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sexta-feira, 18 de agosto de 2023

4973) Otacílio Batista, cantador (18.8.2023)

 
 
O próximo mês de setembro trará as comemorações do centenário de nascimento de Otacílio Batista, um dos grandes cantadores de viola de sua geração. Um amigo-e-mestre com quem tive a sorte de conviver durante alguns anos, principalmente entre 1975 e 1980, quando eu morava no Nordeste (Campina Grande, Salvador) e convivia mais de perto com o Olimpo da cantoria.
 
Digo “Olimpo” na brincadeira, mas a cantoria é meio assim – uma montanha fabulosa habitada por deuses capazes de façanhas que nos parecem sobrenaturais, mas basta subir a ladeira e vê-los de perto para constatar que são “humanos, demasiado humanos”, com as mesmas paixões nossas, os mesmos sentimentos, as mesmas qualidades e defeitos... Ou seja: são duas vezes mais interessantes.
 
Otacílio Batista (28-9-1926 / 5-8-2003) era um dos três irmãos violeiros que muito fizeram para transformar São José do Egito (PE) numa das capitais simbólicas da cantoria. Junto com Lourival (1915-1992) e Dimas (1921-1986) ele representou a geração de meados do século 20, que viveu e impulsionou um dos vários ciclos de expansão e modernização da arte do repente.
 
E está pronta para ir às livrarias a biografia Otacílio Batista, uma história do repente brasileiro (São Paulo: Hedra & Acorde!, 2023), escrita pelo seu neto Sandino Patriota, pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC). Não é o primeiro livro  abordar a pessoa e os versos de Otacílio, mas neste caso o autor, sendo da família, teve acesso a uma grande quantidade de material, inclusive narrativas orais que enriquecem o retrato.
 
Otacílio Batista Patriota já tem o nome na métrica perfeita do decassílabo em martelo agalopado, com acento nas sílabas 3, 6 e 10. Era um cantador de verso rápido, mas com uma dicção calma e cadenciada, a cabeça trabalhando como um chip Intel enquanto a voz escandia as sílabas sem vexame (=pressa), como se estivesse ditando o verso para alunos aplicados.
 
Fui um deles, aquele tipo de aluno de mesa de bar a quem ele sempre dava explicações pacientes, orgulhoso ao ver como os universitários cabeludos e intelectualóides estavam começando, em meados dos anos 1970, a querer saber quem inventou o galope beira-mar, quem foi Fabião das Queimadas, e a diferença entre sextilha e gemedeira.
 
 O livro de Sandino traz uma comparação detalhada e pitoresca entre os três irmãos Batista, traçando o perfil único de cada um.
 
Lourival: o mais velho, boêmio, farrista, humor sarcástico, lirismo delicado, trocadilhista emérito, vida profissional caótica.
 
Dimas (que não conheci pessoalmente) mais reservado, leitor voraz, lírico e erudito ao mesmo tempo, acabou deixando a viola de lado para ser professor e diretor de colégio.
 
Otacílio, grande observador, de verso elegante e resposta rápida, autor de inúmeros livros, capaz de belas poesias líricas e de versos fesceninos de fazer inveja a Bocage.
 
Como observa Sandino Patriota:
 
Apesar de ser apenas oito anos mais velho do que Otacílio e seis do que Dimas, a distância real entre esses cantadores era de uma geração inteira. Lourival pertenceu à geração dos Vates antigos: cantava, se portava e pensava como os cantadores que fizeram fama no fim do século XIX. (pág. 24)
 
Começando a carreira de cantador profissional em 1940, Otacílio foi um dos protagonistas do “boom” do repente após a II Guerra Mundial.
 
Em 1946, Ariano Suassuna quebrou um honorável tabu da cultura elitista ao levar cantadores (os Batista entre eles) para o palco do Teatro Santa Isabel, no Recife.
 
Em 1947, Rogaciano Leite organizou o primeiro congresso (=festival) de cantadores do Nordeste, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, onde a dupla vencedora foi Cego Aderaldo e Otacílio Batista.
 
Em 1948 Rogaciano “fechou o firo” ao levar para o Teatro Santa Isabel o segundo congresso de cantadores.
 
Em 1949, um grupo de políticos e jornalistas, admiradores do repente, produziram e organizaram uma viagem, ao Rio e São Paulo, de um grupo de violeiros que incluía os três Batistas, o veterano Severino Pinto (o “Pinto do Monteiro”) e Agostinho Lopes dos Santos. A revista O Cruzeiro (25-6-1949) dedicou várias páginas à caravana de poetas, que cantaram para ministros e autoridades, e foram celebrados por Carlos Drummond de Andrade e Joaquim Cardozo.
 

(Otacíio, Lourival,  Pinto e Dimas)


É bom destacar, sempre, que isto se deu num momento em que o baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira varria o Brasil radiofônico de ponta a ponta, e Gonzagão nunca deixou de lembrar o quanto sua música devia à batida da viola e às toadas dos cantadores. Foi um grande momento de evidência da cultura do Nordeste na indústria cultural (rádios, jornais, revistas) sudestina.
 
Sandino aborda também a questão do mito de Zé Limeira, “o Poeta do Absurdo” celebrado por Orlando Tejo. Como se sabe, muitos dos versos atribuídos por Tejo a Zé Limeira foram escritos por Otacílio. Hoje, destrinchar quem fez o quê é um pouco como pegar uma xícara de café com leite e separar os dois.
 
Otacílio era alto, corpulento, branco de olhos claros, sempre bem vestido, passo vagaroso, porte altivo. Sempre cortês e atencioso, mas avermelhava num segundo quando alguma coisa o irritava. Bem humorado na hora da anedota ou da piada ferina sobre algum incauto, tinha pavio curto quando se ofendia, erguia os ombros, ficava que era ver um touro. Mas não era homem de briga; se vingava no verso, porque Deus é grande.
 
Lourival Batista já foi objeto de alguns livros (de Ivo Mascena Veras, Alberto da Cunha Melo), e de filmes de curta-metragem, inclusive o Bom Dia, Poeta (2015) de Alexandre Alencar, onde colaborei no roteiro. Otacílio tem agora esta atenta e útil biografia. Fica faltando a de Dimas Batista, o homem que disse: “tudo passa na vida, tudo passa, mas nem tudo que passa a gente esquece”.
 
 
 




sexta-feira, 15 de julho de 2022

4843) A resposta na ponta da língua (15.7.2022)

 


Quando os Beatles desembarcaram pela primeira vez nos EUA, em 1964, deram mil coletivas de imprensa. Um jornalista perguntou:
 
– Por que a música de vocês deixa as pessoas tão excitadas?
 
Houve um segundo de hesitação no grupo, e John Lennon disse:
 
– Não sabemos. Quando descobrirmos, vamos criar um novo grupo e ser empresários deles.
 
Os Beatles tinham uma enorme capacidade de improvisar respostas ao vivo. Não eram as respostas espertas, ensaiadinhas, das coletivas de hoje em dia. Hoje, todo artista tem alguns publicitários criativos em sua equipe, que lhes entregam uma lista das prováveis perguntas e das respostas espirituosas que ele deverá decorar para “ter na manga”.
 
E nos “encontros com a imprensa” de hoje, há, muitas vezes, um jornalista arraia-miúda a quem foi fornecida uma pergunta para ele fazer na hora H, servindo de “escada” ao artista, em troca de dois convites para o show. (Se eu fosse empresário de artista rico, subornaria jornalistas sem o menor remorso. Quem se vende é porque não vale nada.)
 
Os ingleses chamam de repartee a frase espirituosa dita num repente. Funciona tão bem que dá a impressão de que a pergunta (que era uma provocação) fica parecendo uma “deixa” para o cara exibir a resposta que trazia prontinha.
 
Não trazia. É improviso mesmo. Naquela mesma coletiva, alguém pergunta: “Quando vocês vão cortar o cabelo?” e George Harrison responde de bate-pronto: “O meu eu cortei ontem.”
 
É resposta decorada? Não. Provavelmente era verdade. Claro que os Beatles aparavam aquelas trunfas, principalmente antes de estrear uma turnê grande. E muitas vezes a verdade é a última coisa que se espera numa resposta assim.
 
O improviso espirituoso não é apenas uma resposta inteligente, é uma resposta que depende totalmente do modo como a pergunta foi feita. Muitas vezes a graça implica em distorcer o sentido de algum termo da pergunta. Nessa mesma coletiva (ou em outra) perguntaram aos Beatles: “Como vocês acharam a América?”. A pergunta, é claro, indagava sobre o estado de espírito dos fãs, à sua chegada. Lennon respondeu: “Virando à esquerda quando chegamos na Groenlândia”.



Bob Dylan, na sua fase sarcástica e sardônica de 1966 (aquilo que hoje está sendo chamado de “The Cate Blanchett Period”) era outro que não deixava por menos. Um pomposo entrevistador perguntou-lhe uma vez:
 
– Você tem idéia do alcance de suas canções?...
 
E ele disse:
 
– Olhe, tem as que alcançam três minutos, outras alcançam cinco, e outras, acredite se quiser, alcançam os dez ou doze minutos.
 
Muitos dos nossos melhores repentes, essas respostas instantâneas capazes de guilhotinar uma pergunta em um segundo, surgem assim porque já tínhamos pensado naquela pergunta e em nossa cabeça se formou, se não a resposta pronta e definitiva, pelo menos uma idéia de como essa resposta deveria ser.
 
Uma expressão francesa, “esprit d’escalier”, indica aquelas ocasiões melancólicas em que essas respostas arrasadoras, espirituosas, só nos ocorrem quando estamos na escada, indo embora da festa. Não importa. Perguntas embaraçosas ou provocativas costumam se repetir. A gente guarda a resposta boa. Eu já preparei uma resposta assim e guardei por mais de 25 anos; quando a pergunta veio, tirei-a do bolso sem pestanejar, e a mesa inteira aplaudiu.



G. K. Chesterton tem um ótimo livrinho de contos interligados, The Club of Queer Trades (1905), em que os personagens inventam profissões extravagantes, maneiras bizarras de ganhar a vida em Londres. A certa altura, menciona-se um cara que é “o Shakespeare do dito espirituoso”, a alma das festas, o cara que tem sempre uma frase engenhosa para desarmar o interlocutor.
 
Conto vai, conto vem, ficamos sabendo no final que esse cara espirituoso é apenas um dos clientes de um sujeito que prepara conjuntos de frases-e-respostas, e numa ocasião social qualquer, combinadamente, dá as “deixas” para que o cliente (qualquer um que pague bem) pronuncie sua frase de espírito e faça o maior sucesso. É a profissão dele: Facilitador de Respostas Espirituosas.
 
“Armações” à parte, a resposta de bate-pronto existe, e cada um de nós já presenciou inúmeros exemplos. Políticos mineiros são especialistas nisso: Tancredo Neves, Benedito Valadares, José Aparecido de Oliveira...


(busto de Antonio Marinho em S. José do Egito, foto BT)
 
Os cantadores nordestinos são, além de poetas, repentistas, ou seja, são capazes de raciocínio rápido e resposta perfeita. Conta-se que o mestre Antonio Marinho, de São José do Egito, tinha um compadre chamado Irineu. Um dia estava em casa e a esposa do compadre lhe surge à janela da rua, perguntando:
 
– Compadre Antonio, o senhor viu Irineu?...
 
E ele:
 
– Não. E fôro?...
 
É o tipo da coisa que só é engraçada na pronúncia dialetal sertaneja. “O senhor viu irem n’eu? (=irem em mim)?” – “Não!... E foram?!...”
 
O genro de Antonio, o famoso Lourival Batista, era um dos gatilhos-verbais mais rápidos do Nordeste. Lá vinha ele caminhando despreocupado pelas ruas de São José, quando um conhecido o saudou de longe, acenando da calçada oposta:
 
– Tudo bem, “Lourivarrr”?...
 
E ele, impassível:
 
“Regulal”...
 
São gracejos que ninguém poderia “trazer pronto” para responder no momento adequado; é algo concebido e executado no espaço de segundos. Nenhum de nós tem a verve repentística de Marinho ou de Louro, mas pode se dedicar à nobre arte de prever perguntas e preparar respostas.
 
E nesse aspecto lembro um caso contado pelo meu saudoso amigo Arievaldo Vianna, que vinha cruzando uma praça e dele se aproximou um doido que perambulava por ali pedindo dinheiro. O doido chegou e disse:
 
– Me dê uma grana pra provar que está com Deus. Se Deus estiver do seu lado, um bandido bota a arma na sua cabeça, aperta o gatilho, a arma encrenca e não dispara.
 
Arievaldo:
 
– Sim, mas e se a arma for novinha, e disparar?
 
O doido:
 
– Então é porque você estava pronto pra ir ao encontro de Deus!







sexta-feira, 16 de abril de 2021

4694) O sinônimo da nota musical (16.4.2021)



Os aficionados da cantoria de viola vivem a me perguntar se Zé Limeira existiu de verdade. Curiosamente, ninguém me pergunta o mesmo sobre o poeta violeiro Bandeira Sobrinho, com quem conversei muito, bebi, viajei, glosei motes, e que para muita gente não é uma pessoa real, vive apenas no mundo dos personagens diegéticos.
 
Bandeira Sobrinho, caso não-diegético fosse, teria uns cinquenta anos quando eu tinha vinte e cinco, e nossa amizade meio improvável se consolidou aos poucos, entre uma cerveja no Bar de Seu Manu e um café pequeno no Calçadão. Era forte, atarracado, tinha um bigode grisalho, óculos. Bebia muito, sorria pouco, mas tinha um inesperado senso de humor.
 
Não foi o violeiro mais brilhante de sua época, porque disputava espaço em Campina Grande com outros de sua geração, como José Gonçalves ou Antonio Barbosa, e com os da nova geração de galos-de-briga que, naqueles meados dos anos 1970, começavam a botar as unhas de fora: Ivanildo Vila Nova, Moacir Laurentino, Severino Feitosa, para falar apenas dos que moravam em Campina.
 
Quando fomos publicar os folhetinhos transcrevendo os versos gravados nos espetáculos do Congresso Nacional de Violeiros, patrocinados pela Universidade Regional do Nordeste, tivemos a idéia de incluir nos folhetos as partituras com as melodias correspondentes a cada estilo: sextilha, galope, martelo, quadrão, etc.  

O diretor do Museu de Arte era José Umbelino, que convocou o maestro Pedro Santos para a tarefa. Pedro Santos, grande sujeito, era de João Pessoa e nessa época estava pagando os pecados em Campina, porque no Museu quem mandava era a gente, e não tinha hora de funcionamento.
 
– Maestro, este aqui é o poeta Bandeira Sobrinho, meu grande amigo. Ele vai cantar as melodias e você copia.
 
– Muito bem, vamos lá.
 
Fui tomar um café na cantina e voltei meia hora depois para constatar um impasse entre os dois.
 
– Algum problema?
 
– Não propriamente um problema – disse o maestro, que era o rei da paciência e da diplomacia. – Mas cada vez que eu peço pra repetir ele canta uma melodia diferente.
 
– É a mesma – insistiu Bandeira, já arrufando as penas.
 
– Não, poeta, presta atenção... – explicava Pedro, ao piano, um dedo nas teclas, outro apontando a partitura recém-rabiscada. – Aqui era essa nota, e você na segunda vez cantou essa outra aqui.
 
– E que diferença faz – disse Bandeira. – Se não foi a mesma nota, foi um sinônimo.


(maestro Pedro Santos)


Surgiu pela primeira vez nessa tarde a minha percepção de que um dos elementos que diferenciam a cultura erudita e a cultura popular é que a primeira privilegia a visão de detalhe, e a segunda a visão de conjunto. 

Pode não ser a melhor maneira de colocar essa questão, mas vejam só. Eu também costumo cantar e tocar violão, e não sou dos mais afinados. Se estou cantando uma música qualquer, seja dos Beatles ou de Ataulfo Alves, não estou preocupado com as notas individuais, e sim com a frase melódica. Aqui e acolá pode uma nota não ser igual ao disco, pode não ser igual até à que cantei há pouco; e daí? O que importa é que o ouvinte reconheça a frase. “Pois é, falaram tanto, que desta vez a morena foi-se embora...” Se o ouvinte reconhecer a melodia geral, que diferença faz uma nota ou um sinônimo dela?
 
Bandeira e o maestro Pedro comeram o pão que o diabo amassou durante algumas tardes, mas as partituras foram feitas e saíram no folheto. Surgiu entre os dois uma amizade distante baseada no respeito e na perplexidade. Foi um pouco como aquele filme de guerra de John Boorman que passou na época no Cine Capitólio, Inferno no Pacífico, onde um soldado americano e um japonês, numa ilha deserta, brigam tanto que acabam admirando um ao outro.
 
A cultura erudita se baseia na possibilidade da existência da Versão Única, ou da produção de um Documento Definitivo, de uma Matriz da qual deverão derivar todas as cópias, citações, referências, etc.  É o Império do Documento Escrito.
 
Já a cultura oral se baseia na superposição incessante de versões sempre diferentes entre si, mas guardando uma semelhança que permite considerar que sejam “a mesma coisa”. Não há (isso vale para os Mitos, para as Lendas, para todas as formas orais de narrativa) uma versão mais verdadeira do que todas as outras. Cada uma é a foto-da-nuvem. A nuvem é o conjunto de todas.
 
Quando eu estou cantando até me preocupo em “cantar a letra certa”, mas se na hora não me vier uma palavra entra outra, e fica por isso mesmo. Em mesa de bar (=cultura oral), ninguém liga. Em estúdio (=cultura erudita), o técnico manda fazer de novo. “Vamos fazer a boa, agora...”
 
E mesmo essa cultura musical de estúdio deixa-se contaminar pela outra. Porque num universo como a Música Popular Brasileira, só para dar um exemplo, letra e melodia de uma canção são geralmente respeitadas, mas não são sagradas. Intérpretes mexem, sim; e uma explicação simples para o que acontece pode ser esta: “Se a cantora desafina, erra a nota, pára tudo e vamos gravar de novo; se a cantora está interpretando, está fazendo floreios vocais com pleno domínio de sua técnica, então vale, mesmo que vá longe da melodia original”.
 
A música fonográfica abomina a desafinação (=o erro) mas acolhe a criatividade pessoal. Os compositores escutam, percebem que a música foi alterada, mas muitas vezes admitem que foi alterada “para melhor”, ou pelo menos para se adequar ao sentimento próprio daquela interpretação; e não reclamam.
 
Quando Ella Fitzgerald ou Nana Caymmi começam a florear a melodia, isso é a forma aristocrática (digamos assim) do “cantar de oitiva” dos intérpretes populares, que em seus terraços de sábado ou fundos-de-quintal de domingo cantam a melodia (e a letra) do jeito que lembram, que entendem e que conseguem.



(Lourival e Pinto)
 
O cantador de viola, o poeta repentista, dá atenção à melodia, mas é a mesma que dá ao paletó quando sai para cantar. Tem que estar tudo em ordem, mas não é isso que ele vai exibir para o público: ele vai exibir os versos, a poesia, e tanto a música quanto o figurino são meros coadjuvantes. 

Pesquisadores já comentaram comigo sobre sua decepção ao tentar acompanhar o áudio de uma cantoria entre os mestres Lourival Batista e Pinto do Monteiro, dois dos maiores gigantes do repente, e duas das vozes mais trôpegas dessa arte. Principalmente porque a maioria dos áudios que gravaram já foi na entrada da velhice, quando dicção, dentadura e garganta já não estavam mais em seus melhores momentos.

Quando Geraldo Sarno filmou um pé-de-parede entre os dois veteranos, no curta Cantoria (produzido por Thomas Farkas), usou legendas em português, para meu grande alívio. 
 
A nota musical ajuda quando está correta, mas para o cantador o maior importante é que não atrapalhe. Na hora, se ela não puder vir à goela, que mande um sinônimo.
 
 
 
 
 



sábado, 23 de março de 2019

4449) A arte da glosa (23.3.2019)



Glosava-se à vontade nos salões do tempo de Machado de Assis, como ele próprio registrou. Pode não ter sido uma moda tão avassaladora quanto a do soneto, ou tão cortesã quanto o álbum de autógrafos literários. Não importa: foi moda, praticou-se, havia naqueles salões e naqueles saraus provavelmente muita gente capaz de saber o que era um mote, gente capaz de perceber se os versos estavam na ordem correta ou não.

Grande parte do “barato” produzido pelo ato de glosar só ocorre quando se está diante de uma platéia que sabe a ordem (obrigatória, com poucas variantes) em que as rimas devem aparecer.

Glosar para uma platéia de leigos é como tocar piano para uma platéia de surdos.

No meu livro Cantoria: Regras e Estilos (Ed. Bagaço, Recife, 2016) dou exemplos de personagens de Machado de Assis glosando motes como qualquer poeta de hoje, nos bares de São José do Egito ou de Campina Grande.

Um exemplo está no conto “Um erradio” (Páginas Recolhidas, 1899).

Nesse conto, um grupo de jovens estudantes está em casa quando chega Elisiário, um amigo mais velho da turma, que traja uma enorme “opa”, ou capote. Surge o diálogo:

-- Aí vem a opa do Elisiário.

-- Entre a opa só.

-- Não, a opa não pode; entre só o Elisiário, mas primeiro há de glosar um mote.  Quem dá o mote?

Ninguém dava o mote.  (...) 

-- Lá vai mote, disse afinal um dos rapazes, e recitou:

Podia embrulhar o mundo
a opa do Elisiário.

Parado à porta, o homem cerrou os olhos por alguns instantes, abriu-os, passou pela testa o lenço que trazia fechado na mão, em forma de bolo, e recitou uma glosa de improviso.  Rimo-nos muito; eu, que não tinha idéia do que era improviso, cuidei a princípio que a composição era velha.

Machado tirou o corpo de banda e não glosou o mote que ele mesmo havia proposto. Decidi preencher essa lacuna imperdoável na literatura brasileira, e produzi estas três, comentando o episódio:

Musa, permite que eu cante
o porte de um brasileiro
boêmio cum cavalheiro
maltrapilho e elegante!
Ei-lo que chega, galante,
com traje extraordinário:
opa de milionário
e terno de vagabundo.
Podia embrulhar o mundo
a opa do Elisiário.

É um poeta erradio
que faz sonetos à Lua,
quando pára em cada rua
dos velhos bairros do Rio.
Sua opa (eu desconfio)
recobre todo o cenário:
prédio, igreja, campanário,
terra vasta e mar profundo...
Podia embrulhar o mundo
a opa do Elisiário.

Fiquei, confesso, assustado,
quando ouvi falar em opa...
Será um chapéu sem copa,
um capote avantajado?
Despistei, e disfarçado
olhei no dicionário;
e a peça do vestuário
confirmei em um segundo...
Podia embrulhar o mundo
a opa do Elisiário.



Podemos dizer que historicamente o hábito da glosa vem de longe, vem dos ibéricos, e durou até a chegada triunfal do soneto, na segunda metade do século 19.

Gregório de Matos, no século 17, foi o nosso primeiro glosador a adquirir renome, e certamente um dos melhores até hoje. Glosava (ao que se diz) por escrito, refletidamente, e também no calor do improviso e ao som da viola.

No tempo de Machado, conforme os exemplos citados, vê-se que a glosa era uma distração culta nos saraus pós-ceia das famílias de classe média, tal como o hábito de botar as mocinhas para tocar piano ou os rapazes para recitar sonetos. E era uma diversão descontraída de estudantes, de jornalistas, de jovens em geral que tinham alguma veleidade literária, algum estudo.

Surgia algum fato pitoresco? Alguém propunha um mote, e alguém glosava de improviso.

E nem sempre é de improviso. Nem precisa ser.

Um aspecto que a gente não deve esquecer na arte da glosa é a existência dos “motes engenhosos”, que a turma de hoje poderia chamar “mote cabeça”. Porque exige muito pensamento e muita elucubração.

Não são motes para a gente glosar de improviso, em cima da bucha. São motes para ouvir, copiar num papelucho, guardar no bolso, ficar matutando, depois pegar um caderno, uma caneta, anotar algumas rimas, fazer as primeiras tentativas, e depois sair dali com uma glosa que seja uma “resposta” adequada para o mote.


Um bom exemplo de mote-cabeça é um mote famoso glosado por Lourival Batista, o “Louro do Pajeú”. É um desses motes abstratos, que podem significar qualquer coisa, desde que a gente saiba encaixá-los num contexto compreensível. Deram para Louro:

A parte que iluminou.

Que parte? Do quê? Iluminou quem, e como? Não se sabe. É o poeta que vai ter de inventar um contexto onde essa frase se encaixe de maneira lógica. E Louro glosou assim:

Do gosto para o desgosto
o quadro é bem diferente:
ser moço é ser sol nascente,
ser velho é ser um sol-posto.
Pelas rugas do meu rosto
o que eu fui, hoje não sou,
ontem estive, hoje não estou,
que o sol ao nascer fulgura,
mas ao se pôr deixa escura
a parte que iluminou.

Vê-se que toda a estrofe foi “deduzida” a partir da imagem visual sugerida pelo mote, imagem de algo parcialmente iluminado. Podia ser um cachorro, uma cadeira, uma ponte; Louro imaginou a Terra, parcialmente iluminada pelo sol, e daí desenvolveu a idéia de comparar a mocidade com a luz e a velhice com a escuridão.

Esse verso foi improvisado, no ímpeto de um baião de viola em pé de parede? Pode até ter sido, mas eu o vejo mais como aqueles motes “de algibeira” que a gente dá para um amigo e fala: “Tu não diz que é bom? Leva esse aí pra casa”. E o cara fica na obrigação moral de trazer pelo menos uma glosa no dia seguinte.










quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

4303) Dias de poesia e festa (9.1.2018)




Este ano, a tradicional festa dos cantadores em São José do Egito teve, como mote de homenagem, “103 anos de Louro / 100 anos de Zé Catota”. Louro é o famoso Lourival Batista, um dos grandes cantadores do Pajeú, nascido em 1915 e falecido em 1992; Zé Catota (José Lopes Neto) era um poeta local menos famoso, mas igualmente querido, e foi bonito ver no último dia um neto e quatro netas dele subirem ao palco para recitar e agradecer a homenagem.

Tenho ido à festa nos últimos cinco anos, meio que tentando tirar o atraso. Desde os idos dos anos 1970 que meus amigos violeiros me chamavam para ir lá, curtir dois ou três dias de versos e de libação, que eram ainda mais animados no tempo em que Louro era vivo, com sua hospitalidade, sua verve trocadilhesca, seu senso de humor ferino.

Convivi com Louro durante alguns anos, viajei com ele, vi-o cantar em uma dúzia de Estados brasileiros. Nunca o vi em São José do Egito, que era sua fonte e seu castelo. Mas é assim mesmo; toda história é tecida de fios e vazios.

Desta vez, o pretexto profissional da minha ida foi duplo. Fui lançar meu romance Bandeira Sobrinho – uma vida e alguns versos (Editora Imeph, Fortaleza), história de um cantador da geração de Louro, poeta fictício onde tentei reunir traços humanos de muitos poetas cinqüentões ou sessentões com quem convivi quando tinha vinte-e-poucos.



O segundo pretexto foi mediar uma mesa-redonda de estudiosos e amantes da poesia, cada qual com seu foco de interesse e seu estilo de abordagem.

Gilmar Leite, filho de São José do Egito, apresentou seu livro Corpo e Poesia – para uma Educação do Sensível, resultado de sua tese de mestrado. Um debate freqüente entre nós, admiradores da Cantoria de Viola e da Literatura de Cordel, é sobre a distinção entre palavra (e poesia) falada e palavra (e poesia) escrita. Gilmar lembrou a importância da fala para a inspiração poética, e puxou uma recordação de Zeto, poeta da região, genro de Louro, que quando cantava ou recitava mobilizava o corpo inteiro e parecia entrar em transe.

A fala de Gilmar me trouxe à memória uma resposta de Allen Ginsberg, o poeta beatnik de Nova York. Perguntaram a ele por que tinha usado versos livres tão extensos em seu famoso poema “Uivo” (“Howl”), e ele disse: “Cada verso tem a medida exata do ar dos pulmões; eu vou dizendo em voz alta o verso, e quando o ar acaba eu corto e começo a linha seguinte.”  O corpo (o pulmão) usado como régua da métrica.

Em seguida veio Antonio José de Lima, “Tõe Zé”, outra figura muito querida do Pajeú, que lançou o livro Legado Filosófico de Poetas e Repentistas Semianalfabetos, onde ele compara trechos e frases de filósofos e poetas, desde a Antiguidade até a era moderna, com os versos dos cantadores humildes do Nordeste, que por vias transversas e heranças orais acabam chegando a reflexões semelhantes.

Tõe Zé se fez acompanhar por uma dupla de violeiros jovens, Bondoso e Silvano. No livro ele, “apologista” de muitos anos, recorre à extensa memória para trazer versos antigos e esquecidos, mas também cita versos de João do Vale, Patativa do Assaré e outros. O termo “semianalfabeto” sempre gera alguma discussão, porque algumas pessoas o acham um tanto ofensivo. Todo mundo lembrou a resposta famosa de Pinto do Monteiro, quando um jornalista começou a dizer algo tipo: “Seus versos são incríveis, o senhor, semianalfabeto...” e Pinto interrompeu: “Não, eu sou analfabeto mesmo. Semianalfabeto é você.”

Finalmente, Antonio Nóbrega trouxe uma pesquisa longa e bem documentada com exemplos sobre as origens da décima, a estrofe mais cultivada pelos cantadores, seja para glosar motes, seja para fornecer o esquema de rimas para gêneros como o martelo agalopado, o galope beira-mar, o martelo alagoano e outros. As rimas da décima se organizam no esquema ABBAACCDDC, usado por Gregório de Matos no século 17, e que ainda está vivo no Nordeste, e ecoa diariamente no vale do Pajeú.

Tudo isso sem falar nos quatro dias de shows e recitações. A família Passos cantando e recitando versos em lembrança ao seu patriarca, falecido em agosto; um show inesquecível de Cátia de França, roqueira e baiãozeira vigorosa no esplendor dos 70 anos; Silvério Pessoa lembrando canções de Ivan Santos e Rosil Cavalcanti. 

Uma boa mesa de glosas comandada por Jorge Filó (sempre com presença feminina acentuada), e baiões de viola com Valdir Teles e Diomedes Mariano.  Vi uma banda de coco azeitadíssima de Triunfo (PE), com uma vocalista de rapidez e precisão impressionantes, e que se apresenta em versão eletrônica como “Radiola Serra Alta” e em versão acústico-percussiva como A Cristaleira.

Vi a bela voz de Aline Paes acompanhada pelo pandeiro de Bernardo Aguiar e pelo violão onipresente de Greg Marinho. Os shows da família Marinho, filhos e netos de Louro que (com a “Página 21”, do Recife) produzem o evento: desde Tonfil cantando MPB até Val Patriota cantando dor de cotovelo, Bia Marinho desfiando um belo repertório de canções suas e de outros, e seus filhos Antonio, Greg e Miguel Marinho liderando a banda Em Canto e Poesia, em cuja apresentação Nóbrega deu uma bela canja e me chamou para cantar estrofes (inclusive não-gravadas) de nossa ciranda “Carrossel do Destino”).

A festa de Louro é como a Lua: cresce agora, diminui mais tarde, depois volta a crescer, e se mantém há cerca de meio século abrindo com poesia o ano civil do Pajeú. Hoje são seus netos que tomam a frente, amanhã serão seus bisnetos. As crises políticas e econômicas vêm e passam, e a poesia continua firme e leve, fotografando a alma do tempo.

Um dia eu ainda vou recortar todos esses dias que passo na Festa de Louro, sair juntando todos os trechos e depois emendar o último no primeiro pra fazer um loop. Aí resolve tudo.

Quero deixar de ser eu
porque ser eu é ser muitos;
eu sou tantos outros juntos
que nenhum prevaleceu.
Eu tenho um lado judeu
tenho outro palestino
um lado novaiorquino
e outro de Kandahar...
Licença, que eu vou rodar
no carrossel do Destino.









domingo, 8 de janeiro de 2017

4198) A festa dos poetas (8.1.2017)




(foto: Dantinhas Vilar)


E lá fui eu mais uma vez parar em São José do Egito (PE), para a Festa do Rei, que celebra a data de nascimento do cantador Lourival Batista, o famoso “Louro do Pajeú”. Este ano o mote da festa foi: “102 anos de Louro / e 100 de Zezé Lulu”. Não cheguei a conhecer pessoalmente este último, cujos versos aparecem em todas as antologias, mas fui amigo de Louro, vi-o cantar pelo Brasil afora numa excursão, e muitas vezes nos bares de Campina Grande.

Louro era chamado o Rei do Trocadilho, pela sua obsessiva mania de desmontar e remontar palavras, refazendo-lhes o som e o sentido. Um dos seus versos mais famosos diz:

Você diz que eu sou pobre
isso é desgraça perene
mas tire o P, bote um N
e eu acabo sendo nobre...
Troque por C, fica cobre;
cobre é parente de ouro;
botando um T fica touro
como a carne e vendo a pele;
o T sem o traço é L
e eu fico mesmo por Louro. 

Isso é da mesma família dos “doublets” ("dublês"), as mutações verbais praticadas por Lewis Carroll (o de Alice no País das Maravilhas), onde ele transformava GOOD em EVIL trocando uma letra por vez (e cada palavra resultante tem que ser obrigatoriamente uma palavra de verdade, de uso corrente). Augusto de Campos adaptou essa brincadeira para o português, produzindo séries como BEM / sem / som / sol / sal / MAL, etc.

Acho que é o mesmo jogo a que Vladimir Nabokov (“Pale Fire”, na nota à linha 812 do poema) se refere como “Word Golf”, onde se transforma HATE em LOVE em três estágios, e LIVE em DEAD em cinco (“com LEND no meio”). Uma arte que no Brasil teve também entre seus praticantes o poeta Augusto de Campos:


("doublets" de Augusto de Campos)


Mas enfim. Lá me fui para São José do Egito na confortável carona de Leimar de Oliveira e Maria Inês, comparsas fiéis de várias décadas. No trajeto Campina-São José fomos vendo a caatinga esturricada. Entre o Natal e o Ano Novo caiu um dia de chuva em Campina, e bastou isso para que a vegetação na estrada para o Sertão estivesse verde pela metade.

Lancei na festa meu livro Cantoria: Regras e Estilos, volume 1 da série "Arte e Ciência da Cantoria de Viola" (Ed. Bagaço, Recife), o que só aconteceu graças à insistência de Amaro Filho e Cláudia Moraes, da Página 21 (que produz o evento) e à acolhida sempre carinhosa da família Marinho, descendentes de Louro, tendo à frente Antonio Marinho, meu parceiro em outros trabalhos. (O nome de Lourival era Lourival Batista Patriota; a família usa artisticamente o sobrenome Marinho, da linha materna, que descende do grande Antonio Marinho, o primeiro cantador que Ariano Suassuna viu cantar, quando era menino.)



Reencontrei Zé de Cazuza, o homem-gravador, paraibano véi que é a memória viva de cantoria, e com 87 anos sabe tanto verso que se fosse recitar tudo ia precisar de outro-tanto de prazo. Me recitou versos fesceninos, sonetos de Rogaciano Leite, repentes geniais de cantadores cujo nome nunca ouvi. 


(foto: Amaro Filho)

Aqui, um pequeno vídeo sobre Zé, pela TV Itararé de Campina Grande:

Reencontrei Dedé Monteiro, o poeta de Tabira que recentemente foi reconhecido como “Patrimônio Vivo de Pernambuco” pela Fundarpe, poeta do coração grande, do gesto elegante e da palavra precisa. Aqui, um vídeo de Dedé recitando um dos seus poemas mais conhecidos, “Fim de Feira”:


Direis agora: é uma festa da velha guarda?  Sim, mas a jovem guarda também pisa no palco. Vi apresentação de bandas heavy metal de São José homenageando um jovem integrante falecido no ano passado, Carlinhos Veras, cantando metal em inglês mas também um belo e vigoroso arranjo para “Assum Preto” de Gonzaga e Humberto Teixeira. (Furar os olhos dum passarinho pra ele cantar melhor. Tem coisa mais heavy metal do que a letra dessa música?!). 

Shows com bandas jovens como Em Canto e Poesia (dos irmãos Antonio, Greg e Miguel Marinho), Vozes e Versos (que fez uma bela recriação do meu “Caldeirão dos Mitos”), As Severinas (uma das melhores bandas femininas de forró que se pode encontrar por aí), e até do Spock Quinteto, do Recife, trazendo frevo e ciranda para a festa do Sertão.

Teve uma mesa de glosa cheia de suspense e bem conduzida por Jorge Filó; teve a projeção de filmes sobre o universo da cantoria, com destaque para "Maria" de Carol Correia e "O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras" de Petrônio Lorena, sobre a dama-da-noite Severina Branca, musa de muitos poetas boêmios de São José, hoje octogenária e bem humorada, sentada na fila da frente.

Tive também a alegria de receber a visita de Dantas Suassuna e Dantinhas Vilar, que estavam em Taperoá e queimaram o chão quando souberam que eu estava em São José, porque temos projetos em comum que serão anunciados no momento propício.

E para que isto aqui não fique parecendo uma enorme coluna social, um pouquinho de reflexão. A festa de Louro é uma festa que celebra velhos poetas centenários, mas também é uma festa realizada por jovens. Jovens como eu fui um dia, curiosos de conhecer não apenas o andar térreo do mundo, que é o presente, mas todos os demais andares daí pra cima, que são os séculos acumulados no arranha-céu do Tempo.

Porque só o Passado existe. O presente é uma luz estroboscópica piscando entre o instante, a memória e a imaginação. Tudo que existe de material e imaterial no mundo pertence ao passado. O tênis que estou calçando, o café que tomo, o pão quente que estou comendo agora, tudo isto foi feito no passado. O futuro é uma aposta, uma suposição de fé.

Uma vez eu discutia com um amigo punk sobre “essa mania que os nordestinos têm de cultuar o passado”. Passado para ele, naquela conversa específica, eram os Beatles. Perguntei: “Quem é o presente, então?”. Ele disse “Os Ramones”. Eu disse: “Rapaz, os Ramones são passado também, aliás, se for fazer uma estatística, no cemitério já tem mais Ramone do que Beatle.”

Tudo é passado. A música do século 18, o cinema do século 20, o rock de 2016 e o jornal de ontem são passado. A epopéia de Gilgamesh, as lendas do Rei Artur, tudo são partes do passado, mas se mantêm vivas no presente, graças a nossa memória e nossa recriação.

Sim: na memória, que mantém vivos tanto os Beatles quanto os Ramones. Lá, os dois são contemporâneos de Dedé Monteiro e Zé de Cazuza, são contemporâneos de Lewis Carroll e de Lourival Batista.

O passado que continua acontecendo agora, através de alguém, é tão presente quanto as coisas que acabam de brotar pela primeira vez. Na frase famosa de William Faulkner, “o passado não morreu, ele nem terminou de passar ainda”. Podemos dizer também que não existem o passado, o presente e o futuro. Só existem dois tempos: o Passado e o Passando.

E dou a cara a bofete se na festa dos 200 anos de Louro não houver rock, forró, cantoria, mesa de glosa, cerveja em lata e churrasquinho no espeto de pau (porque ninguém é de ferro).







sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

3706) Tudo que reluz é Louro (9.1.2015)



(Instituto Lourival Batista, na antiga residência de Louro)

Acabo de chegar do Vale do Pajeú, onde passei cinco dias que pareceram durar cinco minutos mas valeram por um curso de cinco meses. A festa do Centenário de Lourival Batista (1915-1992), o velho e querido Louro do Pajeú, juntou centenas de poetas, cantadores, glosadores, cordelistas, pesquisadores, apologistas e estudiosos da poesia para comemorar os cem anos de um dos cantadores de viola mais amados, pelo cara talentoso, paternal, boêmio e inteligentíssimo que era.

Foram cinco dias de festa, com shows de numerosos artistas e grupos locais, além de Ednardo, Xangai, Maciel Melo, Vital Farias. A família de Louro também subiu ao palco com sua filha Bia Marinho e seus netos Tonfil e os integrantes do grupo Em Canto e Poesia. Tivemos lançamentos de livros sobre poesia popular, shows de MPB e forró, mesa de glosas (a primeira que vi ao vivo, uma coisa fascinante), e apresentações de violeiros. Tive a alegria de reencontrar cantadores amigos meus há quatro décadas, como Severino Feitosa, Moacir Laurentino e João Furiba (lúcido e alegre com mais de 90 anos).

“Tudo que reluz é Louro”, o lema do evento, foi criado por Ésio Rafael e imediatamente adotado por Antonio Marinho, organizador-chefe, motor de mil cilindradas, que bate o escanteio e faz o gol de cabeça. Louro reluz na memória de todos, pelas muitas qualidades como pessoa e como poeta.  Rei do trocadilho na poesia popular, aplicou nela seu talento de charadista capaz de desmontar e remontar uma palavra em questão de segundos, sem esforço aparente.  Dono de uma língua ferina muito temida pelos adversários, era ao mesmo tempo incapaz de uma maldade.  Boêmio inveterado, passava três dias seguidos na farra, cantando, bebendo, despranaviando, e há quem diga que (como fez o sol com o bíblico Josué) a lua passava três dias e três noites sem se mexer no céu, para acompanhá-lo na farra.

Essa poesia é a poesia que brotou na Serra do Teixeira por volta de 1850 e meio século depois começou a se derramar pelo verde do vale do Pajeú, unindo Paraíba e Pernambuco num país acima das fronteiras, onde a palavra “poeta” é forma de tratamento, e onde, se um menino de pés descalços se aproxima da gente na rua, não é para pedir dinheiro, é para oferecer um verso. Durante o evento desta semana, no centro da cidade uma multidão três vezes maior assistia shows de Pablo, Harry Estigado e Calcinha Preta. São dois Brasis, duas cidades que enxergam mundos diferentes, convivendo no mesmo espaço urbano, na mesma rede de relações civis. A gente não precisa combater a cidade dos outros. Basta fazer com que a nossa continue assim: viva, alegre, forte e reluzindo, chamando a atenção dos satélites da NASA.




sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

3392) Festa de Rei (10.1.2014)



No fim de semana passado, fiz uma coisa que só acontece raramente na vida da gente: realizar um sonho de quarenta anos, e ainda ganhar para isso!  O “ainda ganhar” se deve ao fato de que viajei a trabalho, como parte da equipe do documentário Bom dia, poeta, que incluía Alexandre Alencar (direção), Amaro Filho e Cláudia Moraes (produção), Ivanildo Marques e Chapola Silva (fotografia e som). Eu fui como roteirista e entrevistador, além de poeta nas horas vagas.

O sonho de 40 anos foi conhecer São José do Egito, que o pessoal chama (com certa discrepância geográfica) “a Meca da poesia popular nordestina”. Sem a grandiosidade da Kaaba ou das Pirâmides, São José é uma cidade de 30 mil habitantes que respira poesia como Florença respira artes plásticas ou Nova Orleans respira jazz. Está na essência, na medula daquele povo; está no seu jeito de ser, de falar, de pensar, de interpretar o mundo e de estabelecer seus laços recíprocos de amizade e admiração. No mundo da poesia popular, chamamos de poeta (“bom dia, poeta!”) as pessoas de quem gostamos, que admiramos, que desejamos honrar e tratar bem. Nem todos são poetas, é claro, mas um bom leitor de poesia é mais importante do que duzentos poetas ruins.

A Festa de Rei era a comemoração dos 99 anos de nascimento de Lourival Batista, “Louro” (1915-1992), e um ensaio para a festa do seu centenário no ano que vem. Louro, com quem convivi entre 1975 e 1980, formou, com seus irmãos Otacílio e Dimas, a trinca dos irmãos Batista Patriota, três rochedos imbatíveis contra os quais oceanos inteiros de versos alheios se espatifaram inutilmente. Cada um com suas características; o forte de Louro era o trocadilho, a construção sinuosa e impecável de glosas que entraram para a História, o espírito escarninho e mordaz (principalmente nos desafios com seu grande amigo Pinto do Monteiro), e a alma de poeta, sem vaidade, sem egoísmos. Criou uma família enorme, cheia de artistas, muitos dos quais se revezaram no palco armado em homenagem ao mestre nos dias 4, 5 e 6 deste janeiro.

São José é símbolo de uma região, o Vale do Pajeú, numa área onde Pernambuco e Paraíba se penetram mutuamente, como o símbolo do Yin-Yang, e que engloba Tabira, Itapetim, Teixeira, Tuparetama, Sertânia, Afogados da Ingazeira, Água Branca, Carnaíba, Flores... A Serra do Teixeira e o Rio Pajeú são dois vetores essenciais dessa cultura da sextilha, do cordel, do mote e da glosa; e do repente, do flash instantâneo de percepção que cria uma piada, um trocadilho...  Ninguém entenderá a poesia nordestina sem mergulhar nessa cultura gigantesca e quase invisível. É a ponta de um iceberg, e é maior que o Everest.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

2025) A Missão Folclórica de Mário (4.9.2009)




Encontrei por acaso e comprei às pressas um pequeno tesouro cuja publicação já tinha visto anunciada na imprensa. Trata-se da caixinha Mário de Andrade – Missão de Pesquisas Folclóricas – Música Tradicional do Norte e Nordeste - 1938

Esse título diz o essencial. Em 1938, Mário era chefe do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, e idealizou a viagem de um grupo de pesquisadores pelo Norte e Nordeste do Brasil, munidos de gravador, para registrar a música folclórica daqueles (destes) cafundós. 

Mudanças políticas fizeram abortar esse projeto, que iria ter uma abrangência muito maior. Ainda assim, os pesquisadores fizeram um grande número de registros, que foram levados de volta para São Paulo e ficaram arquivados. 

Durante anos, esse material era acessível apenas aos pesquisadores que fossem lá consultá-lo. Agora, o SESC-SP lançou uma edição comercial. Se quiser comprar, vá aqui: http://tinyurl.com/2w3dtlc.

São seis CDs de músicas gravadas “in loco”. 

O CD 1 (34 faixas) tem música de Pernambuco. Os CDs 2, 3 e 4 têm músicas da Paraíba (num total de 158 faixas); o 5 se divide entre Paraíba e Maranhão (50 faixas), e o 6 entre Pará e Minas Gerais (37 faixas). 

São 279 faixas no total. E há mais um livretinho, do tamanho de um CD, com os textos (em português e inglês): “Viagem Pessoal e Missão Institucional” (Carlos Augusto Calil), “As Missões e o Progresso” (Danilo Santos de Miranda), “Os Registros Musicais da Missão de Pesquisas Folclóricas” (Marcos Branda Lacerda), “Missão: as Pesquisas Folclóricas” (Flávia Camargo Toni) e “O Nacional e o Outro” (Jorge Coli). Numerosas reproduções de fotos e desenhos da época. O pacote todo me custou 70 reais e foi a coisa mais barata que comprei nos últimos tempos.

No momento em que escrevo estas linhas, estou escutando (pela primeira vez na minha vida) as vozes de Dimas Batista e Belarmino de França, cantando mourão de sete linhas, martelo agalopado e outros gêneros, numa gravação realizada na cidade de Pombal, em 11 de abril de 1938. Dimas tinha 17 anos incompletos; Belarmino tinha 41. 

Em outras faixas aparece Lourival Batista, o grande “Louro”, na época com 23 anos. Há uma foto dos três juntos. Nunca conheci Dimas ou Belarmino, mas fui amigo de Louro quanto ele já tinha 60 anos. Difícil acreditar que é ele, aquele rapaz de calça branca e frouxa, um paletozinho apertado, gravata muito curta, suspensórios pretos, rosto moreno de feições marcadas, cabelos negros e bastos penteados para o lado.

Vejam o que é o Brasil. Mário de Andrade trabalhava para a Prefeitura de São Paulo. O que diabo o obrigava a gastar o dinheiro dos paulistanos mandando gente com um gravador até a Paraíba, até a distante Pombal, para gravar os Batista, que nem sequer eram “os Batista” nessa época?! Mário atirava no que via e acertava no que não via. Era outro Brasil; eram outros brasileiros.