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sábado, 15 de novembro de 2014

3657) O balão de Dumont (13.11.2014)


Li numa matéria sobre Santos Dumont que o seu quarto balão, chamado (numa contagem descontraidamente brasileira) “no 3” se destacou pelo fato de ter sido o primeiro que se elevou com gás de iluminação, e o primeiro para o qual foi construído um hangar.   O gás de iluminação substituía o hidrogênio, que até então era o gás mais utilizado para inflar os balões da época.   O vôo foi realizado no dia 13 de novembro de 1899 – o dia exato em que, segundo os videntes do "fim do século", o mundo iria se acabar. 

 

Não sei por que motivo nostradâmico se previa o fim do mundo para esta data, e não para 31 de dezembro, o que pelo menos teria alguma lógica cronológica. Vai ver que assim como 13 é 31 ao contrário, novembro é dezembro ao contrário – para essa turma pêndulo-de-foucault, qualquer coisa pode ser demonstrada verbalmente.

 

Santos Dumont, ao que parece, não tinha problemas com o número 13, pois além de desafiar o Apocalipse anunciado, construiu e pilotou um balão com este número, mesmo vindo de duas tentativas abortadas com os números 11 e 12.  O no 13, ao que parece, sofreu algum tipo de sabotagem, mas logo em seguida veio o 14 e seu upgrade 14-Bis, e o resto é história. 

 

Não imagino que Santos Dumont fosse imune a superstições. Ao que parece foi por superstição que ele pulou o número 8, e na prática isso equivale a recear o 13, o 7 ou qualquer outro.  Mas, como temos o hábito mental de tirar lições de fatos aleatórios, aproveitemos para lembrar a reação de Santos Dumont, que foi provavelmente a de dizer: "Não, não tenho medo de que o mundo vá acabar hoje.  Para falar a verdade, acabei de construir um troço complicadíssimo que nem eu mesmo tenho certeza se vai voar ou não, e não tenho tempo de pensar em fim do mundo."

 

O mundo não acabou: o balão de Santos Dumont foi quem acabou voando.  Podemos aproveitar a outra informação (foi para este balão que ele construiu o primeiro hangar) como uma prova de seu otimismo, de sua certeza de que não apenas o mundo não ia acabar, mas talvez chovesse daí a alguns dias, e era preciso guardar o balão num lugar coberto.  Era um sujeito cheio de manias, e quase todas eram de ordem prática.

 
Mas, e o número 8?  Terá sido a prudência de Santos Dumont, evitando este número tão evidentemente perigoso, que salvou o Universo em que vivemos hoje?  Bem, tudo é possível.  Mas o melhor complemento da lição será, talvez, pensar que não comemoramos a data em que Fulano deixou de voar: comemoramos aquela em que ele de fato voou, sem se preocupar com milênios, cabalismos, superstições, e catástrofes anunciadas que afinal só interessam a quem vive passando cheque pré-datado.


quinta-feira, 15 de março de 2012

2818) O 39 e o 24 (15.3.2012)



Um dos cacoetes do pensamento mágico é fazer associações de idéias entre duas coisas não-relacionadas, e, a partir daí, agir como se elas fossem uma só. Vêm daí os dois grandes princípios da magia. Na magia por semelhança, coisas com formato igual ou aparência igual são a mesma coisa, por isso fazer um bonequinho de alguém e espetar-lhe agulhas vai provocar dores naquela pessoa, Na magia por contato, qualquer coisa que esteve em contato íntimo com alguém mantém esse contato mesmo depois de afastada. Simpatias amorosas, p. ex., exigem, para fazerem efeito, uma cueca, uma raspa de unha, um cacho de cabelo da pessoa.

Um princípio menor, mas interessante, é o que faz associações desse tipo com números, o que é um problema sério, porque número é um negócio danado pra reaparecer no caminho da gente. Em chinês, por exemplo, o som do número “quatro” parece com o da palavra “morte”, daí que os chineses fazem verdadeiras ginásticas para evitá-lo. Muitos prédios na China, por conta disto, não têm quarto andar – como muitos nos pragmáticos Estados Unidos não têm o 13o.

Fiquei sabendo de uma ótima que ocorre com o número 39 no Afeganistão. Numa cidade qualquer havia um cafetão cujos serviços prostitucionais eram contratados através de telefones onde sempre aparecia o número 39. O 39 ficou com péssima reputação; há movimentos para não comprar carros em cuja placa ele apareça, casas com essa numeração, etc. O número é desagradável; dá azar. Nos colégios, alunos a quem cabe esse número são vítima de ridicularização e bullying. Recentemente, um encontro político oficial teve que pular o 39 ao enumerar os comitês de discussão técnica. O líder religioso Ataula Fawzi protestou energicamente: “Se as autoridades que representam o povo afegão atuam desta maneira diante da comunidade internacional, o que se pode esperar de um taxista ou comerciante iletrado?"

Ridículo? Nem tanto, amigos. É a mesma sina do número 24 em nossa cultura, que devido ao jogo do bicho ficou associado ao veado, e este (por motivos que nunca entendi) ao homossexualismo. O tempo todo vejo gente evitando o assento 24, o quarto 24, a senha 24... Ter esse número como símbolo do homossexualismo é uma coisa arraigada em nossa mentalidade de rua. (Diga-se de passagem, só homem dá atenção a isso, nunca vi uma mulher prestar atenção nesse número.) Na minha infância, um dos momentos culminantes do rito-de-passagem do primeiro dia de aula era a primeira chamada, quando aguardávamos, com excitação crescente, a quem caberia o número maldito, e consequentemente a vaia, os impropérios, as casquinadas escarninhas, o opróbrio, o vitupério, a desmoralização.

terça-feira, 5 de abril de 2011

2522) Triscaidecofilia (5.4.2011)



Na verdade, existem dois termos, antônimos e simétricos. Os dicionários registram apenas “triscaidecofobia”, que é “horror ao número 13”. A lógica me diz que existe também o seu inverso, o amor por esse número: triscaidecofilia. Essa crença tem origens culturais que às vezes vale a pena pesquisar. Os norte-americanos, por exemplo, padecem de ambas as condições. A História dos EUA registra que foram 13 as colônias que se rebelaram contra a Inglaterra; daí que este número apareça de forma discreta (só vê quem tem a paciência de ficar contando) nos símbolos nacionais: são 13 faixas na bandeira e 13 flechas nas garras da águia, símbolo nacional. Por outro lado, nos EUA são muitos os edifícios que não usam 13o. andar, por acharem que não é propício. Passa-se direto do 12 para o 14. O que coloca um interessante problema prático: é o nome “décimo-terceiro” que dá azar, ou é a posição?

Dizem que na cultura hindu o 13 é um número benéfico. Eles creem que quando uma pessoa morre sua alma leva doze dias para alcançar o mundo dos ancestrais, e no décimo-terceiro dia após a morte a família pode voltar a cuidar de sua vida, sossegada, porque o morto a essa altura já terá alcançado o seu destino. Já na Inglaterra, conta-se que antigamente havia uma penalidade para comerciantes que burlassem os consumidores, e como havia o hábito de se comprar os pães por dúzia, os padeiros começaram a introduzir às vezes um pão a mais, para o caso de terem errado a conta. Daí eles começaram a espalhar a lenda de que 13 dava azar, e com isto os fregueses devolviam o décimo-terceiro pão quando o encontravam. Este costume teria dado origem ao termo inglês “baker’s dozen” (dúzia de padeiro) para designar o treze.

Algumas superstições estão ligadas a fatos históricos. Assim como na Última Ceia havia treze pessoas (e uma delas, Cristo, morreu logo a seguir), diz-se que a origem da má fama da sexta-feira 13 é o fato de que foi numa data assim que os cavaleiros Templários foram presos e massacrados na França, em 13 de outubro de 1307 (o ano também deve ter pesado). Também se diz que essa má fama foi criada e alimentada em parte pela Igreja Católica para combater as religiões pagãs, pelo fato de que um ano solar contém treze meses lunares, e era pelo ciclo lunar que os pagãos se orientavam, o que fazia do 13 um número básico de sua cultura.

A verdade é que o 13 é um desequilíbrio no 12. O número 12 é considerado um número simetricamente complexo. Ele é divisível por 2, por 3, por 4 e por 6. Um número flexível, cooptável, que se ajusta a qualquer contagem. Temos os 12 meses, os 12 signos do Zodíaco, e assim por diante. Basta, porém, somar mais uma unidade e surge o 13, um número primo, que só é redutível a si mesmo e à unidade, um número orgulhoso, indivisível – um indivíduo. A admiração pelo 13 é em grande medida a nossa admiração pelos seres de personalidade única e inimitável, que não abrem nem prum trem.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

2297) Futebol e pensamento mágico (18.7.2010)



Uma Copa do Mundo sempre traz de volta a qualquer torcedor uma reincidência do pensamento mágico. Como dizia Freud em O Estranho, somos ainda vítimas da concepção animista do Universo, de que o Universo não apenas pensa mas é também capaz de ler os meus pensamentos, e, melhor ainda, obedecer a eles. Freud chama a isto “a supervalorização narcisista dos próprios processos mentais”, gerando a idéia de que o Universo obedece aos meus desejos. Ele pode de início ser recalcitrante, resiste um pouco, etc., mas se eu for persistente e enérgico acabarei dobrando-o à minha vontade.

Nada como o clima vertiginosamente irracional de um jogo de futebol para fazer idéias desse tipo despertarem em nossa mente com toda a força pré-histórica de algo que foi enterrado sem estar morto. Por exemplo: houve uma época em que durante um jogo do Brasil eu ia ao banheiro de cinco em cinco minutos, porque no primeiro jogo da Copa, que estava emperrado num 0x0, o gol só saiu quando eu saí da sala para “tirar água do joelho”. Daí em diante, cada vez que o Brasil pegava na bola eu corria para o WC. Nada acontecia e eu achava que estava faltando realismo. Passava a tomar latas e mais latas de cerveja para que o ritual fosse cumprido à risca. A incidência estatística de minhas idas ao banheiro era tal que, uma ou outra vez, acabava coincidindo com outro gol, o que me dava a certeza científica do processo.

A certeza científica muitas vezes é fundada em coincidências, mas coincidências tão precisas que justificam uma tomada de posição. Se cada vez que minhas juntas doem acontece chuva pouco tempo depois, quem me impede de considerar que existe uma relação de causa e efeito embutida nesse processo? Não digo que a dor das juntas seja causa da chuva; basta-me supor que alguma ocorrência barométrica produz os dois fenômenos. Já falei aqui sobre o vício filosófico apelidado de “postoquismo”, o que se baseia na frase “post hoc, ergo propter hoc” – “se aconteceu depois disso, aconteceu por causa disso”. Dois fatos que se sucedem, mesmo que se sucedam várias vezes, não criam necessariamente uma relação causal. No futebol, um exemplo clássico é o de Carlito Rocha, folclórico diretor do Botafogo do Rio, e extremamente supersticioso. Um dia, pouco antes de um jogo decisivo, Carlito estava no vestiário do time e viu um jogador fazer xixi acidentalmente na perna do outro, quando estavam de pé no mictório. Como a “vítima” acabou fazendo nesse dia o gol da vitória, Carlito exigiu que todas as vezes o ritual do xixi fosse repetido. Postoquismo puro. Se o fato ocorre com um goleador de verdade, cada nova ocorrência serve de prova para o pensamento mágico de Carlito.

Um dos mandamentos do pensamento mágico é: não anuncie o que vai fazer, se não dá azar. Preocupado com meus rituais supersticiosos, deixei para publicar esta coluna depois da Copa, porque se a tivesse publicado antes corria o risco do Brasil não ganhar o hexa.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

1104) Superstição e megalomania (29.9.2006)



(ilustração: Tony d'Agostinho)

Em seu famoso ensaio sobre o “Uncanny” (o Estranho, o Sinistro), Sigmund Freud aponta, como um dos fatores propiciatórios desse contato com uma realidade perturbadora, o que ele chama de “onipotência do pensamento”, que conduz ao pensamento mágico. Do que se trata? Trata-se da sensação instintiva de que o nosso pensamento é capaz de modificar a Realidade sem tocar nela, por um simples esforço da vontade. Freud situa isso numa fase da evolução da mente infantil, em que a criança imagina ou deseja ser capaz de impor suas venetas às pessoas e objetos à sua volta.

A literatura fantástica está cheia de ilustrações dessa fantasia inofensiva, que, quando tratada realisticamente, produz pesadelos arrepiantes. Há um conto de Jerome Bixby, adaptado por Steven Spielberg para um dos episódios do seu Fronteiras da Realidade (Twilight Zone), versão cinematográfica do antigo seriado de TV Além da Imaginação, onde um menino é capaz de transformar seus desejos em realidade. No filme, os adultos vivem humilhados, aterrorizados, bajulando o garoto sem parar, porque sabem que basta uma pequena contrariedade para que ele os faça desaparecer com um piscar de olhos.

Toda a Magia se baseia nisto, tanto a dos índios primitivos quanto a dos intelectuais europeus da Renascença e do Iluminismo. Eles criam que rituais encantatórios, cumpridos à risca, podiam influenciar o Mundo sem ter com ele nenhum tipo de contato. Todos nós lembramos a divertida frase de João Saldanha: “Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano só terminava empatado”. A frase é perfeita, mas do ponto de vista técnico, os adeptos da Magia podem argumentar que o Campeonato de lá é na verdade uma disputa para ver quem é capaz do feitiço mais bem-feito, do ritual executado com mais rigor. É esse quem decide os gols de uma partida na Fonte Nova ou no Barradão.

Eu que o diga. Quando eu tinha 13 anos, um simples jogo do Treze era cercado dos mais complicados rituais. Nos meus cadernos de anotar resultados, tinha canetas que davam sorte e outras (eu só o descobria tarde demais!) que davam azar. Quando o Treze foi campeão invicto em 1966, vi todos os jogos com a mesma camisa. Quando ouvia os jogos pelo rádio, eu cismava que todas as vezes que aumentava o volume o time jogava bem, e quando o abaixava o time jogava mal. Daí a pouco, a altura do rádio estava insuportável. Minha mãe surgia esbravejando à porta da cozinha, colher-de-pau em punho. Que fazia eu? Esperto, dava uma abaixada total no volume, e ficava aumentando de tiquinho em tiquinho cada vez que a bola rondava a grande área.

Toda superstição é uma forma de humildade (reconhecimento de que o Universo é movido por forças mais poderosas do que nós) e de megalomania – o palpite de que essas forças podem ser bajuladas, seduzidas, estudadas, manipuladas de forma solerte, transformando-nos, ao trilar do apito final do juiz, em Senhores do Universo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

0910) Um homem chamado Rosa (15.2.2006)




Guimarães Rosa foi enterrado de óculos, porque era míope. Sua descoberta visual do mundo está narrada nas aventuras do menino míope Miguilim, em Corpo de Baile.

Era o filho mais velho de sete irmãos. Uma vez, na infância, encheu de água uma banheira, deitou-se nela, e pediu a dois irmãos menores que sentassem em cima dele. Queria ver quanto tempo agüentava sem respirar. O pai apareceu e interrompeu o experimento científico.

Nos tempos de estudante “liso”, costumava rifar os livros que acabava de ler, vendendo bilhetes aos colegas para comprar mais livros.

Escreveu contos fantásticos nos anos 1930 para O Cruzeiro, somente para embolsar uma grana, sem saber que estava fazendo o que nos EUA da época se chamava de “pulp fiction”.

Era tímido, mas cheio de expedientes. Quando começou a namorar Lygia (Lili), sua primeira esposa, costumava passar na porta do colégio dela, na hora da saída, dar de cara com ela e exclamar: “Mas que coincidência!” Em breve as amigas dela já apontavam: “Lili, lá vem Coincidência”.

Era expansivo, imensamente carinhoso. As filhas (Vilma e Agnes) o chamavam João Papai Beleza; as netas de Vovô Beleza. Adorava falar em público. Uma vez, nas bodas de ouro dos pais, festa animadíssima, pediram-lhe para fazer um discurso. Ele foi se entusiasmando e começou a lembrar os “ausentes”; daí a pouco todo mundo estava chorando.

Era supersticioso. Se por distração passava por baixo de uma escada, voltava atrás, explicando: “Tem que despassar!” Quando presenteou seu amigo Geraldo França de Lima com uma faca de caça, teve que recitar três vezes: “Que esta faca não corte nossa amizade”.

A família inteira tinha um viés para o sobrenatural. Sua mãe e seu irmão José Luís narravam episódios de visagens e aparições. Morando no Rio, Rosa chegou a freqüentar um centro espírita na Rua Voluntários da Pátria.

Morria de medo de tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Por superstição, e por consciência: tinha tido uma isquemia, o coração estava muito mal, achava que não suportaria a emoção: “Eu sou médico, e sei exatamente como estou”.

Dizia que só tinha se candidatado para honrar sua terra natal (Cordisburgo) e porque os pais só o considerariam um escritor de verdade se entrasse para a Academia.

Na noite da posse, Geraldo França de Lima foi buscá-lo e o encontrou de pijama: “Não vou mais”. Insistiram, ele vestiu-se em silêncio, irritado. Ao sair, pousou a mão na porta e disse: “Vou, mas não volto”.

Era uma noite chuvosa. Ele só desceu do carro porque na mesma hora chegaram Juscelino e D. Sara Kubitschek, que vinham para a cerimônia, e o levaram para dentro.

Rosa entregou a Geraldo um vidro de coramina e disse: “Se durante o discurso eu fizer ‘assim’ com a mão é porque estou tendo um enfarte”. No fim, cumprimentado por todos, exclamava: “Eu não vou morrer, não vou morrer nunca mais. Sou o maior orador do mundo!”

Três dias depois, encantou-se para sempre.






sábado, 28 de fevereiro de 2009

0851) Superstições (8.12.2005)




Todo mundo as tem, não é mesmo? O mais interessante é que as superstições tanto podem ser coletivas como personalizadas. As coletivas aparecem em todo livro de folclore: espelho quebrado, gato preto, passar embaixo de escada, derramar sal na mesa, treze convivas... 

As superstições individuais podem ter origem familiar. Eu, por exemplo, não posso ver uma tesoura aberta (vou logo fechar) nem um chinelo emborcado (vou lá e desemborco). Por que? Imagino que porque minha mãe era assim, e eu herdei telepaticamente essa enorme sensação de desconforto diante dessas coisas. 

Algum crítico metido a espertinho virá me brandir o dedo: “Arrá! Quer dizer que você vive se gabando de ser científico e agnóstico, e tem medo dessas coisas?” Não é medo, meu caro. É incômodo. Tesoura aberta? Uma criança pode vir e se cortar. Chinelo emborcado? É como quadro torto na parede, prato sujo na mesa, cueca largada no chão do banheiro. Dá uma má impressão danada.

As superstições podem ter origem numa razão real. Quem passa embaixo de escada, por exemplo, arrisca-se a ter um tijolo ou uma lata de tinta caindo sobre sua cabeça. Melhor rodear, não é mesmo? 

A história de que treze pessoas à mesa dá azar vem do fato que os serviços de mesa, os famosos “faqueiros”, vinham com doze unidades de cada peça; treze pessoas à mesa significava que os anfitriões iam passar maus bocados para acomodar o comensal extra. (Mentira minha: inventei essa agora, mas, graças à Internet, daqui a cem anos ela estará em todos os manuais de folclore.) 

Quebrar um espelho está associado à morte, porque subentende-se que a pessoa que o fez “destruiu a própria alma”, ou seja, a própria imagem refletida. E assim por diante.

A superstição é uma pequena zona de tabu que estabelecemos, conscientemente ou não, em torno de certos gestos, palavras, objetos. É um folclore-de-uma-pessoa-só, se se pode tolerar o oxímoro, uma vez que a palavra “folk” implica num fenômeno coletivo. Todo mundo as tem, embora em geral só saibamos as dos amigos mais próximos e as das pessoas famosas. 

Guimarães Rosa assim descrevia a superstição: “Percepção e arejo, defensivo psíquico automatismo, uma respiração cutânea do espírito, talvez”. 

Nas páginas iniciais de “São Marcos” (em Sagarana) ele faz um censo minucioso dessas intuições auto-normativas. Rosa detestava que mencionassem seu nome em conexão com o Prêmio Nobel. Diferentemente de Borges, que sonhou em vão com o prêmio a vida inteira, o escritor mineiro achava que esse negócio era de mau agouro. 

Achava o mesmo da Academia Brasileira de Letras: durante anos, como é sabido, adiou a própria posse, temeroso de que o coração (que não andava muito bem) não aguentasse. E foi dito e feito: morreu três dias depois de empossado. Premonição? Auto-sugestão? Ou simplesmente a mente dividida em duas, a que cria tabus para si própria e a que os desafia?







domingo, 2 de novembro de 2008

0627) O recado na pedra (23.3.2005)



Minha mãe contava uma história que não sei se ouviu contar, ou se sucedeu com alguém conhecido, no seu tempo de infância. Numa localidade qualquer havia uma pedra grande e pesada, à beira de um caminho, com uma inscrição já meio apagada, que, soletrada com paciência, dizia: “Aquele que me virar, grande cabedal achará”. Quando um sujeito lia aquilo, seus olhos enchiam-se de cifrões, ele botava mãos à obra, pegava um galho de aroeira para fazer alavanca, e, com algum esforço, conseguia virar a pedra. Na face de baixo podia-se ler outra inscrição: “Deus te ajude a quem me virou”. A gente se divertia muito com esta anedota, e acho que uma das primeiras idéias próprias que tive na vida foi imaginar que a peça pregada pelo humorista anônimo só seria possível se a vítima virasse a pedra de novo, deixando a primeira inscrição para cima, para pegar o próximo besta.

Isto me veio à mente agora, quando li a história da maldição de Pedra de Carlisle, uma pequena cidade inglesa. Em 2001, um artista plástico local, Gordon Young, produziu uma obra para um museu da cidade. Ele pegou uma pedra enorme, da altura de uma pessoa, pesando 7 toneladas e meia, e nela copiou um texto antigo: uma maldição proferida em 1525 pelo Arcebispo de Glasgow. (Não me perguntem a finalidade disto, é coisa de artista plástico, e pronto.) Desde sua instalação, a pedra foi violentamente combatida pelos evangélicos locais. E agora tem gente atribuindo à pedra tudo de ruim que têm sucedido a Carlisle: desemprego, surtos da doença da vaca-louca, um incêndio, inundações, e até mesmo a má campanha do time local no Campeonato Inglês.

A maldição do século 16 se voltava contra os “reivers” (forma antiga de “reavers”): assaltantes, estupradores, malfeitores em geral. Dias atrás, o Conselho Municipal se reuniu e decidiu que a pedra não seria destruída, pois não havia nenhum motivo sensato para responsabilizá-la por problemas que acontecem no país inteiro. A verdade é que inscrições em pedra têm uma credibilidade enorme, justificando aquele provérbio de que o escrito na areia passa, e o escrito na pedra fica. Dizem que o túmulo de Shakespeare, em Stratford-upon-Avon, tem escrito na lápide: “Maldito seja quem tocar nestes ossos”, e que até hoje não teve ninguém que ousasse desobedecer. Isso me faz pensar que no túmulo de Tutankamon devia haver algo parecido, só que escrito em hieróglifos egípcios. Ninguém se deu ao trabalho de traduzir, foi logo botando a porta abaixo, e eis aí a “Maldição do Faraó”.

A história da Pedra de Carlisle é curiosa: sugere que uma praga rogada contra criminosos do passado possa prejudicar, hoje, os descendentes de quem a proferiu. Se é para acreditar na eficácia dessas coisas, acho que seria mais sensato considerar a Pedra um talismã, uma proteção contra os bandidos. A reação que houve é típica de quem crê no poder do Desconhecido mas não tem capacidade de dialogar criativamente com ele.



quinta-feira, 19 de junho de 2008

0414) Dez anos do Tetra (17.7.2004)


(Baggio e Taffarel -- foto de Cláudio Versiani)

A imprensa comemora os dez anos do tetracampeonato que a Seleção conquistou nos EUA em 1994. Em algum lugar daqui de casa tenho guardadas 7 fitas VHS com as 7 partidas com que o Brasil ganhou aquele título. Vi o primeiro jogo (Brasil 2x0 Rússia) na casa de meu irmão Pedro, que o gravou e me deu a fita de presente. Considerei isto um bom augúrio, e passei a gravar todos os jogos seguintes. Deu no que deu – mas a CBF até hoje não reconheceu minha decisiva contribuição àquela conquista.

Torcedor é capaz de qualquer macumba-mental para fazer um time ganhar um jogo, ainda mais com um jejum de 24 anos em Copas do Mundo. Ainda hoje uma parte da crítica torce o nariz para aquele título. A Seleção era defensiva, jogou mal, empatou de 0x0 na final, foi pros pênaltes, e ganhou com um erro do adversário! Uma vitória de Pirro, que a gente só comemorou porque, se não comemorasse, quem iria fazê-lo? Os italianos?

E a Seleção não goleou ninguém, o que é um pecado terrível para a nossa arrogância imperialista. Brasileiro adora humilhar as seleções alheias; faz bem ao nosso complexo de colonizado. Ganhar de 1x0 dos EUA (num jogo mais tenso e mais disputado do que a batalha de Verdun) foi considerado uma afronta ao nosso currículo. A imprensa exige o tempo todo que Brasil ganhe “dando espetáculo”. Eu gosto de espetáculo. Gosto do nosso jeito de jogar, que os ingleses batizaram de “The Beautiful Game”, e minhas Seleções preferidas são as de 1970 e 1982. Mas sempre acho que esse pessoal trocaria todo o “jogo bonito” do mundo por uma boa e velha pelada, desde que a gente no final enfiasse 4 ou 5 na Argentina ou na Alemanha.

Amigos meus que estiveram nessa Copa disseram que não houve um jogo sequer que prestasse, devido ao calor. A diferença de fuso horário e a necessidade de ter platéias acordadas na Europa fêz com que a maior parte das seleções tivesse que jogar no-pingo-do-meio-dia, sob o sol da Califórnia e do Texas. Uma testemunha ocular comentou: “O calor não era só insuportável, era indescritível.” Ninguém jogou bem ali. Nem mesmo nós. Nosso único jogo mais-ou-menos foi o 3x2 na Holanda; e o resto da Copa foi uma sucessão de confrontos entre Criciúmas x Figueirenses (com todo respeito).

Momentos que justificaram a Copa: o segundo tempo de Brasil x Holanda; o passeio que a Bulgária deu na Argentina (2x0); os 5 gols do russo Salenko em Camarões; os gols e a autoconfiança de Romário; o gol que o romeno Hagi fêz na Argentina lá da linha lateral; o gol de Bebeto nos EUA; o gol de Branco; a Bulgária despachando a Alemanha de virada (2x1); a defesa crucial de Taffarel no pênalti de Massaro; as participações da Nigéria, Bulgária e Romênia; as atuações individuais de Taffarel, Márcio Santos, Aldair, Dunga, Mauro Silva, Bebeto e Romário. Não foi uma grande Copa, mas a essas coisas se aplica o que dizia Blake Edwards sobre o sexo: “Quando é bom, é a melhor coisa do mundo, e mesmo quando é ruim ainda é bom pra c***”.

sábado, 15 de março de 2008

0245) Superstições (2.1.2004)




Escrevo isto na véspera do reveion. Minha cozinheira pediu que eu comprasse bacalhau para a ceia. Respondi que era melhor fazer um frango. Ela se assustou: “Você tá doido? Frango cisca pra trás! Dá azar!” Como eu já tinha ouvido falar nessa lenda, improvisei uma resposta. “Pelo contrário! Você sabia que na antiga China só se comia frango, na véspera de Ano Novo? Eles acreditam que as aves que ciscam pra trás dão sorte, porque elas estão jogando os ciscos e os problemas miúdos para o passado, e limpando o caminho à frente, para um Ano Novo cheio de paz e prosperidade!” Ela arregalou os olhos e fêz o frango. Que foi devidamente jantado, e até agora não deu azar nenhum, como aliás nunca deu nos anos anteriores. (Ou quem sabe deu azar, sim, e é por causa dele que Gisele Bundchen até hoje não respondeu meus emails).

A ciência é unânime em afirmar que as superstições são uma espécie de placebo, remédios que não fazem nada de bom nem de mau, fisicamente, mas que, quando a gente acredita neles, têm efeito psicológico positivo ou negativo. Eu não acredito em vudu ou em magia negra, mas confesso que ficaria incomodado se, toda vez que eu passasse na minha rua, visse um sujeito todo de preto na calçada, recitando coisas em latim, degolando galinhas e derramando o sangue em cima de um boneco com a minha cara e as minhas roupas, com uma estaca cravada no coração. Não tem ciência que tranquilize o sujeito, não é mesmo?

A melhor maneira de desmoralizar essas crenças é atribuir-lhes o efeito contrário: e este talvez seja o conselho mais importante que deixo para a Humanidade. Se ficar somente este, já me considero um homem realizado. Quem foi que disse, por exemplo, que passar por baixo de escada dá azar? Pelo contrário! O momento em que estamos passando por baixo de uma escada é aquele em que estamos mais protegidos contra a queda casual de um tijolo, uma tábua, qualquer coisa que caindo do vigésimo andar dá uma dor de cabeça danada no cidadão.

Sobre a questão do número 13 eu nem preciso me estender muito, uma vez que, por motivos óbvios, é o número mais propício e bem-afortunado do vocabulário matemático. Mais interessante é a questão do gato preto, tido como de mau agouro. É um preconceito sem razão. A origem deste mito é a mesma do mito das bruxas na Idade Média, as bruxas montadas em vassouras e acompanhadas por gatos pretos. Já foi provado que durante as épocas de peste eram sempre essas mulheres que não adoeciam, o que atraía a suspeita de que fossem elas as causadoras da doença. Não eram: eram mulheres que tinham o hábito (raro naquela época) de varrer a casa, e tinham gatos, que comiam os ratos, que transmitiam a peste. Por isto, sobreviviam. E elas e os gatos pegaram a má fama, totalmente injusta. Como se vê, qualquer superstição, qualquer crença baseada em argumentos meramente simbólicos, pode ser desmontada com uma reorganização de símbolos. Sejamos positivos, pessoal. E feliz 2004.

terça-feira, 11 de março de 2008

0211) Numerologia (23.11.2003)

Há um capítulo de Guerra e Paz em que Pedro Besukhov pega uma tabela numerológica e começa a calcular o valor numérico dos nomes de personagens da época. Ele descobre que ao somar os valores das letras de “L´empereur Napoleón” o resultado é 666; e depois que “L´russe Besukhov” dá o mesmo valor. O que significa isto? Que tanto ele quanto Napoleão são bestas do Apocalipse? Ou que é ele o russo destinado a equilibrar a energia negativa do imperador francês? Ele percebe que seu nome só soma 666 quando é omitido o mesmo “e” omitido no nome anterior, por menos gramatical que seja o resultado (“L´russe”).

Meus leitores já comentaram a minha esquisita fixação em coisas como palíndromos e anagramas. Pois bem, mais esquisita ainda, para mim, é a fixação das pessoas que acreditam em Numerologia, acreditam que os valores numéricos das letras de seu nome têm relação com seu caráter ou com seu destino. Quando eu perco noites inteiras tentando fazer um anagrama de um nome ou de uma frase, estou simplesmente procurando me distrair com um passatempo. Jamais me ocorreria imaginar que se deva a algo mais do que coincidência o fato de “saudade” dá como anagrama “dá adeus”, que “Suassuna” dá como anagrama “suas naus”, que “maconha” dá como anagrama seu sinônimo “cânhamo”. A que se deve isto? Predestinação cósmica? Não: um número limitado de letras do alfabeto, um número limitado de combinações significativas (que formam sílabas e palavras), e um sujeito sem coisa melhor para fazer.

Não conheço nenhum banqueiro ou executivo de multinacional que tenha mudado seu nome de Antonio para Anthonyo para atrair os eflúvios positivos do Universo. Só quem faz essas besteiras é cantor, ator, cantora, atriz. Por que esse pessoal acredita nesses cabalismos-de-bolso? Maldo eu que é pelo fato de serem pessoas que ganham rios de dinheiro, oceanos de atenção, dilúvios de paparicagem, e lá no fundo têm a angustiante sensação de que nada fizeram para merecer aquilo tudo. Gravaram um disco com uma duziazinha de canções sem-você-não-sei-viver, venderam milhões de CDs, ganharam milhões de reais... e acordam no meio da noite, suando frio, achando que aquele sonho vai acabar de repente. Acham que pisaram por acaso numa mina-de-ouro cósmica, e que esse ouro não lhes pertence, vai ser-lhes arrebatado daqui a pouco pelo cosmos em pessoa.

A solução? Apaziguar as potestades invisíveis, cobrir-se de talismãs materiais e imateriais, fechar o corpo, trancar os caminhos, barricar-se por trás de rituais astrológicos ou numerológicos. Aí começa Lúcia a se rebatizar como Lhúcia, Fábio a mudar o nome para Fhábio, Amélias a assinar o nome como Améllya. E o diabo é que dá certo, porque geralmente o segundo CD, que é tão ruim quanto o primeiro, vende a mesma quantidade. Eles respiram aliviados, e acreditam ter firmado um armistício com o Universo. Pois podem dormir em paz: aposto que o Universo até hoje nem percebeu que eles existem.

sexta-feira, 7 de março de 2008

066) O supersticioso (7.6.2003)

Lamento informar aos torcedores do Treze que a conquista invicta do Campeonato Paraibano de 1966 não se deve ao presidente Edvaldo do Ó, nem ao técnico Astrogildo Nery, nem a Cocó, que fêz o gol da vitória na decisão contra o Campinense, nem ao resto do plantel alvinegro (que tinha Antonino na zaga, e um meio-de-campo excelente, com Martinho e Soares). Deve-se ao singelo fato de eu ter visto todos os jogos com uma camisa cor-de-palha, com uma faixa alaranjada, que aliás pertencia ao meu pai, e que usei por acaso no primeiro jogo do campeonato, repeti no segundo, e daí em diante não parei mais.

Insensatez? É possível, mas por via das dúvidas a Taça foi para o PV, e não para o PL. O supersticioso é como um sujeito que manipula um computador sem ter estudado direito seu funcionamento, só que a máquina que ele manipula é a do Destino. A cada manobra que ele faz e dá certo, a autoconfiança dele aumenta. De repente, ele tenta algo... e acontece a catástrofe. É preciso começar tudo de novo.

Em nenhuma atividade humana a superstição é tão vital quanto no futebol. Conta-se que Carlito Rocha, antigo presidente do Botafogo, viu um diretor fazer xixi na perna do outro por acidente, antes de um jogo que o Bota ganhou. Resultado: todo jogo a cena tinha que ser repetida, para constrangimento dos participantes. E o pior é que o supersticioso, como o paranóico, é dono de uma lógica de ferro. Se a ação que dá sorte fôr repetida, mas mesmo assim o time perder, não adianta tentar convencê-lo. Ele vai dizer: “É porque a gente não fêz direito: erramos a posição, ou a hora era outra, ou a camisa foi lavada...” Perguntem a Antonio Lopes, técnico do Vasco, que beija uma medalhinha 250 vezes por jogo.

O supersticioso acredita estar em convênio com as forças sobrenaturais. Não me refiro ao estereótipo do supersticioso – o que tem medo de gato preto, não passa por baixo de escadas, enfim, o que aceita passivamente esses memes do folclore. O verdadeiro supersticioso cria suas próprias superstições, personalizadas, “customizadas” como diz a galera informática. Conheço gente que não sobe num palco sem antes beber um copo dágua de olhos fechados e acender uma vela. Conheci jogadores que em hipótese alguma usavam uma camisa com determinado número. Tem gente que, se levar uma pancada no lado direito, precisa dar uma pancada parecida no lado esquerdo, para “reequilibrar”. Há pessoas que não pisam nas riscas do calçamento, que não podem ver um chinelo emborcado sem desemborcá-lo, que fecham toda tesoura aberta que aparecer na sua frente. Cada uma dessas pessoas (sou uma delas) vive num universo mágico de obrigatoriedades e proibições, com as quais se protegem sei lá de quê, e seguem vida afora, equilibrando-se na corda-bamba dessa ficção benigna, que a cada dia e a cada instante lhes assegura que sim, que vá em frente, que tudo está dando certo, e vai continuar assim – desde que ele não cometa nenhum erro fatal.