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quinta-feira, 16 de abril de 2026

5230) Todo prêmio é injusto? (16.4.2026)




Há um belo poema de Carlos Drummond de Andrade onde ele sugere, a certa altura, que gostaria de ver “um fim sem a injustiça dos prêmios”. 
 
O que parece uma contradição. Que sentido tem chegar ao fim de um processo e não receber uma recompensa qualquer?!  Para que todo aquele esforço, então?  Não faria sentido.  O plantio tem que ser recompensado com a colheita, e mais ainda: com a refeição no prato e o superávit no mealheiro. 
 
Como imaginar toda a faina, toda a labuta desta vida humana sem a promessa (melhor: sem a garantia!) de um Paraíso à nossa espera? 
 
Nada neste mundo deveria acabar com um simples THE END, e, se o fizesse, deveria ser como o THE END dos filmes americanos, que em nossa infância estrumaram essa sede de triunfo e ressarcimento: um casal se beijando aos pés do altar, um guerreiro erguendo a espada vitoriosa, o herói de retorno à família que lhe acena boas-vindas na varanda. 
 
Tem que haver um prêmio, mas esse conceito tão nobre acabou sendo barateado, bastardizado, pirateado sem escrúpulos pelo conceito de disputa pelo 1º, 2º, 3º lugares, medalhas de ouro, prata e bronze, esse tipo de coisa. 
 
Quando eu fazia parte da organização dos Congressos de Violeiros de Campina Grande, nos anos 1970, ficava escandalizado com a ferocidade da disputa, com as mil e uma artimanhas dos cantadores para derrotar os companheiros. 



Mais de uma vez sugeri, com a minha cara abestalhada de universitário de óculos: “Por que não transformamos o Congresso num festival não-competitivo, em que todas as duplas se apresentam no palco do Teatro, improvisam sobre temas sorteados, recebem maiores ou menores salvas de palmas de acordo com seu desempenho, e a grana da premiação é dividida irmãmente entre todos?...”. 
 
Ou seja, eu queria a Utopia drummondiana, que como toda Utopia é muito bonita no papel, mas se reduz a pó no instante em que bota o pé na calçada. 
 
Os cantadores, todos mais velhos do que eu, botavam a mão no meu ombro e diziam: “Rapaz, se disser que não tem disputa não vem ninguém. Deixa eles se comerem uns aos outros. E que ganhe o melhor.” 
 
É engraçado. Os cantadores de viola nordestinos parecem rezar na mesma cartilha dos roteiristas do cinema de Hollywood, para quem toda história tem que se basear num Conflito, porque se não tiver conflito não se vende um só ingresso. 



E faz um certo sentido, admito, porque na raiz da Cantoria de Viola está o Desafio, está o confronto poético, está a cerimônia agonística (Johan Huizinga) em que o representante da comunidade X precisa vencer o representante da comunidade Y, e nesse confronto ambas as comunidades mobilizam suas energias, seu entusiasmo, sua coesão emocional, sua engenhosidade criativa, seu impulso superador. 



(folheto da editora Tupynanquim, para lançamento em breve)

 
É algo que nem mesmo o conceito moderno (de meados do século 20) da Cantoria de Viola entre parceiros, não entre adversários, conseguiu apagar. 
 
E é algo que vigora em tudo neste mundo, desde o Nobel até o Oscar, desde o Jabuti até a Copa do Mundo, desde a Palma de Ouro até o Grammy Latino. Alguém precisa perder para que alguém possa ganhar – e para que todo mundo queira concorrer. 
 
E quando penso na “injustiça dos prêmios” drummondiana, me questiono: um prêmio pode ser injusto?  E me lembro de prêmios em que o premiado, muito tempo depois, confidenciou: “Era melhor não ter ganho. Todo mundo disse que eu ganhei sem merecer.  Ganhei, mas isso me fez mais mal do que bem.” 
 
Acho que o primeiro grande impasse que se formou na minha cabeça foi naquele Festival da Canção, no Rio de Janeiro, que na reta final se dividiu entre “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, a grande vencedora, e “Caminhando” de Geraldo Vandré, o grande sucesso injustiçado. 


Estive vendo dias atrás um documentário sobre Chico, na Netflix, onde ele fala nesse episódio com a habitual gargalhada de bom humor, recordando a vaia estrondosa que sacudiu o Maracanãzinho quando anunciaram o prêmio para “Sabiá”. Todo mundo queria Vandré. 
 
Lembro as discussões ferrenhas na minha turma de amigos, quando a gente fazia “bacurau” madrugada afora na esquina de Olacanti (porque era pertinho do apartamento da minha tia, onde eu dormia às vezes, e pertinho da casa de Son e Marcos Agra, na rodoviária velha). 
 
-- Quem tinha que ganhar era “Caminhando” – dizia um. – Uma música contra a ditadura, levantou o público, todo mundo cantou junto. 
 
-- Uma letra repetitiva, toda com rima em “ão” – questionava outro. – “Sabiá” tem versos lindos: “vou deitar à sombra de uma palmeira que já não há”. Poesia pura. 
 
-- Poesia do tempo de Gonçalves Dias – rebatia alguém. – Sabe o que é poesia em 68? “Nas escolas, nas ruas, campos, construções, caminhando e cantando e seguindo a canção”. 
 
-- É de fato um bom verso – concedia o primeiro. – Conseguiu trocar “ão” por “ões”. 
 
Eu sempre preferi “Caminhando”, até por ser uma canção de dois acordes, algo que sempre desperta minha simpatia; e chegamos a tocá-la (como número instrumental, prudentemente) quando fiz parte dos Sebomatos. Mas lembro na época algumas entrevistas de Tom e Chico, quase pedindo desculpas por terem ganho o Festival. 
 
Alguma pessoa terá despertado mais antipatia no Brasil do que a pobre da Gwyneth Paltrow, que tomou de Fernanda Montenegro o Oscar de melhor atriz que o Brasil inteiro já dava como (merecidamente) ganho? A coitadinha subiu ao palco toda balbuciante, dizendo que não esperava... (Todo mundo que ganha um Oscar diz que não esperava, que foi uma surpresa, que não preparou nada!) 


 
Vi tempos depois uma entrevista com ela, em que dizia, no fim das contas, que era melhor não ter ganho do que ganhar e todo mundo dizer que ela não mereceu. 
 
Um caso parecido se deu no futebol, no ano passado, quando o ex-flamenguista Vinicius Jr., do Real Madrid, era tido por muita gente como o vencedor antecipado da Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador do ano. Vinicius é um grande jogador e pelo meu gosto pessoal receberia, sim, o prêmio naquele ano (não no ano seguinte, em que ficou bem abaixo). 
 
Acontece que Vinicius se envolveu numa série de episódios de racismo com as torcidas, bateu de frente, rasgou o verbo, deu murro em ponta de faca, recusou-se a baixar a cabeça... Resultado: atraiu para si as antipatias de muita gente no futebol, desde os racistas propriamente ditos até aqueles que abominam as polêmicas e sonham com prêmios “platônicos”, idealmente técnicos, sem fatores extra-campo envolvidos. 



E aí a Bola de Ouro acabou indo para Rodri, jogador do Manchester City.  Que virou no meio futebolístico uma espécie de Gwyneth, alguém que “não esperava” – e, para muitos, não merecia.  Pior: foi apontado por gente da imprensa como um premiado “fake”, um pretexto postiço para que o prêmio não fosse para um jogador negro que bate de frente com o racismo.
 
Rodri é ótimo jogador. Na época, estava se recuperando de uma contusão muito grave no joelho, o que causa em qualquer fã do futebol uma simpatia e uma solidariedade automáticas. Ganhou o prêmio, foi lá receber, suportou os aplausos. Mas, em algum momento, Rodri também deve ter pensado: “Eu acho que mereço, eu sei que queria ganhar; mas não assim.”
 
Existem prêmios justos e prêmios injustos?  Não sei, mas às vezes me lembro de Jorge Luís Borges, o cara que durante a vida inteira sonhou em vão com o Prêmio Nobel: “Todo sucesso é uma espécie de mal-entendido.”
 
 




sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

5130) As grandes ilusões: a guerra (6.12.2024)



 
O websaite Belas Artes À La Carte está exibindo há algum tempo um clássico que eu nunca tinha visto: La Grande Illusion (1937) de Jean Renoir. 
 
O diretor, que era filho do pintor Auguste Renoir, é um dos grandes mestres de sua geração de cineastas. Alguns filmes dele tornam-se melhores a cada revisão, como A Regra do Jogo (1939), O Crime de Monsieur Lange (1936), A Carruagem de Ouro (1952). 
 
A Grande Ilusão é um filme de guerra que deixou uma marca considerável no gênero. Roger Ebert observou que elementos do filme de Renoir foram copiados em Fugindo do Inferno (os prisioneiros escondendo a terra da escavação do túnel) e em Casablanca (os franceses cantando a Marselhesa, desafiadoramente, na cara dos oficiais alemães). 



(Pierre Fresnay, como o oficial francês, e Erich von Stroheim, como o alemão) 


O filme compartilha, com certa nostalgia e perplexidade, aquela noção antiga de que a guerra é uma espécie de esporte entre cavalheiros. É uma das noções mais contraditórias e absurdas que existem, no meu entender das coisas (que é um entender muito pessimista, reconheço). 
 
A I Guerra Mundial, época em que A Grande Ilusão está ambientado, era uma dessas guerras que herdaram o espírito esportivo e cavalheiresco da época medieval. Uma época em que duques, barões, príncipes, viscondes se encontravam num banquete, comiam, bebiam, cantavam juntos, faziam ameaças mútuas repletas de gargalhadas – e no dia seguinte vestiam a armadura e destroçavam-se uns aos outros. 



O primeiro episódio desse tipo que me desconcertou, em plena adolescência, foi um capítulo de Conan Doyle, “De como os Trinta de Josselin enfrentaram os Trinta de Ploermel”, em seu magnífico O Escudeiro Heróico (“Sir Nigel”, 1906). 
 
O livro é ambientado durante a Guerra dos Cem Anos. Nesse trecho, Doyle descreve os desafios entre os cavaleiros aquartelados nesses dois castelos (os ingleses em Ploermel, os franceses em Josselin). 
 
Acontece que, justo nesse momento, os reis da Inglaterra e da França acertam uma trégua provisória.  A partir dessa data é proibido guerrear.  Decepcionados, os cavaleiros se reúnem para beber juntos (mais ou menos no clima entre oficiais alemães e prisioneiros franceses do A Grande Ilusão), mas começam as provocações de parte a parte e eles resolvem driblar a trégua promovendo um “mero” torneio de armas, com 30 guerreiros de cada lado. 
 
Ou seja – não será um ato de guerra, será um torneio esportivo. 



(O Combate dos Trinta)
 

O encontro se torna uma verdadeira carnificina. Doyle se baseou num episódio histórico, o “Combate dos Trinta”, ocorrido em 26 de março de 1351, quando os nobres guerreiros dos dois países, segundo um cronista da época, “comportaram-se tão valentemente como se fossem os próprios Roldão e Oliveiros” – o que mostra o quanto a valentia da literatura de cordel já vem de longe. 
 
Diz Conan Doyle em 1906, na introdução de Sir Nigel, defendendo esta mistura surrealista de brutalidade guerreira e refinamento aristocrático: 
 
Sei que alguns destes incidentes podem parecer repulsivos e brutais ao leitor moderno. É inútil, contudo, desenhar o Século Vinte dizendo que é o Catorze. Aquela foi uma época mais severa, e os códigos de moral, especialmente no que tange à crueldade, eram muito diferentes. Não há no presente texto nenhum incidente que não tenha confirmação nos fatos concretos. O encanto da Cavalaria reside na superfície da vida, mas por baixo dela havia uma população semi-selvagem, feroz e animalesca, pouco afeita à piedade e à misericórdia. Era uma Inglaterra crua, rude, cheia de paixões elementares, e redimida apenas por virtudes elementares. E foi como tal que me dispus a retratá-la. (trad. BT) 
 
Mais de cinco séculos transcorrem entre a guerra descrita por Conan Doyle (século 14) e a guerra descrita por Jean Renoir (a I Guerra Mundial). Durante todo esse período, não sei se aumentou ou diminuiu o controle da ética sobre a necessidade de matar e destruir. Toda guerra tem “códigos de conduta”: em tais circunstâncias o conflito deve ser suspenso; tais e tais armas não podem ser usadas; tais e tais comportamentos não serão tolerados; os conflitos devem ocorrer dentro de regras aceitas de parte a parte; e assim por diante. 
 
Pelo que me lembro (não tenho mais o livro) Johann Huizinga explora com detalhes este tema no capítulo “O Jogo e a Guerra” do clássico Homo Ludens (1938). 
 
Uma cena de A Grande Ilusão é bem típica desse conceito cavalheiresco de guerra. Os prisioneiros (oficiais franceses) estão preparando uma comprida corda para fugir pelo muro. Aproximam-se os alemães encarregados da revista. O francês agarra a longuíssima corda e a pendura do lado de fora da janela. O oficial alemão pergunta: “Dá sua palavra de honra de que aqui nesta cela não há nenhum instrumento de fuga?”, o francês diz: “Sim” – com um leve sorriso. Ele está sendo honesto – o instrumento de fuga não está na cela, está pendurado do lado de fora. 
 
Esse conceito da guerra como um esporte entre cavalheiros é, pelo que se percebe, a “grande ilusão” mencionada no título. 




Nos conflitos recentes entre Israel e o grupo libanês Hezbollah, o Mossad e o Exército israelense (segundo o New York Times) foram os responsáveis pela explosão de milhares de pagers (ou bips) e de walkie-talkies, meios de comunicação um tanto antiquados que o Hezbollah usava para evitar o rastreamento via celular, internet, etc. 
 
O Alto Comissário das Nações Unidas Para os Direitos Humanos, Volker Turk, declarou à imprensa: 
 
Usar milhares de indivíduos simultaneamente como alvos, sejam eles civis ou membros de grupos armados, sem ter uma idéia de quem está de posse dos aparelhos manipulados, nem de sua localização ou do seu entorno no momento do ataque, viola as leis internacionais dos direitos humanos, e, na medida em que se aplica, a legislação humanitária internacional. 
 
Ou seja: mesmo que não estejamos mais na Idade Média com seus salamaleques cavalheirescos, a guerra não é um vale-tudo. A guerra tem limites. 
 
La Grande Illusion lembra em muitos momentos outro filme clássico de Jean Renoir: La Règle du Jeu, uma história em que ele compara o comportamento amoroso de patrões e empregados, num fim-de-semana festivo numa mansão. Aristocratas daquele tempo se divertiam caçando perdizes ou caçando raposas. Na caçada esportiva, havia regras, e não há como não pensar que a guerra para eles não era uma atividade muito diferente. 
 
No fim das contas, a grande ilusão de todos é tentar manter a guerra – a matança deliberada de pessoas –  como uma espécie de jogo, com regras, como se fosse um passatempo, ou no máximo como aqueles duelos de espada onde bastava um arranhão para que “a honra estivesse satisfeita”. 
 





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

4671) A arte de dobrar guardanapos (5.2.2021)



 
O utilíssimo saite The Public Domain Review me envia de 2 em 2 semanas sua newsletter com as novidades que amealhou nesse período. É um saite dedicado a divulgar obras que caíram em “domínio público” – em geral, obras obscuras, de autores desconhecidos, de difícil acesso, mas que dizem algo sobre nossa civilização.
 
Mesmo quando os assuntos são banais, em geral a linguagem usada e as ilustrações são fascinantes. (Pense livros publicados em 1700+, em 1800+, sobre os assuntos mais irrelevantes e imprevistos.)
 
A edição desta semana, por exemplo, dá destaque a uma publicação de 1629: o Tratado da Dobradura de Guardanapos, de Mattia Giegher.
 
https://publicdomainreview.org/collection/serviette-sculptures-the-forgotten-art-of-napkin-folding
 

 



 
Parece ter surgido nesse período um intenso interesse nas formas de apresentação de refeições e banquetes, envolvendo elementos de decoração, artesanato, etc. Não devemos esquecer que o século 17 foi o século das perucas gigantes (masculinas, principalmente) que vemos ainda hoje nos tribunais britânicos. (Ou pelo menos nos “filmes de tribunais britânicos”, que foi só onde as vi.)


Johan Huizinga, num capítulo de seu imprescindível Homo Ludens (1938), dedica um capítulo às competições de perucas e adornos dos nobres desse tempo. Havia um barroquismo e um rococoísmo que se espalhava por todos os setores da vida humana. Inclusive os guardanapos.
 
Diz o texto da “Public Domain Review”:
 
Com a chegada do século 17, e a aceleração da educação e da cultura em bolsões localizados ao longo de toda a Europa, houve uma proliferação de manuais de como cortar carne, como servir uma mesa, e, no caso de Giegher, como dobrar guardanapos. Isso sugere um vivo interesse num tipo de conhecimento que antes fora exclusivo dos ambientes da realeza.

 
Riqueza, abundância material, cultura refinada, multiplicação de recursos, de tarefas, de empregos, de talentos individuais. Necessidade de afirmação social num ambiente de competições implícitas (ou nem sempre) em torno de quem é mais rico, quem é mais fino, quem é mais culto, quem é mais bem educado, quem tem mais informação, quem está tendo direito ao melhor do melhor do melhor.
 
O século 17 ainda não acabou.
 
Transformar a dobradura de guardanapos numa forma de arte? Será necessário? pergunta-se alguém. A questão não é ser necessário ou não, a questão é: o que dá existência a isso? Por que motivo essas coisas acontecem? Não temos vontade de fazer essa pergunta quando pensamos numa sinaleira de automóvel ou num hidrante ou num tubo de dentifrício. São coisas cuja utilidade e função nos parecem óbvias, assuntos encerrados. (Não são: ganharíamos muito tentando entender o “porquê” desses objetos, e de muitos outros.)
 
Mas... dobradura de guardanapos?!  A verdade é que quando a sociedade cresce, prolifera, enriquece, se desenvolve, é preciso dar ocupação a cada vez mais gente, e ao mesmo tempo é preciso direcionar os talentos pessoais de certos indivíduos para alguma coisa que se aproveite.
 
Quando você é uma chave-de-fenda e sai pelo mundo, tudo que não for cabeça-de-parafuso está meio fora de foco. Temos a tendência de gravitar rumo àquelas atividades onde sentimos que podemos quebrar um galho, resolver um impasse, adiantar uma situação. Com sorte, passarão a nos chamar outras vezes. Com mais sorte ainda, nos pagarão por isso.



Mattia Giegher ganhava a vida como trinchador de carne em açougues, mas quando se mudou para Veneza mudou de nome (chamava-se Mattia Jäger) e entrou no ramo das mesas ornamentais. Dedicou-se a isto e seu tratado é uma obra barroco-utilitária, uma expressão de uma sociedade abastada onde as pessoas provavelmente experimentavam orgasmos espirituais ao debater a posição exata de um botão na roupa ou a largura ideal de um bico de renda. 
 
Quando a sociedade enriquece e se refestela em paz na própria riqueza (ou seja, quando os humilhados e ofendidos estão quietinhos, sob o olhar vigilante das milícias), tudo se estetiza. Tudo é pretexto para o cálculo infinitesimal da Beleza. Isso passa de geração em geração, se impregna na cultura inteira, nos modos de ser, de conviver, de pensar. Até o nosso nobre Thomas de Quincey se dá o desfastio de imaginar O Assassinato Considerado Como Uma das Belas-Artes (1827).



E tudo pode mesmo se transformar em “arte”, se virmos essa palavra com uma certa amplitude de significado, a amplitude meio sem disciplina com que as pessoas usam a palavra na vida real. (Nos manuais de estética, é claro, que os filtros têm que ser rigorosíssimos, até para compensar a bagunça da Língua Geral lá de fora.)
 
Se achamos que existe arte na pintura de paisagens ou retratos a óleo, por que não a haveria na pintura de miniaturas, de camafeus, de botões-de-enfeite? Por que não haveria arte na pintura de cabeças de alfinete, ou naquelas esculturas de palitos de fósforos? Talvez falte significado social e ressonâncias humanas profundas a essas artes pequeninas, mas o fato é que uma “arte” só é pequenina até o dia em que uma pessoa fora do comum começa a praticá-la, num ambiente capaz de compreendê-la.
 
Como dizia Raymond Chandler, não existem gêneros literários pequenos para um grande artista; o problema é que existem artistas que se acham obrigados a se apequenar quando abordam um determinado gênero.
 
Existe algum futuro possível, na sociedade de hoje, em que a dobradura de guardanapos possa se tornar uma atividade estética independente de todo o resto, ser considerada pelo menos uma “arte ornamental” como o é a criação de leques, ou uma atividade criativa como o origami?