“Quando se estuda crimes no Brasil, pode-se dizer que aquele que suja as mãos é pego, mas quem o mandou sujar as mãos, não. Há sempre uma parte que nunca é agarrada, algo movediço, alheio aos nossos esforços. No caso da Barbárie, o julgamento foi uma resolução clara do caso, resolvido até com certa destreza. Mas as raízes do crime, tudo que existiu para fazê-lo acontecer e, não só ele, mas tantos outros casos de feminicídio que foram praticados e ainda acontecem em Queimadas, parece ficar na escuridão, abafado. A resolução de grandes crimes é sempre uma metonímia: uma narrativa que nos entrega mais um pedaço que o todo.” (pág. 188)
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quarta-feira, 6 de setembro de 2023
4979) A Barbárie de Queimadas (6.9.2023)
domingo, 27 de fevereiro de 2022
4798) "O Rio e a Morte": um revólver em cada cinto (27.2.2022)
https://www.youtube.com/watch?v=P5550SYIM2Q&t=347s
Eu queria acima de tudo ter a chance de mostrar uma tradição autêntica do litoral da região de Guerrero: quando alguém é assassinado, o caixão é levado de casa em casa da família do morto, onde todos bebem. Depois levam para a frente da casa do assassino, que já fugiu, e os parentes do morto gritam: “Apareça, filho dessa, filho daquela! Venha pagar pelo seu crime!...”
Essa atitude “viril”, e consequentemente a situação da mulher no México, tem uma origem espanhola que é inútil negar. O machismo procede de um sentimento muito forte e vaidoso da dignidade do homem. É extremamente melindroso, suscetível, e não há nada mais perigoso do que um mexicano que nos olha calmamente e nos diz, com voz suave, porque, por exemplo, recusamos beber com ele uma décima tequila, uma frase sempre perigosa: “ – Me está usted ofendiendo. (O senhor está me ofendendo)” Em situações como essa é melhor beber o último copo. (pág. 292)
– Me lembro quando Pablo Codina entrou a cavalo no velório de Anselmo Lepe, cortou a cabeça do morto, amarrou-a e levou-a para a cantina.
– Sim, mas a família do morto foi à cantina e esfolou Codina.
domingo, 6 de junho de 2021
4711) O que é "fansplaining" (6.6.2021)
Os dicionários urbanos dos anos mais recentes registraram uma palavra de origem inglesa que logo se fixou no uso geral: mansplaining. É formada por “man” (homem) e “explain” (explicar).
Refere-se ao hábito (irritante, de fato) dos homens que se sentem no dever de explicar um assunto difícil a uma mulher, mesmo quando ela notoriamente entende daquilo tão bem quanto eles, ou melhor.
Não importa se a mulher tem 55 anos e é doutora em teatro elisabetano, e o homem tem 30 e acabou de ler uma peça de Shakespeare pela primeira vez. O simples fato de ela ter mencionado o dramaturgo no meio de um bate-papo no jantar da casa de alguém é o bastante para o cidadão passar a explicar a ela que nem tudo que se atribui a Shakespeare deve ser levado ao pé da letra, porque é bem provável que um tal de Francis Bacon tenha escrito aquelas peças, porque sobre Bacon sabe-se muita coisa, enquanto que Shakespeare era um sujeito anônimo, com poucas referências biográficas, então a lógica nos leva a admitir que ele deve ter servido de testa-de-ferro para que os textos de Bacon fossem encenados, porque---
E por aí vai, até ele recitar de memória um artigo que leu na Superinteressante.
Todo homem (inclusive eu) já incorreu nesse tipo de descortesia, cuja raiz está na suposição de que os homens sabem de tudo e as mulheres não sabem de nada. O mansplaining é um tipo específico de paternalismo. Pode se dar de forma agressiva, humilhante, mas muitas vezes se dá com trajes de boa vontade, de solicitude, uma atitude meio paternal por parte de um intelectual grisalho e estabelecido, que se dispõe a contradizer e esclarecer uma senhorita mais jovem, mostrar os pontos onde ela está errada, ensinar-lhe o caminho certo, a realidade das coisas.
Só não faça como aquele sujeito que depois de uma sessão como essa, sobre um tema científico qualquer, aconselhou a jovem: “Para entender melhor, leia o livro da Doutora Fulana de Tal”, e ela respondeu: “Eu sou a Doutora Fulana de Tal”.
Nos últimos tempos surgiu um termo derivado: fansplaining. É quando um fã de uma coisa qualquer (banda de rock, série de TV, gênero literário, etc.) julga-se o grande conhecedor de todos os meandros e todos os detalhes daquele assunto, mas movido por um espírito de generosidade se dispõe a dar explicações de 45 minutos sobre qualquer detalhe que por acaso alguém mencione erradamente no meio da conversa.
– Pois é... Existe uma mania de dizer que a obra dos Beatles é
apolítica, que só fala de amor e de bobagens psicodélicas. Eles esquecem uma
música como “Revolution”, onde Lennon dizia claramente que ---
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution 9”, que é uma colagem de sons.
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution 1” e saiu no “Álbum Branco”?
– É a mesma música.
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia, com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e junho de 1968, e a outra em julho.
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas como O Céu é o Limite. Decora vorazmente livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula em O Manto Sagrado, alguém sabe?...” e ele vai pigarrear discretamente e dizer em tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”
– Sim, mas a qual “Revolution” você se refere? Não deve ser “Revolution 9”, que é uma colagem de sons.
– Não, é a outra, o lado B do compacto de “Hey Jude”.
– Sim, mas é esta gravação do compacto, ou a que foi chamada “Revolution 1” e saiu no “Álbum Branco”?
– É a mesma música.
– Perdão, não é. São gravações diferentes de uma mesma idéia, com diferentes mixagens, alterações na letra... Uma foi gravada entre maio e junho de 1968, e a outra em julho.
O fã é uma mistura de aluno CDF e de concorrente a programas como O Céu é o Limite. Decora vorazmente livros e mais livros sobre um assunto, na esperança de que alguém pergunte de repente no meio de uma conversa: “Quem foi mesmo o ator que fez o papel de Calígula em O Manto Sagrado, alguém sabe?...” e ele vai pigarrear discretamente e dizer em tom casual: “Ora, ora, não terá sido Jay Robinson?...”
Demonstrar conhecimento factual é mais importante para o
verdadeiro nerd do que defender uma
opinião subjetiva, mas ele não recua diante desta outra possibilidade. Como ele
sabe milhares de fichas técnicas de cor, acha que isso o capacita a ter poder de
veto sobre as opiniões alheias. Mesmo sobre as do artista cuja obra está em
discussão.
O escritor Neil Gaiman está agora às voltas com esse problema,
porque sua série de quadrinhos The
Sandman está para ser adaptada numa série de TV, e ele está aguentando o fansplaining de alguns admiradores sobre
o que a série pode e não pode fazer, sobre as características raciais ou de
gênero dos personagens que ele próprio criou, sobre o desenvolvimento dos
argumentos, etc. e tal.
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias, complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs. Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais, numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada, defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois de aparecer.
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter todas elas sob controle.
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
Gaiman se dá o trabalho de passar parte do dia nas redes sociais explicando que quis dizer isso e não aquilo quando escreveu as histórias, que criou os personagens deste ou daquele jeito... No fundo, ele sabe que é impossível criar uma obra, vê-la sendo lida por centenas de milhares de pessoas, e esperar que essas leituras sejam todas parecidas com a dele. Não é assim que funciona.
O autor não pode impor uma leitura única sobre a obra que escreveu, mas se ele que é o autor não pode, por que um fã poderia?
A função da obra é produzir (voluntariamente ou não) uma multiplicidade de leituras divergentes, convergentes, discordantes, contraditórias, complementares, mutuamente reveladoras... É assim que a criação literária (e artística em geral) se impregna na cultura de seu tempo e permanece viva.
Para isso ela precisa de leitores, de críticos e de fãs. Críticos e fãs são dois conjuntos que hoje em dia se interseccionam cada vez mais, numa época em que milhões de fãs produzem blogs (como é o meu caso com o Mundo Fantasmo), podcasts, canais do YouTube, etc., para divulgar suas opiniões.
Uma obra sobre a qual todo mundo esteja de acordo é uma obra que nunca será checada, relida, reavaliada, discutida, questionada, atacada, defendida, mantida viva e acesa na memória das pessoas, 100 ou 200 anos depois de aparecer.
O autor desencadeia esse processo. Ele tem todo o direito de discordar de algumas interpretações do seu texto, mas não pode sonhar em ter todas elas sob controle.
Por isso eu admiro a cara de pau, a singeleza e a tranquilidade de Gabriel Garcia Márquez quando se refere às discussões dos críticos de Cem Anos de Solidão:
Todo bom romance é uma adivinhação do mundo. Os críticos assumiram, por sua conta e risco, a grave responsabilidade de decifrá-los, e é preciso esperar que o façam. Não me refiro, é claro, às incontáveis alusões de caráter privado que há no meu livro, e que somente meus amigos íntimos podem descobrir: que cada data corresponde ao aniversário de alguém, que uma personagem tem o mesmo temperamento da minha mulher, que os nomes que alguém pretende pôr nos filhos são os nomes dos meus filhos... e mais mil coisas que é impossível descobrir pela simples leitura do romance. O que me alarma, por outro lado, é que ninguém tenha assinalado uma só das 42 contradições que eu mesmo descobri depois de publicar o livro, nem os seis erros graves que me foram indicados pelo tradutor italiano, e que não vou corrigir nas futuras edições, nem nas outras traduções, porque não seria uma atitude honesta.
(entrevista a Armando Durán, Revista Nacional de Cultura, Caracas, setembro de 1968)
terça-feira, 30 de outubro de 2012
3017) Laerte: La Earth (30.10.2012)
(Laerte, foto de Rogério B. Huss)
A Terra, o nosso planeta, é vista como uma personagem
feminina em movimentos influenciados pela contracultura, o feminismo, o
misticismo, a ecologia e a preocupação com o meio ambiente. A Mãe Terra é uma
criatura viva (alguns chamam a isto “a hipótese de Gaia”), e o princípio
feminino seria o princípio básico da existência. Pode-se pensar numa situação
em que na humanidade só existam mulheres e elas consigam de algum modo se
auto-fecundar e gerar novos seres; mas não se pode pensar numa humanidade
composta apenas de homens. Biologicamente, a humanidade consiste nelas, e nós
somos acessórios necessários, por enquanto, à reprodução da espécie. (Mas que
isto não nos esmoreça, companheiros, em nosso cumprimento do dever!)
Laerte Coutinho é um dos grandes quadrinhistas brasileiros,
criador dos “Piratas do Tietê”; surgiu em revistas como Circo, Chiclete com
Banana e outras, numa geração de desenhistas que incluía Angeli, Glauco, Adão
Iturrusgarai, etc. Há dois ou três anos
começou a se vestir de mulher, e diz ele que deu mais entrevistas nos últimos
tempos do que ao longo de toda sua longa carreira de desenhista (Laerte tem 61
anos). Laerte decidiu assumir sua porção feminina e vestir-se com as mesmas
roupas que as mulheres se vestem, ir ao banheiro feminino, pedir para ser
tratado como “ela” e “a senhora”, etc.
Laerte virou gay? Foi a primeira pergunta que foi feita e a
mais irrelevante, até porque ser gay está aos poucos virando uma coisa muito
comum e muito aceita no país. Há focos de resistência, mas diminuem a cada
década. O que não é comum no país é um homem vestir-se de mulher e sair à rua –
sem ser no carnaval, no teatro, numa festa à fantasia, num filme ou em qualquer
situação onde possa ser invocado o pretexto de que era mera brincadeira ou
encenação.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
1016) A arte de lavar pratos (18.6.2006)
Um amigo meu, sertanejo por convicção e machista por conveniência, costuma afirmar: “No dia em que me virem lavando um prato, podem ir procurar meus “pussuídos” na lata de lixo, porque alguém cortou e jogou lá!”
Eu não sou radical a este ponto, embora confesse que lavar pratos não é uma prioridade para meus momentos de lazer. Prefiro pagar a alguém para fazê-lo, mas também pago ao eletricista, ao encanador, ao pedreiro. Não é uma questão de sexo ou gênero; é uma questão de tarefa chata.
Os homens, que não são bestas, passaram séculos fazendo uma lista de tarefas chatas e combinando entre si que toda mulher que nascesse sofreria uma lavagem cerebral desde a época das fraldas até ficar convicta de que aquilo era obrigação sua. Funcionou.
Funcionou com a arte de cozinhar, por exemplo, até que recentemente os homens resolveram vestir o avental e aparecer em programas culinários na TV-a-cabo, ensinando a fazer estraga-onofre e outros pratos sofisticados. (Acho que agora são as mulheres que estão promovendo uma lavagem cerebral às avessas, mas isto é assunto para outro dia)
Não acho que lavar pratos seja menos masculino do que escovar os dentes. É uma tarefa chata, mas aí eu digo como Clint Eastwood ou Charles Bronson: “It’s a dirty job, but someone has to do it”.
Qualquer sujeito que teve que se virar sozinho na época de estudante aprendeu uma série de truques. Estudei um fenômeno chamado Ciclo de Cristalização dos Resíduos. E aprendi que prato, ou você lava logo depois de comer (quando os resíduos, ainda aquecidos, não se cristalizaram e aderiram à louça ou ao vidro), ou então bota na pia – de molho. Cobrir os pratos com água abundante dilui os resíduos, reduzindo em 93% o tempo de esfregação subseqüente para os pratos, e em até 48% o das panelas.
As panelas são um capítulo à parte, pois a comida submetida a temperaturas de cocção passa por transformações químicas intensas, as quais quase que soldam as substâncias à parede interna do receptáculo. Lavar uma panela horas depois, sem deixá-la de molho, significa escalavrar as unhas no bombril, e obter resultados que uma doméstica profissional desmoraliza com uma gargalhada.
Lavar liquidificador também requer minúcias de neurocirurgião. (Naquele tempo eu simplesmente chacoalhava água lá dentro, enxugava, e guardava de volta) Lavar talheres é um saco. O cara pega a esponja, esfrega uma daquelas faquinhas serrilhadas para churrasco, e sai dali com um corte no dedo, sendo que de noite vai ter que tocar violão e contar lorotas num teatro. Não pode nem se desculpar: “Eu estou tocando mal porque cortei o dedo, lavando pratos...”
Lavar pratos, companheiros, é como escovar os dentes. Já que tem que fazer, que se faça de maneira vigorosa, eficaz, definitiva. Acabou de almoçar? Não esquente: bote o prato de molho e vá ver um jogo na TV, enquanto a água desmancha as cadeias peptídicas (ou sei lá o que acontece quando um prato está de molho).
sábado, 7 de março de 2009
0867) A loucura social (27.12.2005)
Está nos jornais desta semana. Se acharem que é mentira minha, googlem os nomes e verifiquem. Nazeer Ahmed, um pai de família do Paquistão, levantou-se no meio da noite, foi na cozinha buscar uma faca bem afiada, entrou pé ante pé nos quartos onde dormiam suas quatro filhas (respectivamente com 25, 12, 8 e 6 anos de idade) e cortou o pescoço de todas elas.
O crime causou grande comoção da cidade de Burewala, a 110 km de Multan, no leste do país. Depois de consumadas as execuções, o que fez o nosso bravo Nazeer? Pegou o camelo e sumiu no deserto? Correu para o aeroporto mais próximo, munido de passaporte falso e barba postiça? Não: apresentou-se à polícia, informou o que tinha acontecido, assumiu toda a responsabilidade pelo ato e disse que tinha feito isto para lavar a honra da família, pois Muqadas, a filha mais velha, tinha se casado contra a sua vontade, dizendo que queria se casar por amor, e não por imposição da família.
“Sim,” disse o policial, “ela, eu entendo, mas, e as outras?” Ele esclareceu: “Para não seguirem o mau exemplo”.
Esta última resposta mostra o grau de desequilíbrio mental do cidadão. Parece mostrar uma certa falta de confiança em si mesmo como pai, uma certeza de que sua autoridade, uma vez desafiada, nunca mais conseguirá se impor; mas para mim revela o pavor de um indivíduo que sente estar enfrentando forças de vastidão cósmica, forças misteriosas contra as quais só se pode lutar tomando decisões extremas.
Nazeed não disse, mas deve achar que essa história de casar por amor é uma loucura contagiosa, e que a única maneira de livrar as meninas de uma tal psicose seria matando-as.
Minhas amigas feministas dirão que a culpa é do machismo, que nega às mulheres o direito de casar por amor, direito que em nossa sociedade moderna e cosmopolita é tão indiscutível quanto o de respirar oxigênio. Mas eu “desconcordo”. Lembro, por exemplo, o caso recente daquela mocinha de São Paulo que, por amor, juntou-se ao namorado e matou os pais enquanto dormiam. O caso dela é o avesso do caso de Nazeer. Em ambos, eu chamo a isso loucura social. A capacidade de matar por uma emoção, por um conceito de felicidade ou de ordem.
No recente filme A queda – Os últimos dias de Hitler, a esposa do Ministro Goebbels diz ao marido, ao ver que Hitler está derrotado: “Não quero que meus filhos cresçam num mundo que não seja nacional-socialista”. Com notável frieza, obriga as cinco crianças a tomar um narcótico, e depois que estão adormecidas vai nos beliches, coloca entre os dentes de cada uma delas uma cápsula de cianureto e, com uma leve pressão, faz a cápsula se partir. Um arquejo, algumas contrações do corpo, e está tudo acabado.
Nosso mundo está cheio de casos assim. Alguém mata pessoa que ama (ou que em princípio deveria amar) porque ela contradisse uma aparente unanimidade social. Disse Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. Digo eu que qualquer unanimidade é potencialmente criminosa.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
0473) “Clube da Luta” (24.9.2004)

No filme Clube da Luta um jovem executivo (Edward Norton) vive como um zumbi, comprando roupas de griffe e mobília da moda, e investigando acidentes de automóvel para avaliar se vale a pena fazer um “recall” (tirar o carro do mercado). Ele freqüenta grupos de ajuda para pacientes de câncer somente para abraçar desconhecidos e chorar em seu ombro. Sua vida se resume a isso, até o dia em que ele encontra um sujeito meio maluco (Brad Pitt) e juntos os dois fundam um clube-da-luta, um lugar onde homens se reúnem para brigar de socos, quebrar a cara um do outro, e, assim, sentirem que são homens de verdade, e não apenas peões no jogo burocrático das grandes corporações. O filme é de uma improbabilidade generalizada: o roteiro é cheio de buracos, os maus-tratos físicos parecem não deixar fraturas nem cicatrizes, mas é um delírio talentoso. Incomoda, é questionável, mas vale a pena ver.
O tempo todo me lembrei um livro escrito por uma mulher. Em A Vida Íntima de uma Esquizofrênica – Operadores e Coisas (Imago, 1972), Barbara O´Brien conta a história arrepiante de sua própria crise esquizóide. Ela trabalhou numa corporação onde os funcionários eram capazes de qualquer sacanagem para obter uma promoção ou para prejudicar um colega. Quem já trabalhou em repartição pública ou nessas “empresas modernas e competitivas” de hoje sabe do que estou falando. Um dia (o livro é de 1960) ela acordou com três desconhecidos no seu quarto: um garoto, um homem idoso, e um ser sobrenatural. Os três se apresentaram como seus Operadores, ou seja, eram eles quem manipulavam a mente dela. Como ela estava com problemas, eles, a contragosto, decidiram tornar-se visíveis e manipulá-la diretamente. Desse dia em diante, as vozes dos Operadores não pararam mais de dar-lhe instruções.
Se nunca leu uma história de terror, meu camarada, leia esta, até porque não é ficção: os hospícios estão cheios de gente que vive nela. Não descreverei a vida de pesadelo que Barbara O´Brien viveu nos anos seguintes, nem a maneira espantosa como se auto-curou sem ninguém saber. O livro dela é um clássico. Mas observei que Clube da Luta tem uma estrutura parecida. Um sujeito vive no interior de uma empresa baseada na competição interna, na hierarquia, no cinismo, no consumismo, na violência psicológica gratuita. Para fugir dali, funda um grupo de marginais que se espancam mutuamente para se sentirem mais humanos. Logo-logo o clube vira uma entidade paramilitar de skinheads parecidíssima com a própria empresa onde o cara trabalhava. Predatória, egoísta, visando ao lucro, desprezando o cliente e o público em geral. A ideologia do “destruir para consumir” chega rapidinho ao “destruir por destruir”. O “Projeto Destruição” do filme é uma versão adolescente, esquizóide, tresandando a testosterona mal absorvida, do pesadelo yuppie dos EUA de hoje. Um país esquizofrênico e agressivo; só não sei se, como Barbara O´Brien, conseguirá se curar sozinho.
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