Diz ele que na
adolescência, quando fazia teatro estudantil, houve a estréia de uma peça, com
o auditório do colégio lotado de pais, professores, agentes, profissionais de
teatro. O segundo Ato deveria começar com o palco todo às escuras e no meio da
escuridão o personagem de David chamava, com voz trêmula:
-- Mamãe?... Mamãe?...
Nem bem ele lançou seu chamado, a mãe dele, do meio da
platéia, gritou:
-- Estou aqui, David!...
A gargalhada geral foi estrondosa, as luzes se acenderam,
o diretor da escola veio ao palco e disse:
-- Senhoras e senhores, vamos voltar e recomeçar o
segundo ato. Pedimos a compreensão de todos e o seu silêncio... Senhora Suchet.
E ele conclui dizendo: “Eu sempre a amei por isto”.
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(“Ensaio Droxtop”, Campina Grande, 1974)
Saber improvisar sem quebrar a cena é tudo. Aprende-se
isto como se aprende tanta outra coisa na profissão artística: dando com a
cabeça na parede.
Muitas pessoas em Campina Grande hão de lembrar o grupo
Droxtop, criado nos anos 1970 por Gutenberg Assis. Era um grupo de teatro
experimental: quinze rapazes e moças que se apresentavam num palco escuro,
iluminado pela famosa “luz negra” das boates (na época, uma novidade
inquietante).
Era o “Ensaio Droxtop”: música clássica, atmosfera
gótica, todos vestindo túnicas brancas, com os rostos pintados de tintas fosforescentes,
recitando textos próprios, e de poetas que iam de Augusto dos Anjos a Carlos
Drummond e outros.
Convivi muito com o grupo, porque era amigo do diretor e de
grande parte do elenco (tínhamos a mesma idade), e na época eu era casado com Lili,
Arly Arnaud, que era uma das integrantes. Assisti inúmeras apresentações.
Certa vez o grupo se apresentou em Mossoró (ou Caicó?).
Havia uma cena muito dramática em que dois atores, Sarmento e Jomário,
agarravam um terceiro, Zé Antonio, e o amarravam a uma cruz, com cordas de
verdade; depois, iam até um fogareiro de brasas, aceso no palco, onde estavam
esquentando dois ferros de marcar gado (de verdade). Empunhavam esses ferros e
um dos dois dizia:
-- E o que faremos agora com este canibal? (apontando Zé
Antonio amarrado na cruz).
-- Vamos ferrá-lo!
Era um momento dramático, porque os ferros estavam mesmo
em brasa. Claro que o ator tinha amarrada ao peito, por baixo da camisa, uma
placa de couro, que recebia os ferros, chiava, e produzia uma fumaça
impressionante, enquanto o “canibal” se contorcia em dores histriônicas.
Nessa noite em Caicó (ou foi Mossoró?) fizeram a cena,
mas após o momento “oooh” a camisa de Zé Antonio pegou fogo. Os dois carrascos deram-lhe
as costas e não perceberam: incorporados nos personagens, de ombros contraídos,
brandindo os ferros flamejantes, fitavam a platéia com carrancas ameaçadoras,
porque era justamente a hora de se retirarem do palco, deixando ali o
crucificado.
Ocorre que, na hora de se voltarem, perceberam que o
crucificado se debatia em vão com as cordas, porque havia chamas em seu peito e
a fumaça lhe subia pela cara. Jomário (ou foi Sarmento?) teve a presença de
espírito de apontar para ele e bradar, por iniciativa própria:
-- E este canibal?
O que fazemos com ele?!
E Sarmento (ou foi Jomário?) saltou à altura da situação,
apontando-o e bradando:
-- Vamos levá-lo... para as profundezas do Inferno!!!
Desamarraram o semi-desmaiado Zé Antonio e o conduziram
para a coxia, onde alguém já o esperava com o providencial balde dágua.
("Ensaio Droxtop", Campina Grande, 1974)

