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quinta-feira, 3 de abril de 2025

5168) Brasileiro vende quase tudo (3.4.2025)



 
O brasileiro nasceu para ser comerciante, negociante. Acredito que existe sangue fenício entre nós, não porque tenha visto provas genéticas disto, mas porque cresci ouvindo dizer que fenício e comerciante são sinônimos. 
 
O brasileiro vende tudo? Não propriamente: mas o brasileiro acredita que tem comprador para tudo. 
 
Morei alguns anos no Catete, ali entre a Nona Delegacia e a Pedreira da Glória. 
 
Andava muito pelos arredores, que amo até hoje. O zero cartesiano do meu Rio de Janeiro fica no Largo do Machado. 
 
Frequentei muito a Biblioteca da Glória, na rua homônima, num prediozinho discreto, diante da calçada cheia de árvores de onde Pedro Nava deu adeus. 
 
As calçadas da Glória são geralmente largas, como eram as calçadas numa época em que os pedestres eram mais numerosos do que os cabriolés.  São especialmente largas naquele trecho em frente ao Palácio do Bispo. 
 
Recém-desembarcado no Rio, eu era (ainda sou) curioso com um monte de coisas que os autóctones nem ligam, porque aquilo faz parte da vida deles há mais de 400 anos. Mas é assim mesmo. Os que vêm da Europa se maravilham com maracujá, capivara, marimbondo, espada-de-são-jorge, jabuticaba, sagüim. 
 
Eu me maravilhava – não com a natureza local, mas com a cultura. Os nativos estendiam lonas bem largas na calçada, diante do Palácio do Bispo, com um tijolo em cada canto, e ali distribuíam coisas à venda. Eu parava e ficava computando. 
 
Um par de tênis usados, quatro torneiras enferrujadas, lápis de todos os tamanhos e às vezes sem ponta, óculos arranhados, sandálias havaianas às vezes desemparelhadas, um calidoscópio, três canecas de louça, dois pratos de ágata, um álbum de fotos, quatro sutiãs, vários gibis da Mônica. 
 
A vendedora era às vezes uma mulher de seus 60 anos, sentada no meio-fio, pano amarrado na cabeça, cigarro no dedo. Bastava a gente parar e ela abria um sorriso incompleto e fazia um gesto largo abrangendo tudo: 
 
-- Pode olhar, meu fio!... Pode escolher! 
 
O brasileiro acredita que existe comprador para tudo. E deve mesmo existir comprador para alguma daquelas coisas, porque senão aquela senhora não se animaria a descer a ladeira de Santo Amaro e expor seus cacarecos-relíquia. 
 
Alguma coisa ela devia vender! E no fim do dia, ao recolher aquela enorme trouxa sacolejante, podia parar ali mesmo na Padaria da esquina e comprar 3 ou 4 pães. Só quem já precisou de um pão sabe o que valem três ou quatro. 
 
No outro dia eu passava e mais adiante estava uma lona também sortida, vigiada por um guri de boné pra frente com uma marmitinha do lado.
 
Uma panela de pressão com tampa, um oratório de madeira faltando uma banda, três pentes e uma escova, um mapa do Brasil plastificado, duas tampas de ralo de pia, um montinho de camisetas passadas a ferro, alguns passarinhos de plástico, um chapéu preto com peninha na fita, um colete de seda, um copo de liquidificador, uma imagem do Padre Cícero, um desentupidor de pia, alguns cadernos de espiral cheios de lições copiadas, uma gravata borboleta. 



 
Existe uma lei não-escrita do comércio que diz mais ou menos assim: se você tem 200 coisas para vender e são 200 cachimbos, você só atrai um público, o dos compradores de cachimbo. Mas se você tem 200 objetos para vender e ali tem cachimbo, vaso de louça, livro, anágua, copo, prato, chinelo... você tem mais chance de vender alguma coisa. 
 
Variedade rima com oportunidade. 
 
Claro que isto não era somente na Glória. A minha querida Rua do Catete era mostruário permanente para vendedores de livros e de elepês de vinil que viram várias vezes a cor da minha carteira. Ainda hoje começa ali um próspero mercado-persa, na esquina de frente para o MacDonalds e de quina para o caldo de cana. Mas daí em diante já são tendinhas, são barraquinhas que vão até o Cine São Luiz. Já é um comércio mais profissionalizado, mais com-estrutura. 
 
O que me atrai são as lonas e as cobertas de plástico, estendidas no chão, ao ar livre. Talvez porque me evoquem os vendedores de folheto de cordel na feira de Campina. Folhetos, aliás, que rarissimamente vi pendurados em cordéis. Sempre os vi espalhados no chão com a capa pra cima, o vento da manhã fazendo drapejarem as páginas, como pequeninas bandeiras do país da imaginação. 
 
Pois é, fico poético quando vejo a poesia dessa esperança mercantil, dessa confiança de que basta expor na calçada uma coleira-de-cachorro sem cachorro para vendê-la. Há de haver em algum lugar da cidade uma pessoa com cachorro e sem coleira, capaz de parar, erguer as mãos pro céu e dizer: “Mas olhe só que sorte a minha!...” 
 
Uma coleira-de-cachorro sem cachorro, um par de bibelôs de pastorinhas, quatro canetas-tinteiro uma sem tampa, dois pares de sapato-alto feminino, um ralador de cozinha, um estetoscópio enferrujado, uma pilha de disquetes flexíveis, um cinturão com fivela redonda, um chuveiro Lorenzetti, uma bandeja retangular de plástico, uma chupeta de bebê. 
 
Outras minas inesperadas, mas promissoras, são os arredores da Praça da Cruz Vermelha (onde fica o Instituto do Câncer; arredores de hospitais são focos permanentes de aglomeração), as imediações da Central do Brasil, as saídas do metrô do Largo do Machado, alguns trechos de calçada larga na Rua México ou Graça Aranha... 
 
Uma bola de vôlei meio murcha, um monitor empoeirado, uma vitrola portátil com tampa, um espremedor-de-laranja de vidro, uma sombrinha estampada, uma figa da Guiné em madeira, uma pilha de máscaras de carnaval, quatro benjamins, um ferro elétrico, uma viseira verde de revisor, um porta-toalhas de madeira entalhada, uma pilha de CDs sem capa, meia dúzia de frascos de remédios, um telefone preto com fio, uma gravura emoldurada de Santa Luzia, vários rolos de fio elétrico de diferentes tipos, um porta-jóias em ferro fundido. 
 
A necessidade de vender alguma coisa por alguns trocados faz o pessoal arrebanhar essa troçada, trazer com esforço, arrumar com carinho, exibir com esperança. Se a gente pergunta, eles dão de ombros e dizem: “Nunca se sabe. Pode ser que interesse a alguém.” 





Um sociólogo argumentaria, com certa razão, que essas pessoas veem-se a um passo da mendicância, mas relutam em entregar-se a ela. Em vez de pedir, preferem oferecer algo em troca, preferem sentir que ainda têm algum poder de barganha, ainda participam de transações equitativas, toma lá, dá cá. Não é esmola. 
 
Isso constitui uma faixa muito específica do conceito “comerciante”, da rubrica “comerciante”. Não é simplesmente o cara habilidoso e lucreiro. Não é simplesmente o cara bonachão e regateador. Não é simplesmente o cara raposa e impiedoso com o vacilo alheio. Não é simplesmente o cara solene e crente de que está cumprindo uma missão social. 
 
É a pessoa que percebeu os mil mecanismos randômicos que movem o mundo e se entregou a eles, feliz como quem preenche com uns números quaisquer as dezenas da loteria, como quem faz sua aposta onírica na mesinha do bicho. 
 
Tudo é acaso, tudo é sorte e azar, tudo paira numa neblina de possibilidades. e tudo despenca na bigorna de uma surpresa. 
 
Não sabemos o que vai vender, nem quem vai comprar. Temos aqui os nossos produtozinhos, eles são espalhados e expostos ao dedo indicador do Acaso. Não sabemos se tem comprador pra tudo. Para alguma coisa, tem. 
 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

5157) "Ainda Estou Aqui" (27.2.2025)




O filme de Walter Salles Jr. é um filme sobre a memória, o apagamento, o esquecimento, etc., porque afinal de contas trata-se da adaptação do livro em que Marcelo Rubens Paiva conta como se deu o sumiço do seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, em 1971, por obra e graça da ditadura militar. 
 
Marcelo, aliás, surgiu com outro livro de memórias, Feliz Ano Velho, em que narrava um pouco dessa história mas, principalmente, o período que se seguiu ao acidente que o deixou tetraplégico. O livro é excelente, foi um best-seller da década de 1980, é um livro formador para minha geração – e aí tenho que fazer uma traquinagem nas contas numéricas, porque Marcelo Rubens Paiva, apesar de mais novo do que eu, publicou primeiro, e seu livro fez parte das minhas “leituras formadoras”. 




Não é só memória, no entanto, ou melhor, é isso – e tudo o mais que está enganchado nisso, emaranhado, grudado, acumulado, fazendo parte disso. 
 
A cabeça de quem escreve é uma mistura de xadrez, tômbola, e biscoito-da-sorte. Um pensamento desencadeia algumas reações imprevisíveis, associações de idéias ou de imagens, e a gente escreve, como quem copia um ditado, sem ter tempo de enxergar quem está ditando. 
 
Isto talvez ajude a explicar uma palavra aleatória que usei no primeiro parágrafo deste texto. Comecei pensando em ir noutra direção, mas agora vou pegar essa transversal, depois volto à avenida. 
 
A palavra é “sumiço”, uma palavra que uso rarissimamente, e que só aparece no meu vocabulário quando pretendo me referir ao livro do francês Georges Perec La Disparition (1969), frequentemente citado neste blog. 



 
É o famoso “romance onde não aparece a letra E”. O livro foi publicado em inglês como A Void, em italiano como La Scomparsa e no Brasil, em tradução de Zéfere, como O Sumiço (Ed. Autêntica, 2015). 
 
O livro conta o desaparecimento de um indivíduo chamado Anton Voyl e a busca desesperada de seus amigos para localizá-lo. Aos poucos, um dos significados da história vai se esclarecendo: Voyl significa “voyelle”, (“vogal”). O livro acontece em um mundo de onde a letra “E” desapareceu e todo o resto das coisas que existem teve que se desarrumar e arrumar de novo, se reorganizar, se recombinar, para preencher aquela ausência. 
 
O livro tem muitas outras coisas, mas para o presente caso serve como ilustração. Quando se subtrai algo essencial ao idioma, à fala, à vida, à conversa humana (à literatura...), e essa subtração é irreversível, não tem jeito a dar. O mundo inteiro tem que se arrumar de novo para preencher aquela ausência, aquela desaparição, aquele vazio, aquele sumiço. 
 
E mais: sem ter plena consciência do que aconteceu – sabe-se apenas que tudo agora é assim e talvez tenha sido sempre assim. O mais cruel de um sumiço é quando todo mundo precisa se acostumar a essa ausência e acaba mesmo pensando que “é, foi sempre assim, está tudo normal, não sumiu nada nem ninguém”. 
 
Daí (voltando à avenida principal) a importância da história central contada em Ainda Estou Aqui. 




(Eunice Paiva) 

 
Não li o livro de Marcelo Rubens Paiva e não sei os contextos em que a frase do título aparece. Quando soube do filme e todo o fuzuê que ele gerou em torno de si (milhões de ingressos, indicações ao Oscar, etc.) compreendi que essa frase era uma frase-símbolo de Eunice Paiva, a viúva-sem-ser, a mulher que passou décadas infernizando a vida dos militares, da polícia, do sistema judiciário, da imprensa, como quem diz: “Não, não fui embora, ainda estou aqui. Olha eu aqui de novo. Vim reclamar outra vez. Vim bater na porta outra vez. Tem resposta? Tem explicação pra mim? Tem justificativa? Alguém pode me contar de verdade o que aconteceu? Alguém pode me fazer a fineza de dizer o que aconteceu com meu marido?. 
 
A interpretação de Fernanda Torres é excelente e merece todo o reconhecimento que tem obtido. Não pude deixar de lembrar dela em Terra Estrangeira, meu filme favorito na obra de Walter. Duas personagens, dois mundos tão distantes e parecidos. 
 
Por outro lado, gostei muito de Selton Mello como Rubens Paiva, com uma semelhança notável com o personagem. Bonachão, tranquilo, sorridente, sério, firme, ele ocupa a primeira meia hora de filme (mais ou menos), construindo uma presença maciça sem esforço. Selton Mello é um dos atores mais descontraídos que há, larga as falas como se estivesse improvisando tudo, naquele mesmo instante.




E é essa presença tão carismática que é subtraída ao filme a partir da chegada dos policiais da repressão, e sua partida para o quartel. Aliás, uns policiais extremamente plausíveis para quem viveu aquela época. Não são soldados com farda do Exército e cabelo à escovinha. Não. É aquele contingente dos lumpen-repressores, cabeludos, barbudos, desconfortáveis. O tipo do executor pegado-no-laço para fazer trabalhos sujos e depois sumir.
 
Perguntado sobre sua ocupação, um deles diz: “Sou especialista em parapsicologia”. Gente com alguma escolaridade, mas sem planos além da sobrevivência, gente sem ideologia além de leituras ao acaso e meia dúzia de preconceitos herdados sem refletir. Gente facilmente cooptável por qualquer tipo de regime, em troca de algum salário e – principalmente – em troca do Poder de amedrontar outras pessoas.



 
Depois que Rubens Paiva desaparece, quebra-se aquela felicidade familiar que orbitava em torno dele. (E aí não é preciso dizer que todo passado é utópico para quem escolhe recordá-lo assim. Por que não posso achar que algum dia já fui feliz?!...)   
 
E nesse momento o título do filme muda da origem e de tom. Não é mais Eunice quem fala. É como se fosse o marido e o pai dizendo, do outro lado de sabe-se-lá-que-abismo: “Ainda estou aqui. Ainda estou com vocês, pelo menos enquanto vocês lembrarem de mim. Continuem falando em mim, para que eu continue a estar com quem não esqueceu”.



E a luta da família fica não somente como uma luta pela Justiça, mas uma luta pela Presença, pela continuação daquela presença que para eles era preciosa.
 
Uma presença que vaza, de fora para dentro, mesmo em imagens onde o personagem não aparece. Eunice é conduzida encapuzada pelos corredores escuros do quartel, e ouve os faxineiros derramando baldes de água no chão do corredor e esfregando o piso com rodos. Esfregando o que?  Sangue, mas de quem?
 
Na hora da mudança forçada para São Paulo, uma das filhas some, e a mãe vai encontrá=la sozinha, na areia da praia, olhando em despedida o mar de Ipanema. Sim, é um adeus a Ipanema, por alguém que provavelmente gostaria de jamais ir embora de Ipanema. Mas é a presença do pai no mar, vazando para dentro da cena. Será que foi neste mar que jogaram meu pai?



 
Também muito se falou da reconstituição “de época” do filme, e imagino o trabalhão que deu compor aquelas ruas, fachadas de lojas, móveis, automóveis, roupas, detalhe de arquitetura. Vim ao Rio de Janeiro pela primeira vez em 1970, já cineclubista e universitário, olhos arregalados para aquilo tudo, sem imaginar que viveria aqui mais da metade da minha vida. Existe algo de aconchegante na visão daqueles fuscas, daquelas camionetes, daqueles cabelos. O mundo já foi assim.
 
Por outro lado, o “clima de época” se solidifica em outro tipo de cena. As cenas dos olhares de esguelha quando passa um caminhão de soldados, quando se percebe uma blitz lá adiante, quando a TV anuncia mais um atentado, quando os amigos se reúnem num apartamento para trocar novidades em voz baixa.
 
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
(Carlos Drummond, “Nosso Tempo”, A Rosa do Povo)

Tempos que nunca passarão de todo, infelizmente, porque não há utopia alguma no horizonte futuro do radar.
 
Vendo o filme de Walter Salles me veio à mente um filme iraniano recente, A Semente do Figo Sagrado (Mohammad Rasoulof, 2024). Ali se vê também a imagem de uma mãe e uma filha, encapuzadas, sendo levadas pelos corredores sem luz de uma prisão estatal, para interrogatório. É também uma tragédia familiar, mas de outra natureza. O pai é juiz, recebe uma promoção no Tribunal Revolucionário de Teerã, e a família dá um pulo bacana em estilo de vida, moradia, roupas, etc.
 
Só que aos poucos a mãe e as filhas ficam sabendo que, para isto, o marido aceitou assinar sentenças de morte (contra os inimigos do regime) sem sequer examinar os autos. A filha precipita a tragédia final ao trazer às escondidas para dentro de casa uma amiga, “estudante subversiva”, ferida durante uma manifestação. E o pai descobre.
 
Cada família infeliz é infeliz à sua maneira, dizia um escritor. Só que nem toda família a quem sobrevém uma tragédia é necessariamente uma família infeliz. Uma tragédia que não pode ser revertida precisa ser assimilada. A família tem um milhão de coisas práticas para resolver, tem uma memória para salvar, tem uma Presença para manter junto a si. A imprensa quer uma foto, mas precisa (ah, imprensa) de uma foto triste. Eunice diz: “Sorriam”.
 



 






quarta-feira, 6 de novembro de 2024

5120) "Fullgás: a serpente da década de 80" (6.11.2024)

 


(ilustrações: obras da exposição)

 

A década de 1980 foi uma época curiosa. (Qual década não é?)  Cada pessoa vive essas épocas de maneira diferente, é claro. Me lembro de já ter lido uma entrevista com uma dançarina russa do Balé Bolshoi; perguntaram-lhe qual foi o tempo mais feliz de sua vida. Ela disse que foram os primeiros anos da década de 1940. O entrevistador espantou-se: “Durante a II Guerra Mundial, com todo aquele horror, fome, dificuldades?...”  E ela disse: “Naquele tempo eu era jovem, bonita, todo mundo gostava de mim...” 

Eu era jovem na década de 1980; não direi que era bonito, mas era confiante. Foram os anos em que comecei a vir de maneira constante ao Rio de Janeiro e São Paulo, e acabei me fixando no Rio a partir de 1982. 

E foram – acho que ninguém esquece disto – os últimos anos da ditadura militar, com o moribundo e escoiceante governo do general João Figueiredo, seguido pelos Anos Sarney, e depois os anos Fernando Collor. Inesquecíveis. 


 

Na minha cabeça, e por critérios mais históricos do que numéricos, a “década de 80” começou na Lei da Anistia de agosto de 1979 e encerrou-se em dezembro de 1992, com a renúncia de Fernando Collor de Mello. 

Foi também o tempo do Rock-BR, e guardo com carinho a memória das vezes em que vi ao vivo, a poucos metros de distância do palco, os primeiros shows de Cazuza e o Barão Vermelho, os Titãs, os Paralamas do Sucesso, a Blitz, RPM, Renato Russo (que pena, nunca vi ao vivo o Legião Urbana completo), Lulu Santos, Celso Blues Boy... A lista é longa. 

Foi também a década em que mergulhei profissionalmente na ficção científica, com a publicação de O Que é Ficção Científica (Brasiliense, 1986) e A Espinha Dorsal da Memória (Caminho, 1989), além de farta colaboração nos fanzines. (Sim – era a época dos fanzines, que foram uma espécie de Curso Preparatório Para a Internet.) 


 

A exposição FULLGÁS, com curadoria de Raphael Fonseca juntamente com Amanda Tavares e Tálisson Melo, estará no CCBB do Rio de Janeiro de 2 de outubro deste ano até 27 de janeiro de 2025.  É um balanço das artes visuais brasileiras dos anos 1980, dividido em cinco partes, tituladas a partir de canções do Rock-BR daquele período: "Que país é este" (1987), "Beat acelerado" (1985), "Diversões eletrônicas" (1980), "Pássaros na garganta" (1982) e "O tempo não para" (1988). 

Por uma melancólica coincidência, o título da própria exposição alude a uma canção (gravada por Marina) do poeta Antonio Cícero, falecido recentemente. 

A convite do curador fiz um dos textos de apresentação para o Catálogo, “O Mistério da Mídia Ambiente”, referente à seção “Diversões Eletrônicas”. 


 

(...) Aquela foi a nossa última década sem Internet, nossa última década de mundo opaco, sem conexões, sem telepatia telefônica, sem esta vasta sinfonia de sinapses coletivas numa teia de máquinas cada vez mais numerosas, menores e mais baratas.

 

O futuro, como quse sempre, chegou primeiro nos livros, e só depois nos gadgets vídeo-digitais-eletrônicos. O ciberespaço e a realidade virtual estavam previstos, à maneira vaga e contraditória das verdadeiras profecias, na trilogia “Neuromancer” de William Gibson (Neuromancer 1984, Count Zero 1986 e Mona Lisa Overdrive 1988). 

 

Por esse portal se esgueiraram as mais variadas tecnologias da mente: o chip implantado, as redes neurais, todas as formas de simbiose entre os microcircuitos integrados e as pequeninas células cinzentas. (...) 

(do Catálogo)



As artes plásticas, ou artes visuais, são uma Casa onde nunca entrei. Sempre olhei as coisas que tem lá dentro – mas olhei da calçada, porque os janelões são imensos, as vidraças enormes. 

Para um servo da palavra, como eu, um quadro é misterioso porque tem um impacto instantâneo. Vai direto a alguma medula sensível do inconsciente coletivo. O olho bate, a mente responde. A gente não entende por que motivo está se sentindo daquela forma. Um ou dois minutos depois a cabeça pensante começa a funcionar e a gente passa a elaborar explicações, teorias, associações de idéias, citações. 

Os fios da memória coletiva podem ser atados continuamente uns aos outros, sem cessar, porque com jeito tudo se compara,  tudo se confronta e se avalia.  Toda arte acaba sendo envolvida num casulo de possíveis explicações e problematizações, que a protege e a assimila. Mas o primeiro impacto é sempre irracional: o olho e o cérebro dialogando entre si sem passar pela alfândega fiscalizadora das ideologias estéticas. Estas só chegam depois, correndo, arquejando, tentando carimbar e rubricar um fato já consumado. 




Em algum momento do meu texto fiz alguma referência indireta à obra de J. G. Ballard, autor que descobri durante a década de 1980, ao tempo em que descobria o som de Arrigo Barnabé e Fausto Fawcett. A obra de Ballard é um contraponto a essa década de espetacularização da política – os anos Reagan e os anos Thatcher brandindo iscas de enriquecimento instantâneo. 

Ballard escreveu uma série de romances imaginando o  fim do mundo de formas diferentes: The Wind from Nowhere, The Drowned World, The Crystal World, The Drought... Foi a década que de certo modo desmantelou a Guerra Fria e seus terrores e a substituiu por uma versão plastificada de um Paraíso do consumo conspícuo e do lazer profissional. Os contos de Ballard, repletos de artistas plásticos, arquitetos, escritores, gente das artes cênicas e da publicidade, são uma ficção científica voltada para o contemporâneo – aquilo que William Gibson, que surgiu logo depois dele, chamava de “a FC que está cinco minutos no futuro”. 


 

A serpente era a mesma, mas sua pele nova era composta por milhões de escamas de cristal líquido, cada uma delas um pequeno écran demoníaco, personalizado, piscando plimplins. Tecendo mandalas e fractais em cores cítricas, em néons, numa computação gráfica engatinhando as primeiras ousadias. 

 

Nas ruas, a floração de peles tatuadas emergindo à luz do sol ou do metrô, em contraponto aos muros e fachadas cada vez mais cobertos de pichações inarticuladas, logomarcas em forma de garranchos pré-verbais, “rabiscos sem intenção alfabética”. 

(do Catálogo)

 


 

No Brasil, foi a década pós-Anistia, a euforia dos retornados, os últimos tropeções e perdigotos do governo do general Figueiredo, a eleição e via-crucis de Tancredo Neves... E finalmente a posse a-contragosto e a gestão claudicante de José Sarney – solução brasileira para o velho problema de “é preciso mudar para que tudo permaneça na mesma”. 

Todos nós temos uma certa inclinação a reter do passado distante o que convém à nossa saudade ou ao nosso trauma pessoal. A arte é nossa memória coletiva (não a única, por certo); temos que reencontrar nela não só o que queremos lembrar, mas o que queríamos ter esquecido, o que de fato esquecemos, o que estamos sabendo somente agora... O Passado não cessa de nos surpreender. 


 

Não importa: o afrouxamento da Censura, pelo menos, foi um oxigênio revigorante para a música, a literatura, as artes plásticas. O cinema teria que aguardar sua Retomada para a década seguinte, mas as cidades se incendiavam ao som do Rock-BR – cujo repertório serve de guia às cinco seções em que esta Exposição se organiza. 

 

High tech and low life. Alta tecnologia nas mãos de gente de baixa classe social. O motto dos cyberpunks parecia ter sido feito olhando para o Brasil, para esta patriamada disposta a “colocar nas mãos do índio o botão da informática”. O Brasil era um Chevrolet Malibu 1964 levando na mala alguma coisa brilhante, preciosa e mortal, como em Repo Man (Alex Cox, 1984). Um país-geringonça com manutenção precária, arrastando consigo um latifúndio de tesouros. Tesouros que ele ou não conhece ou não sabe como aproveitar. 

 

A serpente mudou de casca sem deixar de ser serpente. Deixou e recolheu pelo caminho ditaduras tecnocráticas, cristianismo neo-liberal, milagres truculentos, constituições quebradiças... Fugindo sempre ao eterno perseguidor que a ameaçava: o povo que a devorava viva enquanto era devorado vivo. 

(do Catálogo)

 

 


“Nossa linda juventude, página de um livro bom...”  O livro era bom, mas, como o Livro de Areia do conto de Borges, depois que o livro se fecha ninguém consegue achar de novo aquela página. 

 

 



quarta-feira, 3 de julho de 2024

5078) As prostitutas civilizatórias (3.7.2024)

 

(ilustração: Henri de Toulouse-Lautrec)
 
 
Nas variadíssimas anotações que constituem o volume Meu Mestre Imaginário (Ed. Record, 1982), Autran Dourado faz esta reflexão, que hoje seria (será) considerada politicamente incorreta:
 
Envelheço a olhos vistos. “Nos olhos das mulheres, no espelho do meu quarto, é que vejo a minha idade”, diz uma canção popular que outro dia escutei na rádio. (...) Aquele futurismo, como eu pensava e falava então, era uma bobagem a mais, uma daquelas em que somos useiros e vezeiros – dernier bateau. Da França importávamos quase tudo, das prostitutas que nos ensinavam a copular, e de onde vinham os mais finos vinhos, a Anatole France. (p. 100) 
 
O sambinha de Silvio Caldas citado por ele é mais uma dessas nostalgias pouco justificáveis: “Ah, eu daria tudo para poder voltar aos meus vinte anos!...”  
 
Eu não tenho nada contra essa idade, na qual considero que estava passando um dos períodos mais estimulantes de minha vida. Mas voltar lá pra quê?!  Quando ouço esses lamentos, lembro a frase ácida e impiedosa de Paul Nizan, na abertura de Aden Arabie, um dos grandes começos-de-romance do século 20: 
 
Eu tinha vinte anos. Não admito que alguém diga ser esta a época mais bela da vida.
 
“Meus Vinte Anos”:
https://www.youtube.com/watch?v=qhlRwPDmOuA
 
A simpática canção de Sílvio Caldas, chamado em sua época “o Caboclinho Querido”, me traz à mente a imagem do sujeito que começa a grisalhar o cabelo e começa também a se olhar de perfil no espelho, tentando calcular os avanços de sua protuberância abdominal, e interpretar o olhar de soslaio de alguma beldade com quem se acostou.
 
Será mesmo nos olhos das mulheres que os homens tanto temem se ver envelhecidos, diminuídos, aviltados?  O machismo consiste (entre outros elementos, até mais tóxicos) numa imensa auto-estima. Ela nos injeta a presunção de que estamos sempre certos, devemos nos sentir sempre adequados, somos sempre satisfatórios. Por que tanta angústia, então?
 
E aí chegamos à frase inicial do mestre imaginário de Autran Dourado. Porque a opinião das mulheres tem valor e peso, ora se tem; talvez não a da “patroa” mortiça e obediente que aguarda o cidadão em casa, com a mesa posta e a cama forrada, mas a opinião da cocotte (valha o termo; Autran Dourado o reconheceria) sofisticada, maliciosa, semi-elegante, que estalava seus saltos-altos na calçada da Rua do Ouvidor, nas salas de espera dos teatros, no piso mosaicado das confeitarias e dos cafés elegantes.


 
(ilustração: J. Carlos) 


Porque é a essa época que o romancista mineiro se refere, quando diz que importávamos da França as prostitutas que nos ensinavam a copular. É uma maneira crua de dizer algo mais complexo e, curiosamente, mais bonito.
 
Num dos seus melhores e menos citados romances, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Lima Barreto comenta extensamente, no Capítulo 9 (“O Padrinho”) o afluxo de mulheres-da-vida estrangeiras que aportam no Brasil para fazer fortuna (ou para não morrer de fome, o que também não é má idéia).
 
A certa altura, o narrador fictício da obra, Augusto Machado, lembra um comentário do seu mestre Gonzaga de Sá, segundo o qual “a mulher fácil é o eixo da vida”. São mulheres “cheias de jóias, com espaventosos chapéus de altas plumas”, e vendo-as passar, Augusto recorda os comentários de Gonzaga:
 
Recordei que aquelas mulheres todas tinham vindo vazias, com alguns vestidos de segunda mão e muitas malas ocas, mas chegavam com sua alvura polar, com as faces rubras, com seus estranhos olhos azuis e o prestígio das velhas raças de que se originavam.
 
São louras e européias, e por enquanto é o que basta. Seduzem com seu charme os provincianos enriquecidos, os comerciantes exibicionistas, os brasileiros meio truculentos e deslumbrados, tímidos diante de uma riqueza impalpável que aos seus olhos só a Europa parece ter.
 
Há uma energia poderosíssima nelas todas e nas coisas de que se veste; há atração, fascinação para esquecimento de nós mesmos e apagamento da nossa personalidade na luminosidade dos seus olhos. É mágico e sobrenatural. Esvaziam-se os pecúlios pacientemente acumulados; vão-se as heranças que tantas dores resumem, e os cofres das repartições e dos bancos sangram... (...)
 
Lembrei-me então duma frase de Gonzaga de Sá. Disse-me ele uma vez no Colombo:
– Estás vendo estas mulheres?
– Estou, respondi.
– Estão se dando ao trabalho de nos polir.
De fato, elas nos traziam as modas, os últimos tiques do Boulevard, o andar dernier cri, o pendeloque da moda – coisas fúteis, com certeza, mas que a ninguém é dado calcular as reações que podem operar na inteligência nacional. A sua missão era afinar a nossa sociedade, tirar as asperezas que tinham ficado da gente dada à chatinagem e à verniaça dos escravos soturnos que nos formaram; era trazer aos intelectuais as emoções dos traços corretos apesar de tudo, das fisionomias regulares e clássicas daquela Grécia de receita com que eles sonham.

 



 
A distância histórica e cultural entre os dois continentes compensa, a favor dessas mulheres, a distância social e econômica (além da condição de gênero) que as submete ao homem brasileiro. Eles têm o dinheiro de que elas precisam; elas têm, além do chamariz erótico, uma finesse que eles buscam meio às cegas, não pela finesse em si, mas por tudo que a produz e a acompanha. Buscam ascensão social, e o exibicionismo masculino dos conquistadores.
 
(...) Não era só. Os maridos que as frequentassem levariam aos lares, ao conselho daquelas estrangeiras, o sainete mais moderno, o bibelô última moda, e os móveis, e o tecido, e o chapéu, e a renda. Assim, ateariam o comércio e estimulariam o contato entre a nossa terra e os grandes centros do mundo, requintando o gosto e o luxo. Voltariam com o ouro, as que escapassem aos flibusteiros; mas espalhariam o Brasil sob o aspecto malévolo, é de crer – mas espalhariam... E a civilização se faz por tantos modos diferentes, vários e obscuros, que me parece ver naquelas francesas, húngaras, espanholas, italianas, polacas bojudas, muito grandes, com espaventosos chapéus, ao jeito de velas enfunadas ao vento, continuadoras de algum modo da missão dos conquistadores.
 
Não longe dali, em São Paulo, essa influência civilizatória era tratada por um ângulo diferente por Mário de Andrade. Em Amar, Verbo Intransitivo (1927), ele conta as manobras de um paulistano rico, de Higienópolis, para tirar a virgindade do filho mais velho, contratando uma governanta alemã sob o pretexto de ensinar alemão e piano às crianças. (O livro foi adaptado ao cinema como Lição de Amor, em 1975, por Eduardo Escorel, com Lillian Lemmertz no papel da governanta.)
 
Lição de Amor:
https://www.youtube.com/watch?v=kb0LQ40i5Ks
 
Fräulein Elza é uma mulher discreta, educada, com os pés no chão e o juízo no lugar. Insiste com Sousa Costa, o chefe da família, para que explique à esposa a verdadeira razão de sua presença naquela casa: “Certamente não irei se sua esposa não souber o que vou fazer lá. Tenho a profissão que uma fraqueza me permitiu exercer, nada mais nada menos. É uma profissão.”
 
O livro de Mário é um romance espaventoso, errático, cheio de cambalhotas; e tem um “Narrador Interferente” dos mais divertidos, aquele narrador onisciente que conversa machadianamente com o leitor e usa o pronome “eu” o tempo inteiro (com mais estardalhaço e imposição do que Machado o fazia).



(Marcos Taquechel e Lillian Lemmertz, em Lição de Amor)
 

Ele mostra as pequenas e grandes hipocrisias dos seus paulistanos endinheirados, mas o livro vale também por adotar em grande parte do tempo o ponto de vista da alemã. Seus planos, seus sonhos, seus parâmetros.
 
Quando pronta, esperou imaginando, encostada no lavatório. Ganhava mais oito contos... Se o estado da Alemanha melhorasse, mais um ou dois serviços e podia partir. E a casinha sossegada... Rendimento certo, casava...
 
O narrador visita os sentimentos da personagem, e depois a comenta do lado de fora. Executa aquele movimento irrequieto próprio da mente de Mário de Andrade, cheio de dribles de informalidade narrativa. E ele não deixa de comentar os pensamentos e as atitudes do que ele próprio chama as “raças superiores”.
 
Mas não tem dúvida: isso da vida continuar igualzinha, embora nova e diversa, é um mal. Mal de alemães. O alemão não tem escapadas nem imprevistos. A surpresa, o inédito da vida é pra ele uma continuidade a continuar. Diante da natureza não é assim. Diante da vida é assim. Decisão: Viajaremos hoje. O latino falará: Viajaremos hoje! O alemão fala: Viajaremos hoje. Ponto-final. Pontos-de-exclamação... É preciso exclamar pra que a realidade não canse...
 
Os europeus civilizam os latino-americanos? As mulheres civilizam os homens? São perguntas que, nesse nível de generalizações desajeitadas, não levam a nenhum lugar por onde já não tenham passado. Quando o Mestre Imaginário de Autran Dourado dizia qque as francesas “nos ensinaram a copular” certamente tinha em mente algo mais complicado do que um mero catalogo de técnicas sexuais.
 
A profissão dela se resume a ensinar primeiros passos, a abrir olhos, de modo a prevenir os inexperientes da cilada das mãos rapaces. E evitar as doenças, que tanto infelicitam o casal futuro.
 
Numa fábula de Pigmalião às avessas, é a essa mulher refinada e pobre que cabe esculpir a personalidade de um herdeiro tosco e rico. Tarefa (ironicamente) ainda mais importante quando ela descobre que o menino Carlos, aos dezesseis anos, já era bem sabidinho e já havia, levado por companheiros, frequentado “uma qualquer, rua Ipiranga...



 

 




quinta-feira, 18 de abril de 2024

5053) Drummond: "Outubro 1930" (18.4.2024)




Entre os poemas do livro de estréia de Carlos Drummond (Alguma Poesia, 1930), este longo poema parece se destacar de todos os demais, e ao mesmo tempo permanecer invisível. Certamente estou “comendo mosca” estes anos todos, mas de tantas análises e críticas que já li sobre a poesia de Drummond lembro de pouquíssimas menções a “Outubro 1930”. 
 
É um poema um tanto longo, embora distante de ser um dos mais longos de Drummond. É um dos mais longos deste livro, contudo, e sua principal característica é a sua forma heterogênea, aparentemente desconjuntada. Uma estrutura quebrada, feita (propositalmente) de pedaços que parecem apenas se justapor uns aos outros, sem se encaixar com justeza. 



De propósito, é claro. O mês de outubro de 1930 foi o mês da famosa “Revolução de 30” que derrubou o governo de Washington Luís e levou Getúlio Vargas a passar 15 anos no poder. (Depois ele voltou, mas é outra história). A gota dágua, o fato desencadeador desse conflito militar foi o assassinato do “presidente” (governador) da Paraíba, João Pessoa, morto pelo seu desafeto João Dantas em 26 de julho. 
 
Estes fatos se articulam de maneira especial com a obra de Drummond, nesse tempo um poeta inédito de 28 anos (que ele completaria em 31 de outubro). 
 
Na “Cronologia” que figura em sua Obra Completa da Ed. Aguilar (1967), lê-se, no item referente a esse ano: 
 
Auxiliar de gabinete de Cristiano Machado, Secretário do Interior, ao irromper a Revolução de Outubro, que transforma aquela paragem burocrática em centro de operações militares; passa a oficial-de-gabinete, quando seu amigo Gustavo Capanema substitui Cristiano Machado. 
 
Drummond pegou em armas, no conflito? Certamente que não. O poema fala nas mortes, nos soldados, nas trocas de tiros, mas as imagens autobiográficas provavelmente são trechos assim: 
 
(...)
De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado-Maior um feixe de telegramas contendo, comprimida, a trepidação dos setores. O radiotelegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era a vitória ou a derrota. Nós descansávamos, jogados sobre poltronas, e abríamos para as notícias olhos que não viam. olhos que perguntavam. Às 3 da madrugada, pontualmente, recomeçava o tiroteio. 
 
É a rotina dos que, distantes das trincheiras, se encarregam das comunicações. Alguém já disse (nesse contexto bem século 20) que, na guerra, um telegrama na hora certa vale tanto quanto uma bala no lugar certo, e é verdade.  Drummond é o “funcionário deitado” a que ele próprio se refere; e seu poema, mesmo com as habituais ironias de jovem irreverente, tem o tom de quem está dentro dos acontecimentos, e não apenas observando-o de fora. 



(Recife, 1930)
 

Há um trecho especialmente real e tocante, um desses “flashes” que dispensam teorizações e mostram a crueza da guerra, como um Gif-animado em que vemos a mesma cena brutal, sem som, repetindo-se indefinidamente: 
 
Olha a negra, olha a negra,
a negra fugindo
com a trouxa de roupa,
olha a bala na negra,
olha a negra no chão
e o cadáver com os seios enormes, expostos, inúteis.
 
Morte gratuita, no meio da rua, que pelo menos a mim traz à lembrança uma cena famosa do cinema, a morte da personagem de Anna Magnani em Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini. 
 
Aqui, a cena:
https://www.youtube.com/watch?v=FNnSUpm7CgM
 
Além do estado de guerra, emerge do poema um sopro de alerta histórico e geográfico, a sensação de “um Brasil se fazendo”, um país sendo consertado na-marra por quem se impacientou com sua situação até há pouco. Surge aqui, talvez pela primeira vez, uma imagem recorrente nos primeiros livros de Drummond: a enumeração de nomes de lugares, nomes talvez exóticos, de localidades remotas, mas que se somam uns aos outros e pressionam o poeta, como que dizendo: “Nós também somos Brasil.” 
 
A esta hora no Recife,
em Guaxupé, Turvo, Jaguara,
Itararé,
Baixo Guandu,
Igarapava,
Chiador,
homens estão se matando
com as necessárias cautelas.  
 
São os nomes que chegam nos telegramas. A guerra civil torna-se uma forma curiosa de irmanação patriótica, em que o poeta sente-se confusamente unido às pessoas desses lugares, de alguns dos quais certamente nunca ouvira falar antes da chegada dos telegramas de campanha. 
 
O poema tem um registro irregular, onde a agulha salta da angústia para a ironia, da compaixão para o desinteresse, e se encerra com um sentimento arraigado no poeta, uma mistura de ceticismo e resignação: 
 
Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.
Mas eles acordam e brigam de novo.
 
Fiquei sabendo que este poema apareceu apenas a partir da 2ª. edição do livro, e só então sua presença se encaixou no meu entendimento, porque me parece (não tenho informações mais precisas) que Alguma Poesia teve sua primeira edição antes do conflito armado. A “Cronologia” da Aguilar registra assim: 
 
1930.  Publica Alguma Poesia (500 exemplares), sob o selo imaginário de Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. A edição é facilitada pela Imprensa Oficial do Estado, mediante desconto na folha de vencimentos do funcionário. Amigos oferecem-lhe um jantar comemorativo, em que é saudado por Milton Campos. 
 
Do ponto de vista da técnica, o mais interessante deste poema é que ele, sozinho, inaugura na obra de Drummond um formato fragmentado a que o poeta iria recorrer várias vezes no futuro. Não se trata apenas de um poema longo (Drummond gosta de poemas longos), mas de um poema heterogêneo, composto de partes que do ponto de vista formal têm pouca relação entre si. 
 
“Outubro 1930” mostra, alternadamente, estrofes em verso e trechos em prosa. O verso não obedece a métrica fixa, mas reitera em cada linha uma extensão regular – é verso com intenção de verso, para maior contraste com o trecho seguinte, uma série de frases em prosa que parecem querer rebentar a camisa-de-força do verso para comunicar de forma instantânea a urgência dos acontecimentos. 
 
Esse tipo de estrutura heterogênea, misturada, irregular, tem a ver com uma certa concepção do poema que podemos talvez chamar de “cubista”, lembrando o costume de artistas como Pablo Picasso ou Georges Braque de colar, sobre a pintura a óleo, fragmentos meio aleatórios de folhas de jornal, fotografias, papéis de embrulho, provas tipográficas...  


(Picasso, Garrafa de Vieux Marc, Copo, Violão e Jornal, 1913)

 
Era uma pintura invadida e interferida por fragmentos indisciplinados do mundo moderno, “ruídos” que irrompem no interior da estrutura pacífica, milenar, da pintura clássica. Aqui, dá-se o mesmo com a poesia, cuja estrutura é forçada a assimilar a prosa não-poética do mesmo jeito que a sociedade era forçada a assimilar a guerra civil. 
 
Drummond continuou, ao longo da vida, a explorar esses poemas longos em que se misturam, como em colagens cubistas, poesia metrificada, prosa, poesia livre, trechos de diálogo, transcrições de documentos reais ou fictícios... 

Há bons exemplos da riqueza de recursos desse método em poemas como “O voo sobre as igrejas” (Brejo das Almas), “Nosso tempo” e “América” (A Rosa do Povo), “Os bens e o sangue” (Claro Enigma), “A um hotel em demolição” (A Vida Passada a Limpo) e certamente muitos outros. 



 




quinta-feira, 12 de maio de 2022

4822) "Não sou especialista, mas..." (12.5.2022)



A gente está vivendo um momento curioso na História da Opinião.
 
De um lado, todo mundo quer emitir uma opinião sobre qualquer assunto. Desde o preço do café até o filme do Batman, desde a guerra da Europa até a corrida espacial. E vai logo dizendo:
 
– Não sou especialista nisso, mas...
 
Ela pede desculpas por, não sendo especialista, ter a ousadia de emitir uma opinião sobre aquilo.  Mas, por quê? Será que só especialistas podem comentar sobre um assunto? Será que para comentar sobre a invasão da Ucrânia eu tenho que ser especialista em guerra, ou em geopolítica da Europa Oriental?...
 
Para comentar um prato culinário, é preciso ser chef? Para dar palpite sobre um romance recém-publicado é preciso ter Mestrado em Literatura da PUC ou na USP?
 
Eu tenho um certo número de assuntos em que dou palpites, teorizo, defendo idéias, questiono opiniões. Sou especialista em qualquer um deles? De jeito nenhum. E não sou justamente porque há dúzias de assuntos que me interessam. Como poderia me especializar em dúzias de assuntos?
 
Meus interesses flutuam. Às vezes eu passo anos sem ler um romance policial sequer, sem ouvir baião, sem ver um “filme cabeça”. Depois, tenho uma recaída braba. Por que? Não sei. São interesses pessoais, emotivos. Minha vida intelectual é afetiva. A faceta profissional é mera consequência.
 
Meu conhecimento é cheio de lacunas, de falhas estruturais, de coisas lidas às pressas na juventude e não revisitadas depois... Tenho consciência disso. Por isso já me vi constrangido mil vezes quando fui apresentado “E agora, vamos ouvir o especialista em Cantoria de Viola, Braulio Tavares...” Se eu pego o microfone e confesso que não o sou, as pessoas vão comentar: “Gente, como ele é modesto...” e outros vão dizer: “Que sujeito hipócrita.”
 
Nem uma coisa nem outra. Meu conhecimento é alternadamente empírico e teórico. Eu vejo algo interessante, passo vinte anos lendo aqui e acolá, até que um dia meto os pés e penso: “Peraí. Esse negócio é muito mais sério do que eu pensava. Preciso estudar esse troço pra valer.” Aí passo alguns anos estudando, depois volto à “fruição sem compromisso”, lendo só como leitor, sem categorizar, sem questionar... Vinte anos depois, estudo de novo... E la nave va.
 
O que me faz aceitar convites para dar palestras ou cursos, inclusive recebendo cachê, é o fato de que eu convivo com esses assuntos há muitos anos. Mas convivo pensando. Mesmo não tendo descoberto nenhum teorema-de-pitágoras que possa classificar como de minha autoria, não me importo. Se algum ouvinte estiver interessado no tema, eu posso indicar alguns caminhos-das-pedras. E sou (imagino ser) um bom popularizador de idéias complexas. E não sou nem um pouco modesto; pelo contrário.
 
Meu objetivo é ser capaz de explicar um assunto a quem entende dele menos do que eu, e ser capaz de fazer perguntas pertinentes a quem entende mais.
 
Minha mentalidade é aquilo que na discussões acadêmicas se classifica às vezes como “mentalidade jornalística”: capaz de falar superficialmente sobre 257 assuntos, sem poder se aprofundar em nenhum. Acho isso ótimo. A sociedade precisa de pessoas assim. Desde que elas saibam que são assim, e para que servem.
 
O problema (acho) é quando a pessoa diz:
 
– Não sou especialista nesse assunto, mas vocês todos estão errados e quem sabe o que está acontecendo sou eu.
 
Hoje, depois das profundas mudanças estruturais nas nossas linhas de comunicação coletiva (internet, redes sociais, smartphones, aplicativos de grupos, etc.) estamos oscilando entre dois polos.
 
De um lado, o Império dos Especialistas, uma tecnoburocracia regida, a golpes de bibliografia e sarcasmo, por acumuladores de títulos e de portfólios. Ali, um cidadão comum hesita antes de abrir a boca e dar um mero palpite, pelo receio de ser humilhado em público, além de esmagado por toneladas de currículo.
 
Do outro lado, a Babel dos Opiniosos, uma arena cheia de pessoas de microfone em punho, todas falando ao mesmo tempo, e cada uma delas imbuída não apenas do direito democrático de ter opinião sobre o que quer que seja, mas também do dever de bradar essa opinião cem vezes por dia, e não admitir que alguém a conteste.