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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

4421) Algumas leituras de 2018 - III de 3 (3.1.2019)




(conclusão)
PROSA CONTEMPORÂNEA

Memorial de Maria Moura (BestBolso) de Rachel de Queiroz foi talvez o romance que mais me impressionou este ano. Maria Moura é uma capitã de jagunços, uma espécie de Diadorim vestindo calças e montando a cavalo, mas sem ambigüidade sexual. O livro conta a criação, ao longo de muitos anos, de um valhacouto de assaltantes nas faldas da Serra do Padre. Os conhecimentos da autora sobre a História do Ceará dão solidez à narrativa, que é precisa e vai no osso. E a prosa é das melhores que o Brasil já deu. Límpida, forte, cheia de sutilezas inesperadas.

A árvore que falava aramaico e Cavalos de Cronos (ambos da Ed. Zouk, Porto Alegre) de José Francisco Botelho, são dois livros de contos onde o mainstream se alterna com o fantástico, e no segundo a prosa se alterna com a poesia narrativa. Botelho (que traduziu para o português obras de Shakespeare e de Conan Doyle, além dos Contos de Canterbury de Chaucer) é um narrador de prosa segura, rica de observação. Seus contos fantásticos exibem um sentimento ominoso que brota ao mesmo tempo da paisagem física e das memórias familiares. Há um pouco de Borges e de Kafka, mas nos melhores momentos ele evoca também os pesadelos ancestrais de Arthur Machen e Algernon Blackwood.

Days of Awe de A. M. Homes foi um volume de contos que traduzi para a Companhia das Letras. A autora tem uma prosa rápida, cortante, excelentes diálogos, e descreve um ambiente californiano meio surreal de tão específico; lembra os quadrinhos de Daniel Clowes. Aquelas histórias de classe média urbana onde uma coisa bizarra e surreal pode acontecer a qualquer instante.

A Colônia de Férias (Alfaguara) de Emmanuel Carrère. Publicado num volume conjunto com O Bigode, é a história de um menino amedrontadiço e fantasiador que se vê ilhado entre gente estranha, sendo que crimes hediondos ocorrem à sua volta. Carrère explora aquela linha romanesca bem francesa de descrever com minúcias todas as alternativas e contra-alternativas de pensamento de uma pessoa apavorada, arrastada por desejos que não compreende e aos quais tenta dar justificações pueris.



LIVROS SOBRE LIVROS

A Barca de Gleyre é um clássico, dois volumes das cartas de Monteiro Lobato para seu grande amigo, o tradutor e escritor Godofredo Rangel. São extensas discussões sobre mil assuntos mas principalmente literatura. Lobato, escrevendo para uma platéia de um só, era mais Lobato do que nunca. Poucos livros são capazes de revelar a este ponto, sem pose, no calor do momento, a paixão pela literatura.

A Marca do Z (Jorge Zahar Editor) de Paulo Roberto Pires conta a história da Editora Zahar, uma das editoras que fizeram a cabeça da minha geração, talvez a melhor editora de ciências sociais para o grande público. Cada capa de livro lido dá vontade de ler de novo. Um livro-homenagem cheio de revelações sobre as idas e vindas do mercado editorial antes, durante e depois dos anos da ditadura militar. E o retrato de um homem que amava os livros.

Em Memória de João Guimarães Rosa (Ed. José Olympio, obra coletiva) e Joãozito (Ed. José Olympio) de Vicente Guimarães são duas obras importantes sobre o escritor mineiro. O primeiro registra as numerosas homenagens logo após sua morte em 1967, inclusive os discursos na Academia Brasileira de Letras, e traz um ótimo material adicional sobre sua vida e obra. O segundo são as memórias de seu tio materno Vicente, que pela proximidade etária foi quase que um primo do escritor. Ambos são essenciais para conhecer o reflexo de sua personalidade e de sua obra sobre seus contemporâneos.

Autobiografia Poética (Ed. Autêntica) de Ferreira Gullar é um balanço comedido e frequentemente autocrítico do grande poeta sobre suas aspirações, paixões, desencantos e guinadas conceituais. Inclui alguns textos de prosa crítica sobre poesia, lúcidos e bem argumentados, como tudo que Gullar produziu.

A Arte do Romance (Companhia das Letras) de Milan Kundera é uma coletânea de artigos sobre a escrita. Algumas opiniões idiossincráticas, boas reavaliações da obra de seu conterrâneo Franz Kafka, de Jacques Diderot, e em geral um conjunto de reflexões que vale a pena ler e considerar.

O flâneur das duas margens (José Olympio) de Guillaume Apollinaire é uma coletânea de artigos do poeta surrealista sobre ambientes e personagens obscuros da Paris dos anos 1910. Poetas, donos de bar, sebistas, vagabundos, todos são retratados com riqueza de detalhes e de observação. Um mundo de cem anos atrás, mas que parece ainda vivo e a cores.

Shakespeare & Co (Casa da Palavra) de Sylvia Beach, é o volume de memórias, também do princípio do século 20, da livreira que se tornou a primeira editora do Ulisses de James Joyce. Como qualquer livro desse tipo, é um desfile de episódios pitorescos vividos por grandes escritores e artistas, suas excentricidades, suas polêmicas, seus pequenos gestos de generosidade ou de mesquinhez.









sexta-feira, 14 de julho de 2017

4252) "O bigode" de Emmanuel Carrère (14.7.2017)



Há um subgênero literário que não tem nome, mas o nome seria “Histórias De Alteração Brusca Da Realidade Por Causa De Um Ínfimo Detalhe”.

É o caso deste curto romance ou novela de Emmanuel Carrère, O bigode (“Le Moustache”, 1986; Companhia das Letras, 2011, trad. André Telles).

A história começa com o narrador, durante o banho, tendo o impulso de raspar o bigode que usa há anos. Pergunta à esposa o que ela acha, ela responde da sala que pode ficar legal; ele raspa o bigode. Enquanto isto, a esposa dá um pulo lá embaixo para resolver alguma coisa.

O problema é que, na volta, ela não faz nenhum comentário sobre o rosto raspado. O marido fica, com a cara boboca de todo marido, esperando a opinião dela, e nada. É como se nada tivesse mudado na cara dele.

Daí em diante é como se o tecido do espaço-tempo tivesse se rasgado (como dizem os autores de ficção científica) e nunca mais pudesse ser recomposto. Ninguém comenta a cra nova, ninguém se lembra de que ele já teve bigode. Quanto mais ele recorre a comprovações externas de sua antiga bigodice (testemunho de amigos, fotos, etc.) mais encontra provas de que nunca teve bigode.

A alusão à FC não é gratuita; Carrère é autor de um livro sobre Philip K. Dick (que não li ainda), e o universo de PKD é um desses em que basta um detalhezinho não “bater” para que o personagem se veja num mundo paralelo. O mundo está sempre por um triz.

Há num livro dele o exemplo famoso de um cara cujo universo desmorona porque ele entra no banheiro de sua casa, às escuras, procura o fio pendurado com a “pera” do interruptor de luz, não acha, e descobre depois que no seu banheiro isso nunca existiu – o interruptor é embutido na parede, sempre foi.  E agora?

“Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”, disse Gilberto Gil, referindo-se à fragilidade da vida. (Qual de nós tem 100% de certeza de que estará vivo daqui a uma hora?)  No presente caso, não se trata de um instantezinho do tempo, mas de um objetozinho no espaço. O mundo é normal, rotineiro, seguro. Aí um dia você pensa: "Vou tirar aquele quadro da parede”. Tira, e o mundo começa a desmoronar, e nem botando o quadro de volta a gente é capaz de consertar o estrago.

Pode-se pensar no protagonista de História do Cerco de Lisboa (1989) de José Saramago: ao revisar as provas de um livro de História ele inclui a palavra “não” numa frase, fazendo com que os Cruzados NÃO tivessem vindo em socorro do rei português contra os mouros. Com o livro afirmando isto, a História muda. (Não li o romance – estou me baseando numa sinopse.)

Faz lembrar também, num nível mais metalinguístico, O Sumiço (“La Disparition”) de Georges Perec – um mundo onde desaparece um personagem que simboliza a letra E, e todo o resto desse mundo tem que se reorganizar, tapando os buracos deixados pela ausência dessa letra.

A angústia do personagem de O bigode é, em primeiro lugar, por achar que a mulher ficou doida e que conseguiu criar uma gigantesca conspiração paranóica para convencê-lo de que ele nunca teve bigode. Em segundo lugar, ele começa a perceber que talvez seja ele quem está ficando doido – e sua vida desmorona, sim, catastroficamente, transformando-o num pária em terra estrangeira.

É uma história que parte do cotidiano mais besta para o absurdo mais inquietante, como certas narrativas de David Lynch em que os personagens tomam atitudes irreparáveis e desnecessárias. Fazem isso movidos por algo que não sabemos, porque vemos apenas a fixidez dos seus olhos e a autodestruição desnecessária que executam como resignados robôs.

De Carrère eu só tinha lido O Adversário, a história de um cara que dá um golpe financeiro “na moita” durante anos e acaba assassinando a família inteira quando percebe que vai ser desmascarado. Tem em comum com O bigode essa aparente placidez de uma existenciazinha pequeno-burguesa e francófona, toda nos conformes, que um belo dia desmorona sem que ninguém (a família num caso, o protagonista no outro) esperasse por aquilo.


É num certo sentido uma história fantástica, porque mesmo admitindo que o personagem seja (ou tenha ficado) louco certas “quebras” da realidade parecem indicar mesmo uma ruptura philipkdickiana com o Real. A diferença é mais uma questão de estilo. Tanto o protagonista de O Bigode quanto os de Dick se interrogam constantamente, sem parar, sobre a natureza da realidade, reavaliam e reinterpretam o tempo todo o que lhes acontece. Mas em Carrère isso se dá num contexto organizadíssimo, cartesiano, sem as fraturas de pensamento e de estrutura que Dick exibe em livros como Valis. O livro de Carrère, alucinatório e apolíneo, parece um bilhete de suicida escrito numa caligrafia impecável.