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quinta-feira, 25 de março de 2021

4687) Primeiras Estórias: "Nenhum, Nenhuma" (25.3.2021)



(desenho: Luís Jardim)
 
O oitavo conto do livro Primeiras Estórias  (1962) de Guimarães Rosa é uma não-história, um não-enredo. Ele mostra uma situação lembrada e descrita, mas que não se conclui num desfecho. Um redator de “Manuais de Escrita Criativa” devolveria o texto ao autor, dizendo: “Isto aqui não é um conto, não tem começo, não tem meio, não tem fim. Vai ser muito difícil colocá-lo no mercado. Reescreva.”
 
Tem ficado cada vez mais nítida (e mais forçada) aqui no Brasil a idéia tipicamente européia e norte-americana de que toda história tem que ter começo, meio e fim. É como aquele pintor do século 16 que preconizava: “Toda pintura a óleo deve representar uma batalha, uma cena religiosa ou o retrato de um nobre – senão, para que se dar o trabalho de pintar um quadro?!”.
 
Não tenho nada contra a idéia do “conto em forma de seta”, a narrativa que aponta toda para um desfecho. A maioria dos meus contos segue exatamente esse formato. Apenas acho que não é a única forma, nem a mais importante, nem sequer a mais “colocável no mercado”. 
 
Guimarães Rosa tinha seus formatos próprios de história. Eu diria que o formato de “Nenhum, Nenhuma” é o de um diafragma de câmera fotográfica. Algo meio circular, meio em forma de rosácea, que se abre a partir do centro, deixa entrever um ambiente, um grupo de pessoas conversando num cenário, e depois se fecha novamente.
 
E nesse abrir e fechar-se, e deixar passar a luz, ele pode dirigir seu foco para um detalhe, para uma pessoa, para o ambiente em geral.


O Menino (olha ele aqui, o mesmo Menino com inicial maiúscula dos contos de abertura e encerramento do livro) está passando uns dias numa casa de fazenda de alguém da família. Desse período curto, mas confusamente revelatório, ele guarda uma lembrança que tenta emergir e depois tenta esconder-se novamente, à maneira esquiva de certas lembranças infantis.
 
Por isso mesmo, e pela falta de enredo articulado, novidadeiro, penso que se trata não de história inventada, como se autoproclamava a de Augusto Matraga, mas de um episódio autobiográfico, alguma coisa da infância de Rosa, senão não tinha nenhuma razão do próprio, nascido em 1908, fazer questão de destacar:
 
Na verdade, a data não poderia ser aquela. Se diversa, entretanto, impôs-se, por trocamento, no jogo da memória, por maior causa. Foi a Moça quem enunciou, com a voz que assim nascia sem pretexto, que a data era a de 1914? E para sempre a voz da Moça retificava-a.
 
Na tal fazenda onde o Menino está de passagem, há a Moça, figura ao mesmo tempo maternal e erótica nas fantasias dele. Há o Moço, pretendente dela, amigo da família do Menino, mas por uma questão de rivalidade edipiana o Menino vê o Moço com “antipatia”, “rancor”, “ciúmes”. Há o Homem, um velho silencioso, distante, meio carrancudo, que é também o pai da Moça.
 
E há um quarto da casa ao qual nos primeiros dias o Menino tem acesso proibido (como o quarto proibido na casa do Barba Azul), e no qual ele vem a descobrir, com o passar dos dias e o afrouxamento dos cuidados, que mora uma velha, a Nenha, “uma velha, uma velhinha – de história, de estória – velhíssima, a inacreditável”. Nenha é tão velha que não apenas não lembra mais quem é, mas ninguém da família sabe como ela foi parar ali.
 
Antes de vir para a fazenda, ela ter-se-ia residido em cidade ou vila, numa certa casa, num Largo, cuidada por umas irmãs solteironas. Mesmo essas, mal contavam. Dera-se que, em tempos, quase todas as antecedentes mulheres da família, de roca e fuso, sucessivamente teriam morrido, quase de uma vez, do mal-de-semana, febre de parto; daí, rompido o conhecimento, os homens se mudando, andara confiada a estranhos a Nenha, velhinha, que durava, visual, além de todas as raias do viver comum e da velhez, mas na perpetuidade.
 
As mulheres velhas são literariamente um arquétipo da sabedoria pragmática, pré-livresca, das famílias unidas por laços de afetos e vivência, não por sobrenomes. Figuras iniciáticas, repositório concentrado da anima. Talvez a mais simpática dessas, na obra de Rosa, seja a Lina da “Estória de Lélio e Lina” (em Corpo de Baile, 1956). A Nenha deste conto é remota até a si mesma, não se alcança, não se lembra – emite apenas alguns murmúrios, e uma presença.
 
Me vem à memória o conto “Novecentas Avós”, de R. A. Lafferty, sobre um planeta onde as pessoas não morrem. Ficam pequenininhas, cada vez menores, e são colocadas pelos descendentes em porões especiais, onde continuam a diminuir. Com o passar dos séculos, ficam do tamanho de bonecas, depois do tamanho de insetos. O narrador é levado a um desses porões e pergunta a uma daquelas microscópicas avós como começou a raça humana daquele planeta. Ela começa a rir, todas as outras a imitam, e “era como o som de um bilhão de micróbios gargalhando”.


O que tem tudo a ver com a descrição que o Menino faz da Nenha: “...ela seria apenas a mãe de uma outra, de uma outra, de uma outra, para trás”.
 
Escrevi sobre o conto aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/12/1428-novecentas-avos-11102007.html
 
No conto de Rosa, a velhinha diminui, sim: “Traziam-na, para tomar sol, acomodadinha num cesto, que parecia um berço”. Mas sua interferência na estória é apenas de catálise, porque os cuidados que a Moça tem com ela despertam o ciúme do Moço, seu pretendente, que começa a questionar para quê tantos cuidados, até porque o Homem, pai da Moça, está “desenganadamente doente, para qualquer momento, mortal”.
 
O vislumbre da morte parece tornar o Moço impaciente, e o Menino presencia e descreve o casal jovem discutindo a relação, discutindo o que é o morrer, o querer, o lembrar. Ele e a Moça ficam de cara feia. E no dia seguinte ele chama o cavalo, monta, e leva o Menino de volta para a casa dos pais, de onde o trouxera. Acabou-se o passeio.
 
O trecho final é o regresso do Menino à casa, mas com a visão transformada por esse episódio.
 
Nunca mais soube de nada do Moço, nem quem era, vindo junto comigo. Reparei em meu pai, que tinha bigodes. Meu pai, estava dando ordens a dois homens, que era para levantarem o muro novo, no quintal. Minha Mãe me beijou, queria saber notícias de muita gente, olhava se eu não rasgara minha roupa, se tinha ainda no pescoço, sem perder nenhum, os santos de todas as medalhinhas.
 
E eu precisei fazer alguma coisa, de mim, chorei e gritei, a eles dois: “ – Vocês não sabem de nada, ouviram?! Vocês já se esqueceram de tudo o que, algum dia, sabiam!...”
 
E eles abaixaram as cabeças, figuro que estremeceram.
 
Porque eu desconheci meus Pais – eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?
 
Veja-se a sutileza desta pergunta final, porque o conto é narrado na terceira pessoa, sempre se referindo a “o Menino”, e só no trecho transcrito acima as recordações se tumultuam todas e se derramam incontíveis na confissão pessoal. Era eu, o Menino. Foi comigo, essa coisa que eu não lembro direito como foi. Seria isto, psicanaliticamente, o momento da cristalização do Eu?...
 
É um episódio sobre velhice, morte, amor, lembrança. Uma semi-recordação fundamente escavacada, e exumada aos pedaços, como um fóssil arrancado por um trator. A figura do Pai e da Mãe, talvez, compreendidos agora não como entidades fixas, mas como seres também arrastados pelo fluxo do Tempo, sujeitos à juventude, à velhice, à morte.



 
Guimarães Rosa viveu em Paris entre 1948 e 1950, como primeiro-secretário e conselheiro da embaixada do Brasil. Voltou ao Brasil em março de 1951, para ser chefe de gabinete do Ministro João Neves da Fontoura.

 
Alguém já me disse, mas nunca confirmei essa informação, que nessa estadia em Paris ele teria feito análise com Jacques Lacan, numa fase anterior à dos Seminários que tornaram Lacan famoso. Mesmo que não seja verdade, faz um certo sentido. A obra do autor mineiro tem a reiterada busca da infância, a mutabilidade das lembranças exumadas, o uso do trocadilho como revelação e descoberta, o emprego de recursos da álgebra e da geometria como formas de expressão literária. Para procurar (como diz o Menino) “o luar do meu mais-longe”.
 

(J. G. Rosa, menino)
 
 
 




quarta-feira, 22 de outubro de 2014

3637) Lafferty 100 anos (22.10.2014)





Entre os centenários comemorados este ano, um dos mais obscuros está sendo o de R. A. Lafferty (1914-2002), um dos escritores mais fora-de-esquadro da FC norte-americana.  Nunca foi traduzido no Brasil, ao que eu saiba, a menos que tenha saído por um daqueles livrinhos de papel ruim da Bruguera, Cedibra, etc., nos anos 1960-70, onde muitos anos depois descobri, já sabendo quem eram os autores, livros de Ballard, Delany, Aldiss, Dick. 



A literatura de Lafferty não se parece com a de ninguém.  Ele é o que a crítica de FC chama de “oddball stylists”, estilistas excêntricos, pessoas que pensam de uma maneira diferente, escrevem de modo totalmente pessoal, e usam os temas clássicos da FC (alienígenas, universos paralelos, viagens no tempo, inteligência artificial, etc.) de uma maneira que deixa perplexos até mesmos os autores especialistas nessas vertentes.  São autores personalistas, fora de grupinhos, de escolas.



Lafferty era católico, solteirão, engenheiro elétrico, e só começou a publicar profissionalmente por volta dos 45 anos. Seus primeiros livros tinham uma mistura desnorteante entre o épico e o humorístico, sem preocupação com realismo ou verossimilhança, narrando fabulações que tinham de ser aceitas sem muito exame, como uma história contada ao pé da fogueira.  A tradição dos “tall-tales” (contos folclóricos de exageros e prodígios), a pulp fiction, a mitologia, tudo se mistura nos cerca de 200 contos e 20 romances do autor. (Veja aqui a página sobre ele: http://tinyurl.com/prmp43g.  O verbete na Wikipédia tem numerosos outros links.)



Já comentei aqui o conto Novecentas Avós (em: http://tinyurl.com/klwgb4z), da coletânea homônima.  Neil Gaiman (que é seu fã e tentou imitar seu estilo no conto “Sunbird”, em Coisas Frágeis) diz: “O que me atraiu nele foi a voz narrativa, acho; o modo como ele constrói uma história, diferente de todo mundo. A peculiar justeza de sua visão-do-mundo, e a natureza obscura dela. E as frases.” 


Num texto de 1981, Lafferty disse: “A FC sempre promete mais do que faz, e tem sempre fraudado seus consumidores com produtos de má categoria. Bem, o que ela promete é mágica e deslumbramento, porque uma história de FC ou é uma história que nos deslumbra ou não é nada. Mas esse deslumbramento é uma coisa muito rara, por sua própria natureza, e difícil de produzir. Então, se a FC falha miseravelmente em dezenove casos em vinte, ela é mesmo assim um relativo sucesso. (...)  A FC é a ponte possível entre as ‘duas culturas’, (...) entre a arte viva e a ciência viva, pois ambos os grupos perdem um pouco dessa vivacidade enquanto o afastamento entre os dois continuar existindo”.



terça-feira, 15 de dezembro de 2009

1428) “Novecentas Avós” (11.10.2007)




R. A. Lafferty é uma espécie de Hermeto Paschoal da ficção científica norte-americana, um sujeito com grande cultura clássica, com uma identificação profunda com o folclore e a literatura oral dos EUA, e que se vale da FC para contar umas histórias extravagantes, improváveis, às vezes hilariantes, que são um bem-vindo contraponto ao excesso de lógica cartesiana que acomete o gênero. 

No conto “Nine Hundred Grandmothers” Lafferty fala de um grupo de exploradores terrestres num asteróide habitado, onde eles atuam como representantes comerciais ou coisa parecida. 

O protagonista, Ceran, é um cara que se interessa mais pela cultura local do que por transações comerciais. Ele vive intrigado com o fato de os Proavitoi (como se chamam os nativos) terem em suas casas uma espécie de “bonecas vivas”, que andam, falam, etc. O chefe da expedição lhe dá ordens para que pesquise melhor esse aspecto – quem sabe as bonecas não são um produto interessante para ser vendido na Terra?

Ceran interroga seu intérprete local. Pergunta sobre a morte, e fica pasmo ao ouvir: “Nós não morremos”. Ele insiste, e o Proavitoi acha graça: “Olhe, meu amigo... acho que se morrêssemos, seríamos os primeiros a saber”. 

O interrogatório prossegue. Ceran fica sabendo que os Proavitoi não morrem com o passar dos anos; apenas sofrem uma perda de energia e vão sendo guardados pelos seus descendentes em casa, onde mergulham numa espécie de hibernação. 

Quando um Proavitoi atinge a maturidade (ou seja, quando completa dez gerações de descendentes mais jovens) ele tem o direito de participar do Grande Ritual, que ocorre uma vez por ano. É quando os antepassados são despertados do seu sono e contam aos mais novos o princípio de tudo, quando o mundo começou.

Os Proavitoi são especialistas em certos aspectos da biologia. Parecem ser capazes de expandir ou contrair corpos, como se pudessem fazer as moléculas diminuir de tamanho. Mas Ceran está interessado em saber como começou a história daquela raça, e consegue ser admitido à casa do seu intérprete, depois de descobrir que ele tem aproximadamente novecentas avós ainda vivas. 

Ali ele vai sendo apresentado a pessoas cada vez menores, e descobre que as tais “bonecas vivas” são os próprios avós e bisavós dos nativos, miniaturizados vivos. 

A certa altura, Ceran desce aos porões da casa, que estão cobertos de prateleiras onde se enfileiram antepassados cada vez menores. Ceran coloca uma dessas avós na palma da mão e lhe pergunta se mais abaixo, nos porões inferiores, as outras são menores do que ela. “Sim,” ela responde; “cabem na palma da minha mão”. 

Ele desce até o último porão, onde as avós não são maiores do que uma abelha. Pergunta-lhes, desesperado, como foi o começo de tudo, o começo de sua raça – mas com sua ansiedade consegue apenas fazê-las rir. E o som das suas risadas “era como o som de um bilhão de micróbios gargalhando”. Uma bela metáfora para o estudo da História.



(ilustração: Edward R. Flynn)



segunda-feira, 20 de abril de 2009

0987) As brumas da História (16.5.2006)




(R. A. Lafferty)

Num artigo sobre Roma Antiga no número de fevereiro da The New York Review of Science Fiction, Darrell Schweitzer faz alguns comentários sagazes a respeito das mudanças nos conceitos de História e de relato histórico, ao longo dos séculos. 

Ele está comentando o livro The Fall of Rome, de R. A. Lafferty, escritor erudito e inclassificável que tornou-se famoso no mundo da ficção científica produzindo dezenas de livros esquisitos e memoráveis, que não se pareciam com nada escrito por quem quer que fosse. 

Era um dos “oddball stylists” que comentei nesta coluna (“Os estilistas excêntricos”, 30.11.05). Lafferty escreveu uma história da queda de Roma repleta de diálogos improváveis, aparições de fantasmas, encontros entre personagens cuja existência nenhum historiador registra...

Diz Schweitzer que no período histórico sobre o qual Lafferty está escrevendo, ou seja, o final do século IV d.C., 

“...a História era uma das modalidades do discurso literário, juntamente com o diálogo, o poema épico, a epístola, a sátira, e, lá embaixo da pilha, o romance ou novela, que nesses tempos clássicos tendiam a ser histórias escritas em grego rudimentar. (...) Os antigos pensavam na História como uma espécie de épico em prosa. Era perfeitamente aceitável inserir longas falas atribuídas aos personagens, se isto era o que a pessoa poderia ter dito, ou deveria ter dito. A idéia da antiga historiografia, como eu a entendo hoje, quase dois mil anos depois, era moldar e reconstruir o significado do que ocorrera no Passado. Não era uma simples reportagem, mas algo mais próximo à codificação de um mito”.

Será preguiça mental minha, ou é exatamente isto que os nosso romances históricos de hoje em dia fazem? O romance histórico é considerado um gênero mais realista do que (por exemplo) a ficção científica ou os romances de vampiros, mas somente pelo fato de que nele não aparecem coisas “que não existem”, como alienígenas ou nosferatus. 

Todos esses romances sobre a Idade Média, sobre o Rei Artur, sobre os Faraós egípcios, sobre a Inglaterra vitoriana, são vendidos como literatura realista, e a maioria das pessoas que os lê acredita que inventado, ali, só o elenco principal; todo o resto corresponde escrupulosamente à verdade.

Não é bem assim. Mesmo depois de esforços gigantescos para transformar a História numa ciência, cabe sempre à nossa imaginação (mesmo uma imaginação cientificamente cautelosa) a tarefa de preencher as lacunas, sempre maiores e mais vastas do que as áreas cobertas de informação. Ao preenchê-las, acabamos inconscientemente criando fatos, pessoas, situações que têm a ver como a época em que escrevemos, não com a época descrita. 

Como em certas pinturas renascentistas, em que cenas da crucificação de Cristo mostravam personagens vestindo roupas da época do pintor, e nem este nem o seu público se incomodavam com o anacronismo.







quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

0844) Os estilistas excêntricos (30.11.2005)


(Tom Zé)

Dentro da literatura de ficção científica há um grupo de autores a quem a crítica se refere com um termo que acho muito útil: “the oddball stylists”, “os estilistas excêntricos”. São autores que todo mundo admira mas não sabe onde enquadrar. Usam os temas e as imagens da FC, conhecem as regras do gênero, mas suas obras sabotam sistematicamente estas regras. Esta descrição destaca dois aspectos essenciais: 1) são estilistas (ou seja, têm um informação e um domínio da técnica literária muito acima da média), e 2) são excêntricos, estão sempre fazendo algo imprevisível, fora-de-esquadro. Este último aspecto é importante, porque um autor como Ray Bradbury (autor das Crônicas Marcianas e de Fahrenheit 451) é um estilista, mas não é excêntrico. Após o choque inicial de quando o conhecemos, sua obra vira uma planície calma, sem catabís e sem surpresas.

Estilistas excêntricos na FC são autores como Avram Davidson, R. A. Lafferty, Gene Wolfe, Cordwainer Smith e outros. Mas não é deles que quero falar aqui. Eu gostaria de pedir emprestado este conceito e aplicá-lo à Música Popular Brasileira, onde encontramos mestres de inquestionável talento que em princípio são grandes estilistas, mas não são excêntricos, pelo contrário: na sua obra, a única surpresa é a alta qualidade do que produzem, com uma admirável constância. Mas são autores que não nos pregam sustos. Eu não acho, por exemplo, que a obra de talentos como Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Bosco e vários outros seja uma obra excêntrica. Pelo contrário. Se a MPB tem algum tipo de centro, são eles.

Mas o que dizer de um artista como Tom Zé? Um artista como Hermeto Paschoal? Um artista como Jorge Mautner, ou Jards Macalé? Para mim são estilistas excêntricos, porque mesmo que a gente não goste do que eles fazem (e muita gente que gosta de uns não gosta dos outros), ninguém pode negar duas coisas: todos são tecnicamente competentes, e nunca se pode afirmar com certeza como será o perfil de seu próximo trabalho. São fontes permanentes de surpresa, de susto, de imprevisto. Sua excentricidade pessoal não reside em seu comportamento meio “clown”, em sua mistura proposital do sublime e do grotesco, do erudito e do brega, do refinado e do descartável (embora todos eles tenham tais misturas, em doses variadas). São excêntricos porque temos a impressão de que o centro de seu mundo mental não coincide com o “centro” da música popular. Cada um deles parece ter um projeto próprio que só ocasionalmente coincide com “a linha evolutiva da música popular brasileira” que, ao que parece, era o projeto próprio de artistas como Tom Jobim ou João Gilberto. Os estilistas excêntricos da MPB têm o poder de subir ao palco e na primeira música puxar o tapete onde milhares de pessoas pensavam estar pisando minutos atrás, fazê-las dar uma cambalhota, e cair de volta sobre o tapete – que levanta vôo com todos juntos.