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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

4673) Serendipismo ou serendipidade (11.2.2021)




Para quem ainda não conhece a origem dessa palavra, ela se refere ao conto “Os três príncipes de Serendip” de Horace Walpole, de 1754. O conto se refere à lenda de três príncipes que tinham muita sorte e a toda hora estavam encontrando, de maneira absolutamente casual, coisas das quais tinham grande necessidade.
 
A palavra em inglês para essa tendência afortunada é “serendipity”, que algumas pessoas traduzem como serendipismo, serendipidade, serendiptismo ou serendipitia. É uma palavra ótima, o problema dela é ser pouco sonora.
 
A base do serendipismo é a coincidência, ou seja, a convergência de duas coisas que não têm nada a ver uma com a outra. Você está precisando saber, por exemplo, o nome do autor do conto “Os três príncipes de Serendip”. Está numa casa de praia, sem biblioteca, sem internet, sem telefone. Abre ao acaso uma revista velha, numa pilha enorme. Lá no meio acha uma foto: “Esta é a mansão inglesa onde moraram figuras ilustres como Horace Walpole, autor do conto Os três príncipes de Serendip...”
 
Parece inventado? Comigo acontece com frequência. Vou dar um exemplo recente, tão preciso que anotei.
 
Ano passado, eu estava lendo (pela primeira vez) um conto de Isak Dinesen, no livro Last Tales (Vintage, New York, 1991): “The Cardinal’s First Tale”. Nele, um cardeal e uma dama aristocrata estão conversando sobre a arte de contar histórias, e a certa altura ele exemplifica:
 
(...) A história tem uma heroína; e no momento em que ela ergue sua lamparina para admirar a beleza do seu amante adormecido, isso faz com que uma gota de óleo quente caia no ombro dele.
(pag. 25, trad. BT)
 
Nada mais é dito sobre esta cena, mas assim que a li eu a achei familiar. Um homem jovem adormecido, uma mulher entra com uma daquelas lamparinas de óleo, para observá-lo sem ser vista, mas a gota de óleo acorda o rapaz. É uma história conhecida (e é nesse contexto que o personagem a usa como exemplo), mas, de onde?
 
Imaginei (talvez pela presença da lâmpada a óleo) que fosse algo das Mil e Uma Noites, e deixei pra lá.
 
No fim da tarde (no mesmíssimo dia), pego ao acaso a revista Locus (dezembro de 2007) e estou lendo uma entrevista de Elizabeth Hand, autora de quem já li alguns contos excelentes. E na página 7 da revista ela diz, sobre um livro que acabara de publicar na época (e que eu não conheço: Generation Loss):
 
No início, eu tinha imaginado em escrever uma variante da história de Eros e Psiquê. Psiquê se apaixona por Eros, mas quando a gota de óleo quente pinga sobre ele, ela foge, e volta para junto da mãe dele, Afrodite, a qual lhe impõe uma tarefa que ela terá de cumprir para ter seu amado de volta.
(trad. BT)
 
Ou seja, poucas horas depois de surgir a dúvida, veio a resposta, de maneira absolutamente aleatória. (Quando peguei a revista, eu a puxei do meio de um monte de outras, para ter o que ler depois do jantar. Não tinha idéia do conteúdo da entrevista.)
 
Num artigo (“How To Be Lucky”) na revista online Psyche, Christian Busch argumenta que o serendipismo não é um simples esbarrão casual entre duas coisas parecidas. Há uma estrutura.
 
https://psyche.co/guides/how-to-open-up-to-serendipity-and-create-your-own-luck
 
Ele diz que ao contrário do que costumamos pensar o imprevisto não é tão imprevisto assim, nem o inesperado tão inesperado. Temos mecanismos permanentes de atenção contra qualquer surpresa que possa nos ferir ou prejudicar: são mecanismos de defesa. Quando atravessamos uma rua, muitas vezes não olhamos apenas na direção de onde vêm os carros, mas também na direção da contra-mão... porque nunca se sabe.
 
Busch acha que existe um mecanismo oposto, um mecanismo de atenção para “o inesperado positivo”, que nem todo mundo desenvolve.
 
Minha pesquisa sugere que o serendipismo tem três características essenciais. Ele começa com um gatilho que o deflagra – o momento em que você encontra algo inusitado ou imprevisto. Depois você precisa ligar os pontos – ou seja, observar esse gatilho e fazer a conexão entre ele e algo aparentemente não relacionado, percebendo assim o valor potencial daquele evento aleatório (às vezes este é referido como “o momento Eureka”). Finalmente, são necessárias sagacidade e tenacidade para avançar nessa direção e produzir o resultado positivo inesperado. O encontro casual de uma informação é um mero evento, mas o serendipismo é um processo multifacetado.
 
A dica de Busch, bastante óbvia aliás, é de que não basta estar atento a uma bicicleta na contramão (como eu vivo no Rio de Janeiro, onde já escapei dezenas de vezes de ser atropelado): é preciso estar atento às surpresas positivas, às informações randômicas que o mundo faz chover sobre nós.
 
Temos (diria eu) uma mente-observadora passiva, e uma mente-observadora ativa. A primeira apenas recebe as informações sensoriais, com um mínimo de esforço; é o chamado “piloto automático”. A segunda ataca as informações, cai sobre elas concentradamente, disposta a arrancar o que elas tenham para fornecer.
 
A mente passiva é aquela com que observamos o mundo da janela de um ônibus, cruzando a cidade, uma atenção dispersa, desfocada, desligada. Para alguma coisa nos “acordar” precisa ser um evento fora do comum: uma batida de carro, uma briga na rua, uma pessoa conhecida que avistamos na calçada.
 
A mente ativa é a que botamos para funcionar quando estamos ao volante de um carro, num bairro desconhecido, procurando um endereço.
 
A maioria das pessoas lê livros com a mente passiva, meramente decodificando aquelas palavras em língua portuguesa. (Eu leio assim, com frequência.) Não encara as frases. Não questiona. Não as vira de um lado para o outro. Não interrompe a leitura por meio minuto para pensar naquilo fora do contexto do livro.
 
Alguém há de se queixar que ler assim é muito lento, muito trabalhoso. Ler pensando cansa. É melhor ler sem pensar, ler apenas decifrando o texto e deixando que ele ecoe na mente, como se fosse a voz de uma professora recitando uma lenga-lenga qualquer enquanto a verdadeira atenção da gente está lá fora, no que a gente vai fazer quando conseguir largar aquele livro.
 
Se for para ler assim, melhor largar o livro. A pessoa pode até correr os olhos por algumas verdades profundas, ou pelo segredo fundamental do universo, e não tem serendipismo que a salve, porque ela vê mas não é capaz de perceber o que está vendo.
 
 





terça-feira, 13 de setembro de 2011

2660) Onze de setembro (13.9.2011)



(manuscrito do séc. XIII)
 

Naquele dia, meu filho Gabriel, que na época tinha nove anos, mudou de canal, do Cartoon Network para a Globo, para assistir Dragonball Z no programa da Xuxa. Acordei não tanto com o volume da TV, mas como o tom angustiado e nervoso na voz do locutor; e já estava diante da tela quando o segundo avião explodiu de encontro à segunda torre. 

Fiquei colado ali, e perplexo como todo mundo. Antes do meio-dia, atendi telefonemas (sabe Deus como conseguiram meu número) da Rádio Jovem Pan e da Folha de São Paulo, ambas com a mesma pergunta: A ficção científica previra algo assim? 

Falei que a FC propriamente dita não, mas escritores de techno-thrillers como Tom Clancy tinham chegado perto. E comentei, com certa imodéstia, que meu conto “Jogo Rápido” (em A Espinha Dorsal da Memória, 1989) também postulava um ataque a um “cartão postal” – neste caso, um grupo terrorista que arrancava e roubava a cabeça do Cristo Redentor. (Não eram terroristas políticos, eram terroristas estéticos, um grupo de milionários que colecionava cabeças de estátuas famosas do mundo inteiro). 

Fantasioso, eu? De jeito nenhum, pensei, diante da TV onde as torres desmoronavam coreografadamente. Nos dias seguintes, li o depoimento do compositor Stockhausen, dizendo (e causando um tremendo escândalo junto à imprensa): “Aquilo foi a maior obra de arte que já existiu. Pessoas passam dez anos se preparando para um ‘concerto’, e no momento da execução morrem”. 

Eu já havia escrito os parágrafos acima quando, pouco antes da meia-noite entre sábado e domingo passados (de 10 para 11 de setembro) terminei a leitura da coletânea de contos Saffron and Brimstone de Elizabeth Hand, e me surpreendi ao ver no fim do livro uma “Afterword” datada de 11 de setembro de 2006. 

Hand fala que alguns contos do livro foram inspirados por um amigo que ela julgou ter perdido no atentado ao WTC. O último conto do livro, “The Saffron Gatherers”, mostra San Francisco sendo destruída por um terremoto no momento em que o avião da protagonista decola (ela vê tudo lá de cima). 

Diz Hand que a história desse amigo se tornou “a personificação das minhas ansiedades: desejo e perda; a ameaça do apocalipse; o poder e a vulnerabilidade do artista; meu fracasso constante em criar alguma coisa a partir da tristeza e do desespero”. 

Foi só mais uma sincronicidade (me ocorre com frequência ler por acaso um livro em que surge a mesma data em que o estou lendo), mas acho que exprime o que os atentados de 2001 passaram a significar para muitos escritores e artistas em geral. A necessidade, e a impossibilidade, de fazer literatura e arte sobre uma catástrofe tão esmagadora.