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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

4979) A Barbárie de Queimadas (6.9.2023)



 
Numa noite de fevereiro de 2012, na cidade de Queimadas (PB), um grupo de homens armados e mascarados invadiu uma casa onde rolava uma festa de aniversário com rapazes e moças, alguns deles de famílias consideradas importantes na cidade. A luz foi apagada, as pessoas foram amarradas e distribuídas pelos vários quartos. Seguiu-se uma série de estupros, espancamentos, ameaças. A certa altura, duas das mulheres foram arrastadas para uma camionete, que partiu em seguida. Na mesma noite, as duas foram encontradas, mortas a tiros. Eram Izabella Pajuçara, “Ju”, e Michelle Domingos. 
 
O caso ficou conhecido como “a Barbárie de Queimadas”, e assim continua a ser chamado pela imprensa. Em princípio, é um caso de violência e feminicídio semelhante a muitos outros que acontecem no Brasil.  O escritor e jornalista Bruno Ribeiro acompanha o episódio há mais de dez anos, e entrevistou mais de cem pessoas para escrever o livro Era Apenas Um Presente Para o Meu Irmão (Todavia, 2023). 
 
No dia seguinte ao crime, o mistério começou a ser esclarecido. O mentor do assalto foi Eduardo dos Santos Pereira, o dono da casa onde acontecia a festa. Ele convidou várias moças da cidade, de famílias amigas, que conviviam no dia a dia com ele e com seu irmão, o aniversariante Luciano. O objetivo era fingir um assalto (recrutando alguns amigos) e permitir que todos pudessem estuprar as moças. 
 
O livro de Bruno Ribeiro destaca esses pontos que diferenciam este crime da maior parte dos gang rapes que se vê por aí. O primeiro ponto é o fato de que criminosos e vítimas se conheciam, conviviam no ambiente de uma cidade pequena. Ou seja, mesmo com o uso de máscaras e balaclavas cobrindo os rostos, era provável que algum deles acabasse sendo reconhecido, mesmo com a casa sob blecaute; e foi o que aconteceu. 
 
Outro ponto é que no grupo de dez estupradores havia pelo menos três menores de idade, e alguns indivíduos (descritos pelas testemunhas como “bobões”) que poderiam servir de bodes expiatórios. Alguns declararam que só tomaram parte no assalto porque a intenção (de acordo com o mandante, Eduardo) era de “fazer uma brincadeira”, “dar um susto nelas”. A explicação final do cabeça do crime é justamente a que deu o título ao livro de Bruno Ribeiro. Ou seja, o aniversariante iria receber de presente a chance de “comer na marra” algumas moças bonitas da cidade. 
 
Apenas duas mulheres da festa não foram tocadas: as esposas de Eduardo e Luciano, que foram trancadas juntas num quarto e poupadas pelo grupo. 
 
Tudo desandou quando Izabella reconheceu Eduardo e começou a gritar seu nome. Outros homens foram reconhecidos, pela voz, ou por adereços pessoais. No dia seguinte, as primeiras prisões ocorreram durante o velório das duas moças, à medida que os assaltantes entregavam uns aos outros. 




Bruno Ribeiro é autor de romances como Febre de Enxofre (Penalux, 2016), Glitter (Moinhos, 2019) e Porco de Raça (Darkside, 2021). O livro sobre a Barbárie de Queimadas ganhou o Prêmio Todavia de Não Ficção e faz um poderoso contraponto à sua ficção áspera, de prosa crispada e tensa, sobre a violência que perpassa o espírito do nosso tempo. 
 
Um aspecto interessante é que por volta da metade de Era Apenas Um Presente... já foi descrito o crime, já lemos os depoimentos dos envolvidos, já aconteceram as prisões e os julgamentos, as sentenças já foram proferidas. Temos a impressão de que o livro termina ali. O que resta para contar? 
 
Daí em diante começa a investigação do que rodeou o crime; do que o favoreceu; do que conduziu àquele estado de coisas; do que veio depois. Eduardo, o líder, foi condenado a 106 anos de prisão. Em novembro de 2020, ele fugiu andando, pela porta, do presídio de segurança máxima PB1, em João Pessoa. O escândalo dessa fuga fez estremecer novamente todos os fios que convergem para o crime de 2012. Lealdades de família, troca de favores, influência política, proteção, pesados subornos, tudo é discutido no ambiente dos advogados, dos jornalistas, dos policiais, dos defensores dos direitos humanos. 
 
O livro mostra essa rede tensa de relações sociais baseadas no dinheiro, na violência, na influência política, no machismo e na certeza da impunidade. Algumas pessoas, na época, chamaram os estupradores de Queimadas de “imbecis” por terem acreditado que um crime tão mal executado poderia passar impune. Na verdade, não houve tanta preocupação em esconder a identidade dos assaltantes. Os que estavam à frente tinham certeza da impunidade, e sabiam que, mesmo presos, dariam um jeito de escapar. 
 
Bruno Ribeiro deixou o romancista de lado e ligou o aplicativo-jornalista para fazer o levantamento minucioso das histórias, versões e interpretações de dezenas de pessoas. Na última parte do livro, ele traz a narrativa para o presente e descreve, numa tensa narrativa em tempo real, a visita que fez à Rocinha, no Rio de Janeiro, e as cervejas que tomou no bar do pai de Eduardo – o bar onde muita gente, inclusive a polícia, acha que Eduardo está escondido até hoje. Nesse momento, depois de tantas páginas de compilação e recapitulação de momentos passados, o romancista emerge com a habilidade de mostrar o momento presente: um galeto servido na mesa, a troca “casual” de frases com os parentes do criminoso, a presença de homens que bebem numa mesa afastada, uma ida ao banheiro, uma música que toca... 
 
É em ambientes assim que os crimes são gestados? Talvez, porque a possibilidade do crime permeia tudo, como uma umidade relativa do ar que está sempre presente e invisível, e a qualquer momento, em qualquer lugar, pode se concentrar em tempestade. 
 
Como diz o autor: 
 
“Quando se estuda crimes no Brasil, pode-se dizer que aquele que suja as mãos é pego, mas quem o mandou sujar as mãos, não. Há sempre uma parte que nunca é agarrada, algo movediço, alheio aos nossos esforços. No caso da Barbárie, o julgamento foi uma resolução clara do caso, resolvido até com certa destreza. Mas as raízes do crime, tudo que existiu para fazê-lo acontecer e, não só ele, mas tantos outros casos de feminicídio que foram praticados e ainda acontecem em Queimadas, parece ficar na escuridão, abafado. A resolução de grandes crimes é sempre uma metonímia: uma narrativa que nos entrega mais um pedaço que o todo.” (pág. 188)
 





domingo, 27 de fevereiro de 2022

4798) "O Rio e a Morte": um revólver em cada cinto (27.2.2022)




Os violentos precisam da violência alheia, para justificar a sua. Claro que eles mesmos podem dar início às hostilidades; mas... se o contexto é minimamente civilizado, sempre é prudente poder alegar legítima defesa. É um dos pretextos mais nobres para estourar os miolos de alguém.
 
É o princípio básico do western americano. Nos famosos duelos na rua vazia, com dois pistoleiros caminhando devagar um na direção do outro, a regra é clara. Quem sacar primeiro é o agressor, portanto perde a razão. A razão passa a ficar do lado de quem, em legítima defesa, saca depois. O segredo, portanto, é ser mais rápido no gatilho – sacar depois, e atirar primeiro.
 
Eu entendi isso aos dez anos de idade, vendo faroeste nas matinais do Babilônia, comendo castanha confeitada, batendo com os pés no chão e gritando, e todo mundo fazendo a mesma coisa.


No livro A Linguagem Secreta do Cinema (Ed. Nova Fronteira, 2006), Jean-Claude Carrière faz uma análise minuciosa (pág. 97 e seguintes) desse clichê do duelo dos pistoleiros, mostrando o emaranhado de improbabilidades que ele envolve. É preciso que um saque primeiro, e que o outro atire primeiro. Uma decisão que às vezes depende de um fotograma.
 
Luís Buñuel, o grande parceiro de Carrière, era um aficionado das armas de fogo, e diz-se que o hábito do tiro ao alvo contribuiu para aumentar na velhice a surdez que já o incomodava desde cedo. Gostava de atirar. Não tinha preconceito contra as armas. Seus filmes surrealistas gostam de provocar o público com cenas de tiroteios gratuitos e fuzilamentos descontraídos.
 
Esse mesmo Buñuel se confessou, mais de uma vez, estarrecido com a propensão dos mexicanos para a violência armada e o assassinato por bobagens. Ele foi morar no México com mais de 40 anos, e viveu ali até o fim da vida.
 
Seu filme mais voltado para esse tema é O Rio e a Morte (“El Rio y La Muerte”, 1954). Não é um dos seus melhores filmes dessa fase, mas é um filme que ajuda a rastrear essa tendência do México a ser um dos países mais violentos do mundo.
 
El Rio y la Muerte fala de um povoado à beira de um rio largo e vagaroso. Uma enchente do rio destruiu a vila. Ela foi reconstruída na margem oposta, mas o cemitério permaneceu lá. Agora, a cidade vive dividida entre uma rixa sangrenta entre as duas famílias principais. Quando morre alguém nas “vendettas” familiares, o assassino cruza o rio a nado e se refugia no mato (os Anguianos) ou numa montanha próxima (os Menchaca). E depois da fuga o morto faz a mesma travessia do rio, de canoa, para ser sepultado.


É uma geografia simbólica interessante, essa que coloca a vida normal do vilarejo numa margem, e na outra o local onde os mortos são enterrados e seus matadores se escondem.
 
O filme está aqui, no YouTube (em espanhol, sem legendas):
https://www.youtube.com/watch?v=P5550SYIM2Q&t=347s
 
Há poucas imagens típicas de Buñuel no filme. Um foragido abre a carta da noiva usando um facão. Depois de marcar com ela um encontro clandestino, à noite, ele chega. Os dois se abraçam. Corta para um galo cantando, cercado de galinhas. O casal entra no mato...
 
A maior parte do filme, a parte do meio,  ocorre num flashback. Gerardo Anguiano, filho de um homem morto pela guerra de famílias, é um médico jovem que mora na capital, e não quer se envolver com vinganças, o que decepciona sua mãe, cujo marido foi assassinado. É curioso que nesse vilarejo as mulheres são grandes incentivadoras do machismo, e obrigam maridos e filhos a andar armados. A mãe de Gerardo, D. Mercedes, ao discutir com um amigo da família, desabafa: “Você sempre foi um covarde, como todos da sua família. Se não tem a honra de se defender, vá para casa e vista uma saia.”


Gerardo tem um problema de saúde, está em tratamento num “pulmão de aço”, e ali recebe a visita do seu inimigo Rômulo Menchaca, que vem provocá-lo a um duelo quando for ao vilarejo. Menchaca se irrita com o pacifismo do outro e o esbofeteia. Depois pede desculpas por bater num homem indefeso, mas o desafio ao duelo fica de pé.
 
O filme é quase didático na sua mensagem anti-armamentista, o que desagradava Buñuel: “É meu único filme que defende uma tese moral, algo que me deixa incomodado.” No livro em que discutiu sua obra com os jornalistas José de la Colina e Tomás Pérez Turrent (Objects of Desire, na tradução inglesa), ele comenta, no capítulo 15:
 
Eu queria acima de tudo ter a chance de mostrar uma tradição autêntica do litoral da região de Guerrero: quando alguém é assassinado, o caixão é levado de casa em casa da família do morto, onde todos bebem. Depois levam para a frente da casa do assassino, que já fugiu, e os parentes do morto gritam: “Apareça, filho dessa, filho daquela! Venha pagar pelo seu crime!...”
 
Há uma cultura da morte “por dá cá aquela palha”, o que aparece na sequência inicial, num batizado, quando dois compadres bebem e juram amizade, um deles diz uma piada boba, e o outro o mata com uma facada no estômago. Nas suas memórias (Meu Último Suspiro, Ed. Nova Fronteira, 1982, trad. Rita Braga), Buñuel explica:
 
Essa atitude “viril”, e consequentemente a situação da mulher no México, tem uma origem espanhola que é inútil negar. O machismo procede de um sentimento muito forte e vaidoso da dignidade do homem. É extremamente melindroso, suscetível, e não há nada mais perigoso do que um mexicano que nos olha calmamente e nos diz, com voz suave, porque, por exemplo, recusamos beber com ele uma décima tequila, uma frase sempre perigosa: “ – Me está usted ofendiendo. (O senhor está me ofendendo)” Em situações como essa é melhor beber o último copo.  (pág. 292)
 
Há um culto à honra, sempre fragilíssima; às vinganças longamente amadurecidas e anunciadas; à violência estapafúrdia e grotesca. Um diálogo do filme diz:
 
– Me lembro quando Pablo Codina entrou a cavalo no velório de Anselmo Lepe, cortou a cabeça do morto, amarrou-a e levou-a para a cantina. 
– Sim, mas a família do morto foi à cantina e esfolou Codina.
 
O filme tem um desfecho meio forçado. Os dois desafetos (um de terno e gravata, o outro com roupa de vaqueiro), depois de vários encontros e escaramuças, se abraçam e selam a paz. Um final tão forçado quando o de La Hija del Engano (1951), onde o diretor parece mais uma vez se curvar à tradição latino-americana do final melodramático, lacrimoso e feliz, onde “o importante é a família ficar unida”.
 
O México brutal de Buñuel nos anos 1950 é o mesmo México contemporâneo de Roberto Bolaño com 2666 ou de Cormac McCarthy e os Irmãos Coen com Onde os Fracos Não Têm Vez. Uma civilização onde se porta o revólver com a mesma inocência com que um sertanejo porta a peixeira.
 
Nos velhos tempos do surrealismo parisiense, circulava entre a turma de Buñuel e André Breton o dito de que “o ato surrealista mais simples seria empunhar um revólver e sair pela rua disparando a esmo, abatendo pessoas”. Parece que alguns anos de México e de vida real curaram o diretor espanhol desse impulso juvenil.   
 

 
 
 
 







domingo, 6 de junho de 2021

4711) O que é "fansplaining" (6.6.2021)



Os dicionários urbanos dos anos mais recentes registraram uma palavra de origem inglesa que logo se fixou no uso geral: mansplaining. É formada por “man” (homem) e “explain” (explicar).
 
Refere-se ao hábito (irritante, de fato) dos homens que se sentem no dever de explicar um assunto difícil a uma mulher, mesmo quando ela notoriamente entende daquilo tão bem quanto eles, ou melhor.
 
Não importa se a mulher tem 55 anos e é doutora em teatro elisabetano, e o homem tem 30 e acabou de ler uma peça de Shakespeare pela primeira vez. O simples fato de ela ter mencionado o dramaturgo no meio de um bate-papo no jantar da casa de alguém é o bastante para o cidadão passar a explicar a ela que nem tudo que se atribui a Shakespeare deve ser levado ao pé da letra, porque é bem provável que um tal de Francis Bacon tenha escrito aquelas peças, porque sobre Bacon sabe-se muita coisa, enquanto que Shakespeare era um sujeito anônimo, com poucas referências biográficas, então a lógica nos leva a admitir que ele deve ter servido de testa-de-ferro para que os textos de Bacon fossem encenados, porque---
 
E por aí vai, até ele recitar de memória um artigo que leu na Superinteressante.
 
Todo homem (inclusive eu) já incorreu nesse tipo de descortesia, cuja raiz está na suposição de que os homens sabem de tudo e as mulheres não sabem de nada. O mansplaining é um tipo específico de paternalismo. Pode se dar de forma agressiva, humilhante, mas muitas vezes se dá com trajes de boa vontade, de solicitude, uma atitude meio paternal por parte de um intelectual grisalho e estabelecido, que se dispõe a contradizer e esclarecer uma senhorita mais jovem, mostrar os pontos onde ela está errada, ensinar-lhe o caminho certo, a realidade das coisas.
 
Só não faça como aquele sujeito que depois de uma sessão como essa, sobre um tema científico qualquer, aconselhou a jovem: “Para entender melhor, leia o livro da Doutora Fulana de Tal”, e ela respondeu: “Eu sou a Doutora Fulana de Tal”.
 
Nos últimos tempos surgiu um termo derivado: fansplaining. É quando um fã de uma coisa qualquer (banda de rock, série de TV, gênero literário, etc.) julga-se o grande conhecedor de todos os meandros e todos os detalhes daquele assunto, mas movido por um espírito de generosidade se dispõe a dar explicações de 45 minutos sobre qualquer detalhe que por acaso alguém mencione erradamente no meio da conversa.


– Pois é... Existe uma mania de dizer que a obra dos Beatles é apolítica, que só fala de amor e de bobagens psicodélicas. Eles esquecem uma música como “Revolution”, onde Lennon dizia claramente que ---
 
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution 9”, que é uma colagem de sons.
 
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
 
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution 1” e saiu no “Álbum Branco”?
 
– É a mesma música.
 
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia, com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e junho de 1968, e a outra em julho.
 
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas como O Céu é o Limite. Decora vorazmente livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula em O Manto Sagrado, alguém sabe?...”  e ele vai pigarrear discretamente e dizer em tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”


Demonstrar conhecimento factual é mais importante para o verdadeiro nerd do que defender uma opinião subjetiva, mas ele não recua diante desta outra possibilidade. Como ele sabe milhares de fichas técnicas de cor, acha que isso o capacita a ter poder de veto sobre as opiniões alheias. Mesmo sobre as do artista cuja obra está em discussão.


O escritor Neil Gaiman está agora às voltas com esse problema, porque sua série de quadrinhos The Sandman está para ser adaptada numa série de TV, e ele está aguentando o fansplaining de alguns admiradores sobre o que a série pode e não pode fazer, sobre as características raciais ou de gênero dos personagens que ele próprio criou, sobre o desenvolvimento dos argumentos, etc. e tal.
 
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
 
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
 
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias, complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
 
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs. Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais, numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
 
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada, defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois de aparecer.
 
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter todas elas sob controle.
 
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
 
Todo bom romance é uma adivinhação do mundo. Os críticos assumiram, por sua conta e risco, a grave responsabilidade de decifrá-los, e é preciso esperar que o façam. Não me refiro, é claro, às incontáveis alusões de caráter privado que há no meu livro, e que somente meus amigos íntimos podem descobrir: que cada data corresponde ao aniversário de alguém, que uma personagem tem o mesmo temperamento da minha mulher, que os nomes que alguém pretende pôr nos filhos são os nomes dos meus filhos... e mais mil coisas que é impossível descobrir pela simples leitura do romance. O que me alarma, por outro lado, é que ninguém tenha assinalado uma só das 42 contradições que eu mesmo descobri depois de publicar o livro, nem os seis erros graves que me foram indicados pelo tradutor italiano, e que não vou corrigir nas futuras edições, nem nas outras traduções, porque não seria uma atitude honesta.
 
(entrevista a Armando Durán, Revista Nacional de Cultura, Caracas, setembro de 1968)
 


 




terça-feira, 30 de outubro de 2012

3017) Laerte: La Earth (30.10.2012)




(Laerte, foto de Rogério B. Huss)


A Terra, o nosso planeta, é vista como uma personagem feminina em movimentos influenciados pela contracultura, o feminismo, o misticismo, a ecologia e a preocupação com o meio ambiente. A Mãe Terra é uma criatura viva (alguns chamam a isto “a hipótese de Gaia”), e o princípio feminino seria o princípio básico da existência. Pode-se pensar numa situação em que na humanidade só existam mulheres e elas consigam de algum modo se auto-fecundar e gerar novos seres; mas não se pode pensar numa humanidade composta apenas de homens. Biologicamente, a humanidade consiste nelas, e nós somos acessórios necessários, por enquanto, à reprodução da espécie. (Mas que isto não nos esmoreça, companheiros, em nosso cumprimento do dever!)

Laerte Coutinho é um dos grandes quadrinhistas brasileiros, criador dos “Piratas do Tietê”; surgiu em revistas como Circo, Chiclete com Banana e outras, numa geração de desenhistas que incluía Angeli, Glauco, Adão Iturrusgarai, etc.  Há dois ou três anos começou a se vestir de mulher, e diz ele que deu mais entrevistas nos últimos tempos do que ao longo de toda sua longa carreira de desenhista (Laerte tem 61 anos). Laerte decidiu assumir sua porção feminina e vestir-se com as mesmas roupas que as mulheres se vestem, ir ao banheiro feminino, pedir para ser tratado como “ela” e “a senhora”, etc.

Laerte virou gay? Foi a primeira pergunta que foi feita e a mais irrelevante, até porque ser gay está aos poucos virando uma coisa muito comum e muito aceita no país. Há focos de resistência, mas diminuem a cada década. O que não é comum no país é um homem vestir-se de mulher e sair à rua – sem ser no carnaval, no teatro, numa festa à fantasia, num filme ou em qualquer situação onde possa ser invocado o pretexto de que era mera brincadeira ou encenação.

Diz Laerte (revista Continuum, Itaú Cultural, # 39, out/nov): “Os costumes estão se transformando. Está ficando claro para todo mundo que orientação sexual e gênero são coisas distintas. Não há um vínculo único. A idéia de que todo cara que se vestir de mulher é gay não existe. Tenho muitas amigas que são travestis e são heterossexuais. Não gostam nem têm atração por homem. Ver o gay como mulherzinha é um insulto antigo, fora de moda. Às vezes, tentam ser mais masculinos que o próprio homem”. Quando as executivas da Av. Paulista e de Wall Street começaram a usar terninhos, nos anos 1980, viram essa inserção no mundo masculino como uma promoção, mas era uma promoção que mantinha a hierarquia – ser masculino era necessariamente ser superior. Quando um homem se veste de mulher a inquietação é maior, porque assim a falsa superioridade é desmentida.


sexta-feira, 8 de maio de 2009

1016) A arte de lavar pratos (18.6.2006)




Um amigo meu, sertanejo por convicção e machista por conveniência, costuma afirmar: “No dia em que me virem lavando um prato, podem ir procurar meus “pussuídos” na lata de lixo, porque alguém cortou e jogou lá!” 

Eu não sou radical a este ponto, embora confesse que lavar pratos não é uma prioridade para meus momentos de lazer. Prefiro pagar a alguém para fazê-lo, mas também pago ao eletricista, ao encanador, ao pedreiro. Não é uma questão de sexo ou gênero; é uma questão de tarefa chata.

Os homens, que não são bestas, passaram séculos fazendo uma lista de tarefas chatas e combinando entre si que toda mulher que nascesse sofreria uma lavagem cerebral desde a época das fraldas até ficar convicta de que aquilo era obrigação sua. Funcionou. 

Funcionou com a arte de cozinhar, por exemplo, até que recentemente os homens resolveram vestir o avental e aparecer em programas culinários na TV-a-cabo, ensinando a fazer estraga-onofre e outros pratos sofisticados. (Acho que agora são as mulheres que estão promovendo uma lavagem cerebral às avessas, mas isto é assunto para outro dia)

Não acho que lavar pratos seja menos masculino do que escovar os dentes. É uma tarefa chata, mas aí eu digo como Clint Eastwood ou Charles Bronson: “It’s a dirty job, but someone has to do it”. 

Qualquer sujeito que teve que se virar sozinho na época de estudante aprendeu uma série de truques. Estudei um fenômeno chamado Ciclo de Cristalização dos Resíduos. E aprendi que prato, ou você lava logo depois de comer (quando os resíduos, ainda aquecidos, não se cristalizaram e aderiram à louça ou ao vidro), ou então bota na pia – de molho. Cobrir os pratos com água abundante dilui os resíduos, reduzindo em 93% o tempo de esfregação subseqüente para os pratos, e em até 48% o das panelas.

As panelas são um capítulo à parte, pois a comida submetida a temperaturas de cocção passa por transformações químicas intensas, as quais quase que soldam as substâncias à parede interna do receptáculo. Lavar uma panela horas depois, sem deixá-la de molho, significa escalavrar as unhas no bombril, e obter resultados que uma doméstica profissional desmoraliza com uma gargalhada. 

Lavar liquidificador também requer minúcias de neurocirurgião. (Naquele tempo eu simplesmente chacoalhava água lá dentro, enxugava, e guardava de volta) Lavar talheres é um saco. O cara pega a esponja, esfrega uma daquelas faquinhas serrilhadas para churrasco, e sai dali com um corte no dedo, sendo que de noite vai ter que tocar violão e contar lorotas num teatro. Não pode nem se desculpar: “Eu estou tocando mal porque cortei o dedo, lavando pratos...”

Lavar pratos, companheiros, é como escovar os dentes. Já que tem que fazer, que se faça de maneira vigorosa, eficaz, definitiva. Acabou de almoçar? Não esquente: bote o prato de molho e vá ver um jogo na TV, enquanto a água desmancha as cadeias peptídicas (ou sei lá o que acontece quando um prato está de molho).




sábado, 7 de março de 2009

0867) A loucura social (27.12.2005)




(Mrs. Goebbels)

Está nos jornais desta semana. Se acharem que é mentira minha, googlem os nomes e verifiquem. Nazeer Ahmed, um pai de família do Paquistão, levantou-se no meio da noite, foi na cozinha buscar uma faca bem afiada, entrou pé ante pé nos quartos onde dormiam suas quatro filhas (respectivamente com 25, 12, 8 e 6 anos de idade) e cortou o pescoço de todas elas. 

O crime causou grande comoção da cidade de Burewala, a 110 km de Multan, no leste do país. Depois de consumadas as execuções, o que fez o nosso bravo Nazeer? Pegou o camelo e sumiu no deserto? Correu para o aeroporto mais próximo, munido de passaporte falso e barba postiça? Não: apresentou-se à polícia, informou o que tinha acontecido, assumiu toda a responsabilidade pelo ato e disse que tinha feito isto para lavar a honra da família, pois Muqadas, a filha mais velha, tinha se casado contra a sua vontade, dizendo que queria se casar por amor, e não por imposição da família. 

“Sim,” disse o policial, “ela, eu entendo, mas, e as outras?” Ele esclareceu: “Para não seguirem o mau exemplo”.

Esta última resposta mostra o grau de desequilíbrio mental do cidadão. Parece mostrar uma certa falta de confiança em si mesmo como pai, uma certeza de que sua autoridade, uma vez desafiada, nunca mais conseguirá se impor; mas para mim revela o pavor de um indivíduo que sente estar enfrentando forças de vastidão cósmica, forças misteriosas contra as quais só se pode lutar tomando decisões extremas. 

Nazeed não disse, mas deve achar que essa história de casar por amor é uma loucura contagiosa, e que a única maneira de livrar as meninas de uma tal psicose seria matando-as.

Minhas amigas feministas dirão que a culpa é do machismo, que nega às mulheres o direito de casar por amor, direito que em nossa sociedade moderna e cosmopolita é tão indiscutível quanto o de respirar oxigênio. Mas eu “desconcordo”. Lembro, por exemplo, o caso recente daquela mocinha de São Paulo que, por amor, juntou-se ao namorado e matou os pais enquanto dormiam. O caso dela é o avesso do caso de Nazeer. Em ambos, eu chamo a isso loucura social. A capacidade de matar por uma emoção, por um conceito de felicidade ou de ordem.

No recente filme A queda – Os últimos dias de Hitler, a esposa do Ministro Goebbels diz ao marido, ao ver que Hitler está derrotado: “Não quero que meus filhos cresçam num mundo que não seja nacional-socialista”. Com notável frieza, obriga as cinco crianças a tomar um narcótico, e depois que estão adormecidas vai nos beliches, coloca entre os dentes de cada uma delas uma cápsula de cianureto e, com uma leve pressão, faz a cápsula se partir. Um arquejo, algumas contrações do corpo, e está tudo acabado. 

Nosso mundo está cheio de casos assim. Alguém mata pessoa que ama (ou que em princípio deveria amar) porque ela contradisse uma aparente unanimidade social. Disse Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. Digo eu que qualquer unanimidade é potencialmente criminosa.









segunda-feira, 28 de julho de 2008

0473) “Clube da Luta” (24.9.2004)



No filme Clube da Luta um jovem executivo (Edward Norton) vive como um zumbi, comprando roupas de griffe e mobília da moda, e investigando acidentes de automóvel para avaliar se vale a pena fazer um “recall” (tirar o carro do mercado). Ele freqüenta grupos de ajuda para pacientes de câncer somente para abraçar desconhecidos e chorar em seu ombro. Sua vida se resume a isso, até o dia em que ele encontra um sujeito meio maluco (Brad Pitt) e juntos os dois fundam um clube-da-luta, um lugar onde homens se reúnem para brigar de socos, quebrar a cara um do outro, e, assim, sentirem que são homens de verdade, e não apenas peões no jogo burocrático das grandes corporações. O filme é de uma improbabilidade generalizada: o roteiro é cheio de buracos, os maus-tratos físicos parecem não deixar fraturas nem cicatrizes, mas é um delírio talentoso. Incomoda, é questionável, mas vale a pena ver.

O tempo todo me lembrei um livro escrito por uma mulher. Em A Vida Íntima de uma Esquizofrênica – Operadores e Coisas (Imago, 1972), Barbara O´Brien conta a história arrepiante de sua própria crise esquizóide. Ela trabalhou numa corporação onde os funcionários eram capazes de qualquer sacanagem para obter uma promoção ou para prejudicar um colega. Quem já trabalhou em repartição pública ou nessas “empresas modernas e competitivas” de hoje sabe do que estou falando. Um dia (o livro é de 1960) ela acordou com três desconhecidos no seu quarto: um garoto, um homem idoso, e um ser sobrenatural. Os três se apresentaram como seus Operadores, ou seja, eram eles quem manipulavam a mente dela. Como ela estava com problemas, eles, a contragosto, decidiram tornar-se visíveis e manipulá-la diretamente. Desse dia em diante, as vozes dos Operadores não pararam mais de dar-lhe instruções.

Se nunca leu uma história de terror, meu camarada, leia esta, até porque não é ficção: os hospícios estão cheios de gente que vive nela. Não descreverei a vida de pesadelo que Barbara O´Brien viveu nos anos seguintes, nem a maneira espantosa como se auto-curou sem ninguém saber. O livro dela é um clássico. Mas observei que Clube da Luta tem uma estrutura parecida. Um sujeito vive no interior de uma empresa baseada na competição interna, na hierarquia, no cinismo, no consumismo, na violência psicológica gratuita. Para fugir dali, funda um grupo de marginais que se espancam mutuamente para se sentirem mais humanos. Logo-logo o clube vira uma entidade paramilitar de skinheads parecidíssima com a própria empresa onde o cara trabalhava. Predatória, egoísta, visando ao lucro, desprezando o cliente e o público em geral. A ideologia do “destruir para consumir” chega rapidinho ao “destruir por destruir”. O “Projeto Destruição” do filme é uma versão adolescente, esquizóide, tresandando a testosterona mal absorvida, do pesadelo yuppie dos EUA de hoje. Um país esquizofrênico e agressivo; só não sei se, como Barbara O´Brien, conseguirá se curar sozinho.