Não li o livro de Marcelo Rubens Paiva e não sei os contextos em que a frase do título aparece. Quando soube do filme e todo o fuzuê que ele gerou em torno de si (milhões de ingressos, indicações ao Oscar, etc.) compreendi que essa frase era uma frase-símbolo de Eunice Paiva, a viúva-sem-ser, a mulher que passou décadas infernizando a vida dos militares, da polícia, do sistema judiciário, da imprensa, como quem diz: “Não, não fui embora, ainda estou aqui. Olha eu aqui de novo. Vim reclamar outra vez. Vim bater na porta outra vez. Tem resposta? Tem explicação pra mim? Tem justificativa? Alguém pode me contar de verdade o que aconteceu? Alguém pode me fazer a fineza de dizer o que aconteceu com meu marido?.
Depois que Rubens Paiva desaparece, quebra-se aquela felicidade familiar que orbitava em torno dele. (E aí não é preciso dizer que todo passado é utópico para quem escolhe recordá-lo assim. Por que não posso achar que algum dia já fui feliz?!...)
E a luta da família fica não somente como uma luta pela
Justiça, mas uma luta pela Presença, pela continuação daquela presença que para
eles era preciosa.
Uma presença que vaza, de fora para dentro, mesmo em
imagens onde o personagem não aparece. Eunice é conduzida encapuzada pelos
corredores escuros do quartel, e ouve os faxineiros derramando baldes de água
no chão do corredor e esfregando o piso com rodos. Esfregando o que? Sangue, mas de quem?
Na hora da mudança forçada para São Paulo, uma das filhas
some, e a mãe vai encontrá=la sozinha, na areia da praia, olhando em despedida
o mar de Ipanema. Sim, é um adeus a Ipanema, por alguém que provavelmente gostaria
de jamais ir embora de Ipanema. Mas é a presença do pai no mar, vazando para
dentro da cena. Será que foi neste mar que jogaram meu pai?
Também muito se falou da reconstituição “de época” do
filme, e imagino o trabalhão que deu compor aquelas ruas, fachadas de lojas,
móveis, automóveis, roupas, detalhe de arquitetura. Vim ao Rio de Janeiro pela
primeira vez em 1970, já cineclubista e universitário, olhos arregalados para
aquilo tudo, sem imaginar que viveria aqui mais da metade da minha vida. Existe
algo de aconchegante na visão daqueles fuscas, daquelas camionetes, daqueles
cabelos. O mundo já foi assim.
Por outro lado, o “clima de época” se solidifica em outro
tipo de cena. As cenas dos olhares de esguelha quando passa um caminhão de
soldados, quando se percebe uma blitz lá adiante, quando a TV anuncia mais um
atentado, quando os amigos se reúnem num apartamento para trocar novidades em
voz baixa.
É tempo de meio silêncio,de boca gelada e murmúrio,palavra indireta, avisona esquina. Tempo de cinco sentidosnum só. O espião janta conosco.(Carlos Drummond, “Nosso Tempo”, A Rosa do Povo)
Tempos que nunca passarão de todo, infelizmente, porque não há utopia alguma no horizonte futuro do radar.


