O Netflix está exibindo uma série, Taboo (uma temporada, 8 episódios), com uma mistura eficaz de
violência, sutileza psicológica, brutalidade colonialista, intriga política, espionagem,
tecnologia proto-steampunk, magia primitiva.
A mistura parece boa, e é. Os responsáveis pela série são
(pelo que se diz) os mesmos criadores de Peaky
Blinders, outro drama de gangsters “de época”. Em Taboo, a reconstituição da Londres de 1814 é convincente. Os
personagens são fortes, pesados; têm alta voltagem. A história é aquele
habitual enredo televisivo em que os fatos se sucedem de modo quase hipnótico,
intercalados com cenas de amplos diálogos onde ficamos com alguma idéia de quem é quem, o
que pretende, de quem é inimigo, de quem é aliado provisório.
É interessante perceber que muitas dessas séries
televisivas têm enredos mais complicados e mais labirínticos do que muitos
romances policiais. E olha que no romance o tempo é outro. O leitor pode se
interromper, botar o dedo em cima da página, ficar pensando... voltar até o
capítulo anterior... conferir um diálogo... perceber uma rápida menção a um
nome, a um fato... pensar “Arrá!... Entendi agora como está sendo a
armação!...”
Uma série de TV, não. É uma montanha russa – você segura
o chapéu, e seja o que Deus quiser. Teoricamente, o espectador pode fazer o
mesmo, parar, voltar, conferir, mas em geral não faz. A imagem cinematográfica
(para esse efeito, cinema e TV são equivalentes) nos arrasta, impõe seu tempo,
nos leva – ou pelo menos me leva – a
pensar: “Não sei para que diabo ele está levando os explosivos para esse prédio,
que já vi, mas não me lembro do que é, mas vamos em frente.”
Stanley Kubrick dizia que um filme deve ser visto não
como quem lê um romance, mas como quem escuta uma música. O que nos seduz e nos
arrasta é uma espécie de melodia visual, de ritmo; uma orquestração de emoções
e expectativas imediatas, gerada pela câmera e pelo corte. A história... a
história a gente só vai entender daqui a algum tempo.
(Tom Hardy)
Em Taboo, ajuda
bastante o fato de que o protagonista, James Delaney (Tom Hardy) é um desses
indivíduos marcados pelo signo de Caim. Um homem fechado em si mesmo, com
poucos escrúpulos, implacável, incomunicável, empenhado numa vingança pessoal e
numa cartada política internacional capaz de render fortunas – um homem que
nada revela do que está pensando. Só vamos entender daqui a algum tempo.
Delaney volta a Londres para o enterro do pai, um homem
rico, poderoso, excêntrico; e para reaver, na qualidade de primogênito (ele tem
uma meia-irmã londrina, interpretada por Oona Chaplin, com quem mantém uma
relação heathcliffiana) uma faixa de terra entre os EUA e o Canadá, faixa de
importância vital para o comércio de chá (e de produtos menos anunciáveis)
entre a China e o Ocidente.
Não demora para Delaney estar lutando sozinho contra a
Coroa Britânica, representada por um Príncipe Regente ( o futuro rei George IV)
retratado em tintas afetadas e bobonas, não muito diferentes das que o cinema
brasileiro tem usado para descrever D. João VI.
Delaney luta, também sozinho, contra a poderosíssima Companhia
das Índias Ocidentais, cujo cabeça é Sir Stuart Strange, interpretado magnificamente
por Jonathan Pryce (o abestado protagonista de Brazil, o Filme).
E luta, também sozinho, contra os Estados Unidos da
América, uma terceira via que em 1814 está começando a botar as garras de fora
e quer-porque-quer aquela faixazinha de terra que o pai de Delaney comprou aos
nativos anos atrás, por uma merreca.
O fato de Delaney estar lutando sozinho contra
adversários tão poderosos o leva a agir como o enxadrista amador do conto de
Malba Tahan, que desafia os dois campeões do reino para partidas simultâneas, e
daí a pouco está simplesmente botando cada um deles a jogar contra o outro.
É
um pouco o que em literatura policial se chama de “o gambito Red Harvest”, criado por Dashiell
Hammett no livro com esse título, e depois muito explorado em outras histórias
(a mais famosa creio ser Yojimbo, de
Akira Kurosawa).
Você é fraco? Está enfrentando um grupo de fortões? Faça
com que eles se destruam mutuamente. Fortões adoram destruir-se mutuamente.
Sentem mais prazer com isso do que destruindo um fracote como você, um bebum que
nem navio tem.
Delaney é interpretado por Tom Hardy, especialista em
papéis com muita presença física e poucas palavras (Mad Max Fury Road, The Dark
Knight Rises). E não há como não ver nele a energia surda e brutal que o
ator injetou em seu Mad Max e principalmente em seu Bane, criaturas meio primais, meio
trogloditas, radioatividade pura represada num vórtice de ambição e vingança.
O pulo-do-gato do personagem (que aliás foi concebido
pelo próprio ator e por seu pai, o romancista Chips Hardy) é que Delaney não é
um mero Max Rockatansky ou Bane. É um enxadrista político. Um chantagista
sênior. Aquele anti-herói na tradição de Rocambole ou Lupin, que mesmo condenado à guilhotina é capaz de trazer a sua masmorra um Ministro, que
negocia com o presidiário e sai dali com o rabo entre as pernas.
Um típico anti-herói de folhetim, sem o sentimentalismo
do folhetim. Tornado plausível por um viés ético e amoral que nos são
totalmente contemporâneos. É o império da luta político-econômica dos grandes
conglomerados, onde valem palavras de ordem como “quem for podre que se
quebre”, “foi ferido está morto” ou “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Quando li a respeito da série, vi Tom Hardy citando,
entre suas influências na criação do personagem, Sherlock Holmes. E, sim, ele
faz bom uso dos seus “irregulares-de-Baker Street”, e guarda suas deduções para
si mesmo até que chega a hora de agir.
Também citou Marlow, o narrador de O Coração das Trevas de Joseph Conrad. Este lado é o mais interessante. Quem leu o livro de
Conrad lembra do seu narrador, o inglês equilibrado e profissional que navega
Rio Congo acima para checar as atividades de um tal de Kurtz, de quem se diz
estar aprontando horrores com os nativos; ele o faz, e volta abalado para
sempre.
De fato, James Delaney viveu na África, viajou em navios
negreiros, foi co-responsável pela morte de escravos, submeteu-se a rituais
mágicos (que explicam inclusive sua resistência aos espancamentos e torturas
físicas que sofre ao longo da série). Ele tem um pouco de Marlow, um pouco de
Kurtz. É um indivíduo que viveu os horrores do colonialismo lá longe, nas
periferias do colonialismo, de onde não chega notícia alguma na capital. O que
chega são indivíduos como ele, transtornados, vingativos, transformados em
máquinas de destruição do sistema que os produziu. E que eles destroem, mas não
têm alternativa senão substituir; e replicar.