O brasileiro nasceu para ser comerciante, negociante.
Acredito que existe sangue fenício entre nós, não porque tenha visto provas
genéticas disto, mas porque cresci ouvindo dizer que fenício e comerciante são
sinônimos.
O brasileiro vende tudo? Não propriamente: mas o
brasileiro acredita que tem comprador para tudo.
Morei alguns anos no Catete, ali entre a Nona Delegacia e
a Pedreira da Glória.
Andava muito pelos arredores, que amo até hoje. O zero
cartesiano do meu Rio de Janeiro fica no Largo do Machado.
Frequentei muito a Biblioteca da Glória, na rua homônima,
num prediozinho discreto, diante da calçada cheia de árvores de onde Pedro Nava
deu adeus.
As calçadas da Glória são geralmente largas, como eram as
calçadas numa época em que os pedestres eram mais numerosos do que os cabriolés. São especialmente largas naquele trecho em
frente ao Palácio do Bispo.
Recém-desembarcado no Rio, eu era (ainda sou) curioso com
um monte de coisas que os autóctones nem ligam, porque aquilo faz parte da vida
deles há mais de 400 anos. Mas é assim mesmo. Os que vêm da Europa se maravilham
com maracujá, capivara, marimbondo, espada-de-são-jorge, jabuticaba, sagüim.
Eu me maravilhava – não com a natureza local, mas com a
cultura. Os nativos estendiam lonas bem largas na calçada, diante do Palácio do
Bispo, com um tijolo em cada canto, e ali distribuíam coisas à venda. Eu parava
e ficava computando.
Um par de tênis usados, quatro torneiras enferrujadas,
lápis de todos os tamanhos e às vezes sem ponta, óculos arranhados, sandálias
havaianas às vezes desemparelhadas, um calidoscópio, três canecas de louça,
dois pratos de ágata, um álbum de fotos, quatro sutiãs, vários gibis da Mônica.
A vendedora era às vezes uma mulher de seus 60 anos,
sentada no meio-fio, pano amarrado na cabeça, cigarro no dedo. Bastava a gente
parar e ela abria um sorriso incompleto e fazia um gesto largo abrangendo tudo:
-- Pode olhar, meu fio!... Pode escolher!
O brasileiro acredita que existe comprador para tudo. E deve
mesmo existir comprador para alguma daquelas coisas, porque senão aquela
senhora não se animaria a descer a ladeira de Santo Amaro e expor seus
cacarecos-relíquia.
Alguma coisa
ela devia vender! E no fim do dia, ao recolher aquela enorme trouxa
sacolejante, podia parar ali mesmo na Padaria da esquina e comprar 3 ou 4 pães.
Só quem já precisou de um pão sabe o que valem três ou quatro.
No outro dia eu passava e mais adiante estava uma lona
também sortida, vigiada por um guri de boné pra frente com uma marmitinha do
lado.
Uma panela de pressão com tampa, um oratório de madeira
faltando uma banda, três pentes e uma escova, um mapa do Brasil plastificado, duas
tampas de ralo de pia, um montinho de camisetas passadas a ferro, alguns
passarinhos de plástico, um chapéu preto com peninha na fita, um colete de
seda, um copo de liquidificador, uma imagem do Padre Cícero, um desentupidor de
pia, alguns cadernos de espiral cheios de lições copiadas, uma gravata
borboleta.
Existe uma lei não-escrita do comércio que diz mais ou
menos assim: se você tem 200 coisas para vender e são 200 cachimbos, você só
atrai um público, o dos compradores de cachimbo. Mas se você tem 200 objetos
para vender e ali tem cachimbo, vaso de louça, livro, anágua, copo, prato,
chinelo... você tem mais chance de vender alguma coisa.
Variedade rima com oportunidade.
Claro que isto não era somente na Glória. A minha querida
Rua do Catete era mostruário permanente para vendedores de livros e de elepês de
vinil que viram várias vezes a cor da minha carteira. Ainda hoje começa ali um
próspero mercado-persa, na esquina de frente para o MacDonalds e de quina para
o caldo de cana. Mas daí em diante já são tendinhas, são barraquinhas que vão
até o Cine São Luiz. Já é um comércio mais profissionalizado, mais
com-estrutura.
O que me atrai são as lonas e as cobertas de plástico, estendidas
no chão, ao ar livre. Talvez porque me evoquem os vendedores de folheto de
cordel na feira de Campina. Folhetos, aliás, que rarissimamente vi pendurados
em cordéis. Sempre os vi espalhados no chão com a capa pra cima, o vento da
manhã fazendo drapejarem as páginas, como pequeninas bandeiras do país da
imaginação.
Pois é, fico poético quando vejo a poesia dessa esperança
mercantil, dessa confiança de que basta expor na calçada uma coleira-de-cachorro
sem cachorro para vendê-la. Há de haver em algum lugar da cidade uma pessoa com
cachorro e sem coleira, capaz de parar, erguer as mãos pro céu e dizer: “Mas
olhe só que sorte a minha!...”
Uma coleira-de-cachorro sem cachorro, um par de bibelôs
de pastorinhas, quatro canetas-tinteiro uma sem tampa, dois pares de
sapato-alto feminino, um ralador de cozinha, um estetoscópio enferrujado, uma
pilha de disquetes flexíveis, um cinturão com fivela redonda, um chuveiro
Lorenzetti, uma bandeja retangular de plástico, uma chupeta de bebê.
Outras minas inesperadas, mas promissoras, são os
arredores da Praça da Cruz Vermelha (onde fica o Instituto do Câncer; arredores
de hospitais são focos permanentes de aglomeração), as imediações da Central do
Brasil, as saídas do metrô do Largo do Machado, alguns trechos de calçada larga
na Rua México ou Graça Aranha...
Uma bola de vôlei meio murcha, um monitor empoeirado, uma
vitrola portátil com tampa, um espremedor-de-laranja de vidro, uma sombrinha
estampada, uma figa da Guiné em madeira, uma pilha de máscaras de carnaval,
quatro benjamins, um ferro elétrico, uma viseira verde de revisor, um
porta-toalhas de madeira entalhada, uma pilha de CDs sem capa, meia dúzia de
frascos de remédios, um telefone preto com fio, uma gravura emoldurada de Santa
Luzia, vários rolos de fio elétrico de diferentes tipos, um porta-jóias em
ferro fundido.
A necessidade de vender alguma coisa por alguns trocados faz
o pessoal arrebanhar essa troçada, trazer com esforço, arrumar com carinho,
exibir com esperança. Se a gente pergunta, eles dão de ombros e dizem: “Nunca
se sabe. Pode ser que interesse a alguém.”
Um sociólogo argumentaria, com certa razão, que essas
pessoas veem-se a um passo da mendicância, mas relutam em entregar-se a ela. Em
vez de pedir, preferem oferecer algo em troca, preferem sentir que ainda têm
algum poder de barganha, ainda participam de transações equitativas, toma lá,
dá cá. Não é esmola.
Isso constitui uma faixa muito específica do conceito
“comerciante”, da rubrica “comerciante”. Não é simplesmente o cara habilidoso e
lucreiro. Não é simplesmente o cara bonachão e regateador. Não é simplesmente o
cara raposa e impiedoso com o vacilo alheio. Não é simplesmente o cara solene e
crente de que está cumprindo uma missão social.
É a pessoa que percebeu os mil mecanismos randômicos que
movem o mundo e se entregou a eles, feliz como quem preenche com uns números
quaisquer as dezenas da loteria, como quem faz sua aposta onírica na mesinha do
bicho.
Tudo é acaso, tudo é sorte e azar, tudo paira numa
neblina de possibilidades. e tudo despenca na bigorna de uma surpresa.
Não sabemos o que vai vender, nem quem vai comprar. Temos
aqui os nossos produtozinhos, eles são espalhados e expostos ao dedo indicador
do Acaso. Não sabemos se tem comprador pra tudo. Para alguma coisa, tem.