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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

5213) Natal 2025 (23.12.2025)




 (by Saul Steinberg) 


... e a Terra dança seu “Danúbio Azul” 
em torno ao Sol, girando em rodopio, 
ano vai, ano vem, tecendo um fio
de memórias que levarei comigo
na neblina final para onde sigo
e onde a música toca das esferas.
Era uma vez... era outra vez... e as eras
tornam-se um ser rimado e recorrente
encorpando o novelo do presente
no acalanto de um som que se repete. 
 
Mas no Sertão só chove canivete!
“Fé seca,” (disse alguém), “faca molhada”.
Tem uma cruz em cada encruzilhada
e um rosário de flores ressequidas.
Neste game, nos sobram zero vidas,
num cenário de tolerância zero.
Foi tanto jogo que eu burnei no Nero,
tanto CD queimado na madruga,
escape virtual, rota de fuga,
utopias de um mundo ao meu comando... 
 
Por isso leio, escrevo, e ardo, e ando,
pisando os pixels da Realidade.
Um Sertão feito em bytes. E a cidade
reduzida a geléia de algoritmos...
Quem nos salva? O Deus Pan. Tambor de ritmos,
flauta de esgotos, lira paulistana,
viola enluarada, sambaiana,
partido-alto ao som de uns 8-baixos,
frevo-jazz sacudindo os populachos,
cambalhota feliz dos corpos livres... 
 
E assim eu lanço ao mar meus bateaux ivres,
em busca aos arquipélagos do espaço
(e aqui na veia o sangue marca o passo
ao som sempre feliz de um Vassourinha).
A música é de todos. E é só minha
na hora em que me deixo possuir
e a melodia rege o meu sentir
e a levada me leva e traz de volta
e o bombo ora me agarra ora me solta
e eu penso apenas: “sei dançar ainda”. 
 
Tudo é Bahia, quando eu danço; e Olinda,
tudo é Suvaco, é Circo Voador,
roda-de-samba à Rua do Ouvidor,
Parque do Povo em coco de Biliu...
Canta, pedra do chão. Canta, Brasil.
Diz por quem dobram os teus jingle-bells,
para quem crescem teus arranha-céus,
para onde vai a Nau dos Insensatos
com seus porões de moscas e de ratos
à procura de um novo continente... 
 
Toca então teu Natal, harpa plangente,
e que algum deus dedilhe os teus bordões
como a agulha à espiral extrai canções
no milagre high-tech da vitrola...
Que venha o vinho, espume a Coca-Cola,
vamos brindar, beber, dançar cantando,
e que este cheiro de batata-assando
seja apenas detalhe culinário...
É Natal!... Que se dane o calendário,
que se dane a contagem regressiva! 
 
Quero sentir o mundo em carne viva,
em nervo exposto, em fio descoberto...
Quero ser Odisseu: ligado, esperto,
o que no mais aceso desta luta
“delibera, depois quer, e executa”,
como dizia Augusto no Pau d’Arco...
Quero poder curvar meu próprio arco
e que as setas disparem-se sozinhas
tal qual vão se ordenando estas dez linhas
sobre o alvo das páginas em branco. 
 
O ano acaba... e busco outro ao banco
que nos empresta sonhos e futuros
e os cobrará quem sabe com que juros
mas tanto faz; vem tudo no contrato.
Eis o vinho na taça, o pão no prato,
no rosto o riso, uma canção no peito,
e o peito aberto, e o que vier, aceito...
É Natal! – e lá fora ergue-se um canto,
“abro as janelas, pálido de espanto”,
e escuto a Lua me cantando um blue... 
 






 
 





terça-feira, 24 de dezembro de 2024

5136) Natal 2024 (24.12.2024)




... e como um zero o ano se arredonda
retornando ao início, ao grão futuro;
eu aperto meu cinto e me asseguro
que agora vai, agora é pra valer... 
Cansei de só estar e nunca ser,
cansei de andar assim de casa às costas,
estas estantes cheias de respostas
todas corretas, mas que não são minhas... 
E o verão, tempestade de andorinhas
de puro fogo, entrou pela janela. 
 
A vida é bala, Bíblia, boi... e a vida é bela
para quem bebe à fonte de água pura
onde a boca devora o que procura
e o instante fugaz se torna eterno. 
“Quanto mais decadente mais moderno”,
o espelho é quem mo diz; e eu me barbeio,
me perfumo, me aprumo, me penteio,
como se fosse o derradeiro dândi
que um dia abandonou Campina Grande
rumo à conquista de outras freguesias. 
 
Era isto, afinal, o que querias?
Pós-prazer, que restou de tal desejo?
Do que eu sonhava, herdei isto que vejo;
do que eu quis, só me coube isto que tenho.
Todo Natal me visto, e aqui venho,
aqui vinho, castanhas, gorgonzolas,
entre arpejos de harpas e violas
votos sinceros de fraternidade...
e o tapete voador desta cidade
decola. Mais um ano. Mais um “round”. 
 
Eu lembro a noite, a lua, o underground,
as calçadas em festa, o riso, as rosas,
as feiticeiras, as misteriosas,
rodas de samba de cerveja erguida,
a catimba de prolongar a vida
mais além do que a vida tem direito;
o beck, o rock, o beijo, o xote... o jeito
de dar ao corpo o pouco que ele pede,
o que transborda, e o que não se mede,
o que o tempo nos traz e leva embora.  
 
Venham, dedos rosados dessa aurora,
tocar em mim e despertar meu sol!
Bacurau, cotovia, rouxinol,
cante aqui quem cantar, eu canto junto! 
Pode tudo faltar, menos assunto;
o mundo é isto, e é maior que o Mangue.
Que força é essa que me empurra o sangue
em seu cego circuito pelas veias?
Eu vou é para a Lapa! E calço as meias,
os sapatos... Tô pronto! E chamo o Uber. 
 
Faço de conta que sou um YouTuber, 
influêncer, tiktoker digital,
mais seguidores do que um general
(e menos divisões que o Vaticano).
Tanto faz! É Natal, é fim de ano,
bola ao centro... e recomeça o jogo.
Veja o exemplo maior: o Botafogo
improvável herói da própria lenda!!!
É Natal. Tudo em volta está à venda.
Menos a noite, a rua, a lua cheia. 
 
Pois seja posta a mesa, e farta a ceia
de quem calcula à pena o pouco e o tanto.
Ergo o brinde, tranquilo no meu canto,
no meu verso, no avesso da alegria...
E na paz provisória deste dia
as cantigas vão se diapasando,
harmonizam-se o quem, o onde, o quando;
tudo parece enfim fazer sentido...
Mais um ano que veio e foi vivido
e em círculo se fecha a linha, a onda... 
 
 
 
 






domingo, 24 de dezembro de 2023

5015) Natal 2023 (24.12.2023)



("A Arena", 1950, Maria Helena Vieira da Silva)


1
... e torno ao labirinto de onde escapo
sabendo que não há lado de fora:
labirinto do Hoje, o Aqui, o Agora... 
Du bist so schön, ó glorioso instante!
Meu desejo é que o tempo desencante
a si mesmo, e distenda seu elástico
transformando um só dia num fantástico
sempre-agora – incessante, inacabável...
É pecado sonhar? É condenável
brincar de crer no que não pode ser? 
 
2
Falar do Tempo é luta e é prazer,
bastidores e palco, treino e jogo.
Alguns dizem que o Tempo é como o fogo;
tanto destrói quanto ilumina e aquece. 
Outros dizem que o Tempo se parece
a um Olho que rói tudo que observa:
a carne, o chão, a água, o bicho, a erva,
a beleza, a verdade e a memória...
Corrosiva visão que cria a História:
soma do que esquecemos e lembramos. 
 
3
Por piores Natais nós já passamos!
Vamos então sorrir no que há sorrisos,
fantasiar trenós, renas e guizos
como fantasiamos hobbits e ETs...
Nada melhor do que “Era uma vez...”
pra reduzir o peso do real.
O peso do existir, ser material,
ter doenças, incômodos e achaques,
ficar sujeito à dor, aos piripaques,
às síndromes de nomes estrangeiros... 
 
4
São duzentos milhões de brasileiros
cada qual com seus corpos e seus traumas,
todos sonhando que possuem almas
e que todas vão ter segundas-chances...
Pobre de mim, que li tantos romances
e aprendi a descrer da crença alheia...
O mundo é sem Aranhas. É só Teia,
mero desenho e possibilidade;
não existe arquiteto ou divindade,
existe o espaçotempo – e a matéria. 
 
5
Sendo assim, o Natal é coisa séria;
futebol, carnaval, apendicite,
Grammy e Oscar, Nobel e dinamite,
todas as ilusões desta existência!
Tudo é sério: o humor e a ciência,
o ser e o nada, o cu e a cueca,
o deus de Roma e o alá de Meca,
a reza, a rosa, a prosa e a poesia,
a honestidade e a patifaria,
o fato, o fóton, a foto, o selfie, o fake... 
 
6
Todo palácio vale um milk-shake!
Um mendigo equivale a um senador!
Um vampiro de filme de terror
não é menos real que o cineasta.
O Real é tufão que tudo arrasta,
ventania que varre o mapa-múndi,
poeira que nos cega e nos confunde,
o tempo, o vento que nada perdoa...
Tudo é real onde existir pessoa,
esse espelho-do-ser chamado gente. 
 
7
E o Natal acontece novamente!
E Boas Festas a quem merecê-las.
“Alforje ao ombro, recolhendo estrelas”,
eu retorno, à maneira de Seu Nilo,
e de astro em astro vou enchendo um silo,
e com esperança aguardo o ano seguinte,
e brindo com meu vinho sub-20
à saúde de todos, todas, “todes”...
Irão me achar no camarim dos “roadies”
onde a conversa é mais interessante. 
 
8
Errar é humano? Eu sou judeu errante,
andarilho da idéia. I am the walrus.
Minha estrada é moebius-ouroboros,
o meu chão é de vácuo e é de vento,
um mar de mármores em movimento,
vagalhão congelado que goteja...
Pois venha o tempo, e o que vier, que seja!
Isto aqui não é sangue, é vinho tinto.
Chego à saída deste labirinto,
empurro a porta onde se lê: da capo... 
 
 





sábado, 24 de dezembro de 2022

4896) Natal 2022 (24.12.2022)



(ilustração: Unhandeijara Lisboa)

 
...e o mundo se remunda em redemunho,
turbilhão de manchetes impossíveis!
São outros patamares. Outros níveis.
Outras notícias – as mais esperadas,
as mais temidas, as encomendadas,
e a História se rasga e se remenda
na política vã desta fazenda
onde mandam o sobrenome, o dote,
o libambo, a manilha e o chicote –
que podem mais que a pena e a espada.
 
Abro os olhos: a Terra Devastada
nas pupilas, nas telas, monitores...
No rádio se revezam locutores
como enxerto-robô na carne morna. 
É o tropel dos centauros, que retorna,
carpideiras uivantes nas colinas,
fervilhar das arraias assassinas
tilintar de ferrões do povo-inseto...
e a TV que me diz pra “deixar quieto”,
pois o mundo resolve-se a si mesmo.
 
Fico eu aqui, eu caramujo, eu lêsmo,
eu búzio na ilusão que vou ser lido,
me apegando ao meu sétimo sentido
para entender o caos que desabrocha.
Tinha razão o doido Glauber Rocha.
Na fazenda quem manda é o capataz:
os herdeiros consomem mais e mais
dos poços, das jazidas, dos filões,
e a cada dia partem mil vagões
no rumo dos castelos de ultramar. 
 
Então... Querem saber? Vou levantar,
vou fazer um café, vou à janela,
vou dar bom-dia ao mundo que me vela,
que me cuida e pergunta se estou bem.
É matemático: outro ano vem,
mesmo eu não vendo, mesmo eu não estando,
os algarismos se reiterando
trazendo a sensação de algo novo;
e até comove a gente ver o povo
dizer: “É outro ano!...  Agora vai!...”.
 
Minha esperança? Não enche um hai-kai.
Meu otimismo é um dedal e meio.
O apocalipse nuclear não veio
mas, quem sabe, seria boa idéia.
Ah!  Que deus perdoou esta Pompéia
que mais que a outra merecia a lava?!
E o mundo a bomba acende, a tumba cava,
sob um pretexto unânime – o progresso,
o lucro, o dividendo e o sucesso,
e a forca, o fogo, o ferro aos dissidentes.
 
Café tomado – e eu escovo os dentes,
enxáguo a boca do mingau-das-almas.
Minha mãe, minha tia batem palmas,
“muito bem!  um rapaz!  gostei de ver!”
E quem outro é capaz de conceber
em jejum, dez cenários fim-do-mundo?
Quem é capaz, no ano moribundo,
de exumar as guarânias natalinas,
vinhos, passas, maçãs, bebidas finas,
presentes... e pavês presenciais?
 
São os problemas de quem vive em paz!
Outros vivem na guerra. Estou sabendo.
Mísseis caindo, e o bebê nascendo
ao mesmo tempo, a meio quarteirão.
E eu cá tremendo a sós, feito um poltrão...
É só a vida, com ou sem Natal!
Abraça alguém!  Abraço é tão legal,
escreve, lê, escuta, vive, canta...
Quando o sol desce a noite se levanta;
quero comer uma canjica em junho...
 
 







sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

4777) Natal 2021 (24.12.2021)



(ilustração: Yuri Malkov)

1
... e a Terra esturra em chamas de agonia
e mesmo assim não pára de crescer.
O mar, cobrindo a área de lazer,
está da cor de água-de-cimento.
O cortejo parou por um momento
frente ao portão lacrado onde se esconde
a multidão que ouve e não responde
o pesado metal de uma trombeta.
Os ciclones fervilham no planeta
varrendo o pó da civilização.
 
2
É sonho de uma noite de verão
quando acordo, com a lua no meu rosto,
e não sei se é Natal ou se é agosto
que me espreita na fresta da cortina?
E um trator enferruja na piscina.
E uma tribo acampou na catedral.
E tem gente trocando o sangue em sal.
E cachorros gritando a noite inteira
que esta vida é um livro com a primeira
e a última página faltando.
 
3
Quantas noites me restam, procurando
fazer o sol deter-se antes que nasça?
Escrevendo sextilhas com fumaça?
Martelando a bigorna do juízo?
Ninguém sabe de mim. O que eu preciso
é criar, é ser mais, é seguir sendo
como os galhos de mato que crescendo
dilaceram as teias das aranhas;
é crescer, como crescem as montanhas;
e passar – como passam todas elas.
 
4
Como naufragam tantas caravelas,
ou Maceió, que afunda em sumidouros;
o abismo engolindo seus tesouros,
uma cidade a se afogar na terra...
Ou o estrídulo som da motosserra
decepando a medula das sequóias,
e a cidade renderizando as nóias,
e o vírus de plantão se propagando...
e eu correndo, eu fugindo e eu pisando
nos corações de vidro no caminho.
 
 
5
E a multidão me arrasta, e eu sozinho,
e eu nunca mais dormi de olho fechado
e não consigo ficar acordado
(um zumbi esbarrando nas cadeiras);
pandemia comendo pelas beiras
e a alegria embandeirando a sala
e eu fiquei como quem perdeu a mala
numa estação do trem de língua estranha
ou o alpinista que sobe a montanha
e lhe falta a coragem pra descer.
 
6
É Natal!  Outro ano chega ao Z.
Meu Natal incompleto, esburacado,
falta uma banda sempre, falta um lado,
e o machado do tempo está se erguendo...
Não importa se o prédio está ardendo;
minha vida mental é só em mim.
Me deixem quéto, aqui, no meu cantim,
no aconchego da minha quarentena...
Eu capto o mundo inteiro em minha antena,
e afundarei com esse mundo em paz.
 
7
E chegam os bordões celestiais,
Papais Noel, guirlandas, fios de luzes...
Nos presépios, milhares de Jesuses
multiplicam as vidas severinas,
os jingobells, árvores naftalinas,
o vinho sub-20 em cada taça,
o brinde, a selfie, o riso, a uva-passa,
a dor entrelaçada à esperança
(quanto livro perdeu-se na mudança!)...
Passou um ano, e chega mais um dia...
 
 







quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

4656) Natal 2020 (24.12.2020)





(Imagem: Rudy Rucker, The Virgin of Mandelupe)


1
... e o fio enlaça o fio e faz um nó
amarrando a si mesmo, lasso, frouxo,
e eu cá cofio o meu bigode-groucho,
penso no tempo, nos seus vais e vens.
E os anos se sucedem como trens.
Até que chegue aquele... e eu vá embora
pra conferir o enigma do Lá-Fora
pra descobrir num salto o fim do poço,
porque cada filósofo que eu ouço
é implorando que ele me desminta.
 
2
Meu ofício é traçar fios de tinta
para entortá-los em arames-frases
e ocultar o Não-Sol; fazer as pazes
entre o sonho, o sentido, a letra, a lua,
o terror dos sem-voz que vem da rua,
o rangido do mundo aniquilado...
E o verso tem seis faces como um dado
e o dado gira até virar esfera
e o verso vira o avesso do que era
e a fala vira o fio que tudo amarra.
 
3
Na vida tudo é gato, é gambiarra,
versão-pirata de uma coisa-em-si,
sulanca a se passar por givenchy,
sarneys fazendo as vezes de tancredos;
e eu toco a vida assim, cheio de dedos,
como estátua na frente de um teclado.
Fazer o quê? Ficar aqui parado
enquanto ela se escorre como um rio?
Eu quero o vórtice, e o rodopio.
Quero a dor e a beleza, o grão e a fome.
 
4
A mão me estende algo, e me diz: Tome.
A mente fecha os olhos, diz: Esqueça.
Fico no escuro. Espero que apareça
um portento, um milagre, uma visão.
A raiz que rachou um calçadão.
A cheia que encobriu a cobertura.
O besouro que esbarra no miúra
e o revira quadrúpede no ar.
Qual a pedra que eu vim para quebrar
e revelar a drusa multicor?
 
5
Peço perdão a cada cantador
de quem furtei um símile, um refrão,
anacoluto ou aliteração,
rima, cadência, estrofe, vocativo...
Irmão, furtei de ti pra ficar vivo!
E que me furtem os vilões vindouros;
que minhas jóias brilhem nos tesouros
com que enfeitarem suas perseguidas...
Meus versos vão viver, ver novas vidas,
na fervura do século 21.
 
6
Falando nisso, lembro do cartum:
tanque de guerra, areia movediça...
Como explicar que não é só preguiça
a razão que me impede de escrever?
Falta vontade, o empuxo do querer?
Ou falta a glândula de adrenalina?
O ar frio, as calçadas de Campina?
Não importa. Por mim, não tenho mágoa;
vou molhando meu pão na minha água,
vou dizendo o que cabe em minha voz.
 
7
Nascemos sós, e morreremos sós;
por que vivermos sós na travessia?!
A vida pulsa, a veia é tão macia,
mesmo havendo milênios de distância.
A mão estende o vinho com elegância;
mais um gole na fonte da saudade.
É Natal. Na janela, uma cidade
inacessível a mim, também celebra,
e mais um ano de cristal se quebra;
e a vida é sempre nova, e uma só...
 





terça-feira, 24 de dezembro de 2019

4535) Natal 2019 (24.12.2019)




1
... e quando o fim acopla-se ao começo,
e a serpente abocanha a própria cauda,
e o escritor, na derradeira lauda,
põe “Capítulo 1” no cabeçalho,
o riverão retoma o seu atalho,
riocorrente em busca, ruminando
rumo... ao futuro? Ao Sempre? Ao Quase-quando?
Não sei. É mais um ano que se encerra,
mais uma volta da precária Terra
em torno deste Sol que nos bronzeia.

2
Quem dera o Sol fosse uma Lua cheia
de luz e enlevo, brisa e maresia...
Quem dera a vida fosse essa poesia
que nada prova, e tudo justifica!
Um poema revela, e não explica;
a canção é o que faz, mais que o que diz.
Uma canção nos salva de um país;
só nos resta este bálsamo, este unguento;
isso que chamam de “pertencimento”
(e nunca vi na enciclopédia Barsa...).


3
Em cada alô, um vírus se disfarça.
Em cada adeus, o som da guilhotina.
Não é de hoje... a quadra natalina
parece um longo Dia de Finados
e a nostalgia dos antepassados
nos faz franzir o cenho ante o futuro...
Mas este vinho é muito bom, eu juro.
E nada é tão real quanto os sentidos.
Quem quiser que lamente os tempos idos:
eu brindo a quem se foi, mas vivo o instante.

4
A vida vai de minerol infante
(dizia Rosa, em sua “Tutaméia”)
e sempre foi assim, tosca, plebéia,
negociada em trancos e barrancos;
e a gente rala, sustentando os Bancos
(o Nosferatu da economia
que não pode sair à luz do dia
pra não ganhar a roda, o pelourinho)
e se o que sobra nos custeia um vinho...
como negar que ainda estou no lucro?

5
Pois seja o Tempo esse cavalo xucro
corcoveando no curral do Agora,
tentando me atirar, longe, lá fora,
nos além-cercas da Eternidade...
Eu me agarro na sela com vontade
de mais solstícios e mais equinócios,
e digo ao Tempo assim: “Sejamos sócios!
Se me poupares, te darei bom uso!”
E o Tempo gira como gira um fuso.
E a resposta me dá: “Outro dezembro.”

6
Sei que tudo será tal como lembro.
Ou não? Qual a hipótese pior?
As lenga-lengas que direi de cor
ou o salto no susto, no imprevisto?
É no Natal que o mundo passa Cristo
no cobre, e deixa dez para o garçom. 
Foi este o mundo que me deu o tom,
é essa a bolsa a que forneço o dízimo,
e ninguém venha com lições de abismo:
estou cavando no fundo do poço.

7
Mas pra que tanta briga e alvoroço,
tumulto de emoções contraditórias,
esperanças, humilhações, vanglórias,
a nefanda “cantiga da perua”...
Olha o mundo passando. Olha essa rua
a mesma que cruzaste de outras vezes;
cada rodada de mais doze meses
te traz de volta ao velho sempre novo,
este país de pólvora e de povo
onde a cada Natal aumenta o preço...










segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

4416) Natal 2018 (23.12.2018)




(ilustração: Ralph Steadman)



... e um ano transcorreu num só segundo
como um flash, um relâmpago, um raio,
e eu aqui, tropeçante, e eu, cambaio,
cultivando as derrotas, como plantas;
não importa se feias, pois são tantas
que formando fileiras, curvas, retas,
traçam formas: mandalas incompletas
arabescos que algum valor terão...
Acabei de encontrar minha missão
no planeta dos cactos e das rosas.

Como Augusto, o das letras tenebrosas,
quero que o solo coma os meus resíduos
como sempre tem feito aos indivíduos
que recolhem do mundo os elementos
com que compor seus corpos suarentos...
A alma é um pião que na poeira
gira, gira; e o corpo é a ponteira
encravada no chão do mundo tosco
tirando chispas do terreno fosco
onde um dia seus ossos dormirão...

Que seja a Glória ter pisado o chão,
ter sido gente, bicho, fruta e flor,
ter sentido o prazer, quase uma dor,
da água fria escorrendo pelo rosto...
O prazer de escrever. De ter composto
um fio de melodia original
que deu prazer a quem, num dia tal,
num subúrbio distante, num distrito,
ouviu um som e disse; "que bonito,
isso aí que no rádio está tocando,,,"

"E eu pela estrada, entre estes monstros, ando"
dando o dedo ao destino que me aguarda,
e peço a Deus, esta eminência parda,
que me dê no relógio alguns acréscimos.
Convenhamos: os tempos estão péssimos,
mas mesmo assim insisto em desfrutá-los;
escrevo à noite enquanto espero os galos
e em dueto a difusa passarada
que gorjeia: "Aproveita, camarada,
vai fazer um café, não dorme agora!”.

Troco minhalma por mais uma aurora.
Troco o que fui pelo que não serei,
os futuros que nunca alcançarei,
a imensidão do que haverá sem mim...
Mas a vida não quer que seja assim
e me obriga a bebê-la de um só gole.
Quer saber?! Sanfoneiro,  puxe o fole,
faça o povo rodar, rode também!
Quanto mais vida vai, mais vida vem:
eis a única lei deste Universo.

Vale a pena (pergunto) mais um verso
celebrando o Natal e os jingobells?
Onde quer que eu me vire vejo os céus
piscando essas luzinhas de néon;
cada shopping um vírus do Leblon
se alastrando na taba brasileira...
Cem mães gritam, regendo a brincadeira
dos guris na piscina de bolinhas,
pula-pula, boliche e argolinhas,
nas descidas do escorregador...

E o Natal musical e multicor
volta a chiar na chapa do verão
e esta dor que voltou me dá razão
para pensar de noite, olhando a treva...
E o rio-tempo em seu passar me leva
e eu canto o tempo, e reinvento o rio,
e esta caneta desenrola um fio
de palavras que valem por meu rosto...
É dezembro, é abril ou é agosto
esse Natal que não melhora o mundo?...





segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

4299) Natal 2017 (25.12.2017)





(ilustração: Galina Kim)

...e o mundo gira a sua bolandeira
de planetas, satélites e luas
como giramos no vaivém das ruas
e no círculo astral do calendário.
Fim de ano é igual aniversário:
um ano a menos resta à nossa frente.
Quem quiser comemore este presente:
mas eu celebro o fluxo, e não o saldo,
a travessia, e não o esforço baldo
de guardar este rio em algum bolso.

As alcatéias cantam, e eu só ouço,
esperando chamarem minha senha,
escutando o machado sobre a lenha,
respirando a fumaça da fogueira,
vendo a vida passar Aleph-inteira
cada vez que me deito pra dormir,
sendo ainda capaz de ler, sorrir,
já que tudo é clicar aplicativos;
cada vez que desperto ao sol dos vivos
sou eu mesmo de novo, e sou um só.

E eu fui feliz, no meu Bodocongó!
Tocando, via o dia amanhecer...
Era uma luz que não voltei a ver
uma alegria de elevar balões
um aconchego de saber canções
sentimento de noite de luar
ascendendo na perpendicular
rumo ao zênite bom de um dia claro
sentimento tão puro, forte e raro
que deve ser produto da memória.

Sentir saudade é maquilar a História;
um direito de todo cidadão!
Ah, se não fosse a imaginação
como ficar em paz dentro de si?
Tudo quanto eu sonhei, pensei, vivi,
era o centro vital daquele Instante,
um “agora” em que todo ser pensante
tem ponto de chegada e de partida,
cartesiano zero, o “x” da vida,
onde o espaço e o tempo entram em foco.

Pois este mundo só existe “in loco”,
o átimo, o momento, o here-and-now,
o passo à frente, o quantum-leap, o vau,
o fotograma que “eppur si muove”.
Porque tudo que pulsa e nos comove
só pulsou desta vez, neste presente;
é o Tempo do corpo, e não da mente;
a mente é transversal, não-linear,
randomizada, ortogonal – lugar
capaz de superpor tempos distintos.

Então... vamos brindar brancos e tintos.
Eu morrerei, e tudo vai passar.
Meus átomos irão se dispersar
e nessa hora não serão mais meus;
só me faltava que existisse um deus!
Um síndico do cosmos, registrando
quem entrou, quem saiu, quem-onde-quando...
O tempo; o espaço; dois vetores; “x”.
E nesse encontro está tudo que eu fiz,
o ponto luminoso em que eu pisquei.

O ano se passou... e eu nem liguei.
Impressionante um ano como passa.
Como um poema escrito com fumaça,
ou ser humano escrito em carne e osso;
ou como passa este universo-esboço,
rascunho escrito em turbilhões de quarks
que me aceitou, como se a Groucho Marx
aceitasse algum clube dadaísta;
não importa; meu nome entrou na lista
e o convidado-trapalhão nasceu.

E aqui estou, por fim. Não mangue d’eu!
Mangue do mundo que me produziu,
mangue dos séculos, ou do Brasil,
que deu matéria pro meu torvelinho.
Sou só um velho contemplando um vinho
sem saber qual dos dois vai durar mais.
Deixo que o mundo me deguste em paz
como o degusto eu, que vou passando,
vendo, sendo, sorrindo, versejando
esta estrofe que emenda com a primeira...








sábado, 24 de dezembro de 2016

4193) Natal 2016 (24.12.2016)





(ilustração: Michael Hutter)


...como a ave que volta ao ninho antigo
mas um degrau acima na espiral,
volta a Terra em seu giro sideral
para um lugar de onde jamais saiu.
Um campo fumegante: é o Brasil.
É a rua a que volto, é meu dezembro,
é a dor que lateja em cada membro,
punhalada de sangue, o osso vivo,
onde pulsa o relógio primitivo
da hora, do minuto e do segundo.

É o bafo da máquina do mundo
no cangote dum bicho encurralado,
roldanas, aguilhões, aço cromado,
cremalheiras, pistões, tornos de prensa.
Uma engrenagem dadaísta, imensa,
se arrastando em clangor de ferro velho,
balbuciando ao vácuo um evangelho
de cataclismos e de armagedons,
profecias do caos, deuses anões,
monstros sem ossos, feras amputadas.

Sento na cama. Quantas madrugadas
inda terei que despertar assim?
Que febre é essa que fervilha em mim,
coisa mil-bocas que me rói por dentro?
Um labirinto em ziguezague. Eu entro.
O piso range. O ar cheirando a mato,
e eu caminho a pisar cocô de rato...
Sento na cama: agora despertei.
Acendo a luz. Vou levantar. Farei
o meu café e vou pensar na vida.

Uma terra arrasada e comburida
é tudo que percebo atrás do véu
de ilusão que costura a terra ao céu
como cascata virtual de imagens.
Eis a mais verossímil das miragens:
uma falácia de nação feliz,
versão fotoshopada de um país
para iludir os tolos e os incautos
disfarçando os conluios e os assaltos
na bruzundanga da maracutaia.

E a gente nada e nada rumo à praia,
recebe o forno-inferno do verão,
finge estar bem, mente que sim, que não,
malabariza as contas todo mês,
paga duas em quatro ou uma em três,
pede emprestado a João pra pagar Zé,
tropeça, cambaleia, fica em pé,
respira fundo, calma, vai dar certo,
fique frio, meu bom, e fique esperto,
ninguém teve jamais segunda chance.

Enquanto tiver perna, amigo, dance
conforme a música da Cosmo-Esfera:
monte no tigre, deite com a pantera,
dê nó cego com as pontas do arco-íris,
se veja esquartejado como Osíris
e ressuscite como fez Sherlock,
saia voando no Pássaro Rock,
grite, esbraveje contra o fim da luz,
erga o brinde espumante pra Jesus
bebendo a Itaipava a dois reais.

E retornam os mitos estivais
os perus, os pavês; bimbalham sinos.
E o loop inapelável dos destinos
entrelaçados no DNA.
Pois não houve, não há nem haverá
algo além dos limites desta vida.
É no tempo-real desta partida
que tudo se decide no placar,
e enquanto brilhe acesa a luz do bar
ergue o copo sorrindo, vem comigo...