falar, porque o jornal convocou cerca de 250 votantes por todo o país para fornecerem suas listas, mas na verdade quem escolheu a lista final foram seis críticos do próprio jornal.
 
A polêmica está lavrando por lá, não apenas porque a escolha dos críticos “xóvens” deixou de fora inúmeros nomes respeitados, mas porque eles gravaram um videocast justificando suas escolhas – e foi possível constatar o quanto esse pessoal é autossuficiente, posudo, esnobe e todos os adjetivos equivalentes.
 
Fiquei sabendo da confusão através de dois comentaristas que respeito. O crítico Ted Gioia, que sigo na plataforma Substack, e o músico Rick Beato, cujos vídeos de análise musical vejo há anos no YouTube.  Nem sempre concordo com eles, claro; assim como nem sempre concordo comigo. Não importa. São os conceitos que contam, são os critérios que me fazem prestar atenção e manter respeito.

 
Disse Ted Gioia, numa postagem recente no Substack, sobre os “cricríticos” do New York Times:
 
https://www.honest-broker.com/p/rick-beato-versus-the-ny-times
 
Por uma curiosa coincidência, eu tinha postado uma crítica musical um dia antes desse vídeo do Times ser divulgado. Nesse artgo, intitulado “Nove Regras da Crítica de Música”, fiz esta afirmação:
 
“Confie na sua resposta emocional a um trabalho de criação artística, e abra o olho com as posições críticas que vão de encontro ao modo como você se sente. Abra o olho com qualquer crítico que menospreza a sua fruição da música ou de alguma outra forma de arte. Não estou dizendo que o crítico precisa concordar com essas reações suas, mas, uma clara hostilidade e um menosprezo doutrinário às suas reações emotivas a uma obra qualquer são um sinal de alerta.” (...)
 
Ted Gioia cita uma resposta do pianista de jazz Brad Mehldau, que descreve um tipo muito comum de crítico de música:
 
É um esnobe, ansioso para “estar por dentro”, e por isso torna-se crítico. Ele ouve música, não porque goste de música, mas porque é a música que define o seu modo narcisista de entender a si mesmo.
 
 
E aqui tem Rick Beato pegando-ar com a rapaziada:
 
https://www.youtube.com/watch?v=IQTMkjQvHoc
 
Não é só na música popular, concordam? É na crítica literária, na crítica de cinema, na crítica de teatro. Até mesmo nos comentaristas de futebol ou de política. O sujeito conquista posições de poder e usa esse poder para ser temido e bajulado. Seus critérios visam pessoas. São acima de tudo pessoais e pragmáticos, e têm pouco a ver com a qualidade artística (ou seu equivalente) do que parecem estar analisando. São narcisos afundando devagar nas águas turvas de si mesmos.
 
Isso é um pecado, é um crime? Talvez não seja, mas a questão não é esta. A crítica de arte, o jornalismo cultural, os prêmios literários e tudo que se assemelha a isto usam critérios pessoais. Sendo pessoais, precisam ser muito claros. Porque lidam com o subjetivo, com o gosto pessoal de cada um. O público precisa saber que não está sendo enganado, e que aquele crítico  não apenas “fez o dever de casa” (ninguém pode ser crítico sem estudo) mas também tem um respeito sincero pelas obras que está enaltecendo ou destruindo.
 
Sem esse respeito não há crítica. A crítica não pode ser um conjunto de abstrações teóricas impostas de cima para baixo, ou um conjunto de atitudes irônicas, piadinhas, rompantes furiosos, lacrações, venetas, julgamentos subjetivos que se recusam a examinar a si mesmos, que se recusam a submeter-se a algum tipo de freios-e-contrapesos.
 
Um crítico não tem o direito de dizer: “Não sei, só sei que foi assim”. (Um poeta tem.)
 
Críticos podem ser bajuladores, servis, interesseiros... E podem ser cruéis. Lembro que David Lean, o diretor de Lawrence da Arábia e de Doutor Jivago, caiu na besteira de aceitar um convite para um almoço com críticos de cinema novaiorquinos, quando lançou A Filha de Ryan, e saiu dali tão abalado que passou anos sem coragem de fazer outro filme.
 
Sou do tempo em que uma crítica musical no Jornal do Brasil tirava de cartaz um show que acabara de estrear no Canecão. O show era bom? Era ruim? Não importa. Essa concentração de poder é perigosa, e o excesso de poder, a gente já sabe, costuma puxar de dentro das pessoas o que elas têm de pior.
 
Quando vejo algumas barbaridades ditas por alguns “jornalistas” ou “influenciadores” contemporâneos, do alto de sua orgulhosa desinformação e de seus milhões de seguidores, a vontade que me dá é de murmurar baixinho: “Aderbal, olha a bola!”.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

5233) Para que serve uma fórmula (6.5.2026)




 
[ a Jornada do Herói ]
 
A palavra “fórmula” é quase um tabu no mundo literário. Com certa razão, porque a literatura popularesca apropriou-se deste recurso e o ordenhou até a secura. 
 
A “Jornada do Herói”, tão querida dos manuais de roteiro e de narrativa, não passa de uma fórmula, com tudo que ela tem de positivo (no caso uma estrutura arquetípica, presente em todas as culturas) e de perigoso (no caso, a repetição, o clichê, o lugar-comum). 
 
A fórmula é um certo conjunto de procedimentos que se repetem de história para história. Não gosto muito é da palavra “fórmula”. É um termo que vem da Química, e pelo menos a mim transmite uma idéia de escrupulosa exatidão. O que não é bem o caso na literatura. 
 
A “fórmula” de um remédio é um elenco de substâncias, em doses miudamente medidas. Leve-se uma receita a uma farmácia de manipulação, e o farmacêutico procurará consultar a “fórmula” e produzir algo exatamente igual ao que foi feito nas vezes anteriores. Não pode mudar nem um miligrama. 
 
Não é assim na literatura. O que chamamos de fórmula literária é na verdade um leiaute: primeiro vem essa coisa aqui, depois esta, depois aquela outra... É um guia estrutural. O romance detetivesco está cheio de formatos assim. O conto de fantasmas também. Também as historinhas de amor (inclusive, imagino, as tais “romantasias” que hoje em dia estão pulando como pipocas no fogareiro)... 
 
A fórmula serve para inspirar. Ora que diabos, até a fórmula de um título serve para inspirar. 



Muitos autores policiais criam séries baseadas em fórmulas que vêm expressas no título. 
 
John D. MacDonald tem uma série de romances em cujos títulos aparecem cores que têm significado especial na história: Nighmare in Pink, The Quick Red Fox, A Deadly Shade of Gold... 
 
Erle Stanley Gardner deu a seu advogado-detetive Perry Mason uma infinidade de “casos” com iniciais dobradas: The Case of the Spurious Spinster, The Case of the Grinning Gorilla, The Case of the Borrowed Brunette, The Case of the Black-eyed Blonde… 
 
Sempre imagino que esses autores inventam um título sonoro, atraente, baseando-se nessa “fórmula”. E depois inventam um enredo que lhe corresponda. 
 
Ellery Queen tem, entre outras obras detetivescas, uma série de romances baseados em personagens/objetos de nacionalidades diferentes. Meus preferidos são O Mistério da Cruz Egípcia, O Mistério do Ataúde Grego, O Mistério da Laranja Chinesa, O Mistério dos Irmãos Siameses (citado por Jorge Luís Borges no conto “Exame da Obra de Herbert Quain”), O Mistério do Pó Francês, O Mistério do Sapato Holandês... 
 
Os pessoal da “Crippen & Landru”, editora especializada em mistério policial, chama a esta série “The Location Object Mystery”, ou seja, todos os títulos incluem uma locação (geográfica) e um objeto. 
 
Dito isto, vou dar agora alguns pequenos exemplos de como uma fórmula desse tipo pode sugerir idéias pela mera combinação de elementos escolhidos ao acaso. (E vejam a sutileza desta expressão – porque a busca na memória é feita ao sabor do Acaso, pelo olho, mas é a mente criadora quem aponta o dedo e escolhe: “Este aqui me serve”.) 
 
O que vem a seguir é improviso ao teclado, sem consultar arquivos nem notas. 
 
O Mistério da Caneta Coreana 
Um conto policial em que a solução do crime / mistério / problema repousa numa série de textos manuscritos (podem ser cartas, ou um testamento, ou um caderno-diário, etc.) feitos por uma pessoa, utilizando uma caneta de estimação, que ela dizia ter comprado em Seul. Descobre-se depois que essa caneta tinha dois tubos de tinta internos, que podiam ser alternados, e que um deles escreve com tinta invisível. Submetida à luz ultravioleta (ou coisa desse tipo), a página escrita revela outro texto superposto, que desmente ou altera o primeiro. 
 
O mistério do Passaporte Brasileiro 
Um homem é encontrado morto no primeiro andar de uma oficina mecânica em Osasco, e em sua mesa há cerca de vinte passaportes brasileiros, todos falsos, em nome de pessoas famosas (artistas, políticos, atletas, etc.) que afirmam, é claro, nada ter a ver com aquilo. A trama se funda no fato de que a mixagem étnica do Brasil torna qualquer pessoa um brasileiro plausível (branco, negro, oriental, etc.). (Este tema foi utilizado, com uma inteligente torção, no filme “Terra Estrangeira”). A questão é: por que usar fotos e nomes de gente famosa, à sua revelia? 
 
O Mistério do Boato Indiano 
Uma série de crimes inexplicáveis assola a cidade de Mumbai. Pessoas sem qualquer conexão entre si são assassinadas em circunstâncias idênticas, e o criminoso deixa recados idênticos (mas igualmente inexplicáveis) junto a cada vítima. Descobre-se depois que se tratava de um boato gerado na Internet, em que um versinho satírico feito por um jovem foi traduzido e retraduzido em todos os idiomas que se falam na cidade, até ganhar contornos místicos e ameaçadores, por distorção verbal. Isto fez com que um grupo de tresloucados passasse a executar os crimes que julgavam estar sendo profetizados. (Para efeito dramatúrgico, convém criar outro boato, este inofensivo, nos capítulos iniciais, para desviar as suspeitas do leitor.) 
 
O Mistério da Capela Portuguesa 
No interior de Portugal, crimes misteriosos ocorrem numa antiga capela do século 17, onde pessoas aparecem mortas, tendo vindo de muito longe para rezar ali, de maneira inexplicável para as respectivas famílias. O detetive começa a perceber um padrão de regularidade unindo as vítimas e as datas de suas mortes. (Ao escrever isto percebo que estou me lembrando do clássico francês “As Mortes Misteriosas de Canteperdrix”.) 
 
O Mistério do Candelabro Italiano 
Um casal rico tem na sala de visitas um belo candelabro comprado em Roma, durante sua lua-de-mel. O marido morre. A viúva, anos depois, no leito de morte, sussurra aos filhos que o testamento está guardado no candelabro italiano. Eles mexem de todas as maneiras e nada encontram; chegam a pensar em derreter o metal. Depois, o detetive descobre que eram duas folhas de papel ofício datilografadas, assinadas, cuidadosamente dobradas, dentro da caixa da cópia VHS do filme de Delmer Daves, guardada entre centenas de outras no escritório do pai. 
 
Inúmeras vezes, precisando de um ponto de partida para um texto (principalmente quando eu publicava diariamente em jornal) recorri a sorteios combinatórios, pegando duas palavras ao acaso, e batendo com uma na outra até produzir uma fagulha. Nunca dava para atear fogo à casa, mas muitas vezes me acendia uma vela na escuridão.