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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

4420) Algumas leituras de 2018 - II (2.1.2019)




(continuação)


FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA

Foi um ano em que também li pouca FC, por variadas razões, mas teve muita coisa boa.

A Trilogia de Terramar, de Ursula LeGuin (A Wizard of Earthsea, The Tombs of Atuan e The Farthest Shore) era uma leitura que eu vinha procrastinando há anos. Iniciada em 1968, a trilogia foi uma contribuição essencial de LeGuin à formação da literatura de fantasia nos EUA, registrando três fases sucessivas da vida do mago Ged. Uma das contribuições principais de LeGuin foi cristalizar a noção da magia como uma espécie de energia, onde nada se cria, tudo se transforma, cada prodígio tem um custo, e os riscos são proporcionais aos prêmios. Sem falar na prosa da escritora, um inglês límpido e clássico que evita os excessos retóricos de outros bons fantasistas.

Where Late the Sweet Birds Sang, de Kate Wilhelm. A morte de minha ex-professora na Clarion Workshop me levou a pegar de novo e desta vez ler até o fim este romance que já foi chamado, na época, de “o melhor livro sobre clones”. Num cenário pós-apocalipse, Kate imagina uma fazenda de uma família com dinheiro, tecnologia e coragem, onde os humanos-como-nós vão sendo substituídos por clones de si mesmos, a quem cabe viajar para longe do seu vale de origem e examinar o que restou da civilização. Um romance onde se contrapõem, em novas circunstâncias, a Sociedade Racional Antiemotiva e o Selvagem Instintivo-Individualista.

Mnemomáquina de Ronaldo Bressane (São Paulo, Ed. Demônio Negro). Bressane usa a prosa eletrificada, pop e intensa de autores como Thomas Pynchon e D. F. Wallace para falar de uma São Paulo pós-apocalipse, cibernética, delirante, numa cachoeira de pequenos detalhes que vão desde o surrealismo da FC new-wave até o hiperrealismo dos quadrinhos contemporâneos. Aquilo que os críticos chamam de trapézio sem rede, num ritmo de entontecer.

The Magic Toyshop de Angela Carter é o tipo de história que só essa autora seria capaz de levar a cabo: o rito de passagem de uma adolescente que a morte dos pais obriga a viver na loja de artigos mágicos de um tio tirânico e brutal, na companhia de primos que ele acha ameaçadores e fascinantes. Uma mistura de Charles Dickens com Neil Gaiman, com um ponto de vista feminino.

Nova de Samuel R. Delany. Uma space-opera com narrativa intrincada mas coerente, idéias ousadas de física e de astronáutica, prosa brilhante. É o que toda space-opera deveria ser, com personagens “maiores que a vida” mas verossímeis, lances teatrais, perseguições e vinganças ferozes, civilização galáctica bem imaginada. Um romance da mesma estatura de Duna de Frank Herbert ou de The Stars My Destination de Alfred Bester.

Piquenique na Estrada (Ed. Aleph, São Paulo) de Arkády e Bóris Strugátski. Um romance muito bom e que me pareceu uma fanfic de Stalker, de Andrei Tarkóvski, porque compartilha o ambiente e a premissa, mas se prende a outros episódios. (O livro, é claro, é bem anterior ao filme.) Alguns lugares da Terra receberam uma visita breve de alienígenas que nem se deram conta da presença da humanidade e foram logo embora, deixando atrás de si as Zonas, que são verdadeiros campos minados onde acontecem alterações bizarras da realidade.

peixes coloridos de alto-mar (Ed. Kafka, Curitiba) de Paulo Sandrini, é outro romance pós-apocalíptico, num vago Brasil futuro corroído pela chuva ácida e vítima de mutações bizarras. Um pai tenta criar a filha num ambiente brutal e decadente, em meio ao escambo constante de produtos essenciais, ao saque e à sujeira.

Clans of the Alphane Moon de Philip K. Dick é mais um que traduzi para a Suma de Letras. É a história de uma colônia manicomial terrestre, numa lua distante, onde os clãs se dividem pela doença mental de cada um: os esquizofrênicos, os paranóicos, os maníacos obsessivos, etc. As habituais quebras de realidade de Dick aparecem a todo instante, bem como sua mistura da filosofia existencial e a pulp fiction mais escancarada: boa parte das reflexões filosóficas vem de um “lodo viscoso de Ganimede”, uma gosma amarela que se esgueira por baixo das portas e se comunica por telepatia.


AUTORES PARAIBANOS

Se eu fosse botar aqui os cordéis que tenho lido ou relido, ia faltar espaço. Deixando os cordéis de lado, registro estes três títulos, para quem se interessar:

Memórias tristes do Rói-Couro de Pombal, de Jerdivan Nóbrega de Araújo. São as memórias de um freqüentador da zona boêmia de Pombal, contadas na velhice. Tem um viés nostálgico, mas sem embelezamento, e sem condenações morais. A vida de puteiro rememorada com carinho e dor por quem freqüentou puteiros sem culpa. O autor se inspirou em Garcia Márquez e suas Memórias de Minhas Putas Tristes.

Viajantes do Purgatório de Eilzo Matos. Uma cidadezinha do interior, suas fofocas, seu “muído” permanente de sexo e dinheiro, brigas por terras. Um cotidiano bem vivido, bem observado e bem descrito, cheio de detalhes verossímeis e observação de ambientes concretos. Alguém já disse que certas cidades interioranas são como um avião que roda, roda, e não levanta vôo. O mundo descrito por Eilzo Matos é exatamente isso.

As Conchambranças de Quaderna (Ed. Nova Fronteira, “Teatro Completo”) de Ariano Suassuna. A última peça de Ariano reúne três aventuras do anti-herói do Romance da Pedra do Reino, onde Quaderna deixa de lado sua face mística e cósmica e age como um autêntico trambiqueiro, enganador, costurador de intrigas, mentiroso, sedutor de moças entediadas... Mais uma vez é o cotidiano mesquinho e sem horizontes das cidades regidas com mão de ferro pela política, o poder e a corrupção.



(continua)








sábado, 12 de maio de 2018

4346) O mundo dos clones (12.5.2018)



Evoluir é deixar de ser. Numa transformação ganhamos algumas coisas, que naquele momento nos parecem o grande salto transcendental, e vamos perdendo outras cuja ausência a princípio não faz falta, mas que aos poucos vão mostrando o quanto eram silenciosamente importantes.

H. G. Wells tem uma explicação bastante pragmática para isto no capítulo 4 de A Máquina do Tempo (1895), quando o Viajante do Tempo contempla do alto as verdes colinas do futuro. Ele foi parar num mundo que parece a imagem de desktop do Windows XP, habitado por uma espécie de hippies louros, infantis e puros, os Elois.

O Viajante raciocina que grande parte do esforço científico humano é para diminuir as asperezas e os riscos da vida, torná-la segura, tranquila, agradável. Ao fim dos confrontos com as dificuldades do mundo, cada geração que surge está menos equipada para enfrentar problemas. Porque foi para poupá-los de enfrentar dificuldades que os pais aceitaram enfrentar tantas. Não teria sido preciso.

Os Elois do livro acabam se revelando ainda mais ingênuos do que ele imaginava então, mas o Viajante tem um bom argumento histórico nesse exemplo. É uma linha entrópica que lembra uma pouco aquela frase tradicional sobre tantas famílias ilustres: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”.

A primeira geração é a dos que saem da favela e constroem um império do nada. A segunda, filha destes, é a que terá o projeto e o desafio de manter o império.  Quando isso não é muito a sua praia, é possível que a terceira geração não cresça no interior de um império, mas de uma derrocada.

Nem precisamos chegar ao ano 802.701 para  ver eses sintomas (e Wellls decerto teria exemplos ou paralelos londrinos na ponta da língua, se a gente lhe perguntasse). Os psicólogos recentes têm usado a expressão Geração Floco de Neve para designar um conjunto de jovens atuais excessivamente sensíveis, meticulosos, capazes de se magoar ou se revoltar por muito pouco.

Dizem eles que há três variantes dessa fragilidade: 1) Superproteção; crianças que foram excessivamente cuidadas e não puderam desenvolver algumas qualidades de autonomia. 2) O senso do Eu: um individualismo muito grande, dificuldade em entender o ponto de vista de outras pessoas. 3) Impressão de catástrofe: pessoas que acham o tempo inteiro que algo terrível vai acontecer e destruir seu mundo.

São jovens de hoje, criados em suas bolhas sociais e cibernéticas. Os games são um sucedâneo importante para essa escassez de oferta de aventuras em carne e osso. Os games, contudo, só levam até um certo ponto, e dali não passam. São iguais aos livros, que também só nos levam até um certo ponto, e dali não passam.

Esse “ponto” que se deve ultrapassar é o ponto da vida, de um conjunto de situações que (ao contrário do game ou do livro) não está sob nosso controle e pode nos afetar de forma grave.

Os Eloi de 2018 são chamados “Flocos de Neve” pela sua fragilidade, por serem algo que está a um risco de desfazer-se. E isso me trouxe à lembrança um livro que eu tinha interrompido há anos e agora li até o fim: Where Late the Sweet Birds Sang (1976), da recentemente falecida Kate Wilhelm.


Esse livro ganhou prêmios importantes como o Hugo e o Locus. É a história pós-apocalíptica sobre uma família rica no vale de Shenandoah, na Virginia, que consegue sobreviver a um conflito nuclear isolando-se nas montanhas onde tem suas terras e reproduzindo-se por clonagem.

O livro tem vários enredos sucessivos, mas na parte 3, “At the Still Point”, brota uma crise entre os clones. Os clones de Kate Wilhelm são meio que ligados numa corrente telepática, são uma psi-colmeia (uma hive-mind). Clonados de um “Harry” ou de uma “Susan” original, p.ex., são chamados “os harrys” e “as susans”: uma meia dúzia de rapazes idênticos ou de moças iguaizinhas que só andam juntos, que falam entre si o tempo inteiro, que não têm segredos, que não podem ser separados desse grupo sem passar por uma crise psíquica que pode ser fatal.

A primeira expedição que deixa a fazenda após o Armageddon (é a Parte 2 do livro, “Shenandoah”) começa a ter problemas mentais à medida que os membros se afastam de seu grupo de origem. Alguns, no retorno, ficaram insanos. Outros, como Molly, adquirem uma personalidade própria; aos vinte anos de idade surge nela uma personalidade que é só dela, não é compartilhada com suas gêmeas telepatas. Ela se torna uma outsider.

Molly vem a ter às escondidas um filho, Mark (numa época de esterilidade galopante, daí os clones) que ao crescer se torna, na Parte 3, o condutor da ação. Mark cresce como um marginal, uma espécie de Mogli ou Tarzan, esperto, safo, capaz de sobreviver sozinho no mato fechado ou num pântano radioativo. Os clones da sua idade são incapazes de penetrar cem metros no mato sem perder a direção.

Sua ascendência sobre os clones em geral é porque ele é capaz de ser original, diferente, imprevisível. Os clones, porém, executam com primor o que aprendem a fazer, mas são incapazes de ter uma iniciativa. Num momento de emergência, não sabem inventar uma solução, não entendem uma instrução que nunca receberam.

E são todos iguaizinhos. E não conseguem pensar por si. Mark garoto constrói um boneco de neve e alguns dos meninos não conseguem, nem a pau, enxergar ali um boneco antropomorfo. Veem apenas um monte de neve com alguns objetos cravados.


E Barry, um dos cientistas responáveis pelo processo da clonagem, reflete:

A neve foi soprada para longe, e ele ficou matutando na individualidade de cada floco de neve. Como milhões de outros antes dele, pensou, boquiabertos ante a complexidade da natureza. Pensou de repente se Andrew, a pessoa que ele tinha sido aos trinta anos, já teria se sentido de boca aberta diante das complexidades da natureza.  Pensou se cada uma daquelas tantas crianças que tinham ali sabia que cada floco de neve era diferente de todos os outros. Se alguém dissesse a eles que era assim, e recebessem a ordem de examinar flocos de neve como parte do projeto, eles chegariam a perceber a diferença? Achariam aquilo a coisa mais maravilhosa do mundo? Ou o aceitariam como se fosse um lição a mais das muitas que eles tinham de aprender, e nesse caso eles a estudariam conscienciosamente, mas sem extrair daquilo nenhum tipo de prazer ou satisfação na aquisição de um conhecimento novo?

Esses clones futuristas do vale de Shenandoah me lembraram um conto de Greg Egan em que uma nave tripulada tenta sair do Sistema Solar mas a certa altura seus tripulantes começam a cair em coma súbito, um depois do outro. No final, descobrem que uma mente humana qualquer é apenas uma gota de um oceano mental, e que da órbita de Júpiter (por exemplo) em diante essa ligação se rompe... e a pessoa cai, como se alguém tivesse puxado uma tomada.

Greg Egan projeta para a humanidade inteira essa consciência telepática do seu conto; Kate Wilhelm a projeta de forma concentrada em suas gêmeas-clones, que compartilham quase uma “phone-call telepathy”.

Mark leva os amigos (sob supervisão) para a floresta na montanha, e larga-os ali. Indefesos, porque vivem mais absorvidos na bandalarga telepática de que desfrutam 24 horas por dia do que em registrar marcas em troncos de árvores ou pedras deslocadas para indicar por onde o grupo passou. Os clones correm para a zona de conforto que são seus gêmeos, suas gêmeas.

Quando Mark os deixa por si sós, todos endoidecem, não conseguem achar o caminho de volta nem as árvores que vieram obedientemente marcando durante a subida. Os clones de Kate Wilhelm acabam lembrando menos os telepatas malignos de A Aldeia dos Amaldiçoados (“The Midwich Cuckoos”, 1957), o livro de John Wyndham que já rendeu pelo menos dois filmes, do que os Elois árcades e ripongos do filme de George Pal, The Time Machine (1960).

O livro de Wilhelm mostra a relativa frieza dos clones ao tomar decisões de vida ou morte, e ao mesmo tempo a dependência quase insetóide que eles têm de um grupo. Como um graveto, que cai pra longe da fogueira e se apaga porque ficou sozinho. O livro mostra a contraposição entre o modo de pensar e de agir dos clones e o das pessoas “assimétricas”, por assim dizer, as de comportamento menos previsível.

É uma boa discussão sobre as camadas mentais superpostas que mantêm uma pessoa funcionando. Em certos momentos da Parte 2 do livro, “Shenandoah”, é possível perceber a noção de um Eu, de uma personalidade única, surgindo em Molly, a jovem desenhista da expedição.

Como se um “Eu” fosse uma excrescência, algo em princípio desnecessário à vida, e que só é preciso desenvolver dentro de nós mesmos quando estamos jogados no tropel do mundo, sem wifi para nossa telepatia genética, e alguma coisa precisa ser feita.

Os flocos de neve são tão únicos quanto uma mandala de Maldelbrot, mas se derretem com facilidade. Há uma boa expressão em inglês para dizer que o cara está mal: é dizer que ele tem as mesmas chances de sobrevivência de uma bola de neve no inferno. Que são as mesmas chances de uma obra de arte ou um simples boneco de neve não serem enxergados, mesmo sendo vistos – porque aquelas pessoas não foram formalmente ensinadas a enxergar assim.