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sexta-feira, 18 de junho de 2021

4715) "Pantagruel e Gargântua" (18.6.2021)



A Editora 34 me enviou há pouco (obrigado Nina, Amanda) a nova edição de um dos clássicos mais divertidos da literatura, Pantagruel e Gargântua (1532-1534), de François Rabelais, com tradução, prefácio e notas (tudo excelente) de Guilherme Gontijo Flores.
 
Como se trata de um livro salpicado de alusões obscuras, fez muito bem o tradutor em botar todas as explicações numa longa nota na abertura de cada capítulo, situando de antemão o festival de nomes, citações, referências indiretas, etc. Lidas as notas, o capítulo flui que é uma beleza. Um exemplo a seguir.
 
Rabelais pertence àquela prateleira não-tão-grande-assim de “clássicos que a gente se diverte lendo”. A mesma prateleira do Dom Quixote de Cervantes, das Mil e Uma Noites orientais, de todos aqueles livros onde há elementos narrativos e pitorescos suficientes para recompensar tanto uma leitura desinformada (de um leitor adolescente, p. ex.) como também de um leitor erudito.
 
O gigante Pantagruel e seu pai Gargântua são personagens fantásticos, bizarros, exagerados, cordelescos, sem a menor pretensão de realismo, e a desproporção dos seus corpos gigantescos (e seus apetites insaciáveis) cria um contraste engraçado com os habitantes de Paris e de outras cidades por onde eles transitam seu tumulto.


(Ilustrações: Gustave Doré)
 
Ao longo da vida, François Rabelais (1483?-1553) foi padre, foi meio cientista, meteu-se com política, lia vários idiomas, e foi recolhendo esse saber de todas as fontes ao seu alcance, mas em vez de transformar isso em alguma “Summa Philosophica” cheia de pompa e erudição ele escreve as aventuras picarescas e extraordinárias de gigantes que comem e bebem desbragadamente, arrotam, peidam, cagam, metem-se em discussões filosóficas, metem-se em brigas, argumentam nos tribunais, aprontam na rua...
 
Os livros de Rabelais me fazem companhia há muitos anos; já tive a tradução de Davi Jardim Júnior para a Ed. Itatiaia, e li alguma outra na saudosa Biblioteca Pública dos Barris (em Salvador). A única que me acompanhou nesses anos de mudanças pelo Brasil afora foi a tradução portuguesa de Aníbal Fernandes (Ed. & Etc, Lisboa, 1975).
 
Já plagiei e imitei desbragadamente o impávido autor francês, especialmente nas peças que escrevi, desde Trupizupe, o Raio da Silibrina até as que fiz com Antonio Nóbrega, outro admirador das estrepolias rabelesianas (Brincante, Segundas Estórias). No meu recente livro Fanfic incluí o conto “A Demanda do Bosque Sombrio” onde o espírito do trêfego beneditino faz um backing-vocal discreto; e muitas das minhas canções e poemas (“Meu Nome é Trupizupe”, “Coco do Nascimento”, “Saara 2018”, etc.) recorrem ao mesmo arsenal de imagens estapafúrdias e neologismos arrevesados.
 
Porque o tema principal de Rabelais é a linguagem, a verbalização copiosa, excessiva, cachoeirística, irreprimível, de palavras polissilábicas recolhidas do direito, da filosofia, da sofística escolástica, da medicina, da botânica, do escambau e da caixa-prego, tudo isso distorcido com uma informalidade hip-hop pululante de severgonhices, solecismos propositais, barbarismos auto-gozosos, tortografias provocantes, latinidades tatibitates e greco-romanismos contaminados de DNA tupiniquim e sertanejo.
 
Este é o grande trunfo da tradução de Guilherme Gontijo Flores, cuja fidelidade ao original não questiono nem me interessa – vou eu agora catar lêndeas em quem traduz francês medieval?!! Ora bom-basta. Dane-se o francês medieval, e que bem repouse em seu sarcófago. A tradução de Rabelais para hoje tem que reproduzir essa vertigem verborrágica, essa diarréia dialética, e isso ele o faz abundantemente.



Com a vantagem adicional de jogar na correnteza turbilhonante as pedrinhas miúdas do português-BR  de hoje em dia, uma gíria aqui-acolá, um palavrãozinho num lugar que caiba, para nos lembrar que a linguagem do autor, na época do autor, cometia esses mesmos sacrilégios sacripantas; era um juridiquês-bebum destinado a sabotar por dentro o juridiquês pomposo dos rábulas espertalhões a soldo de reis semi-analfabetos.
 
São impagáveis os capítulos 11, 12 e 13, em que Pantagruel posa de juiz substituto para resolver uma pendenga indecifrável entre dois querelantes, os senhores Beijacu e Chuparrabo. Ele manda que Beijacu se explique primeiro, por ser o reclamante. E lá vem a explicação (um capítulo inteiro; darei aqui embaixo uma derramadinha como amostra):
 
(...) Durante a noite inteira, de mão ao pote, apenas despachamos bulas a pé e bulas a cavalo para reter os barcos, porque os alfaiates queriam fazer de retalhos uma zarabatana para cobrir o mar oceano, que então estava grávido de uma panelada de couve, segundo opinião dos palhoceiros; porém os médicos diziam que em sua urina não reconhecia um sinal evidente de que uma abetarda comesse machados com mostarda, a não ser o que senhores da corte dessem por bemol ordens à bexiga de nunca mais surrupiar bichos-da-seda, pois os palermas já tinham um bom começo para saçaricarem o estrindor no tom do diapasão, um pé no fogo e a cabeça no meio, como dizia o bom Ragot. (...)
 
Era essa argumentação que embasbacava os jurisconsultos locais. Pantagruel franze a testa e pede ao outro querelante, o senhor Chuparrabo, que explique seus argumentos E lá vem:
 
(...) E supondo que no cruzamento de cães corredores os pequerruchos tenham soado o corno antes de o notário entregar seu relatório por arte cabalística, não se segue (salvo melhor julgamento da corte) que seis arpentes de prado largamente medido forjem três tonéis de fina tinta sem soprar na bacia, considerando que nos funerais do Rei Carlos era possível comprar em pleno mercado o tosão por quatro mirréis – eu juro, lavro e dou fé – de lã. (...)
 
É uma peleja de Zé Limeira contra Eugene Ionesco e, visto isto, nosso bom Pantagruel pigarreia, coça o saco, e profere seu julgamento no mesmo idioma:
 
(...) Uma vez visto, ouvido e sopesado o diferendo entre os senhores de Beijacu e Chuparrabo, a corte declara que, considerando a horripilação do morcego ao declinar do solstício estival para cortejar baboseiras que sofreram mate de peão pela má vexação dos lucífugos presentes no clima trans-Roma de um maleiro encavalgado portando uma balestra nos rins, o querelante teve justa causa em calafetar o galeão que a governanta inflara, pé calçado e outro nu, reembolsando baixo e firme em sua consciência tantas asneiras quanto a pelagem de dezoito vacas, e basta quanto ao bordador. (...)
 
E assim, falando todos o mesmo dialeto surrealista, todos se entendem e os queixosos se abraçam e o povo dá hurras ao saber do grande Pantagruel.
 
Os livros de Rabelais têm sátira social, têm maledicência política à clef, têm heresias religiosas, têm escatologia gráfica e obscenidade explícita, mas acima de tudo têm a embriaguez da linguagem, da verborragia tonitruante de uma represa que explode e alaga metade dos Países Baixos.
 
Suas marcas estão por todo lado. João Ubaldo Ribeiro é um rabelesiano visível; Ariano Suassuna não poderia ter concebido Quaderna sem consultar essa apostila (o capítulo da “Filosofia do Penetral”, no Romance da Pedra do Reino, é Pantagruel puro); no Catatau de Paulo Leminski vemos pegadas nítidas do mestre; onde quer que haja um traço barroco e vociferante, um turpilóquio fescenino, o uso escrachado da pompa vocabular para mangar da pompa vocabular, aí estarão as indigitadas digitais do mestre gramático e anagramático Alcofribas Nasier.
 

 
O livro:
https://editora34.com.br/detalhe.asp?id=1093&busca=
 
 
 






sábado, 26 de julho de 2008

0464) Nem de menos, nem de mais (14.9.2004)


(livro-objeto de Brian Dettmer)

Duvido que venha um dia a existir um conceito único para definir uma grande obra literária. Os grandes livros são grandes por diferentes razões. Noutro artigo (“Os três tipos de romance”, 24.5.2003) falei que existem romances de idéias, romances de linguagem, e romances de história. São qualidades que às vezes se superpõem, mas mesmo quando isto não acontece, seria injusto negar grandeza a um livro só porque ele não nos satisfaz em uma dessas dimensões. Escrevendo sobre a obra de Flaubert, Michael Dirda avalia os prós e os contras de cada obra do escritor, e acaba concluindo que Um Coração Singelo e Madame Bovary são seus trabalhos mais bem realizados. Deste último, ele elogia “a rapidez e a economia narrativas”, e diz uma frase lapidar: “Se você segurar um exemplar de Madame Bovary e sacudir, não cai nada.”

É o ideal clássico da realização artística: uma obra onde tudo tem função, tudo tem propósito, tudo se justifica. Para mim, obras deste tipo correspondem a uma visão religiosa da realidade. Quando você acredita em Deus, está acreditando num princípio fundamental das coisas, que se relaciona com todas elas. Acreditar na existência de Deus é acreditar na intencionalidade do Universo (estamos aqui com uma finalidade qualquer) e em sua integridade – todas as coisas estão diretamente relacionadas com Deus: cada grão de areia, cada folha de relva.

A esta visão do Universo corresponde a visão idealizada de uma literatura que, no dizer de Jorge Luís Borges, é “um objeto artificial, que não sofre nenhuma parte injustificada”. Note-se que Borges ressalta o caráter artificial de obras assim, porque ele (um agnóstico) vê a Realidade como o contrário disto. A afirmação acima é feita no seu prefácio para La invención de Morel, o romance de ficção científica de Adolfo Bioy Casares. Neste texto (de 1940) Borges critica os chamados romances realistas, ou psicológicos, pelo fato de, tal como a vida real, serem informes, desconjuntados, repletos de elementos gratuitos e sem propósito. Borges, que tinha temperamento classicista, pensa que a literatura poderia eventualmente alçar-se acima deste caos, e realizar o ideal dos grandes clássicos: “Clássico é esse livro que uma nação ou um grupo de nações ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos, permitindo interpretações sem fim.”

Que beleza de visão! E que pena. Porque isto, por mais belo que seja, não pode servir como receita universal para a literatura. Basta pensar nas obras que tendem para o Barroco, onde as “partes injustificadas”, as repetições, as frases gratuitas, os episódios desconjuntados, servem ao propósito final da obra. Se sacudirmos um exemplar de Ulisses, do Grande Sertão, do Dom Quixote, páginas e mais páginas irão cair, ou ser levadas pelo vento. O Barroco é excesso, é transbordamento, é um derramamento e uma celebração do intelecto e da energia vital.