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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

4510) A destruição de Jean-Claude Bernardet (7.10.2019)




(foto: Carlos Alberto Mattos)

No sábado passado, compareci a uma sessão do Cineclube Ruy Guerra, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio), para uma sessão especial em homenagem a Jean-Claude Bernardet.

“Homenagem” é sempre uma palavra arriscada com relação ao crítico franco-brasileiro, que tanto tem de brasileiro quanto de franco. Jean-Claude é especialista em usar a ironia como um canivete afiado para desinflar a pompa e o ego de quem se acha muito importante, desde os cineastas aos teóricos do cinema.

O cineclube projetou o filme A Destruição de Bernardet, de Pedro Marques e Cláudia Priscilla, produzido e co-roteirizado por Kiko Goifman. É aquilo que eu, para encurtar a conversa, gosto de chamar de pseudo-documentário ou de meta-documentário – uma narrativa feita com elementos mistos, desde o registro distanciado e sem interferência até as cenas cuidadosamente inventadas, escritas e ensaiadas.

No debate que se seguiu ao filme, Jean-Claude comentou que os ex-alunos propuseram fazer um filme sobre ele, e sua única exigência foi que não aparecesse ninguém fazendo elogios.

O documentário sobre “pessoas importantes” limita-se muitas vezes a uma colagem de elogios. Quando às vezes pretende fugir a esse modelo, afunda-se nele ainda mais, e vira uma colagem de ferozes interpretações revisionistas.

Aos 83 anos, Jean-Claude está praticamente cego, tem Aids e tem câncer (ele tem escrito e dado numerosas entrevistas a respeito). Se não tem o passo rápido e leve de outros tempos, porta-se com uma apreciável autonomia, e em termos de teorizar em voz alta e dar respostas de improviso é o mesmo de 45 anos atrás.

Ele lembrou uma frase famosa de seu mestre Paulo Emílio Salles Gomes, que de certo modo o transformou em crítico e cineasta, quando se conheceram na USP de tempos atrás: “Não existe o cinema, só existem os filmes”.

Esse foco no concreto, deixando para trás as generalizações, retornou em outro comentário, em que ele afirmou ser pouco afeito a palavras abstratas como o Erro, a Liberdade, o Mal, a Traição... Palavras que acabam enfeixando num mesmo saco situações concretas muito distintas umas das outras, e no esforço para acomodá-las à definição abstrata perdemos a chance de olhar o que de fato são.

Este último comentário é meu, que nos meus idos tempos de crítico de cinema desperdicei muito tempo, meu e dos outros, tentando explicar de que maneira o filme X do diretor Y correspondia (ou não) à definição do gênero Z, e com isso perdi boas chances de enxergar o filme em si e discutir o que ele de fato mostrava.

O filme de Pedro, Cláudia e Kiko tem trechos dos muitos curta-metragens em que Jean-Claude tem aparecido como ator nos últimos anos. Ele afirma de cara: “Sei que não sou ator, não me imagino interpretando um personagem. Sou um performer.”  Sua aparição na tela é mais uma presença visual do que a criação ficcional de uma individualidade. Um homem sendo torturado e gritando sem parar. Um mendigo andando devagar na rua e recolhendo coisa no lixo. Um homem andando no mato, molhado de chuva, pondo insetos na boca.

“Decidi que essas minhas aparições nos filmes seriam uma espécie de teste,” disse ele, “uma experiência-limite onde eu poderia ver até onde o meu corpo suportava ir.”

Muitos diálogos deste filme, inclusive nas “entrevistas” (diz ele) “foram escritos e decorados”. Há inclusive uma sequência inteira onde ele, de frente para a câmera, em plano bem aproximado, faz perguntas como se fosse um entrevistador, e em seguida, sem corte, as responde, como se fosse ele mesmo.

Respondendo a uma pergunta da platéia sobre a possibilidade da velhice influenciar a linguagem, Jean-Claude citou dois exemplos. O primeiro foi do ator Nelson Xavier no filme Comeback (co-dirigido por NX e Érico Rassi, 2017). “Há uma cena em que o personagem idoso calça as meias com dificuldade, e não conseguimos saber até que ponto é a dificuldade real do ator, ou se é uma dificuldade conscientemente construída”. De minha parte, eu garanto que calçar as meias e os sapatos se torna, depois dos 60 anos, uma tarefa da qual a gente sai achando que merece uma medalha.

O outro exemplo foi um balé europeu composto por dançarinos de 75 anos ou mais, cuja coreografia incorporava gestos comuns como vestir e despir uma camisa, e mais uma vez isso acontecia, no palco, numa região limítrofe entre a dificuldade física real e a representação cênica de uma dificuldade física.

Num trecho de A Destruição de Bernardet é lido um documento onde JCB estabelece que não deseja que sua vida biológica seja prolongada artificialmente se não houver qualidade de vida apreciável ou possibilidade real de recuperação; e em seguida conversa com um dos entrevistadores sobre a possibilidade do suicídio.

Comparando diversas alternativas (sempre ressalvando que podem falhar, e deixar sequelas), ele afirma que o mais seguro seria saltar de um lugar elevado (“um oitavo andar já seria suficiente”, diz), ou então um suicídio assistido, com acompanhamento de outras pessoas. E o entrevistador observa que são opções que envolvem algum tipo de performance pública: o suicídio como um pequeno espetáculo.

Aqui, um trailer do filme: https://vimeo.com/286186491

Em outra entrevista recente, desta vez para a revista Piauí (julho de 2019), ele fala por que motivo decidiu interromper o tratamento de câncer e, ao invés de suportar o desgaste das quimioterapias, aproveitar da melhor maneira possível a autonomia física que lhe resta. Aqui, link para a entrevista inteira: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-corpo-critico/

No final do debate da Escola Darcy Ribeiro, perguntaram-lhe sobre o ensino do cinema nas escolas, e ele disse que deveria ser dada uma atenção maior ao estudo dos meios de produção cinematográfica. Discute-se muito a expressão, e pouco a produção. Os estudantes embarcam na realização dos filmes cheios de expectativas para com a linguagem e o tema, mas as condições de produção acabam destruindo essas expectativas. Os filmes acabam se tornando “a degradação de uma utopia”. Seria mais útil, talvez, partir da definição clara dos meios de produção disponíveis, e criar o filme a partir dessa situação.











quinta-feira, 15 de julho de 2010

2269) Aruanda 50 anos (16.6.2010)



Nossos vizinhos pernambucanos, com sua conhecida modéstia, costumam dizer que em Recife os rios Capibaribe e Beberibe se juntam para formar o Oceano Atlântico. Nós não ficamos atrás, pois já vi paraibanos branquelos e de óculos afirmarem que Augusto dos Anjos inventou a poesia de ficção científica, e que Aruanda de Linduarte Noronha criou o Cinema Novo brasileiro. Já correu um Açude Velho de tinta comentando esse filme, e não sei se tenho algo de novo a dizer. Do que já foi dito, lembro as palavras de Jean-Claude Bernardet em Brasil em Tempo de Cinema, palavras que durante muitos anos foram repetidas como um mantra por todos os pretendentes a cineastas da minha geração, sem um centavo no bolso e com muitas idéias na cabeça:

“Vindo das lonjuras da Paraíba, Linduarte Noronha dava uma resposta das mais violentas às perguntas: Que deve dizer o cinema brasileiro? Como fazer cinema sem equipamento, sem dinheiro, sem circuitos de exibição? Tais eram as perguntas que surgiam de norte a sul do país. (...) O que fazer? “Aruanda” o dizia. Como fazer? Também o dizia.”

Jean-Claude recoloca essas questões em seguida. Ele diz, por exemplo, que as deficiências técnicas de Aruanda tiveram função dramática, mas que isso não vale para todos os filmes. Ou seja: não se pode criar uma cinematografia complexa, variada, onde caibam desde os blockbusters até os filmes-de-arte, desde os entretenimentos médios até os filmes B, baseando tudo na estética aruandense, ou na “estética da fome” glauberiana. Mas do nosso ponto de vista o cinema industrial era tão inacessível quanto a Praça dos Três Poderes. Era uma briga de cachorro grande. O que muita gente da nossa geração queria era uma fórmula que servisse para justificar o cinema que tínhamos condições de sonhar fazer. Um cinema forçosamente tosco, precário, assumindo com despudor a precariedade técnica. Um cinema zombando do cinema bem-feito, por sua pretensão, e mangando de si mesmo, por sua falta de poder. Visto por este ângulo, Aruanda prefigura, com sua estrutura de produção “não-tem-tu-vai-tu-mesmo” até mesmo o cinema “udigrudi” dos anos 1970, os filmes de Sganzerla, Bressane, Rosemberg, e tantos outros capazes de fazer um filme por cima de pau e pedra, com meia dúzia de amigos e de latas de negativo.

Aruanda não criou o Cinema Novo (afinal de contas, é posterior a Rio 40 Graus, O Grande Momento, etc.), mas influenciou todo o Cinema Novo que veio depois dele, influenciou o cinema marginal dos anos 1970 e influencia os jovens que hoje empunham uma câmara digital e vão em busca da “realidade rude”, como dizia Régis Frota. Digo que influencia porque sabemos que uma obra só influencia quem a vê. Uma obra só influencia quando existe, quando foi mesmo feita, quando se tornou um Fato Consumado. José Sanz dizia: “Cinema não se discute, faz-se”. Aruanda nos ensinou: criem um fato consumado, e o futuro nunca mais se verá livre dele.