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sexta-feira, 16 de junho de 2023

4952) Não dizer dizendo (15.6.2023)



Poesia se faz com palavras, ou com idéias?  Para alguns, a idéia vem primeiro. O poeta tem uma noção mais ou menos clara do que quer dizer, e procura as palavras mais adequadas para reproduzir o que está pensando.  Para outros, o poema pode até começar com uma idéia, mas ela produz um processo de palavra-puxa-palavra, e o sentido vai se formando meio de improviso, à medida que as palavras se ajustam umas às outras.  Poetas usam esses dois sistemas desde que o mundo é mundo.  Um teste que muitas vezes funciona é ver se o poema resultante é fácil ou difícil de traduzir.  Os poemas criados a partir de idéias são, em geral, mais fáceis (ou menos difíceis!) de traduzir do que os que são feitos a partir das palavras.

 

Qualquer idéia pode ser recriada através das palavras?  Alguns filósofos dizem que só pensamos de fato aquilo que conseguimos exprimir, mesmo que seja inventando palavras que não existiam antes.  E até mesmo a incapacidade de dizer pode ser dita, a incapacidade de criar poesia pode ser recriada poeticamente.

 

Manuel Bandeira, ao fazer uma dedicatória para uma leitora chamada Sacha, escreveu:

 

Sacha muchacha

nariz de bolacha!

(Meu estro não acha

outra rima em acha.

Por isso se agacha,

se cobre de graxa,

se arranha, se racha,

se desatarracha

e pede em voz baixa

desculpas a Sacha).   

 

É um poemazinho de circunstância (do livro Mafuá do Malungo), sem maior pretensão literária, mas mostra de maneira claríssima a mais importante das lições poéticas: mesmo quando achamos impossível dizer o que queremos, sempre existe uma maneira de dizê-lo.  O poeta confessa (ou finge confessar) sua impossibilidade de achar rimas para o nome da pessoa a quem dedica o poema, mas no momento mesmo de admitir essa derrota as rimas parecem cair do céu, e o poema está feito.

 

Num tom diferente, quase trágico, Augusto dos Anjos produziu um soneto em que reflete sobre o processo de criação da poesia, “A Idéia” (1909):

 

De onde ela vem?! De que matéria bruta

vem essa luz que sobre as nebulosas

cai de incógnitas criptas misteriosas

como as estalactites duma gruta?!


Vem da psicogenética e alta luta

do feixe de moléculas nervosas,

que, em desintegrações maravilhosas,

delibera, e depois, quer e executa!

 

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

chega em seguida às cordas do laringe,

tísica, tênue, mínima, raquítica ...

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

mas, de repente, e quase morta, esbarra

no mulambo da língua paralítica.

 

A descrição é poeticamente correta: a idéia brota no cérebro, mas quando queremos transformá-la em palavras ficamos mudos.  Em outro soneto (“O martírio do artista”) ele compara o poeta ao paralítico (ou, em nossa linguagem de hoje, à pessoa que sofreu um AVC) e não consegue falar:  “É como o paralítico que, à míngua / da própria voz e na que ardente o lavra / febre de em vão falar, com os dedos brutos / para falar, puxa e repuxa a língua, / e não lhe vem à boca uma palavra!"   

 

Há um elemento dolorosamente biográfico na concepção destes poemas. Sabe-se que o pai de Augusto, o Dr. Alexandre, sofreu um derrame e ficou “paralítico e afásico”, impossibilitado de se comunicar.

 

As imagens de Augusto são poeticamente fortes, são impressionantes, mas para sermos honestos temos que admitir que a culpa não é da língua.  Não é ela que forma as palavras, é o cérebro, o mesmo que forma as idéias.   E que compõe versos como estes, dizendo, de maneira brilhante, o quanto é difícil dizer.

 

Voltando mais atrás no tempo, temos um soneto de Olavo Bilac, “Inania Verba” (em Alma inquieta, 1902), no qual o de Augusto parece ter se espelhado. 

 

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,

o que a boca não diz, o que a mão não escreve?

— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,

olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...


O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava;

a Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...

E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,

que, perfume e clarão, refulgia e voava.


Quem o molde achará para a expressão de tudo?

Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas

do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?


E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?

E as palavras de fé que nunca foram ditas?

E as confissões de amor que morrem na garganta?

 

É um soneto sem a complexidade dos termos empregados por Augusto, com uma linguagem de clareza cristalina, onde os contrastes de idéia se dão por semelhança de forma (escrava / escreve) e por imagens visuais de apelo instantâneo (turbilhão de lava / sepulcro de neve).  Aqui, o poeta se queixa de outras coisas, que talvez não tenha conseguido exprimir, e que sugere nos dois tercetos finais.  Mas ao queixar-se o faz mostrando domínio completo da forma, do vocabulário, do ritmo (a repetição de “mudo”).  O seu final, ao falar naquilo que “morre na garganta” pode até ter sugerido a Augusto a imagem das “cordas da laringe”.

 

Cada poeta tem seu espírito, seu temperamento, e isto fica visível quando eles escolhem suas idéias, e, quando escolhem a mesma idéia, nas suas escolhas de palavras.  Cada um de nós tem sua maneira própria de dizer as coisas, e também de dizer que não consegue dizê-las.   Há momentos em que a poesia é apenas um sentimento que nos toma de assalto, nos invade, nos deixa cheios de emoções – e vazios de palavras.   Talvez a gente não consiga dizer o que sente; mas precisa dizer que não o conseguiu.   Carlos Drummond de Andrade, distante da linguagem expressionista e científica de Augusto dos Anjos, e do formalismo rígido e impecável de Bilac, encontra na simplicidade da dicção modernista recursos para falar dos seus próprios momentos “sem palavras”, quando diz em “Poesia” (Alguma poesia, 1930) :

 


Gastei uma hora pensando num verso

que a pena não quis escrever.

No entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

 

Grande poeta não é o que sente grandes emoções.  Qualquer pessoa é capaz de emoções intensas.  O grande poeta é aquele que fotografa essas emoções, ou, mesmo quando não as fotografa a tempo, consegue captar sua sombra, sua pegada ou qualquer sinal de sua presença.  Como ele diz, no final do seu “Canto esponjoso”:

 


Vontade de cantar. Mas tão absoluta 

que me calo, repleto. 

 

 

 

(Uma versão deste artigo foi publicado no número de outubro de 2008 da revista “Língua Portuguesa”, da Ed. Segmento (São Paulo)


quinta-feira, 8 de junho de 2017

4242) Um soneto improvisado (8.6.2017)




("Sonnet en X", Mallarmé)


Eu estava numa mesa com alguns amigos que curtem repente. Alguém recitou uma décima de martelo improvisada por um cantador, todo mundo elogiou, e então alguém disse:

– Improvisar nessa estrofe tradicional todo mundo já se acostumou. Eu queria ver era Fulano de Tal (o repentista em questão) improvisar em forma de soneto.

Eu retruquei que, para quem sabe improvisar, o formato da estrofe é o de menos, tem apenas que não se atrapalhar, mas o método de improviso é o mesmo. Houve discordância, e eu me propus a improvisar um soneto em voz alta, ali mesmo. Casou-se dinheiro em aposta (entre eles – eu não tenho esses vícios).

Enchi o copo, fiz um drama de franzir a testa e comecei.

Vou fazer um soneto de improviso
nesta mesa, diante de vocês.
Vejam só, já estou na linha três
e a quatro é somente o que preciso.

Tomei um gole e corri o rabo do olho pela mesa. Eles estavam na expectativa, mas era ainda uma expectativa de quem diz, “vá, pode começar”. Senti que estava devendo.

Engatei marcha e fui em frente:

O meu verso é tirado do juízo
não foi outra pessoa quem o fez,
porém quando a questão é rapidez
o que for necessário eu realizo.

Essa aí produziu mais efeito, porque um deles deu uma risada, e falou:

– Eita, o caba é corajoso. Medo de dizer besteira é uma coisa que ele não tem.

Ignorei-o majestosamente, e prossegui:

Só quem sabe entender o que é poesia
dá valor ao repente que se cria
na medida correta, e bem rimado.

Hora de mais um gole para lubrificar o desfecho. E assim foi:

O formato é que pode ser soneto,
sem ter tinta ou papel, branco nem preto,
mas que seja martelo agalopado.

Tudo isto me exigiu, o quê? Dois, três minutos. Uma eternidade de lazer, se você comparar com o tempo dos versos improvisados por profissionais, ao som da viola.

O cara que apostou em mim acabou ganhando por consenso da mesa, porque bem ou mal esse trambolho em itálico aí em cima é juridicamente um soneto: tem 14 versos, 2 quartetos, 2 tercetos, o esquema de rimas é um dos vários universalmente aceitos. Tampa da caçuleta.

Transcrevo a façanha, não para me gabar (se fosse o caso teria inventado alguma coisa melhorzinha e também plausível), mas para discutir um tema que nem sempre se questiona a respeito do improviso.

Lembro a lição do mestre Zé de Cazuza, que numa conversa me disse certa vez:

– Todo verso, mesmo verso escrito, é meio improvisado, né? O verso brota na mente. A diferença é que no verso escrito o camarada pode ficar horas e horas ajeitando aquilo que improvisou, e na viola não, do jeito que ele improvisa na cabeça ele tem que cantar, não dá tempo de ficar ajeitando.

A “contrainte” embutida nessas formas fixas (martelo, soneto, etc.) obriga o poeta a se concentrar na obediência obrigatória à rima e à métrica. A grande maioria dos versos improvisados “não tem poesia”, é apenas uma espécie de prosa cuja preocupação é manter-se fiel a uma cadência, e terminar cada frase com um som obrigatório.

Todo improvisador tem truques para cumprir essas obrigações. O truque a que recorri na primeira quadra é um dos mais antigos de quem escreve soneto: fazer o comentário metalínguístico sobre cada linha que vai compondo. Já li dezenas de sonetos que não dizem outra coisa senão comentar: “Tou fazendo a linha 1... a linha 2... a linha 3... a linha 4...”.

Outra coisa: repertório de rimas. Eu sei que para compor os 2 quartetos preciso de 4 palavras com uma rima e 4 palavras com outra. Escolhi duas que acho facílimas: ISO e ÊS. É nessa primeira escolha que muitos candidatos dançam, porque, preocupados com o conteúdo, eles fazem duas frases iniciais bem elegantes e depois percebem que vão ter alguns segundos apenas para catar na memória alguma palavra que rime com aquilo.

Não, amigo. Pense na rima primeiro, e na palavra só depois. “Run for cover”, como dizia Alfred Hitchcock: corra para o terreno onde você tem cobertura. Deixe as rimas difíceis para o momento do caderno, da caneta e da poltrona. Para improvisar de verdade, pegue rimas que têm vasto vocabulário. Improviso, por exemplo, eu só tendo a rimar com juízo, com algo que vai ser preciso... Clichê, mas quando a gente corre contra o relógio não pode ficar escolhendo.

Outra coisa: prepare um final. Eu decidi, durante o gole de cerveja, que terminaria dizendo algo sobre martelo agalopado, então já estava tranquilo: se esta seria a rima da linha 14, não me daria trabalho achar algo que rimasse para fechar a linha 11 (no caso, foi “rimado”).

Se eu estivesse escrevendo, não rimaria improviso, com meus clichês habituais. Procuraria algo mais afastado – faria uma comparação qualquer com Narciso, ou diria que como cascavel-do-repente eu balanço o meu guizo, ou que meu verso vem do Paraíso, ou que sou um poeta liso...

Rimas, existem muitas. Quanto mais tempo a gente tem para pensar, maior a chance de pescar uma rima que suba o nível poético da frase. São as palavras que rimam quem vão nos trazer – pela mão dessa concidência arbitrária e obrigatória – o assunto das próximas linhas, as imagens, as associações de idéias.

Gosto deste comentário do poeta Tom Lehrer (no livro Le Ton Beau de Marot, de Douglas Hofstadter):

Parece aos outros uma grande habilidade do poeta, mas ele apenas foi forçado a regiões inesperadas do espaço semântico (ou seja, o espaço de todas as idéias possíveis) por causa da rima, que é uma restrição auto-imposta. (O poeta) acaba pensando em imagens que jamais lhe ocorreriam se ele não tivesse a obrigação de rimar as linhas umas com as outras. 

Quanto mais tempo a gente tem para pensar, maior a chance de achar uma rima que, além de arrastar a frase para uma direção nova, inesperada, dê a impressão de que se encaixa tão bem no assunto que está ali pelo seu conteúdo (e não pela rima).

Um último comentário, sobre a dúvida que deu origem a tudo isto. Improvisar um martelo e improvisar um soneto não são coisas muito diferentes. É um poema de 10 linhas contra um poema de 14, apenas. Um esquema de rimas ABBAACCDDC e um esquema ABBA-ABBA-CCD-EED (o soneto admite vários; o que usei foi este).

A dificuldade é grande, talvez, para aqueles violeiros que são acostumados ao martelo e mas não têm muita familiaridade com o soneto. A velocidade da mente já se formatou com um esquema, e, quando forçada a trabalhar em outro, dá um branco.

Já vi cantadores desafiando uns aos outros a improvisar uma estrofe de martelo totalmente sem rima, livre – e alguns não conseguiam, se atrapalhavam e acabavam rimando.

Adquirir técnica é adquirir uma forma diferente de liberdade; ficar preso a ela é sempre perder a liberdade.

Trocar de formatos e de fórmulas de vez em quando ajuda a manter vibrando o diapasão da criatividade.









domingo, 28 de setembro de 2014

3616) Palavras sem rima (28.9.2014)





A lista A Word a Day, que assino há anos, trouxe uma postagem sobre um oficial norte-americano do século 19, chamado Henry Gorringe.  Ele foi o responsável pela transferência da chamada Agulha de Cleópatra (um obelisco egípcio) para o Central Park de Nova York.  Sua presença na lista, contudo, era por uma razão ainda mais rara: segundo os redatores, o nome dele é a única rima na língua inglesa para a palavra “orange” (laranja).



Rima é um negócio danado.  Quando dizemos rima, na poesia, estamos falando em geral daquilo que se denomina rima exata, ou rima consoante: laranja / canja, abacaxi / siri, futebol / sol, e assim por diante.  A poesia modernista, no entanto (João Cabral, Cecília Meireles, tantos outros) usou fartamente a rima toante, aquela em que os sons são meramente parecidos: Paraíba / vida, sino / caminho, alma / casa, etc.  Só pra resumir: a rima consoante, exata, tradicional, é aquela onde existe entre as duas palavras uma coincidência perfeita de sons a partir da vogal da sílaba tônica.  As palavras “conta” e “ponta” rimam, não importa se antes da vogal em questão vem um C ou um P.



Meu pai fez para minha avó (Vó Clotilde, que era a cara de Agatha Christie) um soneto chamado “Mãe”, que terminava dizendo: “Pois teu nome sem rima é o hemistíquio / do verso alexandrino de minh’alma”.  Quando o questionei, ele me interpelou: “Pois me diga uma rima para a palavra ‘mãe’”.  Eu disse, em-cima-da-bucha: “Bãe... tamãe...”, e ele me mandou pastar.  Não, não tem rima.  Assim como “sempre” também não tem. Dou um milhão de dólares por duas palavras terminadas em “...empre”, preu fazer uma sextilha que está engatilhada há anos.



Também não têm rima palavras como cérebro, víbora, câncer, nuvem, órfã, mil outras.  De vez em quando aparece um esperto exumando um vocábulo seiscentista, ou distorcendo de leve uma pronúncia pra aconchambrar um verso periclitante.  Vale?  Às vezes vale.  Guilherme de Almeida, artesão de mão cheia e bom poeta, tem um poema chamado “Berceuse da Rimas Riquíssimas” onde cataloga alguns desses truques, como por exemplo rimar “nuvem” com “nu vem”.  Existe o caso famoso de “cinza”, que só rima com “ranzinza”, mas um cantador de viola sabichão encaixou num verso a história de um cantador fanho que em vez de “camisa” falava “caminza”.


Palavras proparoxítonas têm rimas mais difíceis, porque há três sílabas que precisam ser iguais (cântico / romântico). As oxítonas são as de rima mais fácil, a começar pelas terminações de verbos (...ar, ...er, ...ir, ...por).  Quando Monsueto dizia “Pra que rimar amor e dor?” estava exprimindo uma nostalgia afetiva e também uma impaciência estilística.