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quarta-feira, 26 de março de 2025

5165) As Máquinas do Tempo (25.3.2025)





 
Tenho com alguns filmes antigos uma relação parecida com a que muitos amigos meus têm com séries tipo Star Wars ou Star Trek. Essas séries, no cinema ou na TV, me deixam indiferente. Sinto apenas a curiosidade normal quanto a qualquer obra de FC. Vejo, gosto disto, não gosto daquilo, tenho uma vaga simpatia-a-favor, mas fica por aí. 
 
Por essa razão, já fui acusado de insensibilidade por pessoas que ficam com lágrimas nos olhos ao assistir pela décima vez O Império Contra-Ataca ou A Ira de Khan. 
 
Entendo total. São filmes que eles conheceram na infância. Filmes que entraram na sua mente quando, por assim dizer, o portão mental ainda estava escancarado, convidativo. 



 
Alguns filmes que a gente vê na infância deixam uma impressão muito forte. Todos os filmes? Não, somente alguns. Por que? Por mil motivos diferentes. Dos filmes que vi com 12 anos de idade ou menos, alguns são clássicos do cinema que revi depois com ainda mais entusiasmo. Outros são filmes obscuros de que lembro algumas cenas e às vezes o titulo. Os demais não deixaram marca alguma. 
 
Nunca vi Star Trek na televisão. Não passava nos canais que eu assistia em Campina Grande quando garoto. E depois dos 18 anos fiquei usando televisão apenas para ver telejornal e futebol. 
 
Até os meus 30 anos de idade, Star Trek era apenas uma série famosa sobre a qual eu lia de vez em quando nos livros e revistas. Simpatizo com algumas premissas da série, que tem uma abordagem tipo “Ciências Sociais Aplicadas ao Universo”. E me identifico com o Sr. Spock, aquela ilha de sensatez. 



 
E a série Star Wars, do ilustre George Lucas? Quando assisti o primeiro filme da trilogia, eu não era mais candidato a fã de coisa alguma. Vi esse filme com 28 anos e já com muitos anos de fazer crítica de cinema em jornal. Gostei porque na época já lia sobre a pulp fiction das revistas dos EUA. Esse filme era uma mistura daquelas revistas com a nascente tecnologia de efeitos especiais. 
 
Star Wars e suas continuações (parei de acompanhar, depois de um certo momento) são uma “fantasia tecnológica” cheia de detalhes simpáticos e de ingenuidades, de “jornada do herói” diluída e de efeitos dramatúrgicos de seriado (assim como a série “Indiana Jones”, sua contemporânea). 
 
Considerá-la o protótipo do cinema de ficção científica é uma imprudência, mas ela é o primeiro título que vem à memória do público leigo no assunto (a maioria da humanidade). 




E no entanto... Aqui nesta página há uma pequena coleção de obras de FC/fantasia que vi com 12 anos ou menos, e estes, sim, me despertam sempre a mesma reação de fascínio e afeto, a mesma reação que meus amigos mais jovens têm com as séries. 
 
Sou totalmente consciente dos seus defeitos, mas perdoo tudo, porque eles me ajudaram a passar por portas que a literatura já havia aberto. Tive sorte (acho hoje) de ter minhas primeiras experiências de “narrativas da imaginação” através da literatura, sendo forçado, com isto, a visualizar por minha própria conta os cenários, ambientes e criaturas mais improváveis da pulp fiction a que eu tinha acesso. 



 
O cinema, porém, nos traz o impacto fatal das coisas prontas, das imagens que não precisamos imaginar. E que jamais imaginaríamos, por maior que fosse nossa capacidade delirante. O delírio do mundo é maior. 
 
Ver certas imagens, contemplar certas paisagens, acompanhar certos enredos... isto provoca uma ampliação da nossa consciência do possível. Mesmo quando o que vemos é claramente impossível. Não importa. Quando vemos um desses filmes, pouco importa a linha evolutiva da linguagem cinematográfica, pouco importa a grande Arte, pouca importa o mundo sério dos adultos. É a nossa capacidade de conviver mentalmente com o impossível que está sendo testada. 
 
Quem na vida adulta se criou – como eu – no universo-paralelo da crítica literária e da crítica cinematográfica às vezes acaba perdendo esta capacidade de se deslumbrar, acaba se apegando à “qualidade estética” como elemento único para definir uma obra. “Só gosto do que é bom”. 



 
Eu sempre procurei manter as duas janelas abertas: a busca pelo que nossa cultura considera a Grande Arte, e a busca pelo que esta mesma cultura considera Lixo Inexplicável. Como no símbolo do Yin-Yang, em cada uma delas existe uma semente da outra. 
 
Ray Bradbury disse, na epígrafe de suas Crônicas Marcianas
 
É bom quando a gente recupera a capacidade de se maravilhar. A Era Espacial transformou nós todos em crianças novamente. 
(trad. BT)
 
E Bradbury, em que pese certa água-com-açúcar presente em muito do que escreveu (e há defeitos maiores por aí), nunca perdeu de vista o lado sério que a vida também tem, o lado macabro, o lado dark, o lado cruel (vide Fahrenheit 451). 

 
Uma velha ironia do mundo da FC diz que a Idade de Ouro da ficção científica é quando você tem 14 anos. E é verdade. Não foi a década de 1930, nem a de 1960, nem a época atual. Foi quando o leitor, não importa qual, tinha uma mente já capaz de entender o que era possível e o que era impossível, e ainda capaz de se apaixonar por este último. 
 
O impagável G. K. Chesterton tem, como sempre, uma boa explicação para o poder da fantasia narrativa. No capítulo “The Ethics of Elfland” do seu clássico Orthodoxy (1908), ele faz um curioso paralelo entre a literatura realista e o deslumbramento da literatura de fantasia, usando crianças como exemplo. 
 
Diz ele:
 
Esse deslumbramento básico, porém, não é uma mera fantasia derivada dos contos de fadas; pelo contrário, todo o fogo contido nos contos de fadas deriva dele. Assim como todos nós apreciamos histórias de amor porque temos o instinto do sexo, todos gostamos de contos fantásticos porque eles tocam o nervo do nosso antigo instinto da fantasia.

 

Isto pode ser comprovado pelo fato de que quando somos crianças ainda muito novas não precisamos de contos de fadas: para nós, basta que seja um conto. A mera vida real já é suficientemente interessante. Uma criança de 7 anos pode se excitar ao ler que Tommy abriu a porta e viu um dragão. Mas uma criança de 3 anos se excita ao saber que Tommy abriu uma porta. Meninos gostam de histórias românticos, mas criancinhas gostam de histórias realistas – porque as consideram românticas. Na verdade, uma criancinha talvez seja a única pessoa, creio eu, capaz de ler um romance realista moderno sem ficar entediada.  (trad. BT) 

 

 

Acho que a idéia de Chesterton tem bastante fundamento, sem que precise ser uma regra universal. Todos sabemos o quanto criança pequena gosta mais da caixa-do-presente do que do presente. O presente pode ser um cyber-polichinelo “made in Taiwan” com balloons holográficos em cinco idiomas, mas o danado do guri só quer se esconder na caixa. 
 
É claro. Primeiro a gente conquista a realidade, o mundo de verdade, o mundo realista; e então a gente decola nos voos da imaginação. Talvez seja por isto que no Brasil a literatura realista continua a ter tanto peso: não sabemos ainda quem somos, não enxergamos (= não temos a ilusão de que enxergamos) o país por inteiro, e um espelho nos seduz mais do que um quadro de Salvador Dali. 
 
A literatura de imaginação é para as pessoas (ou os países) que já se deslocam no “mundo real” com segurança bastante para pegar uma pista e decolar rumo às estrelas. É justamente nesse momento da vida – digamos 14 anos, para acompanhar a citação lá em cima – que começa a Idade de Ouro da FC, porque o garoto ou a garota que lê já conhece o bastante do mundo para perceber o quanto aquilo é impossível, o quanto aquilo é diferente, o quanto aquilo é essencial. 




 






quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

4192) Spielberg 70 anos (22.12.2016)




Dias atrás o diretor Steven Spielberg completou 70 anos, e recebeu homenagens nas redes sociais. Fiquei pensando se valeria a pena escrever alguma coisa a respeito, não apenas porque todo mundo está falando, mas porque ele é um dos cineastas que eu mais presto atenção.

Não direi que é um dos meus 10 preferidos, nem dos meus 20, até porque não costumo classificar coisas dessa maneira. Mas simpatizo com a persona pública dele, com o modo como ele filma, com muitas idéias que ele expõe nas suas entrevistas...

Enfim, me veio a idéia de fazer pequenas comparações entre ele e outros diretores, para deixar mais claro, por efeito de contraste, as razões por que gosto de algumas coisas dele e não gosto de outras.

Spielberg x Kubrick

Nunca deixei de comparar os dois diretores desde que Spielberg herdou de Kubrick, após a morte deste, a realização do projeto I. A. -- Inteligência Artificial (2001), aquela fábula de Pinóquio futurista, o menino robô que sonha em virar menino de verdade. Os dois são cineastas que exploraram a FC mas se dão bem em qualquer gênero.

Para mim quem colocou de maneira mais precisa a diferença entre eles foi Terry Gilliam nesta entrevista: http://www.openculture.com/2011/11/terry_gilliam_on_filmmakers.html. O que estraga o cinema de Spielberg, diz ele, é a obrigatoriedade do final feliz, da resposta reconfortante, ingrediente hollywoodiano obrigatório.  Filme de Hollywood é como uma refeição que precisa terminar com doce. Mesmo quando aborda assuntos amargos, Spielberg cede a esse dogma dramatúrgico.

Diz Gilliam: “Há uma frase bem esclarecedora de Kubrick sobre A Lista de Schindler. Ele diz que é um filme sobre o sucesso: ‘vejam que cara fodão, ele salvou uma porção de gente’. Mas o Holocausto é uma história de fracasso, do fracasso da Humanidade em impedir o assassinato de seis milhões de pessoas”. 

Eu completaria o comentário de Gilliam dizendo que o uso da música revela muito bem o espírito de cada um dos dois. Kubrick já fez milhões de espectadores darem um pulo de susto na poltrona meramente por causa da música: a valsa das espaçonaves em 2001, a canção nostálgica que sublinha o holocausto atômico em Dr. Fantástico, a impressionante e assustadora trilha de De Olhos Fechados, a ironia de justapor tortura e Beethoven em Laranja Mecânica...

Já Spielberg nunca deixa de usar o amaldiçoado indutor-emocional feito de violinos plangentes e teclados exuberantes para sugerir amor, ternura, nostalgia... Falta pouco para Spielberg filmar Kafka e botar Richard Clayderman na trilha sonora.


Spielberg x Lucas

É quase inevitável citar os dois juntos, porque são amigos, parceiros, começaram juntos, e os dois se destacam na sua geração pelo fato de serem dois cinéfilos, dois caras que não gostam de bebida, nem de drogas, nem de farra (eu quase diria que não gostam de sexo): gostam de cinema e nada mais. (Leiam os capítulos sobre esses dois monges perdidos num carnaval de cocaína e surubas, em Como a Geração Sexo, Drogas & Rock-and-Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind, Ed. Intrínseca).

Os dois estão para o filme de aventuras juvenis assim como Francis F. Coppola e Martin Scorsese estão para o filme policial de sua época. Enquanto Lucas realizava a primeira trilogia de Star Wars (em 1977, 1980 e 1983), Spielberg produziu sua trilogia de Indiana Jones (em 1981, 1984 e 1989) No espaço de uma década, uma geração inteira de adolescentes sofreu um brutal upgrade em seu conceito de filme de aventura.

Comparando os dois: Spielberg é um diretor de cinema completo, com qualidades e defeitos que são a cara do cinema do seu país e do seu tempo. Lucas não é bom diretor, mesmo tendo iniciado a carreira com dois filmes fortemente autorais e satisfatórios (a distopia FC THX-1138 e o rito de passagem adolescente de Loucuras de verão).

Lucas é um produtor e idealizador em grande escala, mas como diretor involuiu ao longo dos anos. A trilogia do meio de Star Wars é constrangedora. Spielberg tem algumas escorregadas brabas, mas volta e meia vem com um filme que merece respeito, como Minority Report.



Spielberg x Hitchcock

Meus filmes preferidos de Spielberg são Encurralado, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T., Caçadores da Arca Perdida, O Império do Sol e Minority Report. (Com a ressalva de que não vi vários filmes importantes dele – ainda preciso ver o Soldado Ryan e aquele dos agentes do Mossad executando os terroristas de Munique.)

Alguém definiu Spielberg como “um animal cinematográfico”, e eu interpreto isso no sentido de que ele pensa instintivamente em forma de imagens em movimento, é algo que está nos seus processos mentais básicos. Outros cineastas têm uma idéia e depois pensam em como transpor essa idéia para imagens: Spielberg já pensa em forma de imagem. É como certo tipo de jogador de futebol, como Romário e Messi – quando a bola chega no pé, ele já sabe tudo que vai fazer.

Hitchcock é a mesma coisa, elevada a um grau que chega ao preciosismo. Muita gente criticava Hitchcock por sacrificar tudo ao efeito de linguagem.  Ele sacrificava a verossimilhança da história, a psicologia dos personagens, a verdade factual, tudo pelo prazer de criar uma cena bem feita. Eu acho que ele não conseguiria filmar de outro modo. Ao escolher uma história, era a forma cinematográfica que aquela história ia assumir que lhe interessava. Spielberg também.

Houve um aprendizado, claro. O livro de Peter Biskind que citei aí em cima fala do terror de Spielberg durante a filmagem de Tubarão ao perceber que seus diálogos em campo e contracampo, filmados no próprio mar, davam saltos incômodos na tela porque a cada plano o céu estava com uma luminosidade diferente.

Mas mesmo nos seus filmes mais fracos a gente percebe como ele dominou rapidamente essa percepção instintiva da melhor maneira de posicionar e mover a câmera e os atores, mudar o enquadramento, destacar o som, fazer o corte, encaixar o momento do diálogo... 

É o cinema ideal?  Não, mas é uma depuração perfeita do cinema-de-efeitos norte-americano, que teve entre seus criadores, é claro, o inglês Hitchcock, o irlandês John Ford, o austríaco Billy Wilder, o alemão Ernst Lubitsch etc.









terça-feira, 19 de janeiro de 2016

4028) "O Despertar da Força" (20.1.2016)



Sempre que testemunho os exageros de devoção de tantos amigos meus pela série Star Wars, repito mentalmente um mantra meio quilométrico no qual lembro a mim mesmo que eles viram o primeiro filme da série na mesma idade virginal com que eu vi Planeta Proibido e A Máquina do Tempo, e que foram os filmes de Lucas que cumpriram para eles a função revelatória, a função estrada-de-Damasco ou estalo-de-Vieira, de lhes arrebatar a imaginação. Vi o início da saga de Luke Skywalker com 27 anos, dos quais dez de cineclubismo e crítica em jornal. Era um pouco mais calejado do que um garoto de dez, e sei a diferença. Na minha frente ninguém fala mal de Fred Wilcox ou de George Pal.

O arrebatamento existiu, por vias transversas. Quando vi Guerra nas Estrelas (esse era o nome; depois arranjaram-lhe um apodo para dar simetria ao índice da série.) eu morava em Salvador e mexia com cinema dia e noite, mas me acreditava o único leitor de FC do Brasil. Só um ou outro amigo com quem dava para comentar um livro ou pedir dicas de filme. E num espaço de tempo muito curto vi o filme de Lucas e o Contatos Imediatos de Spielberg.

Esses dois caras estão há mais de 30 anos cantando um mourão-voltado de sucessos, um bate aqui, o outro responde acolá. Acho Spielberg mais à vontade dirigindo, seus filmes são mais soltos. Os de Lucas, mesmo os bons, nunca mais tiveram aquela soltura de American Graffitti. Mas Star Wars era igual ao cinema mental que fazíamos lendo livrinhos de bolso e pulp magazines antigos. Era futurâmica, era argonauta, era amazing. E era uma aventura pop; não tinha nenhum compromisso com o realismo, desde que fosse possível produzir um efeito melodramático.

O roteiro deste filme novo segue a planta-baixa de várias sequências que deram certo nos anteriores. Há repetição e há inversão de padrões, tanto nas triangulações de personagens quando nas estratégias de destruição do poder inimigo. O filme reconstitui personagens e situações em quantidade bastante para dedilhar o espectador da prima ao bordão. É bonito como alguns personagens envelhecem, e como continuam a ser nada mais do que eles mesmos.

Para corrigir os equivocados filmes anteriores, optou-se pela volta à primeira trilogia, e nesse sentido a preocupação-em- ficar-parecido talvez tenha manietado a imaginação do roteiro. Não há muita trama, há dois MacGuffins (o mapa, o sabre) que parecem o saco-plástico-com-um-milhão-de-reais de tantas telenovelas. Não importa; o que importa é que “the game is afoot”. Louve-se o novo elenco, e louve-se a ousadia dramatúrgica de ceder ao mais básico dos realismos, que é reconhecer que a morte existe.



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

4027) "Star Wars 7" (19.1.2016)



Que beleza seria o mundo se todo mundo visse no mesmo filme um mesmo filme, hem?  Mas ninguém se banha duas vezes (nem ao mesmo tempo) no mesmo filme. Fui ver Star Wars 7 sem ter lido praticamente nada a respeito. Uma façanha, considerando-se a enxurrada de idéias nas redes sociais. Escapei, e fui ver. Acho que J. J. Abrams e seus roteiristas se banharam longamente nos roteiros anteriores. Desconte-se a obrigação explícita de restaurar o sabor original do produto.

Depois de um clímax militar bem conclusivo, o filme se arremata com um personagem estendendo uma arma para outro, como quem diz: “Vai lutar feito um homem ou vai se deixar melancolizar nessa falésia, feito um poeta romântico?” Todo primeiro segmento de uma trilogia é uma potencial ofensa ao leitor/espectador distraído, que pensava estar pagando por um livro/filme inteiro, daqueles com começo, meio e fim. Lembro do estado de choque no rosto de muitas pessoas ao se acenderem as luzes após A Irmandade do Anel, o primeiro filme da trilogia de Peter Jackson.

Assim como a Odisséia nada mais é do que um cara querendo voltar para casa depois do trabalho, O Despertar da Força é a história de uma encomenda que alguém pede a outra pessoa que entregue a uma terceira. Quem continua sendo um enigma é a tal da Força, cada vez mais uma mistura de telepatia com telequinésia. Ou como “a Voz” das feiticeiras de Duna, mas sem o efeito sonoro correspondente. A voz hipnoticamente obedecida, que proporciona ao filme algumas fugas-do-calabouço na base do liberalismo, como nos velhos seriados. Como dizia Peter Nicholls, são as fugas tipo “com-um-puxão-Jack-rompeu-as-cordas-e-viu-se-livre”. A fuga do personagem acontece por decisão diretorial e dramatúrgica; o ator/atriz obedece até com certo constrangimento.

Abismos, esgrima, perseguições, explosões, prisões, fugas, disfarce, desmascaramento... A saga de Lucas se desenvolve em ziguezague. Não a comparo a Star Trek (que conheço menos). Um show de TV fica anos produzindo e se lapidando. O cinema se guia por outro relógio. Neste filme de Abrams, o diálogo ou é utilitário (para informar ao público algo necessário à trama) ou é o diálogo “snappy”, chinfroso, rápido-no-gatilho, em que nos momentos de maior perigo ou de maior romance um cara (e agora uma mulher) sempre se sai com uma frasezinha mordaz ou blasê.  Cacoete hollywoodiano; marca dágua. Os melhores diálogos do filme são aqueles trechos curtos e surreais, meio Moebius, em que ele diz: “Eu estou com uma carga de antiworms levando a Ranga-Oradesh, mas passei a quadração de elúsia e cheguei aqui em pleno Extrudus. Me arranja quinze abalonakis!”. Ou coisa parecida.





terça-feira, 22 de abril de 2014

3479) O navio fantasma (22.4.2014)



A morte de Garcia Márquez me deu aquela tristeza de saber que nunca mais ouvirei falar sobre “o mais novo livro de Garcia Márquez”.  Geralmente, compenso esse efeito melancólico com a lembrança de que não li a maior parte do que o autor escreveu, então, bem ou mal, quando eu pegar para ler O veneno da madrugada ou Doze contos peregrinos é como se fosse um livro com a tinta ainda úmida.

Fui dar uma relida nos textos dele online e me bati com um pequeno mistério, que aproveito para dividir.  GGM tem um continho curto que é uma beleza, “A última viagem do navio fantasma”, um daqueles contos de parágrafo único que nos arrebatam da primeira à última palavra e se transformam numa pequena epifania literária. É a história de um menino num povoado à beira-mar que vê passar um navio fantasma (que somente ele vê) o qual acaba afundando; isso se repete todo ano, na mesma data, e ele pensa que é a reconstituição sobrenatural de um fato ocorrido num passado remoto.

Não tirarei de ninguém o prazer da leitura dessa joiazinha de apenas 2 mil palavras (dá mais ou menos a extensão de 4 artigos como este), num fluxo de imagens que aqui lembram Ray Bradbury, ali Mario Quintana, mais adiante Marc Chagall ou Fellini. No final (que não revelarei), o menino tem um vislumbre do nome do navio, quando o descreve: “...veinte veces más alto que la torre y como noventa y siete veces más largo que el pueblo, con el nombre grabado en letras de hierro, balalcsillag...”.

Nome esquisito, que parece inventado, não é mesmo?  Mas hoje temos São Google, em cujo altar dou minhas clicadas cotidianas. Lá vou eu perguntar pelo nome. Praticamente todas as respostas se reportam ao conto de Márquez, que é reproduzido mundo afora em várias línguas. Mas no alto da página o Google faz aquela ressalvazinha robótica de sempre: “Você quis dizer ‘halálcsillag?”. Era tão parecido que eu cliquei, pensando, “sim, digamos que foi isso mesmo”.

Fui dar numa página cheia de que? De reproduções da “Estrela da Morte”, a Death Star de Star Wars. “Halálcsillag” (começando por um “H” e com um acento no segundo “A”) é o nome da Estrela da Morte em húngaro (magyar)!  Que coincidência é essa? A Wikipédia em espanhol dá a data do conto como sendo 1968, ou seja, muito antes do filme de George Lucas, e a publicação em livro foi no volume A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada, que é de 1972. Não tenho o livro, não sei se nas traduções se mantém esse nome (é nas últimas linhas do conto). A questão é: Por que motivo o nome do navio gigantesco do conto de Márquez é quase igual ao nome da Death Star em húngaro? Hipóteses serão bem vindas.


terça-feira, 15 de abril de 2014

3473) Começar pela pintura (15.4.2014)




Um professor nos disse certa vez: “Começar a escrever um romance preocupado com o estilo é como começar a construir uma casa pela pintura, depois pensar onde vão ficar as paredes, e só no fim planejar em que rua vai ser a casa.”  


Exagero, é claro. Até porque a relação entre estilo e história não é a relação entre pintura e parede. Estilo não é uma coisa exterior que se espalha sobre algo de natureza diversa que foi colocado antes.  Estilo e história são como a casca da fruta e a “carne” da fruta. Coisas diferentes mas entrelaçadas, que crescem juntas, a partir de um só impulso inicial e do mesmo material genético.

Já citei aqui George Lucas, para quem de nada adianta ter 15% de um roteiro perfeito e não ter o resto. “Escreva tudo, até o The End,” aconselha ele; “depois volte ao começo e venha ajeitando. O importante é trabalhar em cima de algo já feito de ponta a ponta.”  

Essa recomendação pode até sofrer ressalvas de quem (como eu) acha Lucas um roteirista apenas sofrível, na melhor das hipóteses.  Mas não difere muito do que Raymond Chandler, um grande intuitivo que detestava planejar enredos, dizia numa carta a seu amigo Charles Morton em 1945: 

“Improvise a história o melhor que puder, com muito ou com pouco detalhe, conforme a inspiração do momento, escreva os diálogos ou deixe para depois, mas registre o andamento, os personagens, dê vida à história. Começo a perceber que um grande número de histórias são desperdiçadas por nós, sujeitos ultra-meticulosos, simplesmente porque permitimos que nossa mente fique paralisada por causa de pequenas falhas, em vez de permitir que ela trabalhe por algum tempo livre daquele supervisor crítico que fica implicando com cada coisinha que não ficou perfeita”.

Chandler sabia que uma história, e ainda mais um roteiro de filme (que é uma experiência sensorial e dinâmica, antes de chegar à alfândega do intelecto) depende desse andamento, desse movimento interno desencadeado pelo que acontece às pessoas e pelo modo como as pessoas reagem ao que lhes acontece, desencadeando novos fatos e novas reações, e assim por diante. 

Seus famosos atritos com Hitchcock (durante a roteirização de Pacto Sinistro) se deram porque Hitchcock não estava nem aí para as motivações íntimas dos personagens. O que lhe importava era o impacto visual, a dinâmica entre montagem e fotografia; não tem coisa mais improvável do que alguém querer fugir de um bando de espiões escalando os rostos esculpidos no Monte Rushmore (Intriga Internacional), mas ele sabia que o público ia ficar de boca aberta.  

Os dois estavam certos, ele e Chandler; apenas queriam fazer tipos diferentes de filme.






terça-feira, 4 de junho de 2013

3203) O sucesso errado (4.6.2013)




(Conan Doyle, por Charles Burns)




Muitas vezes um artista e o seu público têm opiniões diferentes sobre o trabalho dele. Ele quer ser reconhecido como o autor de “A”, mas o público só se interessa por outro trabalho dele, “B”, a ponto de irritá-lo. 

Às vezes um artista de muito sucesso popular tenta se blindar dizendo que na verdade gostaria de ”fazer algo mais sério”, por exemplo – ser artista de vanguarda. George Lucas diz que o sucesso de Star Wars o pegou de surpresa, e que na verdade gostaria de estar fazendo filmes cabeça para passar no circuito universitário. 

Caetano Veloso diz no livro Verdade Tropical que seu melhor disco, o que exprime o que ele gostaria de fazer, é Araçá Azul, seu disco mais experimental, e o mais rejeitado pela crítica e pelo público.

Lendo sobre Mark Twain, o criador de heróis popularíssimos como Tom Sawyer e Huckleberry Finn, além de inúmeros contos de humor lidos e relidos há mais de um século, vi que ele escreveu um livro chamado Personal Recollections of Joana of Arc (1897) que ele considerava sua obra prima. Não só ele: seu amigo William Dean Howells e seu biógrafo Albert Pigelow Paine diziam tratar-se de sua “suprema expressão literária”, o livro que iria imortalizá-lo. 

Ninguém conhece esse livro hoje; eu mesmo, que leio Twain há 50 anos, não sabia sobre ele. Sumiu. Ninguém se interessou, por melhor que seja.

É um caso parecido com o de Conan Doyle, que queria ser o continuador dos romances históricos de Walter Scott, e pode-se dizer que o conseguiu, com excelentes romances medievais (Sir Nigel, A Companhia Branca), sobre a época vitoriana (Rodney Stone), a corte de Luís XIV e a migração dos huguenotes para as pradarias da América (Os Refugiados), as fanfarronices e a coragem dos oficiais napoleônicos ("Brigadeiro Gerard”). Escreveu excelentes romances de FC (O Mundo Perdido, O Veneno Cósmico). 

Mas o público não queria saber disso. Só queria saber de Sherlock Holmes, o que irritava profundamente o escritor.

Estes exemplos parecem dizer que um artista nem sempre é o mais lúcido avaliador do próprio sucesso. Para Doyle, era mais importante se firmar como o continuador escocês de uma forma de literatura criada (em grande parte) por outro escocês (Walter Scott) do que ficar inventando mistérios banais para serem decifrados por Sherlock. 

Ele conseguiu seu objetivo de inscrever seu nome na literatura do século 19. O público foi quem acabou desviando sua obra e sua fama noutra direção, porque com o detetive de Baker Street ele ajudou a fundar, meio sem querer, e sem dar-lhe muita importância, o romance policial, o gênero mais popular do século 20.








sábado, 3 de novembro de 2012

3021) "Guerra nas Estrelas" (3.11.2012)





Os jornais anunciam que a Disney comprou a LucasFilm por 4 bilhões de dólares, sendo metade em dinheiro e metade em ações da Disney.  Depois das aquisições da Marvel e da Pixar, esta nova avançada da Disney no mercado da FC infanto-juvenil (é onde se enquadra essa barafunda toda) começa a parecer um monopólio. Isto é ruim? É ruim quando decisões estéticas de grande impacto passam a ser tomadas pelo mesmo grupinho de executivos. Tudo pode ficar ainda mais parecido do que já era. Mas é bom, pelo fato de que o desgaste criativo de George Lucas, claríssimo nos filmes mais recentes, estava inviabilizando a série. Nenhum espectador maduro poderia levar a sério filmes tão mecânicos, sem alma, sem coerência narrativa e sem emoção dramatúrgica quanto os últimos que vi, A Ameaça Fantasma e A Revolta dos Clones. (Não, nunca assisti A Vingança dos Sith, espero que alguém me convença de que é o melhor de todos.)

O fato é que Lucas não é um grande diretor. Basta comparar seus três primeiros filmes, que dirigiu entre 1971-1977 (THX-1138, Loucuras de Verão e Star Wars 1: Uma Nova Esperança) com suas três tentativas no seu retorno para retomar a saga entre 1999-2005 (os três citados acima). A diferença de qualidade é espantosa. Os filmes feitos por ele na juventude mostram ousadia, apontam para direções diferentes, têm humor (menos THX, cuja proposta é mostrar um tecno-pesadelo), têm atores trabalhando à vontade. São filmes de um diretor jovem que se descobre cheio de recursos (embora nem sempre) em pleno voo, e isto é um dos aspectos que nos empolga no cinema – ver alguém construindo o próprio automóvel durante a viagem. Já os filmes que Lucas dirigiu entre os 55 e os 61 anos não têm nada desse espírito. São filmes com uma tecnologia espantosa, mas sem vibração, sem “punch” narrativo. Impõem-se pelo mito da saga; porque seduzem os jovens de hoje e fazem cafunés no saudosismo dos jovens de ontem. Mas não são bons filmes. São filmes de um executivo cansado tentando beber na Fonte da própria Juventude.

Lucas sempre me pareceu um bom sujeito, e fiquei muito comovido ao vê-lo dizer anos atrás que tudo que queria no início era fazer filmes de vanguarda, daqueles bem “cabeça”, para passar no circuito universitário. Ao contrário de Spielberg, que tem Hollywood no DNA, Lucas é um nerd introspectivo cujo sucesso precoce o fez desabrochar como executivo e murchar como artista. Star Wars vai renascer? Tomara, porque gosto muito da saga, que me deslumbrou “quando eu era alegre e jovem”. Mas algo me diz que o suspiro de alívio de Lucas ao assinar o contrato de venda deu para se ouvir até na Paraíba.


sábado, 24 de dezembro de 2011

2748) A religião Jedi (24.12.2011)




A cada ano que passa, cada vez mais gente, no mundo inteiro, afirma pertencer à religião dos Cavaleiros Jedi. Para quem não está ligando o nome à pessoa, os Cavaleiros Jedi são os personagens da série Star Wars de George Lucas: os mais famosos são Obi Wan Kenobi (interpretado por Alec Guiness) e o cavaleiro renegado e luciferiano Annakin Skywalker, que trai a confraria e se torna o nefasto Darth Vader.

Os Cavaleiros Jedi não têm uma crença sistematizada, com textos, mandamentos, sei lá que mais. Existe uma espécie de código geral de conduta meio Taoísta; mas sendo o mundo o que é e estando como está, não é impossível que já exista uma “Bíblia Jedi” por aí afora. A Wikipedia registra a existência de uma crença espontânea e difusa, mas nada que se assemelhe, pelo menos, às religiões evangélicas que proliferam aqui no Brasil. (Em breve teremos uma religião por habitante.)

Que me conste, ninguém ainda embolsou um tostão graças à religião Jedi, que surgiu como uma piada nos países de língua inglesa, com a mesma intenção satírica com que milhões de brasileiros votavam em “Raul Seixas” no tempo em que nos pediam para escrever na cédula o nome do candidato a presidente. Alguns britânicos o faziam por discordar da inclusão do quesito “religião” num censo. Vai daí que no censo de 2001 (ver http://bit.ly/1aDh9D) na Inglaterra e País de Gales a religião Jedi apareceu com 390.127 crentes, superando crenças como o Judaísmo e o Budismo. A questão tem sido discutida a sério no Parlamento britânico, onde se discutem penalidades contra o ódio religioso, etc., e em certos momentos é preciso definir oficialmente o que é uma religião.

Em todo caso, esse número vem sendo acompanhado por outros, menores mas expressivos, em outros países. No censo de 2001 (prestes a ter seus números superados, portanto) a Escócia tinha 14 mil Cavaleiros Jedi. No mesmo ano o Canadá registrou 21 mil, a Austrália 70 mil. A Nova Zelândia apresentou 53 mil Jedi, o que faz dela o país com maior densidade populacional (1,5 %) dos seguidores da Força, se bem que outro censo, feito em 2006, fez este número cair para 20 mil (o que parece corresponder ao número dos verdadeiros crentes – os outros devem ter se afirmado Jedi só para fazer piada).

O censo da República Tcheca, feito agora em 2011, revelou mais de 15 mil pessoas pertencentes à religião Jedi. Lá, o censo não fornece alternativas para múltipla escolha, e nomear a religião é uma iniciativa do entrevistado. Será interessante acompanhar os resultados dos próximos censos nos países europeus e acompanhar a criação do Mundo Simulacro, formatado para imitar a ficção.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

1343) O avião que não pousa (4.7.2007)



O sucesso é um avião que decola, com você dentro, e nunca mais pousa. Lembro-me deste aforismo todas as vezes que comparo as aspirações de um sujeito, no passado, com o que ele efetivamente veio a conquistar no futuro. É uma das ironias da vida. Ou você não tem sucesso, ou acaba tendo um sucesso muito maior do que pretendia, e ficando escravo dele. Como diz outra velha frase, “cuidado com o que você pede a Deus, porque ele atende”.

A revista Rolling Stone brasileira do mês de maio, com Darth Vader na capa, traz uma enorme entrevista com o diretor George Lucas, feita na época em que ele tinha acabado de lançar o primeiro filme da (agora) hexalogia Guerra nas Estrelas. Há duas coisas interessantes. Primeiro, o fato de que Lucas não tinha a menor idéia do espantoso sucesso que seus filmes iriam fazer. Lidas hoje, suas declarações parecem ingênuas e provincianas, mas se justificam, porque era num contexto em que filmes de ficção científica (hoje um dos pilares da indústria de Hollywood) eram execrados, porque não tinham público. E em segundo lugar, o fato de que Lucas, hoje, mantém praticamente as mesmas opiniões, embora a vida o tenha arrastado na direção oposta ao que pretendia.

Já comentei nesta coluna (“O evangelho segundo Lucas”, 3.6.2005) uma entrevista de Lucas à revista Wired em que ele dizia estar meio cansado de produzir super-espetáculos, e com vontade de fazer filmes parecidos com os filmes experimentais que fazia quando era estudante de cinema na Califórnia. Essa entrevista é de maio de 2005, e me fez ficar pensando em como um sujeito é arrastado pelo próprio sucesso numa direção que não previa. Em 1977, Lucas dizia: “Além do mais, também percebi que as vendas de produtos, junto com as seqüências, garantiriam uma renda suficiente para que pudesse me aposentar da função de fazer filmes profissionais e me dedicasse ao meu tipo de filme – às minhas coisas pessoais, bizarras, experimentais”.

Ou seja: em agosto de 1977 Lucas imaginava que os brinquedinhos de plástico associados a Guerra nas Estrelas vendessem apenas o suficiente para que ele não dependesse de fazer sucesso com outros filmes. Ledo engano. As miniaturas de Darth Vader e Han Solo são hoje uma indústria de bilhões de dólares. O pequeno estúdio de efeitos especiais criado para o primeiro filme da série transformou-se na Industrial Light & Magic, uma empresa gigantesca que produz e terceiriza efeitos especiais para o mundo todo. Lucas achava, há trinta anos, que um ou dois filmes de sucesso lhe dariam a chance de se aposentar e fazer o que gostava. Coitado! A espaçonave levantou vôo com ele dentro, e não parou até agora. Comparar as duas entrevistas, a da RS em 1977 e a da Wired em 2005 é ver a tragédia (uma tragédia bastante confortável, reconheçamos) de um cineasta que gostaria de fazer filmes “cult” e experimentais mas foi seqüestrado para sempre pelo próprio sucesso de biheteria.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

0689) O evangelho segundo Lucas (3.6.2005)



Se eu fizesse uma lista dos melhores diretores de cinema de ficção científica, George Lucas só iria aparecer lá pelo 20o. lugar, e mesmo assim só por critério técnico. Não gosto dos seus filmes. São mecânicos, vazios, sem dramaticidade, especialmente estes dois últimos A Ameaça Fantasma e A Revolta dos Clones (ainda não vi este que saiu agora). Roteiros banais dirigidos sem emoção, bons atores interpretando mal, diálogos ridículos, um clichê atrás do outro. Na série de “Star Wars” salvam-se os dois primeiros filmes; o resto, se passar no liquidificador e coar não dá um curta.

O número de maio da revista Wired traz um matéria sobre Lucas que dá o que pensar. Ele confessa que está de saco cheio de super-espetáculos com efeitos especiais, e diz que agora quer dirigir e produzir os filmes que sonhava fazer quando era um estudante de cinema na Califórnia. Filmes experimentais, vanguardistas, cujo destino é passar em salas especiais para pequenos públicos (“pequenos públicos” para Lucas deve ser coisa de 400, 500 mil pessoas). Lucas foi um estudante de cinema como tantos outros, que se deslumbrava com os truques e as inovações técnicas de Norman MacLaren, e com as colagens de imagem e som de Stan Brackhage. Para quem se formou nessa escola, o cinema era acima de tudo um conjunto de equipamentos (câmera, iluminação, laboratório, moviola) com os quais era possível fazer combinações de imagens e sons que tendiam, idealmente, a se aproximar da pintura abstrata. Uma espécie de ultracinema.

Não admira que tenha sido Lucas o cara que de certa forma inventou o cinema digital. A lista das inovações técnicas que ele patrocinou não cabe nesta coluna (e a descrição delas não caberia neste jornal inteiro). Isso, no entanto, acabou esvaziando seus filmes de conteúdo humano, um conteúdo que ele mostrou de forma tão promissora em Loucuras de Verão (American Graffitti), que continua a ser até hoje um estranho-no-ninho dentro de sua filmografia. Talvez não seja: pelo que sabemos é o relato do que foi sua juventude pré-cinema: carros, garotas, sorvetes, rock-and-roll, molecagens inconseqüentes.

A matéria da Wired diz, com bom-humor, que Lucas começou no cinema como Luke Skywalker, cheio de ideais e de juventude, e hoje tornou-se Darth Vader, o poderoso chefão de um império, o guerreiro do Bem que se vendeu ao poder econômico. É uma ironia apropriada, mas ao mesmo tempo é algo meio injusto com um cara que revolucionou o cinema. Queiramos ou não, técnica é uma coisa fundamental, e o que Lucas e seu grupo fizeram é comparável às invenções do cinema sonoro e do cinema colorido. Para conquistar isto, vale a pena o cara sacrificar uma carreira de bom cineasta. Não faz falta! De bons cineastas o Brasil está cheio, mas não é todo dia que um sujeito cria um império tecnológico e possibilita se fazer cinema do jeito que um pincel faz uma pintura a óleo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

0623) Luz e mágica industrial (18.3.2005)


(The Sims)

Jesus Cristo convida George Lucas para uma partida de golfe. Logo na primeira tacada, a bola de Jesus vai passando direto quando de repente dá uma quebra de 90 graus na trajetória e, pimba! Cai dentro do buraco. Lucas dá um olhar meio atravessado pra ele mas não reclama. Desfere sua tacada. A bola vai direto num tronco de árvore, ricocheteia, bate numa pedra, sobre no ar, choca-se com um helicóptero que vinha passando, cai sobre um lago, é abocanhada por uma perereca, a qual por sua vez é abocanhada por uma águia que se eleva nos ares com a perereca na boca; a perereca acaba por largar a bola que cai de uma altura de cem metros, pimba! Dentro do buraco. Jesus olha meio atravessado, e George Lucas o tranqüiliza: “Calma, calma, é tudo computação gráfica”.

A computação gráfica aplicada à imagem (cinema, TV, internet, vídeo) evoluiu tanto que me proporcionou minha teoria mais importante dos últimos vinte anos: “Somos o Video-Game de Alguém”. Nosso Universo é real, é feito de matéria, é organizado exatamente da forma descrita pelos nossos cientistas. Só tem uma coisa: tudo foi criado por uma raça de Super-Seres Cósmicos, com a finalidade de entretenimento, testes científicos e enriquecimento espiritual.

Não sei se o caro leitor já jogou, ou viu alguém jogar, The Sims, aquele joguinho em CD-Rom onde criamos algumas casas, algumas famílias, e eles passam a viver, trabalhar e interagir uns com os outros. As crianças adoram. Já saíram uns dez “pacotes de expansão” cheios de novidades: os Sims agora são vistos no trabalho, na rua, nas festas, nas diversões... Eles namoram, casam, têm filhos, morrem. E a garotada não desgruda do computador. Nós somos os Sims de uma raça cósmica: “Superior Intelligence’s Mankind System”. Eles planejaram os algoritmos matemáticos que presidem à organização da matéria, à criação da vida, à formação do Sistema Solar e dos ecossistemas terrestres, e por fim ao surgimento da Humanidade. São muito, muitíssimo mais poderosos do que os alienígenas misteriosos de Clarke & Kubrick em 2001, Odisséia no Espaço. Na verdade, os alienígenas de 2001 não passam de um pacote-de-expansão do programa original.

Confesso que minha teoria não é totalmente original, foi parcialmente bebida em livros como Simulacron 3 de Daniel Galouye, “The Tunnel Under the World” de Frederik Pohl e outros, que são os avós de Matrix. A computação gráfica me serviu apenas para demonstrar a possibilidade matemática de que isto ocorra. Com nossa tecnologiazinha pré-histórica, somos capazes de determinar matematicamente cada ponto de uma imagem aparentemente tridimensional, sua cor, sua textura, sua localização, seus deslocamentos. Somos capazes de usar esses pontos para compor imagens, seres, pessoas. E criar cenas inteiras, filmes inteiros com essas nuvens de pontos coloridos, fazendo cada criatura dessas obedecer nossas instruções: “Sente ao teclado... escreva sua coluna do jornal...”