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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

3691) A felicidade é chata (23.12.2014)




Há uma frase muito citada de Balzac, acho que do Esplendor e Miséria das Cortesãs (1838-47), em que o autor diz: “A história da felicidade é entediante, de modo que podemos pular os cinco anos seguintes”.  

Tem muita gente que não gostaria de ir pro Céu: para eles, seria um grave problema, porque o Céu é monótono. (Eu mesmo já dei minha contribuição, com um poema intitulado “Quero ir pro Inferno”) 

O Paraíso seria como o desses filmes espíritas: uma espécie de clínica, com gramados verdinhos estilo Windows XP, todo mundo de branco, passeando de mãos dadas, tomando suco de groselha e escutando “Because”.


Pra mim tudo isso decorre de uma indefinível sensação subconsciente, em nossa cultura, de que trabalho é uma coisa ruim, esforço é uma coisa ruim, e que um lugar ideal (=um paraíso) teria que ser um lugar sem esforço, conflito, incerteza, choque de vontades e de opiniões...  

É a mesma regressão infantil que nos fez inventar geringonças mecânicas e eletrônicas para nos poupar de esforços físicos. Acabamos inventando mil-e-uma outras geringonças (esteiras, academias) para fazer esforços desnecessários. Ninguém percebe, claro, porque somos O País dos Cegos.

Mas no próprio momento de imaginar isso alguma coisa no subconsciente do imaginador se rebela, mete os pés.  Sabe que essa idealização é falsa, e que no fundo ele não quer viver nessa pasmaceira.  

Os cinco anos de felicidade imaginados por Balzac (suponho que sejam cinco anos de felicidade de um casal) não foram passados, certamente, deitados na relva, num ano de 365 feriados-com-rivotril. A vida real, mesmo feliz, não é entediante.  

Entediantes são essas fantasias toscas e kitsch de repouso-a-perder-de-vista que a cabeça da gente imagina quando a gente está no fundo do poço do cronograma estourado, do relógio que galopa, das contas que não batem, dos planos que vão por água abaixo, das picuinhas domésticas, do azedume da fadiga, do rancor mal dormido entre os fracassos.

É compreensível que pessoas com décadas de exaustão e dívidas sonhem com jardins tecnicolor à beira de regatos murmurejantes.  É uma fantasia compensatória, mas que não pode se sustentar como definição de felicidade. 

Data vênia, amigos que vivem no sufoco (e eu sei tanto o que é isso!), mas só existe felicidade se for uma “felicidade guerreira”, uma felicidade em que o corpo e a alma (ou só a alma, se se trata do Além) tenham coisas relevantes para cuidar.  

É compreensível, em nossa cultura do trabalho escravo, que os paraísos tenham tinturas de ócio, mas os cinco anos que Balzac pulou devem ter sido animadíssimos, e dariam outro livro tão bom quanto.







domingo, 14 de novembro de 2010

2401) A receita da felicidade (14.11.2010)




O inesquecível Odair José gravou, em tempos passados, uma canção que tinha este refrão docemente existencialista: “Felicidade / não existe; / o que existe na vida / são momentos felizes”.

Antoine Roquentin, o melancólico protagonista de A Náusea, não teria verbalizado melhor a sofrida epifania que o mantém vivo ao final do romance, escutando uma negra americana cantar: “Some of these days / you’ll miss me, honey”.

O que é a felicidade? Uma alegria sem sobressaltos, sem alterações, sem modulações? Uma euforia momentânea cujo disco engancha e ficamos a senti-la forever? Um estado sorridente, álacre, de-bem-com-a-vida, esfuziante de adjetivos, como a dos personagens de propagandas de refrigerantes e de creme dental? Mistério.

Num texto no New York Times (http://tinyurl.com/2eqhzqa), David Sosa propõe, citando um livro de Robert Nozick, a seguinte experiência (não, não é inspirada em Matrix; o livro precede o filme, pois é de 1974).

 Digamos que é construída uma máquina onde você pode se plugar e ter (virtualmente) qualquer sensação ou situação que desejar. Estímulos neuropsicológicos podem lhe dar uma impressão 100% real de estar escrevendo um livro, fazendo sexo, conversando com amigos, fazendo coisas interessantes. Só que você estaria de fato, o tempo inteiro, flutuando num tanque, com eletrodos afixados ao seu cérebro. A pergunta é: Você acha que isso é a felicidade? Você gostaria de viver assim?

Suponho (agora sou eu quem fala) que metade das pessoas diria: Sim, por que não? Melhor viver assim, numa Felicidade Virtual, do que viver pegando trânsito, pagando contas, ralando no dia-a-dia. Beleza; entendo perfeitamente que prefiram essa tranquilidade, essa utopia cibernética, esse paraíso artificial. Mas outra metade diria: “Não, prefiro viver como vivo, e me arriscar a não ser feliz nunca, ou ser apenas de vez em quando, como Odair José”.

Estas pessoas talvez se identifiquem com o que David Sosa examina em seu artigo. Ele diz, em suma, que a felicidade não é individual, é coletiva, ou pelo menos é socialmente interligada. Ser feliz não é apenas sentir-se bem consigo mesmo, é sentir-se bem de uma maneira que dependa das consciências alheias. Não basta ser feliz, é preciso que nossa felicidade seja testemunhada e de certa forma compartilhada pelos outros.

Diz ele:

“Quando nos recusamos a nos plugar nessa máquina, que nos proporciona tais experiências artificiais, exprimimos nossa crença profunda de que o que obtemos de uma máquina não é a coisa mais valiosa que podemos obter; não é o que queremos de um modo mais profundo, não importa o que possamos pensar quando estamos plugados nela. A vida nessa máquina não é a obtenção do que buscamos quando falamos numa vida feliz. Existe uma diferença crucial entre ter um amigo e ter a experiência artificial de ter um amigo. Existe uma importância entre escrever um romance e ter a experiência artificial de escrever um romance”.




terça-feira, 15 de dezembro de 2009

1429) Esnobando a loteria (12.10.2007)




Dizem os céticos que o dinheiro não traz a felicidade. Outros, mais céticos ainda, afirmam que, por uma questão de Justiça Cósmica, a felicidade repele o dinheiro. Seria injusto para com o resto da Humanidade você ser rico e feliz ao mesmo tempo. Vai ter que escolher. 

Há casos em que um sujeito já é feliz, tem tudo que que precisa, mas, como não tem dinheiro, se mete em mil e uma empreitadas onde vislumbra a possibilidade de riqueza. No fim, joga a felicidade no lixo, fica sem uma e sem a outra. Melhor nem tentar, porque são incompatíveis. Não se pode ter as duas ao mesmo tempo.

No mês passado, esta questão filosófica foi recolocada em termos práticos quando um alemão recusou um prêmio de loteria de mais de 7 milhões de reais. O cidadão teve seu bilhete premiado e ao receber a notícia dirigiu-se à administração da Loteria, em Hanover, para dizer que não queria receber o prêmio. 

Seus argumentos são poderosos. Ele tem 70 anos, está aposentado, não tem dificuldades financeiras (é um aposentado europeu, não esqueçam). A mulher já morreu, e ele não tem filhos ou parentes próximos. Em suma: não tem muito o que fazer com tanto dinheiro, e confessa ter comprado o bilhete da aposta por uma mera questão de hábito.

Este episódio permite várias leituras. Na primeira, admiramos o desprendimento, o espírito Zen desse sujeito capaz de dispensar semelhante riqueza. Contemplando a vida do alto de seu Everest etário, o indivíduo descortina paisagens amplas, horizontes metafísicos, e não vai desperdiçar os anos de paz que lhe restam envolvido em querelas com gerentes de Banco, advogados, corretores da Bolsa, herdeiros remotos ou sei lá o que mais.

Outra leitura nos diz que o cidadão é um asno. Tudo bem que ele não queira o dinheiro para si. Mas sem dúvida ele conhece alguém que precise. Poderia aceitar o dinheiro e reparti-lo entre creches, hospitais, bibliotecas. Ou doá-lo a uma orquestra sinfônica local, já que ele é alemão. Ou ao time de futebol de sua preferência. Que diabo, será que esse velho é tão obtuso que não lhe ocorre nenhum destino útil para esse dinheiro todo?

Mas na mesma matéria fico sabendo que isto ocorreu na cidade de Hameln, na região da Baixa Saxônia, cidade que não é outra senão a popularíssima Hamelin, da história do Flautista que livrou a cidade dos ratos e, depois que as autoridades se recusaram a pagar o prêmio combinado, levou consigo todas as crianças e as escondeu numa caverna da montanha próxima. 

De imediato me veio ao écran da mente a imagem de um velho, não de 70, mas de 700 anos, caminhando devagar pelas ruazinhas da cidade, esperando um pagamento que lhe foi prometido mas que nunca chegou. 

Quem sabe a loteria foi um meio que o governo (ou o anônimo Destino) escolheu para liquidar a dívida e resgatar as crianças que há 7 séculos estão à espera, numa caverna da montanha? “Agora não posso mais trazê-las,” diz o velho, “perdi a embocadura da flauta”.





sábado, 12 de dezembro de 2009

1422) O mendigo e a camisa (4.10.2007)




(ilustração: Jan Adriansz van Staveren)

Walter Benjamin (Magia e Técnica, Arte e Política, Brasiliense, pags. 159-160) conta a parábola de indivíduos que conversam numa estalagem, enquanto um velho mendigo, vestindo apenas uma camisa suja, cochila a um canto. 

Os fregueses falam sobre o que pediriam se lhes fosse dado realizar um só desejo. Um diz que queria uma oficina de ferrreiro, outro queria uma casa nova, outro um bom casamento para a filha... Resolvem perguntar ao mendigo o que ele gostaria.

O mendigo responde: “Gostaria de ser um rei poderoso que certa noite tem seu país invadido, seu palácio tomado, seus aposentos saqueados. O rei foge pela floresta, vestindo apenas a camisa com que dormia. É perseguido, mas ilude os perseguidores, e depois de muito tempo consegue se refugiar numa estalagem, sujo, cansado, faminto, mas vivo.” 

Os outros homens ficam sem entender e um deles pergunta: “E o que você ganharia com isso?” Ele diz: “Uma camisa”.

É uma ótima parábola, até porque ficamos nos perguntando se o mendigo não seria de fato o próprio rei, em desgraça e incógnito. Mas ela me recorda um episódio contado por Clarice Lispector. 

Certa noite ela vinha da casa de uma amiga e ficou esperando ônibus na Praça da Bandeira. Era uma noite chuvosa e gelada do inverno carioca, ela estava com um vestido fino, sem dinheiro para um táxi, batendo o queixo de frio, e nada do ônibus aparecer. 

Dizia Clarice que isto a ajudou a dormir pelo resto da vida. Quando se sentia desconfortável na cama, bastava imaginar que estava lá, de novo, na madrugada da Praça da Bandeira, vergastada pelo vento gelado e pela chuva. De repente, pensava: “Não! Não estou lá! Estou aqui, na minha cama quentinha!” E adormecia.

A mecânica disto é parecida com aquela famosa história do bode na cabana: o mestre zen aconselha o lavrador (que se queixa da casa desconfortável) a colocar um bode na sala durante um mês e depois tirá-lo, para ver como a casa fica uma beleza. 

E parecida também com aquela piada do garoto que esperava a mãe no portão com a bola de futebol embaixo do braço e diz: “Mãe, sabe aquele seu vaso japonês bem caro?...” Quando a mãe arregala os olhos e leva as mãos à cabeça, ele prossegue: “Pois eu quebrei aquela vidraça que fica perto dele”.

É um pouco como a obra-prima de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto, ambientada num tempo alternativo em que os EUA perderam a guerra e têm seu território dividido entre a Alemanha nazista e o Japão. Ali, um escritor de FC escreve um romance em que imagina um mundo feliz, o qual, por ironia, é muito semelhante ao nosso. 

Se eu fosse escritor de auto-ajuda escreveria um livro inteiro aconselhando às pessoas: “Caro amigo, se você anda sorumbático e macambúzio, se você acha que a vida não vale a pena, não se preocupe. Seus problemas acabaram! Basta você imaginar-se noutra vida onde é infeliz, mas por algum motivo consegue sonhar com esta vida aqui como um desejo irrealizável, uma felicidade inatingível”.





sexta-feira, 21 de agosto de 2009

1209) No reino da Dinamarca (27.1.2007)



Acabei de ler um artigo publicado no respeitável British Medical Journal. Na verdade, não sei se é tão respeitável assim, mas, com este título, permito-me ceder à mais conciliatória forma de preconceito, que é render homenagem imediata à pompa e à autoridade. Enfim: o BMJ afirma, num artigo assinado por dois cientistas dinamarqueses e um alemão, que os dinamarqueses são o povo mais feliz da Europa. O artigo está em: http://www.bmj.com/cgi/content/full/333/7582/1289. E não é só isto. Esta posição vem sendo ocupada pela Dinamarca desde 1975, nas pesquisas do chamado “Eurobarômetro”, com os habitantes da Holanda, Luxemburgo e Suécia revezando-se no segundo lugar.

Os dados podem ser conferidos também no “Mapa da Felicidade Mundial” divulgado pela Universidade de Leicester, que classifica o grau de bem-estar subjetivo dos países de acordo com um sistema de cores numa escala de seis, que vão de Infeliz (amarelo claro) a Feliz (vermelho escuro). Neste caso, vale a pena notar que os países mais felizes, além dos escandinavos, são os EUA e Canadá, Austrália, Nova Zelândia e alguns outros europeus. A Argentina, na segunda faixa, é mais feliz que o Brasil, que está na terceira.

No artigo do BMJ, os cientistas descartam fatores como genética, cor do cabelo (parece que na Europa se crê, por um consenso difuso, que os louros são mais felizes), alimentação, clima. Certa importância é dada à comida: os três países mais felizes de acordo com o Mapa de Leicester (Dinamarca, Suíça e Áustria) têm algo em comum: uma culinária meramente utilitária e sem imaginação. Anotem e meditem, amigos gastrônomos.

Os dinamarqueses estão entre os povos que consomem mais álcool e tabaco na Europa; têm altos índices de casamentos e de divórcios; têm uma das maiores taxas de fertilidade européias; praticam muito os exercícios, principalmente bicicleta. Será que isto influi ou contribui? Os cientistas também registraram que depois que a seleção dinamarquesa tornou-se campeã da Europa em 1992, derrotando a Alemanha, o gráfico da felicidade nacional deu um pulo para cima e nunca mais desceu.

Um parágrafo no final do estudo, no entanto, nos dá o que pensar. Dizem os profs. Christensen, Herskind e Vaupel:

“Foi sugerido que há uma relação com boas expectativas sobre o futuro, mas se tais expectativas são exageradamente altas podem também se tornar uma fonte de desapontamento e baixa satisfação. Os dados do Eurobarômetro remontam a 1980 e mostram que os dinamarqueses, embora satisfeitos, mantêm suas expectativas para o futuro bastante baixas, abaixo da média. Em contraste, Itália e Grécia, com índice mais baixos do que os deles, têm expectativas altas para o ano que vem. (...) Os dinamarqueses exprimem sua satisfação com a vida com a expressão “lige nu”, que significa “por agora”, e expressa a idéia de que ‘por enquanto estamos felizes, mas talvez não dure muito”. Quando acabar, é o brasileiro que vive para o aqui-e-agora!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

1089) Sou feliz por um triz (12.9.2006)



Pesquisa do Datafolha divulgada recentemente pelo “Jornal Nacional” mostra que 76% dos mais de 7 mil entrevistados se consideram felizes. Outros 22% se acham “mais ou menos felizes”, o que apesar da ressalva me parece de bom tamanho para auto-diagnóstico existencial. Em seu blog, o jornalista Ricardo Noblat pergunta: “Se eles se sentem assim por que embarcarão no discurso da mudança? E da mudança para quê? (...) E depois digam por que um eleitorado que se declara tão feliz vai querer mudar muita coisa”.

Noblat faz este comentário, evidentemente, com um olho na pesquisa e o outro na campanha eleitoral. Eu não sei em que contexto foi feita a pesquisa. Talvez ela fizesse apenas a pergunta, a seco: “Você se considera feliz?” Talvez a pergunta fosse: “Dentro do atual contexto político-eleitoral brasileiro, você se considera feliz?” Talvez houvesse uma série de perguntas sobre eleições e política partidária, e no fim a pergunta sobre felicidade, que inevitavelmente viria contaminada pelas anteriores. Não sei, não vi.

Serei um excêntrico? Se um pesquisador de prancheta em punho toca à minha campainha e me pergunta se eu me considero feliz, nem por um instante me passa pela cabeça que minha felicidade esteja condicionada pelo fato do Partido tal ou tal ou do indivíduo Fulano ou Sicrano estar ocupando a Presidência da República. Minha felicidade é assunto meu, e o Governo está lá longe, fazendo seus discursos. Ele que passe bem e me deixe em paz. E eu acho que a maioria dos brasileiros também pensa assim. Minha felicidade pessoal depende do momento que estou vivendo junto às pessoas que me são caras, à minha família, meus amigos. Depende do meu trabalho: como estou me saindo, se estou fazendo coisas que considero importantes, se além de importantes elas são agradáveis, se estou sendo bem pago. Depende do meu cotidiano: se minha saúde está em ordem, se minha casa tem um espaço adequado e equipamentos satisfatórios. Depende de minha capacidade de estar fazendo planos para o futuro.

Nem todas estas coisas precisam estar 100%. Às vezes basta um problema mais sério (saúde, por exemplo) para empanar o brilho de todo o resto. Mas o conceito de felicidade pessoal do brasileiro não está muito ligado a quem ocupa a Presidência da República. Alguém pode objetar que as condições que enumerei acima dependem, sim, da política: salário, habitação, saúde, transporte... Claro. Mas a maioria delas depende mais do prefeito do que do presidente. E não é nenhum dos dois que vai me dizer se devo ser feliz ou não.

Eu me acho um sujeito cético, desconfiado, calejado pelas desilusões da vida pessoal e da vida pública. Na pesquisa, estaria na turma do “mais ou menos feliz”, mas por mera cautela, para não despertar as Parcas. Quando um brasileiro afirma que é feliz, é por um ato de coragem e de fé, um ato cuja essência é moral e pessoal, e não tem nada a ver com o rodízio nos escalões de cima do Funcionalismo Público.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

0840) Canções de alegria de viver (25.11.2005)





(Matisse: "A Alegria de Viver")

Falei dias atrás que as canções de depressão constituem um gênero da música popular; é óbvio que deve existir, e existe, o seu oposto simétrico, as “Canções de Alegria de Viver”. Canções em que letra e música se apóiam mutuamente para nos transmitir esta adrenalina indispensável à vida humana. 

Como não se sentir reconciliado com o mundo quando escutamos “Alegria Alegria” de Caetano Veloso, mesmo tendo ela sido utilizada como abertura de minissérie da Globo, e tocado até fazer um calo em nossa memória? Não importa: ela registra aqueles momentos mágicos em que um indivíduo sai de rua afora, “nada no bolso ou nas mãos”, embebido da pura e simples alegria de Ser e de Estar.

"Alegria, Alegria" ao vivo, no Festival da Record (1967):
https://www.youtube.com/watch?v=wWhnq5YcBfk


Parte do encanto da música pop se faz de canções aparentemente bobas e superficiais, mas que pela alquimia dos verbos e dos sons conseguem encapsular os momentos ensolarados da vida: “Feelin’ Groovy” de Paul Simon, “Brown-Eyed Girl” de Van Morrison, “Daydream” do Lovin’ Spoonful, “Good Day Sunshine” dos Beatles... 

Simon & Garfunkel, "Feelin'  Groovy":
https://www.youtube.com/watch?v=NvlW4bEjB5A

Van Morrison, "Brown Eyed Girl":
https://www.youtube.com/watch?v=UfmkgQRmmeE

Lovin Spoonful, "Daydream":
https://www.youtube.com/watch?v=M7u5SdjDSQQ

Paul McCartney, "Good day, sunshine":
https://www.youtube.com/watch?v=rFxXoHkIwMk


O que faz o encanto destas músicas? Talvez o timbre claro das guitarras, uma cadência meio lânguida aqui, meio saltitante acolá, comunicando um prazer de quem anda rápido sem pressa; as vozes traçando melodias que espontaneamente temos vontade de cantar junto... 

São meras musiquinhas, nenhuma Obra de Arte do Cânone Ocidental, mas trazem aquele abençoado poder de nos fazer emergir, numa manhã depressiva, das nuvens soturnas do mau-humor e dentro de meio minuto estar assobiando, tamborilando na mesa, achando bom estar vivo.

Há diferentes formas de alegria; há alegrias mais sérias e reflexivas, como a que nos traz a grande canção de Violeta Parra, “Gracias a La Vida”, que me evoca a imagem de alguém num terraço, ao entardecer, vendo o sol se pôr, e dando um balanço nas coisas boas que há para lembrar. 

Ou a beleza da “Manhã de Carnaval” de Luís Bonfá e Antonio Maria, melodia e letra entrelaçadas na criação de um clima de quem acorda e já abre os olhos feliz da vida, inundado de paz e de expectativa pelo dia que começa: “Manhã, tão bonita manhã... Na vida uma nova canção...” 

E, num clima muito semelhante, a irretocável “Estrada do Sol” de Tom Jobim e Dolores Duran: “É de manhã, vem o sol, mas os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar, ainda estão a dançar, ao vento alegre que me traz esta canção...”

Mercedes Sosa, "Gracias a la vida":
https://www.youtube.com/watch?v=WyOJ-A5iv5I

João Gilberto, "Manhã de Carnaval":
https://www.youtube.com/watch?v=JKX2VSMj-zs

Elis Regina & Gal Costa, "Estrada do Sol":
https://www.youtube.com/watch?v=Clxr8rH1FAs



Será este um gênero legítimo da música popular? 

Para os poetas, sim, porque certos momentos que pedem expressão estética se afirmam primeiro como um sentimento-de-vida geral, total, e é irrelevante se irão se transformar numa valsa ou num reggae ou sei lá em quê. 

Quando um letrista se senta à janela para escrever uma letra, em geral está se lixando para ritmos e arranjos. É a luz de um momento que ele está querendo captar, e sorte dele se depois encontrar um músico que, lendo seus versos, encontre uma melodia, uma harmonia e um ritmo que pareçam estar sentindo e dizendo a mesma coisa.





sábado, 17 de janeiro de 2009

0758) Eu era feliz e não sabia (23.8.2005)




Quando eu era pequeno, Ataulfo Alves era um dos compositores mais conhecidos no país, algo como Martinho da Vila hoje em dia. Suas músicas tocavam o tempo todo, todo mundo queria gravá-las. 

Uma das mais conhecidas é a canção nostálgica em que ele relembra sua cidade natal, Miraí (MG), com versos simples e emotivos: “Eu daria tudo que tivesse pra voltar ao tempo de criança... Eu não sei por quê que a gente cresce, se não sai da mente essa lembrança”. 

Ele recorda o ambiente da cidadezinha, as pessoas que sumiram no tempo: “Que saudade da professorinha que me ensinou o b-a-ba... Onde andará Mariazinha? Meu primeiro amor, onde andará?” E termina: “Eu igual a toda meninada, tanta travessura que eu fazia! Jogo de botão sobre a calçada... Eu era feliz e não sabia!”

Este verso final incorporou-se à nossa linguagem cotidiana, virou uma parte do falar brasileiro, e não sei de honra maior para um verso escrito por um indivíduo. Dizemos isto a propósito de tudo, a propósito de qualquer situação passada que na hora não parecia grande coisa mas que, quando a vemos em retrospecto, a gente sente uma falta danada. 

Certa vez, quando participei da criação de motes para o Congresso de Violeiros de Campina Grande, propus o mote: “A gente só é feliz / quando não sabe que é”. Era no tempo em que o Congresso lotava o Ginásio da AABB com milhares de estudantes. Éramos felizes, e não sabíamos.

Ataulfo parece sugerir que existe um certo conflito entre a felicidade e a consciência desta felicidade. Quando estamos totalmente absorvidos por êxtases ou epifanias, não sobra muito tempo para botarmos as mãos nos bolsos e pensarmos, “puxa vida, que momento legal este!” 

Parece sugerir também que esse tipo de felicidade só existe na infância, naquele momento em que já somos grandes o bastante para fruir com intensidade as coisas boas da vida (Mariazinha, o jogo de botão, etc.), mas não sabemos ainda das desilusões e dos sofrimentos que nos aguardam mais adiante.

Basta pegarmos a máquina-do-tempo, no entanto, para percebermos que não é bem assim. Lá está Ataulfinho, de calção, sentado na calçada, jogando botão em cima de uma tábua e vendo Mariazinha pular corda ali perto: a saia subindo e descendo... 

Esta é a imagem que lhe ficará na memória meio século depois, mas ao retornar àquele instante específico ele sente virem à tona uma horda de coisas ruins que já esquecera. A prova de Geografia amanhã, para a qual não estudou nada. A ameaça feita por Zezim da esquina de dar-lhe uns cascudos por causa de uma guerra aérea de corujas. O pai, que vive adoentado, gemendo, recusando-se a tomar remédio e dizendo que “não é nada”. Os dez tostões a mais que pegou do troco da bodega e que a mãe anda procurando em altas vozes por dentro de casa. 

Felicidade? Claro. A felicidade é a memória passada a limpo, expurgada dos “quatrocentos golpes” que nos ferem e nos magoam a cada dia. Só se é feliz hoje muito tempo depois.





sábado, 8 de março de 2008

0120) As águas do tempo (9.8.2003)



Quando as águas do tempo vão passando, vêm trazendo mil ciscos na corrente.

São as pequenas sujeiras desta vida, as palavras amargas que se escutam, os gestos brutos, as incompreensões por desdém ou por insensibilidade, as descortesias dos desconhecidos.

Vêm as sujeiras maiores também, que são as ruindades que nos fazem, as sacanagens planejadas à nossa revelia, o escárnio gratuito de quem não ousaria agir assim na nossa frente, as provocações dos vizinhos, as armações dos antagonistas no trabalho, dos falsos amigos.

Não tem força no mundo que consiga nos livrar dos esgotos da maldade. Tudo é despejado através de nós: vasculho, cisco, gravetos, bagaços de laranja, massa amorfa de plásticos e papéis, restos de comida, tufos de mato, lama do chão.

O ser humano despeja esses resíduos metafóricos à sua volta, voluntariamente ou não, pelo simples fato de existir, de entrar em atrito com os outros, de ter que atravessar todos os dias esta selva sem lei onde no primeiro contato com alguém nunca dá para se saber direito quem é fera ou quem está ferido.

Essa enxurrada passa através de nossa alma como se passasse por uma peneira. Nossa alma é uma peneira com aquela treliça metálica cheia de quadradinhos, através da qual a enxurrada escoa, e onde os detritos maiores são retidos. Aqui vai ficando um cisco, ali fica um caco de vidro, mais adiante um fósforo, uma tampa de garrafa, uns fios soltos de piaçava, uma meia furada, lata de cerveja amassada, embalagem vazia...

A água passa e essas coisas maiores vão ficando presas na treliça, vão se instalando ali, e a lama que continua a passar acaba servindo como uma espécie de argamassa que recobre esses resíduos, fixando-os, deixando-os presos ali com uma firmeza de quem se prepara para esperar que até as pirâmides se desmanchem em pó.

E o quê que uma pessoa faz, quando se vê assim, com a alma feito um filtro de sujeiras, todo contaminado pela poluição da vida? Bem, os outros eu não sei. Mas quando começa a doer, quando começa a incomodar muito (quando meu time perde, por exemplo), eu costumo deitar assim de noite e deixar que o silêncio e a escuridão passem através de mim, como se fosse uma água lenta mas forte, uma água que tudo arrasta.

E aí eu abro (como? não sei, só sei que é assim) os espaços da treliça, que em vez de estreitinhos como papel milimetrado vão se alargando, ficam como grades de palavras-cruzadas, depois ficam como tabuleiro de xadrez... E quanto mais eles se alargam mais água vai passando, e no passar elas desalojam a sujeira acumulada, que vai se desprendendo, se esfarelando, vai sendo lavada, vai sendo levada embora.

Eu fecho os olhos e deixo essas águas rolarem. São as mesmas águas do tempo que trouxeram aquilo para dentro de mim, mas como não param de passar, basta alargar os quadrados da peneira, e tudo que veio vai embora, vai embora, vai embora, e me deixa enxaguado pelas águas sem fim da noite e do silêncio.




(Este texto foi publicado no livro A Arte de Olhar Diferente, Editora Hedra, São Paulo, 2012)





0115) A melhor coisa da vida (3.8.2003)




(ilustração: Hundertwasser)

A melhor coisa da vida é o cheiro de café sendo passado. É melhor do que beber café. Diz a Ciência que nosso paladar é um sentido muito limitado, ao passo que o olfato é riquíssimo, cheio de nuances. Quando estamos resfriados, nariz entupido, incapazes de sentir o cheiro das coisas, qualquer comida fica sem graça. 

Talvez por isso o nosso primeiro contato olfativo com café novo seja o mais excitante, o mais inebriante. No momento em que a água borbulha no pó negro e o arranca do seu sono milenar, aquela fumaça que se eleva é (aos meus olhos, pelo menos) um gênio-da-lâmpada que está sendo libertado, com a única finalidade de penetrar pelas nossas narinas e conceder-nos o desejo que nem precisou ser expresso em palavras.

Depois disso, até mesmo a primeira xícara de café é um anti-clímax, se bem que estou sendo injusto com o combustível que manteve meu cérebro funcionando durante todas estas décadas. O prazer causado pelo gosto do café, mesmo o gosto do melhor “espresso”, está sempre um priquitilhonésimo abaixo do prazer provocado pelo cheiro. 

Isso me lembra uma frase de um escritor: “O momento mais excitante do sexo é quando a mulher está tirando a roupa, na penumbra. Tudo que se segue é maravilhoso, claro, mas a verdadeira epifania erótica é aquele momento inicial.” De fato, aquele instante, quando a gente sabe o que vai acontecer em seguida, mas ainda não sabe exatamente como e de que jeito vai acontecer, é um instante de encantamento que, para sujeitos de índole mais romântica, chega a dar um nó na garganta e um marejo nas pálpebras.

São momentos que lembram o zum-zum-zum num teatro antes da abertura das cortinas (eita como eu sou antiquado) para o início de uma peça ou de um show. Quando a gente sabe que o que vai ver é bom, existe uma adrenalina que já se vai gastando por conta, sabendo que não vai faltar. Está todo mundo eletrizado, muitas vezes até pelo fato de, quando é uma noite especial, como noite de estréia, ser também uma noite de reencontros, de pessoas que pouco se vêem mas que convergiram para ali naquela noite. 

Jogo de futebol também tem isso; em geral era aquele intervalozinho entre o fim da preliminar e a entrada dos times em campo.

São momentos elétricos da vida, talvez melhores ainda do que os momentos após um grande show ou um grande jogo, porque o momento posterior, mesmo que se siga a um show-pra-ficar-na-História ou a uma vitória longamente sonhada, tem sempre aquele gosto de “passou, acabou, agora nunca mais.” 

Antes, tudo é possível, tudo é infinito. Depois, no entanto, mesmo a maior vitória pode ser maculada por um espírito-de-porco (“sim, tudo bem, fomos Penta, mas faltou um gol de Rivaldo...”). 

A melhor coisa da vida é o começo de um sonho, porque naquele instante o sonho é a soma de todas as suas próprias possibilidades, é inesgotável, é um fatorial de si mesmo. O problema com os sonhos é que todo sonho é um trajeto rumo à Realidade.