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quarta-feira, 11 de março de 2026

5225) O amor e o dinheiro (11.03.2026)



 
A crítica literária já glosou e reglosou o tema da “contabilidade afetiva” em Machado de Assis, o tema das afeições avaliadas por critérios monetários ou financeiros. Parece que Machado tinha um prazer mórbido em mostrar seus personagens comparando amores a fortunas, troca de afagos a câmbio de moedas. 
 
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, queixa-se (ou vangloria-se) Brás Cubas. Amor e dinheiro andam de mãos dadas, ou não conseguem andar. 
 
O conto “Anedota Pecuniária” é uma das melhores ilustrações desse sentimento. Publicado na Gazeta de Notícias (6-19-1883), foi recolhido depois em Histórias Sem Data (1884). É a história de Falcão, um homem que ama o dinheiro, e aqui chegamos ao osso da questão. Outros personagens podem amar uma mulher rica; Falcão vai direto ao ponto, e ama a riqueza em si. 
 
Logo nas primeiras páginas, o autor, que ainda está nos explicando a alma desse sujeito, narra como ele tirou a dúvida de um garoto, na rua, sobre se uma nota de cinco mil réis era verdadeira ou falsa. 
 
Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se disso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou trêmulo na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...
-- É falsa? - perguntou com impaciência um dos meninos.
-- Não; é verdadeira.
-- Dê cá - disseram ambos.
Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por ele, disse-lhe com a maior candura do mundo:
-- Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto ver.


 

É um solteirão (“Casar era botar dinheiro fora”), mas o destino lhe põe no colo uma sobrinha de 11 anos, após a morte do irmão e da cunhada. Ele cria a órfã, Jacinta, com todo carinho. Cerca a menina de cuidados. 
 
Aos treze [anos], Jacinta mandava na casa; aos dezessete era verdadeira dona. Não abusou do domínio; era naturalmente modesta, frugal, poupada. 
 
Machado tem uma adjetivação curiosa. Quando ele diz “modesta, frugal, poupada”, são qualidades à primeira vista tão próximas que um professor de workshop literária mandaria cortar uma ou duas. São redundantes. Ao mesmo tempo, porém, dão-nos a idéia de que as qualidades da menina-moça não eram muito expansivas, muito espaçosas; eram qualidades muito próximas umas às outras, como pessoas numa madrugada chuvosa, num ponto de ônibus. 
 
Falcão cultiva essa filha (que não lhe custou muito investimento) até pô-la moça e visível aos olhos do amigo Chico Borges, que volta e meia aparece para jogar cartas. Chico e a moça começam a encompridar olhares, mas quando Falcão recebe a notícia do namoro não reage bem. 
 
Vem aí o lado contemporâneo de Machado. O leitor de hoje que o folheia pela primeira vez pensa: “Quem diria que o povo daquele tempo era tão moderno, tão 2026, tão Faria Lima!”.  A ver: 
 
Era isto em 1869. No princípio de 1870 Falcão propôs ao outro uma venda de ações. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um só lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente que andava pensando em oferecer-lhe a mesma cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o contrato a sessenta dias. Falcão estava tão contente, ao voltar do negócio, que o sócio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacinta. 
 
Quem são Falcão e Chico Borges? São os famosos investidores, aqueles indivíduos que têm algum dinheiro sobrando, in-ativo, des-empregado, sub-utilizado, capital descarregando a bateria por falta de uso. Esse dinheiro tem que ser investido em alguma coisa. Coisas, em sessenta dias, podem se valorizar, podem também se desvalorizar, e temos aqui a receita de um jogo mais interessante do que o voltarete ou a canastra. 


 
É na inebriação do investimento financeiro que Chico Borges pede a mão da moça, mas Falcão é avarento de seus afetos, e recusa. A vida, porém, é cheia de esquinas, e às vezes é dobrando esquinas que rodeamos o quarteirão e, sem ter recuado um passo, nos encontramos de novo numa cena já vivida. Porque, sessenta dias depois... 
 
Entretanto, o sol, modelo de funcionários, continuou a servir pontualmente os dias, um a um, até chegar aos dois meses do prazo marcado para a entrega das ações. Estas deviam baixar, segundo a previsão dos dois; mas as ações, como as loterias e as batalhas, zombam dos cálculos humanos. Naquele caso, além de zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o esperado lucro de quarenta contos numa perda de vinte.
 
Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de gênio. Na véspera, quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento, propôs ele custear todo o deficit, se lhe desse a sobrinha. 
 
Justiça seja feita a Falcão: não vendeu a sobrinha ali, no quente da oferta. Negou-se, a princípio; foi para casa, consultou-se com a Insônia (“essa musa de olhos arregalados”, como dizia Dom Casmurro) e somente na manhã seguinte correu à casa de Chico para fechar o acordo. 
 
Jacinta e Chico Borges se casam, mas o escritor, que também gosta de revisitar situações, faz com que outra sobrinha órfã, Virginia, venha parar sob a asa de Falcão, após a morte de uma irmã viúva. E repetem-se ciclicamente os afetos... os cuidados recíprocos... a vigilância ciumenta (“...janelas cerradas, advertências à preta, raros passeios, só com ele e de olhos baixos.”)... 


 
Falcão gosta sinceramente da segunda menina, tal como gostara da primeira; mas tudo nele é investimento e planilha. Ele sabe que precisa planejar a própria morte, e vez em quando prepara o espírito de Virginia. 
 
-- Esta há de fechar-me os olhos - repetia ele consigo mesmo. Um dia, chegou a pensá-lo em voz alta: - Não é verdade que você me há de fechar os olhos?
 
-- Não diga tolices!
 
Conquanto estivesse na rua, ele parou, apertou-lhe muito as mãos, agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria provavelmente com os olhos úmidos.
 
Pobre de Falcão, a rua era outra mas o quarteirão tinha o mesmo formato. Na vida de Virginia aparece um tal de Reginaldo, que já vem de caso pronto, já vem planejando pedido, noivado, e o mais que se segue. Reginaldo é moderno, mora em New York e economiza em dollars (Machado grafa assim). E logo na primeira conversa, espalha trunfos na mesa.  
 
Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New York, com trinta anos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro horas depois visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o Reginaldo era fino e prático; atinou com a principal corda do homem, e vibrou-a. Contou-lhe os prodígios de negócio nos Estados Unidos, as hordas de moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falcão ouvia deslumbrado, e pedia mais. Então o outro fez-lhe uma extensa computação das companhias e bancos, ações, saldos de orçamento público, riquezas particulares, receita municipal de New York; descreveu-lhe os grandes palácios do comércio...
 
Um homem não pode lutar contra o Destino, ainda mais quando esse Destino na verdade é ele mesmo. Falcão deixa-se levar. Deixa-se levar à casa de Reginaldo para ver sua coleção de moedas do mundo inteiro, que deve ser algo mais deslumbrante do que uma coleção de revistas de ficção científica dos anos 1940, ou de folhetos de cordel dessa mesma safra. Falcão fica em êxtase.
 
Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a coleção metida num móvel envidraçado por todos os lados. A surpresa de Falcão foi extraordinária; esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de bronze e de cobre.
 
Falcão mirou-as primeiro de um olhar universal e coletivo; depois, começou a fixá-las especificamente. Só conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as todas: florins, coroas, rublos, dracmas, piastras, pesos, rupias, toda a numismática do trabalho, concluiu ele poeticamente.
 
-- Mas que paciência a sua para ajuntar tudo isto! - disse ele.
 
-- Não fui eu que ajuntei - replicou o Reginaldo -; a coleção pertencia ao espólio de um sujeito de Filadélfia. Custou-me uma bagatela: - cinco mil dollars.
 
Na verdade, valia mais. Falcão saiu dali com a coleção na alma; falou dela à sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para toucá-la outra vez. 
 
Moedas, amantes, não é tudo a mesma coisa?... Não contarei o final do conto, porque o leitor já o adivinha, mas vale a pena olhar no original a puxada de tapete de Machado de Assis nas expectativas do seu leitor de 1883, numa piscadela metalinguística. 
 
Fala-se muito na importância do amor sincero, mas pergunto se o amor de um avarento pelo seu ouro não será sincero também. É assim o “nosso homem” Falcão, cujo ascetismo me lembra o banqueiro Daniel Dantas, bilionário que mantém em casa um sofá rasgado e só se alimenta de arroz e batatas (segundo os jornalistas que o têm entrevistado). 


 
O Rei Midas da mitologia transformava em ouro tudo em que encostasse a mão. Homens como Falcão transformam em preço tudo que tocam com a mente ou com o olhar. É o olhar do inseto, já nos advertia Philip K. Dick; ou o olhar do viciado em drogas, que ao ver um objeto ou uma pessoa, pensa logo: “Por quanto posso vendê-lo na primeira calçada? Quantos gramas de droga isso aí pode me fornecer?”.
 
Entretanto [diz Machado], basta ver este olhar felino, estes dois beiços, mestres de cálculo, que, ainda fechados, parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: ele faz arte pela arte, não ama o dinheiro pelo que ele pode dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguém lhe vá falar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem comenda. Não se ganha dinheiro para esbanjá-lo, dizia ele. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação. 
 
O amor do tipo “arte pela arte” não é o amor pelo consumo conspícuo, pela esbórnia, pela ostentação, pela orgia. É o amor pelo Número.


 
 



sábado, 12 de junho de 2021

4713) O pantelho do detalhe (12.6.2021)




(foto: Mari Lezhawa)

A gente estava numa mesa de restaurante, eram pessoas amigas entre si, professores de uma Universidade, e eu estava lá meio de convidado. Entraram numa discussão qualquer, e esse cara começou a exclamar:
 
– Pessoal, por favor! La paz, la paz!
 
Houve uma gargalhada geral. O fato de ele dizer em espanhol não me chamou a atenção, era apenas um modo de dizer, né? Como quando alguém nos entrega um objeto e a gente diz: “Gracias!”. Um enfeite verbal pra dizer algo comum.
 
Depois eles me explicaram. Era uma gíria da turma deles, porque anos atrás eles tinham recebido ali na Universidade, para dar uma palestra, um professor latino-americano, com muitas homenagens e salamaleques. No dia seguinte o professor ia embora, rolou um almoço de despedida. Aquelas situações em que uma turma de admiradores “bebe cada palavra” do visitante ilustre. Imagine um grupo de psicanalistas recebendo Jacques Lacan.
 
Alguém fez uma pergunta importante e o ilustre começou a responder algo como:
 
– Esta é uma questão muito grave. Para mim, o fator decisivo disto, para Latinoamérica, encontra-se na Bolívia. Vocês conhecem a Bolívia?
 
– Já estive na capital – disse um professor. – Passei uma semana em La Paz.
 
– Perdão – disse outro professor. – A capital da Bolívia é Sucre.
 
– Como assim? – disse o primeiro. – Todo mundo sabe que é La Paz.
 
– La Paz é apenas a sede do governo – disse um terceiro.
 
– E então? – disse o primeiro. – A sede do governo é a capital. É La Paz, portanto.
 
– Não, é Sucre – disse um quarto. – Chama-se capital constitucional.
 
– O país tem duas capitais, então? – perguntou uma professora. – E como é que faz quando---
 
– De acordo com a Constituição, só tem uma – interrompeu o quarto professor. – Que é Sucre.
 
– Vá resolver alguma coisa com o governo de lá, e vão lhe mandar para La Paz – disse o primeiro, que já tinha visitado a cidade.
 
O resultado (me contaram) é que todos se engalfinharam na discussão desse ponto. O almoço acabou, o visitante ilustre teve que partir porque o carro veio buscá-lo, e ninguém ficou sabendo qual era o fator decisivo para Latinoamérica. Desde essa época, eles criaram a expressão “La Paz” para implorar: “Gente, está-se discutindo uma coisa mais importante, não é preciso esclarecer esse detalhe agora”.


O problema é que existem seres humanos, virginianos em sua maioria, que não permitem o menor erro ou imprecisão passar diante dos seus olhos. Tem que parar o desfile de 7 de setembro inteiro, fazem com que dez mil estudantes fiquem marcando passo à espera, enquanto um inspetor se insinua no meio de um pelotão para ajeitar uma trunfa que o vento assanhou. Proibido qualquer coisa fora do lugar! – eis a palavra de ordem.
 
É uma característica do espírito nerd essa obsessão pelo detalhe. O nerd é o resultado de uma mutação genética destinada a resolver importantíssimos problemas da Humanidade numa era de aceleração tecnológica onde mais e mais coisas atingem um nível inédito de complexidade, em virtude de especificações decididas num micro-nível por força do uso de computadores. Precisamos de mentes humanas capazes de distinguir essas nuances.
 
O nerd é um filtro de exatidão. É como um browser que recusa uma senha ou uma URL de 150 dígitos se um deles estiver errado. A gente não pode convencer o browser de que “é praticamente a mesma coisa”. O browser foi programado por um nerd e lhe dirá: “Na verdade, é teoricamente a mesma coisa, mas na prática há a diferença de um dígito, e isto invalida o comando.”
 
Não duvido de que ainda veremos mesas-redondas em eventos científicos com três ou quatro nerds comparando diante da platéia suas versões conflitantes da dízima de “Pi” ou do algoritmo de frequência dos números primos. O rapaz da mesa de som poderá se perguntar qual é a serventia disso para a espécie humana, mas ele está errando o alvo. A espécie humana surgiu para ser capaz de um dia (século vinte, vinte e um, por aí) produzir esses indivíduos capazes de negar o Oscar a um filme porque na cena tal aparece a sombra de um microfone.


Deus está nos detalhes, diz um velho provérbio, e o Diabo está na percepção deles. Esses indivíduos catadores-de-lêndeas são capazes de perceber o que é invisível a todos. Quando incomodam, não o fazem por mal. Você mostra a um deles a foto de sua mãe vestida de noiva e ele diz: “A manga do vestido está desfiada”. Não é culpa dele. Está em seu DNA.
 
Não esqueço uma discussão que vi a respeito de um filme de faroeste. Chamamos o filme de faroeste, e foi o quanto bastou para que um debatedor erguesse o dedo e nos lembrasse que a história era ambientada num Estado qualquer, que já não lembro, mas que ficava na Costa Leste dos EUA.
 
“Sim,” disse alguém, “mas trata-se da história de bandidos que assaltam uma diligência e se refugiam numa fazenda, sequestrando a família do fazendeiro, até que os vaqueiros vêm em socorro do patrão e o libertam. Fazenda, gado, vaqueiros, revólveres, tiroteios, cavalos: é um faroeste”. “Mas, como, se a história se passa no Leste?” insistia o rapaz. Isso foi há uns 40 anos, e provavelmente ainda estão lá, as barbas brancas arrastando no chão sobre as teias de aranha, e não chegaram a um acordo.


Eles são sensíveis à minima incoerência. São como o canário que os trabalhadores nas minas de carvão levam consigo para dentro do poço. O canário é excessivamente sensível a qualquer emanação de gás, e quando um deles cai duro é sinal de que está na hora de evacuar a mina, antes que o gás comece a afetar os seres humanos.
 
Os indivíduos detalhistas são assim: eles são sensíveis a defeitos, erros, incoerências, imperfeições, inexatidões de todo tipo, e antes que essas coisas cheguem a um ponto de incomodar os seres humanos, eles acusam o golpe, ficam pálidos, com sudorese, apontando a página de um livro: “Faltou a crase, faltou a crase!”.
 
Por isso, quando a gente escreve ou quando fala em público, precisa estar sempre na defensiva. Pode haver um deles na platéia. Qualquer afirmação generalizante, tipo “como sabemos, o brasileiro gosta muito de música”, fará erguer-se um braço no auditório e com ele o brado: “eu não gosto!”. Para prevenir ressalvas desse tipo foram criadas expressões atenuantes como “em geral”, “na maioria dos casos”, “em grande parte dos casos”, “normalmente”, “cerca de “, “aproximadamente”... Servem para exorcizar esses indivíduos prontos a brandir uma exceção toda vez que a gente enunciar impensadamente uma regra.
 
E então o jeito é dizer “La Paz!...” – e ir em frente.
 






domingo, 25 de abril de 2010

1954) A mania de exatidão (13.6.2009)




(quadro de Georges Seurat)

Acho incômodo conversar com pessoas de mentalidade muito minuciosa, cuja mente parece uma folha de papel milimetrado, onde tudo tem que ocupar uma coordenada precisa, punctual (para distinguir de “pontual”, cumpridor de horários). 

Chega a conta do bar, para uma turma de cinco pessoas, eu dou uma olhada e anuncio a todos: “Deu 130”. Meu colega do lado corrige: “Não, deu 132”. Bem – se é para dividir por cinco, a diferença vai se diluir em meros centavos, aos quais não dou importância. 

Alguém pergunta: “Que horas são?”. Eu digo: “Duas e meia”. O outro corrige: “Na verdade, duas e 28”. E assim vai. 

Não digo que ele está errado. Está mais certo do que eu. Mas em certas circunstâncias quem pergunta não quer o número exato, quer apenas ter uma idéia. Quer saber se a conta deu mais de cem reais. Ou se já passam das duas horas. Eu, pelo menos, quando pergunto, pergunto com esse intuito.

É diferente, claro, quando precisamos lidar com uma cifra exata – para anotar no canhoto o valor de um cheque, ou para saber se vamos chegar a tempo para o filme que começa às oito em ponto. Em casos assim, qualquer minutinho faz diferença. 

Mas o maníaco por exatidão não relaxa. “Deu muita gente no Fla-Flu?”, pergunta alguém. Eu respondo: “Mais de trinta mil”. Por mim, tá respondido. Não foram 10 mil, nem 50 mil. Mas o colega acode, pressuroso, jornal em punho: “31.230 pagantes, 34.870 presentes”. Nada contra – mas não creio que a resposta dele responda aquela pergunta mais do que a minha.

Também ocorre no discurso literário. Vez por outra leio num romance qualquer: “Entramos no escritório dos advogados e fomos recebidos por um homem alto, aparentando 41 anos de idade...” Por que essa exatidão? Qual a diferença entre aparentar 40 e aparentar 41 anos? 

Quando eu avalio idades das pessoas, geralmente é em saltos de 5 anos. Esse aqui tem cara de 30, o que está ao lado parece ter 35, o de lá deve ter uns 40... É uma faixa de probabilidade. Não consigo imaginar que detalhes podem dar a alguém essa sintonia fina de perceber diferenças de um ano apenas.

Os escritores realistas, no entanto, são viciados em exatidão. Acham que isto confere credibilidade. “Eu estava ao telefone quando entrou na sala uma morena curvilínea, de cabelos longos, de 1,77 de altura...” Como ele sabia que não eram 1,76? 

Note que se o discurso literário é feito em nome do chamado “narrador onisciente” tudo bem, porque este, por convenção literária, pode nos informar até a quantidade de átomos que tem em cada um dos fios de cabelo desta beldade. Mas que personagem é este que num relance fotografa a altura exata de outra pessoa? O mundo excessivamente nítido em que vivem me incomoda. 

No que se refere a números, sou meio difuso. A menos que haja uma necessidade de ordem prática, objetiva, capto apenas os grandes volumes e as grandes massas, não ligo para contornos e detalhes. Como dizia Caetano, “pense Seurat, pense impressionista”.





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

1671) A Comilança (20.7.2008)



Do meu tempo de faculdade, lembro de aulas sobre “stakhanovismo”. Stakhanov era um operário-padrão na ditadura estalinista na União Soviética. A URSS vivia se esfalfando para sair de uma economia feudalista e competir com o capitalismo norte-americano. Era preciso industrializar o país da noite para o dia, era preciso bater recordes de produção, era preciso criar uma mitologia da produtividade.

Alexei Stakhanov (1906-1977) era um desses caras resolutos e obstinados que um belo dia decidem entrar para a História. Trabalhava numa mina de carvão, e era bombardeado pelas mensagens de incentivo do Partido Comunista: “Trabalhe! Produza! Vamos mostrar a esses porcos capitalistas que somos melhores do que eles!” Em agosto de 1935, Stakhanov extraiu sozinho 102 toneladas de carvão em pouco mais de cinco horas de trabalho. Era um recorde extraordinário, cerca de 14 vezes a quota que se esperava de um operário comum. Em setembro, ele foi mais adiante: extraiu 227 toneladas num único turno de trabalho. Virou herói nacional na URSS e, de certa forma, também nos EUA, pois apareceu na capa da revista “Time” em dezembro daquele ano.

O que é isto? A ilusão comunista? Não, amigos, apenas a doença mais característica de nossa época, o Delírio Quantitativo, que, por pertencer à época, não liga para sutilezas como regime político ou econômico. É algo que vai mais longe e mais fundo. Num século de explosão populacional, de intenso apelo à produtividade/consumo, e de comunicações instantâneas, sempre importa saber quem é o Mais, o Melhor, o Maior. São os parâmetros instintivos do Espírito do Tempo, da religião do Número.

Stakhanov é o herói típico da economia comunista, e não duvido que na China de hoje haja praças e estátuas em sua homenagem. Já no hemisfério capitalista, o Delírio Quantitativo se manifesta de formas mais heterogêneas. O Livro Guiness dos Recordes, por exemplo, não passa de um catálogo, atualizado anualmente, dos stakhanovs do entretenimento, do lazer, da banalidade. A produtividade soviética sempre teve o perfil ascético dos que trabalham por um abstrato Bem Coletivo, enquanto a produtividade norte-americana parece endeusar o concretíssimo Bem Individual. Os soviéticos se orgulham dos seus recordes de trabalho e produção; os americanos, dos seus recordes de lazer e consumo.

Vai daí que dias atrás um tal de Joey Chestnut recebeu um prêmio de 10 mil dólares por ter comido 59 hot-dogs em dez minutos. A prova existe desde 1946. Chestnut empatou com o recorde do japonês Takeru Kobayashi, mas conseguiu comer cinco salsichas a mais, e venceu no desempate. Os norte-americanos adoram concursos de comilança. Assim como os soviéticos se julgavam na obrigação de produzir mais do que a média da humanidade, para provar a superioridade do regime comunista, os EUA se julgam na obrigação de consumir mais do que a média mundial, para provar a superioridade do seu sistema. Quem duvidar, vá aqui: http://eatfeats.com/.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

1307) O moído de Romário (22.5.2007)



“Acabou-se o moído de Romário / e o Gol Mil tá rodando na TV...” Pois é, amigos, em matéria de moído o futebol brasileiro há muito tempo não acompanhava uma novela tão comprida. Domingo passado, um juiz misericordioso apitou um pênalte, entregou metaforicamente a bola a Romário, e disse: “Vamos, cidadão, porque o País está parado há mais de um mês esperando essa bola entrar”. Estou exagerando, claro, mas tudo que cerca o Maior Baixinho do Mundo conduz à metáfora, à hipérbole, à prosopopéia. A bola, entrou, isso é o que conta. (Pelo meu gosto teria sido no Náutico, mas é pedir demais aos Deuses do Futebol).

Os mil gols de Romário reacenderam uma discussão curiosa, a das estatísticas que cercam o futebol. Uma das coisas mais fascinantes do Esporte é o fato de que nele a Humanidade descobriu como juntar dois universos aparentemente inconciliáveis: o Corpo e o Número. Nada mais concreto, palpável, único, individualizado do que o Corpo humano. E nada mais abstrato, imponderável, genérico e universal do que o Número. O Esporte (futebol incluído) é acima de tudo uma arte e uma ciência de utilizar as potencialidades do corpo (força, energia, flexibilidade, agilidade, coordenação motora, rapidez, etc.) para gerar estatísticas comparativas, e através delas estabelecer quem fez melhor e quem fez pior, quem ganhou e quem perdeu. Quando um nadador ganha a medalha de ouro (e o outro a de prata) por uma diferença de centésimos de segundo, isto é uma façanha do Corpo, mas estabelecida no domínio do Número, por um critério que o Corpo não distingue, e somente a Mente e a Máquina podem comprovar.

Romário fez mil gols? Ele e sua equipe dizem que sim, e aí entra a discussão sobre o que é um gol de verdade. Vale jogo amistoso? Vale jogo beneficente? Se eliminássemos esses golzinhos de partidas não-oficiais o Baixinho estaria com pouco mais de 900. O mesmo se diz das contas que atribuem 1.176 gols ao húngaro Puskas em cerca de 1.300 partidas, ou, num resultado ainda mais impressionante, ao craque carioca Friedenreich, das primeiras décadas do século 20, a quem são atribuídos 1.329 gols (bem mais do que os 1.283 de Pelé), mas que, descontados os gols não oficiais, teria marcado 554 gols em 561 jogos.
Parece conversa de sujeito desocupado em balcão de botequim, não é mesmo? As mulheres sentem um soberano desprezo pela categoria “Homem” quando nos vêem entregues a esse tipo de contabilidade. Para elas, o Corpo tem uma existência autônoma em si próprio, sem precisar de números de qualquer espécie. Nós, curiosamente, temos a mania do Número. O Corpo é uma máquina de produzir estatísticas, índices, escores. Só somos capazes de entendê-lo através de tabelas numéricas que descrevem suas performances. Pensando bem, é um milagre que a gente seja capaz de distinguir, sem recurso ao Número, quando um sujeito é um craque e quando é um cabeça-de-bagre.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

1198) As oferendas ao Minotauro (14.1.2007)



Quando o filme Cazuza estava em cartaz, li num jornal a carta de um leitor perplexo diante do culto que, segundo ele, nossa sociedade prestava à figura de um jovem pelo simples fato de ele ter sido homossexual, ter usado drogas e ter morrido de Aids. "Será que não temos exemplos melhores para exibir aos nossos filhos?", perguntava o aflito missivista. 

Eu entendo essas preocupações, mas discordo do diagnóstico final. Cazuza não é um cais do porto, é um farol; não é um exemplo, é um alerta. O que se celebra em torno de Cazuza é o mesmo que se celebra em torno de um piloto como Ayrton Senna ou de um alpinista como Vitor Negrete: o sacrifício voluntário de uma vida jovem no altar de uma religião inexplicável. 

Um dos mitos que cercam a figura do Minotauro de Creta diz que todos os anos a cidade de Atenas tinha que oferecer sete rapazes e sete moças para serem devorados pelo monstro. Este sacrifício parcial evitava que Atenas inteira fosse destruída por Creta, que era então militarmente superior. 

Algo parecido ocorre com os deuses-monstros que adoramos em nossa era tecnológica e industrial: a Guerra, a Droga, a Máquina, o Número

No centro de cada um deles existe um buraco-negro exercendo uma atração irresistível sobre quem se aproxima demais. Depois de ultrapassado um certo limite, não existe volta. E quem ousa aproximar-se desse limite são justamente alguns dos nossos jovens mais brilhantes, mais inquietos, mais corajosos, e, infelizmente, porque tais características muitas vezes insistem em vir juntas, mais imprudentes, mais autoconfiantes, mais egoistamente suicidas. 

Sacrificamos jovens no altar da Guerra porque ela nos traz a ampliação de territórios, a humilhação dos inimigos, a garantia de uma paz temporária. 

Sacrificamos jovens à Droga porque ela nos garante o êxtase dos paraísos artificiais, e para que um milhão possam conviver com a droga e desfrutá-la vale a pena perder sete rapazes e sete moças por ano. 

Sacrificamo-los também à Máquina, porque para criá-la e domesticá-la é preciso haver cobaias que extraiam dela o máximo, expondo seu poder e seus limites, ainda que explodindo mais cedo ou mais tarde. 

Sacrificamo-los ao Número: porque precisamos de façanhas que robusteçam nossa auto-estima como povo: somos nós o povo que foi mais longe, o que fez mais rápido, o que tem mais força, o que acerta mais vezes. 

Não sei o que responderiam os pais de Cazuza ou os de Senna se lhes fosse dado escolher que seus filhos vivessem vidas banais, felizes e pacatas até os 80 anos de idade. É uma dura escolha: é melhor ser um Mito, ou ser meramente feliz?. Todos os anos o Acaso sorteia os sete jovens com que pagaremos o tributo às forças que movem ou que inebriam nossa civilização. Por isto os admiramos: porque o destino de cada um nos mostra o umbral que não é possível cruzar vivo.





sábado, 27 de setembro de 2008

0563) Um Tsunami de números (7.1.2005)



O saite “Cockeyed.com” preparou uma curiosa comparação gráfica entre o atentado ao World Trade Center e o tsunami que devastou os países da Ásia. Segundo os caras, a Indonésia perdeu 53 Torres, o Sri Lanka 16, a Índia cinco, e assim por diante. Estes números, claro, já estão defasados. A quantidade de vítimas aumenta a cada dia que passa. E eu discordo um pouco da base de cálculo, que toma uma média de 1.500 vítimas por Torre. Pelo que me consta o número final (oficial) de vítimas do 11 de setembro foi de 2.749, mais os 19 terroristas (bem abaixo dos 6.300 que eram a estimativa feita nos dias seguintes).

Alguns artigos na imprensa têm comparado o número de vítimas e a população de seu país de origem, e ao que parece um dos países mais atingidos foi a Suécia. As praias atingidas pelo tsunami (Indonésia, Tailândia, etc.) eram um dos lugares preferidos pelos turistas dos países nórdicos. Havia cerca de 20 mil turistas suecos na região. No momento, 3.500 deles estão desaparecidos, provavelmente mortos. É mais gente do que morreu em Nova York no 11 de setembro. A última tragédia a que o país pode comparar esta foi o naufrágio de um “ferryboat” em 1994, quando morreram mais de 800 pessoas, entre as quais 551 suecos.

Em todo caso, esta algaravia numérica é para mostrar que eu também, como grande parte da imprensa e da humanidade alfabetizada, estou me entregando a uma reação nervosa típica de nossa civilização. Chama-se a isto “Quantificar o Impensável”. Toda vez que uma coisa é traumatizante demais, a gente a transforma numa coluna de números, e começa a compará-la com colunas parecidas.

Na primeira página de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera comenta que 350 mil africanos morreram numa guerra tribal qualquer, e que isto não deixou marca nenhuma na História do Mundo. Na primeira página de Buffo e Spallanzani, Rubem Fonseca sonha com Leon Tolstoi molhando a pena num tinteiro e lhe dizendo: “Para escrever Guerra e Paz, repeti este gesto 1 milhão e 800 mil vezes.” Os números talvez não sejam estes, porque estou citando de memória, mas é o que menos importa. É o ato de contar coisas que nos sossega o espírito. Dustin Hoffman, em Rain Man, vê uma caixa de fósforos se derramar no chão e diz: “37”.

Saber quantos (não importa o quê) tem essa curiosa função pacificadora. Não é apenas o prazer do Tio Patinhas contando suas moedas e se orgulhando da sua fortuna. Contamos os infortúnios também, pelo poder mágico do número e da possibilidade de confrontação de séries numéricas (“Morreu um Maracanã de gente!”). Em colunas anteriores (“O império do número”, 17.7.2003, “O delírio quantitativo”, 9.11.2003, e outras) comentei essa perversão benigna de nossa mente. Sofremos muitos males sob a Ditadura da Quantidade, mas ela também nos ajuda a suportar as brabeiras da vida. É como contar os carneirinhos que entram pela porta do Matadouro, e adormecer em paz.

sábado, 15 de março de 2008

0254) O hiper-soneto de Queneau (13.1.2004)




Raymond Queneau é um dos personagens mais divertidos, mais misteriosos e mais fascinantes da literatura francesa. Fêz de tudo um pouco. Foi matemático amador, e também propôs uma nova ortografia para a língua francesa. Foi coordenador da respeitável Encyclopédie de la Pléiade, e era leitor inveterado de romances policiais e de ficção científica. Escreveu um poema épico-científico sobre a criação do mundo (Petite Cosmogonie Portative) e foi letrista da canção francesa de maior sucesso nos anos 1950, “Si tu t´imagines” (gravada por Juliette Gréco). Seu livros mais conhecidos, ambos traduzidos no Brasil, são Zazie no metrô, aventuras de uma garota do interior através de Paris, e Exercícios de estilo, uma pequena anedota recontada de 99 modos diferentes, que o diretor Gabriel Vilela adaptou para o teatro com o título Você vai ver o que você vai ver.

Quem quiser saber mais sobre Queneau pode começar pela página de minha autoria no saite The Modern Word (http://www.themodernword.com/scriptorium/queneau.html). O que nos interessa, no momento, é o poema experimental que ele intitulou “Cem mil bilhões de poemas”. Na verdade, trata-se de um poema combinatório: são dez sonetos (em formato tradicional, com esquema de rimas ABAB-ABAB-CCD-EED), escritos de tal forma que o final de cada primeira linha pode se encadear no começo de cada segunda linha, e assim por diante. Como o soneto tem 14 linhas, o total de combinações possíveis é 10 elevado à 14a. potência, o que dá os tais cem mil bilhões.

A edição original do hiper-soneto era caríssima: cada verso de cada soneto era impresso numa tira de papel separada, as quais eram presas à encadernação de tal forma que podiam ser folheadas independentemente, para a frente e para trás. Cada mudança destas produzia a leitura vertical de um soneto diferente de todos os outros. A publicação desta curiosidade literária foi em 1961. Computadores eram algo que só interessava aos criptógrafos do Serviço Secreto, aos militares e à nascente tecnologia espacial. Hoje, contudo, o poema de Queneau se multiplica pela Internet em saites onde basta clicar para que uma combinação, entre os bilhões possíveis, ocorra numa fração de segundo. O soneto resultante precisa ser copiado. Jamais (como no Livro de Areia de Borges) conseguiremos vê-lo novamente.

Quem quiser dê um pulo no saite de Magnus Bodin (http://x42.com/active/queneau.html), que nos dá inclusive a opção de ler os sonetos em francês, inglês ou sueco. Desde 1961 o hiper-soneto de Queneau nos tem feito refletir. Ele mistura criação e acaso. Estimula nossa capacidade de projetar sentido em estruturas produzidas aleatoriamente. Mostra como, para escrever o mais longo poema já produzido pela espécie humana, nem é preciso escrevê-lo todo: basta criar uma matéria-prima e uma lei para multiplicá-la. O hiper-soneto é o milagre dos pães e dos peixes, no limiar entre os universos da Poesia e da Matemática.

terça-feira, 11 de março de 2008

0235) O último número (21.12.2003)




A imprensa noticia a descoberta do maior número primo. Os números primos são os únicos números que têm existência própria, os únicos que não são formados de outros números. Você não pode dividir o número 19, por exemplo, em partes iguais. Ou ele se divide por 19, ou então por 1. É um número de verdade; como diria algum matemático sertanejo, é um número macho, um número que não abre nem prum trem. Já o número 20, por exemplo, não é número nem é nada. É uma mera duplicação do 10, ou uma quadruplicação do 5, ou uma quintuplicação do 4... Ou seja: um número sem caráter, sem personalidade. A gente só usa porque ele é útil para contar coisas, mas número, mesmo, ele não é não.

Coube ao estudante Michael Shafer, da Michigan State University, descobrir o tal “maior número primo”. Foi um trabalho feito através de uma rede de computadores conectados entre si; cada vez que um desses computadores era ligado, um programa ficava rodando, executando os cálculos, enquanto o usuário fazia seus trabalhos habituais. Foram usados 211 mil computadores, o que permitia ao grupo realizar 9 trilhões de cálculos por segundo.

Fiquei tão impressionado com isto que fui consultar A Experiência Matemática, de Philip Davis e Reuben Hersh, que tem um interessante capítulo sobre os números primos, afirmando que eles “desempenham um papel que é análogo ao dos elementos, em química”. O livro informa que em 1979 o maior número primo conhecido era 2 elevado a 21.701, menos 1. Uma nota do tradutor atualiza o dado: em 1983, o título já tinha passado para 2 elevado a 86.243, menos 1. Dentro do meu exemplar deste livro, encontrei um recorte do “Jornal do Brasil” de 1989 sobre o mesmo assunto. Naquele momento, um computador da Califórnia tinha chegado a outro “maior primo” de dimensões impressionantes – segundo o jornal, “um monstrengo de 65.097 algarismos.” Bem; tudo isto é fichinha perto da descoberta desta semana. O número achado pelo computador do estudante da MSU tem um total de 6.320.430 dígitos, e para transcrevê-lo seriam necessárias cerca de 1.400 páginas.

O grego Euclides provou, em meia dúzia de linhas, que a quantidade de primos, como a dos inteiros, é infinita. Procurar “o maior número primo” é como procurar “o maior número”. Não existe. Para que esse desespero, então? Acontece, companheiros, que não existe raça mais hipnotizável do que a dos matemáticos. Por mais racionais que sejam, vivem obcecados pelas idéias de Ordem, de Série, de Limite. Mesmo sabendo que uma série é infinita, eles sempre pensam: “Tudo bem, não vamos nunca saber qual é o Último Número Primo. Mas... qual será o Próximo?” Vão descobri-lo daqui a mais uns anos; terá 10 ou 20 milhões de dígitos, não importa, e logo em seguida tudo vai recomeçar. É a tragédia do Último Número, de Augusto dos Anjos: “É tarde, amigo! Pois que a minha autogênica grandeza nunca vibrou em tua língua presa, não te abandono mais: morro contigo!”

0212) Os recordistas indianos (25.11.2003)




Por que motivo existem tantos indianos nas páginas do Livro Guiness dos Recordes, batendo os recordes mais inúteis e inverossímeis? Esta é a pergunta que faz a si próprio (e ao leitor) o professor Vinay Lal, num artigo intitulado Indians and the Guinness Book of Records: The Political and Cultural Contours of a National Obsession. A resposta mais rápida e mais óbvia é a fatalidade estatística: com mais de 1 bilhão de indianos no mundo, há muito mais chances de um deles se destacar em façanhas excêntricas. Mas se fosse só isso, haveria um número ainda maior de chineses batendo recordes, o que não é o caso. É algo no tempero da comida, ou é a própria índole fanática, obcecada, de um povo inteiro?

O homem que ficou sentado por mais tempo foi o indiano Mastram Bapu, que plantou-se no mesmo lugar, à beira de uma estrada no vilarejo de Chitra, por 22 anos. É interessante comparar a dificuldade desta marca com a de Swami Maujgiri Maharaj, que permaneceu de pé durante 17 anos (ele dormia encostado a uma tábua). Diante de empreendimentos como estes, fica até fácil a gente esnobar um coitado como Girish Sharma, que ficou em pé num pé só durante meras 56 horas. Nada disso me parece difícil: afinal, trata-se da terra dos faquires, dos ascetas, uma terra onde mortificar o corpo através de façanhas espantosas é ir se aproximando cada vez mais do estado de anulação total, do Nirvana. E como sabemos, todo Nirvana tem um pouco de suicídio.

Talvez se possa até achar uma utilidade prática (criptografia? espionagem?) para o talento de Surendra Apharya, de Jaipur, que em 1993 entrou para o Guiness por ter escrito 1.314 caracteres sobre um grão de arroz, em 1991. O Prof. Vinay Lal lembra o quanto os números têm importância na literatura e na mitologia hindu, que são cheias de referências a pessoas “que viveram 20 mil anos” ou coisa parecida. Os indianos gostam de listar, enumerar, catalogar (veja-se o “Kama Sutra”). Por outro lado, alguns dos maiores matemáticos que já existiram, como Ramanujan, são da Índia.

Esta propensão para a numeromania e para as façanhas de resistência física, contudo, não se refletem naquela área que seria a mais óbvia: o esporte. Os indianos não se destacam em nenhum esporte. Numa Olimpíada recente, o país foi embora sem ganhar uma medalha sequer, mesmo de bronze. Podem-se invocar razões práticas (descaso do governo, burocracia, métodos técnicos superados, etc.) mas ainda assim é notável que um país não tenha um campeão de maratona ou salto à distância mas tenha um sujeito como Om Prakash Singh, um bancário de Allahabad, que enfiou uma linha numa agulha 20.675 vezes diante de uma platéia em apenas duas horas, em 25 de julho de 1993. Eu, que desconfio instintivamente das coisas que têm utilidade prática, acho o absurdo destas empreitadas indianas um exercício da liberdade humana para o irrelevante, o desimportante, o inútil. É algo poético, e os poetas que me desculpem.

segunda-feira, 10 de março de 2008

0199) O delírio quantitativo (9.11.2003)



Meu primeiro contato com o Livro Guiness dos Recordes foi na infância remota, quando apareceu em Campina Grande um ciclista anunciando que iria passar 24 horas (ou 48?) andando de bicicleta, sem parar para nada. Campina inteira amontoou-se na Praça da Bandeira, que ele circulou alguns milhares de vezes, sob chuva e sol, até completar o prazo anunciado. Eu era pequeno, e tenho a vaga lembrança de um sujeito com roupa amarela e preta, e um capacete diferente dos que usam os motoqueiros de hoje.

Foi um contato indireto: o Guiness não tinha nada com aquela história, mas foi um contato com o conceito de Limite aplicado às façanhas físicas em geral. Até que ponto é possível alguém fazer tal e tal coisa? Quando tempo pode um maluco aguentar sem comer, suspenso numa gaiola transparente sobre o Tâmisa? Quantos quilos alguém levanta? Quanto tempo alguém fica sem dormir? Quantos chopes toma? Quantas milhas corre? Quantos gols, ou pontos, ou cestas, ou xeque-mates, ou títulos, ou prêmios, alguém consegue? Cada atleta faz sua tentativa e dá sua resposta: “É tanto.” E, como cada Olimpíada nos mostra, a cada ano aparece gente dando respostas que adiantam esse limite um milimetrozinho mais.

Não pratico esportes, o que é um grave defeito. Vejo na TV, onde o esporte é reduzido a um exercício mental. Sou contemporâneo do milésimo gol de Pelé, dos 11 gols num jogo só de Dario Peito de Aço, da quebra da barreira dos 10 segundos nos 100 metros rasos, da nota 10 de Nadia Comaneci, da interminável luta de Sergei Bubka quebrando suas próprias marcas. O ser humano não tem limites. Imagino que nunca ninguém chegará a correr 100 metros rasos em um segundo, mas é um problema da Física, da Biologia. Se dependesse só do espírito humano, da obstinação humana, conseguiríamos.

O problema com o Guiness é que esse senso arrebatador, épico, do Limite atlético, fica meio absurdista aplicado a outra coisas. Um cara quer ser o cara que comeu mais hot-dogs sem fazer pausa; outro que ser o que barbeou mais fregueses; outro quer bater o recorde de dançar rumba, outro o de ficar numa banheira, outro o de latir imitando cachorro, outro o de jogar malabares com garrafas de vinho. Estou inventando isto tudo, mas quanto quer de aposta que já existem?

A façanha atlética gera subprodutos: melhores técnicas de treinamento, dietas, equipamentos aperfeiçoados, novos softwares de avaliação física. Mas o recorde de jogar tortas num manequim, dia e noite, só pode gerar lucros para uma confeitaria. O delírio quantitativo é uma das alucinações coletivas mais poderosas de nossa civilização. Talvez seja um mal necessário, ou uma deformação inevitável. E não me refiro a coisas de fundo ético e moral como a ambição financeira. O delírio quantitativo é uma droga pesada. Não tem outro fim além de si mesmo, e o cara sempre acha que da próxima vez pode ir um milimetrozinho mais longe.


sábado, 8 de março de 2008

0100) O império do número (17.7.2003)





Toda cultura se baseia, entre outras coisas, naquilo que eu denomino Alucinação Motivacional. É preciso convencer a população a fazer certas coisas, e cada cultura encontra motivações diferentes.

Por que Alucinação? Por uma razão muito simples, que qualquer jovem idealista entende: “sonho que se sonha só, é sonho; mas sonho que se sonha junto é realidade.” Quem disse isso? Lênin ou Lennon? Não importa. É a regra que todos os governos, desde os faraós, têm posto em prática. 

A maior Alucinação Motivacional do mundo de hoje é o Número. Não vou nem falar em dinheiro: falarei em esporte. Toda competição esportiva é uma disputa para ver quem atinge primeiro uma determinada quantidade de pontos ou, sendo fixado um limite de tempo, quem está com mais pontos quando este limite é atingido. 

Queremos que os recordes sejam batidos, não importa quais. Tem sujeitos que não fazem outra coisa na vida senão arremessar uma bola de ferro. Um “pool” de patrocinadores o sustenta. Treinos, dietas especiais, comissões técnicas, etc. Tudo isto para que, de quatro em quatro anos, ele vá à Olimpíada e jogue a bola-de-ferro dele mais longe do que a bola do cara da Mongólia ou do Canadá.

Tenho enorme admiração pelas pessoas capazes de façanhas físicas. Admiro o cara que corre 42 quilômetros sem sofrer um enfarte, ou o outro que ergue halteres pesadíssimos sem que os intestinos lhe explodam pelo orifício mais próximo. Mas o lado físico da coisa só beneficia o atleta. O público não ganha um só grama de musculatura vendo isto: ele pensa apenas no número. 


Na Idade Média era o medo do Demônio, das feiticeiras, da Peste e do fim do mundo. 

Na URSS dos planos qüinqüenais, era o entusiasmo de pessoas que acreditavam estar criando a sociedade livre e igualitária do futuro. 

Populações que passam fome, crises, invasões, precisam se agrupar em torno de idéias nítidas e fortes, para poder enfrentar os problemas e vencê-los. E é aí que entra a Alucinação Motivacional.

Se um milhão de pessoas acreditam numa alucinação e querem batalhar por ela, tanto faz. Se eu estou numa sala e alguém diz que está vendo um elefante cor-de-rosa, eu acho que o cara está doido. Se todo mundo começa a apontar para o mesmo espaço vazio e concordar que o elefante está ali, quem vai parar em João Ribeiro sou eu. Realidade e Alucinação são definidas por consenso.

Com isto, o mundo entrou num Delírio Quantitativo. Os recordes olímpicos chegaram a um ponto tal de sofisticação que tornaram-se invisíveis. Finda a corrida, só os aparelhos eletrônicos sabem quem ganhou. Com que cara um sujeito volta pra casa e diz à família que perdeu a medalha por 16 milésimos de segundo?

O russo Sergei Bubka bateu o recorde mundial de salto-com-vara 35 vezes, e acabou tendo uma depressão braba. Cada conquista aumentava a sua obrigação de tentar a próxima, pra não ficar desmoralizado. Ele aprendeu, coitado, que os carneirinhos do sucesso são mais numerosos que os da insônia.