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terça-feira, 15 de agosto de 2023

4972) A não-música de John Cage (15.8.2023)



 
No mês de setembro completam-se 111 anos do nascimento de John Cage, o compositor mais fora-de-esquadro da música dos Estados Unidos. Chamado de gênio e de charlatão por muita gente. É o que acontece com muitos artistas de vanguarda que inventam um conceito de criação artística, aferram-se a ele com uma monomania quase psicótica, e acabam sendo compreendidos por um certo número de pessoas, em quantidade (e importância) suficientes para garantir a sobrevivência das suas obras. 
 
Cage é visto como um dos integrantes do que alguns gozadores chamam “a turma do barulho”, compositores de formação erudita que utilizam métodos não-convencionais para produzir música. Instrumentos, notações, estruturas, tudo a serviço de composições que parecem querer, insistentemente, desmontar nosso conceito do que é música. 
 
Perguntado num programa de TV se de fato fazia música, ele disse: “Sim. Eu considero que música é a produção de sons, então posso chamar de música isto que faço”.
 
Cage faz música experimental de muitos tipos. Um deles consiste em descobrir sonoridade e expressividade em sons de origem diferente e estrutura diferente do que se observa numa música orquestral comum.
 
Acho que é mais fácil entendê-lo quando pensamos nas experiências do nosso Hermeto Paschoal na música popular. O albino Hermeto toca chaleira, toca badalo de vaca, bota porco para roncar numa gravação, balança uma lata cheia de tampas de garrafa... É música? Eu acho que sim, porque, sendo músico popular, ele envolve tudo isso num colchão sonoro de música convencional, feita com teclados, saxofones, etc. 
 
Em Hermeto, os sons não-convencionais passam como mero complemento da música dele. Uma música às vezes estranha, mas jazzística, meio erudita, meio popularzona, uma música que tudo recebe e tudo acolhe. 
 
John Cage, não. Ele oferece ao ouvinte o som concreto, cru e cumulativo de campainhas, percussões aleatórias usando vidro e metal, água jorrando ou sendo chacoalhada, ruído de aparelhos culinários, rádio captando estática... Ele faz essa música propositalmente não-melódica, não-rítmica e não-harmônica (creio eu) não para agredir nossos ouvidos, mas para despertá-los.
 
A música que nós ouvimos (erudita ou popular) é feita de um repertório de sons muito vasto, os sons produzidos pelos instrumentos de uma orquestra, uma banda de rock, uma escola de samba, etc. Sua riqueza é espantosa, inesgotável, mas é um conjunto de timbres, fraseados melódicos, estrutura e cadências com as quais já nos acostumamos. Reagimos a ela como um cachorro reage a uma campainha. Fomos treinados para aceitá-la, e nossa balança de gosto/não-gosto funciona em torno do cardápio que ela oferece. 
 
Mas... Basta ouvir meia hora de música oriental ou africana para perceber o quanto ignoramos e o quanto provavelmente estamos perdendo. Bastava ouvir mais, prestar atenção, ler um pouco a respeito, construir uma nova sensibilidade... Mas a verdade é que pouca gente tem tempo pra isso. Contenta-se com o que já conhece, e que não é pouco. 
 
Cage é um artista provocativo, com muito da atitude dos artistas plásticos de vanguarda. Ele faz uma composição que consiste apenas de silêncio, o que equivale às telas em "Branco sobre branco" de Malévitch. Com um complemento: a peça 4’33” exige que o concertista se sente ao piano, mas sem tocar, e a peça sonora será composta pelos ruídos da plateia. 
 
Todo o trabalho de Cage (incluindo livros, palestras, entrevistas) mostra os bastidores da música, a discussão do que constitui uma música, o limite entre a música na cabeça do compositor e o resultado final mostrado ao público. Em geral, essa discussão não nos interessa. Somo consumidores, somos ouvintes, queremos o resultado pronto. Não queremos participar da discussão criativa, queremos fruir uma criação e passar para a próxima.  
 
Esse “queremos” é relativo, claro, porque milhares de pessoas (eu por exemplo) tem algum interesse por essas discussões. Não queremos só andar no carro, queremos saber como o motor funciona.  
 
Daí que a língua inglesa tem um expressão-padrão para isso: “a poet’s poet” é um poeta que escreve para outros poetas, “a painter’s painter” é um pintor cuja obra interessa mais a outros pintores do que ao público, e assim por diante. Não tem nada demais nisso, e só mesmo o furor consumista e anti-intelectual de nossa época para considerá-lo uma forma de elitismo.
 
Em todo caso, Cage é abraçado e estudado não apenas por músicos eruditos. Roqueiros como Frank Zappa, Brian Eno, e outros tocam para multidões, fazem música dançante para balançar o esqueleto, mas gostam de refletir sobre a filosofia da composição, e de estudar em profundidade a matéria primas (o som e o silêncio) que estão manipulando, e os instrumentos que utilizam. E a obra de Cage é uma referência para eles.
 
No documentário John Cage: Journeys in Sound (2012) de Allan Miller e Paul Smaczny, Cage aparece em papos-cabeça com John Lennon e Yoko Ono; explicando sua obsessão por cogumelos comestíveis; compondo com o auxílio do I-Ching, o Livro das Mutações. É um experimentalista, um curioso com erudição, um cara que gosta – pra usar um clichê do momento – de “pensar fora da caixa”.
 
No programa de TV que aparece no documentário, Cage conta que às vezes o pai o levava para caçar no bosque, e os dois não conseguiam abater nenhuma caça para o jantar. Então o pai dizia: “Não faz mal, a gente sempre pode ir na cidade e comprar alguma coisa de verdade”. Os animais caçados pessoalmente são vistos como um substituto da comida “de verdade” – a industrializada, que se compra no supermercado. 
 
Essa curiosa dicotomia está na raiz da música de Cage. Para ele, os sons de verdade, a música de verdade, são as sonoridades livres, selvagens e à solta que existem no mundo: barulho de chuva, de trânsito, de talher de metal em prato de louça, de porta rangendo, de vidro quebrando, de papel sendo amassado... E não a música radiofônica, feita como sonoridades industrializadas, codificadas, domesticadas, padronizadas... A comida-enlatada do som.
 
No mesmo programa de TV o apresentador previne Cage, antes do “concerto”, que algumas pessoas da platéia poderão rir durante os seus números “musicais”. Ele responde, tranquilo: “Tudo bem. Eu acho o riso melhor do que as lágrimas”.
 
 



segunda-feira, 30 de agosto de 2021

4739) As fake news do Castelo Alto (30.8.2021)

 

“Basta eu abrir um livro para me ver transportado para um mundo diferente”. Sim. Todo livro é um portal. Sempre que vejo as lombadas verticais numa estante, sinto aquela sensação do astronauta Bowman em 2001, uma Odisséia no Espaço. Após abandonar a nave-mãe, pilotando seu módulo, ele avista no vácuo o Monolito, e quando este se põe “de lado” percebe-se que sua parte mais estreita (sua “lombada”) é uma abertura, uma fresta vertical para outro universo.
 
Pegar um livro é teleportar-se? De certo modo, sim. Teleportar-se numa viagem puramente mental, em que o corpo fica aqui, guardando o lugar de volta, e a alma se projeta lá longe.
 
Um recurso que a literatura fantástica já usou de variadas maneiras. Basta lembrarmos Em Algum Lugar no Passado (“Somewhere in Time”, Jeannot Szwarc, 1980). Christopher Reeve precisa voltar ao ano de 1912 para encontrar uma mulher por cuja foto se apaixonou. Ele se cerca de mobília, roupas e objetos do passado e, envolto nessa “aura”, retorna mental e fisicamente para 1912.
 
Objetos característicos de uma época parecem ter um vínculo cósmico com ela. E um descuido faz com que o pobre rapaz, já em pleno namoro em 1912, pegue distraidamente numa moeda de 1980 que por acaso ficou em seu bolso... e a moeda o traz de volta ao presente, à vida real.
 
Em 1961 Philip K. Dick começou a escrever O Homem do Castelo Alto no meio da uma crise emocional muito forte. Os romances que mandava para as editoras estavam sendo devolvidos, e sua então-esposa Anne estava fazendo um bom dinheiro com artesanato de jóias. Dick aderiu a essa atividade, mas ela o fazia sentir-se, ainda mais, um escritor fracassado.



 No capítulo 5 de sua biografia de Dick (Divine Invasions, 1989) Lawrence Sutin conta esse período, em que o artesanato de jóias e a prática do I-Ching, dois elementos do cotidiano tenso e neurótico de Dick em 1961, convergiram para a criação de um romance.
 
Dick produziu um objeto de que se agradou muito, um pequeno triângulo de metal, que deu de presente a seu vizinho Jerry Kresy. Esse objeto foi parar no livro O Homem do Castelo Alto.  É com ele que o sr. Tagomi consegue se transportar para o mundo paralelo onde os japoneses foram bombardeados em Hiroshima e Nagasaki, e o Japão perdeu a guerra.
 
Dick postula, já que se trata de um romance fantástico, uma carga prodigiosa de “wu” em alguns desses objetos. E na série de TV The Man in the High Castle de Frank Spotnitz (Amazon Prime, 2015-2019) vemos os antiquários Robert Childan e Ed McCarthy vendendo uma peça falsa a um casal japonês chique. Eles temem ser desmascarados, mas a mulher, ao segurar o medalhão que teria pertencido a um índio norte-americano, afirma sentir uma poderosa emanação de “wu”, de emoção humana impregnada naquela peça. Ella está captando, na verdade, a carga emocional injetada ali por Frank Frink, o artista-artesão problemático que a criou.
 
Na biografia de PKD, Sutin afirma que o escritor colheu num livro sobre jardinagem os termos chineses “wu” (a sabedoria, o Tao) e “wabi”  (inteligência, habilidade técnica).
 
O Homem do Castelo Alto fala na contiguidade entre esses dois universos em que a II Guerra Mundial teve desfechos opostos. E no mundo onde a ação transcorre circula um livro subversivo, The Grasshopper Lies Heavy, escrito por um misterioso Hawthorne Abendsen com o auxílio do I-Ching.
 
É o mesmo sistema que Dick estava usando para escrever seu livro. Diz ele, citado por Sutin:
 
Na verdade eu tinha decidido parar de escrever, e estava ajudando minha mulher no seu artesanato em jóias. E não estava feliz. Ela deixava para mim toda a parte mais chata do trabalho, e eu resolvi fingir que estava escrevendo um livro. E dizia: “Olha aqui, eu estou escrevendo um livro muito importante”. E para tornar a encenação mais convincente, comecei de fato a datilografar. E não tinha anotações. Não tinha nada em mente, exceto que durante muitos anos pensei em escrever algo sobre a Alemanha e o Japão derrotando os EUA. E sem anotação alguma, eu simplesmente sentei e comecei a escrever, somente para me afastar do artesanato em jóias. E é por isso que as joias desempenham um papel tão importante no romance. Sem anotações, eu não tinha nenhuma idéia preconcebida sobre como desenvolver o enredo, e usei o I-Ching para ir contando a história. (trad. BT)
 
Frank Spotnitz, com a equipe que adaptou o livro de Dick, tomou uma decisão arriscada mas que surtiu um bom efeito. Na série, em vez de livro, The Grasshopper Lies Heavy é uma série de filmes contrabandeados do mundo paralelo, mostrando a realidade oposta, e Abendsen é o cara que em seu “castelo alto” (seu refúgio, furiosamente buscado por nazistas e japoneses) reúne esses filmes que provam a existência de uma realidade paralela.
 
Nosso conhecimento do planeta e da humanidade é quase todo mediado por imagens, sons e textos. Somente quando viajamos podemos ter certeza absoluta, física, da existência da cidade A ou do país B.  
 
Não foi o próprio P. K. Dick que, num gracejo famoso, colocou isto em dúvida? Dizia ele: “Talvez o Japão não exista, mas quando compramos uma passagem aérea para lá ‘eles’ se atarefam e em poucas horas montam um cenário com aeroporto, hotel, etc., para nos convencer de que foi no Japão que desembarcamos”.
 
Os filmes contrabandeados por Abendsen mostram àquelas pessoas a existência “impossível” de um mundo diferente do mundo delas. Elas se recusam a aceitar. Dizem que tudo aquilo é falsificação – e o próprio Abendsen, a certa altura, admite ter produzido algumas falsificações grosseiras (filmando manchetes de jornal com letras recortadas, etc.) para contestar a vitória do Eixo. “Mas de repente os filmes de verdade começaram a aparecer”, diz ele.
 
Numa inversão cruel, quando ele é preso pelos nazistas na temporada 3 começa a produzir novas falsificações – numa tentativa de tirar a credibilidade dos filmes já conhecidos clandestinamente.
 
Essa proliferação de documentários em 16mm de um mundo vizinho é um pouco como a invasão do nosso mundo pelo mundo fantasmagórico de Tlon, no conto de Borges (“Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, 1940). Um processo que abala por dentro a nossa cofiança na existência de um mundo, uma confiança que é posta em xeque quando vemos provas visuais da existência de um mundo diferente.
 
Por que “provas”? Porque filmes desse tipo são as únicas provas que a maioria de nós tem da existência de grande parte do mundo. Há grupos de terraplanistas hoje em dia afirmando que a Austrália não existe, e que todas as “provas” de sua existência são uma complicada conspiração feita às pressas, como na “boutade” de P. K. Dick.
 
Além de ser uma boa história sobre realidades alternativas, a série expande um tema típico de Philip K. Dick: “o que é o real?”. Se nosso conhecimento da maior parte das coisas nos vem através de livros e filmes, como sabermos se eles dizem a verdade ou não? E acaba desaguando, depois de uma volta completo, na questão da materialidade. As pessoas constroem um portal para se transportarem fisicamente aos outros mundos, onde possam pegar, cheirar, ver, provar que aquilo também é real.
 
 





quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

3373) I-Ching e futuro (19.12.2013)



No filme Minority Report de Steven Spielberg, baseado num conto de Philip K Dick, há um uso interessante dos precogs (pessoas que veem o futuro) como instrumento divinatório. Eles equivalem ao I-Ching, que tem papel importante em O Homem do Castelo Alto. O I-Ching desta história são três filhos de viciados em drogas que nascem com severas deficiências mentais acompanhadas, como tantas vezes acontece na fantasia e na FC, de talentos especiais.

Argumenta Dick no conto que se dois computadores equivalentes dão respostas diferentes para um problema, como saber qual está certo? Usando um terceiro, que desempata o jogo em 2x1. No filme, o 2x1 entre os três precogs mostra uma vantagem num futuro instável, onde existe pelo menos uma possibilidade de futuro a mais. Se os três computadores derem a mesma resposta ao prever futuro, ele é um futuro sólido, que dificilmente poderá ser evitado. “A unanimidade entre os precogs,” diz o conto, “é algo que se tem esperanças de que aconteça, mas raramente ocorre”.

No I-Ching, o oráculo chinês, jogamos três moedas para o ar para determinar o traçado de uma linha, se é inteira ou partida. As moedas têm uma face inscrita e uma fase lisa (pode-se atribuir essas características à cara e a coroa de uma moeda comum). A face inscrita vale 3, a face lisa 2. Quando jogamos e vemos três faces inscritas, a soma é 9 (3+3+3), o que manda grafar uma linha inteira. Quando são três faces lisas, a soma é 6 (2+2+2), e devemos grafar uma linha quebrada.

Mas ocorrem também placares de 2x1, seja a favor da lisa, seja da escrita. Essas são chamadas linhas estáveis, como se nelas houvesse um debate entre o yin e o yang, as forças fundamentais do Universo, Combate sem vencedor, por isso a linha não muda. Mas uma linha inteira com 3 moedas iguais (3+3+3) é chamada um “yang velho”, um yang que chegou ao próprio teto e agora tende a se transformar em yin (um processo cósmico, como a lagarta virando borboleta). E uma linha quebrada com 3 moedas iguais (2+2+2) também chegou ao ápice do yin, e sua tendência agora é se transformar numa linha yang.

Se um hexagrama tiver uma dessas linhas instáveis, ele produz duas versões de si próprio: uma onde aquela linha específica é quebrada (ou inteira) e outra a tal linha, que estava “caindo de madura”, vira o seu oposto, inteira (ou quebrada). No filme, essa instabilidade é representada pelo placar de 2x1 que adverte da existência de um “relatório minoritário”, a existência de outra versão possível do futuro. Já no I-Ching, é a unanimidade de 3x0 que indica o fim de um ciclo e a reversão de natureza da linha e a seguir do próprio hexagrama.

sábado, 29 de agosto de 2009

1228) Búzios, I-Ching e repente (18.2.2007)




(ilustração: www.thebluething.com)

Alguns sistemas divinatórios acreditam que cada momento que vivemos faz parte de uma harmonia cósmica que obedece a um certo “tom” ou diapasão. Cada instante do Tempo tem um fator que lhe é característico, algo como uma cor ou uma nota musical. 

Cabe ao adivinho captar esse fator e interpretar as ações passadas e futuras do consulente de acordo com esse vislumbre. Alguns jogam búzios, e interpretam o momento de acordo com as posições em que os búzios caem, as configurações que eles formam quando se imobilizam. 

Outros, que praticam o I-Ching, fazem o mesmo ao escolher varetas de diferentes extensões, ou ao atirar moedas, e com isto compor hexagramas de linhas inteiras ou partidas.

O que é a posição dos búzios, ou o hexagrama assim obtido? É uma polaróide daquele instante, e revela, para o olho treinado do adivinho, qual é o “clima” daquele momento, sugerindo assim de que maneira o cliente pode se comportar para estar em harmonia com o ritmo das coisas. 

O I-Ching pronuncia aquelas sentenças meio misteriosas, tipo “é conveniente atravessar a grande água” ou “o governante sábio pensa duas vezes antes de agir”. Isto não é, para quem acredita no sistema, um simples conselho – e conselho, afinal, qualquer um pode dar a qualquer um. É uma revelação sobre a dinâmica das forças do Universo naquele momento. Quem tem juízo marcha de acordo com ele.

O Repente tem algo em comum com estes processos. Feito na hora, no calor do momento, ele brota da mente de um poeta que está totalmente concentrado naquilo que faz, e compõe versos onde estão misturadas as suas emoções e as emoções da platéia, os assuntos que foram abordados até então, os acontecimentos da cidade e do mundo naquele dia, as pessoas presentes, os pequenos detalhes fortuitos que a todo instante se intrometem na cantoria. 

Tudo isto são búzios e mais búzios que o poeta sacoleja no juízo e joga para o ar, ou, mais precisamente, são palavras que é preciso agrupar sempre em forma de sextilha, cuja semelhança gráfica com um hexagrama chinês nunca deixou de me maravilhar.

Certa vez, numa cantoria entre Otacílio Batista e Oliveira de Panelas, no Bar Canarinho, anotei esta sextilha de Oliveira: 

Me rebolo como bola
me viro igual a bozó
de um lado sou como dado
do outro sou dominó
que se não tivesse os furos
seria uma coisa só.

É um ótimo verso, em que o poeta usa uma sucessão de formas geométricas. 

Primeiro a bola, que caia como cair sempre cai do mesmo jeito. 

Depois, o bozó ou dado, que é o contrário da bola, e a cada vez que é jogado cai revelando uma face diferente, servindo aqui como metáfora do próprio repente. 

E por fim o dominó, que não é jogado ao acaso, mas deve ser conectado às peças que já saíram antes, e que, como a sextilha, tem a obrigação de “pegar na deixa”, rimando (no caso, numericamente) com a peça da ponta. 

Será que o poeta pensou nisso tudo, ao compor o verso? Não importa. O Universo pensou por ele.





sábado, 14 de junho de 2008

0413) O zen, a foto, a poesia (16.7.2004)





(Blow-Up, de Michelangelo Antonioni)



Existe na cultura oriental uma valorização do Acaso, do Momento, que parece estar ausente não apenas da mentalidade racionalista do Ocidente, mas até mesmo do misticismo ocidental. 

Há dois exemplos que me parecem bem típicos. 

O primeiro é o I-Ching, o oráculo chinês onde moedas são jogadas ao acaso um certo número de vezes; pela combinação de caras e coroas forma-se um desenho de linhas inteiras ou partidas, que expressa o sentido mais profundo daquele momento. 

O segundo exemplo é o do jogo africano dos búzios, e para efeito da presente idéia peço que aceitem a cultura africana como cultura “oriental”, no sentido metafórico de “não-ocidental”, voltada mais para o pensamento mágico do que para o pensamento racionalista. 

A posição em que os búzios caem, quando jogados ao acaso, revela algo sobre a pessoa que faz a consulta. Parece que, em geral, são precisos vários arremessos sucessivos dos búzios para que o “desenho” vá se formando.

A arte da fotografia tem um pouco a ver com isto, porque envolve também a captação de um momento privilegiado. 

Folheando um álbum ou vendo uma exposição de fotos, vemos todo o tempo flagrantes que registram um instante único do tempo. Não me refiro aos flagrantes jornalísticos onde alguém consegue fotografar o choque de dois carros, o tiro disparado contra um presidente. Isto tem o seu valor, mas mais fascinante é o minúsculo evento, de importância apenas cotidiana, flagrado por uma câmara que coincidiu de estar justamente ali naquele lugar e naquele instante.

O reflexo de um out-door no vidro de um carro parado no sinal. Duas nuvens idênticas pousadas sobre duas montanhas contíguas. Pessoas que se cruzam numa rua movimentada formando, sem o saber, um padrão geométrico. Tudo isto são exemplos de fotos que não poderiam ter sido feitas minutos antes ou minutos depois (às vezes, alguns segundos apenas). 

Daí, talvez, o clique-clique incessante dos fotógrafos profissionais quando andam pelo mundo afora. Os instantes mágicos existem. Mas ninguém os veria se não fosse aquela câmara que conseguiu surpreendê-los no único momento possível. 

O próprio fotógrafo, muitas vezes, não tem plena consciência do que registra, e só depois, a ver a foto (como no filme Blow-up) percebe o que seus olhos não haviam percebido.

Mal comparando, é o que acontece com quem escreve poesia. É um ato tão intencional quanto o de fotografar, e é igualmente sujeito ao Acaso. 

Escrever poemas é em grande medida um jogo-de-búzios verbal, onde jogamos palavras ou idéias no papel, e passamos 2 ou 3 minutos a riscar, emendar, substituir, permutar, inverter... 

Cada tentativa nos aproxima de algo que não sabemos o que é, até que, por um desses milhões de milagres de que é feita a criação artística, tudo se encaixa, tudo se engata, e erguemos o olhar da página sabemos que fotografamos naquele momento uma frase que jamais nos ocorreria na véspera ou no dia seguinte.






sábado, 8 de março de 2008

0108) O segredo do I-Ching (26.7.2003)




Já li e manuseei muito a edição de Richard Wilhelm (Editora Pensamento) do I-Ching, o livro chinês das transmutações. Ele e o Tao Te King – o Livro do Caminho Perfeito de Lao Tsé são duas portas para a mais plausível descrição religiosa do universo em que vivemos. 

Isto não faz de mim um taoísta. Taoísta é quem acredita nessas coisas, e eu tenho dificuldade de acreditar seja no que fôr, eu apenas comparo teorias e acho que umas são mais plausíveis, mais eficazes do que as outras.

A maioria das religiões tem deuses demasiado antropomórficos, contaminados de emoções humanas. Deuses que se enfurecem conosco, que nos amam com filhos, que nos condenam a torturas horrorosas, que nos perdoam sem explicação, que perdem o controle por dá cá aquela palha... Deuses humanos, demasiado humanos. 

Em vez dessa relação folhetinesca, melodramática, o I-Ching, através dos seus 64 hexagramas, reproduz uma seqüência de fluxos, de movimentos que me parecem corresponder a ciclos secretos do Universo, da natureza viva, da existência humana. Como? Não sei, é pura intuição (e esse álibi de “pura intuição” é, quem sabe, uma confissão velada de fé).

Eu gostaria de ver um filme de animação em que os 64 hexagramas de sucedessem na tela, para ver ali o que vejo quando os examino um por um: as linhas partidas que sobem, linhas inteiras que descem, ou vice-versa, movimentos de expansão e contração, ciclos de madurez e definhamento, ciclos de força atuante e de recolhimento contemplativo. As formas das forças que regem o mundo, que fazem o mundo ser tudo o que é.

Joguei o I-Ching algumas vezes, mas deixei de fazê-lo porque senti que estava a incomodá-lo com perguntas fúteis – “será que vou esquecer a letra das músicas, no show de amanhã?...” Também comecei a perceber que o livro continha 64 respostas que se aplicavam a qualquer situação, e que eu podia muito bem, quando precisasse de assessoria sobrenatural, abrir numa página qualquer um livro de Drummond ou de Emily Dickinson, ler, aceitar esse conselho do Acaso.

Disseram-me um dia que as moedas com que se joga o I-Ching devem estar carregadas de nossa energia. Tomei uma decisão, e guardei num bolsinho de dentro da carteira três moedas de 10 centavos. Resolvi que as levaria comigo, junto ao corpo, durante dez anos, e que depois as usaria para jogar o I-Ching. 

Passaram-se 5 ou 6 anos, e um dia eu me vi num país estrangeiro, numa situação complicada onde precisava urgentemente dar uns telefonemas. E as únicas moedas ao meu alcance eram as do I-Ching. Fui, voltei, hesitei, maldisse minha estupidez, e acabei usando meus pobres centavos brasileiros para me tirar daquela roubada. 

Findas as ligações, resolvido o problema, olhei para o céu, e vi numa nuvem metafórica o velho Confúcio olhando para mim com o polegar erguido, piscando o olho, e dizendo: “E aí, serviu ou não serviu?” Pense num povo prático, esses chineses.