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terça-feira, 11 de agosto de 2020

4609) O mistério das figuras de cera (11.8.2020)

 


Sigmund Freud elegeu, como um dos elementos mais propensos a nos transmitir a impressão do Estranho, do sobrenatural, do Unheimlich, a reprodução de figuras humanas sem vida – bonecos, estátuas, etc.  Quanto mais parecido com um ser humano, mais inquietante torna-se aquela imagem. Recuamos instintivamente, porque percebemos que tem algo estranho ali. E tem. Não é uma pessoa. Não tem vida.


As reflexões de Freud sobre o Unheimlich (“the Uncanny”) mostram uma zona limítrofe entre o ser e o não-ser. Há atualmente uma expressão muito usada hoje, no tempo das recriações digitais: “The Uncanny Valley”, O Vale do Estranho. É esse vacilo da razão em que vendo uma imagem somos incapazes de saber se aquilo é ou não uma pessoa. Sentimos essa estranheza que é um misto de susto, medo e repulsa.

 

Assunto importante, numa época de deep fake, falsificações digitais capazes de pegar (como já vi na web) uma cena de Onde os Fracos Não Têm Vez e substituir a imagem de Javier Bardem pela de Arnold Schwarzenegger, dizendo as mesmas frases, lançando os mesmos olhares, movendo do mesmo modo cada músculo do rosto.

Aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=CO5ydSJzxLk


Sem falar nas imagens digitais criadas do nada, mas tão aparentemente reais quanto uma pessoa de verdade. Como Rei Toei, a cyber-cantora de Idoru (1996) de William Gibson, tão linda que um cantor de verdade se apaixona e quer casar com ela. Tão perfeita que a projeção 3-D de sua imagem num palco ou num restaurante requer “um iceberg, não, uma Antártida de informação binária”, diz alguém.

 

É o mesmo Gibson que já nos anos 1990 nos imaginava vendo na TV de casa uma versão de Casablanca com nossa imagem e nossa voz substituindo Humphrey Bogart.

 

As imagens de cera têm um papel importante nessa história, pela mitologia que criaram em torno de si. A partir do século 17, essa arte foi capaz de reproduzir com fidelidade espantosa as feições de uma pessoa. E de absorver toda a mística uncanny da ausência-presente.


Marina Warner, em seu livro Phantasmagoria (Oxford University Press, 2006) analisa as reproduções do corpo e da alma humana em dez capítulos (“Wax”, “Air”, “Clouds”, “Light”, “Shadow”, “Mirror”, “Ghost”, “Ether”, “Ectoplasm”, “Film”).

 

No primeiro destes, ela passa um pente-fino na história das imagens de cera. Imagens religiosas adoradas em catedrais e santuários. Reproduções anatômicas para o estudo da medicina. Museus de figuras históricas, como o de Madame Tussaud. “Carnivals” de barracas ambulantes com mostruários de vidro exibindo reproduções em cera de doenças, deformidades, males venéreos, raridades teratológicas que o mundo inteiro sempre pagou para ver.

 

A cera, segundo ela, tem a propriedade (em comum com o alabastro) de absorver luz, em vez de defleti-la, e assim parece emitir luminosidade de dentro para fora. Depois que se resfria, tal como o vidro, a cera não pode mais ser moldada, apenas quebrada.  Sua extrema maleabilidade quando ainda quente permite fazer moldes perfeitos por contato – e ela conta histórias arrepiantes de Madame Tussaud e seus assistentes, nos necrotérios da Revolução Francesa, fazendo moldes dos aristocratas decapitados. Por seu envolvimento com a realeza, a Madame acabou se transferindo para Londres em 1802, onde estabeleceu a sede do seu museu em 1835.


(Museu Tussaud, Londres: Madame Tussaud moldando)

Marina Warner lembra que essa febre por simulacros de cera coincidiu com o auge da popularidade do romance Gótico, e de seus descendentes como o Frankenstein (1818) de Mary Shelley. O Museu Tussaud, em Londres, tinha uma secção chamada “A Câmara dos Horrores”, com reconstituição de crimes e criminosos célebres. O terror vinha se somar à sensação do “uncanny valley”. E essa sensação é permeada pela uma fascinação erótica.

 

Diz Marina Warner que o século 18 teve “uma nebulosa convergência entre ciência e libertinagem”: o estudo de minúcias anatômicas não estava destituído de uma carga de fetichismo e de exploração pornográfica. A imagem mais antiga, hoje, do museu é a chamada “Sleeping Beauty”, a Bela Adormecida: uma mulher jovem que dorme num canapé.


(Museu Tussaud, Londres: Sleeping Beauty)


Digressão: há um episódio divertido envolvendo Jards Macalé, que quando morou em Londres nos anos 1970, junto com os tropicalistas exilados, tomou um ácido lisérgico e foi visitar o Museu Tussaud, tendo, diz ele, se apaixonado imediatamente pela Branca de Neve, e sendo retirado do museu aos prantos. Ele conta essa história no documentário de Geneton Moraes Neto A labareda que lambeu tudo (2011). Embora no relato ele fale em “Branca da Neve”, tudo indica que se trata da “Bela Adormecida”, inclusive pelo detalhe, lembrado por ele, de que um delicado mecanismo de relojoaria faz o peito da estátua deitada se expandir e se abaixar ritmicamente, dando a impressão de que respira (Marina Warner, pág. 47).

 

O filme, aqui. A fala de Macalé está em 1:18:00.

https://www.youtube.com/watch?v=WetMubGVcAo

 

Ao que se diz, a modelo para essa estátua teria sido a famosa Madame Du Barry (1743-1793), amante de Luís XV, guilhotinada na Revolução Francesa.

 

Aqui entra a minha memória afetiva pessoal. O que sei eu de Madame Du Barry, a beldade capaz de apaixonar um rei em vida, e um poeta brasileiro em simples efígie?


(Mme. Du Barry)

O bolero “Escultura”, de Nelson Gonçalves e Adelino Moreira, cantado por Nelson no filme O Camelô da Rua Larga (1958), de Eurides Ramos, conta a história de um homem que precisava criar para si mesmo a mulher ideal e recorre a detalhes de mulheres famosas (tal como o Dr. Frankenstein o fez com partes do corpo de vários cadáveres) para inventá-la. A certa altura, a letra diz:

 

Em Gioconda fui buscar o sorriso e o olhar;

em Du Barry o glamour.

E para maior beleza dei-lhe o toque de nobreza

de Madame Pompadour.

 

Nelson Gonçalves, “Escultura”:

https://www.youtube.com/watch?v=kXPm32kA-zI

 

A letra da canção é um raio-X curioso do nosso bolero, canção masculina em sua essência, o gênero mais revelador do que os homens brasileiros medianos pensavam (e ainda pensam) sobre a mulher, o amor e o sexo. Entre as mulheres convocadas para contribuir com a “escultura” ideal, estão Dulcinéia, Frinéia, a Virgem Maria, Gioconda, Du Barry, Mme. Pompadour.

 

E assim de retalho em retalho terminei o meu trabalho

o meu sonho de escultor;

e quando cheguei ao fim tinha diante de mim

você, só você, meu amor...

 

Das mulheres citadas temos três cortesãs famosas (Frinéia, Du Barry, Pompadour), duas figuras mais ou menos neutras (Dulcinéia, a amada platônica de Dom Quixote; e a Mona Lisa, cuja verdadeira identidade se debate até hoje). E Nossa Senhora, coitada, tendo que equilibrar sozinha os pratos dessa balança lúbrica.


O homem vê a mulher como uma boneca de cera, uma escultura, uma figura dúctil, maleável, que ele pode moldar a seu gosto, vestir e desvestir como lhe apraz, fazê-la representar papéis. Como faz o personagem de Scotty em Um Corpo Que Cai (filme de Hitchcock, também de 1958): ele tem um ideal de mulher na cabeça e quer que a mulher real à sua frente encarne essa fantasia.

(Um Corpo que Cai)


Madame Du Barry, bela e adormecida para sempre, está no Museu como a prostituta adolescente próxima e intangível do velho personagem de Garcia Márquez em Memória de Minhas Putas Tristes (2004), por sua vez inspirado nas cortesãs-meninas de Yasunari Kawabata em A Casa das Belas Adormecidas (1961).

 

Elas estão numa espécie de Uncanny Valley moral / afetivo / sexual / psicológico onde o homem oscila: essa criatura à sua frente é uma boneca ou uma mulher?

 

Eu passei minha casta infância e fescenina adolescência ouvindo canções deste tipo:

 

“Boneca de Pano”, de Assis Valente (com 4 Ases e 1 Coringa):

“Em vez de boneca de louça, hoje é boneca de pano, em um sombrio cabaré...”

https://www.youtube.com/watch?v=5Cp-LCGbiTs

 

“Boneca Cobiçada”, de Bolinha e Biá (com Palmeira e Biá)

“Boneca cobiçada das noites de sereno, teu corpo não tem dono, teus lábios têm veneno...”

https://www.youtube.com/watch?v=NevYSMS3EVw

 

“Boneca”, de Antonio Marcos, Celso Clóvis e Waldemar Soutello (com Ângela Maria)

“Boneca / ele falou quando passei / com um jeitinho / que eu gostei...”

https://www.youtube.com/watch?v=zgQvVL1gDg8

 

“Meu Vício é Você” de Adelino Moreira (com Nelson Gonçalves)

“Boneca de trapo, pedaço da vida, que vive perdida no mundo a rolar; farrapo de gente que, inconsciente, peca só por prazer, vive para pecar...”

https://www.youtube.com/watch?v=9vMBbcS4dEw&t=96s

 

É curioso perceber que pelo contexto de cada canção a boneca é sempre um sinônimo da prostituta, e não da moça de família. Boneca é um termo com que o homem busca a intimidade. A mulher que ele cobiça não se distingue muito, nesta última canção, da “bonequinha de luxo” de Truman Capote e Blake Edwards, no filme com Audrey Hepburn:

Boneca noturna que gosta da lua,

que é fã das estrelas, e adora o luar;

que sai pela noite e amanhece na rua

e há muito não sabe o que é luz solar.

 


(Museu Tussaud, Shangai: Audrey Hepburn)



É essa boneca dúctil, dócil, passiva, que ele procura, num sentimento não muito distante deste expresso por Rainer Maria Rilke, citado por Marina Warner (p. 55), a respeito da função das bonecas nas brincadeiras da infância:

 

Eu sei, eu sei que era necessário para nós possuir coisa desse tipo, que aquiescem em tudo. As mais simples das relações amorosas eram algo além da nossa compreensão; não seríamos capazes de viver e de lidar com uma pessoa que fosse alguém; na melhor das hipóteses, poderíamos apenas adentrar essa pessoa e nos perder lá dentro. Com a boneca, éramos forçados a assumir uma posição assertiva, porque, se nos submetêssemos a ela, então não haveria mais ninguém ali... ela era tão abissalmente desprovida de fantasia que nossa imaginação tinha que se tornar inesgotável, para poder lidar com ela.

(R. M. Rilke, “Some Reflections on Dolls – Occasioned by the Wax Dolls of Lotte Pritzel”, trad. BT)



(Museu Tussaud, Madrid: Marilyn Monroe)





terça-feira, 4 de agosto de 2015

3884) A andróide sexy (5.8.2015)





Já falei aqui sobre o conceito do Uncanny Valley (O Vale do Estranho, ou da Estranheza), muito adotado quando se discutem reproduções animadas de seres humanos. O termo tem origem no famoso ensaio de Freud, Das Unheimlich ("The Uncanny", "O Estranho"), de 1919, onde ele examina “coisas, pessoas, impressões, eventos e situações que conseguem despertar em nós um sentimento de estranheza, de forma particularmente poderosa e definida”. Logo no início Freud cita um ensaio de 1906 de E. Jentsch, segundo ele a única abordagem prévia sobre o tema.



Diz Freud: “Jentsch tomou como ótimo exemplo ‘dúvidas quanto a saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo, ou, do modo inverso, se um objeto sem vida não pode ser na verdade animado’; e ele refere-se, a esse respeito, à impressão causada por figuras de cera, bonecos e autômatos engenhosamente construídos.”  Foi certamente essa menção inicial que deixou essas criaturas artificiais, para muita gente, como os melhores símbolos do Unheimlich.



O conceito de Uncanny Valley foi criado para indicar principalmente essa zona crepuscular em que andróides ou bonecos nos dão a impressão de pessoas reais e isso nos produz uma sensação de inquietação, desagrado, ou até repulsa. É diferente de quando vemos uma representação pictórica perfeita: elogiamos a técnica, dizemos que “parece uma pessoa”, mas em nenhum momento aquela tela nos inquieta ou ameaça. Autômatos ou bonecos, no entanto, envolvem uma representação completa do corpo humano, inclusive gestos com as mãos, expressões faciais, sorrisos, o modo de piscar os olhos. E isso produz a sensação do Unheimlich.



No Japão existe uma convenção, o Wonder Festival, para exibição de andróides desse tipo. Na convenção de fevereiro passado, o laboratório A-Lav exibiu Asuna, uma andróide que imita uma garota de 15 anos, sorri, move os olhos. (Aqui: http://tinyurl.com/q55hk67). A impressão de realidade é aumentada pela textura da pele, que é macia e flexível (embora fria).


Não vai demorar muito a produção (que deve começar na clandestinidade) de amantes cibernéticas que sejam um misto entre as atuais bonecas infláveis e andróides como Asuna. A FC prevê há muitos anos essa criação de bonecas do prazer (como a Pris de Blade Runner, interpretada por Daryl Hannah). Mulheres biônicas que não reclamam, não discutem e obedecem as ordens de maridos autoritários ou inseguros. A bem da verdade, é bom admitir que os equivalentes masculinos não devem demorar a entrar também no mercado. Muitos humanos realizarão o sonho utópico do sexo atleticamente satisfatório e sem perguntas, sem confidências, sem indiscreções.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

3729) Máquinas pensantes (5.2.2015)



A revista eletrônica Edge formula todos os anos uma pergunta sobre temas cruciais ligados à ciência, e a distribui a centenas de cientistas.  A pergunta para 2015 foi: “O que você pensa a respeito de máquinas capazes de pensar?”.  Houve 183 respostas (está tudo no saite, aqui: http://tinyurl.com/m4ww7t8) e comentarei algumas.

Gostei da resposta de Haim Harari (físico, ex-presidente do Weizmann Institute of Science, em Israel).  Ele vai direto ao ponto, dizendo que as pessoas em geral têm medo de máquinas capazes de pensar como um ser humano, mas o que ele próprio teme são os seres humanos que pensam igualzinho a uma máquina.  O hábito de raciocinar acompanhando o raciocínio das máquinas está embotando o que o ser humano tem de mais precioso: “Exercer o bom senso na tomada de decisões, e ser capaz de levantar questões significativas são, até agora, prerrogativas dos humanos. Misturar a intuição, a emoção, a empatia, a experiência e o background cultural; usar tudo isto para formular perguntas relevantes, e tirar conclusões através da combinação de fatos e princípios não-relacionados. Isso é a marca registrada do pensamento humano, algo que as máquinas ainda não compartilham”.

Harari critica o pensamento bitolado, preso a regras, incapaz de dar um salto para fora da “letra da lei” ou dos manuais de procedimentos.  Diz ele: “Todo novo edifício deve dar acesso a pessoas com necessidades especiais; prédios antigos podem ir funcionando sem esse acesso, até serem remodelados.  Mas será que faz sentido vetar a remodelação de um velho banheiro, para que ele ofereça este acesso, apenas porque não pode ser instalado um novo elevador?  Ou exigir a revelação pública de todos os segredos da CIA ou do FBI para que um júri possa condenar um terrorista que evidentemente matou centenas de pessoas?  Ou exigir consentimento dos pais antes de dar uma aspirina a um adolescente, na escola?  E quando os textos escolares são convertidos de milhas para quilômetros, a frase ‘Do alto da montanha dá para se ver num raio de aproximadamente cem milhas’ deve ser traduzida para ‘Do alto da montanha dá para se ver num raio de aproximadamente 160.943 quilômetros?’”

Tenho comentado aqui há anos sobre o impressionante bitolamento que o medo do terror impõe às pessoas nos EUA.  Professores, bibliotecários, policiais, temem não somente uma tragédia mas temem tomar decisões erradas e apegam-se de um modo cego às instruções que receberam, numa obediência cega que é uma forma de passar a responsabilidade “pro andar de cima”.  Se começarmos a pensar assim, não precisamos temer robôs inteligentes.  Os humanos burros nos destruirão.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

3276) O robô apaixonado (28.8.2013)




É uma dessas pegadinhas da Internet. Me lembra a história de São Tomás de Aquino no mosteiro. Os jovens monges, para zoar com ele, começaram a gritar, olhando pela janela: “Vinde ver, irmão Tomás! Vinde ver um boi voando!”. O santo veio à janela e pôs a cabeça para fora, procurando o boi. Os rapazes riram e disseram: “Acreditastes mesmo que um boi pode voar?” E ele respondeu: “Achei mais fácil um boi voar do que um religioso mentir.”

A história é provavelmente apócrifa, mas como a li no livro de leitura do colégio, aí vai ela, para não ficar por perdida. Algumas pegadinhas manipulam nossa tendência a acreditar em algo que, mesmo impossível, faz sentido dentro da nossa cultura. Por exemplo: um robô apaixonado. Acreditei piamente na notícia quando vi isto aqui: http://bit.ly/16BCgE8), só para vê-la desmentida minutos depois. Kenji é o robô desenvolvido nos laboratórios da Toshiba, programado para emular (imitar) emoções humanas. Ele desenvolveu comportamentos afetivos e protetores para com uma boneca, com a qual passava o dia abraçado. Quando a boneca lhe era retirada, ele perguntava por ela, insistentemente. O problema principal surgiu quanto Kenji passou a agir do mesmo jeito com uma estagiária que todo dia atualizava seus softwares. Querendo reproduzir com ela o que fazia com a boneca, Kenji recusou-se a deixar a moça sair do cubículo, e foi preciso desligá-lo.

Tudo mentira, claro. A “notícia” já foi desmentida desde 2009 (ver aqui: http://bit.ly/10sf1b5). Por que motivo eu acreditei, então? Acho que porque a história do robô me lembrou a história de Bispo do Rosário. Bispo era um doido, o que não é muito diferente de ser um robô. É um ser a quem se pode atribuir pensamentos e intenções, mas tem limitações evidentes que para nós são mais visíveis do que as nossas, e é imprevisível. Bispo apaixonou-se pela psicóloga que tratou dele na Colônia Juliano Moreira. Tratava-a como se ela fosse Nossa Senhora. No seu mundo delirante, ela era uma representação de beleza, de pureza, de amor desinteressado.

Quer dizer – isso é uma “viagem” minha em cima dos relatos feitos sobre Bispo. Sei tão pouco dos pensamentos de Bispo quanto sei do robô Kenji, mas nunca duvidei da possibilidade de algum deles se apaixonar. Se a história de Kenji é inventada, tanto faz; estamos na contagem regressiva para a produção do primeiro robô capaz de se comportar como uma pessoa apaixonada. E como saberemos se a paixão é verdadeira? Aí, amigos, ninguém sabe. Dependemos sempre da decisão de acreditar, porque jamais saberemos o que se passa noutra pessoa. Quanto a isto, estamos tão desamparados quanto um robô ou um doido.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

2920) "Prometheus" (11.7.2012)








O novo filme de Ridley Scott parece iniciar uma fusão entre os dois clássicos que ele dirigiu na FC (Alien, o 8. passageiro, 1979, e Blade Runner, 1982).  Os filmes ocorrem em diferentes universos, oriundos de autores não relacionados um ao outro, mas que Scott parece querer botar esses universos embaixo da sua própria asa.  Em ambos os filmes existiam andróides (chamados “replicantes” em Blade Runner) e parece ser este o elo entre as duas linhas ficcionais.  Em Alien e Prometheus não vemos a Terra, a não ser em duas cenas curtas no início do segundo filme, cenas em lugares desertos, que nada nos mostram da realidade urbana desse futuro. Uma Terra capaz de gastar um trilhão de dólares mandando uma nave a um planeta distante, para que dois arqueólogos confirmem ou não sua tese sobre a origem de humanidade. Será a mesma Terra cuja Los Angeles em 2019 produzia  replicantes?

Se as histórias vão se mesclar através do enredo, contudo, é menos importante do que o fato de que se mesclam através da temática.  A expressão “encontrar o seu criador” (“to meet thy maker”), usada em Blade Runner, é retomada insistentemente neste filme, só que desta vez não são os replicantes que querem um tête-à-tête com o engenheiro que os criou (Tyrell, da Tyrell Corporation) e sim os humanos que descobrem (ou imaginam ter descobertos) indícios de que a humanidade foi criada por uma raça de Engenheiros que veio de outra parte da Galáxia.

Blade Runner já questionava a frieza com que os humanos tratavam os replicantes, frieza e insensibilidade dignas de qualquer andróide.  O David de Prometheus é um andróide que trata os humanos com a polidez impecável e desdenhosa de um mordomo inglês administrando uma família nobre mas disfuncional; mas a executiva de carne e osso interpretada por Charlize Theron não é mentalmente menos andróide do que ele.  Ela e David confirmam a frase de Philip K. Dick de que alguém que não se preocupa com o sofrimento de uma criatura viva é uma máquina, mesmo que seja uma criatura viva.

Prometheus deve elementos aos filmes já citados mas também a 2001 de Kubrick (sinais achados na Terra remetem expedição a um planeta distante) e a Missão: Marte de Brian de Palma (montanha oca, estatuária colossal, tempestade de areia, nave soterrada, fecundação dos oceanos terrestres com DNA alienígena). É o próprio DNA do gênero que Ridley Scott está mais uma vez dissecando e recombinando, e em termos de perfeição técnica e ousadia visual ele está mais próximo de Kubrick do que de De Palma.  Esta primeira metade da sua nova narrativa justifica a expectativa pela segunda.

terça-feira, 19 de julho de 2011

2612) O melhor amigo do homem (19.7.2011)





Rex, abre a janela e se estiver fazendo um dia bonito dá três latidos. Beleza. 

Rex, vai na cozinha. Tem uma chaleira com água, em cima do fogão. Torce o botão com a boca, aperta o acendedor com o focinho. Deixa que o resto em mesmo faço. 

Uaaaaah. Agora vou tomar meu banho. Rex, depois vai no meu quarto e forra a cama, visse?

Rex, vê só as ironias da história. Pacote de biscoito? Obrigado. A humanidade desperdiçou bilhões de dólares tentando fabricar robôs de metal, com juntas articuladas, circuitos eletrônicos, garras preênseis de alumínio e titânio, na esperança boba de que essas catrevagens conseguissem nos ajudar nas tarefas cotidianas. Quebraram a cara, não foi? 

Me passa aqui a geléia. Valeu. Pois é, podem servir para montar carcaças de automóveis em Detroit ou Betim, mas eu mesmo é que não queria uma daquelas aranhas niqueladas tilintando por dentro da minha casa. Não tenho empatia com máquinas. Máquina não sente a dor de uma topada, e por isso é indiferente às nossas. Máquina pensa como inseto. 

O ser humano precisa de um ambiente mamífero à sua volta. Pega aqui o jornal, bota no balde de lixo, o de lixo de papel pra reciclar. Obrigado.

Rex, leva os pratos pra pia e liga meu notebook enquanto eu escovo os dentes. Acho que o ser humano se encantou demais com essa besteira de instrumentos. Acha que todo o trajeto evolutivo do ser humano tem que ser por aí. Besteira. 

O antropóide primitivo usou um pedaço de pau ou de osso pra quebrar algum galho, deu certo, e daí em diante ele só conseguiu enxergar a evolução social em termos de pedaços-de-osso-artificiais. Feito aquele macaco de 2001, Rex, aquele que você late sempre que vê na tela. Do osso para a espaçonave. Um milhão de anos de equívocos. Pega ali meu celular na mesinha de cabeceira.

Bem, como eu ia dizendo, não era por aí. Desprezamos a convivência das criaturas biológicas para perseguir essa devaneio bobo de fabricar criaturas de metal. Rex, se ao invés de construir o primeiro simulacro humano tivéssemos feito o primeiro upgrade num cachorro, teríamos queimado um milhão de etapas. 

Tocaram a campainha, vai lá. Se for o síndico bota pra correr. 

Foi preciso uma crise econômica mundial para que esquecêssemos esse delírio de produzir engenhocas. Para que investíssemos em escolas de humanização de animais domésticos, de interfaces semióticas, de socialização em nosso benefício mútuo. 

Era o Sedex? Põe na escrivaninha. Descobrimos que cães, chimpanzés, golfinhos, corvos e muitos outros são um exército-reserva de bilhões de operários, secretários, mordomos em potencial, bastando apenas que lhes sejam dados os benefícios da bio-graduação e da escolarização especializada. OK, vou trabalhar, pode ligar a TV e assistir Os Simpsons

Não troco você pelo R. Daneel Olivaw de Asimov nem pela Rose dos Jetsons. Melhor do que você, Rex, só mesmo Gisele Bundchen de avental, mas machismo hoje é proibido por lei.




sábado, 15 de janeiro de 2011

2454) Escravos e robôs (15.1.2011)




(O Homem Bicentenário, filme de Chris Columbus)

Os robôs, nos livros e filmes de FC norte-americana, vieram substituir historicamente os escravos numa sociedade que (como a nossa, aliás) se criou em cima da escravidão, com tudo que ela acarreta. 

Nós brasileiros nunca poderemos esquecer (mesmo com Rui Barbosa queimando os arquivos do tráfico, pra fazer de conta que nada daquilo tinha acontecido) que o nosso país foi construído ao longo de séculos de exploração e massacre de negros africanos e de índios. 

Eu, pessoalmente, nunca escravizei ninguém, nunca bati nem mandei bater de chicote em ninguém, acho a escravidão uma calamidade. Mas sou beneficiário dela, porque toda minha infância foi paparicada por negras e mais negras que ajudavam minha mãe no serviço doméstico e me tratavam como se eu fosse filho delas mesmas. Eram assalariadas, e ao mesmo tempo eram, naquela promiscuidade sociológica que já conhecemos, tratadas em parte como pessoas da família, com autoridade para nos repreender e nos proibir, com acesso à casa inteira, tornando-se confidentes e conselheiras das patroas. 

 Não sei o que é ser dono de um escravo, mas sei o que é ter dentro de minha casa uma pessoa de condição social supostamente inferior que me deve trabalho, respeito e obediência. Dentro dos parâmetros, é claro.

Nos primeiros contos de Isaac Asimov muitos robôs tinham funções parecidas às das escravas caseiras: exercer tarefas domésticas e cuidar das crianças. 

 Não é difícil, durante a leitura daqueles contos, abstrair o desajeitado corpanzil metálico do autômato, com seu cérebro positrônico, e ver no lugar dele uma crioula rotunda e bonachona, com paciência infinita para as infinitas perguntas dos sinhôzinhos, e sempre cumprindo ao pé da letra, com exatidão quase maníaca, as ordens que recebeu dos patrões. 

José dos Santos Fernandes, meu colega do Clube de Leitores de Ficção Científica, tem um conto intitulado “As Crianças Não Devem Chorar”, em que um criado-robô acaba adotando uma medida radical para evitar que as crianças chorem durante uma ausência dos pais.

Um robô é um escravo, seja ele a empregada doméstica Rose de The Jetsons, seja o Andrew de “O Homem Bicentenário” de Asimov (que evolui lentamente até se tornar um homem livre). De preferência é alguém que não tem iniciativa alguma, que obedece ordens sem discutir, que tem inteligência bastante para responder perguntas mas não para formulá-las, que é possuidor de reservas aparentemente inesgotáveis de força física e de concentração mental, alguém capaz de dar a vida pelos seus patrões, alguém que nunca irá questionar, divergir, discordar, desobedecer.

A literatura que fala de robôs se relaciona com a enorme necessidade de que exista uma classe servil para obedecer aos sinhôzinhos que foram, de maneira brusca, privados daqueles seres tão submissos e esforçados. Era como se os brancos de classe média pensassem: “Já que não posso mais comprar um escravo, vou tentar fabricar um”.








terça-feira, 21 de dezembro de 2010

2432) O Homem Bicentenário (21.12.2010)



Este filme de Chris Columbus se baseia na noveleta homônima de Isaac Asimov, que ganhou em 1976 o Prêmio Nebula de ficção científica. É a história de um robô (interpretado por Robin Williams) que ao longo de dois séculos evolui passo a passo até se transformar, se não num ser humano biologicamente idêntico (o que seria quase impossível) pelo menos em alguém tão semelhante a uma pessoa que, nas cenas finais, é assim reconhecido pelo governo. Os numerosos romances e contos de Asimov sobre o “Ciclo dos Robôs” mapeiam essa evolução, começando com os desajeitados robôs de corpo metálico, com aparência de escafandristas, até os andróides com visual humano e interior cibernético. Asimov se serviu disto para fundir suas histórias de robôs com seu outro ciclo, o da “Fundação”, um império galáctico cujos protagonistas humanos (ficamos sabendo depois) eram, em grande parte, meros andróides evoluídos dessa forma.

É interessante notar que o conto de Asimov é de 1976, quando os EUA comemoravam os 200 anos de sua independência, e a palavra “bicentenário” estava por toda parte. Ao invés de comentar os 200 anos transcorridos, Asimov fez uma projeção para os próximos 200 anos. É possível ver na história de Andrew, o robô, um processo de conquista de liberdade, cidadania e direitos humanos que de certo modo ecoa o dos cidadãos norte-americanos após a Independência. A certa altura do filme, o robô (cuja habilidade como artesão o torna milionário, encorajado pelos seus proprietários, uma família liberal) diz que quer comprar sua liberdade. (Como será que se diz “alforria” em inglês?) O patrão lhe diz que ele é livre para fazer o que quiser, e ele retruca que quer um atestado formal de liberdade, explicando: “Milhões de seres humanos morreram para conquistar isso, então deve ser algo muito importante, e eu gostaria de experimentá-lo”.

A noveleta e o filme, portanto, são percorridos por um subtexto político evidente. Um robô é alguém governado de maneira inflexível pelas Três Leis da Robótica, que o obrigam a obedecer os humanos, protegê-los e proteger a si próprio. Já um ser humano é protegido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, que à época da publicação da noveleta era quase bicentenária também, e que está integrada de forma indissolúvel ao espírito da Revolução Norte-Americana de 1776 e da Revolução Francesa de 1789. Um robô, como um escravo, é alguém que quer deixar de ter apenas deveres para ter também direitos, para ser também um cidadão. Um robô se torna um ser humano não apenas quando conquista tecidos, músculos e glândulas artificiais, mas quando entende, conquista e pratica a cidadania, a liberdade. Até mesmo a contraditória liberdade de, podendo ser imortal, preferir ser como os humanos, sentir dores, envelhecer, morrer. Ele se torna um cidadão por ser, como dizia Edmund Burke ao Parlamento britânico sobre os colonos da América, “incapaz de barganhar a jóia íntima de sua alma”.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

2311) A palavra andróide (4.8.2010)



A palavra “andróide” se incorporou ao nosso vocabulário através da ficção científica e da também do noticiário científico. Andróide é um ser artificial que, ao contrário do robô (que é metálico, e apenas imita vagamente a forma humana) é feito de circuitos eletrônicos recobertos com algum tipo de material orgânico ou sintético que o torna parecido a uma pessoa, a ponto de poder ser confundido. O exemplo mais conhecido são os andróides do filme Blade Runner. Na verdade, deveríamos usar dois termos, andróides e ginóides, para designar respectivamente as criaturas com aparência masculina e feminina. Mas isto é a típica reclamação de filólogo. Seria demais esperar que o pessoal da área tecnológica se preocupasse com esse tipo de detalhe.

A primeira menção oficial da palavra, ao que se diz, aparece numa patente para um “Autômato de Brinquedo”, registrada em 1863 em nome de um certo J. S. Brown, do Distrito de Colúmbia, inventor de “um novo e aperfeiçoado (tipo de) autômato de brinquedo ou boneco andróide”. Isto aconteceu quase um século antes de Philip K. Dick escrever Do Androids Dream of Electric Sheep? (“Será que os Andróides sonham com carneiros elétricos?”), o livro que deu origem a Blade Runner, escrito em 1966 e publicado em 1968.

Note-se que usamos também termos como “antropóide”, para designar, de preferência, animais que têm traços semelhantes ao do homem, principalmente macacos e primatas em geral; e também “humanóide”, muito usado na FC para indicar raças extra-terrestres que evoluíram, por conta própria, de maneira semelhante à nossa e que por isso têm aparência física semelhante à nossa.

Não é improvável que venhamos a produzir andróides capazes de, em certa medida, não apenas substituir seres humano, mas até de serem confundidos com eles. Isto pode se dar através do nosso avanço em algumas áreas principais:

1) Robótica. Estamos avançando bastante na produção de estruturas mecânicas de todo tipo, capazes de simular o movimento humano; essas estruturas podem ser no futuro acopladas a um conjunto artificial de órgãos, tecidos, sistema nervoso, etc. 2) Informática e Inteligência Artificial. Desenvolvimento de chips, processadores, circuitos integrados cada vez menores criando redes cada vez mais complexas; e os softwares embutidos para fazer com que tudo isso seja capaz de ter cinco sentidos (ou apenas os mais urgentes: visão, audição, tato), de se comunicar, exercer tarefas, tomar decisões simples. 3) Células-Tronco. Se as células-tronco, que só agora começam a ser exploradas a sério, servirem realmente para reconstituir medulas e órgãos danificados, não demorará muito a produção de órgãos, nervos, neurônios, músculos, etc., que possam ser acoplados. 4) Tele-ensino através de TV, games de treinamento, emissões de rádio, download de programas e “dicionários”, que possibilitarão ao andróide um armazenamento maior e processamento de informações mais rápido do que os nossos.

terça-feira, 17 de março de 2009

0893) Camelos e robôs (26.1.2006)


(o cientista Andrew Hetherington e um jóquei-robô)

Toquei no assunto algum tempo atrás (“O robô no camelo”, 5.8.2005) e agora, numa prova do quanto esta coluna é lida internacionalmente, a revista Wired deu uma excelente matéria assinada por Jim Lewis. A história é muito simples. Os xeiques milionários dos Emirados Árabes adoram corridas de camelos no deserto; é a vaquejada deles. Jóquei de camelo tem que ser pequeno, bem levezinho, daí que eles vão no Sudão e escravizam crianças pobres para treiná-las. “Treinar” é eufemismo, porque as crianças são mal alimentadas, mal tratadas. Há jóqueis até com quatro anos de idade. São amarrados às selas, com walkie-talkies presos ao corpo, por onde os treinadores berram instruções.

Organizações humanitárias se intrometeram, e os xeiques encomendaram jóqueis cibernéticos à empresa suíça K-Team. São pequenos robôs pesando cerca de 15 quilos, com um processador de 400 MHz, rodando Linux, com GPS (localização por satélite) e monitoramento cardíaco do camelo. Uma das mãos brande o chicote, a outra segura as rédeas. Foi preciso dar uma aparência antropomórfica aos jóqueis porque de início os camelos se assustavam com aquela máquina estranha. Daí, o robô tem algo como um corpo, e uma cabeça com capacete, óculos escuros e rosto. (A cabeça é desnecessária, e oca. Todo o equipamento está no “tórax”).

Ficou tão parecido que gerou um novo problema: a religião muçulmana proíbe a representação da figura humana, não é mesmo? Lá veio uma recomendação do Primeiro Ministro muçulmano de que os bonecos não tivessem rosto, e algumas fotos da revista mostram uma máscara inquietantemente parecida com a cara do Jason de Sexta-Feira 13). Não importa. A matéria toda (com muitos detalhes divertidos) pode ser lida em: http://www.wired.com/wired/archive/13.11/camel.html.

Não é preciso ser profeta para imaginar que diversões como a vaquejada nordestina e a tourada hispânica possam no futuro recorrer a truques semelhantes. Há três fatores nesta história que estão em curva ascendente: 1) enriquecimento de potentados regionais, cada vez mais cheios de grana; 2) sofisticação e barateamento da robótica; 3) pressão das entidades de direitos humanos e dos animais, contra essas diversões bárbaras (pode incluir aqui briga-de-galos, farra-do-boi, etc.)

Problemas sociais-culturais que admitem uma solução tecnológica geralmente precisam apenas de um pontapé inicial (como o do presente caso) para se transformarem numa norma. Aquele passatempo é intensamente mobilizador das pessoas, mas envolve maus-tratos de criaturas. Na medida em que (dependendo das tarefas, das atividades requeridas) essas criaturas possam ser substituídas por robôs, elas inevitavelmente o serão, porque haverá grupos ricos e poderosos determinados a injetar rios de dinheiro nessa solução tecnológica. É, digamos, uma lei da natureza. Robôs podem ser máquinas, mas o impulso que os criou é sempre humano, demasiado humano.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

0791) O robô e o tesouro enterrado (30.9.2005)


(Arturito)

Parece título de romance de aventuras, não é mesmo? Pois não é, é uma notícia divulgada esta semana. Se eu tivesse um espaço maior aí em cima teria colocado um título melhor ainda: “Robô descobre o tesouro da ilha de Robinson Crusoe”. Uma companhia chilena vinha usando há tempos um robô submarino chamado “Arturito” para examinar o fundo do mar nos arredores da ilha chamada de “Robinson Crusoe”, a 660 km da costa chilena, e que tem este nome porque foi lá que naufragou em 1704 o marinheiro Alexander Selkirk, cuja história acabou inspirando a Daniel Defoe o romance Robinson Crusoe (1729), um dos livros mais conhecidos do mundo.

Ao que parece, ainda no século 19 um corsário espanhol enterrou perto da ilha um tesouro fabuloso, produto de anos de saques e pilhagens marítimas. O tesouro foi achado por outro marinheiro, o inglês Cornelius Webb, que acabou enterrando-o em outro ponto da mesma ilha. E desde então os indícios se perderam, e restava somente o relato destes fatos, dizendo que o tesouro consistia em 800 barris cheios de lingotes de ouro, moedas de ouro e prata, e jóias.

A empresa chilena Wagner Technologies desenvolveu “Arturito”, um robô construído para esse tipo de pesquisa submarina. O robô usa uma técnica chamada GPR, muito semelhante ao radar. Ele projeta na direção do solo um feixe de radiação eletromagnética, recebe o “eco” quando esse feixe se choca com objetos sólidos, e registra o tamanho, a massa, o formato, a profundidade, etc. E com isto vai detectando a presença de objetos anômalos, que não são propriamente o tipo de coisa (rochedos, etc.) que se espera encontrar naquele tipo de terreno. Existem várias sub-técnicas que podem ser aplicadas a este princípio básico, refinando o resultado da pesquisa.

A Wagner Technologies anunciou (talvez um tanto prematuramente) a descoberta, e diz que vai iniciar em breve as escavações. Como o tesouro (a julgar pelas descrições que constam dos documentos históricos) é avaliado hoje em dia em cerca de 10 bilhões de dólares (eu disse bilhões, com B de Bush), já começou uma briga para saber quem tem direito a ele. O governo do Chile já saiu na frente, invocando uma lei semelhante à que temos aqui no Brasil (pelo que me consta): o que está no subsolo pertence à União.

“Arturito” decerto não se parece com o robôzinho de Perdidos no Espaço. Não vi fotos, mas ele deve ser algo como um cofre-forte cheio de escotilhas, pendurado por uma corrente. Não importa. Meu coração adolescente de leitor de Julio Verne e Conan Doyle se comove com a idéia de que o ouro roubado no século 18 (com entrechoque de espadas, troar de canhões, carnificinas no convés) ficou quase 300 anos adormecido embaixo de 15 metros de rochas e plancto marítimo, aparentemente perdido para sempre, mas a ciência descobriu um jeito de encontrá-lo. Que outros briguem pelos dez bilhões. O contato imediato entre “Arturito” e o ouro dos piratas vale muito mais do que isto.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

0743) O robô no camelo (5.8.2005)



Um robô vai montado num camelo, percorrendo as areias do deserto... A imagem parece uma mistura de Guerra nas Estrelas com Lawrence da Arábia, mas na verdade bateu nos meus olhos no saite da revista New Scientist. Não é um delírio spielberguiano, é uma competição de verdade que tem lugar nos Emirados Árabes, sem dúvida uma das regiões mais ciencificcionais deste imprevisível planeta. Perto das cenografias e das arquiteturas que xeiques milionários estão criando em Dubai, os filmes de George Lucas ficam parecendo o neo-realismo italiano.

A corrida de camelos está, para aqueles povos que têm sangue de beduínos nômades, como a vaquejada está para os nordestinos. O sujeito fica rico, intelectual, cosmopolita... mas continua gostando. Existem trilhas criadas especificamente para isto, existem festas equivalentes aos nossos rodeios e festas-de-peão. As corridas se dão de preferência nos meses de inverno, entre outubro e abril. Nos últimos anos, a tal da civilização começou a meter o bedelho. Organizações humanitárias passaram a protestar contra o uso de crianças como jóqueis nas corridas de camelos. As crianças eram submetidas a um treinamente severo, jejum, uma porção de maus-tratos que a revista prefere omitir. Providências foram tomadas. Jóqueis de camelos desde março de 2004 têm que ter uma idade mínima de dezesseis anos, e este limite foi aumentado para dezoito em julho de 2005.

Todo este cerca-lorenço é só para apresentar a teoria que me interessa, caro leitor. E que é a seguinte: “Se a gente gosta de fazer uma coisa, e a lei disser que é proibido fazer isto a seres humanos, basta substituir estes seres humanos por criaturas artificiais, e continuar fazendo.” Dê asas à sua imaginação – e pense numa providência providencial! O uso de robôs como jóqueis dos camelos começou neste mês de julho, e mereceu do xeique Mansour bin Zayed al-Nahyan, que é uma espécie de Ministro da Casa Civil dos Emirados Árabes, o comentário: “Foi um tremendo sucesso, e esta fase que se inicia irá testemunhar um enorme avanço neste esporte indispensável ao nosso país”. Os novos jóqueis, movidos a controle remoto, são fabricados por uma empresa suíça, e custam 5.500 dólares cada.

A ficção científica desembarca no mundo real quando se juntam três coisas: imaginação, tecnologia e grana. Não que a FC seja privilégio dos ricos, mas a produção tecnológica exige em geral pesados investimentos que os dólares petrolíferos, por exemplo, podem assumir sem estresse. Melhor esse dinheiro sendo gasto com vaquejadas inofensivas do que com mísseis inteligentes ou bombas de nêutrons. O mundo árabe é tão extremado e paradoxal quanto o Nordeste. Nele cabem tanto os palestinos que viram homens-bombas para matar israelenses quanto esses xeiques ricaços que gastam milhões com corridas de robôs. Eu entendo o desespero daqueles; mas rezo para que o futuro se pareça com o mundo destes.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

0475) O Inseto e a Morena (26.9.2004)




Philip K. Dick (que uma escritora norte-americana chamou “o nosso Jorge Luís Borges”) dedicou boa parte de sua obra a discutir uma questão básica: “O que é humano? O que nos faz humanos? Como distinguir um ser humano de uma máquina?” 

Este último problema gerou livros como Blade Runner, Caçador de Andróides. Dick, que era um intelectual por conta própria, lia extensivamente obras de filosofia, religião e ciência, tentando encontrar um caminho nesse labirinto de conceitos. Seus livros de ficção científica são comentários dessa luta interior que acabou por matá-lo de um derrame aos 54 anos. 

Numa série de ensaios reunidos após sua morte no livro The Dark-Haired Girl (Willimantic: Mark V. Ziesing, 1988), Dick sugere duas imagens (que se repetem ao longo de seus livros) para descrever o Humano e o Não-Humano.

Para ele, Não-Humano é quem é incapaz de compartilhar emoções com um humano. Uma pessoa sem empatia ou sentimentos é igual a um robô, uma máquina. Criaturas assim eram para PKD uma fonte de medo, de ameaça. Seres implacáveis, distantes, máquinas de reflexos condicionados. 

Ele chama a essas criaturas “The Mantis”, o Louva-A-Deus, o inseto sem emoções que agarra e devora os que lhe surgem pela frente. Em seus livros, essas criaturas são os andróides frios e indiferentes; são os agentes das forças de repressão de um país totalitário; são os viciados em drogas. 

Quando você encara um viciado em heroína (dizia Dick) vê que ele tem olhos de inseto. São duas aberturas de vidro fosco, sem calor, sem vida, que olham para você e calculam quanto podem obter vendendo cada peça de roupa que você tem, para comprar droga. Para um viciado, você não existe. Um viciado não tem alma. Não que ele a tenha vendido: mas ele comprou algo que a devorou.

O Humano, para PKD, é A Morena, “the Dark-Haired Girl”. É a figura feminina que encarna o amor, a sensualidade física, a alegria de viver, e a compaixão – no sentido original de “com+passion”, a capacidade de compartilhar emoções e sentimentos alheios. 

Dick projetou essa imagem em muitas das mulheres por quem se apaixonou: Kathy, Jamis, Linda (na juventude), ou Tessa, uma de suas esposas. É uma imagem que ele identifica também nas “Pietàs” da arte cristã: a Virgem que segura ao colo o Cristo retirado da cruz, o princípio feminino eterno que sobrevive à morte do próprio filho. 

Diz Dick: “Cristo pode morrer na cruz, e a raça humana continua; mas se Maria morrer, tudo está acabado.” 

Dick não idealizava gratuitamente as mulheres (ele é especialista, também, em personagens femininas “insetóides”), mas via nessas mulheres especiais, mulheres “de bom coração”, o que a raça humana produziu de melhor.

O mundo fantasmagórico de Dick girava em torno destas figuras. A Coisa com olhos de inseto clicando as mandíbulas e arrastando-se com pernas de metal para nos devorar; e a Morena que (como ele disse de sua ex-esposa Tessa) “era capaz de levar um grilo doente ao veterinário para que o grilo pudesse cantar novamente”.







quinta-feira, 17 de julho de 2008

0450) Cuidado com os robôs (28.8.2004)



No mesmo dia em que assisti Eu, Robô de Alex Proyas liguei a TV à noite e um canal a cabo estava exibindo Minority Report de Spielberg. Por alguns instantes tive a sensação de estar revendo o filme anterior. A mesma metrópole futurista, prédios com aquela mesma textura mista de alumínio, vidro fumê e filtros óticos. Os mesmos carros reluzentes executando deslocamentos imprevistos. Os mesmos interiores assépticos, cheios de vidros e acrílicos. O mesmo protagonista problemático: um policial divorciado, com uma tragédia no passado, às turras com a corporação a que pertence, e forçado a agir contra a lei para desmascarar uma conspiração.

Seria injustiça dizer que o filme copia de uma só fonte. A primeira saída de Spooner (Will Smith) à rua não é menos do que um pastiche diurno das caminhadas de Rick Deckard em Blade Runner; até a cena da perseguição ao robô que parece ter roubado uma bolsa lembra Deckard perseguindo a andróide Zora (Joanna Cassidy). Os dois caminhões fechando o carro de Spooner no “minhocão” futurista parece uma tentativa de “pagar” a cena da perseguição dos carros em Matrix 2. O robô Sonny fala com o mesmo tom expectante e aveludado da voz do computador Hal 9000 de 2001, uma Odisséia no Espaço. A multiplicação final do exército de monstros idênticos lembra a horda de nosferatus calvos em Dark City, com a atenuante de que este filme foi dirigido pelo próprio Proyas.

Os filmes ficam cada vez mais parecidos porque sempre que um “produto” (é assim que os estúdios os chamam) obtém uma “boa resposta de mercado” os concorrentes, os colegas e os imitadores profissionais passam um pente fino nele, tentando descobrir o que o fez dar certo, e de que maneira é possível reproduzir esse mecanismo. Tais filmes são concebidos exatamente como se concebe um robô: analisando um aspecto do corpo humano (visão, audição, movimento, etc.) e tentando construir uma engenhoca que o reproduza.

Gostei de algumas coisas no filme de Prohyas. Não há uma só novidade, nem mesmo nos efeitos, que pelo menos para mim são um mero refinamento do que já vem sendo realizado. Em termos de roteiro, é banal, consegue ser mais banal até do que as histórias originais de Asimov, cujos “plots” sempre padeceram de um certo ar mecânico, com tudo planejado e raríssimas surpresas. Gostei, por exemplo, do comportamento insetóide dos robôs, que individualmente parecem delicados e até femininos como um computador Macintosh, mas em grupo assumem um ar de malignidade coletiva – e que lembra, em alguns momentos, a famosa cena do combate dos esqueletos de Ray Harryhausen no clássico Jasão e os Argonautas (1963). É mais perturbador ainda porque reconhecemos, nos seus movimentos, a mesma cadência de movimentos que vemos na maioria das computações gráficas. É como se eles fossem reais. Como se estivessem invadindo vários filmes ao mesmo tempo. Como se tivessem vindo para ficar.

0446) O robô e o corpo-objeto (24.8.2004)



Um robô é uma criatura metálica, de forma vagamente humana. Um clone é um ser humano normal, criado em laboratório a partir de células de um único indivíduo. Um andróide é uma criatura artificial (pele e ossos sintéticos, cérebro eletrônico) que por fora parece idêntica a uma pessoa. Um cyborg é um misto de ser humano e robô; em geral, um ser humano com próteses enxertadas (neste sentido, o pirata com olho de vidro, mão de gancho e perna de pau é um proto-cyborg).

A verdade é que todos nós estamos nos transformando em cyborgs, desde o sujeito idoso que usa uma dentadura postiça até as pessoas que precisam recorrer a membros mecânicos, marca-passos cardíacos e máquinas de hemodiálise. Conheço várias pessoas que não podem funcionar ou sobreviver sem a porção-máquina que possuem.

No filme Eu, robô de Alex Proyas os robôs são programados para tarefas manuais ou repetitivas: trabalhos domésticos, coleta do lixo, transporte de encomendas, etc. Exercem o papel tradicional de “escravos cibernéticos” que a ficção científica sempre lhes designou. Parece que temos um software antropológico embutido em nossa cultura, e devido a ele precisamos sempre de escravos mansos, obedientes e estóicos para fazer os trabalhos que desprezamos ou que nos cansam demais. O robô é o escravo no futuro politicamente correto.

A série de contos sobre robôs de Isaac Asimov tem como personagem principal a doutora Susan Calvin, a cientista mais assexuada da história da ficção científica. No filme, Bridget Moynahan a interpreta de modo muito próximo à concepção de Asimov. Há uma cena, contudo, que pode ser considerada a única cena erótica do filme, quando ela vai ao apartamento do detetive Spooner (Will Smith) e ele lhe confessa que possui um braço mecânico. Ela pede para tocá-lo, e ele concorda. Ela apalpa sua mão, seu antebraço, o braço, o ombro, as costelas... Ao tocar numa das costelas, ele se retrai um pouco e diz: “Ooops, aqui já sou eu.” É uma cena perversamente erótica, e é pena que o filme não pudesse ou não quisesse explorar mais essa área (afinal, ele se destinava ao público adolescente e não podia correr o risco de uma censura por faixa etária).

O fato de que a dra. Calvin, tão puritana, excita-se sexualmente com robôs nunca foi tão bem ilustrado, com o dado adicional de ela ser branca e o policial-cyborg ser negro. Ademais, a erotização das próteses corporais tem uma longa história. A perna mecânica de Catherine Deneuve em Tristana (Buñuel) é um objeto de desejo que ilustra essa fascinação fetichista pelo corpo-objeto, o corpo-coisa, tratado como um instrumento de prazer e nada mais. As andróides de Blade Runner são criadas como objetos sexuais, assim como o robô-gigolô de Inteligência Artificial. Por trás disso jazem fantasias eróticas como a do criador que se apaixona pela criatura (o mito grego de Pigmalião e Galatéia) e a da submissão total da pessoa amada.

domingo, 13 de julho de 2008

0444) Os robôs de Asimov (21.8.2004)



Já li uns quinze livros de Isaac Asimov, traduzi dois, e se contar a quantidade de artigos científicos dele que já li em revistas dá mais uma meia-dúzia de volumes. O filme Eu, Robô de Alex Prohyas, atualmente em cartaz, tem muitas qualidades e muitos defeitos, mas pouca coisa nele tem a ver com a obra literária que o inspirou. É um mau filme? Não propriamente, se considerarmos que tem coisa muito pior passando por aí. É, no entanto, um filme caro, e como todo filme norte-americano caro é um filme que não arrisca nada. Tem que ter o pacote habitual: efeitos especiais, perseguições de automóveis (se não tiver isso, não é filme-de-ação americano), brigas espantosamente ruidosas, e uma trilha sonora que nos agarra pelos cabelos e esfrega em nossa cara a emoção que devemos sentir.

Tem que ter um roteiro com um crime misterioso cuja solução nunca fica muito bem explicada porque a explicação se concentra em meio minuto de diálogo, nas cenas finais, entre uma briga e outra. Tem que ter um suspense com um personagem pendurado sobre um abismo, esperneando. Tem que ter outro suspense com um objeto que precisa ser levado de um lugar para outro e chegar lá no segundo exato, ou tudo vai dar errado (e sempre chega, no derradeiro instante).

O que me leva a imaginar que esses filmes são feitos para serem visto por um tipo muito especial de robôs: os espectadores de filmes norte-americanos de ação. Esses indivíduos foram educados vendo tais filmes, e voltam ao cinema, repetidas vezes, para verem filmes diferentes que fazem coisas semelhantes. A mesma perseguição, milhares de vezes repetidas. O mesmo suspense, milhares de vezes esticado até o máximo. A mesma briga, milhares de vezes coreografada e treinada por profissionais que não fazem outra coisa, e pressionam roteiristas a incluírem pelo menos uma cena de briga, para que eles possam ganhar decentemente o leite das crianças.

O problema com o cinema industrial não é propriamente o tipo de filme que produz – eu gosto desses filmes, juro, me divirto bastante. Acho-os equivalentes à “pulp fiction” dos anos 1930-40, com aquelas histórias de aventuras mirabolantes, de peripécias improváveis, de monstros e vilões inverossímeis. (Aqui no Rio já está passando o trailer de Alien versus Predador, que vem logo depois de Jason contra Freddy Kruger. Coalizões desse tipo são o último prego no caixão de um gênero.) O problema com essas coisas são as centenas de milhões de dólares em jogo a cada filme. Para não terem prejuízo eles precisam nos massacrar com uma publicidade maciça, uma distribuição predatória, contratos leoninos de exibição, jabás indescritíveis para a imprensa. O problema não é serem filmes bobos, porque a “pulp fiction” também era feita de histórias bobas. Serem bobos é o lado simpático deles. O problema é serem caros, ambiciosos, e acima de tudo são reiterativos: um gênero que a cada ano que passa vai se tornando a pornografia-de-si-mesmo.

sábado, 28 de junho de 2008

0428) Robôs que parecem gente (3.8.2004)




Tenho um carinho especial por imagens de robôs, que me acompanham desde a infância, e que representavam, para o menino de 10 anos que nunca deixei totalmente de ser, uma síntese entre o passado (gente de carne e osso) e o futuro (as máquinas). Sim, eu achava que o futuro estava nas máquinas, nas engrenagens de metal e vidro que aos meus olhos exprimiam o que havia de mais moderno e de mais futurista. 

Muita água passou por baixo da ponte desde então, e cheguei a passar por uma fase de imensa antipatia e preconceito contra qualquer tipo de máquina. Tudo bem. Acho que, se o mundo não está chegando a uma síntese entre o orgânico e o mecânico, meu gosto pessoal pode estar aprendendo a unir esses dois polos.

Vou dar um exemplo. Em 1991 traduzi para a Editora Record um livro de Isaac Asimov, Sonhos de Robô, cuja capa tinha uma magnífica ilustração de Ralph McQuarrie, desenho que o próprio Asimov admite ter sido a inspiração para o conto que dá nome à coletânea. 

A imagem mostra um sofá, num terraço que dá para uma praia em cujo céu se vê um sol nascendo, ou se pondo. E sobre o sofá está um robô adormecido. Ele tem um corpo esguio, bem proporcionado, mas indiscutivelmente metálico, feito de placas articuladas, dobradiças, etc.; mas a posição e a atitude são humanas, flexíveis. Sua cabeça repousa sobre o braço esquerdo, o pé esquerdo está enfiado sob a outra perna, na atitude relaxada de quem sentou por ali e acabou dando um cochilo.

Não há como não perceber a semelhança desse robô com o famoso robô de Metrópolis, o filme feito em 1926 por Fritz Lang, que revolucionou o cinema de ficção científica, e que vi pela primeira vez aos 19 anos. 

Uma mulher, Maria, é colocada numa máquina que a transforma em robô (a ciência de Metrópolis é o que eu chamo de “ciência gótica”: um delírio fantástico onde a ciência e a tecnologia são mera roupagem). Só que um robô-fêmeo: corpo alto e esguio, pernas longilíneas, andar insinuante... e um belo par de seios metálicos. “Que diabo!...” pensava eu, “Pra quê que um robô precisa de seios? É um robô mamífero? Um robô erótico?”




(o robô de Metropolis)

A mesma sensação me deu, num saite dedicado a trucagens fotográficas em Photoshop, a visão da imagem de um robô gordo. Robô gordo é, mais do que um robô erótico, um contra-senso magistral, uma ironia que tem algo de Zen, algo de infantil. É uma imagem que concretiza essa síntese entre o humano e a máquina, sínese que coube à literatura de ficção científica trazer para o interior de nossa cultura. 

Quanto mais a ciência se pretende utilitária, funcional, mais a ficção científica se mostra contaminada de humanidade. Os robôs industriais das fábricas de automóveis, que parecem aranhas mecânicas, são a realidade; mas a poesia do nosso tempo está em nossa capacidade de imaginar robôs adormecidos, robôs sensuais, robôs gordos. Robôs que a outros robôs jamais ocorreria criar: somente a nós, simples humanos.





sexta-feira, 28 de março de 2008

0319) Nós, robôs (28.3.2004)


("ArtBots" - Fernando Orellana - "Drawing Machine 3, 14159")

Para muita gente foi uma decepção o Grande Desafio de veículos robôs, realizado há poucos dias no deserto de Mojave (EUA), sob o patrocínio da DARPA (Agência de Pesquisa em Projetos Avançados de Defesa). Tratava-se de um percurso de 241 km a ser cumprido através do deserto por veículos totalmente autônomos, ou seja, depois de dada a partida o veículo teria que se virar sozinho, subindo ladeiras, contornando obstáculos, etc.

Apareceram 106 interessados, que foram submetidos a um filtro prévio, até restarem apenas quinze equipes consideradas aptas a concorrer. Munidos com localizadores GPS (via satélite), os veículos teriam que cumprir um percurso ao longo de 2000 pontos possíveis de localizar automaticamente. O resultado, no entanto, ficou muito aquém do esperado. Nenhum dos veículos cumpriu mais do que 5% do trajeto, e o prêmio de um milhão de dólares não teve ganhador. Veículos capotaram, outros caíram em barrancos. Parece distante o objetivo dos americanos, de que um terço de todos os seus veículos militares sejam totalmente autônomos por volta de 2015.

Por outro lado, parece que na área esportiva estamos indo melhor. A ROBOlympics, olimpíada para robôs realizada em 20-21 de março em San Francisco (Califórnia) reuniu 414 robôs de 11 países em 34 diferentes eventos esportivos, que incluíram desde futebol até luta de sumô, combate ao fogo, solução de quebra-cabeças, travessia de labirintos, e outros desafios que os técnicos consideram ao alcance dos robôs de que dispomos atualmente. As “robolimpíadas” não têm ligação com o Comitê Olímpico Internacional: são um evento organizado pelos técnicos e pelas empresas envolvidas. Quem quiser mais detalhes, é só ir para: http://www.robolympics.net/index.shtml.

Sei que esta coluna é lida por muita gente de formação não-científica, não-técnica. Que tal, então, considerarmos a ArtBots, uma exposição internacional de arte robótica? Aconteceu pela primeira vez em 2002, em New York, e este ano deverá ter sua terceira edição. A exposição exibe qualquer obra de arte que envolva robôs, num critério bastante amplo. Dizem os organizadores: “Inscreva seu trabalho, se você acha que é um robô, e se acha que é arte.” Ou seja: são aceitas obras produzidas por robôs, ou obras que contenham algum tipo de mecanismo robótico: objetos, instalações, esculturas... Regulamento e detalhes podem ser obtidos em: http://artbots.org/ -- e cada obra inscrita recebe 500 dólares de participação! (Infelizmente, todas as despesas correm por conta do participante)

Parece bobagem, mas vendo isso eu me sinto como Isaac Newton, apanhando conchinhas na beira do oceano da sabedoria. De repente, lá vem um peixe se arrastando para a areia, com nadadeiras que já começam a se parecer com pernas... Para uns é grotesco, para mim é fascinante e assustador. Oxente, pessoal, é como qualquer começo de um mundo novo. No começo a gente estranha; depois, fica se perguntando como conseguiu viver sem aquilo.