Mostrando postagens com marcador Aderaldo Luciano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aderaldo Luciano. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de junho de 2020

4590) Ariano Suassuna: 93 anos (16.6.2020)




Uma das bandeiras defendidas por Ariano Suassuna ao longo de toda sua vida foi a da poesia popular, ou, como ele costumava chamar, o Romanceiro Popular Nordestino. Ele achava esta expressão mais descritiva e mais exata do que, por exemplo, “literatura de cordel”. Esta expressão que designa os folhetos de feira, pendurados num cordel esticado horizontalmente, é um termo que veio “de fora”, era usado pelos pesquisadores, não pelos que faziam e vendiam os folhetos. (Sim, sei que isto é discutível; passemos adiante.)

Ariano chamava isso de Romanceiro Popular Nordestino chamando a atenção, não para o formato gráfico dos livrinhos, mas para a forma e o conteúdo dos versos. Os versos, afinal, são palavras, que podem ser reproduzidas de mil maneiras. A Chegada de Lampião no Inferno é literatura de cordel quando vem num folheto; continua a sê-lo se for publicada e lida numa tela de computador? Num livro de luxo, papel couché?

Romanceiro Popular Nordestino é uma expressão mais inclusiva, porque puxa para dentro de si não apenas os folhetos de cordel mas os romances recitados de memória, os poemas ibéricos que a memória nordestina conserva há séculos, e talvez alguns deles nem sejam mais lembrados em Portugal. Sobrevivem aqui, na voz das cantadeiras de antanho, como a norte-riograndense Dona Militana.


No Romance da Pedra do Reino (1971), Ariano faz algumas divertidas classificações da poesia popular, através do narrador do livro, D. Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, e de outros poetas que com ele contracenam.

Um desses poetas é o famoso João Melchíades Ferreira da Silva, o “Cantor da Borborema”, autor de uma das versões do Romance do Pavão Misterioso. (Uma biografia de Melchíades foi deixada inédita pelo meu amigo Arievaldo Viana, recentemente falecido em Fortaleza; espero que os editores se mobilizem para que esse importante trabalho não se perca.)

Ver aqui:

Na página 58 da Pedra do Reino (4a. edição), Quaderna, que foi discípulo do grande cantador, conta assim:

O velho João Melchíades ensinou-nos, ainda, que entre os romances versados havia sete tipos principais: os romances de amor; os de safadeza e putaria; os cangaceiros e cavalarianos; os de exemplo; os de esperteza, estradeirices e quengadas; os jornaleiros; e os de profecia e assombração.
(Folheto XII)




Classificações deste tipo são subjetivas, mas a vantagem de Ariano é que nesse tipo de taxonomia literária ele sempre procurou a simplicidade e a síntese. Numa publicação da Fundação Casa de Rui Barbosa (Antologia – Leandro Gomes de Barros 2, Rio, 1977) ele sugere sua classificação “oficial”, por assim dizer (já que a classificação acima é da dupla Melchíades/Quaderna):

1)      Ciclo heroico, trágico e épico
2)      Ciclo do fantástico e do maravilhoso
3)      Ciclo religioso e de moralidades
4)      Ciclo cômico, satírico e picaresco
5)      Ciclo histórico e circunstancial
6)      Ciclo de amor e de fidelidade
7)      Ciclo erótico e obsceno
8)      Ciclo político e social
9)      Ciclo de pelejas e desafios

Para quem tem de lidar com um universo de milhares de autores e dezenas de milhares de títulos essas classificações são úteis, desde que o classificador lembre, o tempo todo, que praticamente qualquer folheto pode ser igualmente classificado em mais de um ciclo. Um folheto sobre a morte de Lampião, por exemplo, tanto pode ser visto pelo lado “circunstancial” (5) quanto pelo lado “heroico, trágico e épico” (ciclo 1), e assim por diante.



É este aspecto, aliás, que faz o poeta Aderaldo Luciano erguer um alerta contra o perigo do foco excessivo nos ciclos, como se um folheto, obra literária personalíssima, fosse apenas ilustração de uma fórmula. Antes de se enquadrar em qualquer das fórmulas acima, o folheto traz, por cima do seu DNA coletivo, o DNA pessoal e intransferível do seu criador. Ninguém confunde um folheto de Leandro com um de José Pacheco, nem um folheto de Marco Haurélio com um de Rouxinol do Rinaré. As vozes são pessoais.

Voltando a Ariano, ele faz seus personagens principais (Quaderna, Samuel e Clemente, os membros da “Academia de Letras dos Emparedados do Sertão do Cariri”) se engalfinharem nas mais estéreis discussões terminológicas, a respeito de miudezas dessa qualidade. Depois de ouvir a classificação proposta por Melchíades, Quaderna já começa a desdobrá-la e recombiná-la:

Assim firmou-se em mim a importância definitiva da Poesia, única coisa que, ao mesmo tempo, poderia me tornar Rei sem risco e exalçar minha existência de Decifrador. Anexei às raízes do sangue aquela fundamental aquisição do Castelo literário, e continuei a refletir e sonhar, errante pelo mundo dos folhetos. Um dos tipos que eu mais apreciava eram os de safadeza, subdivididos em dois grupos, os de putaria e os de quengadas e estradeirices. Dos primeiros, o que mais me entusiasmava eram umas “décimas” do Cantador Leandro Gomes de Barros, glosadas sobre o mote:

Qual será o beco estreito
que três não podem cruzar?
Só entra um, ficam dois,
ajudando a trabalhar!   (Folheto XIV)


Com esses personagens simultaneamente acadêmicos e picarescos, Ariano vai propondo classificações meio delirantes, e que talvez por isso mesmo nos façam experimentar ali o peso das verdades provisórias da literatura. Como quando Melchíades volta a dizer, explicando à trinca de acadêmicos:

Existe o Poeta de loas e folhetos, e existe o Cantador de repente. Existe o Poeta de estro, cavalgação e reinaço, que é o capaz de escrever os romances de amor e putaria. Existe o Poeta de sangue, que escreve romances cangaceiros e cavalarianos. Existe o Poeta de ciência, que escreve os romances de exemplo. Existe o Poeta de pacto e estrada, que escreve os romances de espertezas e quengadas. Existe o Poeta de memória, que escreve os romances jornaleiros e passadistas. E finalmente, existe o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias e assombrações. (Folheto XXXVI)

Pode parecer excessivo, mas nada é excessivo quando a gente se depara com o hiperbolismo paraibano de Quaderna, sempre pronto a se superar na próxima página:

Assim, sou o único escritor e Escrivão-brasileiro a ter integralmente correndo em suas veias o sangue árabe, godo, negro, judeu, malgaxe, suevo, berbere, fenício, latino, ibérico, cartaginês, troiano e cário-tapuia da Raça do Brasil!  (...)  Depois de pronto e devidamente versado, o meu será, portanto, o único Romance-acastelado, cangaceiro-estradício e cavalariano-bandeiroso escrito por um Poeta ao mesmo tempo de pacto, de memória, de estro, de sangue, de ciência e de planeta.  (...)  Por isso ninguém pode realmente contar a história de Sinésio, ninguém sabe qual foi, mesmo, sua verdadeira direção e seu verdadeiro destino, de modo que ninguém, exceto eu, pode contá-la, e ninguém, portanto, exceto eu, pode vir a ser o verdadeiro Gênio da Raça do Brasil! (Folheto LIX)

Modéstia à parte.


(foto: Gustavo Moura)


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

4419) Algumas leituras de 2018 - I (1.1.2019)




Aqui vão algumas das minhas leituras de 2018. Podem valer como indicação para quem se interessa pelos mesmos assuntos. Muito do que leio são leituras de trabalho, apenas para informação. Algumas acabam se destacando. Também só comentarei abaixo os livros que li do começo ao fim. Minha leitura é fragmentária: de cada dez romances que começo, só termino um. E não é que os outros nove sejam maus livros; em geral é somente porque naquele momento não estou com vontade de ler aquele tipo de livro. O que leio, leio por prazer. Ninguém me paga e ninguém me cobra.



CULTURA POPULAR

Minhas pesquisas recentes sobre cordel e poesia popular passaram por títulos que recomendo com gosto.

O roteiro do verso popular, do português A. A. Freire, faz um breve apanhado das ligações entre a poesia popular brasileira e portuguesa, dando destaque a alguns personagens pouco conhecidos.  Deveríamos ler mais os registros portugueses sobre esse tipo de poesia. É sempre bom ver o que temos em comum com eles, e o que temos de irreprimivelmente nosso.

História da Literatura de Cordel, de Carlos Dantas, é uma pesquisa detalhada e bem documentada sobre as primeiras décadas de nossa poesia, e os primeiros pioneiros como Leandro, Chagas Batista e Athayde. Surgida de uma tese de doutorado, levanta com bastante rigor nomes, datas, locais, depoimentos e versos. Há pouca coisa escrita sobre esse período de cem anos atrás, e livros com este nível de dedicação são sempre bem vindos.

Uma História do Samba: as Origens, vol. 1 (Cia. Das Letras) de Lira Neto. O que foi dito acima vale também para o samba, embora a bibliografia neste caso seja muito maior. Lira Neto reconstitui episódios cruciais na transição musical do maxixe e outros ritmos para o que chamamos samba, destacando a origem social e os traços de personalidade dos grandes sambistas.

Água da Mesma Onda (Fortaleza: Editora Íria, 2011), de Francisca Pereira dos Santos, reproduz e comenta a correspondência, em prosa e em verso, entre Patativa do Assaré e a poetisa Bastinha. Mostra não apenas a presença meio obscura e discreta das mulheres no universo basicamente masculino da poesia do Sertão, como também o hábito, até hoje pouco analisado pelos estudos acadêmicos, de escrever cartas em versos, o que mostra a disseminação da dicção poética numa população de leitores de poesia que não se atrevem a se apresentar publicamente como poetas.

Almanaque de Brasilidades (Rio, Ed. Bazar do Tempo) , de Luiz Antonio Simas. Título auto-descritivo para um enorme apanhados de nomes, fatos, anedotas, definições, listas, registros cronológicos e históricos. Simas é um grande conhecedor de cultura popular, principalmente do samba e das religiões de matriz africana. Seu almanaque é para ser lido ao acaso, abrindo e colhendo o que se oferecer. (Embora eu o tenha lido do começo ao fim sem queixas.)



ROMANCE POLICIAL

Em matéria de livro policial, li pouco este ano.

O ano novo de Montalbano (Ed. Record) de Andrea Camilleri é mais um título das aventuras do Comissário Montalbano, de uma cidadezinha da Sicília. Desta vez é uma coletânea de contos, com algumas pequenas tramas engenhosamente concebidas, e principalmente os retratos inesperados e verossímeis de personagens miúdos. Já comentei outros livros da série aqui no blog.

Fogo na Carne (“Fire in the Flesh”), Edições de Ouro, de David Goodis, é um romance noir desse autor pouco convencional, que tinha leitores fiéis nos EUA dos anos 1940-50, e na França mereceu biografia e estudos críticos. A narrativa acompanha as conseqüências de um incêndio proposital com vítimas, no submundo de Filadélfia. É uma dessas histórias que decorrem praticamente ao longo de uma noite insone, com perseguições, violência, traições, personagens marginais escapando por pouco à polícia e à própria tendência autodestrutiva.

He Who Whispers de John Dickson Carr é justamente o contrário: um mistério detetivesco à moda clássica, na Londres pós-guerra, com um crime insolúvel do passado sendo deslindado no presente pelo detetive Dr. Gideon Fell e desestruturando as vidas de uma porção de pessoas. Como nos outros mistérios de Carr, muita engenhosidade, prestidigitação narrativa, uma certa concessão à coincidência e a alguma improbabilidade psicológica... Mas, como sempre, uma história de eventos inexplicáveis cuja explicação final nos deixa sem o que dizer.


POESIA BRASILEIRA

À Cidade (Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora) de Mailson Furtado, ganhador do Prêmio Jabuti, é um livro-poema esmiuçando os minutos e os anos da vida numa cidadezinha do sertão nordestino, num ritmo recursivo cheio de sutilezas. Um livro promissor de um poeta jovem.

Sertão Japão (Ed. Casa de Irene) de Xico Sá e Grãos de Esperança (300 haikais) (Ed. Chiado) de Wilson Guerreiro Pinheiro são uma parelha de livros sobre a qual ainda pretendo escrever com mais vagar. Os dois poetas usam o haikai para comentar a natureza, as pessoas e a psicologia do Sertão. Xico com mais liberdade formal, Guerreiro com fidelidade estrita ao “modelo guilherme-de-almeidiano” do hai-kai. Ambos com flashes memoráveis de observação e delicadeza.

Anamnese (Ed. Lacre) de Alexei Bueno é mais um livro que me recupera a fé na poesia de forma fixa, as estrofes rimadas e metrificadas, que predominam aqui. Uma forma da qual Alexei é um executor da maior competência, num começo de século cada vez mais entregue às estrofes curtas de versos livres com rima eventual.

Lendário Livro (Editora Rubra) é uma antologia de que participei ao lado dos amigos Toinho Castro, Numa Ciro, Nonato Gurgel, Aderaldo Luciano e Otto. Dicções diferentes de uma trupe com diferentes focos, diferentes repertórios, e muita coisa em comum.

Quero morrer na caatinga (Ed. Areia Dourada) de Aderaldo Luciano é talvez o melhor livro de poemas do bardo de Areia. Um olhar sem ilusões e sem medo diante de um mundo em turvação, vazado em dísticos implacáveis como pancadas de enxada em terra dura.

(continua amanhã)










domingo, 3 de fevereiro de 2013

3100) Definições de cordel (3.2.2013)





O estudo recente de Aderaldo Luciano, Apontamentos para uma história crítica do cordel brasileiro (2012) traz de volta o eterno problema de definir “o que é literatura de cordel”. Problema tão espinhoso quanto o de dizer “o que é ficção científica”, fantasma que me assombra há décadas, ou de chegar a um consenso sobre “o que é rock and roll”.  Vivo feito um peregrino, fazendo o rodízio entre esses três templos erguidos a deuses invisíveis, deuses que cada um dos crentes afirma ter enxergado mas não tem palavras para descrever.

Aderaldo questiona, com razoável objetividade e clareza, a definição proposta por Veríssimo de Melo: “Cordel é poesia narrativa, popular, impressa”. É uma dessas definições que à primeira leitura parecem não apenas corretas como óbvias, mas que não resistem a um exame, ou, pior, à comparação com exemplos concretos. Veríssimo deveria ter relativizado essa afirmação como expressões tipo “predominantemente... em geral... na maior parte das vezes...”, etc. Mesmo nos casos em que o cordel pertence claramente a uma categoria, existem bordas dele que estão cruzando alguma fronteira e pertencendo a outra coisa. É normal. É da natureza da arte, sempre movida a individualidades, sem obedecer a um Comitê Central.

Encontrar uma definição precisa para um gênero, modo ou estilo literário é o sonho (e às vezes o pesadelo) de todo acadêmico, e de todo estudioso diletante como eu. Mas é difícil encontrar definições precisas, científicas, para os fenômenos da cultura, que tendem a ser heterogêneos, e não homogêneos. Na literatura e nas artes em geral é muito forte o impulso da originalidade, da diferença, da novidade, e isso em muitos casos arrasta cada nova obra para longe daquele “miolo” compacto em que tudo é homogêneo e as obras são parecidas entre si. Naquele miolo, a definição funciona maravilhosamente. Na periferia, no entanto, vão surgindo cada vez mais obras cujo autor pensou: “Vou fazer uma coisa que ninguém fez ainda”. E a definição vai pro espaço.

Em seu ensaio clássico sobre literatura fantástica, Tzvetan Todorov lembra que o conceito de “gênero” na Literatura foi pedido de empréstimo à Biologia, mas que os dois casos são muito diferentes: “Existe uma diferença qualitativa quanto ao sentido dos termos ‘gênero’ e ‘espécime’ conforme sejam aplicados aos seres naturais ou às obras do espírito. No primeiro caso, o aparecimento de um novo exemplar não modifica de direito as características da espécie; (...) o mesmo não acontece no domínio da Arte ou da Ciência. A evolução segue aqui um ritmo completamente diferente: toda obra modifica o conjunto dos possíveis, cada novo exemplo muda a espécie”.