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quinta-feira, 19 de março de 2026
5226) Segredos de infância (19.3.2026)
sexta-feira, 17 de abril de 2015
3791) "Ladrão de Sonhos" (18.4.2015)
Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, haverá debate o prof. Sérgio Almeida.)
Hoje
será exibido Ladrão de Sonhos (“La cité des enfants perdus”, 1995), dirigido
por Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. O filme conta a história de um cientista
que para não envelhecer precisa roubar os sonhos das crianças que sequestra. Ele
pluga seu cérebro no cérebro dos meninos (Matrix usou recursos visuais
análogos) mas se aterroriza com seus pesadelos. Seu esconderijo, num cais do
porto brumoso e decadente, é habitado por uma anã, um grupo de clones (todos
interpretados por Dominique Pinon, ator-mascote dos diretores), e variadas
criaturas com elementos de cyborg ou de vilão de seriado.
Jeunet
e Caro estrearam com Delicatessen (1991), que tem a mesma atmosfera surreal,
semifuturista (mas um futuro sem muita lógica), personagens grotescos, cenários
delirantes, um clima “steampunk”. Cada imagem nos projeta num ambiente de
tecnologia do século 19, com elementos de um futuro pouco plausível. Os
personagens são caricaturas; comportam-se como personagens de desenho animado,
sem muita preocupação com realismo emocional.
Jeunet
separou-se depois de Marc Caro (que é mais cenógrafo do que diretor) e realizou
filmes como Alien: Ressurrection (1997), O Fabuloso Destino de Amélie
Poulain (2001), Eterno Amor (2004) e outros. Embora seus filmes tenham uma
incessante criatividade visual e narrativa, ele nunca mais produziu delírios
tão consistentemente fantásticos quanto esses dois primeiros filmes, mistura de
surrealismo, ficção científica, quadrinhos, velhos seriados.
Os
filmes de Jeunet & Caro são exemplos do que chamo de Ciência Gótica:
histórias repletas de elementos científicos (máquinas, laboratórios,
instrumentos, experimentos químicos e físicos), mas desprovidas voluntariamente
da lógica científica. É uma ciência cenográfica, acima de tudo, porque o mundo
onde esses adereços se amontoam é um mundo Gótico: sombrio, ominoso,
inexplicável, resistente à lógica e aos sentimentos, um mundo onde os seres
humanos parecem máquinas de outro tipo, executando ações insensatas e brutais.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
1692) “Amélie Poulain” (14.8.2008)
Se um dia eu fizer uma lista com Os Dez Filmes Mais Felizes do Cinema, este aqui aparecerá com certeza. Ainda não sei quais seriam os outros nove, e talvez não existam, mas este simpático e inteligente filme de Jean-Pierre Jeunet pode preencher sozinho a lista.
Minha admiração por Jeunet surgiu nos dois filmes bizarros, surrealistas, cruéis, grotescos, que ele dirigiu com Marc Caro: Delicatessen (1991) e O Ladrão de Sonhos (1995). Filmes com estética de história-em-quadrinhos francesas, criatividade visual do cinema de animação do Leste Europeu, alguns elementos da ficção científica dos anos 1960 e um senso de invenção visual incessante, barroco.
Qualidades que estão em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), que Jeunet dirigiu sozinho, mas com a mesma verve visual e narrativa. Uma fotografia de cores estouradas recriando uma Paris de desenho animado, irreal, encantadora. Uma edição frenética, mas que sabe puxar as rédeas nos momentos certos, variando de ritmo com dinâmica segura.
Um roteiro de imaginação incansável, cheio de pequenos achados que parecem desnecessários mas são o tempero ideal para uma história que poderia ser bobinha e banal. E atores que parecem com gente, dando ao filme, que é um conto de fadas, um lado terra-a-terra que acaba sendo bem-vindo e evitando que ele fique água-com-açúcar.
Enquanto os dois primeiros filmes de Jeunet tinham sido sombrios e cruéis, este aqui é uma fábula de bons sentimentos, contando a história de uma moça tímida e solitária que um belo dia resolve fazer felizes outras pessoas.
A história não se dilui em sentimentalismo, até porque algumas das tentativas de Amélie dão com os burros nágua, como o romance que ela tenta armar entre a moça da tabacaria e o ex-namorado da garçonete do café onde trabalha. Mas suas demais aventuras são cheias de charme e de imaginação.
Uma personagem de Delicatessen, para tentar se matar, inventa mecanismos complicados tipo Rube Goldberg – uma porta que se abre, libera um peso, que aciona uma alavanca, que afasta uma vela, que queima um cordão, que derruba outro peso, que puxa outro cordão, que aciona um gatilho...
Essa mesma mecânica de dezenas de efeitos complicados para cumprir uma função simples está por trás das maquinações de Amélie para descobrir quem é o homem misterioso que se faz fotografar nas cabines da estação ferroviária, e com isso atrair um rapaz que coleciona fotos rasgadas nessas cabines, pelo qual ela se apaixonou.
O roteiro é tão cheio de detalhes que somente ao ver o filme agora pela terceira vez percebi a função de vários deles. É uma dessas narrativas em que a gente não pode piscar o olho. Não porque seja de ação vertiginosa, como nos filmes dos X-Men; pelo contrário, a ação dos personagens é miúda, compassada, e ocorre numa Paris artificial que lembra a dos musicais da Metro.
É a riqueza de detalhes (e o coração da protagonista) que faz do filme uma experiência de incessante prazer.
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