quarta-feira, 15 de julho de 2026

5244) Os desiludidos do amor (15.7.2026)



 
É um lugar-comum da crítica e do jornalismo cultural contrastar a irreverência da poesia modernista pós-Semana de Arte Moderna de 1922 com o sentimentalismo e a solenidade dos poetas Parnasianos e Simbolistas que os antecederam. 
 
Como se a irreverência estivesse ausente da sociedade brasileira pré-1922, ou pelo menos dos círculos literários. Os Parnasianos, em sua convivência social, em sua rotina boêmia, também cultivavam a ironia e a pilhéria, tomavam seus porres, faziam trocadilhos infames, compunham sonetos pornográficos. 
 
Nada disto, porém, vazava para dentro de sua produção literária oficial, que era (para recorrer ao seu vocabulário) virginal e pulcra. 
 
Havia – como geralmente há – um corte entre a vida real dos poetas e a poesia que publicavam. Em seus livros, faziam a poesia que se esperava deles, a poesia com que compuseram seu perfil público: uma poesia sentimental e solene. 
 
Havia nisto um tanto de auto-censura voluntária, misturada com uma inconsciente (?) estratégia de marketing, se bem que esta expressão não pertence àquela época. A poesia era algo sério, e mais: era criada a partir de um léxico bem específico, com preferências e restrições bastante claras. Basta ver a estranheza de muitos críticos da época diante da obra de Augusto dos Anjos, repleta de jargão científico e de termos plebeus. 
 
Os Parnasianos, nos cafés e teatros cariocas da Belle Époque, divertiam-se, e muito. Basta consultar livros de crônicas da época como A Vida Exuberante de Olavo Bilac (Eloy Pontes), No Tempo de Paula Nei (Ciro Vieira da Cunha), Emílio de Menezes, o Último Boêmio (Raimundo Menezes)... 



Ou, melhor ainda, o clássico A Conquista (1897) de Coelho Neto, uma espécie de roman à clef sobre a boemia literária do Rio de Janeiro durante a campanha abolicionista. A poesia daqueles rapazes podia ser clássica, idealista, engravatada; mas a sua vida não era menos galhofeira e irreverente do que a dos modernistas, a quem coube, de certo modo, trazer esses elementos para dentro da matéria poética. 
 
Um termômetro útil para medir a distância entre essas duas gerações literárias é o tratamento que dão ao amor, às relações sentimentais e eróticas. Carlos Drummond de Andrade, em seu segundo livro, Brejo das Almas (1934), tem alguns poemas divertidos nessa linha. 
 
Essa descontração o leva inclusive a tratar com certa frivolidade até mesmo o suicídio por amor. 
 
Como no “Necrológio dos Desiludidos do Amor”: 
 
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais. (...) 
 
Como no “Poema Patético”:
 
Que barulho é esse na escada?
É o amor que está acabando,
é o homem que fechou a porta
e se enforcou na cortina. (...) 
 
Como em “Não Se Mate”:
 
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será. 
 
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh, não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão. (...) 
 
Drummond a essa altura já era casado (1925) e pai (1928), mas tratava o fenômeno amoroso com a leveza dos jovens que descobriram a juventude como conceito, algo que era parte importante do entusiasmo modernista. 
 
Ele diz, em “Em Face dos Últimos Acontecimentos”: 
 
(...) Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico. (...) 
 
E não só o suicídio. Alguma brisa perfumada com surrealismo sopra de vez em quando sobre o poeta, como em “Registro Civil”: 
 
Ela colhia margaridas
quando eu passei. As margaridas eram
os corações de seus namorados,
que depois se transformavam em ostras
e ela engolia em grupos de dez. (...)
E na terra
eu só ouvia o rumor
brando, de ostras que deslizavam
pela garganta implacável. 
 
O poeta ouve esses ruídos todos, mas nada parece abalar sua tranquilidade. Tudo está normal. O mundo (quase o ouço dizer) não vai se acabar por causa disso. 
 
Essa insistência na hipótese do suicídio não chega a parecer, em momento algum, um impulso real do poeta. É uma idéia meramente retórica, como quando dizemos “ah, prefiro morrer” ou “só se passar por cima do meu cadáver”. 
 
O projeto implícito dos modernistas devia ser o de esvaziar o amor de uma tragicidade irrecuperável. Tirar do amor a vocação para o sacrifício grandiloquente. 


Muitos anos depois de Brejo das Almas, Drummond daria um de seus últimos depoimentos ao amigo Ziraldo, o grande cartunista, depoimento reproduzido por Geneton Moraes Neto em O Dossiê Drummond (Rio: Ed. Globo, 1994). 
 
Abalado pela morte recente da filha Maria Julieta, o poeta teve uma longa conversa com Ziraldo, em agosto de 1987, uma conversa cheia de confidências. 
 
E Drummond confessa, a certa altura (a reprodução das falas vai por conta de Ziraldo): 
 
“-- Eu era um funcionário público, um burocrata medíocre, que dividia meu tempo entre o trabalho metódico e minhas devastadoras paixões. Eu me apaixonava muito, sabe? Às vezes, estava perdidamente apaixonado por duas ou três, sem saber o que fazer da minha vida. (...) Teve uma outra por quem eu me apaixonei mesmo, para morrer. Aí, ela me traiu. Deixou de me querer. Não tive alternativa: peguei um trem, fui para Belo Horizonte, lá peguei um ônibus, fui até Itabira, de lá peguei um cavalo e fui para uma fazenda que tinha um pomar enorme. Aí, todos os dias, eu ia para o meio do pomar, subia numa árvore daquelas e ficava lá em cima, gritando os maiores palavrões, filha da puta, traidora, safada, cretina! Fiquei quase um mês fazendo esse... essse...
Eu ajudei:
-- Exorcismo.
Ele concordou:
-- É. Fiquei lá fazendo esse exorcismo. Sabe que eu voltei bem melhor?”
(p. 264)
        
Pois é isso ser moderno. Nada de violências. Descarregue as frustrações e as traições na direção do vento, que leva tudo, e levará um dia todos nós. 


 




quinta-feira, 9 de julho de 2026

5243) "O Dia das Trífides" (9.7.2026)




[ Ed. Aleph - capa: Daniel Canedo) 

 

Este clássico da ficção científica, publicado por John Wyndham em 1951, tornou-se um dos romances fundadores do gênero que os ingleses batizaram de “cozy catastrophe”, a catástrofe aconchegante, a catástrofe administrável. Ou seja: acontece uma catástrofe de proporções aterrorizantes, inimagináveis; é o fim do mundo... mas é o começo de outro. 

Poderíamos também chamar a esses livros: “as catástrofes de reconstrução”. Elas de certo modo satisfazem a filosofia das pessoas impacientes e amargas que dizem: “O único jeito é zerar a sociedade humana e começar de novo”.  

E a primeira tarefa é: não morrer de fome.  

As condições que delimitaram e nos ensinaram os nossos padrões de comportamento desapareceram, junto com esse mundo. Nossas necessidades agora são diferentes, e nossos objetivos devem ser diferentes. Se quiserem um exemplo, posso lembrar que todos nós passamos o dia de hoje praticando, com a consciência perfeitamente tranquila, uma série de atos que dois dias atrás seriam considerados invasão de propriedade e roubo. Com os velhos padrões rompidos, temos agora que descobrir qual o modo de vida mais adequado aos novos padrões. Não temos simplesmente que começar a construir de novo: temos que começar a pensar de novo, o que é muito mais difícil e muito mais incômodo. (Cap. 7)  

Para quem não conhece o livro, um breve resumo:  

Da noite para o dia, 99% das pessoas, em todo o mundo, acordam de manhã e descobrem que estão cegas. A civilização colapsa; o caos, a violência tomam conta de tudo, e em breve a fome e as epidemias incontroláveis se encarregam de dizimar uma parte das pessoas. Bill Masen, o narrador, é uma das poucas pessoas que não cegaram.  

E outra parte da população começa a ser dizimada pela trífides, umas plantas misteriosas capazes de caminhar (desajeitadamente, usando as raízes como pernas) e de matar pessoas com um longo chicote que traz na ponta um aguilhão venenoso.  

Quanto mais eu considerava este novo aspecto, menos eu estava gostando. Não tinha idéia de quantas trífides poderia haver em Londres. Todos os parques tinham pelo menos algumas. Geralmente eram mantidas em currais, onde podiam mover-se à vontade, mas havia outras, de ferrão intacto, ora presas a estacas, ora mantidas em segurança por trás de cercas de arame. Pensando nas que eu vira cruzando Regent’s Park, pensei quantas eles mantinham no cercado perto do zoológico, e quantas teriam escapado. (Cap. 4)  

Li esse livro pela primeira vez aos quinze anos, e traduzi-lo depois dos setenta foi um reencontro comigo mesmo.  

Li como parte da saudosa e fundamental Colecção Argonauta, da Editora Livros do Brasil, de Lisboa, coleção da qual eu comprava e lia tudo que me aparecia pela fente, nas livrarias de Campina Grande e do Recife. 


 

(Colecção Argonauta – capa: Lima de Freitas)

 

Já fiz aqui no Mundo Fantasmo uma crítica ao livro de Wyndham, no ano de 2009, afirmando:  

O Dia das Trífides é um ótimo romance de FC sob vários critérios, e seu único defeito é a ocorrência de duas premissas fantásticas tão distantes (plantas inteligentes, cegueira coletiva) e tão convenientes para o autor. Bastaria uma.  

https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/05/2084-um-fato-fantastico-12112009.html  

Fiz este comentário inspirado num conselho de Anthony Boucher, um romancista e crítico em cujo bom-senso literário nunca deixei de me apoiar. Boucher desenvolve aqui um conselho de H. G. Wells, e sugere:  

O autor tem direito a uma única premissa fantástica, que dará origem a toda a sua história. Ele pode usar uma pessoa capaz de atravessar paredes, mas não pode usar na mesma história outra pessoa que é invisível.

 Dois fatos fantásticos, distantes um do outro, não-relacionados, provocam um desequilíbrio narrativo. (Não quer dizer que não possa resultar num grande livro; apenas alerta que vai dar mais trabalho para fornecer um background convincente.)

Traduzindo agora o livro de Wyndham, me dei conta (com olhos mais experientes do que meus olhos estrelados de rapazinho) de que o autor se sai bem dessa aparente bifurcação. As trífides bamboleantes e venenosas e a cegueira generalizada devem-se a um contexto político-científico bastante visível. John Wyndham testemunhava o desabrochar da Guerra Fria, e vivia ainda os abalos sociais da II Guerra Mundial. E o romance, curiosamente, pode ser visto como um dos primeiros a indagar de maneira adulta e convincente, num contexto de catástrofe: O que foi que os nossos governos andaram fazendo, e escondendo de nós?  

O livro faz um retrato confrangedor de Londres, em sua primeira metade, quando milhares de pessoas cegas vagueiam em desespero pelas ruas, quebrando vitrines em busca de comida, sequestrando com violência quem possa lhes servir de guia, organizando-se em grupos de assalto para saquear armazéns e supermercados.  

Mesmo encarando de frente a questão coletiva do recomeço da civilização (há discussões renhidas sobre “o que faremos do mundo”), Wyndham é um escritor que cria o tempo inteiro cenas curtas, vívidas, tocantes.  

Eu tinha visto apenas uma meia dúzia de pessoas capazes de caminhar, depois de chegar naquele distrito. Agora, parecia não haver nem mais uma sequer. Por fim, perto da esquina de Buckingham Palace Road, encontrei uma mulher idosa, sentada e encolhida num batente. Estava atarefada tentando abrir uma lata com unhas partidas, enquanto praguejava e choramingava ao mesmo tempo. Fui a uma lojinha próxima e encontrei meia dúzia de latas de feijão, numa prateleira alta que tinha escapado. Achei um abridor de latas também, e voltei até onde estava a mulher. Ela ainda arranhava inutilmente a lata.

-- Melhor jogar essa lata fora – disse eu. – É café.

Pus o abridor em sua mão, e dei-lhe uma lata de feijão. (Cap. 9)

 

É uma história escrita numa Londres que começava a se reconstruir após os bombardeios alemães da II Guerra, e o espírito de resistência e reorganização que ele descreve tem a ver com essa admirável qualidade da espécie humana. “Não importa. Recomeçaremos”.

Fui até a janela e olhei para fora. De forma deliberada comecei a dizer adeus para tudo aquilo. O sol já vinha baixando. Torres, catedrais, fachadas de pedra de Portland surgiam brancas ou cor-de-rosa de encontro ao céu que escurecia. Outros incêndios tinham brotado aqui e acolá. A fumaça se erguia em borbotões negros, às vezes deixando entrever algumas línguas de fogo por baixo.  Era provável, disse para mim mesmo, que depois de amanhã eu nunca mais voltasse a ver nenhum daqueles edifícios que me eram tão famiiares. Talvez chegasse o tempo em que alguém fosse capaz de voltar – mas nunca para o mesmo lugar. O fogo e o clima o teriam maltratado: estaria visivelmente abandonado e morto. Mas agora, a uma certa distância, ainda era possível fantasiá-lo como uma cidade viva. (Cap. 5)


 Tem a ver também com o pânico diante do desmoronamento de tudo que julgávamos garantido, certo, seguro. E um pânico cego, irracional, quando nos deparamos com uma ameaça mortal que não conseguimos compreender.  Uma releitura recente de A Guerra dos Mundos (1898) de H. G. Wells me trouxe à memória algo desse desespero que Wyndham iria reconstituir, meio século depois.

Como indiquei acima, o livro já estava publicado em Portugal (com tradução de José Manuel Calafate) em meados dos anos 1960. Teria sido lido por José Saramago? Teria ajudado a inspirar o seu excelente Ensaio Sobre a Cegueira (1995)? 

Aqui no Brasil temos também “A Escuridão” (1963), do mestre André Carneiro, que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (Casa da Palavra, 2003); neste caso, não são as pessoas que ficam cegas, mas a luz que misteriosamente desaparece. O resultado é o mesmo.  

Em O Dia das Trífides, o narrador, Bill Masen, escapa da cegueira (provocada por uma chuva de meteoros brilhantes) porque estava hospitalizado, com os olhos vendados, justamente após ser atingido pelo aguilhão de uma trífide. Ele é um especialista nessas plantas, e isso o ajuda a sobreviver quando elas, sem controle, começam a se propagar pela cidade, matando quem se aproxima.

A cegueira universal e a ameaça das trífides fornecem o suspense da história, mas sua parte mais interessante é sua descrição de que mal o mundo se acaba já tem gente disposta a propor uma nova organização para o que restou.

Há uma luta constante pela liderança das pequenas comunidades que se formam, em que um pequeno grupo de pessoas que veem organiza e protege um número maior de cegos.  

É aí que entra a importância de um líder. Um líder planeja, mas é sábio o bastante para não dizer que o fez. Quando as mudanças se revelam necessárias, ele as introduz como se fossem uma concessão –  temporária, é claro – às circunstâncias, mas se ele for hábil, ele vai introduzir justamente as partes que faltam para completar seu plano. Sempre haverá objeções esmagadoras a qualquer plano, mas sempre será preciso admitir concessões feitas num momento de emergência.

(Cap. 10, trad. BT)


E as trífides – venenosas, numerosas, obscuramente inteligentes – estão por toda parte.  

Os lança-chamas estavam guardados numa das privadas do lado de fora. Eu não quis correr riscos quando fui buscá-los. Com roupas e luvas bem grossas, um elmo de couro e óculos de mergulhador por baixo da máscara de malha, abri caminho por entre a multidão de trífides empunhando o maior facão que consegui achar. Os aguilhões chicoteavam e se chocavam contra minha máscara com tal intensidade que a encharcaram, e o veneno começou a se filtrar para dentro como uma tênue neblina. Ele embaçou meus óculos, e ao entrar na privada a primeira coisa que fiz foi lavar o rosto. Ao sair, não me atrevi a usar mais do que um jato de chamas breve, apontado para baixo,  por medo de incendiar as molduras da porta e da janela; mas ele produziu uma agitação suficiente para me permitir voltar ileso para dentro da casa. (Cap. 15)  


O livro foi adaptado várias vezes, para cinema e TV. Eu havia visto quando garoto uma adaptação mediana para o cinema, escrita por Philip Yordan e dirigida por Steve Sekely. Está aqui, no YouTube:  

https://www.youtube.com/watch?v=1HJ2qi63_O0

Durante os meses em que traduzi esta edição, vi duas séries muito interessantes, também no YouTube. 


A mais recente, e talvez mais a gosto do público de agora, é de 2009, com dois episódios bem longos, e foi dirigida por Nick Copus. Moderniza a história, mexe com o enredo, com os personagens, vai numa direção muito diversa do livro de Wyndham. Ainda assim, tem seus bons momentos de suspense e de efeitos especiais. 
 

Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UJVBu7p8Otk


Gostei mais – pelo quesito “fidelidade ao livro” – da série de 1981, em seis episódios, dirigida por Ken Hannam. Segue muito de perto a narrativa, e quando a gente está traduzindo há a necessidade permanente de visualizar de forma adequada (e interessante) as cenas que o autor descreve. Nem sempre ver um filme ou uma série ajuda – tem diretor que visualiza mal, por incrível que pareça. Neste caso, não. A série de Ken Hannam tem um bom ritmo narrativo, bons atores, e hoje, muitos meses depois, quando releio algumas cenas do livro, não sei mais se minhas memórias visuais de agora se devem ao que imaginei por conta própria enquanto lia e traduzia, ou ao que vi nestes episódios. 

Aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=sFCUOPwBFd8

 

 


quarta-feira, 1 de julho de 2026

5242) À sombra das chuteiras imortais (1.7.2026)



 
Era este o título de uma série de crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol, no jornal O Globo, que eu lia com devoção, tanto quanto lia o “Meu Personagem da Semana”, a página dupla mantida por ele na antiga Manchete Esportiva que meu pai não só colecionava como encadernava. 
 
Não sei onde Nelson foi buscar essa frase, que é sonora, imponente, bem àquele estilo de tribuno nordestino amante dos gestos largos e da voz estentórica. Ele e seu irmão Mário Filho (que deu o nome ao estádio do Maracanã) eram iguais e antípodas ao mesmo tempo. Iguais no amor à literatura e ao futebol; antípodas no modo de ser e de escrever. 
 
Nelson tinha era um escritor cheio de veemência, de barroquismo. Mário era um espírito lúcido, pausado, preciso; escrevia com a elegância de um Machado e o bom humor de um Verissimo. 


(Nelson Rodrigues e Mário Filho) 

 
Resultado: Nelson marcou gerações inteiras com sua personalidade conturbada, cínica, emotiva, e sua linguagem cheia de exageros retóricos. Quanto a Mário Filho... poucos o leem hoje, e os outros não sabem o que estão perdendo. 
 
Nelson marcou para sempre o jeito de se escrever sobre futebol, e curiosamente ele mesmo dizia que não entendia muito de esquemas táticos ou sutilezas estratégicas. Sua matéria-prima era a emoção do futebol. Eram os destinos e as vicissitudes do sucesso e do fracasso; os grandes dramas e as grandes comédias, o lado épico e o lado picaresco do esporte bretão. E a tudo isto Nelson respondia com um vocabulário imprevisível, e com um impagável senso crítico sobre a comédia humana. 



 
Reza a lenda que certa vez um jornalista amigo de Nelson o abordou, um tanto enciumado de seu sucesso.
 
-- Puxa vida, Nelson, você escreve bem pra caramba, mas se repete muito.
 
-- Eu me repito? Qual nada.
 
-- Claro que se repete. Volta e meia você está reutilizando seus próprios clichês.
 
-- Isso é um absurdo, eu não tenho clichês.
 
-- Como não tem? “O olho rútilo e o lábio trêmulo...” “Uma granfina com narinas de cadáver...”  “Calçar as sandálias da humildade...” “Até uma cambaxirra paraplégica teria conseguido fazer esse gol...” “Subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional...” “Gorda e patusca como uma viúva machadiana...” Reconhece tudo isto?
 
-- Está vendo? – disse Nelson, triunfante. – Se eu não repetisse, você não teria se lembrado.
 
Não sei se o teor da conversa foi este, mas a lição de Nelson não foi outra. Quando a gente produz uma frase memorável, não deve atirá-la à vala comum do “uma só vez”. É preciso repeti-la, porque na vez seguinte dez pessoas a reconhecerão e duzentas estarão sendo apresentadas a ela somente agora. E assim por diante. As grandes tiradas afundam na areia movediça da desmemória coletiva se não forem resgatadas e postas a trabalhar de novo, vez em quando. Repita a frase, colega. Ela é sua. 



Nelson deixou marcados esses seus bordões porque era o homem da página de jornal e do palco de teatro, não o do livro capa-dura com lombada gravada a ouro. Sua literatura era uma literatura de feira-livre onde os produtos têm prazo de validade curto, mas podem ser substituídos na semana que vem por um equivalente perfeito. 


 
Nelson, fluminense roxo, ou melhor, verde-branco-grená, dizia que “o Fla-Flu começou a existir cinco minutos antes do Gênesis”. Na verdade, aposto que não foi bem isto que ele disse, mas já li de tantas formas e em tantas variantes que não importa mais: importa a idéia de grandeza cósmica que ele tenta aplicar ao jogo que mais mexia com as suas coronárias. 
 
E é assim que os grandes achados verbais perduram e se propagam: eles usam palavras inesperadas para comunicar uma idéia nova, e quando são bem sucedidos a idéia se fixa de tal modo na cabeça de quem ouve que na vez seguinte as palavras nem precisam ser as mesmas. 
 
Vale, também para as frases, aquele princípio essencial dos roteiristas de cinema sobre as histórias: história que dá filme é aquela que você pode recontar com suas próprias palavras e produzir o mesmo efeito, sem depender do léxico ou do fraseado do autor. 
 
O léxico e o fraseado de Nelson, porém, eram impagáveis, porque ele usava a língua portuguesa, ou a língua brasileira (tá bom, tá bom: a língua PB) como lhe dava na telha. No Brasil, os exemplos e os modelos do “escrever bem” se concentram em torno de Machado de Assis, de Guimarães Rosa, de Gilberto Freyre, de Antonio Cândido... Todos escrevem maravilhosamente, pelos meus critérios pessoais, mas dou graças aos céus dos agnósticos por ter assimilado doses maciças de Nelson na adolescência. “Escreva do jeito que você anda”, diria ele; “escreva com o que você tem.” 



 
E a “sombra das chuteiras imortais”? Estou aqui me coçando para ver se encomendo na Livraria Folha Seca o volume que tem esse título, porque meu pai o achava a coisa mais bonita do mundo, e eu, como sempre, ia no seu rastro. Não foi senão muito depois que comecei a questionar muita coisa, e no meio disso as tais sombras das chuteiras. 
 
Como é a sombra de uma chuteira? Bem, se alguém já as pendurou, a sombra se projeta oblíqua na parede. Mas se não é o caso, a sombra de um par de chuteiras tem exatamente o formato delas duas, dos seus solados com travas, em cima da grama onde pisam. É só isso que um jogador tem. 

O campo de futebol tem medidas vastíssimas, mesmo pelos parâmetros do futebol superatlético de hoje em dia. É um latifúndio, e a parte que cabe a um jogador, nesse latifúndio, é a parte onde pousam seus pés, onde pousa a sombra das chuteiras imortais. 
 
Estamos em tempo de Copa do Mundo, e esta é sempre uma época em que eu sinto o espírito de Nelson baixar sobre mim. 
 
Gosto de acompanhar futebol internacional, agora que tudo está no YouTube e equivalentes. Jogos da Champions League, jogos dos campeonatos inglês e espanhol (os dois que me interessam), algumas disputas de seleções (Eurocopa, etc.). 


 
(foto: Ina Fassbender) 
 

Não torço por ninguém, e não acho que o futebol só possa ser fruído, saboreado, se a gente torcer por um dos times. Acho que o espetáculo vale por si, o drama vale por si. Eu sou aquele cara que centenas de vezes na vida ligou a TV de tarde para ver o videotape de XV de Jaú vs. Ponte Preta. Por que? Sei lá. Porque em qualquer jogo de futebol pode acontecer uma coisa genial a qualquer instante. 



Quando chega Copa do Mundo, no entanto, menos do que o lance genial ou o gol de placa eu passo a acompanhar o sonho, o drama, o paraíso, o pesadelo. Não é um clube, é um país inteiro que está ali. E sinto isso muitíssimo mais forte quando se trata de pequenos países, de seleções sem muita tarimba. 
 
Esta Copa, com seu despropositado número de 48 participantes, tem essa atenuante: está trazendo seleções que nunca, ou raramente, disputaram uma fase de grupos, quanto mais um mata-mata. 
 
E em momentos assim eu viro uma espécie de Nelson Rodrigues, esqueço o gol de placa e me concentro no épico improvável de uma vitória do Equador ou do Paraguai (que começou a Copa tão mal) diante da Alemanha, ou de um empate de Cabo Verde com a Espanha, ou do heroísmo do Marrocos diante da Holanda. 
 
Acho que o brasileiro tem uma certa tendência a torcer pelo “underdog”, pelo time mais fraco. E por cima disso vem a identificação com essas torcidas (a maioria gente mais endinheirada do que eu, mas não importa) que está lá de joelhos, chorando, rezando, cuspindo, esbravejando, vivendo algumas semanas de vitórias impossíveis e derrotas insuportáveis. 
 
Cabo Verde virou a “cinderela” da Copa, a história que todo mundo gosta de ouvir contar. Pouco importa se não joga um futebol coletivo tão bem encaixado quanto o da Argentina, ou se não tem um elenco “Ocean’s Eleven” como o da França. Não vemos seus jogos em busca de novidades táticas ou de um novo Messi. Vemos para prestar homenagem a quem está vivendo um sonho, e para fazer parte desse sonho feliz antes que ele acabe. 



(foto: Chandan Kanna)