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terça-feira, 3 de março de 2026

5224) O Flamengo está bêbado (3.3.2026)




O dinheiro é talvez a mais perigosa das drogas, porque não tem sintomas aparentes. O indivíduo bêbado-de-dinheiro parece normal, mas está sujeito, ou mais que isto, está condenado a praticar todo tipo de insensatez. 
 
O dinheiro produz sensações combinadas de invulnerabilidade, de impunidade, de onipotência, de estar-com-a-razão. Produz até mesmo a ilusão de ser amado, pela quantidade de gente sorridente que atrai. 
 
Já fiquei bêbado algumas vezes, mas, mais do que isso, já pastorei muito bêbo chato. Aquele amigo que se embebeda e não quer ir para casa, quer tomar a saideira, nem que seja na lata de lixo onde acabou de vomitar. 
 
Uma vez era um amigo que tinha acabado de assinar um contrato absurdamente desproporcional com sua vida financeira até então, e recebeu umas “luvas” astronômicas. Pegou o telefone, convocou todo mundo, patrocinou uma mesa de vinte pessoas num restaurante cujo nome não vem ao caso, insistiu em trazer três litros de uísque para uma mesa em que todo mundo só queria chope. (Era verão carioca. Verão é outra droga embriagadora, merece um capítulo à parte.) 



 
Ele não permitiu que ninguém puxasse a carteira. A noite desceu pelo ralo, todo mundo foi embora e fiquei eu, de olho nele, visto que morávamos no mesmo bairro e nenhum dos dois tinha carro, então sobrou pra mim. 
 
Um garçom, já à paisana, nos conduziu amável mas firmemente à porta; saímos para a rua nos primeiros rubores da aurora. Meu amigo cambaleou, abriu os braços para o mar, para a possibilidade do sol, eu com a mão no ombro dele para navegá-lo. Paramos num dogão da madruga. Ele apontou: 
 
-- Eu adoro essas coisas. Já teve noite que eu queria comer um desse e não podia pagar. 
 
-- Eu também – concordei, e era verdade. – Mas a gente acabou de comer uma bacalhoada. 
 
-- Dois, completos! – berrou ele, de dedo em riste, para a moça de olhos redondos e sonolentos. – Com tudo que tiver direito! Milho, maionese, ervilha, bacon, coentro... Tem coentro? 
 
-- Eu não quero – avisei. – E você não precisa. Olha, lá vem um táxi. Bora pegar esse. 
 
-- Pra viagem! – insistiu ele. – Come amanhã. 
 
Perdemos três táxis que passaram devagar, se oferecendo, até que recebemos os dois pacotes (nessas horas, concordar é mais simples). Ele puxou do bolso uma nota de cem reais, botou no balcão. 
 
-- Senhor, o seu troco. 
 
-- Não precisa! 
 
Semana passada, muitos anos depois, estávamos eu e ele na calçada de outro boteco, conversando abobrinhas, chorando pitangas, desdenhando as uvas verdes do sucesso alheio, e eu lembrei esse episódio. Ele passou a mão pelo cabelo agora branco, e disse: 
 
-- Rapaz, aquele foi um período muito maluco. Eu vi tanto dinheiro que pensei que estava vendo o dobro. 
 
Mudamos de assunto. Águas passadas. Sobrevivemos, não é verdade? Estamos aqui. Vamos pedir mais um chope e ficar de olho na pilhazinha de cartões. Vamos descontrair, vamos falar de futebol. 




Vamos falar do Flamengo, e seus 144 milhões de reais para contar com o ponta-esquerda Samuel Lino, e seus 58 milhões de reais pelo lateral-direito Emerson Royal, e seus 263 milhões de reais pelo meia-atacante Lucas Paquetá. 
 
(Não venham me corrigir as cifras, peguei no Google, e os valores são meramente ilustrativos.) 
 
Existe uma enorme semelhança entre o futebol e as altas finanças. São dois universos que se fundamentam na competição: as chances são poucas, os concorrentes muitos. Tudo é concorrência, é disputa, é antagonismo, tudo são desfechos onde alguém vai ganhar e alguém vai perder. E quem decide isso é o deus que preside esse dois universos: o Número. 
 
O futebol (os esportes, por extensão) se baseia no Número. É bem verdade que mil interpretações subjetivas podem ser aplicadas a um confronto, flutuação de critérios, sutilezas qualitativas, o escambau. Mas um a zero é um a zero, sete a um é sete a um. No mundo mental e emocional dessas pessoas, o Número é a última e definitiva instância que determina a realidade dos fatos, a direção da História. Os números são estes. Eu ganhei. Você perdeu. 
 
Eu ganhei mais vezes, eu perdi menos vezes, minha percentagem é maior, minha margem de erro é menor, minha média está subindo. Eu e você queríamos comprar algo, você ofereceu 5, eu ofereci 6 e levei. Eu sou o primeiro desta lista. Eu consegui isto mais vezes do que qualquer um. 
 
E nada disto é “opinião”: tudo é Número, a única coisa indiscutível do universo. 



 
O Brasil tem cerca de 300 bilionários. Vinte anos atrás, eram dois ou três. Não é exagero dizer que metade desses indivíduos vivem mais transtornados do que um inquilino da cracolândia. 
 
E milionários? São (é o que me traz a pesquisa de dois cliques) 572 mil no país, e entre estes pode incluir jogadores dos grandes times do mundo. Adivinhem quem está entre os grandes times do mundo. 
 
Não nos enganemos, quem manda no mundo é o conceito de Número, muito mais do que o conceito de Deus, que aceita diferentes versões, ou o de Democracia, que aparentemente ninguém leva a sério. 
 
O futebol é o universo dos empurrões, cabeçadas, quedas, cotoveladas, dribles, matadas no peito, embaixadinhas, folhas secas, lençóis, bola na trave, bola na bochecha da rede, gol de placa, chute na orelha da bola, cama-de-gato, corta-luz, drible da vaca... Mas tudo isto em função de um número. 
 
As altas finanças são compostas de ativos, passivos, debêntures, papéis da dívida, ações preferenciais, mercados futuros, helicópteros, jatinhos, carpetes, limos, charutos... Mas tudo isto, também, em função dos números. 
 
E a sensação numérica da fortuna financeira é mais grave do que “café espresso” ou outras drogas excitantes. 



 
Num dos seus contos de Dublinenses (1914), “Depois da Corrida”, James Joyce diagnosticava: “O deslocamento muito rápido pelo espaço nos deixa inebriados; o mesmo se dá com a fama; o mesmo se dá com a posse de dinheiro”. 
 
Joyce se referia às corridas de automóveis do começo do século passado. No conto, um rapaz irlandês, classe mediazinha, aficionado das corridas, faz uma farra-de-amanhecer-o-dia junto com amigos bem mais ricos do que ele, todos eles europeus do continente. Acaba torrando um dinheiro que não tem. 

Eu estava finalizando este artigo na madrugada de ontem para hoje, enlevado pela goleada de 8x0 que o Flamengo aplicou no time-com-10-homens do Madureira. Faltou a James Joyce completar: “Uma grande quantidade de gols nos deixa inebriados”. 
 
E nesse momento pipocaram nas redes sociais as notícias da demissão do técnico Filipe Luís e eu achei que não precisava dizer mais nada. Deixa o pessoal se divertir, antes que venha a ressaca. 









quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

5152) Um paraibano na Copa do Mundo (12.2.2025)




 
Ser o primeiro jogador paraibano a disputar uma Copa do Mundo é algo tão importante quanto ser a primeira atriz brasileira (ou a segunda) a ser indicada para o Oscar. 
 
No resto do mundo, fora do “universo de interesse”, fora dessa bolha (por maior que seja, é uma bolha), pode não ter a menor importância; mas só quem chega a esse patamar sabe a ladeira que subiu. 
 
A verdade é que se um filme brasileiro ganhar um Oscar ou um escritor brasileiro ganhar um Prêmio Nobel todo brasileiro (=um grande número de brasileiros) se sentirá implicitamente valorizado por essa premiação. Um pouco dessa glória choverá sobre nós, que compartilhamos com o premiado um parâmetro dos mais importantes: somos do mesmo país, do mesmo caldo cultural. 
 
Me lembro do que dizia Jorge Luís Borges: “Talvez algum átomo de oxigênio que eu respiro agora já tenha sido respirado por Shakespeare”. 




 
Se Fernanda Torres (que eu admiro muito) ganhar um Oscar, tenho o direito (poético) de imaginar que uma raspa da estatueta dourada choverá sobre meus cabelos, e poderei espalhá-la com o pente. Serei (poeticamente) oscarizado também. 
 
Se em vez da atriz for premiado o filme, comemorarei também. Meus amigos do-contra escarnecerão: “Ah, está comemorando vitória de um bilionário? Você não diz que combate eles?...” Em primeiro lugar, não combato bilionários, combato os mosquitos da dengue, uma luta onde pelo menos posso contabilizar relativas vitórias. E se a categoria “poder aquisitivo” me distancia do bravo Walter, somos aproximados pela categoria “colaborador-na-construção-da-muralha-da-China-levemente-absurdista-que-é-o-cinema-brasileiro,-uma-indústria-em-país-ocupado”. Fica uma coisa pela outra. 
 
Uma exposição que se abriu hoje em João Pessoa (Manaíra Shopping, em frente à Livraria Leitura) celebra o jogador Índio, do Flamengo, hoje meio esquecido pela imprensa e pela torcida. É compreensível. Eu mesmo, que sou paraibano, sou flamenguista, e ainda tenho o cacoete das estatísticas de futebol, lembrava o nome dele, mas somente como atacante do Flamengo, nem lembrava dessa passagem pela Seleção.
 
E hoje cá estou eu, cheio de orgulho retroativo, imaginando como eu-menino teria me sentido, se na infância longínqua tivesse sabido que ele era paraibano. 



(Índio, com a bola, entre Evaristo de Macedo e Didi)


A exposição é organizada por Fábio Henrique Alves, também autor da biografia Índio, o Herói de 57 (Livros De Futebol, 2022), e de um documentário sobre o jogador. 
 
Quando Índio teve seu auge no futebol, no Flamengo, em meados dos anos 1950, eu nem era gente ainda. Pelo clube rubro-negro ele realizou (entre 1951 e 1957) 202 jogos e marcou 134 gols. 
 
Meu pai colecionava revistas de futebol, entre elas a inesquecível Manchete Esportiva, e foi ali que ouvi falar em Índio pela primeira vez. Não sabia que era paraibano e, pensando bem, talvez se soubesse não tivesse dado importância. Quando eu era menino, Campina Grande e o mundo eram uma coisa só. 



(A batalha de Berna: Hungria 4x2 Brasil) 

 
Há dois grandes momentos na carreira de Índio na Seleção. Ele jogou na partida conhecida como “a Batalha de Berna”, na Copa da Suíça em 1954, quando o Brasil foi eliminado pela Hungria, num jogo de muitos pontapés, algumas expulsões, que terminou 4x2 para os húngaros. 
 
O segundo momento foi em abril de 1957. O Brasil disputava um mata-mata contra o Peru. Quem ganhasse iria à Copa da Suécia em 1958. No primeiro jogo, em Lima, o Brasil conseguiu empatar por 1x1, com gol de Índio; e classificou-se na volta com 1x0, no Maracanã, graças a uma folha-seca de Didi. 




Eu soube de tudo isto lendo na Manchete Esportiva, que meu pai encadernava. Já com 12 ou 13 anos, eu sentava na poltrona com um volume ao colo (era uma revista grande, maior que a Piauí) e ia descobrindo o imprevisível passado. 
 
Índio nasceu em Cabedelo em 1931, morreu no Rio de Janeiro em 2020, aos 89 anos. Além do Flamengo, jogou no Corinthians e no Espanyol (Barcelona). 




 
Toda vez que eu, como torcedor do Flamengo, via um jogador nordestino vestindo aquela camisa, sentia um orgulho particular, semelhante ao que muitos fãs do cinema brasileiro sentem quando veem Rodrigo Santoro, Sonia Braga ou Selton Mello trabalhando em grandes produções internacionais. Eu lembrava logo o alagoano Dida, o alagoano Zagalo, o sergipano Nunes, o paraibano Júnior, sem falar em vários baianos, desde Júnior Baiano até Hernane “Brocador”.  

E, é claro, o cearense Everton Cebolinha, o maranhense Wesley, e o potiguar Ayrton Lucas (“acelera, Ayrton!”). 
 
Aqui, no “Baú do Esporte” da TV Globo, uma entrevista com Índio, aos 81 anos, e imagens raras de um Flamengo x Vasco em que ele marca gol.
https://www.youtube.com/watch?v=70JfW_T9ilQ
 
A exposição ‘Índio – O Primeiro Craque’ será realizada no Manaira Shopping (em frente a Livraria Leitura), de 12 a 16 de fevereiro, das 14h âs 20h. A Realização é do Manaira Shopping e TV Cabo Branco, afiliada da Rede Globo, na Paraíba. A exposição terá uma série de objetos utilizados pelo ex-jogador durante a sua trajetória no futebol, acervo de Fábio Henrique Alves.
 




domingo, 25 de novembro de 2018

4408) Visse? (25.11.2018)




(foto: Vanderlei Almeida)

Ainda não consultei a tabela, e não sei se o Flamengo já é “de fato” vice-campeão brasileiro, após a vitória de 2x0 sobre o Cruzeiro e a vitória de 1x0 do Palmeiras sobre o Vasco.

Um vice-campeonato por pontos corridos parece menos doloroso do que um vice num campeonato eliminatório por chaves como a Copa do Brasil ou a Libertadores. Aquele campeonato que a gente perde no derradeiro jogo.

Num destes torneios melodramáticos, de reviravoltas impossíveis e campanhas incontroláveis, você pode ser o oitavo dos oito classificados para a chave decisiva, e acabar sendo o campeão, como acho que já aconteceu com o Santos.

Tudo se decide num jogo, às vezes num lance, numa bola na trave, num gol perdido, num pênalte de Schrodinger, naqueles lances que no futuro virarão um “o empurrão em Sicrano” ou “a bola de Fulano que não cruzou a linha”. Esses mistérios que, à falta de outros registros e novos relatos, vão se perpetuar na eterna nuvem do “já que não se pode nunca saber como foi, pode-se afirmar qualquer versão que nos convenha”.

Um campeonato de pontos corridos tem também suas quedas bruscas e suas subidas estonteantes, mas é como se tudo acontecesse em câmara-lenta, as tendências de desempenho das equipes levam semanas para se delinear.

Num campeonato de pontos corridos, o que existe é um fluxo de desempenho único, do primeiro ao último jogo. Cada ponto vai contar, cada gol tem peso, e tudo o mais. É como se fosse um gigantesco jogo dividido em 38 fatias de noventa minutos.

Já num campeonato eliminatório, cada chave da parte decisiva está zerada em relação aos pontos ganhos e perdidos antes. Não tem mais contagem de pontos. Bate-se o martelo com o resultado dos jogos de ida e volta. É o mesmo jogo, só que menos gigantesco, tem apenas 180 minutos, dividido em dois segmentos de noventa.

É claro que do ponto de vista narrativo esta segunda modalidade é folhetim puro, é uma tragédia ou uma epopéia por semana, um dobrar de apostas em bases cada vez mais altas. Esta modalidade agrada quem está em busca de emoções, de folhetim, de melodrama, de corações e mentes se dilacerando em busca da vitória.

O campeonato de pontos corridos é feito aquelas poupanças onde você deposita um real a cada graça recebida e reza para que exista alguém lastreando seu saldo. Tudo nele é longo prazo, tudo nele pode ser projetado ao longo de 38 fortalezas de pedra ligadas por extensas passarelas como na Muralha da China, esticando-se até a parte inferior do calendário do ano.

Se você perde um campeonato de pontos corridos porque ficou 1 ponto (digamos) atrás do campeão, é inevitável pensar que “os pontos que precisamos agora foram os perdidos no jogo A, no jogo B, etc”.

É muito raro um campeonato de pontos corridos ter no último jogo, decidindo campeão e vice, os dois clubes mais bem colocados. Aí sim, haveria uma disputa pelo título travada dentro de campo, na grama, um contra o outro.

Literariamente, o campeonato por chaves e confrontos eliminatórios tem o suspense e o sem-fôlego dos folhetins de Alexandre Dumas e Maurice Leblanc, e se assemelha em estrutura aos relatos mitológicos dos trabalhos de Hércules. Uma sucessão de desafios, onde a cada dois passos o herói colapsa na vida ou na morte.

Já o campeonato de pontos corridos parece aquelas sagas históricas a longo prazo, contando gerações sucessivas de uma mesma família, século entrando em século. Aquelas trilogias de Érico Verissimo ou aqueles catataus de Balzac. Um modelo que Garcia Márquez retomou numa chave de magia para contar suas famílias colombianas.

Também literariamente o campeonato eliminatório pode ser visto como uma coletânea de contos, ou como uma novela de capítulos sucessivos que são unidades dramáticas em si mesmas. O campeonato de pontos corridos é um romance de dimensões dickensianas, jorgeamadianas, tolkienianas.

Ou mais até, porque diferentemente da maioria dos livros esse campeonato é um barco onde todos os personagens entram juntos e ficam todos juntos até o dia da última rodada, não sai ninguém de cena até a cortina fechar.

Isso são comentários meio ao correr de pena e ao sabor da viração, motivados pelos resultados de hoje. Quem gosta de futebol gosta por uma infinidade de razões diferentes, que nem sempre são as mesmas do nosso vizinho do lado.

Uma das coisas que me dão prazer, independentemente de torcer por algum time, é acompanhar campeonatos e ver como se desenvolvem. Vale também para campeonatos de vôlei, basquete, tênis, qualquer coisa. (Não sei se nesses, internacionalmente, usa-se muito o sistema de pontos corridos.)

Este ano de 2018 tivemos uma Copa do Mundo com uma narrativa morna, e os grandes momentos, de verdadeira emoção, só aconteceram por inevitabilidade estatística.

Já o Campeonato Brasileiro de 2018 começou com o Flamengo se sustentando numa liderança que não visitava há anos, controlando jogos difíceis, derrubando adversários. A parada do meio do ano para a Copa do Mundo não fez bem ao time (que já nem terminou no mesmo pique o chamado “primeiro turno”). O São Paulo aproveitou esse baque e assumiu a ponta, por algumas semanas, acho.

E então o grande Felipão ressurgiu das cinzas, e logo no Palmeiras. A grandeza de um técnico ou de um atleta às vezes não é pela genialidade técnica ou pela grande figura humana, mas apenas por ser um cara capaz de obter o impensável e desmoralizar o impossível. Depois da derrota de 2014, achava-se que ele não voltaria mais, e ele voltou.

O Flamengo, este ano, promoveu mais um jovem craque (Lucas Paquetá) e vendeu dois (Paquetá e Vinicius Jr.). A defesa é de pouca conversa, dá suas cabeçadas, tanto a favor quanto contra. O time continua sem ataque. Henrique Dourado parece às vezes que está jogando a partida que está passando noutro canal.

O grande número de gols marcados pelo time não resulta de ele ter bons atacantes, resulta do volume de jogo que a equipe consegue exercer, e aí o gol pipoca de qualquer ponto.

O goleiro César tem aparecido muito bem. Diego jogou menos do que no ano passado, e este ano quem melhorou muito foi Everton Ribeiro, que é bom armador e bom finalizador. O time nunca é o ideal, mas dá pro gasto.











domingo, 12 de agosto de 2018

4375) Dia dos Pais (12.8.2018)




Eu não sou muito acompanhador dessas efemérides, Dia disso, Dia daquilo. Nem meu aniversário eu comemoro. (Não, não há problemas, nem teorias justificatórias. Questão de hábito, apenas.)

Como hoje está todo mundo nas redes sociais botando fotos e contando episódios (alguns muito bonitos) sobre seus progenitores, lembrei de postar algo sobre Seu Nilo. O pobrema é que todo ano tem essa cerimoniazinha e não quero ficar repetindo as postagens dos anos passados.

Vai daí, reproduzo abaixo um trecho do Capítulo 4 (“Deixa a vida me levar”) do meu romance recém-lançado Bandeira Sobrinho – Uma Vida e Alguns Versos (Fortaleza: Editora IMEPH, 2017). É um retrato 3x4 daquela figura indescritível. (O capítulo prossegue falando da minha mãe, mas quem quiser ler vai ter que encomendar o livro no link abaixo.)



-oOo-

(...)

Algum tempo depois dessa cantoria eu passei uns dez dias em Campina (eu já morava em Salvador, na época). Estava surgindo a possibilidade de ir morar no Rio, porque Elba Ramalho tinha gravado algumas músicas minhas que estavam rendendo direitos autorais. Ir morar no Rio! Eu estava morrendo de medo, se bem que hoje percebo que aquilo não era medo coisa nenhuma, era vontade.

Uma noite minha mãe (quando eu vinha passar uns dias em Campina eu ficava na casa dos meus pais, no bairro do Alto Branco) me disse que ia fazer um bolo porque era aniversário de alguém da família, algum parente que vivia longe; mas tudo na vida dela era pretexto para bolo, etc. E ia fazer um jantar mais caprichado.

Às oito da noite, eu liguei de um orelhão, perto do Bar de Seu Manu.

– Bença, mãe.

– Deus lhe abençoe. Tá aonde?

– Tou aqui perto do Edifício Rique. Tem bolo mesmo?

– Oxente, eu não disse que tinha? Tá pronto. Vem jantar?

– Acho que vou. Seu Nilo tá acordado?

– Tá por aqui, doido que você chegue pra conversar.

– Eu vou levar um amigo meu, Bandeira Sobrinho, aquele cantador da Rádio Borborema.

– Traga, traga mesmo. Tem bolo, tem café, mas se quiserem cerveja vão ter que trazer.

– Deus me livre, eu de segunda-feira pra cá tô arripunando cerveja.

Ela deu aquela risada longa dela – “ra-rraaaai!...” – e eu desliguei.

Foi muito bom ter levado Bandeira, porque ele e meu pai sentaram no terraço e daí a pouco se envolveram numa discussão sobre formas de soneto, onde cada qual procurava lembrar mais variantes do que o outro.

Para os que não conheceram meu pai, o jornalista e poeta Nilo Tavares, basta fazer uma lista breve:

1)      Era baixinho. Não sei a medida da altura dele. Era charadista e enigmista, membro da TerNor (Tertúlia Nordestina), colaborador de incontáveis revistas Brasil afora, com o pseudônimo de Pequeno Polegar. Uma vez, já morando no Rio, fui ao Círculo Enigmístico Carioca, perto da Av. Rio Branco, pesquisar uma matéria pra TV, e quando falei que meu pai tinha escrito um Dicionário do Que (locuções começadas com a expressão “Que...”), o cara foi lá dentro e trouxe um exemplar encadernado.
2)      Gabava-se de ser capaz de passar 24 horas ininterruptas recitando sonetos de autores brasileiros, inclusive dele mesmo, mas mesmo na Paraíba nunca apareceu homem nenhum que ousasse pegá-lo na palavra.
3)      Era do Recife e minha mãe era de Coxixola-PB (“A Cidade Que Precisa Dizer Que Existe”). Conheceram-se em Angelim (PE), casaram e vieram morar em Campina Grande, onde nascemos os quatro filhos: Clotilde, eu, Pedro e Inês.
4)      Nunca foi apologista, mas como trabalhou na Rádio Borborema conhecia os violeiros que passaram pelo Retalhos do Sertão, um dos mais tradicionais programas de cantoria no rádio. Para os cantadores mais antigos, como Zé Gonçalves, eu era “o filho de Nilo”.
5)      Torcia por três times: o Sport Club do Recife, na cidade onde se criou; o Treze Futebol Clube, na cidade onde iniciou sua vida de chefe de família; e o Flamengo, no seu país, que era feito em grande parte de jornais impressos e de emissoras de rádio.
6)      É simbólico da nossa relação que em 1975, quando o Flamengo foi a Campina jogar com o Treze, eu perguntei: “O senhor acha que a gente ganha?”, e ele respondeu: “E tu acha que a gente vai perder para um time fraco como o do Treze?”, e eu disse, “Peraí, Seu Nilo, a gente é quem, no seu vocabulário?” Foi um momento judaico-cristão em nosso relacionamento.
7)      Mas isso prova apenas que ele era mais romântico do que eu.

Em 1980 meu pai teve o que chamamos na época de uma “trombose”, ficou com um lado do corpo meio avariado, precisou fazer fisioterapia. Tinha que ficar apertando uma bolinha que de vez em quando escapava, e todo mundo corria a devolvê-la. Fisioterapia fica mais interessante quando vira uma diversão para todos os envolvidos, não é mesmo? Uráy, o antigo zagueiro do Treze, ia lá em casa para ajudá-lo nos exercícios, ia para dar uma força, só pela lembrança da convivência.

Foi se recuperando aos poucos, mas como deixou de trabalhar, sua diversão principal, além de ler, de decifrar e de compor charadas, e de ver TV, era esperar visitas que sentassem com ele no terraço da nossa casa na colina do Alto Branco. Ficava ali e via Campina Grande estendida horizontalmente à frente, como num filme de 70mm. Gostava de receber gente e conversar sobre as coisas boas da vida.











sexta-feira, 18 de abril de 2014

3476) Roubado não é bom (18.4.2014)




Continuam se fazendo sentir, Brasil afora, os abalos sísmicos provocados pela decisão do Campeonato Carioca de domingo, quando o Vasco vencia por 1x0 (resultado que lhe dava o título) e o Flamengo empatou no último instante, tornando-se campeão com um gol que, minutos depois, todo mundo viu que foi feito em impedimento. Dizem (eu procurei, mas não achei as imagens) que nas comemorações pós-jogo o goleiro Felipe, do Fla, teria dito: “Roubado é mais gostoso”. Ou seja, ganhar praticando uma injustiça é mais divertido, certamente porque eleva ao quadrado o desespero e a revolta dos adversários. Esse traço de muitos torcedores de futebol (não só aqui; creio que é assim no mundo todo) revela o que o esporte significa para eles. Significa a chance de tripudiar sobre um adversário, de exercer a “hubris”, a arrogância dos vencedores, para quem não basta derrubar o outro no chão, precisar pisar na cara, também.

Eu não acho uma vitória assim mais gostosa. Gostosa é quando o adversário faz um gol em impedimento, e depois a gente vai lá, faz um gol legal e ganha o jogo. Aí sim, é bom de esfregar a vitória na cara do outro. O gol roubado é um privilégio, e eu torço pelos desprivilegiados (inclusive para expurgar meus privilégios de sexo, de classe e de cor; quem foi que disse que agnóstico não crê em pecado original?). Vitória gostosa é virar para 3x2 um jogo que estava 0x2. É ficar com um a menos e derrotar o outro time. É ganhar na casa do adversário.  É precisar de um golzinho durante o jogo inteiro e fazê-lo nos acréscimos.  Ou seja: a vitória é mais gostosa (para mim, e acho que para alguns outros torcedores) quando o privilégio ou a vantagem estão todos do lado oposto, e mesmo assim a gente vai lá e passa por cima.

Nelson Rodrigues (ou seria Mário Filho?) tinha um personagem para quem a vitória só valia se o gol fosse de mão. Há pouco, um saite publicou uma matéria apontando 12 erros de arbitragem em favor do Brasil em Copas do Mundo (acertou em todos). Parece que existe em nós aquele complexo do sujeito que, mil vezes roubado, precisa roubar também para convencer a si mesmo de que não é um imbecil, não é um banana. Roubando, podemos enfim curtir aquele momento breve de esperteza que leva tantos otários mais cedo para o buraco.  

O futebol é um reflexo da nossa sociedade, onde (para alguns) só existe ascensão social através do privilégio.  O gol impedido dá ao torcedor a ilusão (porque se não for ilusão, é o quê?) de que daquela vez o grupo de que ele faz parte estava do lado dos poderosos, dos privilegiados, dos que podem fazer qualquer coisa porque acima deles não há ninguém para puni-los.



domingo, 30 de junho de 2013

3226) Os Adversários (30.6.2013)




(foto: Bazuki Muhammad)

No dia em que o Botafogo foi campeão com o gol de Maurício (há dezoito cariocas que se refestelam nessa frase carregada de semântica afetiva) eu vi o Flamengo tremer e o Catete vibrar. Eu morava numa casa encravada na ladeira da Tavares Bastos, no Catete, de onde eu descortinava (sim, descortinava, isto aqui é uma crônica) uma vasta visão horizontal desses bairros. Aquele jogo foi uma predestinação. O juiz era um rapaz que chamavam “Bianca”, e nosso medo era que o Botafogo, notoriamente inferior, apelasse para a violência intimidando Sua Senhoria. Sua Senhoria se saiu até que bem, e o Flamengo teve chance de vencer até o último lance de Zico em campo, uma falta que passou raspando na trave esquerda do gol alvinegro. E aí vem aquele contrataque veloz puxado pela esquerda (o Flamengo só leva gol em contrataque, por que será), bola cruzada na área, o negão se jogando pra frente como um mané-gostoso e esbarrando na bola com o pé para o fundo das redes. O chão do Rio ficou se tremendo, e os terraços se povoaram como por encanto.

Eu fico meio feliz quando, no dia em que perco, pelo menos a festa do adversário é uma festa bonita.  O torcedor de futebol não deve amar tanto seu time que não veja (mesmo que roendo-se de inveja) o momento bonito do adversário. Às vezes uma derrota que nos parece meramente incômoda, acaba-festa, desmancha-prazeres, é para nosso adversário um triunfo em Trafalgar, uma invasão de Iwo Jima, uma façanha nas Termópilas. Demos um tropeção que nos custou caro; na arquibancada deles, parecia o começo de um milênio novo. Ninguém entende direito os fatos históricos de que faz parte. A historiografia demonstra que muitos soldados ingleses só tempos depois foram saber que haviam ganho a batalha de Waterloo.

Só achamos um sabor de vitória nas derrotas elas permitem ao nosso adversário continuar vivo. Sem o Maracanazo de 1950, o futebol uruguaio poderia já ter degenerado em rugby, sua tendência mais preocupante.  Os outros times, as Itálias, as Espanhas, as Alemanhas, as Franças, também têm direito de ganhar. Os Botafogos, os Campinenses, os Vascos, os Santa Cruzes, os Cruzeiros, os Fluminenses, os Náuticos precisam existir, precisam crescer, tornarem-se grandes, porque é a grandeza da montanha que faz a do alpinista. Temos que alimentar nossos adversários, tratar bem deles, fortificá-los, dar-lhes coragem e força para as lutas que travaremos. Quando perdemos, temos que aplaudir sua vitória e agradecer sua sobrevida. Adversário só presta grande. Não queremos que desapareçam; queremos que se tornem fortes, para terem coragem de vir de novo ao nosso encontro.




domingo, 20 de novembro de 2011

2719) O torcedor símbolo (20.11.2011)



(Jaime de Carvalho)

O futebol tem um Panteão de craques, de artilheiros matadores, de goleiros imbatíveis, de grandes capitães. Os cartolas só entram para a História de raspão, resvalando, como notas ao pé de página em que depois de um capítulo inteiro de comentários sobre um título de campeão, alguém diz de passagem: “Aliás, isso foi na gestão de Fulano de Tal, e o supervisor de futebol era Sicrano”. Existe uma certa injustiça nisto, porque sempre houve e haverá grandes diretores. Homens de visão que sabem ousar na hora certa e que trabalham pelo clube, não pelos seus cofres pessoais.

E existe o torcedor-símbolo, que sem fazer muito marketing pessoal fica associado à memória coletiva do clube que amou. Alguns sozinhos, outros organizando pequenas charangas, precursoras das atuais torcidas organizadas, que em muitos casos distorceram e estragaram o espírito do “ser torcedor”.

Pra mim os torcedores-símbolo dos estádios eram (entre muitos outros) o raposeiro Papa Sebo, que levava uma bela e enorme (para os padrões da época) bandeira do Campinense em todos os clássicos; e o do Treze era Zé Pezinho, um lavador de carros que tinha um pé torto e uma infinita capacidade de esbravejar palavrões. Entre os dois se travava, a dezenas de metros de distância, um verdadeiro duelo de titãs por entre gritos e foguetório. (Sem esquecer, claro, Zé Preá, aquele que batia com a almofada no chão da arquibancada do PV e provocava um grito coletivo de resposta.)

O Flamengo teve (na minha infância) a charanga de Jaime de Carvalho, um cara de cabelo e bigode grisalhos cuja bandinha de percussões e sopros foi imortalizada no samba que diz “Flamengo, joga amanhã que vou vou pra lá... (...) Pode chover, pode o sol me queimar, eu quero ver a charanga do Jaime tocar...”. Algumas pessoas dizem “Jorge”, mas é por contaminação do São Jorge citado na estrofe anterior. Era Jaime mesmo.

O Botafogo (na minha infância) tinha Tarzan, um sujeito parrudo, tipo um Ivan Gomes carioca, eternamente com a camisa alvinegra, bradando e sofrendo na arquibancada. O Vasco tinha Dona Dulce Rosalina, uma mulher morena, magrinha, que naquele tempo causava uma certa perplexidade, acho, porque liderava um grupo de torcedores naquele vibrante (e geralmente inútil...) “cazá cazá cazá!”. E tinha Ramalho, um negro magro tipo Chuck Berry, de boné na cabeça, que soprava um talo de mamona e fazia sozinho um barulho ensurdecedor. (É o que dizem. Eu era menino, nunca tinha ido ao Maracanã, sabia dessas coisas pela Manchete Esportiva ou pela Revista do Esporte).

E o Fluminense? O Fluminense tinha Nelson Rodrigues. Pra vocês verem – até nisso o Fluminense é uma elite.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

2714) A verdade de Deivid (15.11.2011)




O Flamengo tem um atacante chamado Deivid que é um mistério maior do que a Esfinge. Em primeiro lugar, não é um mau jogador; já o vi jogando muito bem pelo Santos e outros clubes. Tem técnica, é esforçado. Mas quando desembarcou no Flamengo protagonizou a maior série de gols-feitos-perdidos-pelo-mesmo-jogador já vista em nosso futebol. Tornou-se candidato permanente àquela graçola do “Globo Esporte”, o “Inacreditável Futebol Clube”. (Está se redimindo, aliás – já é o 2o. artilheiro do Brasileirão.)

Mas não é dos gols de Deivid que quero falar, e sim de suas entrevistas. Dias atrás, o Flamengo teve que disputar uma partida no Chile precisando vencer de 5x0 para se classificar. Perguntaram a Deivid se ele viajaria de boa vontade, e ele disse: “Claro, pelo menos para ir no free-shopping”. A imprensa pegou esse mote e não falou noutra coisa durante dias (se isso era “atitude de profissional”, etc.). Não passou muito tempo, perguntaram a Deivid numa coletiva quem iria ser o campeão brasileiro, e ele disse: “Acho que é o Corinthians”. Pronto! Outro quelelêi. Agora leio no jornal que ele puxou a cadeira para dar mais uma coletiva e foi logo dizendo aos jornalistas: “Querem que eu fale a verdade ou que dê uma resposta-padrão?”.

Convenhamos, uma interpelação desse tipo não é comum num jogador de futebol, e só pela coragem e sinceridade de fazê-la perdôo a Deivid os últimos vinte gols feitos que ele perdeu, inclusive aquele contra o Santos. Existe uma sutileza insuspeitada nessa pergunta. Porque as respostas padrão existem para não responder nada (“Estamos bem preparados, é levantar a cabeça, vamos em busca do nosso objetivo, etc.”); e as respostas sinceras, mais capazes de surpreender e de causar assunto, são as que os jornalistas mais gostam. O engraçado, porém, é que o jogador em geral é elogiado quando dá respostas-padrão e criticado quando diz o que pensa.

Na política do futebol, tanto quanto na política da literatura ou na política da administração pública, nem sempre se deve dizer o que se pensa. É um jogo, e não devemos revelar ao adversário que cartas temos na mão, ou que movimentos pretendemos fazer daqui a pouco. Qualquer ABC de diplomacia desaconselharia Deivid a dar aquelas duas respostas. A diplomacia é a hipocrisia do Bem, aquela que prefere uma grande mentira a um pequeno constrangimento. Deivid falou na entrevista aquilo que os jogadores conversam entre si, quando não há jornalistas por perto. Os jornalistas deveriam agradecer-lhe por esse “flash”, essa revelação do que é o mundo quando não precisamos contar mentiras politicamente corretas para ninguém.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

2621) Santos 4x5 Flamengo (29.7.2011)



Um jogo para ficar na História, e uma vitória espetacular do time por que a gente torce. Essas duas felicidades do futebol nem sempre coincidem; quando isso acontece, é coisa pra gente acender uma vela para cada Deus do Panteão romano. Aconteceu 4ª.feira passada. Santos e Flamengo fizeram na Vila Belmiro um jogo épico, com reviravoltas sensacionais, raros lances de violência, gols extraordinários e dezenas de jogadas brilhantes. Escrevo uma hora após o jogo, com a TV desligada e a cidade agora silenciosa. Por ironia do destino, não estou no Rio de Janeiro. Mas senti o chão tremer.

Em jogo de muitos gols e de muitas viradas, costumo fazer um esquema mental da ordem em que os gols foram marcados, e que contam a história do jogo. Santos, Santos, Santos, Flamengo, Flamengo, Flamengo, Santos, Flamengo, Flamengo. O Santos teve um começo arrasador com três gols que pareciam ter definido o resultado; o Flamengo sabe suprir a ausência de atacantes (Deivid é um caso patológico de incompatibilidade com a bola) com um meio de campo bem treinado na arte de costurar a bola e entrar na área. Fez três gols e se beneficiou da ousadia fora-de-hora de Elano que quis bater um pênalti com cavadinha; foi após a defesa de Felipe que o Fla empatou o jogo. (Uma bela cabeçada de Deivid, para ser justo; mas não é impossível que ele estivesse tentando fazer outra coisa). No 2º. tempo o Santos fez mais um e parecia que tudo ia recomeçar, mas Ronaldinho Gaúcho repetiu uma cobrança rasteira de falta que o vi fazer pelo Barcelona, e depois sacramentou a virada num contra-ataque mortal.

Note-se que ainda houve o pênalti perdido, e pelo menos um pênalti não marcado e um gol erradamente anulado para cada time. Não era uma pelada no Aterro, era um jogo de dois times de ponta, um recente campeão brasileiro e o atual campeão das Américas, e poderia perfeitamente ter terminado com um placar de 7x7 ou de 8x6 para qualquer um dos dois. O terceiro gol do Santos, de Neymar, foi uma gostosura de ver e rever. E vamos aplaudir os zagueiros, que tentaram o que foi possível, na bola, e não apelaram.

Jogos assim nos dão gás para continuar acreditando no futebol durante pelo menos mais um ano, assistindo peladas insuportáveis, pancadarias vergonhosas, partidas que são um verdadeiro concerto de trapalhadas de comédia pastelão. Deixamos de trabalhar, de namorar, de dar atenção à família ou aos amigos, de ler um bom livro, e nos plantamos feito idiotas na frente da TV na quarta-feira à noite ou no domingo de tarde. Por que? Porque vimos um jogo que redefiniu nossos parâmetros, e sabemos que tudo que acontece pode acontecer de novo. Isto não é uma verdade científica, mas é uma regrazinha que se repetiu tantas vezes em nossa vida que não custa nada levá-la a sério mais uma vez. Nada nos reconcilia tanto com o futebol quanto um jogo para ficar na História, um jogo que mesmo que a gente perdesse ficaria grato por ter vivido.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

2239) O jogo de 180 minutos (12.5.2010)



O futebol tem adotado cada vez mais o sistema classificatório chamado de “mata-mata”. São dois jogos, um no campo do primeiro clube, o outro no campo do segundo. Antes, esse sistema levava em conta apenas a vitória de cada um. Se o time A ganhasse o primeiro jogo por 1x0 e o time B ganhasse o segundo por 5x0, havia uma vitória para cada um, e era preciso um novo critério de desempate, que variava de acordo com o regulamento: prorrogação, disputa em pênaltis, etc. Ou então calculava-se desde antes qual dos dois tinha melhor campanha (maior número de pontos ao longo do campeonato, ou maior número de vitórias, ou maior saldo de gols, ou melhor resultado no confronto direto entre os dois times, etc.), e decidia-se que esse time seria vencedor no caso de resultados iguais (uma vitória para cada um, ou dois empates).

Mas sempre tinha alguém (eu, muitas vezes) que ficava injuriado quando acontecia uma disparidade qualquer. Afinal, uma vitória de 1x0 não pode se comparar a uma derrota por 5x0. Mesmo no caso de uma diferença menor, havia uma impressão de injustiça: então meu time ganha por 3x1, perde o outro jogo por 2x1, e ainda vai ter que decidir nos pênaltis?! Surgiu então o modelo atual, em que não apenas se consideram as vitórias, mas se somam os placares, formando o tal “resultado agregado”. Se o Treze perde o primeiro jogo por 3x2 mas ganha o segundo por 2x0, considera-se como resultado final a soma dos dois: o Treze vence 4x3. É o chamado “jogo de 180 minutos”.

Todo esporte tem essas sutilezas mas no caso do futebol surgem situações contraditórias. Dias atrás, pela Libertadores, o Flamengo perdeu de 2x1 para o Corinthians mas conseguiu se classificar e fez a festa; na mesma noite, pela Copa do Brasil, o Vasco venceu o Vitória por 3x1 e saiu derrotado (porque perdeu o primeiro jogo por 3x0). No caso do Flamengo, a classificação veio por mais uma sutileza recente: o gol marcado fora de casa vale por dois. Como o Fla ganhou no Rio por 1x0 e perdeu em São Paulo por 2x1, o placar dos 180 minutos ficou em 2x2 – mas o Fla fez um gol no campo do adversário, e o Corinthians não.

A questão é que muitas pessoas se queixam disso. Que coisa absurda, comemorar uma derrota! Que coisa irracional, vencer o jogo e sair de campo chorando! Para mim, essas regras recentes (ou seja, de uns 10 ou 15 anos pra cá) significam (digamos) a vitória do resultado a longo prazo sobre o resultado imediato. O que, no mundo de hoje, é uma influência saudável. O mundo está muito imediatista. As pessoas só enxergam o que podem tocar com a ponta do nariz. Ninguém pensa nas consequências, ninguém imagina que vai pagar a conta. Só vale a satisfação imediata. É bom que o esporte nos acostume a pensar na semana que vem, no jogo que vem, como parte do jogo que estamos disputando agora. Na vida só contam os resultados agregados. Cada gol que a gente sofre hoje, fica para sempre. Cada gol que a gente marca, fica também.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

2106) Ronaldo é o nosso rei! (8.12.2009)



Quiseram os deuses do futebol que o Flamengo fosse campeão brasileiro com um gol de Ronaldo. Não o Ronaldo Fenômeno que os rubro-negros cortejaram e bajularam durante tanto tempo, e que acabou esnobando a Gávea para ir jogar no Corinthians – mas o Ronaldo Angelim que há quatro anos carrega um piano enorme ali na zaga. É titular absoluto e dá uma média de uma entrevista por ano. De domingo para cá, conversou com mais repórteres do que em toda sua carreira. É um zagueiro magro, alto, com cara de nordestino (é paulista de nascimento, criado no Ceará): poderia passar como filho de Dominguinhos. Meses atrás, ao sair de uma sessão de um filme em homenagem ao Flamengo, confessou com simplicidade que era a primeira vez que tinha entrado num cinema, que tinha gostado muito e pretendia ir de novo. É o contrário do seu xará famoso, rico, paparicado, rodeado de “paparazzi” e de aspones.

Se o gol do título foi de Angelim, o comandante do título foi Andrade, o popular “Tromba”, ex-boleiro, o oposto dos nossos técnicos metidos a besta que vão de terno Armani para a boca do túnel. O oposto também dos técnicos arrogantes, sargentões, falastrões, cujo discurso é cheio de “eu fiz isso, eu fiz aquilo”, técnicos cuja relativa competência acaba obscurecida pela egolatria em que vivem mergulhados, contando para isto com o servilismo da própria imprensa de futebol. Os técnicos brasileiros são a tradução viva do discurso “eu ganhei, tu empataste, eles perderam”.

Torcedores de outros clubes estão se queixando de que o Flamengo não mereceu ser campeão. Quem mais diz isto são os do Palmeiras, que foi líder por 19 rodadas. O Flamengo teve um primeiro turno razoável, várias derrotas inexplicáveis, mas depois da entrada de Andrade como técnico, e da chegada de outros jogadores (Petkovic, Álvaro, Maldonado) o time se reequilibrou. Conseguiu inclusive compensar a saída de jogadores importantes das campanhas anteriores (Ibson, Fábio Luciano) e a queda de produção de outros (Léo Moura, Juan). Mereceu ser campeão. Por que não? Não me lembro de nenhuma partida que o Fla tenha vencido em circunstâncias suspeitas ou com gols irregulares.

Foi, como disse uma parte pequena da imprensa, um campeonato tecnicamente fraco, o que pode ser comprovado pela assustadora queda de produção de times como o Atlético Mineiro, o Palmeiras, o São Paulo, times que em algum momento tiveram tudo para manter-se no topo e não conseguiram. O Flamengo teve atuações consistentes ao longo destes últimos meses. Derrotou São Paulo e Palmeiras em São Paulo, derrotou o Atlético em Belo Horizonte, teve um dos artilheiros do campeonato. Não jogou bem nos últimos quatro jogos, mas jogou o suficiente para fazer os placares de que precisava. Os craques-símbolo da campanha são (merecidamente) Adriano e Petkovic, mas para mim este será sempre o título conquistado com um gol do verdadeiro Ronaldo do Flamengo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

2103) Curiosidades do esporte (4.12.2009)



Diz um antigo provérbio: “Não peça nada a Deus, porque ele atende”. Fica subentendido que ele atende de acordo com a conveniência dele, não com a nossa. Pedidos atendidos assim lembram aquela história da “Pata do Macaco”, de Jacobs, em que um casal idoso empunha o objeto mágico e pede cem libras esterlinas. No dia seguinte, o filho único morre num acidente e o seguro lhes paga as cem libras solicitadas.

Devo ter rezado muito a Deus (não me lembro de ter feito isso, mas nada é impossível pra quem bebe) pedindo que o Flamengo fosse campeão brasileiro de 2009. A prova disso é que o Todo Poderoso está prestes a me atender da maneira mais achincalhante possível. Vou resumir a situação, para os que não estão a par dos acontecimentos. No domingo que vem acontece a última rodada do campeonato, na qual surgirá o campeão. O time com mais chances é o Flamengo, ao qual basta derrotar o Grêmio de Porto Alegre, jogando no Maracanã. Em princípio, um osso duro de roer – me lembro bem de uma Copa do Brasil que o mesmo Grêmio nos arrancou no Maraca, com um empate de 2x2 depois de Romário ter feito um gol prodigioso de cabeça.

Acontece que há três outros times com chances de serem campeões, caso o Flamengo perca: são o Palmeiras, o São Paulo e o Internacional de Porto Alegre. Se qualquer um deles ganhar seu jogo de domingo e os demais envolvidos (Flamengo incluso) perderem, o vencedor é campeão. E isso criou a situação surrealista em que o Grêmio, adversário do Fla, está anunciando ao Brasil inteiro (através de sua torcida, seus jogadores, sua diretoria) que prefere perder para o Flamengo e vê-lo campeão do que esforçar-se para derrotá-lo e correr o risco de ver o campeonato ir parar nas mãos do Inter, seu arqui-rival, que na mesma tarde estará enfrentando o Santo André.

A lógica dos gremistas é que se o Inter for campeão graças a uma vitória do Grêmio sobre o Flamengo isto será uma humilhação indescritível para os tricolores gaúchos: matar-se em campo para dar o título ao rival! Não, pensam eles, melhor entregar o jogo!... Perder de propósito! Melhor fazer uma marmelada, um corpo mole, como o Corinthians fez domingo passado diante do mesmíssimo Flamengo. Para os corintianos, era melhor entregar a liderança ao Fla do que derrotar o rubronegro e ver a liderança (e quase certamente o título) ir parar nas mãos do São Paulo ou do Palmeiras.

Pois é. Pedi que meu time fosse campeão, e corro o risco de vê-lo ganhar o título, não por méritos próprios, não numa disputa épica daquelas de dar nó na válvula tricúspide – mas apenas porque o lance-de-dados da tabela reservou como nossos dois últimos adversários dois times que preferem perder para nós apenas por pinimba, apenas para não dar gosto ao adversário lá do quintal deles. Se perdermos um título dado assim, de-mão-beijada, será uma catástrofe. Se o ganharmos, será um anticlímax. Como dizia o jagunço Riobaldo, Deus é muito traiçoeiro. Melhor ser agnóstico.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

1920) Os campeões regionais (5.5.2009)



Quem salvou meu fim de semana acabou sendo o Flamengo. O Treze perdeu para o Sousa uma decisão que, aos meus olhos distantes, parecia tranquila e sem sobressaltos. Perder de virada no Amigão, jogando pelo empate, é coisa para tirar o sono. Vocês que me expliquem, porque minha lógica e minha oratória têm limites. Quem tinha uma missão impossível para cumprir foi meu outro Galo, o Atlético Mineiro, que pelo segundo ano seguido conseguiu perder o primeiro jogo da decisão, para o Cruzeiro, por 5x0. Um time que sai de campo com um resultado assim não tem muita noção de para onde está indo, não é mesmo?

Como moro no Rio, só tenho o direito de assistir ao vivo este capenga Campeonato Carioca, em plena decadência. (Quem o diz não é o paraíba aqui, é a imprensa carioca.) Se você juntar os 44 jogadores de Flamengo, Botafogo, Fluminense e Vasco não dá um time capaz de chegar nas finais do Campeonato Paulista. É sempre uma disputa para ver quem é o menos ruim, o que erra menos, o que tem menos azar. Mais uma vez deu Flamengo.

Não há como não falar do Botafogo. Tem um time arrumadinho, veloz, dedicado, mas, como reza há milênios a cultura oral, “tem certas coisas que só acontecem com o Botafogo”. Este ano, tinha um time melhor do que todos os demais, e uma coisa que o Flamengo não tem: atacantes. O Flamengo chega onde chega, todo ano, por causa do goleiro Bruno, dos laterais-artilheiros Léo Moura e Juan, dos zagueiros-artilheiros Ronaldo Angelim e Fábio Luciano, e de meio-campistas-artilheiros como Ibson, Kleberson, etc. No Flamengo todo mundo é artilheiro, menos os atacantes, que são de uma incompetência patética, constrangedora. Se a gente passar num liquidificador Obina, Josiel, Zé Roberto e Emerson não dá um jogador capaz de jogar sequer pelo Campinense. O fato de um estabanado sem talento como Josiel ganhar 194 mil reais por mês merecia uma CPI.

Já o Botafogo tem Maicossuel, Reinaldo e Victor Simões. Tá certo, não são craques de encher os olhos, mas se passar os três num liquidificador dá um atacante e meio, que é muito mais do que o Flamengo tem há anos. E aí, na reta final do Campeonato, o que acontece? Dois deles se machucam. Não sei se o leitor estava vendo o jogo passado. Estava 2x1 para o Botafogo (o Fla viria a empatar no finzinho). O Flamengo perdeu a bola no ataque e o Botafogo disparou um contra-ataque rápido com seus três jogadores de frente. E de repente o que a gente viu foi Reinaldo desmoronando para um lado e Maicossuel tombando para o outro. Não houve esbarrão, não houve falta; nenhum jogador do Flamengo sequer tocou neles. Foram ao chão como se tivessem sido abatidos por dois atiradores de elite. Reinaldo torceu sozinho o tornozelo, Maicossuel estirou sozinho um músculo da coxa. O campeonato foi decidido nesse lance surrealista em que dois jogadores se machucaram a si mesmos num só lance. Coisas que só acontecem com o Botafogo.

segunda-feira, 22 de março de 2010

1809) Segunda Divisão (26.12.2008)



As rodadas finais do Campeonato Brasileiro, merecidamente ganho pelo São Paulo, trouxeram choro e ranger de dentes a muitas torcidas. Todo ano cai um time grande. Ano passado foi o Corinthians, este ano foi o Vasco. A imprensa trata essas quedas como se fossem o fim do mundo. Existe um prazer sádico nos jornalistas em rodar nas mesas-redondas a faca que o campeonato empurrou. Não basta a derrota, o rebaixamento e a perda financeira resultante. É preciso pisar e repisar o desespero, clamar aos céus, fazer uma caça-às-bruxas em busca de culpados. Eu gosto de ver a cara hipócrita dos comentaristas na TV, olhando para a câmara e dizendo; “Porque um clube como o Vasco, com a tradição do Vasco, as glórias do Vasco...” Na hora do comercial, aposto que prorrompem em gargalhadas escarninhas.

Eu me lembro de um tempo em que time grande não caía. Dava-se um jeito! Em 1991 caiu o Grêmio. No ano seguinte, a CBF deu um jeito de subir para a Série A doze clubes, em vez de quatro, e o Grêmio retornou. O Fluminense também caiu, em 1996; conseguiu com a CBF uma “virada de tapete”. Em 1997 caiu de novo, e desta vez não teve jeito. Em 98, em vez de subir ou pelo menos ficar na Segundona, caiu para a Série C. Foi campeão, e depois houve um “convite” para que ele participasse da Taça João Havelange, que substituiu em 2000 o Campeonato Brasileiro. Convidado de volta à festa, o tricolor se fez de doido e não saiu mais.

Nos últimos anos tem havido uma certa moralização nessa bagunça. Quem cai, cai, e estamos conversados. Caiu Botafogo, caiu Palmeiras, caiu Atlético Mineiro. Nenhum deles foi à falência, pelo contrário. Aproveitaram a passagem pela Série B para recompor a equipe e se classificar de volta, o que não é nenhum mistério, porque na Segunda Divisão acabam enfrentando uma porção de equipes de menor tradição e de finanças ainda mais precárias do que as suas. Vejam o que fez o Corinthians este ano.

Cair para a Segundona é como, para um estudante, ser reprovado no fim do ano. Das duas uma: ou ele resolve cair na real e arregimentar todas as suas forças para decolar no ano seguinte, ou então afunda na areia-movediça da própria incompetência. Quem melhor compreende isto são as torcidas. Já ficou demonstrado em muitos exemplos recentes (Atlético Mineiro, Botafogo, Grêmio, Corinthians, etc.) que os primeiros jogos de um time pela Série B costumam ter um público muito maior do que os do ano anterior, quando ele estava na Primeira Divisão. A torcida entende. Em vez de fugir da raia, sabe que o momento é grave, e comparece.

Os leitores desta coluna sabem que torço pelo Treze e pelo Flamengo do Rio. Coisa curiosa: a Série B de 2009 vai ter a presença de dois dos meus adversários mais tradicionais, o Campinense e o Vasco da Gama. Torci de leve, com diplomacia, pela subida do Campinense, por ser um time da Paraíba. E também torci para que o Vasco não caísse. Neste último caso não adiantou (acho que faltou entusiasmo).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

1667) Jogadores e marias-chuteiras (16.7.2008)


Certas coisas no futebol me chamam a atenção. Dias atrás alguns jogadores do Flamengo, após um jogo em Belo Horizonte, envolveram-se numa confusão com garotas de programa. Fizeram uma festinha num sítio, trouxeram mulheres, bebidas. A certa altura, um dos jogadores queria transar sem usar camisinha, a prostituta (que tinha mais juízo do que ele) protestou, houve um bate-boca, uma agressão sem maior gravidade, e foram parar na delegacia. Ao que parece, as garotas tinham sido contratadas por R$ 350,00 reais por cabeça para animar a festa.

Isto ocorre poucas semanas depois do episódio em que Ronaldo Fenômeno se envolveu numa confusão semelhante, desta vez ele sozinho com três travestis. Mais uma vez foram parar na delegacia, saiu nos jornais, etc. e tal. E não pude deixar de lembrar outra famosa farra que jogadores do Flamengo (na época era o time que tinha Romário, Iranildo, Beto, etc.) fizeram em Porto Alegre após um jogo. O bundalelê foi descoberto pela diretoria, e a crise precipitou a saída de Romário do time rubronegro. As trêfegas moçoilas gaúchas deram até entrevista no “Jornal Nacional”, protegendo as identidades (e as fisionomias) com meias-máscaras cobertas de purpurina colorida. Como disse um irreverente amigo meu, “era cada jaburu de trincar espelho”.

O que os torcedores se perguntam nas mesas de bar, após episódios assim, é, basicamente: “Por que diabo esses jogadores, que ganham verdadeiras fortunas, preferem sair com esse tipo de mulheres, em vez de ficarem namorando as modelos-e-atrizes que provavelmente conseguiriam, se tentassem?” O cara pode pegar uma misse, uma apresentadora de TV, uma socialaite... Por que fica correndo atrás das dolores-sierras do Distrito da Luz Vermelha?

Acho que por um lado é uma questão de conforto íntimo. Muitos jogadores são rapazes do povo, cuja vida sexual se deu com esse tipo de mulheres, desde a adolescência. Mesmo depois de ricos e famosos, jogando na Europa ou nas Arábias, eles gostam de retornar àquele ambiente. Em parte por nostalgia. E em parte porque se sentem mais à vontade com essas garotas do que com torcedoras dinamarquesas ou alemãs.

E há outra coisa. A relação cliente-prostituta é, muitas vezes, uma das mais francas e honestas que ocorrem entre homem e mulher. Os dois combinam um preço e um cardápio de serviços. Finda a transação, vai cada um para seu lado. E os jogadores de futebol, por mais malandros que sejam, sentem eternamente pesando sobre seus pescoços a ameaça das marias-chuteiras. Elas vivem de tocaia, armando o bote, prontas para engravidar na primeira transadinha às pressas. Depois de grávidas, depois de mães, lançam mão da parafernália jurídica à sua disposição para sugar os salários e contratos do inadvertido pai, até que ele encerre a carreira aos 40 anos como reserva de algum time de série C. Pra que correr esse risco? Melhor pagar trezentos-e-cinquentinha, abrir uma cerveja e relaxar.