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domingo, 7 de junho de 2020

4587) Uma literatura ao rés do chão (7.6.2020)





(Amsterdam)

Existe uma comparação permanente, em quem comenta livros, entre a literatura e a arquitetura. Um livro é como um edifício: uma coisa construída para abrigar gente dentro dela.

Isso fica mais verdade ainda quando a gente pensa em livros SOBRE edifícios, onde o edifício é, num certo sentido, o personagem de verdade.


Notre Dame de Paris (1831) de Victor Hugo é a aventura melodramática e folhetinesca de seus personagens: a cigana Esmeralda, o capitão-da-guarda Phebo, o corcunda Quasímodo, o arcediago Frollo. Mas é acima de tudo a história da catedral que lhe dá o nome.

Falei sobre ela aqui:

Pedaços da história-histórica, por assim dizer, mas também a história simbólica que a catedral representa. E nem falo aqui da simbologia alquímica e iniciática que o misterioso Fulcanelli desvendou parcialmente em O Mistério das Catedrais (1926). Falo do significado que uma igreja como aquela tem para uma cidade.

Lembro disso quando me vem à lembrança o famoso comentário de George Orwell sobre a obra de Charles Dickens, quando ele disse algo como “a arquitetura é mal feita, mas as gárgulas são maravilhosas”. Ou seja: o conjunto é mal planejado e nem tudo se encaixa, mas os detalhes (personagens, diálogos, cenas isoladas) valem pelo resto.



Isso deve corresponder a uma das muitas abordagens do processo criativo, e que eu resumiria assim: tem obras onde se parte do geral para o detalhe (planeja-se a arquitetura do edifício, e depois vai-se recheando o bruto com gárgulas), e outras onde se parte do detalhe para o geral (prepara-se um time inteiro de gárgulas, e à medida que surgem vai-se arranjando parede onde encaixá-las).

Está cheio por aí de escritores de um tipo e escritores de outro.

Mas eu ando pensando muito em uma terceira opção literária, que é a prosa de ficção que não se propõe a ser arquitetônica, não se propõe a traçar um plano prévio na prancheta, não se propõe a criar um formato que visto à distância exprima alguma coisa.

São obras que (posso estar errado – mas a impressão que me dão é essa) vão sendo criadas por acreção, por acrescentamento, e não para encaixe numa estrutura previamente imaginada. As novelas de cavalaria eram bem assim: uma aventura, depois outra, depois outra, depois outra, depois outra, o que faz com que muitos desses romances caudalosos (alguns deles em verso!) funcionem como livros de contos, embora a unidade de personagens e de tempo permita vendê-los a preço de romance.


O Dom Quixote, genial como é, não me parece ter estrutura nenhuma: é um desfile de gárgulas, uma sucessão linear de situações que de vez em quando se referem a situações passadas. E só. (Isso não é um defeito – é uma opção estrutural.)

Tem três livros (todos pós-Dom Quixote) que nunca li por inteiro, mas tenho por aqui, e de vez em quando pego, e só de sacanagem abro ao acaso e pego um começo-de-capítulo, leio dez ou vinte páginas... Por que?  Porque eu sei que estruturalmente falando é como se nada tivesse acontecido antes e nada viesse a acontecer depois, mesmo sendo as mesmas pessoas, os mesmos ambientes, a mesma moldura temporal.

Esses livros são o que eu chamo de “literatura ao rés do chão”, porque (posso estar enganado) seus autores não fizeram nenhum projeto arquitetônico, vertical e monumentalista, antes de escrevê-los. 

Foi como se a verba de construir uma nova Notre Dame tivesse saído a prestação. O autor, impossibilitado de erguer grandes estruturas, fez primeiro um sobrado, depois ao lado dele uma bodega, depois uma casinha de porta e janela, depois um galpão, depois outro sobrado, depois uma mansão de gente rica, depois três barracos... O livro avança assim, linearmente, na horizontal.

Esses livros são: O Manuscrito de Saragoça (1815) de Jan Potocki, Jacques, o Fatalista, e seu Amo (1786) de Denis Diderot e Tristram Shandy (1759-1767) de Laurence Sterne.



Veja-se que são praticamente três livros do século 18, porque até mesmo Potocki, o mais recente, escreveu o dele numa era pré-Hugo, pré-Balzac, pré-Dickens, pré-Tolstoi.

Romance e conto são dois gêneros estruturalmente diferentes, por mais que as pessoas pensem que o romance é um conto grande e o conto um romance pequeno. Não são.

A idéia que temos hoje do romance clássico, no entanto, tem algo em comum com o conto: é uma história com começo, meio e fim. Há um conjunto de acontecimentos que surgem, que conduzem a situações capazes de produzir em nós uma certa curiosidade, expectativa, tensão, sopesamento de possibilidades, até mesmo ansiedade e suspense, inquietação diante de um mistério... e num movimento final essas situações se concluem, chegam a um desfecho, encerram-se com um conjunto de informações novas e satisfatórias.

Nessas histórias “ao rés do chão”, não se vê essa estrutura. Mesmo o Dom Quixote não tem resolução dramática de um grande conflito: o personagem tem uma série de aventuras e acaba morrendo porque todo mundo morre. Não é um círculo que se fecha, é uma linha reta que meramente se interrompe.

Digo isto fazendo a ressalva de que, não tendo lido aqueles livros linearmente até o fim, posso não ter percebido algum senso arquitetônico oculto que eles possam ter. (Diz a crítica que o livro de Potocki tem um arco narrativo geral, mas evitei pesquisar mais, para não espoliar meu prazer.)

Mas independentemente destes exemplos, essa literatura existe, sim – o chamado “Romance Picaresco” ou romance de estradeiro consiste justamente nesse trajeto linear de aventura em aventura, de episódio em episódio, sem que nenhum enredo mais amplo esteja sendo composto. É um colar de peripécias, e o único fio é o trajeto do personagem pelo espaço e pelo tempo, sem nenhuma missão a cumprir, nenhum mistério a esclarecer, nenhum reino a conquistar ou resgatar. A vida apenas (disse o poeta), sem mistificação.


(by Tom Gauld)






domingo, 24 de abril de 2016

4107) Shakespeare e Cervantes (24.4.2016)



O conceito de contemporaneidade é uma coisa engraçada. Usa-se muito essa palavra como sinônimo de “atual”, “da época presente”: A música brasileira contemporânea tem explorado tais e tais caminhos.  Mas o que me interessa é a contemporaneidade como laço entre duas coisas, dois acontecimentos bem separados no espaço.

Já li uma crítica questionando uma dessas contemporaneidades históricas (“Fulano e Sicrano viveram na mesma época”). É quando Castro Alves diz, em “O Livro e a América”:

Por uma fatalidade 

dessas que descem de além, 

o sec'lo, que viu Colombo, 

viu Gutenberg também. 

Quando no tosco estaleiro 

da Alemanha o velho obreiro 

a ave da imprensa gerou... 

O Genovês salta os mares... 

Busca um ninho entre os palmares 

e a pátria da imprensa achou...

Não há sincronia entre as vidas e os tempos dessas duas grandes figuras, embora tenham de fato vivido no mesmo século. A primeira Bíblia de Gutenberg é de 1455, quando Colombo era ainda um guri de cinco anos. O “quando” usado pelo poeta não supõe que os dois fatos que refere são simultâneos, mas que são sucessivos. Quando isso, depois aquilo.

Vejam com que fluência o poeta compara a invenção de um com o voo de uma ave, e o descobrimento geográfico do outro com o achamento de um ninho. Essa ligação metafórica suaviza o fato de que os dois viveram em mundos separados. Gutenberg morreu em 1468, sem desconfiar que existia outro continente além do Atlântico. Já Colombo, era um leitor voraz de obras impressas, como as Viagens de Marco Polo.

Salman Rushdie, num texto aludindo à contemporaneidade entre Shakespeare (1564-1616) e Cervantes (1547-1616), faz alguns comentários pertinentes, como o de notar que os livros do soldado têm muito menos batalhas, e as guerras são menos levadas a sério, do que as peças do dramaturgo que nunca esteve em campo de batalha.

Em casos assim, resta sempre a curiosidade de saber se dois escritores dessa estatura, vivendo praticamente no mesmo continente, não teriam ouvido falar na fama do outro, e se interessado para ler algo que o outro escreveu. Acho isso sempre um detalhe importante para um bom biógrafo literário investigar. O que ele lia? O que chamava sua atenção? Quem eram os mais lidos na época dele, pelos amigos, pelos colegas, pelo público-alvo?

A crítica registra que entre o Bardo de Avon e o criador do Cavaleiro da Triste Figura (que em inglês recebe o charmoso apodo de “the Knight of the Doleful Countenance”) o único contato possível pode ter sido (não se sabe ao certo) Shakespeare lendo o Dom Quixote, grande sucesso europeu, traduzido ao inglês por Thomas Shelton em 1612 (a parte I). Houve portanto um período de quatro anos em que o dramaturgo inglês podia tê-lo lido em sua língua. Quanto a Cervantes conhecer suas peças, seria bem menos provável. Eram um sucesso localizado, ao contrário do Quixote, e só séculos depois ganharam o mundo.

Borges tem um viés interessante para essa questão de duas pessoas contemporâneas. Num dos últimos ensaios de Otras Inquisiciones (“Nueva refutación del tiempo”), ele conta, com a maior seriedade:

No princípio de agosto de 1824, o capitão Isidoro Suárez, à frente de um esquadrão de hussardos do Peru, decidiu a vitória de Junín; no princípio de agosto de 1824 De Quincey publicou uma diatribe contra Wilhelm Meister Lehrjahre; esses fatos não foram contemporâneos (agora o são) já que os dois homens morreram, aquele na cidade de Montevidéu, este em Edimburgo, sem saber nada um do outro.
Ou seja, Suárez viveu num universo onde o panfleto de Thomas De Quincey não existia, e provavelmente o próprio De Quincey também. E não é difícil imaginar um mundo em que um poeta romântico inglês não tenha conhecimento da existência de um militar sulamericano. Viveram em mundos isolados, estanques.

O que Borges parece querer dizer é que não basta terem existido materialmente ao mesmo tempo, como sabemos que aconteceu. Seria preciso que de algum modo as idéias de pelo menos um deles influenciasse o pensamento ou as ações do outro. Seria preciso que pudéssemos dizer que houve um mundo em que pelo menos A conhecia a existência de B.  Seria preciso que houvesse um universo mental, pelo menos um, onde eles dois fossem reais.

Não deve ser difícil prolongar esse jogo, imaginar mil pares de eventos desrelacionados num momento histórico qualquer. Em julho de 1930, por exemplo, surgiu um dos mais famosos personagens do romance policial, o detetive Maigret, de Georges Simenon, na novela Pietr-le-Leton. Também em julho de 1930 deu-se o assassinato de João Pessoa por João Dantas, no Recife, no dia 27 daquele mês. Os protagonistas do crime desencadeador da Revolução de 30 teriam alguma informação sobre o livro do então obscuro Simenon? Duvido. Simenon e seu público saberiam do crime da Confeitaria Glória, no longínquo Brasil? Duvido.

Como diria Borges, são fatos contemporâneos agora, que, através de nós, eles começam pela primeira vez a habitar o mesmo universo. Na intuição idealista de Borges (“só é real o que é pensado”) viviam em universos estanques, até que surgiu uma mente capaz de pensar juntas suas duas idéias.




terça-feira, 12 de janeiro de 2016

4022) Poemas para o Quixote (13.1.2016)



Talvez sejam Dom Quixote e Sancho a dupla de personagens mais famosos da literatura, mais famosos até do que Sherlock Holmes e o dr. Watson, que a eles se assemelham. Desde 1605 e 1615, anos em que foram publicadas as duas partes do romance de Cervantes, viraram referências, símbolos, parâmetros. Em comemoração a esta última data, Carlos Newton Júnior compilou a antologia Poemas para Dom Quixote & Sancho (Recife, Editora UFPE, 2015), onde reúne poemas ou fragmentos de poemas de autores brasileiros e portugueses, do século 19 até nossos dias. Em alguns casos, são apenas menções passageiras numa obra que trata de outro assunto; em outros, a dupla de Cervantes é o foco principal do poema.

Além de vários poetas obscuros (para mim, pelo menos), a antologia traz versos de Machado de Assis, José Saramago, Ivan Junqueira, Cruz e Souza, Augusto Frederico Schmidt, vindo até autores mais recentes como Fausto Wolff, Alexei Bueno e Orides Fontela. De um modo geral, os poemas glosam os temas propostos por Cervantes; não cheguei a ver uma releitura, uma tentativa de dar uma nova versão dos personagens, a não ser no longo poema dramático “O amor de Dulcinéia” (1928) de Menotti del Picchia, que propõe um Sancho sonhador e um Quixote pragmático. Como regra geral, os autores aceitam a formulação de Cervantes e usam os personagens com a reiteração constante dos perfis que já conhecemos.

“De nós dois,” diz Carlos Drummond, “quem o louco verdadeiro? / O que, acordado, sonha doidamente? / O que, mesmo vendado, / vê o real e segue o sonho / de um doido pelas bruxas embruxado?”. A oposição maior entre os dois personagens é a polaridade sonho/não-sonho, glosada por quase todos os poetas. Ferreira Gullar diz: “Chamar-me de louco, ousas! / Loucos são todos, em suma: / uns, loucos por várias cousas, / outros por cousa nenhuma!”.  São, por assim dizer, poemas líricos sobre um tema épico, onde a grandiosidade do real e do sonho transparece em versos como os de Teixeira de Pascoaes: “A vida só é bela na montanha / só é bela no mar ou no deserto...”

Trechos de humor estão presentes, como quando Del Picchia descreve o cavaleiro montado em Rocinante como “um espeto em cima de um estrepe”, ou quando Drummond o faz exclamar: “Amigo Sancho, vai-te à merda!”.  Mas, por patéticos que sejam, os personagens são uma concentração inédita de vida, de sofrimento verdadeiro, de alegrias, de uma agitação fugaz não muito distante da nossa.  E o português João Manuel Simões adverte: “Considera, Sancho irmão / que é pouco, para viver, / todo o tempo que há no mundo. / Contudo, para morrer / (amarga constatação) / basta apenas um segundo.”