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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

4632) Primeiras Estórias: "A terceira margem do rio" (19.10.2020)

 

 
Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta soviético Yuri Gagárin tornou-se o primeiro homem a viajar no espaço, no famoso voo orbital da nave Vostok 1.
 
Em 5 de maio de 1961, Alan Shepard tornou-se o primeiro norte-americano a igualar esse feito, na cápsula Freedom 7; seu voo foi suborbital, mas foi o primeiro em que o piloto foi capaz de controlar manualmente o próprio voo.
 
Entre estas duas datas, em 15 de abril de 1961, João Guimarães Rosa publicou em O Globo o conto “A Terceira Margem do Rio”, a ser incluído, depois, no livro Primeiras Estórias (1962).
 
Este conto é de vez em quando citado como exemplo da temática da ficção científica na obra de Rosa. No derradeiro prefácio de Tutaméia (1967), “Sobre a Escova e a Dúvida”, ele comenta a origem de várias “idéias” para seus contos e diz:
 
“A Terceira Margem do Rio” (Primeiras Estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. (p. 157)
 
Fausto Cunha, uma das figuras emblemáticas da ficção científica brasileira, conta em seu prefácio “A Ficção Científica no Brasil: um Planeta quase Desabitado”, no livro No Mundo da Ficção Científica de L. David Allen (São Paulo: Summus, 1977 ?):
 
Guimarães Rosa considerava “A Terceira Margem do Rio” um conto na linha do fantástico e certa vez, em conversa comigo, estranhou que eu, um cultor da science fiction, não tivesse reagido com mais entusiasmo a essa história, que conheci de primeira mão (Rosa às vezes me telefonava para eu ir ouvir a leitura de seus contos no Itamarati, ali na Rua Larga). Chegou a insinuar que a escrevera pensando em mim como leitor, o que evidentemente não tomei ao pé da letra. (pág. 10)
 
Existem mil leituras e interpretações do conto de Rosa, todas legítimas, dado o grau de nitidez factual da história, e de abstração subjetiva. Sabemos tudo que aconteceu, mas, por quê? Para quê?
 
Uma interpretação curiosa que li há pouco tempo é a de Astrid Masetti Lobo Costa, em Veredas de Rosa II (Belo Horizonte: PUC-Minas, 2003), onde ela compara o texto de Rosa ao Bartleby (1853) de Herman Melville, ambos sobre “o inexplicável e inquietante afastamento de um personagem do convívio com outras pessoas”.
 
Na mesma coletânea de ensaios da PUC-Minas, Rosa Maria Graciotto Silva cita uma carta de Guimarães Rosa para seu tradutor francês J. J. Villard, onde ele diz do livro Primeiras Estórias:
 
Só aparente e enganosamente é que ele se finge de simples, de livrinho singelo. Muito mais que uma coleção de estórias rústicas, o Primeiras Estórias é, ou pretende ser, um manual de metafísica, e uma série de poemas modernos. Quase cada palavra, nele, assume pluralidade de direções e sentidos, tem uma dinâmica espiritual, filosófica, disfarçada. Tem de ser tomado de um ângulo poético, anti-racionalista e anti-realista.
 
A carta é transcrita de João Guimarães Rosa: Homem Plural, Escritor Singular (Rio: Ágora da Ilha, 2001), de Edna Nascimento e Lenira Covvizzi.
 
O conto pode ter se inspirado parcialmente nessa grande aventura da humanidade que Rosa estava presenciando. Um clima de excitação internacional que não parava de ser alimentado desde que os soviéticos puseram o Sputnik I em órbita em 1957, e que agora se ampliava com a possibilidade de mandar um ser humano na viagem mais arriscada de todas.
 
Temos em nossa mente a imagem das espaçonaves como coisas gigantescas do tamanho de um transatlântico. Nos EUA vi num museu uma réplica da cápsula em que Alan Shepard fez o seu voo sub-orbital. É uma coisa do tamanho de um fusca. Posso imaginar o que era estar sanduichado lá dentro (o cara mal tem espaço para esticar as pernas), ser jogado solto no espaço a 180 km de altura e voando feito uma pedra-de-balieira quase 500 km de extensão total antes de cair de volta no Oceano Atlântico.

 
O fato de que era um piloto experimentado torna a situação ainda mais arrepiante, porque ele sabia de todos os riscos envolvidos – eu, por exemplo, não sei.
 
Guimarães Rosa criou um conto em que um indivíduo constrói uma canoa especial para si mesmo e parte na direção do rio e nunca mais volta. Por quê? Para quê? Ele desaparece para sempre nesse rio “largo, de não se poder ver a forma da outra beira”. Não conheço melhor descrição do espaço sideral.
 
Ele não perde contato com a terra, no entanto. O filho (que narra a estória) é vigilante e fica fiel ao sonho do pai, mesmo quando todo mundo critica o velho, diz que ficou doido, etc. O filho mantém a retaguarda e a certa altura passa a alimentar o pai, levar-lhe mantimentos, aceitando que ele permaneça nesse espaço, mas alguém da terra precisa lhe enviar abastecimento.
 
O pai não volta, e este é mais um dos contos de Guimarães Rosa em que se começa com uma pergunta mas não se termina com uma resposta, se propõe um mistério e deixa-se o mistério pairando no ar após o fim do conto. O conto abre uma porta que não volta a se fechar.
 
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.

 
("2001, uma Odisséia no Espaço", 1968)

É como aquelas viagens das naves-geração da ficção científica, uma viagem sem volta, numa espaçonave-cidade onde as pessoas morrem e nascem durante séculos, sabendo que não voltarão para a Terra; e quando eventualmente alcançam o seu destino, quem chega lá são os bisnetos ou tetranetos dos tripulantes que partiram.



 
O pai parte, o filho fica na margem, tocaiando, pastorando. O vínculo entre os dois me lembrou O Tempo das Estrelas (“Time for the Stars”, 1956) de Robert Heinlein. Uma nave sai para colonizar o espaço, e o contato com a Terra é feito através de dois irmãos gêmeos telepatas (o livro propõe que a telepatia é mais rápida que a luz). Devido à dilatação do tempo nas viagens espaciais, o gêmeo que está no espaço envelhece muito lentamente e o que fica na Terra envelhece, morre, e é com seus descendentes que o outro passa a se comunicar.
 
Não é exatamente o caso do conto de Rosa, em que a canoa do pai acaba se parecendo mais com uma Estação Orbital, que nem vai embora para os confins do Universo nem desce para a Terra – fica só ali, boiando.
 
Outro aspecto importante é o título do conto. A “terceira margem do rio” é uma idéia que sugere a existência de uma dimensão a mais. Um rio é como uma linha reta traçada num papel branco, dividindo aquele espaço em margem de lá e margem de cá. Muitos analistas do conto chamam a atenção para esse curioso adjetivo: “terceira”. Lembram que um rio não tem primeira e segunda margens; não há ordem entre elas; são duas, apenas. Podemos pensar apenas que a “primeira” é aquela em que estamos, a que é subjetivamente mais importante, ponto de referência.
 
O que não deixa de lembrar a velha piada do bêbado, mais uma vez registrada por Rosa noutro prefácio de Tutaméia, “Nós, os Temulentos”:
 
E atravessou a rua, zupicando, foi indagar de alguém: – Faz favor, onde é que é o outro lado?  – Lá... – apontou o sujeito. – Ora! Lá eu perguntei, e me disseram que era cá...
 
Se o rio divide a terra em duas margens, a terceira margem fica acima da Terra, fica no espaço. É uma dimensão a mais que o homem conquista, quando entra nesse veículozinho apertado, individual, e se deixa disparar rumo ao desconhecido.



("The Time Machine", de George Pal, 1960)
 
E pelas avenidas e becos fractais da ficção científica chegamos ao Viajante do Tempo de H. G. Wells e The Time Machine (1895), em cujo clássico capítulo de abertura ele lembra a existência de três dimensões e propõe-se a viajar numa quarta. Também uma jornada numa máquina individual, minúscula, onde o viajante se impulsiona rumo ao desconhecido, numa viagem talvez sem volta.

 
No índice sugerido ao ilustrador Luís Jardim para a edição original de Primeiras Estórias, aparece um homem numa canoa, uma flecha (=indicação do voo espacial), o símbolo do infinito (frequente nas ilustrações de Rosa) e o símbolo da balança, signo astrológico. Este símbolo, porém, consta de duas linhas horizontais superpostas sendo que a de cima se arredonda para o alto.
 
É como se tivéssemos a indicação de um mundo onde tudo é bidimensional, tudo é horizontal, tudo é plano como na “Planolândia”, a Flatland do clássico ensaio de Edwin Abbott, de 1884, sobre as dimensões do espaço – e esse arredondamento para o alto sugerisse a existência de uma terceira dimensão, uma terceira margem do rio.



 
 
 
 
 
 




sábado, 20 de julho de 2019

4486) A Lua foi conquistada afinal (20.7.2019)





A data de 20 de julho marca este ano o cinquentenário da descida do homem na Lua. Neil Armstrong e Buzz Aldrin foram os dois primeiros seres humanos a caminhar naquela poeira de milhões de anos “que cheirava a pólvora queimada”, disseram eles, após muitas tentativas (ainda na espaçonave) de limpar o finíssimo pó cinzento aderido aos seus trajes espaciais.

Eu estava perto de completar 19 anos naquele dia histórico, e por essas ironias do destino não assisti o pouso pela TV. Estava tocando com minha banda de rock no Recife naquele dia.


Conto essa história neste meu artigo para a revista “Kurumata”:



Já leitor inveterado de ficção científica, eu acho que via naquilo tudo uma dimensão que muita gente ao meu redor não via. Para muitos, era apenas uma façanha como descobrir a América ou chegar ao Polo Norte; uma aventura arriscada, movida a tecnologia e uma certa coragem suicida.

E uma aventura movida a política, porque era ainda a época da Guerra Fria, da corrida tecno-militar entre os EUA e a URSS. Seria (se tudo desse certo) uma vitória esmagadora dos norte-americanos, e todos torcíamos por eles.

Até eu – porque embora estivéssemos vivendo um período brutal da ditadura militar, com o AI-5 recentemente imposto à população, nem eu nem meus amigos tínhamos a menor simpatia para com aquela União Soviética igualmente ditatorial, burocrática, truculenta com seus cineastas e escritores.

Melhor torcer pelos norte-americanos, que pelo menos tinham um pouco mais em comum conosco, pensava todo mundo ao meu redor.

Ou (pensava eu) melhor considerar aquilo uma vitória não de um país, mas de toda a Humanidade. Era um planeta que pela primeira vez tocava fisicamente em outro; não era um país. Nós, brasileiros, estávamos pousando ali também.

A transmissão ao vivo, em tempo real, coisa nova naquela época, criava um laço supra-nacional entre todos os bilhões de pessoas que acompanhavam a aventura. A televisão nos unia num momento que, descontadas as oscilações de fuso horário e os inevitáveis delays de transmissão, podia ser considerado um “Agora” universal. Além fronteiras.

E aquele fato transcendental acabaria servindo também como argamassa de destinos individuais, dando à descida na Lua aquele status de fato unificador, que nos leva a perguntar a alguém: “Onde estava você quando aquilo aconteceu?”.

Durante alguns anos tomei notas para um conto que se intitularia justamente “Onde Estava Você?”, e que seria uma reflexão sobre esse eixo de simultaneidade entre vidas individuais, produzido por um fato de amplitude planetária.

Pensei em três casais de gerações sucessivas, numa mesma família. Em 1945, o avô e a avó do narrador escutam a notícia da explosão da Bomba de Hiroshima. Em 1969, o pai e a mãe dele assistem na TV a descida do homem na Lua. E em 2006 ele conta onde está quando uma raça alienígena faz seu primeiro contato explícito com o nosso planeta.


O conto ficou se chamando “Príncipe das Sombras”, está no meu livro A Espinha Dorsal da Memória (1989), e diz a certa altura:

...um dia ele perguntou a ela onde estava quando a Bomba caiu sobre o Japão. Ela respondeu que tinha sabido da notícia através do rádio; tomava banho de chuveiro e o rádio estava ligado na sala, ela ouviu a voz urgente do locutor e captou alguma frase, não percebeu todos os alcances do fato mas sentiu que tinha a ver com o fim da guerra, saiu à sala gotejante, envolta na toalha, mas o rádio já retornava à música e a mãe vinha em defesa do tapete. (...) Quanto a ele, que tinha vinte e quatro anos naquele agosto, estava num restaurante com alguns amigos, quando outro amigo entrou a passos largos, puxou uma cadeira e largou na mesa a notícia, o peito ofegante, os olhos brilhando, e não porque estivesse a pensar no efeito daquilo sobre o moral nipônico, mas porque era possível, era real.


(...) Em 20 de julho de 1969 uma moça de cabelos louros ligou a televisão para ver o que estava passando (dividia um apartamento com duas amigas, ambas tinham saído, era domingo) e viu uma sucessão de imagens que não entendeu bem, entendeu a voz que as acompanhava e era a de Gilberto Gil, que àquela época era seu cantor preferido; a voz entoava versos que ela não conhecia: “Momento histórico... Simples resultado do desenvolvimento da ciência viva... Afirmação do homem, normal, gradativa, sobre o universo natural – sei lá que mais...”  A canção a levou à poltrona, da qual não mais se levantou durante as horas seguintes, até terminar a transmissão da primeira descida do homem na Lua. A moça ainda não era minha mãe; ainda se passariam vários anos até que um rapaz de cabelos escuros e boca maliciosa lhe perguntasse: “onde estava você, quando, etc.?” Após a resposta, ele disse que naquele dia estava também diante da televisão, a sala cheia de gente, a cabeça cheia de fumo, o rosto lavado em lágrimas, vingativamente satisfeito, como se aquilo fosse um triunfo pessoal.

A ficção científica nunca me ensinou a odiar raças alienígenas, mas me ensinou a pensar na humanidade como uma coisa só. Retalhada por distâncias geográficas, históricas e culturais, desunida por competições econômicas e políticas; mas uma coisa só. Quem pisou na Lua naquela tarde de domingo foram os aborígenes australianos, os camponeses do México, os pastores do Cáucaso, os tutsis e hutus de Ruanda, os roqueiros da Escandinávia, os pirangueiros-de-porta-de-bodega do bairro do São José, em Campina Grande, que certamente estavam vendo tudo e fazendo piada.

Gilles Deleuze tem uma definição de Esquerda x Direita que para mim vai muito mais além dessa distinção meramente política. Diz ele que quem é de esquerda se preocupa primeiro com a humanidade, depois com seu próprio país, e só depois com sua cidade e as pessoas que o cercam. E quem é de direita pensa acima de tudo em si mesmo e nos seus, só depois cuida dos interesses do país, e provavelmente não está nem aí para a humanidade. (Estou parafraseando, claro.)

Eu tiraria os termos “esquerda” e “direita” da discussão e diria que essa oposição talvez seja a mais importante de todas no planeta Terra de hoje, quando é o próprio planeta que está ameaçado de entrar em colapso, e com esse colapso acabar com as guerras dos países, a farra das "famílias" e a própria existência da civilização.

Se esta não for a questão mais importante do mundo hoje, neste 20 de julho de 2019, qual será?















terça-feira, 31 de julho de 2018

4372) Eu vou pra lua (31.7.2018)




Todo o alvoroço em torno da Lua Cor de Sangue de dias atrás rendeu belas fotos, infográficos, animações, imagens sequenciais, gifs e o escambau, um ou outro texto calhou de lembrar as chegadas do homem à Lua no cinema. Eu fiquei me lembrando que também a Música Popular Brasileira deu umas triscadas nesse tema.

No meu tempo de infância o galã Francisco Carlos estrelava filmes marcantes como Colégio de Brotos (Carlos Manga, 1956), tinha uma bela voz, e lhe coube em 1962 cantar essa marchinha, que se outra virtude não possui tem a de estar colhendo no ar o melhor mote do momento.



A Lua e a Colombina

Mas eu vou pra Lua, se Deus quiser,
mas se puder, levar mulher. (2x)

Colombo foi ao Novo Mundo
e o Velho Mundo se espantou;
Gagárin foi ao céu profundo,
voou, voou, voou...
Eu também quero ir à Lua
pra ver a Terra toda azul...
Quero ser o Colombo dos espaços
levando Colombina nos meus braços...


É curioso que já numa marchinha do Carnaval carioca circule essa comparação da chegada à Lua com a Descoberta da América. A homenagem carioca é ao russo Gagárin, quando este tornou-se o primeiro homem a sobreviver publicamente na órbita da Terra.

Gagárin não foi à Lua; coube a três norte-americanos chegarem lá, sete anos depois.

Antes de todos, para mim, foi Ary Lobo, esta grande voz esquecida do nosso cancioneiro. Muitos o conhecem como o paraense que também gravou o clássico “Súplica Cearense” de Gordurinha. Gravou sambas memoráveis, cocos, baiões. Pertenceu à geração seguinte à de Jackson do Pandeiro.



Tinha um olho vivo, esperto, de sambista pegando passarinho no ar, olho que está em “Eu Vou Pra Lua” (1960), canção de Luiz de França, que ele celebrizou:

Eu vou pra Lua, eu vou morar lá...
Vou no meu Sputnik, do campo do Jiquiá.

Os versos desta música são daquele tipo renovável a cada geração política que se sucede no país; como tantos sambas de breque, como tantas emboladas satíricas, da crônica malandra dos costumes. O samba é imortal porque os personagens nunca saem de cena.

Essa letra é uma Utopia autocontraditória, cheia de personalismos – como convém ao gênero. A Utopia é um gênero literário onde se ilustra a tese de que é possível resolver os problemas do mundo sem gerar nenhum problema novo.

Nem vou falar no machismo sobre os dez anos de cadeia para a mulher; mas há um certo calafrio numa utopia que diz que “não tem juventude transviada” (aí creio que inclui de James Dean a Raul Seixas) e que “morre na rua quem faz anarquia” – como quem define o que é anarquia é o mesmo que está com a arma na mão, morre-se então por qualquer coisa.

Uma utopia totalitária, portanto. O que talvez seja até um pleonasmo.

Em todo caso, a canção é ótima, é uma canção que marcou toda uma geração de letristas e parceiros; aqui está Tadeu Mathias, no show dos “30 Anos do Baque Solto”, de Lenine e Lula Queiroga.


O sucesso dessa gravação deve ter sido grande, porque logo depois (era a época dos discos em 78 rotações, lançavam-se singles de acordo com o sopro do vento), Ary Lobo desembarcou no mercado com “Quando Eu Cheguei na Lua” (1961), uma espécie de “resposta” à primeira canção.



Quando eu cheguei na Lua, foi grande a recepção...
Fui entrevistado, falei na televisão.


O sujeito saiu no Sputnik e chegando lá na Lua se deparou com a sua Utopia de brasileiro safo. Só não imaginava é que ao chegar no Paraíso iam lhe pedir contas do Brasil que deixou para trás. E a segunda canção ainda critica a Terra, mas inclui nessa crítica o Narrador, brasileiro “ixperto” que é desmascarado por esses selenitas invisíveis.

A canção volta a bater nas teclas da burocracia e corrupção, da fome e carestia, da moralidade feminina. Cada uma das três estrofes tem sua correspondente na canção original.

O projeto espacial russo produzia imagens mais vívidas do que o norte-americano. A cadela Laika, que morreu para nos levar aos céus. O cosmonauta anunciando que a Terra é azul. A primeira mulher. Todo mês tinha uma grande novidade nas manchetes. Alguém poderia se dar o trabalho de peneirar todas as canções desse período que usaram esse mote; “Lunik 9” de Gilberto Gil é talvez a melhor delas.









sexta-feira, 17 de julho de 2015

3869) Viagens espaciais (18.7.2015)




Jorge Luís Borges ironizava a expressão “viagens espaciais”, dizendo que toda viagem, mesmo para o subúrbio, é uma viagem espacial, pois acontece no espaço. Era o mesmo (dizia ele) que dizer “substâncias químicas”. Nossas viagens espaciais dependem, em grandíssima parte, não apenas dos veículos e dos combustíveis de que dispomos, como também do modo como entendemos o espaço, como avaliamos o espaço que se estende à nossa volta.



Em Orlando, na Flórida, foi divulgada a foto aérea de duas residências que estão em espaços contíguos e ao mesmo tempo estão a cerca de dez quilômetros de distância. As casas estão fundo-a-fundo, viradas para ruas diferentes. Uma pessoa de uma delas pode ir para seu quintal ou pátio traseiro e passar para o quintal da outra casa. Mas se ela quiser ir visitar esses vizinhos de carro vai ter que sair pela rua da frente, e, seguindo a mão e obedecendo aos cruzamentos, terá que dar uma volta de dez quilômetros, a menor distância possível a ser percorrida de carro.



O espaço é um só, do ponto de vista físico, mas os nossos deslocamentos não estão sujeitos apenas ao lado físico, eles têm que passar pelo filtro de como organizamos nossas maneiras de percorrer esse espaço. Razões de urbanismo, engenharia de trânsito, etc., fazem com que os carros precisem se deslocar em canais de espaço muito específicos. Além dos obstáculos físicos, como os prédios, ele encontra obstáculos conceituais, como uma rua em contra-mão ou um gramado.



O exemplo dessas casas em Orlando é uma possível metáfora do que a ciência e a FC chamam de “buracos de minhoca” ou “wormholes”.  São atalhos no espaço onde é possível passar através de pontos específicos, evitando a volta de dez quilômetros e chegando direto à casa vizinha. Podemos também pegar uma folha de papel, fazemos duas marcas, distantes uma da outra, e depois dobramos o papel, colocando as duas marcas em contato. Com isso, encurtamos a distância ao amassar o papel, mas para isso precisamos de uma dimensão extra. (Supõe-se que a folha é uma superfície sem espessura, apenas bidimensional).


Para efeito de criação de histórias, pode-se lançar a hipótese de que um “wormhole” só pode ser acessado por “pedestres”, não por “carros”. Ou seja, fazer passar por ele a massa de uma espaçonave exigiria uma quantidade inconcebível de energia, mas uma pessoa vestida de traje espacial ou num “esquife espacial” exigiria uma minúscula fração disso. Bastaria ter uma estação espacial construída nas vizinhanças e ficar mandando os viajantes quando necessário.  Os deslocamentos de espaçonaves pela galáxia são comparáveis à volta de 10 km de quem viaja de carro.



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

3295) Marte sem volta 2 (19.9.2013)






Alguns milhares de pessoas já se inscreveram no projeto que pretende mandar, daqui a mais uns anos, uma equipe de astronautas para Marte. Lá, eles terão como manter-se vivos, mas sabendo que jamais poderão voltar à Terra. Uma espécie de kamikazes em câmara lenta, viajando milhões de quilômetros e sabendo o tempo inteiro que a humanidade capaz de mandá-los para aquele abismo se recusaria, alegando razões de orçamento, a trazê-los de volta.

Por que vão? Vão pela aventura, em muitos casos, e eu imagino que esses caras que gostam de participar do Camel Trophy ou do Rally Paris-Dakar iria para Marte sem nem bater a pestana, pelo perigo da coisa, pela incerteza da coisa, e pela beleza da coisa. Volto à minha habitual comparação entre astronautas e navegantes: quem embarcou na viagem de Fernão de Magalhães tinha muita esperança de voltar? Alguns voltaram, é verdade, mas é diferente partir numa aventura da qual, por definição, não se volta. 

Isto não deveria nos parecer tão irremediável (ir para Marte e nunca mais poder voltar), porque muitas vezes vamos na esquina comprar o jornal e o enfarte nos talha a vida em diagonal através do peito. Nossos aventureiros marcianos vão morrer lá? Nós vamos morrer aqui, e, como dizia aquele personagem dum filme de guerra, ao recruta que lhe perguntara a diferença entre uma granada e um obus: “Se cair em cima de você, não faz diferença nenhuma.”  Pode-se imaginar que eles venham a sofrer algum acidente e morram uma morte terrível lá. Estariam 100% seguros de não morrer uma morte terrível, estando aqui?

É a situação Blade Runner. Os andróides têm um tempo de vida limitado? Nós também. Nossos astronautas estão  uma viagem sem volta? Nós também. Eu já sonhei com a possibilidade de existência de um túnel linear de portais, em forma de estações sucessivas, em sucessivos planetas capazes de abrigar os humanos da Terra. Hoje, pode ser que Marte se torne o primeiro degrau de uma expansão humana pelo sistema solar. A FC já sonhou tanto com isso que é quase moralmente imperioso testar para ver se dá certo.

Na minha opinião, o senso de verossimilhança da conquista do espaço pelo homem vem se diluindo ou esboroando a cada década que se passa. Não parece provável a “galáxia 100% humana” que Asimov imaginou. Duvido que conseguíssemos colonizar populacionalmente alguma coisa fora do nosso Sistema Solar. Mas o projeto Marte não está no diapasão das tecno-fantasias de Arthur C. Clarke, e sim no dos programas de aventuras e endurância como “Survivor”, “No Limite”, etc. É o teste supremo de coragem, a partida para a batalha de quem tem certeza absoluta de que não voltará vivo.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

3043) F de Foguete (29.11.2012)



(Elon Musk)


A espaçonave tem sido um símbolo da ficção científica desde o seu começo. O primeiro livro sobre a ida de um artefato mecânico à Lua foi Da Terra à Lua de Julio Verne (1865), mas não se tratava de um foguete, e sim de uma bala de canhão. Balões e veículos de formatos improváveis (e meios de propulsão mais improváveis ainda) foram numerosos no século 19, pela imaginação de H. G. Wells, Garrett P. Serviss e outros. A Encyclopedia of Science Fiction de John Clute menciona como duas das mais convincentes espaçonaves do início da pulp fiction as que aparecem em The Shot into Infinity”de Otto Willi Gail (1925) e The Voyage of the Asteroid de Laurence Manning (1932). Cito estas datas porque aqui no Brasil já tínhamos em 1923 pelo menos duas obras: A Liga dos Planetas de Albino Coutinho, com seu “aeroplano”, além do cordel História do Homem que Subiu Em Aeroplano até a Lua atribuído a João Martins de Athayde, mas cujo verdadeiro autor talvez seja Leandro Gomes de Barros.  Espaçonaves cientificamente canhestras, mas em todo caso são provas de que a FC no Brasil surgiu par-a-par com a dos EUA e Europa.

Elon Musk é um jovem (nasceu em 1971) empresário dos EUA que está tentando reaquecer sozinho a corrida espacial. Segundo ele, a astronáutica dos foguetes está mais do que defasada, tanto no aspecto técnico quanto no econômico. Parece delírio? Bem, ele é o criador do PayPal, uma das coisas que deram mais certo até hoje no mundo da web. Diz Musk (http://bit.ly/Rc9t45) que a tecnologia aeroespacial não experimentou melhorias materiais desde os anos 1960, e na verdade pode até ter regredido. Para ele, “as empresas aeroespaciais têm uma incrível aversão ao risco”, e seu excesso de cuidado chega até o ponto em que, num engraçado paradoxo, “um componente que nunca foi ao espaço não pode ir ao espaço”.

Além disso, diz ele, a febre de terceirização faz essas empresas delegarem tarefas a subcontratantes que por sua vez chamam outros, a um ponto em que “é preciso cruzar quatro ou cinco camadas de poder até chegar a alguém que esteja de fato fazendo alguma coisa”. Por isso, diz ele, o voo espacial é tão caro. Isso, e os custos de produção dos foguetes (que ele afirma ser capaz de reduzir a 10% dos custos atuais). “Imagine”, diz ele, “se cada avião durasse apenas uma viagem. Não haveria transporte aéreo”.  O projeto de Musk é enviar um foguete tripulado a Marte em 10 ou 20 anos, a um custo muitíssimo inferior ao que vem sendo praticado pela NASA. A antiga inequação “Estado paquidérmico x Empresariado ágil” parece estar emergindo de novo, após meio século de corrida espacial financiada pelos governos.



sábado, 7 de julho de 2012

2916) Marte Um (7.7.2012)








Um grupo de holandeses malucos está tentando criar um projeto espacial mais ousado do que o das sondas marcianas e da estação espacial.  A idéia é mandar para Marte uma expedição tripulada, que lá deverá construir uma base, onde todos eles habitarão até o fim de suas vidas, sabendo que sua volta à Terra não está prevista. Tudo que lhes acontecer no outro planeta será visto como um reality show por países da Terra inteira. Pensa-se de início num custo de 6 bilhões de dólares, que, comparados às cifras das primeiras páginas dos jornais de hoje, são até uma soma modestíssima.

O dono do projeto é Bas Lansdorp, de 35 anos, dono de uma companhia de energia eólia. Ele ainda está em busca de patrocinadores para o projeto, que se chama “Mars One”. A idéia é treinar os astronautas durante dez anos, e mandá-los para Marte em 2023. Será arriscado?  Será desumano? Será lucrativo? Só se sabe fazendo, assim como (admite Lansdorp) o treinamento não pode se comparar, ainda mais no aspecto psicológico, ao indivíduo vivendo uma situação “agora é pra valer”. 

Luís Buñuel pensou numa possibilidade parecida. Comentando o misterioso enclausuramento dos comensais em O Anjo Exterminador, ele disse que o filme dele não pode se comparar nem ao famoso quadro de Géricault A Jangada da Medusa (náufragos amontoados numa balsa) nem a “um filme de ficção científica sobre quinze astronautas numa espaçonave perdida pelo espaço”.  Porque o que distingue essas histórias é que os personagens estão fisicamente impedidos de escapar, mas no filme de Buñuel nada os impede, além das coisas que pensam; sua barreira é mental.  Em Marte, será física.

Talvez o projeto de Lansdorp tenha um aspecto buñuelesco. O mundo (este mundo) está preso numa sala de visitas, num coquetel ou jantar-de-gala interminável, enquanto a cozinha pega fogo, os quartos se deterioram, e o mato bravo toma conta do jardim. Como na festa dos burgueses em L’Âge d’Or, em que uma carroça de camponeses bêbados cruza o salão de baile, sem que ninguém dê o braço a torcer percebendo-a, continuamos em plena Ilha Fiscal. Só falta mesmo é criar um reality show interplanetário, uma mistura do Show de Truman com Robinson Crusoe em Marte.

Nada impede, também, que o reality vire, sei lá, uma série policial. Digamos que um dos “marcianos” enlouqueça e, mostrado pelas câmaras para toda a Terra, mas não para a Base, a história se tornará um mistério policial, tipo “dez negrinhos” morrendo em contagem regressiva. Uma espécie de thriller de suspense onde um bilhão de espectadores, impotentes para interferir, verão o criminoso executando os colegas um por um, sem que ninguém possa avisá-los.

domingo, 2 de maio de 2010

1986) O Homem na Lua (21.7.2009)



E assim se passaram quarenta anos. A descida do homem na Lua está sendo comemorada no mundo inteiro pela imprensa – nós jornalistas adoramos um assunto momentoso sobre o qual a documentação é farta. Não sei se os cientistas comemoram. A maioria o faz por nostalgia do tipo “como era bom naquele tempo”, não por entusiasmo pelas conquistas atuais. A NASA fez seis descidas de astronautas na Lua: duas em 1969, duas em 1971 e duas em 1972. De lá para cá, nada. Dá para sentir que o projeto espacial tripulado alcançou um pico nessa época e depois se retraiu. Me lembra a famosa frase de Fellini ao recordar, muitos anos depois, o êxito de bilheteria de A Doce Vida: “Eu pensei que aquilo era o começo do meu sucesso, mas acabou sendo o ponto mais alto dele”. Pois é.

Não que os projetos espaciais tenham soçobrado desde então. EUA e Rússia fizeram alguns projetos conjuntos, acoplagens, voos mistos; tivemos a construção da Estação Espacial com a cooperação de várias nações; as numerosas missões dos ônibus espaciais; o lançamento em órbita do Telescópio Hubble, e várias missões não-tripuladas para Marte e outros destinos. Tudo isto traz informações importantes para a ciência. Mas – e aqui que me perdoem os colegas da ficção científica – o que isso indica é que o sonho de voos tripulados pelo Sistema Solar era somente um sonho mesmo, e que o nosso destino é nunca sairmos do nosso planeta. Não digo que não seja possível, para os EUA, a China ou a União Européia, mandar um ou outro sujeito para Marte e trazê-lo de volta. Não é improvável. O que acho improvável é o sonho dos escritores de FC: frotas permanente de naves indo e voltando, bases e cidades lunares, colonização e terraformação (criação de um ambiente natural favorável à vida humana) de Marte. Isso aí, meu amigo, acho que é uma janela de hipótese que se abriu um dia mas já se fechou.

Quando estou lendo Fundação de Asimov ou Hyperion de Dan Simmons me parece inevitável a perspectiva de uma Via-Láctea fervilhante de civilizações e raças, com intercâmbio comercial, guerras, milhões de naves indo-e-voltando. Isso, no entanto, só ocorre na página. Fora dessa jurisdição retangular, não consigo crer numa civilização terrestre-interplanetária. Para mim é tão complicado quanto acreditar em Deus. Por que? Uma das melhores críticas já feita ao conceito de Deus é que ele não é plausível, mas é extremamente desejável. Seria tão bom se houvesse de fato um Deus onisciente, onipotente, bondoso e justo! Nosso desejo de que isto seja verdade acaba criando uma espécie de certeza de que o é. Do mesmo modo, nosso desejo de uma humanidade esplendorosamente expansionista, civilizando planetas, fincando bandeiras terrestres galáxia afora, é uma hipótese tão bonita, tão desejável... Mas, ai! Não basta isso para ser plausível, e para mim não é. Acho que nossa expansão será qualitativa. Iremos (precisamos) salvar este planeta, e não conquistar os outros.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

0951) O astronauta brasileiro (4.4.2006)



Enquanto escrevo estas linhas, nosso astronauta Marcos Pontes já decolou para o espaço há duas horas, e em breve a nave que o conduz estará se acoplando à Estação Espacial. Momento histórico, sim, e acho que devemos comemorar o fato de um brasileiro ir ao espaço. (Alguns mais calejados me sussurram: “Calma, espera pra ver se ele volta inteiro”) Vi matérias eufóricas dizendo que finalmente entramos na maioridade científica, e matérias dizendo: “Nós quem, cara pálida?” Alguns cientistas parabenizaram o astronauta, mas lembraram que a viagem dele está custando o equivalente a um terço do orçamento total do programa espacial brasileiro. É como se o Treze pagasse 100 mil reais à CBF para que Beto jogasse uma partida pela Seleção Brasileira. Seria ótimo, principalmente para Beto, que entraria para a História, e para a CBF, que faturaria uns trocados.

Vendo essa festa, lembro uma canção de Lula Queiroga dos anos 1980, que ao que eu saiba nunca foi gravada, cujo refrão diz: “Eu tô com medo! Sou o primeiro astronauta brasileiro!” A letra de Lula fala das paranóias do astronauta tupiniquim imaginando a quantidade de equipamentos que podem dar defeito de um momento para o outro; mas só tem graça porque ele imagina que a nave é brasileira também. Não é o presente caso. A viagem de Marcos Pontes é toda feita como tecnologia lá de fora. Não representa uma conquista científica; no máximo, é (que ironia) uma conquista econômica, uma prova de que o país é rico e pode pagar para que ele faça uma viagem cara como esta.

Estou sendo cruel com o nosso Flash Gordon. Marcos Pontes é certamente um desses garotos que, como eu, leram aventuras espaciais na infância e sonharam em subir ao céu em foguetes, ver se a Terra é mesmo azul. Eu sonhei com isto aos dez anos, achava que lá por volta do ano 2000 já teríamos bases na Lua, ônibus espaciais indo e voltando, e quem sabe eu, já cinqüentão, faria uma dessas viagens na qualidade de jornalista. Não deu pra mim. Deu pra Marcos Pontes que, pelo menos, está indo realizar experiências científicas que podem ser de alguma utilidade futura.

O que importa é que com a ida dele, garotos brasileiros poderão perceber que nenhum sonho está vedado aos garotos brasileiros. Que não são somente os garotos russos ou norte-americanos que podem sonhar com isto, mas garotos do Brasil, da Bolívia, de Angola, da Tailândia ou do Uzbequistão. As barreiras econômicas existirão sempre, mas tudo que é definido como barreira pode, por definição, ser transposto, contornado ou derrubado. O que há de mais bonito nas conquistas da Ciência é o seu caráter universal. Tudo que a Ciência inventa ou descobre é para todos. A Ciência e o Saber unem; quem separa são a Política e o Poder. Todos têm direito de sonhar, de querer, de tentar conseguir também. Nada é tão democrático quanto a Ciência, e ver um brasileiro no espaço é mais uma maneira de lembrar desta verdade tão simples.

sábado, 24 de janeiro de 2009

0775) As ruínas dos satélites (11.9.2005)



Jonas Bendiksen é um fotógrafo norueguês, da agência Magnum, que tem viajado pelos territórios da antiga União Soviética documentando o que existe por lá depois do esfacelamento daquela colcha-de-retalhos étnica e histórica. Este torvelinho político e geográfico é uma das coisas mais fascinantes de nossa época, e a obra de escritores como William Gibson (Idoru, Padrões de reconhecimento) e Bruce Sterling (Piratas de Dados) é uma investigação constante destes desvãos da História que só aparecem nas manchetes dos jornais quando acontece por ali uma catástrofe como o massacre da escola de Beslan, o acidente nuclear de Chernobyl ou o afundamento de um submarino.

As fotos podem ser vistas no saite do jornal Le Monde, em: http://www.lemonde.fr/web/vi/0,47-0@2-667725,54-683620@51-683131,0.html. Clicando-se no link que diz “Si la fenêtre avec le portfolio ne s’ouvre pas, cliquez ici”, aparece uma animação em flash com 45 fotos, muitas delas magníficas. Na abertura, um texto explica que com o colapso da ordem soviética muitas regiões remotas ficaram meio que à deriva; não pertencem mais a um governo central mas ao mesmo tempo não são estados independentes, tornando-se uma espécie de satélites, apêndices étnicos que não foram oficialmente extirpados de alguma república vizinha.

Para mim são particularmente comoventes as fotos do lixo espacial, feitas numa região desértica onde caem as partes descartadas dos foguetes que os russos mandam ao espaço. Segmentos inteiros dessas naves, do tamanho de um vagão de trem, descem do céu trovejando e em chamas, e espatifam-se contra o chão do deserto. Sempre que um deles é avistado (grupo de catadores de lixo ficam de tocaia, após os lançamentos, com binóculos), os caras pulam dentro dos carros, ligam o motor e partem à toda para lá. Com maçaricos e serras, eles desmancham os pedaços de foguete para vender o metal –ligas de titânio caras e resistentes.

Também há fotos de viciados em drogas aplicando-se injeções no meio de salões dilapidados onde resta apenas um tapete persa na parede (a última coisa que falta vender); vacas tombadas num prado verdejante, mortas depois de beberem água poluída; imensos conjuntos habitacionais em ruínas; um bizarro ritual de batismo em que é cortada no gelo de um lago uma abertura em forma de cruz, para que o batizado seja imerso na água geladíssima e depois reanimado com alguns copos de vodka pura.

O mundo globalizado é como uma metrópole, e esses países sem nome são os becos e arrabaldes entregues à sua própria sorte, lugares “boca quente” onde as pessoas sobrevivem como podem, acreditam no que querem, drogam-se com o que estiver ao seu alcance, e esperam a vida passar como esperamos o fim de um pesadelo que tivemos a sorte de descobrir ser um pesadelo antes mesmo de acordarmos. É o mundo de hoje, e é um inquietante trailer do mundo de amanhã.

domingo, 9 de março de 2008

0137) A tragédia espacial (29.8.2003)

A tragédia com o foguete VLS no Maranhão está alimentando discussões sobre cortes de verbas, e até teorias da conspiração que vêem no episódio uma possível sabotagem dos norte-americanos, interessados tanto na base de Alcântara quanto em dificultar a autonomia espacial brasileira. (Veja-se o saite www.relatorioalfa.com.br)

Enquanto fatos mais claros não vêm à tona, eu não consigo parar de pensar nas vítimas. Ao ver no jornal aquelas 21 fotos e resumos de carreira eu nem pensei nos pais de família que ali estavam. Quer dizer, pensei, todo mundo pensa; mas todo mundo pensou nisso, e eu acho que pensei algo que poucas pessoas terão pensado. Olhei aqueles rostos sérios e pensei: “Aqui deve ter pelo menos meia dúzia de leitores de ficção científica.” Espero que os caros leitores perdoem minha deformação profissional; mas acontece que eu pertenço a uma minoria, e como hoje em dia toda minoria se sente no direito de pavonear-se ante os holofotes da mídia, porque não a nossa?

O leitor de ficção científica é um cara para quem o futuro existe. É um cara que desde a infância percebeu que o mundo não vai ser sempre a mesma coisa. Todo velho vive se queixando: “no meu tempo era diferente...” Eu sou velho às vezes, e também me queixo às vezes, mas o que me cura da velhice e do queixume é ter lido Julio Verne aos 13 anos, H. G. Wells aos 14, Ray Bradbury aos 15. Meu mundo se alargou, minha responsabilidade por ele se alastrou para além do Açude Velho e do Oceano Atlântico, estendeu-se Sistema Solar afora, expandiu-se pela Via Láctea e fincou postos avançados nas nebulosas distantes. Eu entendi que pelo simples fato de estar vivo aquilo tudo me pertencia, como se fosse uma Capitania Hereditária que Deus tivesse jogado no meu colo dizendo: “Esse mundo é teu. Te vira.”

Acho um crime alguém dizer: “O Brasil não tem nada que fazer projeto espacial. Isso é coisa pros americanos, pros europeus.” Está errado. Críticas aos projetos espaciais são legítimas, como aliás a qualquer projeto científico que envolva imensas despesas e grandes riscos; dúvidas quanto à possibilidade real de colonização do Sistema Solar, idem. Eu mesmo tenho muitas. Mas que se critiquem os projetos todos, que se diga: “A Humanidade inteira tem que cuidar daqui de baixo”. Nunca que se abaixe a crista e se diga, com a resignação dos capachos: “Deixa isso para os americanos, porque eles são melhores do que nós”.

O projeto espacial pertence a todos os garotos e garotas que um dia leram Arthur C. Clarke e se sentiram donatários do Sistema Solar. Pertence a todos os que, como Santos Dumont, acreditaram que o sonho de Julio Verne não era privilégio dos franceses, mas pertencia também a um brasileiro que ousou sonhar e ousou fazer. Eu olho as fotos daqueles 21 caras e saúdo todos os que acreditaram que é possível olhar de perto as estrelas, que tiveram o sonho de saltar no abismo, que não tiveram medo do Fogo Sagrado no centro do Sol.