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quarta-feira, 29 de abril de 2026

5232) Histórias de cantador (29.4.2026)




(ilustração: J. Borges)     

 
Esta foi nos velhos tempos em que eu morava em Campina e vivia assessorando informalmente os cantadores de viola, em seu relacionamento com a imprensa (porque eu era crítico de cinema no “Diário da Borborema”) e com o meio acadêmico (porque eu estudava Ciências Sociais na atual UFCG). 
 
Marcaram uma cantoria para Bandeira Sobrinho às nove da manhã. Não era uma cantoria, na verdade, era uma simples apresentação, no auditório da universidade, em Bodocongó. Havia uns professores de fora visitando o campus, e entre a programação cultural resolveram botar: “Apresentação de cantadores”. 
 
-- É meia horinha apenas – explicou a moça que telefonou para ele. – O senhor canta meia hora e pronto.  Tem um cachê de xis reais. 
 
Não faço mais idéia de quanto era um cachê naquele tempo. Bandeira retrucou: 
 
-- Tudo bem. Com quem eu vou cantar? 
 
-- É só o senhor – disse ela, toda satisfeita. 
 
A maioria dos brasileiros pensa que um cantador de viola canta sozinho. É um pouco como pensar que um jogador de tênis joga sozinho. 
 
-- Tem que ser uma dupla – explicou Bandeira. – Porque a técnica da cantoria consiste em fazer versos alternados. E todos dois têm que receber. 
 
Não sei se a moça entendeu a questão técnica, mas criou-se um impasse, porque de um lado ela se via pressionada a duplicar o cachê, e do outro lado ele se via pressionado a dividi-lo. Sem falar que universidade demora meses pra fazer um depósito. 
 
Acabaram combinando que ele cantaria sozinho, até porque, reiterou ela, “não era uma cantoria, era uma apresentação informal”. Bandeira concordou aos resmungos. 
 
Somente na véspera ele soube que a apresentação seria às nove da manhã. 
 
-- Ninguém merece – me disse ele, tempos depois, quando me narrou este episódio. – As pessoas pensam que toda hora é igual, e que verso é como água da torneira, a qualquer hora que abrir a água é a mesma. 
 
-- Não dava para transferir o horário? – sugeri, só para alternar a conversa. 
 
-- Meio difícil, porque era sexta à noite e eu recebi o folheto impresso a cores, com foto minha e tudo. E lá estava eu, escalado para cantar sozinho, e às nove da manhã. 
 
-- Público leigo – disse eu. – Meia hora!  Leva um balaio de sextilhas e num instante passa. 
 
-- Me deram duas laudas de pessoas, com currículo e tudo, que eu devia saudar – disse ele. – Eu já estava me arrependendo de ter nascido. Mas compromisso é compromisso, e eu amarro o burro onde o dono do burro manda. 
 
Às oito e meia ele estacionou o fusca e desceu com a viola encasacada. Foi bem recebido, havia uma mesa comprida com água, cafezinho e biscoitos. Depois, houve uma abertura formal e ele foi chamado ao microfone. 
 
-- Cantei em pé, o que acabou sendo bom, porque me ajudou a ficar acordado. Fiz uma introdução, fiz o elogio regulamentar. 
 
O elogio era um verso para cada visitante. 
 
-- Cantei um verso que não esqueço até hoje – disse Bandeira. – Cantei no piloto automático, como você gosta de dizer. “Saúdo neste auditório / professor Manuel Simão / tem doutorado em São Paulo / tem prêmios em profusão / e é grande autoridade / nas pesquisas do algodão.”  Vieram os aplausos e nisso o camarada se levanta entusiasmado, puxando palmas, e sobe no palco, vem até o microfone. Educadamente me empurra para o lado, se apossa do microfone e começa um discurso. 
 
-- Eita. 
 
-- Falou da importância dos poetas populares para a educação do povo brasileiro, falou do Nordeste como ponta-de-lança da cultura neste país sem memória, e por aí foi. E eu do lado, querendo cabecear de sono. 
 
-- Foi elogiar, deu nisso. 
 
-- Aí ele falou que era do interior de Pernambuco, que o avô tinha sido vaqueiro. E disse: “Poeta Batista”, e você sabe como eu fico quando alguém erra meu nome, “vou lhe dar um mote para você glosar”. 
 
-- Aí deu um mote de três linhas, desmetrificado. 
 
-- Pior. Ele disse com toda solenidade, como se fosse um locutor de congresso; “Quem é vaqueiro não pode / ser cantador de viola!”  E foi se sentar, todo confiante. 
 
-- Esse mote é do tempo em que Adão era cadete. 
 
-- Calma, que o melhor vem aí. Eu já estava invocado porque o camarada subiu no palco e cortou minha apresentação sem nem pedir licença. “Ah, mas ele era um professor...” Ora, professor tem que ser mais educado do que quem não tem diploma!...  
 
-- Você glosou o mote? 
 
-- Aí é que está. Eu estava com tanto sono que pratiquei uma desonestidade. Pior do que uma desonestidade: uma imprudência. Eu cantei o verso de Pinto do Monteiro, fazendo de conta que era improviso meu. 




(Pinto do Monteiro)


-- O famoso verso de Pinto! 
 
-- Está em todos os livros, não é mesmo? Eu devia ter me lembrado disso na hora, mas estava com a cabeça a meia-pressão. E aí cantei o verso de Pinto, não sei se você sabe ele de cor. É assim: 
 
Vaqueiro é pra pegar touro, 
amansar bezerro e vaca, 
cortar pau, fazer estaca, 
e consertar bebedouro. 
Fazer queijo, beber soro, 
curtir couro e raspar sola, 
fazer freio e rabichola, 
tanger cabra e capar bode... 
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
 
-- É um grande verso – disse eu, protocolarmente. 
 
-- Com as impressões digitais de Pinto do Monteiro – disse Bandeira. – Mas o perigo está aí. O público aplaudiu, aí o “misera” do professor ficou em pé de novo e falou alto, lá do auditório: “Poeta, esse verso é de Pinto! Eu pedi foi uma glosa sua.” Até aí tudo bem. Mas ele complementou: “Caso seja possível”.  
 
-- Alguma razão ele tinha, né, poeta?...  
 
-- Eu pedi a Deus que um raio fulminasse aquele corno, mas Deus tem juízo e não me escutou. O jeito foi voltar ao microfone, e a raiva foi tanta que acabou me ajudando a produzir o resultado. E eu cantei:  
 
Vaqueiro não tem desgosto
não passa noite acordado
não compra vinho fiado
não acorda com sol-pôsto;
não vive de tiragosto
nem de rum com Coca-Cola
não canta por uma esmola
não bebe cana, e não fode...
Quem é vaqueiro não pode
ser cantador de viola.
 
-- Eita. 
 
-- A platéia veio abaixo, a apresentação foi um sucesso, e o infitete me agarrou na maior euforia, quase me bota no braço. E na segunda-feira o cachê bateu na conta. 
 



 
 
 
 
 




quinta-feira, 16 de abril de 2026

5230) Todo prêmio é injusto? (16.4.2026)




Há um belo poema de Carlos Drummond de Andrade onde ele sugere, a certa altura, que gostaria de ver “um fim sem a injustiça dos prêmios”. 
 
O que parece uma contradição. Que sentido tem chegar ao fim de um processo e não receber uma recompensa qualquer?!  Para que todo aquele esforço, então?  Não faria sentido.  O plantio tem que ser recompensado com a colheita, e mais ainda: com a refeição no prato e o superávit no mealheiro. 
 
Como imaginar toda a faina, toda a labuta desta vida humana sem a promessa (melhor: sem a garantia!) de um Paraíso à nossa espera? 
 
Nada neste mundo deveria acabar com um simples THE END, e, se o fizesse, deveria ser como o THE END dos filmes americanos, que em nossa infância estrumaram essa sede de triunfo e ressarcimento: um casal se beijando aos pés do altar, um guerreiro erguendo a espada vitoriosa, o herói de retorno à família que lhe acena boas-vindas na varanda. 
 
Tem que haver um prêmio, mas esse conceito tão nobre acabou sendo barateado, bastardizado, pirateado sem escrúpulos pelo conceito de disputa pelo 1º, 2º, 3º lugares, medalhas de ouro, prata e bronze, esse tipo de coisa. 
 
Quando eu fazia parte da organização dos Congressos de Violeiros de Campina Grande, nos anos 1970, ficava escandalizado com a ferocidade da disputa, com as mil e uma artimanhas dos cantadores para derrotar os companheiros. 



Mais de uma vez sugeri, com a minha cara abestalhada de universitário de óculos: “Por que não transformamos o Congresso num festival não-competitivo, em que todas as duplas se apresentam no palco do Teatro, improvisam sobre temas sorteados, recebem maiores ou menores salvas de palmas de acordo com seu desempenho, e a grana da premiação é dividida irmãmente entre todos?...”. 
 
Ou seja, eu queria a Utopia drummondiana, que como toda Utopia é muito bonita no papel, mas se reduz a pó no instante em que bota o pé na calçada. 
 
Os cantadores, todos mais velhos do que eu, botavam a mão no meu ombro e diziam: “Rapaz, se disser que não tem disputa não vem ninguém. Deixa eles se comerem uns aos outros. E que ganhe o melhor.” 
 
É engraçado. Os cantadores de viola nordestinos parecem rezar na mesma cartilha dos roteiristas do cinema de Hollywood, para quem toda história tem que se basear num Conflito, porque se não tiver conflito não se vende um só ingresso. 



E faz um certo sentido, admito, porque na raiz da Cantoria de Viola está o Desafio, está o confronto poético, está a cerimônia agonística (Johan Huizinga) em que o representante da comunidade X precisa vencer o representante da comunidade Y, e nesse confronto ambas as comunidades mobilizam suas energias, seu entusiasmo, sua coesão emocional, sua engenhosidade criativa, seu impulso superador. 



(folheto da editora Tupynanquim, para lançamento em breve)

 
É algo que nem mesmo o conceito moderno (de meados do século 20) da Cantoria de Viola entre parceiros, não entre adversários, conseguiu apagar. 
 
E é algo que vigora em tudo neste mundo, desde o Nobel até o Oscar, desde o Jabuti até a Copa do Mundo, desde a Palma de Ouro até o Grammy Latino. Alguém precisa perder para que alguém possa ganhar – e para que todo mundo queira concorrer. 
 
E quando penso na “injustiça dos prêmios” drummondiana, me questiono: um prêmio pode ser injusto?  E me lembro de prêmios em que o premiado, muito tempo depois, confidenciou: “Era melhor não ter ganho. Todo mundo disse que eu ganhei sem merecer.  Ganhei, mas isso me fez mais mal do que bem.” 
 
Acho que o primeiro grande impasse que se formou na minha cabeça foi naquele Festival da Canção, no Rio de Janeiro, que na reta final se dividiu entre “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, a grande vencedora, e “Caminhando” de Geraldo Vandré, o grande sucesso injustiçado. 


Estive vendo dias atrás um documentário sobre Chico, na Netflix, onde ele fala nesse episódio com a habitual gargalhada de bom humor, recordando a vaia estrondosa que sacudiu o Maracanãzinho quando anunciaram o prêmio para “Sabiá”. Todo mundo queria Vandré. 
 
Lembro as discussões ferrenhas na minha turma de amigos, quando a gente fazia “bacurau” madrugada afora na esquina de Olacanti (porque era pertinho do apartamento da minha tia, onde eu dormia às vezes, e pertinho da casa de Son e Marcos Agra, na rodoviária velha). 
 
-- Quem tinha que ganhar era “Caminhando” – dizia um. – Uma música contra a ditadura, levantou o público, todo mundo cantou junto. 
 
-- Uma letra repetitiva, toda com rima em “ão” – questionava outro. – “Sabiá” tem versos lindos: “vou deitar à sombra de uma palmeira que já não há”. Poesia pura. 
 
-- Poesia do tempo de Gonçalves Dias – rebatia alguém. – Sabe o que é poesia em 68? “Nas escolas, nas ruas, campos, construções, caminhando e cantando e seguindo a canção”. 
 
-- É de fato um bom verso – concedia o primeiro. – Conseguiu trocar “ão” por “ões”. 
 
Eu sempre preferi “Caminhando”, até por ser uma canção de dois acordes, algo que sempre desperta minha simpatia; e chegamos a tocá-la (como número instrumental, prudentemente) quando fiz parte dos Sebomatos. Mas lembro na época algumas entrevistas de Tom e Chico, quase pedindo desculpas por terem ganho o Festival. 
 
Alguma pessoa terá despertado mais antipatia no Brasil do que a pobre da Gwyneth Paltrow, que tomou de Fernanda Montenegro o Oscar de melhor atriz que o Brasil inteiro já dava como (merecidamente) ganho? A coitadinha subiu ao palco toda balbuciante, dizendo que não esperava... (Todo mundo que ganha um Oscar diz que não esperava, que foi uma surpresa, que não preparou nada!) 


 
Vi tempos depois uma entrevista com ela, em que dizia, no fim das contas, que era melhor não ter ganho do que ganhar e todo mundo dizer que ela não mereceu. 
 
Um caso parecido se deu no futebol, no ano passado, quando o ex-flamenguista Vinicius Jr., do Real Madrid, era tido por muita gente como o vencedor antecipado da Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador do ano. Vinicius é um grande jogador e pelo meu gosto pessoal receberia, sim, o prêmio naquele ano (não no ano seguinte, em que ficou bem abaixo). 
 
Acontece que Vinicius se envolveu numa série de episódios de racismo com as torcidas, bateu de frente, rasgou o verbo, deu murro em ponta de faca, recusou-se a baixar a cabeça... Resultado: atraiu para si as antipatias de muita gente no futebol, desde os racistas propriamente ditos até aqueles que abominam as polêmicas e sonham com prêmios “platônicos”, idealmente técnicos, sem fatores extra-campo envolvidos. 



E aí a Bola de Ouro acabou indo para Rodri, jogador do Manchester City.  Que virou no meio futebolístico uma espécie de Gwyneth, alguém que “não esperava” – e, para muitos, não merecia.  Pior: foi apontado por gente da imprensa como um premiado “fake”, um pretexto postiço para que o prêmio não fosse para um jogador negro que bate de frente com o racismo.
 
Rodri é ótimo jogador. Na época, estava se recuperando de uma contusão muito grave no joelho, o que causa em qualquer fã do futebol uma simpatia e uma solidariedade automáticas. Ganhou o prêmio, foi lá receber, suportou os aplausos. Mas, em algum momento, Rodri também deve ter pensado: “Eu acho que mereço, eu sei que queria ganhar; mas não assim.”
 
Existem prêmios justos e prêmios injustos?  Não sei, mas às vezes me lembro de Jorge Luís Borges, o cara que durante a vida inteira sonhou em vão com o Prêmio Nobel: “Todo sucesso é uma espécie de mal-entendido.”
 
 




sexta-feira, 18 de agosto de 2023

4973) Otacílio Batista, cantador (18.8.2023)

 
 
O próximo mês de setembro trará as comemorações do centenário de nascimento de Otacílio Batista, um dos grandes cantadores de viola de sua geração. Um amigo-e-mestre com quem tive a sorte de conviver durante alguns anos, principalmente entre 1975 e 1980, quando eu morava no Nordeste (Campina Grande, Salvador) e convivia mais de perto com o Olimpo da cantoria.
 
Digo “Olimpo” na brincadeira, mas a cantoria é meio assim – uma montanha fabulosa habitada por deuses capazes de façanhas que nos parecem sobrenaturais, mas basta subir a ladeira e vê-los de perto para constatar que são “humanos, demasiado humanos”, com as mesmas paixões nossas, os mesmos sentimentos, as mesmas qualidades e defeitos... Ou seja: são duas vezes mais interessantes.
 
Otacílio Batista (28-9-1926 / 5-8-2003) era um dos três irmãos violeiros que muito fizeram para transformar São José do Egito (PE) numa das capitais simbólicas da cantoria. Junto com Lourival (1915-1992) e Dimas (1921-1986) ele representou a geração de meados do século 20, que viveu e impulsionou um dos vários ciclos de expansão e modernização da arte do repente.
 
E está pronta para ir às livrarias a biografia Otacílio Batista, uma história do repente brasileiro (São Paulo: Hedra & Acorde!, 2023), escrita pelo seu neto Sandino Patriota, pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC). Não é o primeiro livro  abordar a pessoa e os versos de Otacílio, mas neste caso o autor, sendo da família, teve acesso a uma grande quantidade de material, inclusive narrativas orais que enriquecem o retrato.
 
Otacílio Batista Patriota já tem o nome na métrica perfeita do decassílabo em martelo agalopado, com acento nas sílabas 3, 6 e 10. Era um cantador de verso rápido, mas com uma dicção calma e cadenciada, a cabeça trabalhando como um chip Intel enquanto a voz escandia as sílabas sem vexame (=pressa), como se estivesse ditando o verso para alunos aplicados.
 
Fui um deles, aquele tipo de aluno de mesa de bar a quem ele sempre dava explicações pacientes, orgulhoso ao ver como os universitários cabeludos e intelectualóides estavam começando, em meados dos anos 1970, a querer saber quem inventou o galope beira-mar, quem foi Fabião das Queimadas, e a diferença entre sextilha e gemedeira.
 
 O livro de Sandino traz uma comparação detalhada e pitoresca entre os três irmãos Batista, traçando o perfil único de cada um.
 
Lourival: o mais velho, boêmio, farrista, humor sarcástico, lirismo delicado, trocadilhista emérito, vida profissional caótica.
 
Dimas (que não conheci pessoalmente) mais reservado, leitor voraz, lírico e erudito ao mesmo tempo, acabou deixando a viola de lado para ser professor e diretor de colégio.
 
Otacílio, grande observador, de verso elegante e resposta rápida, autor de inúmeros livros, capaz de belas poesias líricas e de versos fesceninos de fazer inveja a Bocage.
 
Como observa Sandino Patriota:
 
Apesar de ser apenas oito anos mais velho do que Otacílio e seis do que Dimas, a distância real entre esses cantadores era de uma geração inteira. Lourival pertenceu à geração dos Vates antigos: cantava, se portava e pensava como os cantadores que fizeram fama no fim do século XIX. (pág. 24)
 
Começando a carreira de cantador profissional em 1940, Otacílio foi um dos protagonistas do “boom” do repente após a II Guerra Mundial.
 
Em 1946, Ariano Suassuna quebrou um honorável tabu da cultura elitista ao levar cantadores (os Batista entre eles) para o palco do Teatro Santa Isabel, no Recife.
 
Em 1947, Rogaciano Leite organizou o primeiro congresso (=festival) de cantadores do Nordeste, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, onde a dupla vencedora foi Cego Aderaldo e Otacílio Batista.
 
Em 1948 Rogaciano “fechou o firo” ao levar para o Teatro Santa Isabel o segundo congresso de cantadores.
 
Em 1949, um grupo de políticos e jornalistas, admiradores do repente, produziram e organizaram uma viagem, ao Rio e São Paulo, de um grupo de violeiros que incluía os três Batistas, o veterano Severino Pinto (o “Pinto do Monteiro”) e Agostinho Lopes dos Santos. A revista O Cruzeiro (25-6-1949) dedicou várias páginas à caravana de poetas, que cantaram para ministros e autoridades, e foram celebrados por Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Cardozo.
 

(Otacíio, Lourival,  Pinto e Dimas)


É bom destacar, sempre, que isto se deu num momento em que o baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira varria o Brasil radiofônico de ponta a ponta, e Gonzagão nunca deixou de lembrar o quanto sua música devia à batida da viola e às toadas dos cantadores. Foi um grande momento de evidência da cultura do Nordeste na indústria cultural (rádios, jornais, revistas) sudestina.
 
Sandino aborda também a questão do mito de Zé Limeira, “o Poeta do Absurdo” celebrado por Orlando Tejo. Como se sabe, muitos dos versos atribuídos por Tejo a Zé Limeira foram escritos por Otacílio. Hoje, destrinchar quem fez o quê é um pouco como pegar uma xícara de café com leite e separar os dois.
 
Otacílio era alto, corpulento, branco de olhos claros, sempre bem vestido, passo vagaroso, porte altivo. Sempre cortês e atencioso, mas avermelhava num segundo quando alguma coisa o irritava. Bem humorado na hora da anedota ou da piada ferina sobre algum incauto, tinha pavio curto quando se ofendia, erguia os ombros, ficava que era ver um touro. Mas não era homem de briga; se vingava no verso, porque Deus é grande.
 
Lourival Batista já foi objeto de alguns livros (de Ivo Mascena Veras, Alberto da Cunha Melo), e de filmes de curta-metragem, inclusive o Bom Dia, Poeta (2015) de Alexandre Alencar, onde colaborei no roteiro. Otacílio tem agora esta atenta e útil biografia. Fica faltando a de Dimas Batista, o homem que disse: “tudo passa na vida, tudo passa, mas nem tudo que passa a gente esquece”.
 
 
 




domingo, 18 de setembro de 2022

4864) "No País da Poesia Popular" (18.9.2022)



Começam hoje, domingo dia 18, as exibições do segundo episódio da série No País da Poesia Popular, no canal “Cine Brasil TV”. O Episódio 2, “História do Romanceiro Nordestino”,  será exibido nestes horários:
 
Domingo, 18 de setembro – 22:30
Terça, 20 de setembro – 22:00
Quinta, 22 de setembro – 23:30
Sexta, 23 de setembro – 11:30
Segunda, 26 de setembro – 19:30
Quarta, 28 de setembro – 13:00
 
A série, dirigida por José Araripe, e na qual sou roteirista e apresentador, é uma produção da “Truque”, de Salvador, e foi gravada em 2019. A pandemia e o resultante pandemônio encalharam por algum tempo a finalização, mas agora os 13 episódios de meia hora serão exibidos aos poucos no Cine Brasil TV.

COMO ACESSAR:
Aqui no saite do canal Cine Brasil TV é possível checar quais as operadoras:
 
https://www.cinebrasil.tv/index.php/localize-o-canal
 
O primeiro impulso de inspiração para esta série surgiu no longínquo ano de 1977, quando eu e Araripe nos conhecemos, fazendo parte do grupo Teatro Livre da Bahia, dirigido por João Augusto, no Teatro Vila Velha, de Salvador. Fizemos como atores inúmeras peças de teatro-de-rua inspiradas em folhetos de cordel como “A Briga do Fiscal com a Fateira” ou “A Chegada de Lampião no Inferno”.
 
Depois, parte desse material foi transposta por João Augusto para o espetáculo Oxente Gente, Cordel que fez várias temporadas em Salvador, e viajou no saudoso “Projeto Mambembão” para Rio, São Paulo e Brasília. Lembro também com saudade que fazia parte desse grupo o meu parceiro Zelito Miranda, outro maluco por cantoria de viola. Falecido no mês passado na Bahia, Zelito formava comigo na peça uma dupla de cantadores hilária, caricatural.


(BT e Zelito Miranda, em Oxente Gente, Cordel, Salvador, 1978)

 
Ou seja, já naquela época líamos e discutíamos ardorosamente a poesia popular. E herdamos um pouco do espírito meio anárquico e desafiador de João Augusto. Ele nos dizia o tempo todo que o cordel não estava morto, nem sequer doente; que a poesia popular não era uma coisa pura, trancada numa redoma de vidro, era uma força viva que morre e ressuscita um milhão de vezes por dia.
 
O programa No País da Poesia Popular começou a ser gravado em setembro de 2019, quando passei uma semana em Salvador. Araripe e sua equipe viajaram depois pelo Rio, São Paulo, Ceará, Paraíba e Pernambuco, num total de 17 cidades com 50 entrevistados.
 
É muito pouco, na verdade, diante das dezenas de milhares de poetas profissionais que atuam principalmente no Nordeste: folheteiros, editores, violeiros, emboladores de coco, aboiadores... Toda vez que a gente faz um trabalho tipo documentário sobre um assunto tão rico eu me lembro do comediante Zero Mostel, que queria vender uma casa e andava com um tijolo na bolsa, para servir de amostra.


(Bule-Bule, Bahia)
 

O meio acadêmico discute exaustivamente o que pode e o que não pode ser chamado de “poesia popular”. Uma discussão muito necessária. A Arte Da Palavra se manifesta de maneiras diferentes no hai-kai japonês, no soneto italiano, na rapsódia grega, no concretismo paulista, no surrealismo francês, nas trovas provençais, no rap urbano contemporâneo, no poema modernista... (E reparem, nem estou tocando na prosa, porque se entrar por aí a gente amanhece o dia.)
 
E se manifesta nas formas que a gente cultiva no Nordeste: o folheto de cordel, a cantoria de viola, o poema matuto, a mesa de glosa, o romance cantado, o aboio, o coco de embolada, e por aí vai.


[Mocinha de Passira)

 
Um pouco disto vai registrado nestes programas, cuja exibição começa com os 3 primeiros em setembro, e irá se estendendo pelos meses seguintes:
 
Episódio 01 - O Folheto e o Repente
Episódio 02 - História do Romanceiro Nordestino
Episódio 03 - O Jornal do Sertão
Episódio 04 - Quando os Bichos Eram Gente
Episódio 05 - Histórias de Amor e Sofrimento
Episódio 06 - A Fantasia Heróica
Episódio 07 - As Novelas e os Romances Clássicos
Episódio 08 - Incrível, Fantástico, Extraordinário
Episódio 09 - Os Bons, os Maus e os Feios
Episódio 10 - A Mulher no Cordel
Episódio 11 - Utilidade Pública
Episódio 12 - Humor e Sátira
Episódio 13 - Cordel e Ficção Científica



(programação do primeiro mês)
 

Todo mundo vai dizer: “Eita, faltou isso, faltou aquilo, faltou Fulano, faltou Sicrano”. E geralmente vai ter razão. Me lembro de uma vez que eu estava em Areia (PB) almoçando num bar e vendo no Globo Esporte uma matéria interessante sobre grandes batedores de pênalti do futebol brasileiro: Pinheiro, Pelé, Zico, Roberto Dinamite... Quando a matéria terminou, um bêbo no balcão cuspiu de lado e disse: “Se não falou em Luís Garapeiro, não disse nada.” E quem sou eu pra discutir? Eu vi ao vivo Luís Garapeiro batendo pênalti.



(Lirinha, São Paulo)

 
Toda esta lenga-lenga é para dizer que a poesia popular não é um panteão com uma dúzia de ídolos obrigatórios e mais nada. O programa procurou inclusive mostrar pessoas que dificilmente seriam mostradas num programa “A História da Literatura de Cordel”. Aqui estão amigos meus que são músicos, cantores, compositores, que devem muito à poesia popular, cada qual ao seu modo: Lenine, Numa Ciro, Antonio Nóbrega, Beto Brito, Lirinha, os irmãos Marinho... No Nordeste, pelo menos, poesia popular e música popular são vizinhos de porta.



(Felipe Canário, Campina Grande)


A possibilidade de uma segunda temporada é algo sempre em aberto, para séries de TV. Tudo que a gente não consegue enfiar na mala, deixa para procurar no ano que vem. Falei lá em cima a história do tijolo, representando uma casa. É mais ou menos isso. É um oceano. Você vai lá, e traz uma garrafa cheia, como amostra.


 
(Arievaldo Viana, Fortaleza, in memoriam)
 





 
 
 
 
 





sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

4770) A arte do improviso (3.12.2021)



Eu não sei até hoje em que consiste, de maneira indiscutível, a arte de improvisar. 

A descrição mais simples desse processo seria: “Improvisar é criar alguma coisa sem planejamento prévio, criar em cima da hora, em tempo real.”
 
Mas o que quer dizer “sem planejamento prévio”? Um músico de jazz que sobe ao palco para dar uma canja num show de amigos pode já ter em mente o que vai fazer, porque vai tocar uma música que já tocou antes, talvez com alguns daqueles mesmos músicos, de modo que não começa rigorosamente da estaca zero. Ele pode até planejar algo de forma meio abstrata. Pode pensar: “Naquele trecho que faz assim-assim eu vou tentar acelerar as notas no início, mas a cada passada vou diminuindo a velocidade, e no final tentar criar uma frase qualquer em cima de tais ou tais notas...”
 
Ou seja: ele planeja, mas não planeja exatamente. Planeja em linhas gerais. Os detalhes serão resolvidos no calor do momento.
 
Pode ocorrer também que depois de tocar esse número alguém da platéia, ou da própria banda, sugira: “Agora vamos tocar XYZ.” E começa uma música que ele desconhece, num tom diferente, compasso diferente, e é aquele momento em que a gente olha e o cara está de pé no palco, à espera, deixando a música correr, o olhar baixo, concentrado, assimilando tudo, até chegar o instante em que ele ergue o instrumento e começa a tocar.
 
Num caso assim deve ser improviso mesmo, ainda mais se a música for desconhecida, uma canção que ele nunca tocou, nunca sequer ouviu. Como ele pode improvisar, então? Ora, nenhuma música é produzida da estaca zero. Toda música, por mais original que seja, passa por sequências de acordes que geralmente já são conhecidos por ele. Cabe a ele descobrir e tocar, em cima da hora, um fio melódico cujas notas se harmonizem com aqueles acordes subentendidos, que vão se sucedendo em sua mente à medida que são tocados pela banda.
 
Se for uma sequência complexa demais, talvez nem dê para ousar muito nessa improvisação – o simples fato de conseguir improvisar uma melodia que não entre em choque com os acordes nem com o “tempo” já é uma pequena façanha. É como no atletismo o cara completar um “100 metros com barreiras” sem derrubar nada, não importa quanto tempo levou.
 
Deve ser neste sentido que um cantador de viola me disse, muitos anos atrás: “Para improvisar é preciso muito boa memória”. "Por que?", perguntaria alguém. Se é improviso, é uma coisa totalmente nova, então depende mais da imaginação do que da memória, não é mesmo? Sim e não. A imaginação vai atrás. A memória vai na frente, fornecendo as matérias primas. Versos são frases, e sextilhas improvisadas oscilam o tempo todo entre os produtos da imaginação (um verso original, criativo, brilhante, que ocorre ao poeta no calor do entusiasmo) e os da memória – aquelas linhas ligeiramente burocráticas, sem muita poesia, que é preciso continuar dizendo para completar os versos.
 
Quando numa cantoria de viola a gente dá um mote, às vezes os cantadores olham o papelzinho escrito, deixam ali na frente, enquanto estão cantando outras coisas, mas mentalmente a cabeça já vai escolhendo rimas, separando, preparando frases. Quando começam a cantar pra valer, quanto tempo tiveram para se preparar? Alguns minutos?
 
Improviso não quer dizer instantaneidade. Algum tempo de preparação tem que haver antes do “improviso” ter lugar.
 
Isso nos leva a conceitos mais largos, como o de improvisação no cinema. Como improvisar na feitura de um filme? Num filme, o roteiro e o cronograma de filmagens são preparados meses antes. Na hora, é só chegar e executar a idéia que alguém botou no papel, e que já foi lida, discutida e assimilada por toda a equipe. Como improvisar?
 
Bem, aqui é onde entra a vida real com suas armadilhas. Planejamento de filmagem não é linha-de-montagem de fábrica, onde cada estágio, cada tarefa é executada mecanicamente, sempre da mesma forma. Visto de maneira mais realista, um roteiro e um plano de produção são sempre “cartas de intenções”. É como se dissessem: “No dia tal, vamos tentar gravar isto aqui, desta maneira.” Porque os imprevistos e as surpresas são mais frequentes do que se imagina.
 
Já vi casos em que na véspera de uma cena o ator quebrou e engessou a perna. A cena foi improvisada na manhã seguinte, e tudo que ele iria fazer andando foi reescrito para que fizesse sentado, e filmado da cintura para cima. (Às vezes dá. Às vezes não.)
 
Já vi ator cortar a mão num caco de vidro e, sem interromper a filmagem, usar a mão ensanguentada como parte da cena.
 
Já vi ator estar fugindo apavorado, tropeçar, cair, levantar-se rindo, olhar para a câmara, fazer cara de apavorado de novo e continuar correndo.
 
Quando alguém grita: “Ação!...” ou “Rodando!...”, tudo vira uma questão de vida ou morte. Claro que sempre existe a opção do take 2, take 3, take 4... Mas às vezes nunca se consegue repetir exatamente as coisas boas que aconteceram no take anterior, e cada “Rodando!...” é sempre um salto no escuro.
 
Um salto no improviso, porque mesmo quando se repete algo o fato de ser uma repetição coletiva introduz novos ruídos, novas interferências – pense cena de briga, cena de multidão, cena que envolve animais ou que é filmada na rua... Mesmo que tudo ocorra como foi planejado, é preciso estar sempre pronto para improvisar.
 
E para reconhecer o bom improviso. Já vi casos em que na conclusão de uma cena a atriz resolveu executar um gesto ou uma caminhada que não tinha feito nas vezes anteriores e o diretor, apressadinho, não percebeu e gritou “Corta!...”, olhando para o relógio... e o complemento perfeito se perdeu.
 
Tudo isto ainda está no capítulo de coisas improvisadas num espaço de segundos ou de minutos, como no jazz e na cantoria.
 
Existe também a necessidade de improvisar em larga escala. Quando se tem horas, dias inteiros para pensar, mas se está mexendo com algo tão coletivo e tão complexo que o que se cria nesses dias equivale a meses de preparativos.
 
Nas vésperas da filmagem, a locação combinada não está mais disponível, por alguma razão. A cena que ia acontecer num shopping vai ter que ser feita numa praça. Prancheta em punho, as pessoas traçam o novo posicionamento das câmeras, do som, e os deslocamentos dos atores. “Ah, não temos mais o parque, mas temos a praia”. Muito bem, vamos re-desenhar tudo e filmar na praia as cenas do parque.
 
É improviso também? Por mim, é, até porque todo o pessoal envolvido já tinha se preparado mentalmente para fazer a cena no espaço “X” e agora vai ter que se adaptar ao espaço “Y”, e não é tão fácil quanto parece para quem está de fora.
 


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

4741) A cantoria segundo um cantador (6.9.2021)



 
Um sinal de amadurecimento na Cantoria de Viola é o fato de que quase todo ano aparece um livro a respeito da grande arte, só que não é escrito por um diletante “de fora” como eu, nem por um pesquisador acadêmico – é escrito por um cantador ou um ex-cantador, alguém que conhece o ofício pelo lado de dentro.
 
É diferente, não porque “só os cantadores podem explicar a cantoria”, mas porque quanto mais ângulos de visão e de interpretação tivermos sobre um fenômeno, maior a possibilidade de que surjam verdades a seu respeito. Tem coisas na cantoria que um cantador não enxerga, mas um jornalista pode enxergar, pela formação que tem; um sociólogo pode enxergar outras, com os instrumentos de que dispõe; um psicólogo; um musicista; um historiador; e pode ir armando a fila.
 
E o cantador tem, é claro, o seu lugar de fala, o seu lugar de olho privilegiado, de séculos de tradição assimilados desde a infância. E tem, no dizer de Camões, “um saber só de experiências feito”. Ter experiência não é necessariamente ter a “última palavra” sobre um assunto. Essa palavra pode até ser a da teoria pura. Mas sem ouvir a palavra da experiência, o que a teoria tem a dizer?
 
Desafio no Repente – A Poética da Cantoria na Contemporaneidade (Teresina: Gráfica e Editora Halley, 2019) é o livro do cantador Edmilson Ferreira, resultado da sua dissertação de mestrado no CCHLA da Universidade Federal da Paraíba, sob a orientação da Profa. Dra. Beliza Áurea de Arruda Melo.
 
O livro tem quatro partes, organizadas de acordo com o modelo clássico das teses. Na primeira, ele define o objeto de estudo, dando uma geral nas principais teorizações sobre a Cantoria – uma forma híbrida de arte, que nem todo mundo soube teorizar direito. Edmilson fornece uma boa bibliografia (cheia de obras desconhecidas que me deixaram com as pontas dos dedos coçando), e equilibra sua fontes entre os estudiosos clássicos do repente (Câmara Cascudo, F. Coutinho Filho, etc.), e pesquisadores contemporâneos (como minha amiga e mestra Idelette Muzart).
 
Vi com satisfação o tanto de vezes que ele cita os comentários de Paul Zumthor, um teórico muito importante daquilo que a gente chama “as Literaturas da Voz”. Um grande obstáculo para o entendimento correto da arte da cantoria por meio de livros é que um livro não tem como reproduzir o seu aspecto oral, vocal, sonoro.
 
Nem vou falar do som da viola, das toadas musicais, da riqueza de formas melódicas que há na cantoria. A mera articulação dos versos é um dado essencial para perceber o que os violeiros estão tentando fazer – inventar frases na hora, obedecendo a esquemas complexos de ritmo, rima, cadência, prosódia. E esse dado se perde no verso escrito. (Esta questão é abordada na Parte 3, “O Corpo Repentista”.)
 
A segunda parte tem um teor mais histórico, resumindo a evolução da poética do improviso entre nós. E Edmilson toca numa questão importante, a ausência de documentação a respeito desse fenômeno que, além de ser essencialmente oral, era praticado, ao longo dos séculos da colonização, por “gente sem importância” social. Há enormes buracos na história da cantoria. Ele observa:
 
Vale lembrar que mesmo as expressões artísticas vindas da Europa chegaram profundamente influenciadas pela passagem dos árabes no Ocidente europeu medieval. (...) Se o modelo basilar para a poética dos repentistas chega com os colonizadores e com os escravos, não é possível se pensar numa lacuna de quase três séculos para a aparição dos primeiros focos da cantoria de repente. (pág. 71)
 
Eu vejo de maneira parecida, embora a meu ver haja uma ilha solitária nesse mar de anonimato, que é a figura ímpar de Gregório de Matos (1636-1696), que não era um cantador no sentido moderno da palavra, mas é decerto um precursor da sua arte poética. Motes e glosas em setissílabo estão presente em sua obra, e dele se contam muitos episódios de versos feitos na hora por provocação ou desafio de pessoas em volta.
 
Como a arte da glosa declamada sempre foi viva em Portugal, não há porque duvidar que o luso-brasileiro Gregório, que vivia raparigando nos bares com uma viola a tiracolo, fosse também um praticante desse tipo de verso. Verso que duzentos anos depois iria florescer no sertão nordestino, em forma de arte e profissão.
 
A seguir Edmilson questiona um dos fatos mais estabelecidos (pelo que eu saiba) na historiografia do repente: a sua origem na Serra do Teixeira, em meados do século 19. Como eu sou paraibano, considero esse marco histórico algo mais indiscutível do que o Descobrimento do Brasil. Concordo com Edmilson, porém, ser muito improvável que uma tal floração de talentos amadurecidos e plenos, no espaço de poucas décadas, não tenha sido precedida por um vagaroso acúmulo de “massa crítica” que infelizmente não foi resgatada pela História.
 
Diz ele:
 
Atribuir ao Teixeira o gene da cantoria, considerando que se trata da continuidade de uma manifestação já existente há séculos, denota uma preferência pelo lugar escolhido. Tal preferência pode ser dos pesquisadores, mas também pode ser de quem os financia, de quem os acolhe, de quem os informa, de quem mantém com esses estudiosos vínculos de amizade. (pág. 72)
 
É a tragédia e a glória da historiografia em qualquer tempo e lugar: acabar contando a história dos informantes encontrados, das fontes disponíveis, dos sobreviventes, dos grupos ou das famílias que registram sua própria história, guardam fotografias e manuscritos, são capazes de fornecer certidões, documentos, recortes de jornal... Com isso, passam à frente dos que nada guardaram, nada preservaram, nada salvaram do vasto naufrágio social que é a memória brasileira.
 
Posso usar para a cantoria uma imagem que em outros textos já usei para a literatura fantástica produzida no Brasil: uma pirâmide soterrada. Um enorme repositório de informações que foi ocultado pelo tempo (em muitos casos, foi destruído pelo tempo). A história de nossa poesia improvisada é como um imenso lago onde ali aparece uma ilha, Gregório de Matos, acolá um pequeno arquipélago, a Escola do Teixeira, mais adiante outras ilhas afastadas, Inácio da Catingueira, Fabião das Queimadas... São os que por variados motivos (entre eles os que Edmilson aponta) escaparam do esquecimento.
 
Ainda na segunda parte do livro há uma sequência de capítulos importantes em que Edmilson aborda as formas contemporâneas de verso improvisado. Longe de substituírem a cantoria, elas são uma ampliação, uma extensão do mesmo impulso criativo, seguindo as formas tradicionais.
 
Existem, por exemplo, numerosos grupos de WhatsApp realizado disputas poéticas; ele cita o “Clube do Repentista”, “Clube do Repente”, “Repente de Canto a Canto”, “Rede Cordel e Repente”, “Amantes da Cantoria”, “Fã Clube dos Poetas”, “Divulgando a Poesia”, “Política Cordel Cantoria” e outros. Da página 87 à 147 há um rico material a respeito das várias modalidades de competição, inclusive com reprodução visual das mensagens em tela de celular.
 
Basicamente (cada grupo pratica variantes) o desafio ocorre entre uma dupla previamente escolhida, com data e hora marcada. Os participantes do grupo ligam-se todos no horário combinado, mas não participam, devendo guardar silêncio, enquanto o apresentador dá as instruções necessárias e fornece os motes e assuntos. Os versos são postados alternadamente pelos poetas.
 
Há disputas isoladas de A contra B, e há também os torneios, com os poetas (nunca em duplas – isoladamente) se enfrentando e se eliminando num sistema de chaves, como nos torneios de futebol, até o confronto final entre os dois que ainda não foram derrotados. Um júri acompanha o desenrolar do desafio, e em seguida (às vezes no dia seguinte) proclama o resultado.
 
Como se vê, é uma atividade muito diferente tanto da cantoria tradicional, “de pé de parede”, quanto dos festivais de repentistas. Os versos são escritos, e não cantados. A disputa é entre indivíduos e não entre duplas. Há muito mais tempo para pensar o verso... Tudo isso demonstra que não se trata de algo que venha a tornar a cantoria obsoleta. É uma modalidade a mais que se está criando – tal como as “Mesas de Glosa” ou “Rodas de Glosa” que tanto sucesso vêm fazendo nos últimos anos, principalmente no Vale do Pajeú.
 
A quarta parte do livro, “Repentista ou Repetista”, traz de volta a velha discussão entre os versos improvisados (a razão de ser da Cantoria de Viola) e os versos escritos, preparados, decorados, etc. Uma discussão que não vai acabar tão cedo. Penso que ninguém se torna um profissional estabelecido num meio competitivo como o do Repente sem ser capaz de improvisar pra valer, de maneira consistente, em qualquer ambiente, com qualquer platéia, durante anos seguidos.
 
Por outro lado, a própria necessidade de se manter no “grupo da frente”, como numa maratona, obriga qualquer cantador a ter um vasto repertório de versos preparados, sejam trabalhos escritos com este fim, seja a reciclagem permanente de versos que, improvisados pra valer em certo momento, foram memorizados, e incorporados à “munição de reserva” para as horas de aperto.
 
O livro de Edmilson Ferreira reúne citações bibliográficas dos teóricos da literatura oral e depoimentos de cantadores da velha e da nova geração – uma das características do “novo repente” é inclusive o aparecimento de mulheres poetas, bem representadas no estudo.
 
Um título muito importante para a bibliografia do repente, e que já me abriu meia dúzia de caminhos para novas pesquisas.
 
Para quem se interessar, eis aqui o link da minha conversa com Edmilson Ferreira, no seu canal do YouTube, “Prosa de Mestre”, no mês de maio passado:
 
https://www.youtube.com/watch?v=TZPHVmbgMEg&t=4736s


 












sexta-feira, 16 de abril de 2021

4694) O sinônimo da nota musical (16.4.2021)



Os aficionados da cantoria de viola vivem a me perguntar se Zé Limeira existiu de verdade. Curiosamente, ninguém me pergunta o mesmo sobre o poeta violeiro Bandeira Sobrinho, com quem conversei muito, bebi, viajei, glosei motes, e que para muita gente não é uma pessoa real, vive apenas no mundo dos personagens diegéticos.
 
Bandeira Sobrinho, caso não-diegético fosse, teria uns cinquenta anos quando eu tinha vinte e cinco, e nossa amizade meio improvável se consolidou aos poucos, entre uma cerveja no Bar de Seu Manu e um café pequeno no Calçadão. Era forte, atarracado, tinha um bigode grisalho, óculos. Bebia muito, sorria pouco, mas tinha um inesperado senso de humor.
 
Não foi o violeiro mais brilhante de sua época, porque disputava espaço em Campina Grande com outros de sua geração, como José Gonçalves ou Antonio Barbosa, e com os da nova geração de galos-de-briga que, naqueles meados dos anos 1970, começavam a botar as unhas de fora: Ivanildo Vila Nova, Moacir Laurentino, Severino Feitosa, para falar apenas dos que moravam em Campina.
 
Quando fomos publicar os folhetinhos transcrevendo os versos gravados nos espetáculos do Congresso Nacional de Violeiros, patrocinados pela Universidade Regional do Nordeste, tivemos a idéia de incluir nos folhetos as partituras com as melodias correspondentes a cada estilo: sextilha, galope, martelo, quadrão, etc.  

O diretor do Museu de Arte era José Umbelino, que convocou o maestro Pedro Santos para a tarefa. Pedro Santos, grande sujeito, era de João Pessoa e nessa época estava pagando os pecados em Campina, porque no Museu quem mandava era a gente, e não tinha hora de funcionamento.
 
– Maestro, este aqui é o poeta Bandeira Sobrinho, meu grande amigo. Ele vai cantar as melodias e você copia.
 
– Muito bem, vamos lá.
 
Fui tomar um café na cantina e voltei meia hora depois para constatar um impasse entre os dois.
 
– Algum problema?
 
– Não propriamente um problema – disse o maestro, que era o rei da paciência e da diplomacia. – Mas cada vez que eu peço pra repetir ele canta uma melodia diferente.
 
– É a mesma – insistiu Bandeira, já arrufando as penas.
 
– Não, poeta, presta atenção... – explicava Pedro, ao piano, um dedo nas teclas, outro apontando a partitura recém-rabiscada. – Aqui era essa nota, e você na segunda vez cantou essa outra aqui.
 
– E que diferença faz – disse Bandeira. – Se não foi a mesma nota, foi um sinônimo.


(maestro Pedro Santos)


Surgiu pela primeira vez nessa tarde a minha percepção de que um dos elementos que diferenciam a cultura erudita e a cultura popular é que a primeira privilegia a visão de detalhe, e a segunda a visão de conjunto. 

Pode não ser a melhor maneira de colocar essa questão, mas vejam só. Eu também costumo cantar e tocar violão, e não sou dos mais afinados. Se estou cantando uma música qualquer, seja dos Beatles ou de Ataulfo Alves, não estou preocupado com as notas individuais, e sim com a frase melódica. Aqui e acolá pode uma nota não ser igual ao disco, pode não ser igual até à que cantei há pouco; e daí? O que importa é que o ouvinte reconheça a frase. “Pois é, falaram tanto, que desta vez a morena foi-se embora...” Se o ouvinte reconhecer a melodia geral, que diferença faz uma nota ou um sinônimo dela?
 
Bandeira e o maestro Pedro comeram o pão que o diabo amassou durante algumas tardes, mas as partituras foram feitas e saíram no folheto. Surgiu entre os dois uma amizade distante baseada no respeito e na perplexidade. Foi um pouco como aquele filme de guerra de John Boorman que passou na época no Cine Capitólio, Inferno no Pacífico, onde um soldado americano e um japonês, numa ilha deserta, brigam tanto que acabam admirando um ao outro.
 
A cultura erudita se baseia na possibilidade da existência da Versão Única, ou da produção de um Documento Definitivo, de uma Matriz da qual deverão derivar todas as cópias, citações, referências, etc.  É o Império do Documento Escrito.
 
Já a cultura oral se baseia na superposição incessante de versões sempre diferentes entre si, mas guardando uma semelhança que permite considerar que sejam “a mesma coisa”. Não há (isso vale para os Mitos, para as Lendas, para todas as formas orais de narrativa) uma versão mais verdadeira do que todas as outras. Cada uma é a foto-da-nuvem. A nuvem é o conjunto de todas.
 
Quando eu estou cantando até me preocupo em “cantar a letra certa”, mas se na hora não me vier uma palavra entra outra, e fica por isso mesmo. Em mesa de bar (=cultura oral), ninguém liga. Em estúdio (=cultura erudita), o técnico manda fazer de novo. “Vamos fazer a boa, agora...”
 
E mesmo essa cultura musical de estúdio deixa-se contaminar pela outra. Porque num universo como a Música Popular Brasileira, só para dar um exemplo, letra e melodia de uma canção são geralmente respeitadas, mas não são sagradas. Intérpretes mexem, sim; e uma explicação simples para o que acontece pode ser esta: “Se a cantora desafina, erra a nota, pára tudo e vamos gravar de novo; se a cantora está interpretando, está fazendo floreios vocais com pleno domínio de sua técnica, então vale, mesmo que vá longe da melodia original”.
 
A música fonográfica abomina a desafinação (=o erro) mas acolhe a criatividade pessoal. Os compositores escutam, percebem que a música foi alterada, mas muitas vezes admitem que foi alterada “para melhor”, ou pelo menos para se adequar ao sentimento próprio daquela interpretação; e não reclamam.
 
Quando Ella Fitzgerald ou Nana Caymmi começam a florear a melodia, isso é a forma aristocrática (digamos assim) do “cantar de oitiva” dos intérpretes populares, que em seus terraços de sábado ou fundos-de-quintal de domingo cantam a melodia (e a letra) do jeito que lembram, que entendem e que conseguem.



(Lourival e Pinto)
 
O cantador de viola, o poeta repentista, dá atenção à melodia, mas é a mesma que dá ao paletó quando sai para cantar. Tem que estar tudo em ordem, mas não é isso que ele vai exibir para o público: ele vai exibir os versos, a poesia, e tanto a música quanto o figurino são meros coadjuvantes. 

Pesquisadores já comentaram comigo sobre sua decepção ao tentar acompanhar o áudio de uma cantoria entre os mestres Lourival Batista e Pinto do Monteiro, dois dos maiores gigantes do repente, e duas das vozes mais trôpegas dessa arte. Principalmente porque a maioria dos áudios que gravaram já foi na entrada da velhice, quando dicção, dentadura e garganta já não estavam mais em seus melhores momentos.

Quando Geraldo Sarno filmou um pé-de-parede entre os dois veteranos, no curta Cantoria (produzido por Thomas Farkas), usou legendas em português, para meu grande alívio. 
 
A nota musical ajuda quando está correta, mas para o cantador o maior importante é que não atrapalhe. Na hora, se ela não puder vir à goela, que mande um sinônimo.