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segunda-feira, 18 de abril de 2022

4814) "Os Ambulantes de Deus" (18.4.2022)

 

 
Se eu tivesse tempo e sossego na vida, uma das tarefas a que iria me dedicar seria a (re)leitura da obra romanesca de Hermilo Borba Filho, um autor dos mais importantes na formação literária da minha geração.
 
Hermilo tinha um pé na cultura popular (o teatro de mamulengo), no teatro clássico, no conto, no romance. Estava por toda parte. Foi o primeiro escritor brasileiro que vi usar desenhos e quadrinhos ilustrando um romance (Agá, 1974). Escreveu uma biografia de Henry Miller. Foi em muitos sentidos um dos mentores intelectuais de Ariano Suassuna, dez anos mais moço do que ele, quando Ariano, ainda bem jovem, começou a atuar em teatro.


(Hermilo, Galba Pragana e Ariano Suassuna, 1946)
 
O último romance de Hermilo foi Os Ambulantes de Deus (Rio. Civilização Brasileira, 1976), lançado pouco depois de sua morte aos 58 anos.
 
É um livro curioso que de certa forma vale como uma resposta pessoal de Hermilo à moda do “realismo mágico”, as histórias fantásticas com ambientação interiorana, à maneira de Gabriel Garcia Márquez, Miguel Ángel Astúrias, Manuel Scorza, Juan Rulfo e tantos outros, que no começo dos anos 1970 as editoras brasileiras estavam lançando febrilmente, um título atrás do outro.
 
“Realismo mágico” é um rótulo impalpável, que serve como disfarce para aconchambrar num mesmo pacote autores tão diferentes entre si quanto os dessa listinha acima. Falei de “histórias fantásticas com ambientação interiorana” para trazer para perto do livro de Hermilo. O chamado “realismo mágico” de Julio Cortázar e Jorge Luís Borges, por exemplo, não teve nada a ver com esse. É mais urbano, mais europeizado, mais engravatado, mais livresco.


Os Ambulantes de Deus é uma narrativa compacta, com menos de 150 páginas, contando a viagem extraordinária de uma jangada por um rio. Imagino ser o rio Una, que banha Palmares, a cidade natal do autor, descrita e transfigurada por ele em inúmeros livros. Principalmente a tetralogia de romances “Um Cavaleiro da Segunda Decadência”: Margem das Lembranças (1966), A Porteira do Mundo (1967), O Cavalo da Noite (1968) e Deus no Pasto (1972).
 
A viagem é extraordinária porque, depois que o barqueiro e seus cinco passageiros sobem na jangada, ela passa a percorrer o rio, ora subindo, ora descendo, ora indo da uma margem a outra. Aos meus olhos de leitor leigo, a jangada é aquele tipo de balsa fluvial, presa a um arame ou uma corda que vai de margem a margem, e que o barqueiro desloca puxando.
 
O livro já começa assim:
 
A corrente da jangada estava de cadeado no mourão plantado à beira-rio, ainda não chegara ninguém, não levaria menos de cinco, eram ordens... (...) puxando à mão o arame que, ligando uma margem à outra, fazia deslizar a jangada... (p. 3)
 
Em outros momentos, a jangada se larga “com mais de mil na buraqueira”:
 
...todos achavam que a esta altura já estavam bem no meio do rio, metade da viagem, o pior já havia passado, otimistas, mastigando sementes de jerimum e bebericando canequinhas de capilé, era o vento e era o sol, chegava um canto não se sabia donde mas chegava, havia paisagem e coisa-e-tal e coisas-e-loisas, a jangada correndo mais do que rápido, voando, nas asas do pensamento, era, voando, grito de Cipoal:
– Ei, estamos indo, pessoal!  (pág. 60)
 
Quem puxa a jangada é Cipoal, o barqueiro, um comandante introvertido e centrado, anfitrião das cinco pessoas que nas primeiras páginas vão aparecendo, de uma em uma: Dulce-Mil-Homens, a prostituta de bom coração e que impõe respeito; Amigo-Urso, um bicheiro com sua banqueta, seus lápis e seus cartões de aposta; Recombelo, um calunga (carregador) de caminhão; Cachimbinho-de-Coco, cordelista, com sua maleta de folhetos, cantarolador compulsivo de trechinhos de músicas; e Nô-dos-Cegos, um pedinte com sua cuia e seus óculos escuros, que em horas diferentes parece que vê e parece que não vê.
 
Cipoal recebe esses viajantes e começa então um percurso de convivência. Cinco anos transcorrem sem que a jangada chegue a destino algum, e sem que esse pessoal volte a descer em terra firme, a não ser para breves e surrealistas aventuras, que sempre terminam quando o “aventureiro” volta correndo para o ancoradouro da margem, pula dentro da balsa e Cipoal a puxa de volta para o meio do rio.
 
São cinco anos, que o autor divide em cinco capítulos:
 
1º. ano: a nuvem
2º. ano: a calda
3º. ano: a chuva
4º. ano: a cheia
5º. ano: o sol
 
O lado fantástico do romance se dá através dessa “prisão”, esse encarceramento voluntário que os prende à balsa, e que em alguns momentos tensos lembra uma versão mais lúdica do Anjo Exterminador, de Buñuel, ou do quadro A Balsa da Medusa,  de Géricault.


("A Balsa da Medusa")
 
Ou da jangada de vinhático do misterioso Pai imaginado por Guimarães Rosa em “A Terceira Margem do Rio” (1962).
 
Sob este último aspecto, escrevi aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/10/4632-primeiras-estorias-terceira-margem.html
 
Durante o tempo de permanência a bordo, barbas crescem e desaparecem da noite para o dia; árvores são plantadas e dão frutos; Dulce-Mil-Homens é acometida de uma febre parideira, dando à luz uma enfieira de meninos, de 15 em 15 dias; os passageiros veem-se ameaçados por enchentes, proliferações surrealistas de peixes e de criaturas aquáticas, ou pela “calda” (torrente de resíduos das usinas de açúcar, jogados no rio).
 
Há uma sequência bem surrealista (pág. 66 e seguintes) em que Cachimbinho-de-Coco bota na cabeça de encontrar a palavra “fadário”, e por isso desce à terra. Batendo rua, batendo calçada, vai parar numa mansão cheia de câmaras, ou quartos, cuja variedade de nonsense lembra aquele corredor infinito do desenho Yellow Submarine (1968) dos Beatles, onde cada porta se abre para algo espantoso.
 
Cachimbinho vai de porta em porta. Na primeira câmara, encontra “uma poesia escrita por Pedro Álvares Cabral”; na segunda, “Prometeu acorrentado, o diabo do abutre beliscando seu fígado e fazendo dele um patê”; na terceira, três salafrários dali da zona usineira, “os três loroteiros empedernidos Mucurana, Goguéia e Bole-Sem-Tempo”; na quarta, “uma mulher loura, loura e nua, nua e morta, descendo por um riacho, enquanto cantava endechas de cortar o mais doce coração”; e por aí vai.
 
Outra aventura nonsênsica é a de Amigo-Urso que desce à terra com a compulsão irresistível de reencontrar um canivete “marca Corneta” que teve na infância, e vai parar numa bodega sortida, cuja placa informa:
 
Compra-se e vende-se toda a espécie de objetos novos e usados – Aceitam-se mercadorias em consignação, pelo sistema de percentagem, contra promissórias e cheques sem fundos – FOB ou CIF – Objetos roubados – Penhores – Todo e qualquer negócio realizado em benefício do freguês depois dos interesses do proprietário – Cuidado para não ser enrolado – Olho vivo e muito siso – Pechinchas a preço de ocasião – Aceitam-se encomendas de morte – Ver para crer. (pág. 82)
 
A versão hermiliana de Realismo Mágico é nesse tom, uma mistura constante entre o cruamente verdadeiro e o estapafúrdio, mesclado o tempo todo com a gargalhada báquica e pantagruélica dos indivíduos de grandes apetites.
 
Não é o Nordeste do sertão, com o ascetismo de seus cangaceiros, o fantasma endêmico da seca, as vastidões silenciosas cravejadas de pedreiras. 

O Nordeste de Hermilo é a zona da mata, úmida, fértil, pulsante de húmus, lúbrica, machista, violenta, hedonista e cruel. É mais o Nordeste de Gilberto Freyre e de Jorge Amado do que o de Graciliano Ramos. E por toda parte as usinas de açúcar bombando, e os antigos engenhos se desfazendo em ruínas, enquanto a impingem do canavial se alarga, se espalha, botando abaixo a mata atlântica.
 
Leitor voraz e erudito, Hermilo salta com facilidade das piadas fesceninas do teatro de mamulengos para a dicção apocalíptica dos profetas:
 
Houve um golpe militar, um tristíssimo golpe militar em nome da liberdade; e nesse golpe militar viam-se cabeças rolando no meio da rua, pernas penduradas nos fios elétricos, testículos nos açougues, intestinos enlaçados nas árvores; miolos esparramados pelo calçamento, e houve a morte lenta, conseguida depois de cada centímetro de dor; e houve um morto em cada casa e os homens se transformaram em inimigos dos homens...  (pág. 97-98)
 
É um grande título desse gênero nebuloso que seria o “romance fantástico nordestino” onde já brilham o Romance da Besta Fubana (1984) de Luís Berto, o Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna, As Pelejas de Ojuara (1986) de Nei Leandro de Castro, A Cachoeira das Eras (1979) de Carlos Emílio Corrêa Lima... até títulos mais recentes como A Dançarina e o Coronel (2014) de Aldo Lopes e O Espelho dos Girassóis (2020) de Maviael Melo.
 
E muitos mais, é claro; estou citando de cabeça os autores com quem tenho alguma proximidade, e títulos que me passaram pelas mãos nos últimos meses. Com esse negócio de pandemia e quarentena, o tempo parece que parou de correr. Ou corre numas direções, e fica parado em outras. Hermilo, mais uma vez, é quem tinha razão:
 
...mas a jangada corria, correndo sem sair do lugar, ora já se viu que coisa... (pág. 18)
 
A gente saindo amanhã bem cedinho talvez chegue ontem. (pág. 20)
 



 
 
 
 
 
 
 
 






quinta-feira, 21 de maio de 2020

4580) Primeiras Estórias: "A menina de lá" (21.5.2020)




A quarta estória deste livro de Guimarães Rosa (Primeiras Estórias, 1962), “A menina de lá”, é um continho curto e intrigante sobre uma menina milagreira.

Dizer milagreira é talvez dizer muito, porque dá a impressão daquelas histórias, tão comuns no Brasil, de meninas mortas que fazem milagres. Meninas que foram assassinadas “com requintes de crueldade” e por isso viram uma espécie de santinhas, para cuja capela funerária se dirigem peregrinações sem fim...

Não é o caso de Nhinhinha, esta protagonista. É uma menina como as outras, só que mais calada. Num dos seus prefácios a obras de Rosa, Paulo Rónai comentava o quanto em seus contos apareciam dois tipos de personagens pelos quais ele parecia ter um fascínio especial: os doidos e as crianças.

São pessoas a quem a gente não pode pedir prestação de contas, pode somente observar. A gente pode interrogar a sério um adulto lúcido, pode pedir explicações disso ou daquilo, pode argumentar, comparar conceitos... Com doido e com criança, isso rapidinho se esgota. São criaturas-em-si a cujo mistério interior a gente não tem acesso. Pode somente observar o que fazem, e tentar formar opinião.

“Sua casa ficava para trás da Serra do Mim”, principia o conto, e qualquer interpretador profissional (ou diletante, como é o meu caso) entende que tudo isso se passa à sombra do Ego, numa parte inconsciente e não visível, “além do horizonte do Ser”. Um lugar pré-entendimento, não por outro motivo chamado “o Temor-de-Deus”. É um condado mítico, pré-racional.

E nesse lugar aparece uma menina que faz as coisas acontecerem.

No começo, ela é apenas uma menina como as outras, brincando, sorrindo, dizendo as coisas inesperadas e imprevisiveis que as crianças dizem:

A gente não vê quando o vento se acaba...

Alturas de urubu não ir...

O passarinho desapareceu de cantar...

São da menina, estas frases? Sim, mas acima de tudo são do Autor, que é menino também, pensa desse jeito, imagina desse jeito, e se expressa desse jeito. E anota tudo em cadernetinhas a que recorre quando precisa de exemplos.

Nhinhinha é no entanto alguma coisa mais, escondida por trás da Serra “do Rosa”, da Serra do Moimeichego. Ela faz milagres.

A princípio, a família se admira apenas porque ela “adivinha” o futuro.

Diz: “Eu queria o sapo vir aqui”... e daí a pouco o sapo comparece, pulando. Diz: “Eu queria uma pamonhinha de goiabada...” e logo surge uma vizinha, sem saber de nada, trazendo o doce desejado.

Diz o narrador: “O que ela queria, que falava, subito acontecia”. Mas não era tão fácil assim. A Serra está passando por uma seca braba. O pai, todo mobilizado, sente-se na obrigação de tomar alguma providência e convoca a milagreira da casa. A menina refuga, não quer, não explica: “Deixa... deixa...”.

E um dia a menina explica outra coisa que queria: “um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes...”  E o resto é estória.

É um desejo de nossa infância (dizia Freud): o da Onipotência do Pensamento, de fazermos as coisas acontecerem apenas pela vontade, sem mexer uma palha, sem assoprar um grão de areia. Quando julgamos que isso acontece (=pedimos uma coisa e a coisa sobrevém), nos assustamos. Temos a sensação do Uncanny, do Unheimlich.

Todo mundo conhece alguma história sobre, sei lá, um marido farrista que sai para a esbórnia e a esposa revoltada pragueja: “Era bom que batesse com esse carro...”, e quando o sinistro acontece ela desaba de culpa.

Um caso clássico (nas minhas referências literárias) da Onipotência do Pensamento é o conto tenebroso de Jerome Bixby, “It’s a Good Life” (1953; foi depois adaptado para a série Twilight Zone).



É a história de um menino, Little Anthony, que nasce em Peaksville, um vilarejozinho do interior dos EUA, e desde cedo desenvolve poderes muitos mais fortes do que os de Nhinhinha. Ele faz se abater sobre aquela gente simples, interiorana, por trás de alguma outra Serra, toda a força-em-bruto da pulsão desejante de um ser humano normal em seus primeiros meses de vida.

Tudo que ele deseja acontece – instintiva e irreversivelmente.

Aos três anos, Little Anthony é capaz de apagar a mente de uma pessoa e transformá-la num robô amnésico e sorridente. É capaz (para se divertir) de fazer um rato devorar a si próprio. É capaz de ler pensamentos e de, mesmo quando está de bom humor, provocar catástrofes terríveis porque tenta, às vezes, realizar o que aquela pessoa está pensando.


("Twilight Zone")

Por isso todas as pessoas, quando se aproximam dele, murmuram sem parar algum mantra sem sentido, para misturar os próprios pensamentos, e não darem idéias erradas a Little Anthony.

Claro que o Pequeno Tirano Cósmico não aceita interferência ou admoestações. Aliás, a primeira coisa que ele fez foi remover o vilarejo do mundo em que nós estamos. Peaksville tornou-se uma ilha no meio do Nada. E uma ilha onde tudo está acabando: mantimentos, bebidas, cigarros, roupas... Não há como trazer mais “do mundo de fora”, porque ninguém sabe mais onde está.

Mamãe olhou pela janela, para além da estrada escura, para além do trigal escuro dos Henderson, para o vasto, interminável Nada cor-de-cinza  em que o vilarejo de Peaksville flutuava como uma alma – o imenso Nada que ficava mais evidente à noite, depois que o dia brilhante de Anthony acabava.

Não adiantava de nada imaginar onde estariam... nem um pouco. Peaksville estava em algum lugar; e pronto. Algum lugar longe do mundo. Estava ali desde aquele dia, três anos atrás, em que Anthony emergira do ventre dela e o Doutor Bates, que Deus o tenha, gritou e largou o bebê e tentou matá-lo, e Anthony soltou um vagido e fez aquilo. Levou o vilarejo para algum lugar; ou destruiu o mundo e deixou apenas o vilarejo, ninguém sabia qual dos dois.

A literatura tem disso. Por mais que um tema seja claro, específico, por mais que uma história pareça já ter sido contada, por mais que tenha mesmo sido contada mil vezes, quando ela passa através de um autor ela sai do outro lado transformada em outra coisa.

O que em Guimarães Rosa é lirismo e carinho, ainda que com uma mão-de-tinta fúnebre nos últimos parágrafos, em Bixby é terror puro, “fantasmas do Id”.


("Twilight Zone")

A Onipotência do Pensamento é uma fantasia resultante de uma fase em que a criança não distingue entre o mundo material e a representação mental que faz dele; e pulando daí para o plano coletivo, entramos no reino dos animismos de toda forma. Em que é possível à mente dominar a matéria sem usar a matéria. Encantamentos, pragas, bruxarias, magia à distância, tudo isto são derivações desse desejo: o de olhar para uma coisa que nos incomoda, pensar: “Desapareça!” – e essa coisa desaparecer.

Bixby é só pesadelo. Rosa, que gostava de doidos e de crianças, era capaz de imaginar uma menininha milagreira do-bem:

Aquilo, quem entendia? Nem os outros prodígios, que vieram se seguindo. O que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que queria muito pouco, e sempre as coisas levianas e descuidosas, o que não põe nem quita.


O conto é uma fantasia benigna sobre o Poder. Na sua delicadeza, leveza, Nhinhinha parece estar flutuando, e mesmo quando colocamos os dois lado a lado ela não é sugada pelo “black hole” desejante que é Little Anthony.











segunda-feira, 26 de agosto de 2019

4497) Julio Cortázar, 105 anos (26.8.2019)





Vivo fosse, o autor de O Jogo da Amarelinha estaria completando 105 anos neste 26 de agosto. 

Nascido em Bruxelas de pais argentinos, e depois radicado na França, Cortázar foi um daqueles escritores argentinos com profunda influência européia. Não apenas literária; uma influência existencial, com um lado intelectualmente aristocrático que os distanciava do populismo plebeu dos peronistas, mas por outro lado com um lado lúdico, irreverente, que os indispunha com uma certa elite cultural portenha, cheia de pompa vazia e de feroz politicagem.

Sua obra literária, felizmente, continua a ser traduzida e reeditada no Brasil. 

Muitos textos novos têm aparecido, com destaque para os Papéis Inesperados (Rio: Civilização Brasileira, 2010, trad. Ari Roitman e Paulina Wacht), uma compilação feita por sua viúva Aurora Bernárdez e por Carles Álvarez Garriga, reunindo contos, artigos, fragmentos cronopianos e uma interessante miscelânea.



Obras críticas e biográficas também têm saído, como Cortázar – Notas Para Uma Biografia de Mario Goloboff (São Paulo: Editora DSOP, 2014, trad. José Rubens Siqueira).



Nesta veia, encontrei recentemente um volume pequeno e curioso, Cortázar, Profesor Universitario – Su paso por la Universidad de Cuyo en los inicios del peronismo, de Jaime Correas (Buenos Aires: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 2004). É o relato de uma fase pouco conhecida na vida do autor, quando durante um ano e meio (entre 1944 e 45) ele ensinou nessa universidade, na cidade de Mendoza, onde fez amizades que duraram pelo resto da vida, como o artista plástico Sérgio Sergi e a crítica literária Lida Aronne de Amestoy.



O autor informa que era leitor da obra de Julio e só depois de muito tempo descobriu que ele tinha sido professor na universidade onde ele próprio estudava agora, e que muitos dos professores que agora tinha eram ex-alunos do autor de Os Prêmios. A pesquisa se impôs, e ele faz uma curiosa confissão (trad. minha):

Com esse material em mãos, escrevi em 1996 um romance fracassado, que os piedosos editores puseram na estante dos definitivamente inéditos, e do qual resgatei apenas o final, dando-lhe a forma de um conto que ganhou um vago concurso.

Em 1995 apareceu o “Diário de Andrés Fava” [fragmento narrativo até então inédito, de Cortázar], em que Mendoza e os amigos de Cortázar estão presentes. Para quem estava investigando este tema, havia uma frase inquietante: “Se eu convivesse com escritores, anotaria toda ocorrência que me parecesse significativa – não a mera troca de espertezas – e faria um grande favor aos biógrafos de 1995”. O título daquele conto premiado que eu havia escrito era “Pobres Biógrafos”. Fiquei, desde então, com o sentimento de que esses indícios que estava recolhendo tinham algum sentido. Havia neles uma história, um homem que deixava as marcas dos seus passos para que alguém o seguisse.  (p. 14-15)

Jaime Correas comprova o fato bem sabido de que ler muito um autor é aprender a pensar como ele pensa. Cortázar cultivava um Realismo Mágico que não tinha muito a ver com o mágico mundo rural de um Astúrias ou um Juan Rulfo. Seu comércio com o elemento mágico dependia da percepção de simetrias, de paralelismos inesperados.

Ernesto González Bermejo (em Conversas com Cortázar, Jorge Zahar Editor, 2002, trad. Luís Carlos Cabral) mostra como o escritor tenta exprimir essa percepção:

Acredito que quando uma pessoa é porosa nesse plano, tudo o que chamamos “casualidades” ou “coincidências” se multiplica. Mais: acredito que você acaba atraindo essas casualidades. (p. 38)


Cortázar usa repetidamente o termo “constelações” para descrever essa percepção, que é individual e única. As estrelas de uma constelação no céu não tem necessariamente nenhuma relação entre si, mas vistas daqui da Terra parecem formar uma figura. Cortázar compara isso às intuições súbitas que o acometem e que muita vezes resultam em contos:

Eu tenho sido invadido por concatenações instantâneas, vertiginosas, entre coisas heterogêneas que entram no campo dos meus sentidos. E isso acontece sempre em momentos de distração. (p. 73)

Pense em Lautréamont. Quando ele amontoou, metaforicamente, uma máquina de costurar, um guarda-chuva e uma mesa de operação e sentiu que desse “encontro fortuito” surgia um sentimento de beleza inexplicável, não fez mais do que expressar uma abertura para uma coisa que, à primeira vista, não era possível justificar pela mera presença de componentes tão prosaicamente selecionados.

Mas se o sujeito é sensível a tais demonstrações parapsicológicas, se não as descarta como meras fantasias da distração, o acatamento desse clima receptivo facilita cada vez mais a sua repetição sob circunstâncias e com elementos diferentes. Produz-se algo assim como um ciclo em que essas bruscas coagulações, que a razão é incapaz de entender, passam a se repetir com frequência crescente. (p. 74)

O que existe de “mágico” na literatura de Cortázar bebe na mesma fonte intuitiva e pré-consciente do jogo aleatório das moedas do I-Ching oriental ou dos búzios africanos – a consciência de que em certos momentos uma mente aguda e um olhar alerta podem captar certas constantes do mundo, fazer relações instantâneas entre fatos, coisas e fluxos aparentemente não-relacionados.

Para isso é preciso limpar a mente, esquecer não só os preconceitos como os conceitos também, deixar-se alvejar pelos fatos, pelo contato da realidade em-bruto.


Numa carta de 1957 a seu grande amigo Eduardo Jonquières, Julio ironizava os “Lineus”, os classificadores, os taxonomistas, que colecionam conceitos e rótulos a tal ponto que não enxergam mais a realidade:

Em Paris acontece quase sempre a mesma coisa: a necessidade de classificar das pessoas é um triste resultado (entre outros menos tristes, por sorte) de nossa cultura ocidental. Em cada um de nós dorme um Lineu, com os bolsos cheios de etiquetas. Você já notou a inquietação das pessoas, num concerto, quando o pianista toca um bis sem anunciar do que se trata? Todo o prazer se perde devido à irritante busca mental do autor dessa peça. Será Scarlatti? Não, deve ser Vivaldi. E se fosse Bach?

(Cartas a los Jonquières, Buenos Aires: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 2010, p. 378-379, trad. minha).

Uma das curiosidades do livro de Jaime Correas citado acima são os apêndices com os programas e bibliografia sugeridos pelo Prof. Cortázar para seus cursos: “Literatura Francesa I Poesia Francesa no Século XIX – Baudelaire, Verlaine, Mallarmé”, “Literatura Francesa II – A poesia francesa de Rimbaud aos nossos dias”, “Literatura da Europa Setentrional – Poesia inglesa no início dos século XIX: John Keats”, “Poesia romântica no começo do século XIX”, “A novela romântica”.

Aqui, no YouTube, um documentário sobre a passagem de Cortázar por Mendoza e a Universidade de Cuyo: 








sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

3422) Jardins imaginários (14.2.2014)



(Ilustração: Roberto Kusterle)

Discutindo um projeto do autor Norman Spinrad, o editor Lou Aronica (Bantam Books) observou que em histórias fantásticas bem sucedidas “a história emocional é realista, não importa se os acontecimentos que produziram as emoções o sejam ou não.”  O que Aronica diz (e que Norman Spinrad aproveita para comparar com o Realismo Mágico latino-americano) é que a semântica da história pode ser fantástica, mas a sintaxe deve ser realista, deve reproduzir a sintaxe das emoções humanas. As pessoas temem o poder de um mago, de um cientista, de um artista genial, porque temem o poder. A pessoa está lá para dar um recheio semântico a essa estrutura. Tensão e descarga. Perplexidade, alumbramento, raciocínio e decifração do mistério. Suspense e resolução. Imagens arquetípicas capazes de despertar o riso, o temor, a compaixão, a simpatia, o entusiasmo. Essa é a sintaxe emocional do romance que, sendo verdadeira, sendo semelhante à da vida, nos torna capazes de entender e aceitar as histórias. Não importa se elas estão povoadas de alienígenas fulvos, magos ectoplásmicos, chapeleiros doidos ou insetos pensantes.

Talvez fosse algo assim que Marianne Moore tinha em mente quando num poema famoso se referiu a “imaginary gardens with real toads in them”, jardins imaginários cheios de sapos verdadeiros. (Mario Quintana referiu-se certa vez a “falsas confidências e sentimentos verdadeiros”, o que é uma fórmula parecida.) Basta a existência vulgar, cotidiana e plebéia desses sapos para pingar um realismo indelével no jardim mais metido a fantasioso.  Eles entram na receita como uma garantia de verdade, um contrapeso de matéria real, irrecusável, do tipo é-pegar-ou-largar. 

Um jardim com sapos é um jardim com surpresas, com armadilhas, com perigos. Não é um jardim para “wish fulfillment”, para a gratificação plena de desejos sem que nenhum preço seja pago.  O que deve ter encantado muitos leitores do fantástico latino-americano é o modo espontâneo como nossos melhores autores conseguem subordinar o jardim aos sapos; dobrar a verossimilhança superficial dos fatos da fábula até deformá-los pela presença dos campos gravitacionais poderosos que são as emoções, as crenças e os impulsos de-dentro-para-fora dos seus personagens.

Existe uma lógica subjacente aos textos de Garcia Márquez, Cortázar, Astúrias, etc., a lógica de uma verdade subjetiva que o leitor aceita, e aceita inclusive quando essa lógica abusa das leis da probabilidade ou rompe as convenções de espaço e tempo. Se o sentimento é verdadeiro, pouco importa o que o provoca.  Se o sentimento é verdadeiro, o que o provoca nem precisa ser possível.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

3312) O Mágico e o Fantástico (9.10.2013)




(by Alexander Johansson)


Existem dois termos que a imprensa literária usa de modo intercambiável: “Realismo Mágico” e “Realismo Fantástico”. 

Eu acho que os dois exprimem coisas muito diferentes, acho que são usados de maneira irrefletida e confusa, e para aclarar essa confusão proponho a classificação abaixo.

O “Realismo Mágico” é aquele tipo de narrativa literária em que uma história aparentemente realista na sua descrição de ambientes e de personagens inclui também elementos impossíveis de acontecer, mas que obedecem a uma lógica emocional da própria narrativa. 

Exemplos clássicos são Cem anos de solidão (1967) de Garcia Márquez ou Midnight’s Children (1980) de Salman Rushdie. 

É um tipo de história característico de culturas em que um verniz europeu (cientificista, cartesiano) se sobrepõe a uma medula indígena ou milenar (dominada pelo pensamento mágico), o que dá origem a essas infiltrações. Predomina na América Latina mas também tem versões próprias nas literaturas orientais: Índia, China, Japão. O romance e o conto (ou seja, as prosas de ficção) são o seu território principal.

O “Realismo Fantástico” é algo próprio da prosa de não-ficção: o ensaio (ou pseudo-ensaio), a reportagem especulativa, o jornalismo investigativo voltado para assuntos misteriosos e controvertidos. 

Os melhores exemplos de realismo fantástico são os livros O Despertar dos Mágicos (1960) de Pauwels & Bergier (que usa esse termo em seu subtítulo) e Eram os Deuses Astronautas? (1968) de Erich von Daniken, que têm como precursor ilustre O Livro dos Danados (1919) de Charles Fort e a série Believe it or Not (1919) criada por Robert L. Ripley. 

Neste caso, não se trata de romances de ficção, e sim de explorações semi-jornalísticas de fatos inexplicados, curiosos, insólitos, absurdos. Para essas obras, o termo “mágico” não se aplica muito, porque ele não exprime a presença de uma visão mágica do mundo, e sim a mera existência de fenômenos extraordinários que o nosso “realismo” ainda não aceita: extraterrestres, criaturas fantásticas, conspirações, pseudo-ciência, etc.

A principal distinção entre os dois, contudo, é o fato de que o primeiro é composto de literatura de ficção, e o segundo de textos de não-ficção. 

O Realismo Mágico conta histórias assumidamente inventadas pelo seu autor, as quais, como toda obra literária, oferecem uma visão pessoal e profunda da condição humana. 

O Realismo Fantástico apresenta discussões factuais sobre assuntos controversos, geralmente propondo uma versão um tanto fantasiosa dos fatos, o que bastaria para classificá-lo como uma espécie de “jornalismo imaginativo” ou de “ensaística da imaginação”.








quarta-feira, 21 de março de 2012

2823) Jonathan Carroll (21.3.2011)




Jonathan Carroll é um romancista nascido nos EUA e que mora em Viena há mais de 30 anos. Faz mais sucesso na Europa do que em seu país, e é um autor de romances fantásticos pouco convencionais, que não seguem um modelo previsível, e nos quais tudo (quase tudo) pode acontecer. Mesmo autores delirantes como Philip K. Dick ou Lucius Shepard têm uma certa lógica em seus processos, que depois de assimilada se torna previsível. Carroll não, ou talvez tenha, mas nos quatro romances que li ainda não deu para me prevenir por completo. É um dos poucos escritores de quem eu aceito fazer um animal falar.

Diz ele que não sabe até agora quem é o seu público: “Por exemplo: na Polônia, onde vendo uma porção de livros, todos os meus leitores são mulheres entre 20 e 30 anos; na França, são aqueles acadêmicos esnobes; na Alemanha, são punks”. Estou lendo um conjunto de seus romances chamado “O Sexteto das Preces Atendidas”, seis livros que contam histórias meio surrealistas ocorridas com um grupo de pessoas que se conhecem entre si. Cada livro aborda a vida de uma delas e as demais aparecem como figurantes, ou são citadas de passagem. Bones of the Moon (1987) conta a história de um dona de casa, Cullen James, que tem sonhos que transcorrem noutro universo; Sleeping in Flame (1988) é a história de Walker Easterling, um ator que sonha com vidas passadas e tem um mistério na infância; A Child Across the Sky (1989) fala de dois cineastas amigos, Weber Gregston (intelectual e cult) e Philip Strayhorn (diretor de uma série de filmes B de terror); Outside the Dog Museum (1991) conta como o arquiteto Harry Radcliffe recebe a incumbência de construir um museu de cachorros no Oriente Médio. Ainda não li After Silence (1992) e From the Teeth of Angels (1993).

Esses livros têm como protagonistas artistas de classe média, alta, ou simplesmente ricos, no eixo EUA/Europa (Viena aparece em quase todos), cujas vidas são tomadas de assalto por fatos inexplicáveis e grotescos, que os forçam a difíceis decisões éticas. São freqüentes as alucinações, abortos, morte violenta de personagens simpáticos, crianças em perigo, crianças bizarras, coincidências estranhas, animais que falam, reconstituição moderna de mitos do passado... Carroll tem sido comparado aos autores do realismo mágico latino-americano ou ao pintor Magritte, o que é correto, mas não esgota suas surpresas. É um desses casos raros de um autor fantástico que cria suas próprias regras e suas próprias exceções – o que acaba incomodando de início o leitor, acostumado a ver livros que são façanhas acrobáticas diferentes com os mesmos malabares de sempre.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

1930) As cidades intangíveis (16.5.2009)




Há uma piada antiga em que dois portugueses estão lá no interiorzão do Alentejo discutindo distâncias. Um deles diz que o lugar mais distante que existe é Lisboa. O outro aponta a Lua e diz: “Não, a Lua é mais longe”. E o primeiro: “Claro que não é. A Lua eu posso enxergar, e Lisboa está tão longe que eu não vejo”. 

Como seria nossa visão do mundo se só pudéssemos acreditar na existência de lugares que vemos com os nossos olhos? 

Eu nunca fui ao Paquistão, mas as provas da existência do Paquistão são convincentes. Acredito, mas por uma questão de fé, porque são afirmações alheias que não posso comprovar pessoalmente. Mas são informações tão numerosas, ordenadas, e coerentes entre si que é mais simples admitir que o Paquistão existe mesmo do que imaginar que a Humanidade inteira criou essa vasta conspiração para... para quê?

O fato de que já fui a Lisboa e nunca fui a Monteiro, portanto, não desnivela meu senso de realidade sobre as duas. Para mim são igualmente reais e concretas, mesmo que num caso eu tenha obtido provas empíricas abundantes, e no outro esteja apenas me fiando em informações de apologistas. 

Sabemos conviver com essa dualidade, mas sempre que chegamos numa cidade pela primeira vez (existe emoção maior?) há uma espécie de alívio. “Ah, agora sim. Existe mesmo”.

A escritora russa, radicada nos EUA, Ekaterina Sedia ilustra essa situação com bom humor. 

Eu passei meus primeiros vinte anos atrás da Cortina de Ferro, onde a gente não tinha esperanças de conhecer nada fora do país. Lendo Victor Hugo, eu pensava: ‘Nunca vou conhecer Paris. É como se fosse uma cidade numa romance fantástico’ Fiquei estupefata quando descobri que Nova York existia de fato! Para mim, a maior parte da geografia mundial era fantasia.

É como a neurose compulsiva das pessoas que abrem de dez em dez minutos o armário para ver se as roupas continuam lá; ou como os namorados, que perguntam: “Você me ama?” – “Mas claro, falei que te amava, há dois minutos...” – “Me amava há dois minutos, mas, me ama agora?”. Creio que tudo vem daquela época da infância em que o bebê vira a cabeça e, ao ver a imagem da mãe sumir do seu campo visual, acha que ela deixou de existir, e abre o berreiro.

Nossa consciência cria o mundo ao percebê-lo. Como naqueles video-games em que o personagem é visível no centro de um espaço de uns cem metros, e o horizonte se perde em brumas indistintas. Quando ele caminha em qualquer direção, a paisagem distante surge, magicamente, estimulada pela sua presença. Ou como já disse Philip K. Dick: 

Eles constroem apenas as partes do mundo necessárias para dar a ilusão de que ele é real. É um projeto de baixo orçamento. Países como Japão, ou Austrália, na verdade não existem. Não há nada, ali. A não ser que a gente decida viajar para lá, e neste caso eles constroem tudo às pressas, todo o cenário, os prédios, e as pessoas, a tempo de estarem lá na sua chegada. Têm que trabalhar muito rápido.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

1638) A visão da FC (12.6.2008)



Existem muitas diferenças entre a literatura fantástica e a literatura do “mainstream”. (“Mainstream”, correnteza principal, é um termo muito usado pela crítica para designar a parte principal da literatura de uma época, a tendência dominante. A correnteza principal da literatura de hoje no Ocidente é o romance realista.) Se considerarmos todos os títulos produzidos durante um ano, ou dez anos, veremos que a literatura fantástica (incluindo ficção científica, terror, fantasia, etc.) é apenas uma pequena parte disso. Apenas uma fatia numa pizza redonda e gigantesca. Em outras culturas (no Oriente, p. ex.) o romance realista é cultivado mas não tem uma predominância tão grande. Achar que a literatura serve para reconstituir o mundo em que vive o autor é um cacoete cultural do Ocidente.

Vista desse modo, a literatura fantástica é uma literatura menor: menos títulos, menos autores, menos leitores. É como os partidos pequenos num Congresso, que precisam sempre estar se associando aos partidos maiores para ganharem um mínimo de visibilidade.

Tudo isso ocorre porque a literatura realista pretende lidar com algo mais importante, a Realidade, e o fantástico atrai menos leitores porque lida com coisas tidas como secundárias como a imaginação, o sonho, o irreal, etc. Mas se pegarmos essas duas formas de narrativa e examinarmos como elas abordam a Realidade, vamos ter um gráfico que é o contrário do anterior. Porque o Realismo aborda apenas uma fatia de uma imensa pizza, e o Fantástico aborda a pizza inteira.

O mundo que vemos à nossa volta não é a única coisa real. Coisas imateriais, como as representações subjetivas do pensamento, são reais. O que se passa na cabeça de cada um de nós também é real. Um pensamento não precisa estar “certo” para ser real. As idéias erradas também existem, também são entes, mesmo que sua interpretação dos fatos esteja equivocada. A teoria de que a Terra é oca, por exemplo, é real, existe, embora a Terra não seja oca. Os discos voadores, para Jung, eram uma realidade psíquica tão verdadeira quanto qualquer outra realidade psíquica baseada em objetos concretos. É um erro afirmar que algo, simplesmente por não existir no mundo material, não existe. Se fosse assim, toda a Filosofia seria irreal, porque os conceitos da Filosofia só existem em nossas mentes. Não há filosofia na Natureza.

O fantástico lida com sonhos, com fantasias; propõe situações absurdas que jamais poderiam ocorre no mundo aqui em redor. Através da ficção científica, descreve planetas imaginários, civilizações inexistentes. E tudo isso, curiosamente, é tão real – no plano das idéias – quanto descrições de cavalos e bois, ou histórias ambientadas na corte de Luís XIV. É irônico que a parte maior da pizza literária (o mainstream) se dedique apenas à parte menor do Real, e que caiba à fatiazinha representada pelo Fantástico a abordagem da pizza inteira do Universo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

1507) A arte de numerar mulheres (11.1.2008)


(Tintoretto, Women playing music)

Pode-se dizer que falta realismo mágico no filme O amor nos tempos do cólera de Mike Newell, que parece muito com um filme de Mike Newell e parece pouco com um livro de Gabriel Garcia Márquez. O Realismo Mágico conheceu neste meio século as duas faces do sucesso excessivo: a adoração desmiolada e em seguida o menosprezo esnobe. Como qualquer outro movimento ou gênero ou estilo literário, ascendeu à glória impulsionado pela criatividade de uma dúzia de inventores, e depois desabou de volta ao chão arrastado pelo peso de milhares de imitadores que pegaram o bonde andando. Críticos literários que antipatizam com ele costumam, ao condená-lo, brandir como prova da promotoria os piores clichês praticados por quem ouviu o galo cantar mas nunca soube de que lado nascia o sol.

O elemento mais “realismo mágico” que encontrei no filme (e que certamente pertence ao livro) é a compulsiva catalogação, por Florentino Ariza, de todas as mulheres com quem fez sexo ao longo dos 51 anos que durou sua paixão impossível por Fermina Daza. Florentino descobre sem querer que existe uma maneira de manter-se fiel à amada que preferiu casar-se com outro: diluir as demais mulheres do mundo numa sucessão de aventuras inconseqüentes em que a prática compulsiva do sexo não deixa lugar para o amor. No único caso em que algo como uma paixão começa a brotar entre ele e uma de suas escolhidas, a faca de um marido ciumento encerra de maneira trágica o episódio.

Florentino anota à mão, numa caderneta, cada um desses casos amorosos, fazendo uma breve avaliação técnica. A frieza, ou melhor, a monotonia dessa contabilidade demonstra o distanciamento que consegue manter, e que lhe permite, na velhice, dizer a Fermina: “Fiquei virgem à sua espera”, e permite a ela dizer-lhe, com um muxoxo: “Mentiroso”, sabendo que é mentira, e ao mesmo tempo sabendo que no fundo é verdade.

A compulsão burocrática de Florentino lembra o personagem de Guimarães Rosa em “O Recado do Morro”, o Coletor, que vive pela cidadezinha cobrindo os muros e as paredes com números que, no seu juízo de doido, correspondem às suas posses: “Ia alinhando números tão desacabados de compridos, que pessoa nenhuma não era capaz de tabuar: seus ouros, suas casas, suas terras, suas boiadas no invernar, sua cavalaria de ótimas eguadas, seus contos-de-réis em numerário, cada lançamento daqueles era feito uma correição de formiguinhas pretas enfileiradas. Aquele homem tinha uma felicidade enorme.”

A loucura lúcida de Florentino poderia ter dado o tom do filme, mas não é o caso. Talvez quem pudesse filmar melhor esse filme fosse outro maluco como o Peter Greenaway de Afogando em Números. Seria menos obediente ao original, e talvez mais parecido com ele. Fixação numérica e paixão amorosa parecem não ter muita coisa em comum – mas quando as vemos transformar-se na razão de viver de um doido manso, parecem ser as únicas coisas que realmente importam na vida.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

1390) O realismo naturalista (28.8.2007)




(Julio Cortázar)

Os critérios do realismo na arte às vezes não batem uns com os outros. Algo é realista se visto de um ângulo, e não é, se visto de outro. 

Numa novela das 8 nada acontece que não possa acontecer na vida real (ultimamente têm aparecido fantasmas em tudo quanto é novela, mas estes sempre podem ser atribuídos a alucinações, etc.). Mas nelas aparece muita coisa que não bate com a realidade. Não questionarei a verossimilhança psicológica (“não é realista uma mãe se comportar assim!”), porque psicologicamente qualquer coisa pode ser justificada. 

Também não discutirei erros de continuidade ou anacronismos: “se a história se passa em 1958, a música tal, que é de 1962, não podia estar tocando no rádio”. Coisas assim são descuidos, não fazem parte da concepção da obra.

No mundo das telenovelas constatamos a ausência inexplicável de detalhes realistas, que nos levam a perguntar que mundo é aquele onde as pessoas vivem. Um exemplo muito citado é a total ausência, naqueles apartamentos, de interfone no prédio ou de olho-mágico na porta, o que proporciona aquelas surpresas de fim-de-capítulo, em que a campainha toca e as pessoas abrem sem poder verificar quem está tocando. Algo absurdo em nosso mundo; mas no mundo da novela é assim, e todo mundo aceita.

Julio Cortázar discutiu esta questão certa vez, quando um crítico questionou o fato de um personagem num romance seu chegar em casa depois de meses fora, ligar o carro e o motor deste “pegar” imediatamente. O crítico perguntou se isto era um exemplo do “realismo mágico”; Cortázar replicou que não, porque bastaria ao personagem ter deixado uma cópia da chave com um vizinho de confiança, como tanta gente faz, para que de vez em quando ligasse o motor, evitando que a bateria arriasse. 

“O realismo mágico,” disse ele, “se ocorre, é num plano muito menos banal”.

O mundo das telenovelas é interessante porque violenta o naturalismo o tempo inteiro. Basta assistir novelas mexicanas, perto das quais as da Globo são verdadeiros filmes de Luchino Visconti. Ali vemos aquelas mulheres que de madrugada são acordadas pelo telefone, acendem a luz de cabeceira e estão maquiladíssimas e com o cabelo todo armado, como se acabassem de chegar numa festa. Aqueles indivíduos que pegam uma briga de socos, e saem sem uma marca no rosto. Para um espectador de TV mais escolado, acostumado a produtos feitos de maneira mais exigente, tudo isto provoca risos de incredulidade. Os mesmos risos de um espectador de filme de Visconti quando se depara com o pseudo realismo da novela das oito.

Cada gênero usa um realismo aparente na medida de suas necessidades para que suas características de gênero prevaleçam. Até uma comédia de Mel Brooks, dos Irmãos Marx ou de Monty Python, que desmontam qualquer convenção, tem que ser verossímil e convincente em tais ou tais elementos para que as piadas possam funcionar. É preciso convencer o espectador de que, no mundo proposto, aquilo está de fato acontecendo.






sábado, 24 de janeiro de 2009

0776) Contos Fantásticos em Borges (13.9.2005)



Leitores habituais desta coluna terão constatado a minha admiração talvez excessiva, mas nunca injustificada, pela obra de Jorge Luís Borges. Volta e meia, aqui estou eu recorrendo a um exemplo ou a uma citação borgiana para elucidar esta ou aquela questão. A verdade é que leio Borges há 33 anos, e num cálculo superficial constato que tenho cerca de 45 livros dele (ou sobre ele) em minhas estantes. É o segundo escritor de quem possuo mais livros (o primeiro é Ellery Queen), e um dos que conheço mais a fundo. Em vista disto, peço licença para divulgar o lançamento da antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges, que organizei para a editora Casa da Palavra (Rio), e que estará sendo lançada oficialmente hoje no Rio de Janeiro. Haverá um debate na Livraria da Conde, no Leblon, onde estarei ao lado da escritora Heloísa Seixas, ela também autora e editora de antologias de contos fantásticos.

Borges tem sido incluído dentro da onda do “realismo mágico latino-americano” desde a década de 1960, o que talvez não lhe tenha sido muito favorável. O rótulo de Realismo Mágico tem sido associado prioritariamente a escritores muitíssimo diferentes de Borges: Garcia Márquez, Miguel Ángel Astúrias, Juan Rulfo, Manuel Scorza e outros. Escritores com uma forte influência rural, com narrativas impregnadas de ambiente (o que as aproximava do romance regionalista) mas que transcorrem num plano supra-real, misturado a elementos do mito, da lenda e do sonho. Descrevem a sociedade patriarcal e caudilhesca da América Latina, de mistura com elementos fantásticos e sobrenaturais. Um tipo de literatura que no Brasil foi praticada em obras como Incidente em Antares de Érico Veríssimo, Dona Flor e seus dois maridos de Jorge Amado, e outros.

Se o que Borges faz é Realismo Mágico, então é de uma natureza totalmente diversa, e é o que procuro examinar nesta antologia, que reúne 18 contos de autores cuja influência Borges sempre admitiu (Kafka, Poe, Stevenson, Léon Bloy, Chesterton, Hawthorne, Wells) e de outros que ele lia e apreciava, embora muita gente não saiba: Ray Bradbury, Lord Dunsany, Marcel Schwob... e Ellery Queen. Os contos selecionados usam temas muito próximos a alguns dos temas preferidos de Borges (o livro impossível, o tempo cancelado, o objeto com um lado só, o labirinto, o objeto inesquecível, etc.), e mostram que o fantástico, em Borges, está mais próximo do Fantástico europeu do século 19 do que do Realismo Mágico latino-americano do século 20.

Toda antologia deve valer pelos contos que apresenta, e não pelos textos teóricos que os acompanham. No presente caso, todos os contos têm enredos e situações fascinantes, além de serem de grande interesse para um eventual leitor de Borges. Vários deles, pelo que sei, estão sendo publicados no Brasil pela primeira vez. Confiram no saite da editora: http://www.casadapalavra.com.br/.

terça-feira, 11 de março de 2008

0203) O realismo mágico (14.11.2003)




(ilustração de Virgil Finlay)

Em debates sobre Literatura já participei de discussões sobre o “Realismo Mágico”, cujos autores mais conhecidos são Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luís Borges, Miguel Ángel Astúrias e outros. 

Este nome surgiu na Europa, para classificar uma literatura que subvertia o conceito de Realismo. Para um certo tipo de mentalidade européia (que não vigora apenas na Europa) há dois tipos de literatura: o realismo e o fantástico (ou “fantasia”). Realistas são as obras de Balzac, Tolstoi, Stendhal, Flaubert, etc.; elas descrevem o mundo de acordo com as leis científicas o o bom-senso. O fantástico são obras que descrevem um mundo que não existe: como Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, Viagens de Gulliver de Swift, ou Micrômegas de Voltaire.

Acontece, porém, que as coisas não são assim tão simples. Numerosas obras misturam aspectos realistas e aspectos fantásticos. Uma característica do fantástico moderno (desde a ficção científica de H. G. Wells até o terror de Stephen King) é a minuciosa e realista reconstituição de um ambiente verdadeiro onde se dá a intrusão de um elemento fantástico isolado, que desequilibra todo aquele contexto.

Críticos como o francês Tzvetan Todorov tentaram re-equilibrar esta situação, propondo o conceito de “maravilhoso” para as histórias explicitamente irreais, enquanto que o “fantástico” seriam aquelas histórias que deixariam o leitor numa permanente suspensão, sem saber se atribuía aos acontecimentos narrados no livro uma explicação realista ou uma explicação sobrenatural, sendo ambas igualmente possíveis. 

O exemplo clássico desse tipo de narrativa é Outra volta do parafuso de Henry James. São aquelas histórias em que os eventos estranhos podem ser atribuídos a uma ilusão ou desequilíbrio mental do protagonista, ou à sua incapacidade de distinguir entre realidade e sonho, fantasia, falsa memória.

O editor norte-americano Lou Aronica comenta assim o Realismo Mágico: 

“Nele, a história emocional é realista, mesmo que os eventos que produzem essas emoções não o sejam.” 

Num livro como Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez, que ainda hoje é considerado o protótipo do Realismo Mágico, acontecem inúmeros prodígios. Os personagens ficam abismados, surpresos, maravilhados diante daquilo: mas em momento algum lhes ocorre dizer que aquilo não poderia acontecer. 

Uma mulher sobe levitando aos céus? Um filete de sangue escorre pelas ruas para avisar que um crime foi cometido? Uma epidemia de amnésia mergulha no estupor uma cidade inteira? São prodígios, de fato, mas são aceitos pelos personagens como parte do seu mundo. 

O latino-americano, mesmo quando não crê em nada, é capaz de aceitar tudo, quando se depara com um fato. O mais radical ateu, se avistar Cristo descendo do céu entre uma legião de anjos, vai comentar: “Ih, vai começar a palhaçada do Juízo Final!” Seu conceito de verdade não está pronto e acabado; pode mudar, com o surgimento de uma verdade nova.