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domingo, 27 de novembro de 2022

4887) 33 livros (27.11.2022)





1
Aquele livro de uma editora descolada e moderna, que a gente pega no balcão da livraria e leva alguns minutos tentando entender as letras do título. 
 
2
Aquele livro grosso, caro, de texto cerrado em fonte pequena, que a gente compra sem folhear e guarda na estante sem abrir.
 
3
Aquele romance estrangeiro de capa instigante, contracapa cheia de fragmentos elogiosos, que a gente compra, começa a ler, e por volta da página 50 percebe que se trata do volume 3 de uma série cujos dois primeiros ninguém se lembrou de publicar aqui.
 
4
Aquele livro de contos de um dos seu autores preferidos, projeto gráfico sedutor, preço caríssimo, mas você acaba comprando porque dos quinze contos incluídos tem dois que você não tem ainda. 
 
5
Aquele livro chato pra caramba que você devolveu à prateleira várias vezes, e quando abre agora encontra dentro dele a conta de luz que acabou não pagando e que resultou naquela tremenda confusão do ano passado, a festa-de-aniversário com energia cortada.
 
6
Aquele livro de Fantasia Heróica, com 500 páginas, que você estava lendo no maior entusiasmo, mas precisou fazer uma viagem, a viagem se prolongou, na volta teve problemas de saúde, a vida veio em ondas como o mar, e agora você percebe que tinha parado na página 322... e agora não lembra nem como é o nome do rei.
 
7
Aquele livro que você tem, mas nenhuma bio-bibliografia do autor registra; e agora?
 
8
Aquele romance de um autor de quem você já leu (e gostou de) todo o resto, menos este, cuja leitura até hoje não engatou.




9
Aquele livro lido, querido e amado na infância, que você reencontrou na idade adulta, e guardou sem ler, para não estragar tudo. 
 
10
Aquele livro estrangeiro que veio com muitas páginas faltando, você mandou um email com foto para o autor, explicando, e recebeu um exemplar perfeito, com dedicatória.
 
11
Aquele livro cuja sinopse é até promissora, mas você não se anima a ler porque o autor é um chato.
 
12
Aquele livro cuja prosa é tão energética que você lê meia página e corre para o teclado, com a cabeça a mil.
 
13
Aquela coletânea enorme, bem produzida, futura referência para muitos anos, e para a qual você foi convidado a contribuir... mas não levou fé.
 
14
Aquele livro que você comprou por engano, leu por uma questão de amor-próprio, e gostou por mera teimosia.   
 
15
Aquele livro que qualquer frase, de qualquer página aberta ao acaso, serve de oráculo.
 
16
Aquele livro que, pela data anotada com sua letra na página de rosto, é o que está com você há mais tempo, na vida inteira.



17
Aquele livro todo sublinhado e anotado com sua letra, e que você não lembra de ter lido.
 
18
Aquele livro que alguém lhe emprestou há 25 anos, e que você ainda guarda, com a firme intenção de devolver.
 
19
Aquele livro precioso e insubstituível, mas já esbagaçado de tanto manuseio, e que você não manda pro encadernador com medo que ele suma.
 
20
Aquele livro que você já leu e releu sem compreender muito bem, mas sente ali verdade, sente ali grandeza, sai dali fortificado.
 
21
Aquele livro onde o autor não é ninguém, o texto não é nada, mas o que a dedicatória diz é tudo.
 
22
Aquele livro que você comprou num sebo por curiosidade, leu, guardou, se desfez dele numa mudança, precisa dele agora para um trabalho, e não anotou nem o título nem o autor.
 
23
Aquele livro que foi seguro a quatro mãos, lido a quatro olhos, recitado baixinho a duas bocas.
 
24
Aquele romance que é até legal, mas você acha os nomes dos personagens totalmente equivocados.



25
Aquele livro que, mal começa a ler, você tem a sensação de que já tinha lido antes, e que o autor dele também.
 
26
Aquele livro que por alguma razão misteriosa você leu e releu e não teve coragem de sublinhar.
 
27
Aquele livro que, a cada vez que você pega para ler, a lombada se quebra mais um pouco, e mais páginas se soltam.
 
28
Aquele romance cujo enredo, antes de chegar na metade, já deu três vezes a impressão de que estava acabando.
 
29
Aquela 1ª. edição raríssima que você achou por 10 reais na lona da calçada.
 
30
Aquele volume bobinho que você comprou somente pelo hábito de trazer um livro de cada cidade que visitava.
 
31
Aquele livro obscuro que um amigo lhe presenteou há dez anos, e toda vez que você o encontra ele pergunta: “E aí, leu?... Não é genial?...”
 
32
Aquele livro que só presta a capa.
 
33
Aquele livro de lombada à base de cola, que precisa ser sujeitado com as duas mãos para ser lido, porque se você o larga ele dá um pulo, feito menino birrento, e volta a se fechar.

 



domingo, 12 de setembro de 2021

4743) "Eu quero ler, e não posso" (12.9.2021)



Quando se fala nessa história de gente que lê livros e gente que não lê, existe uma tendência a dizer que o brasileiro não lê porque só gosta de televisão, de novela e tudo o mais. Pode até ser, mas tem gente que gostaria de ler e não consegue.
 
Eu estava de passagem por Campina Grande muitos anos atrás, não sei exatamente quantos. Eu estava na casa dos 50 anos. Era uma época ótima, de muito trabalho, muitas viagens, e muita farra também.
 
Tinha saído com uma turma de amigos, era sábado e a gente estava bebendo e conversando desde a tarde. A certa hora da noite, entramos no carro e alguém disse:
 
– Olha, vocês eu não sei, mas eu estou com fome. Pago um milhão de reais por uma galinha guisada com macaxeira.
 
O que estava ao volante anunciou:
 
– Pois pode ir preenchendo o cheque, porque vamos direto pra Tia Noêmia.
 
Era uma casa em José Pinheiro, o popular Zepa, bairro dos raposeiros, os torcedores do Campinense; mais populoso do que muitas cidades paraibanas. Chegamos lá, era uma casa discreta, com uma latada na lateral, meia dúzia de mesas.
 
Sentamos, fizemos os pedidos, brindamos na primeira rodada de cerveja, e quando limpei a espuma do lábio olhei em redor e numa mesa próxima avistei João Melo bebendo sozinho. Pedi licença à turma, levantei e parei junto da mesa dele.
 
– Fala, caba safado.
 
Ele ergueu olhos carrancudos, mas que se arregalaram ao me reconhecer. Ficou de pé, demos um abraço, ele me pediu para sentar. Engatamos na conversa, nas lembranças.
 
Tínhamos estudado juntos no Estadual da Prata, nos anos finais do ginásio. Tempo bom. João era um aluno irrequieto e inteligente. De vez em quando era botado pra fora de classe, porque conversava incontrolavelmente. Algumas vezes fugimos juntos, eu, ele e mais alguns, pra cortar caminho pela Duque de Caxias e ir ver o treino coletivo no campo do Treze. Para se ter uma idéia, João Melo era raposeiro, ia só pela aventura e pela farra.
 
– Mas Braulio... Lembra quando teve o golpe de 64? A gente tudo amontoado no pátio lá de cima, olhando os PM bloqueando a saída dos portões do colégio... E a gente cantando: “Acorda Maria Bonita, levanta pra fazer café...”
 
– “Que o dia já vem raiando, e os polidoro já tão de pé...”
 
Risadas. “Polidoro” era como se chamava soldado da PM naquele tempo. Lembramos de Prof. Almeida, que ensinava Ciências e trazia a aula na ponta da língua, como quem recita uma peça de teatro; Dona Wanda, mãe dos gêmeos, que ensinava Geografia e tinha uma voz de artista de cinema; Celso, que era gay e botava moral, na aula dele ai de quem desse um pio; Josusmá Viana, outro que ensinava Português, risonho, bem humorado...
 
– Mas Braulio, e tu perdesse um ano, não foi? Rapaz, nunca acreditei.
 
– Eu vagabundava muito. No fim do ano, quem me lascou foi Matemática e Desenho.
 
– Teu pai te deu uma surra?
 
– João, era melhor que tivesse dado... Eu levei a notícia pra ele, ele escutou, fez assim com a cabeça e não disse nada. Nunca mais tocamos nesse assunto. Mas daí pra frente eu tirei umas notas boas, acabei compensando.
 
– Ah, rapaz, meus parabéns! Eu soube que você publicou um livro. Um livro! Vi no jornal, faz anos isso.
 
Àquela altura, eu já tinha publicado meia dúzia. O orgulho dele era visível. Um livro! Perguntei sobre o trabalho. Ele trabalhava de supervisor numa fábrica. Casado, claro, quatro filhos entre dezoito e cinco anos. Morava no Zepa, ali pertinho.
 
Lembrei que muitas vezes a gente voltava do colégio e ia comprar livros de bolso na lojinha das Edições de Ouro, ao lado do Capitólio. Eu ficava horas escolhendo, comprava algum policial de Irving Le Roy ou um livro de terror. João Melo tinha a minha idade, mas levava leitura a sério. Eu lembrava ele comprando, com expressão concentrada, livros como Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco ou A Besta Humana de Émile Zola.
 
– Tu ainda lê muito, João? Vou te mandar meu livro.
 
– Ah, rapaz, quem me dera... Faz anos que eu não leio um livro. Nem lembro mais qual foi.
 
Começou a descrever a rotina dele, sem lamentações, sem coitadismo. Era “o tirinête da existência”, como ele disse com bom humor. Acordando com o dia ainda escuro, um transporte para o centro da cidade, outro para Bodocongó, e mais uma caminhada de alguns quilômetros até o lugar da fábrica, se não quisesse ficar esperando uma kombi que fazia uma ida-e-volta. O salário contado. A mulher cuidando da casa e volta e meia costurando, volta e meia aprontando salgadinhos, a filha mais velha que já dava aula em algum lugar... Chegava em casa nove da noite, era só banho, janta, conversa e sono de novo.
 
– E no fim de semana?
 
– Levar os menores pra passear. Quando tou rico é um cinema, quando tou pobre é correr no parquinho. E de vez em quando uma cerveja com os amigos. Hoje marquei aqui com um vizinho, que até agora não apareceu. Eu pensei: “Vou tomar só uma, pra não passar em branco.” E aí olha quem aparece. O fí de Seu Nilo. Teu pai como vai?
 
– Faleceu há pouco tempo. Vamos tomar uma em lembrança dele.
 
Tomamos. Começamos a falar de livro. Naquele tempo, a gente falava muito de livros e mesmo sendo da mesma idade João me dava conselhos, indicava “títulos fundamentais”, segundo dizia.
 
– João, eu só li Capitães de Areia por tua causa.
 
– Não me lembro desse.
 
– Jorge Amado, rapaz!
 
– Sim, Jorge Amado eu sei quem é. Não lembro se li nada dele.
 
Bem, eram uns trinta e cinco anos de intervalo. As coisas vão ficando na bruma. João tinha imaginado que as coisas iam ser diferentes, mas quando o pai morreu ele teve que parar de estudar, com o segundo grau completo e só. A mãe doente. A inflação. As crises. Os empregos que nunca rendiam grande coisa. Vieram mulher e filhos, aumentando as despesas. Trabalho, trabalho, trabalho.
 
– Eu não tenho cabeça, velho. A hora que eu tenho pra ficar em casa é só pra ver televisão. Quando preciso ajudar meus filhos com dever de casa é um sacrifício, porque o juízo não entra em foco, sabe como é? Dá uma trava. “Pai, o que é triângulo equilátero?...” E eu não lembro mais nem o que é triângulo.
 
Era alguns meses mais novo do que eu; agora, parecia anos mais velho. Nas aulas de Josusmá, havia um exercício horroroso de levantar e ir na frente do quadro-negro fazer um discurso de improviso; eu detestava isso, ficava vermelho, gaguejava. João Melo tirava essas coisas de letra. Parecia uma versão de Rui Barbosa feita por Oscarito.
 
Lembrei trechos de um desses discursos dele, que a turma ficou repetindo: “Bravos concidadãos... A Pátria precisa de vós! A Pátria precisa de voz! (gesticulando na garganta, com expressão trágica) A Pátria está muda! A Pátria está surda! A Pátria está mouca! A Pátria está oca!...”  E a gente rolava de rir, batendo palma.
 
– Nem me lembrava disso – disse ele. – Como é que tu lembra, rapaz? Isso é uma memória da porra.
 
– A gente ficou anos repetindo isso. Eu, tu, Lagoa Seca, Zé Renato, Nicó... Lembra de Nicó? Ele depois virou dono de um curso de inglês em João Pessoa.
 
Um vento soprou por cima da vida de João Melo. Um vento espinhara, o bafo quente do sertão, que cresta tudo, que tudo torra e esfarela. Ele não podia saber, mas aqueles anos despreocupados, com livros de bolso, cinema no sábado, futebol no domingo, tinham sido o ponto alto da leitura na vida dele. Dali em diante foi só descida, descida para a cratera-fornalha dos empregos, das dívidas, dos compromissos... A família compensando, com suas alegriazinhas e seu aconchego, o moedor-de-carne em que se transforma a vida de quem trabalha assim. De quem corre como se tivesse uma corda amarrada na cintura e a outra ponta amarrada num trem que não para nunca.
 
João Melo jamais vai ler estas linhas. Não é para ele que eu escrevo meus livros. Meus livros são lidos por quem se acomoda numa poltrona, no silêncio de uma sala, põe uma música baixinho, abre um vinho, uma cerveja... Ou talvez por quem me lê em pé no metrô, máscara no rosto, livro aberto à frente da cara, olhos concentrados... Ou por quem lê de noite, sentado na cama, luminária puxada para pertinho, uma esposa ou marido ressonando junto...  
 
Ler é um luxo, um privilégio? Ou é uma batalha?  Não duvido que muita gente, tão surrada pela vida quanto João Melo, ainda consiga varar um Jorge Amado de ponta a ponta, um Paulo Coelho que seja. São vitórias. Ler exige esforço, e por isso exige esforço de pessoas exaustas. 

O moedor-de-carne não deixa muitos minutos livres para investir em leitura. Mesmo quando os boletos estão pagos e tem comida na geladeira, mesmo quando as pessoas estão risonhas e aparentemente tranquilas, aí vem a música, vem a televisão, vem o cinema (“quando tou rico”)... Tem novela, tem filme na telinha, tem tanta coisa pra se compartilhar, a família no sofá, nas poltronas, conversando, ouvindo, acompanhando os programas, trocando uma idéia... Tudo conspira para que um homem com a barba quase branca acabe desistindo de se isolar num quarto pra ler Capitães de Areia.
 
 
 
 
 
 
 
 







quinta-feira, 12 de outubro de 2017

4277) Por que nunca li Kazuo Ishiguro (12.10.2017)



Coitado de Kazuo Ishiguro: entrou neste título como Pilatos no Credo. Podia ter sido Haruki Murakami, ou Yasunari Kawabata, ou Yukio Mishima, para ficar somente em alguns dos seus conterrâneos nobelizáveis.

A lista dos autores que nunca li daria alguns terabytes de arquivo “.rtf” e serviria como um excelente guia de estudos para a juventude dos próximos séculos.

Alguém me diz:

– BT, o que você acha da obra de Gilles Deleuze?

– Nunca li – respondo.

– Por quê?

E aí a conversa trava, porque não sei o que responder. Já quis ler. Já devia ter lido. Preciso ler! Seguramente lerei, daqui para o ano 2095.

Eu não tenho a menor idéia de por que não li esses caras, porque em tese todos me interessam, eu não tenho nada contra nenhum deles, não acho que sejam chatos, que sejam reacionários, que sejam incompreensíveis, que sejam entediantes.

Às vezes pego finalmente o livro para ler e não gosto, porque descubro que têm um desses defeitos, ou algum outro. Mas isso nunca me ocorre antes da leitura.

Ouço falar em “Peter Ackroyd”, em “Elisa Lispector”, em “Jane Austen”, em “Mário Palmério”, em “Harold Bloom”, em “Dyonélio Machado”, nesse pessoal que todo mundo lê e elogia, e sempre me dá uma vontade danada de conhecer a obra deles.

E não se fale na inacessibilidade dos livros, porque muitas vezes já tenho alguns na estante.

Acontece que “ler um livro de alguém” é um ato voluntário, uma decisão. “Não ler um livro de alguém” não o é. Cada livro pegado pra ler tem no outro lado da balança 100 livros que não tiveram essa sorte (ou azar). Ler um é cancelar a possibilidade de estar lendo os outros. E nem sempre estamos lendo “A” porque achamos que ele é superior ao restante do alfabeto. As razões para ler são milhões, e as razões para não ler, quase nenhuma.

Existem pessoas metódicas, que leem metodicamente, fazem listas de leitura e as cumprem fielmente. É uma questão de profissionalismo, que admiro.

O respeitável S. T. Joshi afirma que para escrever seu clássico ensaio The Weird Tale (1990) programou-se para ler tudo que foi escrito pelos seus autores estudados (Arthur Machen, Lord Dunsany, Algernon Blackwood, M. R. James, Ambrose Bierce e H. P. Lovecraft). O grau de detalhe com que ele aborda essas obras (às vezes várias dezenas de livros, no caso de alguns deles) dá a entender que leu mesmo tudo.

E existem leitores que só fazem isso quando estão trabalhando a sério sobre algum assunto, mas são totalmente caóticos nas leituras complementares. Eu, por exemplo, não tenho a menor idéia do que estarei lendo daqui a dois meses, quando terminar os livros que leio no momento. E conheço gente que tem os próximos 10 meses de leitura já escalonados: tantas semanas para o livro A, tantos dias para o livro B...

Em geral eu estou lendo um livro policial e vejo uma menção a um livro de história da II Guerra; encontro no sebo e leio no mês seguinte. Nele alguém fala da importância de um filme da época, e lá vou eu ler a biografia do obscuro diretor. O diretor discute uns assuntos interessantes que me levam a um livro de filosofia, e este a uma antologia de poetas gregos. Lendo os poetas gregos me lembro de um poeta uruguaio. E por aí vai.

Muita gente lê assim: lê por associação de idéias, às vezes por um tema, às vezes porque tem curiosidade por um país ou uma época e quer ler algo que tenha a ver com aquilo. Outras vezes lê por uma recomendação, ou por ser amigo do autor. Todo livro fervilha de razões para ser lido.

Essas pessoas leem com uma curiosidade inesgotável pelo mundo, sem plano de estudo, sem outra utilidade a não ser a de ficar sabendo, entendendo melhor certas coisas, vendo o muito com mais nitidez, ou com mais colorido, ou com mais nuances.

Leem como se fossem Correspondentes Estrangeiros vindos de outro planeta, e soubessem que a hora da volta se aproxima; e que nada poderão levar consigo a não ser o que está de fato consigo, o que se imprimiu na memória do seu corpo.








quinta-feira, 10 de março de 2016

4072) Minhas leituras (11.3.2016)



(ilustração: Félix Vallotton)


Vejam o lado ruim e o lado bom de ter uma coluna num jornal. As pessoas publicam numa rede social (tipo Facebook) posts falando de literatura, música, cinema, etc. Publicam na rede e são lidos por milhares, dezenas de milhares, seja lá quanto cada um tenha. (Não se sabe: são números tão pouco confiáveis quanto os dos famosos livros numerados, dos famosos CDs numerados; nunca se saberá quantos foram feitos.) Já um sujeito que tem coluna no jornal se dirige de outro modo a esses seus leitores de ponto-de-ônibus.

Digressão: existe um Arquétipo do Inconsciente Jornalístico segundo o qual todo artigo de jornal é lido num ponto-de-ônibus, sob sol escaldante ou chuva torrencial, e tem que ser lido até o fim para pagar a tinta e o papel que o tornaram legível. Um livro é lido numa sala à meia-luz, com música suave ao fundo, um vinho, um momento-gurmê qualquer. O artigo de jornal tem que brigar com a fila do banco, a espera do busão, a contagem regressiva no dentista. Tem que se sobrepor a tudo isto.

Então, vamos, em primeira mão. (Depois do jornal vai para o blog, depois vai para as redes sociais.)

1) “Autores que nunca li”: Leon Tolstoi, William Faulkner, André Malraux, Homero, Virgílio, Ovídio, Dante... A lista é heterogênea, mas lembro de muitas ocasiões em que pairava uma sensação de “ou lê Fulano ou não merece conversar com a gente”. 

2) “Não sinto vontade de ler”: Eu tenho umas birras literárias do tipo “jamais lerei Fulano”, mas são birras, podem ser juridicamente pisoteadas de acordo com minhas venetas. Posso ler qualquer autor; prioridades são outra coisa.

3) “Não conheço ninguém que tenha lido, mas eu amo”: eu poderia falar no poeta-cientista Miroslav Holub, mas quem mo trouxe foi mestre Régis Frota. Digamos então R. A. Lafferty, que nem o pessoal da FC conhece direito. 

4) “Último que li”: Good Omens (Terry Pratchett e Neil Gaiman). A saga do Anticristo como se fosse escrita por Douglas Adams e filmada pelo Monty Python.

5) “Leria tudo de novo”. Espero ainda reler por inteiro cada história que já li de Guimarães Rosa. 

6) “Autores que tocaram meu coração”: gente que me emociona até hoje, mas nunca entrou no cânone literário: A. J. Cronin (Anos de Ternura, A Cidadela), Giovanni Guareschi (as histórias do Padre Don Camilo e do comunista Peppone), Anne Frank, Conan Doyle, Maurice Leblanc.

7) “Todo mundo gosta, menos eu”: é o mesmo caso da pergunta 2. Em princípio, ninguém é indigno de mim como leitor. Não por falta de autoestima; é que um leitor também não deve se valorizar demais. Leitor tem que ser capaz de se misturar com qualquer gentona ou gentinha. 

8) “Uma indicação”: Raymond Queneau.





sábado, 2 de janeiro de 2016

4014) Livros do ano 4 (3.1.2016)



O pessoal me cobra às vezes uma cobertura da literatura nacional, nesta Coluna Prestes. (Chamo-a assim porque é uma coluna que está sempre prestes a dizer alguma coisa importante, promessa eternamente adiada para um futuro ainda fora de foco.) Lamento informar (ou melhor, regozijo-me em informar) que não sinto a menor obrigação de vigiar daqui a literatura brasileira, ou paraibana, ou japonesa. Quando não estou sendo pago para ler algo (resenhas, traduções, prefácios, pesquisas, etc.) leio por prazer, e por prazer somente. Se um livro não me prende, pode ser do meu melhor amigo ou do autor mais célebre do cânone: volta pra estante, e pego outro. Sou um homem livre para decidir o que vou ler. É só nisso que sou livre; é certamente pouco; e para mim é o bastante.

O mundo está cheio de poetas que não gostam de ler poesia. Não é o meu caso. Minha dificuldade é que frequentemente não entendo os poemas, ou melhor, consigo acompanhar o que dizem, mas o texto não me produz novas sinapses. Não é culpa minha nem do poema, é que a experiência poética requer um mesmo diapasão, uma sintonia vibratória, que muita gente, aliás, não sente com o que eu próprio escrevo. Paciência; é do jogo.

Em todo caso, li (em alguns casos, reli) este ano, com prazer e proveito, livros como Por sobre as cabeças (João Andrade), 100 repentes memoráveis (Jomaci Dantas), Mini Sertão (Nonato Gurgel), Da preguiça como método de trabalho e Canções (Mario Quintana), Até nenhum lugar (Ademir Assunção), O mapa da tribo (Salgado Maranhão), Nômada e Experiências Extraordinárias (Rodrigo Garcia Lopes), Versos Pornográficos (Chico César), Outro (Augusto de Campos), Sonetos de Campos, Sonetos de Moraes e Critica Syllyrica (Glauco Mattoso), Cabeça de José (Patricia Galelli), Sociedade Vertical (Caco Pontes), Cavalo Alazão (Pedro Nunes Filho), Muito antes da meia noite (Cristiano Ramos), Compêndio para uso dos pássaros (Manoel de Barros), Pelos pelos (Alice Ruiz), Esculturas fluidas (João Paulo Parisio).

Na prosa, destaco entre outros títulos o romance de Maria Valéria Rezende, Quarenta dias, mergulho de uma professora paraibana nas ruas de uma Porto Alegre misteriosa e real (que me lembrou um pouco o clássico Noite, de Érico Verissimo), Enquanto Deus não está olhando de Débora Ferraz (uma João Pessoa sem nome e sem código de barras, mas reconhecível em cada descrição de bar, em cada detalhe da arquitetura, em cada rompante emocional e torção do diálogo de seus personagens),  e os contos compactos, às vezes elípticos, mas sempre minuciosamente burilados de Everardo Norões em Entre moscas. (Continua)




sábado, 2 de maio de 2015

3803) Livros interferidos (2.5.2015)



(ilustração: Ekaterina Panikanova)

Artes plásticas e literatura são primos distantes que de vez em quando passam férias na casa um do outro. Já falei aqui do artista Tom Philips, cujo livro-obra A Humument (1970) é famoso. Philips pegou um romance vitoriano achado num sebo e interferiu no texto com aquarela, nanquim, lápis de cor, etc., deixando intactas algumas frases e palavras, que, lidas no novo contexto, acabam contando uma nova história. O próprio título já é uma mutilação do título original, A Human Document. O livro, de W. H. Mallock (1892), é uma obra em domínio público. Cada página pintada por Philips sobre o texto original é uma pequena obra de arte em si. Fui agora dar uma olhada no saite (http://www.tomphillips.co.uk/humument) e vi que já existem cinco edições de A Humument, cada uma delas com novas páginas recriadas.

A russa Ekaterina Panikanova faz algo um pouco diferente. Ela pega uma certa quantidade de livros, abre-os em uma página qualquer e os arruma, abertos, em filas e colunas, como quadrados do xadrez. E usa isso como se fosse uma tela, pintando (aplicando colagens, desenhando, etc.) quadros bem amplos, com cada um dos livros abertos recebendo apenas um detalhe da pintura geral. Alguém pode lamentar que os livros sejam inviabilizados para a leitura, mas a verdade é que ela inutiliza apenas um exemplar de cada um, o que não é nada diante dos milhões de livros que vão direto para o lixo todo dia. E o trabalho é uma beleza, como pode ser visto aqui: http://tinyurl.com/mp8qqxl.

A própria literatura interfere fisicamente no livro impresso. O romancista Jonathan Safran Foer pegou em 2010 o livro do alemão Bruno Schulz, A Rua dos Crocodilos (segundo ele, o seu livro favorito) e, onde Tom Philips usou técnicas da pintura, ele as usou da escultura. As páginas do exemplar original foram recortadas, com trechos inteiros retirados (com gilete e estilete, imagino), fazendo com que pelas aberturas aparecessem frases de páginas mais adiante misturando-se às da página aberta. Este pequeno clip do YouTube (http://tinyurl.com/mwtenoq) dá uma idéia do resultado final.

Um livro (dizia Borges) não é uma explicação do universo, é apenas um objeto a mais adicionado a ele. O fato do livro de papel resultar num objeto o transforma de produto em matéria-prima. Vira material de recriação para quem tiver imaginação e paciência não só para criar, mas também para fruir a obra resultante. Obras desse tipo são uma contribuição interessante ao debate sobre livro eletrônico e livro de papel, mostrando que este último, mesmo passivamente, pode ser interativo de muitas maneiras, basta ter uma boa idéia e técnica para executá-la.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

3787) Best-sellers (14.4.2015)



Poucos termos do mercado editorial são usados de maneira tão frouxa quanto este. “Best seller” significa, ao pé da letra, “o que vende melhor”. É uma indicação puramente numérica, quantitativa, que diz respeito a quantos exemplares um livro vendeu durante um certo período. “Best seller” não é sinônimo de livro de auto ajuda, nem de thriller de ação, nem de história apimentada sobre a vida sexual de gente rica, nem de romance de fantasia heróica.  Qualquer um desses pode eventualmente aparecer nas listas de best-sellers, mas ser de algum desses gêneros não é garantia de que o livro vai vender. (Muita gente acha que quem vende é o gênero, aí produz um livro meia-bomba, num gênero que conhece mal, achando que o gênero vai vender o livro sozinho. Se vendesse todo mundo era rico.)

Nenhuma editora e nenhum autor sabem o que faz um livro vender muitos exemplares; se soubessem, usariam essa fórmula o tempo inteiro, com o mesmo efeito que tem a macumba do campeonato baiano. Todos acham que sabem, aplicam a fórmula, geralmente dão com os burros nágua, e na semana que vem tentam de novo. O mercado editorial cria seus sucessos na base da tentativa-e-erro, e é bom que seja assim. No dia em que conseguiram produzir uma fórmula pra valer, acabou-se a literatura.

Acho fantasia pura essas listas de best-sellers que aparecem nas revistas e nos jornais. Nem preciso aventar hipóteses de jabá e payola, para dizer que aquele título está vendendo muito, e mediante isto fazer as vendas decolarem. (Na música, tem todos aqueles prêmios que são entregues a quem vende mais numa série de faixas de mercado. Com o passar do tempo, os brindes deixam de ser um prêmio pelo bom desempenho e tornam-se uma maneira de chamar a atenção sobre o artista e puxar as vendas até alcançar o número necessário.)

E fiquei por aqui, remexendo na memória e pensando em best-sellers antigos. Posso estar enganado num ou noutro título, mas, pelo que me lembro, todos estes livros apareceram durante algumas semanas seguidas nos primeiros lugares das listas brasileiras de best-sellers. Pode-se não gostar deste ou daquele, mas ninguém dirá que são livros “picaretas”, voltados ao consumo fácil. Entre os best-sellers que recordo terem vendido muito no Brasil, estão A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera, Dicionário Khazar de Milorad Pavic, A Vida Modo de Usar de Georges Perec, O Nome da Rosa de Umberto Eco, A Grande Arte de Rubem Fonseca, Galvez, Imperador do Acre de Márcio Souza, Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez, Poesia de Paulo Leminski...  Todos são best-sellers; todos, em algum momento, venderam muito, para muitos leitores.




domingo, 12 de abril de 2015

3786) O fim do livro (12.4.2015)



Toda essa luta para evitar o fim do livro não vai adiantar muita coisa se as livrarias florescerem e se multiplicarem vendendo apenas o tipo de livro que a gente encontra nas livrarias de aeroporto.  Os best-sellers inevitáveis do ano, as biografias de celebridades, os livros de conselhos para vendedores, livros para administradores de empresa, livros religiosos, livros de cozinha, de viagens... Não é impossível imaginar uma Distopia onde o livro vá de vento em popa e a literatura esteja extinta. Na verdade, há motivos para supor que é isto o que está em processo de criação, nas estratégias empresariais, em mais países do que me atrevo a imaginar.

Criou-se uma falsa oposição entre, digamos, O Cão dos Baskervilles de papel e O Cão dos Baskervilles eletrônico, quando na verdade deveríamos ser gratos por termos pelo menos duas formas totalmente diferentes de registro para preservar o texto de O Cão dos Baskervilles, que ao fim e ao cabo é o que realmente importa. Os suportes tecnológicos acabam sempre sendo superados por algo mais novo. O texto literário é alegria pra sempre.

A luta pelo livro é importante por tudo quanto o livro de papel representa de prático (portabilidade, autonomia, etc.) e simbólico, em nossa cultura. De nada vai nos adiantar, contudo, focar a luta apenas no livro, como se o fato de as pessoas passarem a comprar mais livros de papel fosse resolver o problema. Comprar que livros, cara pálida? Como Parecer Menos Rico e Viver em Paz? Os Onze Conselhos do Vendedor Bem SucedidoAs Memórias de Kim Kardashian?  Ou obras de literatura? A literatura é mais importante do que o livro. E basta ver como ela tem pouco espaço em nossos cadernos culturais, geralmente voltados para a psicanálise, a história, as ciências sociais, etc.  A literatura (o romance, o conto, a poesia) acaba sendo, ironicamente, a prima pobre das publicações literárias.

Em momentos de especulações mais “dark”, nada nos impede inclusive de imaginar que aquela Distopia antiliterária citada acima seja o produto, construído a longo prazo mas de efeito relativamente rápido, de um lento processo de empobrecimento compulsório da imaginação e da linguagem, de tal sorte que os últimos escritores descerão para a tumba e livros novos continuarão a aparecer, não se sabe como. A essa altura alguém terá produzido o texto que escreve a si mesmo, o programa que se autoinventa à medida que avança. Os livros serão escritos por uma Antártida de logaritmos, capazes de reproduzir, imitar ou recombinar qualquer estilo a que sua franquia tenha acesso no contrato. Os livros se autoescreverão, e o homem será somente leitor.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

3734) O original também erra (11.2.2015)



(ilustração: Giambatista Della Porta)

Dizer que o original erra parece uma heresia tão grande quanto afirmar que o Papa se equivoca em matéria canônica.  A idéia de um erro no livro original produz no tradutor, no revisor, um vacilo de incerteza cósmica.  Seria como dizer que Deus joga dados.  Mas é fato. Os originais impressos em qualquer país estão sujeitos às idas e vindas do trabalho assalariado em qualquer país.  O que eu já vi de calamidade de editoração em livro estrangeiro não tá no gibi.

Traduzindo um livro de Tim Powers me deparei com a frase “a darting garb” (numa cena de multidão ao ar livre), cujas traduções possíveis não se encaixavam.  Comecei a pedir ajuda.  Chegou uma carta (era nos tempos das cartas, dos aerogramas, do Coupon Réponse International, tudo o mais) de um amigo dizendo que os livros da Ace Books eram notórios pela revisão claudicante, e que aquilo devia ser “a darting grab”.  Abri uma cerveja e escrevi “um bote certeiro” (o autor estava descrevendo a coreografia de um batedor de carteiras).

Traduzi um romance de horror contemporâneo, ambientado no campus de uma universidade nos EUA, e a certa altura o livro era interrompido por umas duas páginas de um texto totalmente diferente falando de antropóides primitivos duelando numa caverna, e depois voltava para o romance como se nada tivesse acontecido.  Uma gralha; um pedaço de arquivo que alguém tinha botado na Área de Transferência e sem querer tacou Ctrl+V noutro arquivo que estava revisando, e depois ninguém revisou de novo.

Já vi num livro que eu estava traduzindo o autor colocar umas 3 ou 4 vezes ao longo de um compridíssimo diálogo: “ele ergueu-se da mesa”, “ele levantou-se para sair”, etc.  Como se tratava de um enorme “infodump” de desfecho da história, um entulho de explicações do enredo, imaginei que o autor tinha recortado com tesoura-e-cola vários trechos (da Era pré-computador), e os montou. Algumas dessas rubricas, que vinham de diferentes esboços, acabaram vindo junto das respectivas falas.  Cortei e deixei apenas o que orientava a ação.

O original pode errar.  Que o digam Joyce, Rosa, Flaubert e outros que sucumbiram à maldição de Lynotípia, a cruel deusa invocada pelos tipógrafos quando querem rogar praga a um autor muito trabalhoso.  Quanto mais eles corrigiam, mais erros novos se infiltravam em seu edifício perfeito, corroendo-o por dentro.

Olha só que besteira eu escrevi.  Posso supor também que ambos aceitavam a contribuição do erro e do acaso. Há testemunhos.  E que às vezes achavam mais legal a palavra errada que veio da oficina.  Um pequeno tributo para apaziguar a Deusa, algo como o golezinho que se verte no chão para aprazer o santo.




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

3702) Colecionar livros (4.1.2015)



Ser colecionador de livros não é comprar tudo que aparece pela frente. 

O colecionador de verdade entra muitas vezes num sebo atrás do outro e sai de mãos vazias, por orgulhoso amor à arte.  

Ele reconhece, numa prateleira de livraria a três metros de altura, uma lombada que não vê há trinta anos, e aponta: “Aquele ali”.  

Ele completa uma coleção específica (uma Futurâmica, uma Vagalume, uma Os Audazes) e continua em busca, para a lenta substituição dos volumes mais estragados por outros mais apresentáveis.  

Ele vai passando de ônibus num bairro desconhecido, vê de relance uma livraria, salta, entra, e sai de lá com uma preciosidade caída como um raio em céu azul.

O colecionador de verdade olha para suas estantes e considera a sério a possibilidade de começar a guardar livros no corredor do prédio, no elevador. 

Ele ouve a pergunta-padrão: “Você já leu esses livros todos?” e responde: “Sim, agora estou relendo”.  

Ele tem o mesmo livro em cinco versões diferentes: uma 1ª. edição, uma cópia autografada pelo autor, um exemplar para ler metendo a caneta, outro com uma capa que vou-te-contar, e uma edição eletrônica para fazer buscas rápidas. 

Ele tem a ousadia de botar dois livros improvavelmente lado a lado na estante, e sabe que isso é uma pequena obra de arte conceitual. 

Ele separa para doação 200 livros inúteis, e no dia seguinte traz metade deles de volta às estantes, porque foram reavaliados e achados imprescindíveis.

O colecionador não consegue esquecer até hoje o livro raríssimo e caríssimo visto num sebo e deixado para comprar no dia seguinte, quando, é claro, já não havia mais sinal dele. 

Ele tem uma primeira edição rara, toda estropiada e dilacerada, e não sabe se encaderná-la é um benefício ou um sacrilégio.  

Ele para numa calçada onde há uma lona coberta de livros, avista uma preciosidade largada por entre o resto, pensa: “Até 150 reais eu pago”, pergunta quanto é, e o cara responde com um muxoxo: “Tá velhinho... me dá 1 real.”

O colecionador encontra no sebo, numa daquelas prateleiras rente-ao-chão, um livro estranho, ininteligível, de autor ignorado, sobre tema controverso, folheia, fica perturbado, leva pra casa, e meses depois esse livro torna-se a única vítima de um inusitado e nunca repetido ataque de cupins. 

Ele viaja pelo mundo e tem o hábito de, em cada cidade por onde passa, comprar pelo menos um livro que vai ficar associado àquela cidade em sua memória.  

Ele folheia seus livros ao acaso e encontra entre as páginas fotos, flores secas, sedas, ingressos de teatro ou cinema, bilhetes, pequenos souvenires que valem, cada um, um livro inteiro – tal como cada livro vale uma biblioteca.





sábado, 26 de julho de 2014

3561) Achei dentro dum livro (26.7.2014)



Quando estou folheando os livros das minhas estantes encontro de tudo um pouco. 

Como tenho o costume de fazer anotações, uso muitas vezes como marcador de página uma pequena ficha pautada, onde vou anotando detalhes ou os números de páginas onde há algo interessante, quando é um livro que por um motivo ou outro não quero rabiscar. (Quando é um livro comum, anoto tudo na última página em branco.)  

Mas me acontece muito encontrar fotos, tickets de avião (nos livros que leio durante o voo), bilhetes, contas, canhotos de ingressos de cinema ou de shows, cartões postais, o escambau. 

O websaite Abebooks publicou um levantamento feito com livreiros de livros usados do mundo inteiro, onde eles relatam o que acham nos acervos que vêm parar nas suas mãos. (Aqui: http://tinyurl.com/5q2qlk)

Há a história de uma mulher que comprou um livro antigo num bazar, no Novo México, e encontrou dentro 40 notas de mil dólares. Essas notas, de uma série impressa pela última vez em 1934, valem mais até do que seu valor nominal.  

Outro item valioso foi achado por um livreiro da Califórnia: um cartão de Natal com uma assinatura ilegível, que ele levou anos para identificar como sendo de L. Frank Baum, o autor de O Mágico de Oz. O cartão foi vendido depois num leilão por 2.500 dólares. 

Alguns livreiros são mais honestos do que o normal. Uma livreira de Idaho achou cem dólares num livro e os devolveu à pessoa que deixara o livro em consignação. (Tenho certeza de que muitos leitores dirão: “Ah, não tinha que devolver! Se o dono do livro não viu o dinheiro, azar o dele!”)

Esses livreiros já acharam dentro de livros antigos uma receita médica datada de 1785, uma carta manuscrita por C. S. Lewis (o autor de Narnia), o texto integral de uma conferência astronômica proferida por alguém em 1895. 

Há também registro de pequenos objetos encontrados entre as páginas, desde um dente de criança até um anel de ouro com um pequeno diamante ou uma tesoura ou uma camisinha não usada ou uma mecha de cabelo ou um biscoito de chocolate ou uma fatia de bacon. 

Um livreiro de Michigan achou num livro sobre futebol um cupom de poupança no valor de 500 dólares, e ao contactar a família descobriu que o cupom estava perdido há onze anos, e eles tinham revirado a casa inteira à sua procura. O achado acabou custeando a entrada de uma das filhas, agora adulta, na universidade.

Um livro qualquer acaba se tornando às vezes um bolso de ocasião, um pequeno cofre, uma cápsula do tempo onde a gente se depara com o estranho, o bizarro, o inesperado. Alguém poderia organizar uma antologia de contos com esse tema. Dou esta idéia de graça.








domingo, 26 de janeiro de 2014

3406) Ler por prazer (26.1.2014)



Eu geralmente leio por prazer, o prazer antecipado de quem compra um livro já prevendo que vai gostar (pelo autor, pelo tema, etc.). Quando essa expectativa não se confirma, largo o livro e pego outro. Se não estou gostando, não forço. Isto não se aplica, é claro, às leituras de trabalho. Se quero um conto de Fulano numa antologia minha, geralmente leio um livro inteiro dele, 15 ou 20 contos, para escolher o mais adequado. Nem todos são bons, mas meu interesse ali é conhecer melhor Fulano, “sentir a mão” dele como escritor, avaliar suas qualidades e suas limitações.

Jorge Luís Borges tem um texto famoso sobre o prazer de ler, repetido em numerosas coletâneas.  Diz ele: “Fui professor de literatura inglesa por vinte anos na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e sempre aconselhei a meus alunos: se um livro os aborrece, larguem-no; não o leiam porque é famoso, não leiam um livro porque é moderno, não leiam um livro porque é antigo. Se um livro for maçante para vocês, larguem-no; mesmo que esse livro seja o Paraíso Perdido – para mim não é maçante – ou o Quixote – que para mim também não é maçante. Mas, se há um livro maçante para vocês, não o leiam: esse livro não foi escrito para vocês.”

É engraçado, porque eu digo o contrário. Borges não falava no contexto brasileiro de hoje. Talvez seus alunos fossem obrigados a ler Sêneca e Ovídio no original, sem poder criticá-los.  Hoje, porém, a situação é outra. Os jovens são desestimulados ao esforço intelectual e empurrados para um entretenimento sem fim.  Deveria aparecer um Borges que lhes dissesse: “Galera, vocês estão fazendo poupança com dinheirinho de Banco Imobiliário. Quando precisarem, nada terão. Esse entretenimento passa sem deixar marcas, a não ser a resposta automática diante de clichês e de situações já conhecidas... E esse cansaço-prévio mental diante do novo, do diferente, do difícil.”

Não há resultado sem esforço, e a inteligência não brota espontaneamente, tem que ser cultivada pelo uso. Borges se preocupava com aqueles jovens argentinos que queriam, por exemplo, fazer teatro, mas seus professores os obrigavam a aprender grego para ler Ésquilo no original, senão não entenderiam o texto. Hoje, jovens montam Brecht ou Shakespeare sem os ler, leem adaptados para a linguagem moderna, uma diluição, uma versão resumida e mutilada “para ficar ao alcance de vocês”.  Fazem o teatro descer até o jovem, e com isso o jovem nunca subirá até o teatro. Sem esforço não há resultado. O prazer de ler não é uma adrenalina instantânea, é uma conquista, uma vitória pessoal de cada leitor sobre a própria insegurança e a própria preguiça.


domingo, 19 de janeiro de 2014

3400) Tem livro que (19.1.2014)



Tem livro que eu tenho tanta vontade de ler que toda vez que eu vejo uma edição nova eu compro e boto na estante; aumenta as minhas chances de conseguir ler algum dia.  Tem livro que você compra no lançamento, pega o autógrafo do autor, mas quando começa a ler pensa que era melhor ter trazido para autografar um exemplar do livro que você mais gosta.  Tem livro que começa de um jeito mas a certa altura já virou uma história tão diferente que você imagina como pensaria no livro se tivesse desistido da leitura antes de presenciar daquela reviravolta.  Tem livro que você sabe que já leu: vê os riscos e as anotações feitos por sua própria mão, mas não recorda uma só daquelas frases que sublinhou. Tem livro que tem história legal, o projeto gráfico é legal, mas botaram o desafortunado do texto numa fonte que tanto tinha de elegante quanto de ilegível.

Tem livro “cult” que a gente espera trinta anos até ver um exemplar; compra, leva, e não lê, porque sem ter lido já sabe de cor.  Tem livro tão grosso que a gente começa a pensar: “Isso é um livro pra ler pelo resto da vida”, e o tamanho do volume nos dá uma ilusão de longevidade. Tem livro que cada vez que é relido pode ser cada vez mais subdividido em interpretações. Tem livro que você compra esbagaçado, retalhado, mutilado, e leva pra casa e cuida, você cuida daquele exemplar como cuidaria de um cachorro faminto e doente, se gostasse de cachorros.

Tem livro com ingredientes que a gente gosta, é de um autor que a gente aprecia, mas a gente nunca consegue passar da página dez. Tem livro que eu li pela primeira vez em edições defeituosas, com “cadernos” trocados, o que equivale a trocar os rolos de um filme de celulóide no cinema, e só li a história direito vinte anos depois.  Tem livro que é como uma música que a gente está ouvindo, livro que é como uma história que está acontecendo, que é como um jogo, um quebra-cabeças, tem livro que é como se fosse uma carta de uma pessoa desconhecida que conhece você bastante bem.

Tem livro famoso que você lê e não vê nada de mais, e tem livro que na página 3 você pensa, “está começando uma coisa que eu nunca vou esquecer”, e lê até o fim.  Tem livro besta que eu comprei e guardo só por causa da capa.  Tem livro que eu gosto tanto que planejei lê-lo em todas as línguas que consigo. Tem livro que não é importante, mas vive nas minhas prateleiras há décadas, sem ser consultado, talvez com a única função de ser aberto por acaso uma noite e revelar dentro de si um bilhete, um canhoto de ingresso, uma filipeta de show, um recorte de jornal, uma foto; como uma caixa enorme contendo um pequeno diamante.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

3162) Livros clandestinos (17.4.2013)




Meu nome é Sonntag, e sou bombeiro. Meu pai o foi também, e queimou muitos livros. Quando começou a salvá-los às escondidas, foi descoberto e morto pelas forças de segurança. 

Cresci ouvindo este exemplo ameaçador. Tornei-me bombeiro para conhecer essas obras proibidas, mesmo correndo o risco de ser executado. Enganava-me. Hoje em dia o Sistema balança, racha-se em fendas; a corrupção impera. Encontram-se livros à venda nos mercados negros de armas, de próteses, de venenos. 

Minhas leituras fervorosas e às escondidas são alimentadas por essa rede escusa de delinquentes, que fervilha nas favelas, nas ruínas ocupadas, nos casebres de beira-rio. Não se consegue saber de onde extraem esses tesouros.

Há boatos sobre bibliotecas soterradas, mas a verdade é que livros já não são impressos há mais de dois séculos. O papel é descartável, perecível. Cada exemplar merece ser preservado, porque tudo que está impresso é precioso. O que foi confiado ao papel constitui o esqueleto, a estrutura da existência humana; os pixels coloridos da TV são mera distração ou adorno. 

Daí que cada folha impressa valha uma pequena fortuna: trechos de romances dos quais não sabemos título nem autoria, mas que por isso mesmo tornam-se mais cheios de mistério e de valor. Não direi que entendo tudo que leio, mas nesses momentos sinto-me compartilhando um ritual místico de transcendência, ainda que numa língua que me é desconhecida.

Muito ouvi falar em Shakespeare; para mim, são onze páginas arrancadas não sei de onde e costuradas umas às outras, pelas quais paguei uma pequena fortuna, no meu tempo de estudante. 

Tornei-me bombeiro e aumentei meu capital. Em menos de dois meses na corporação reuni exemplares completos de obras como “Meu Nome é uma Bala”, “Férias de Amor”, “Apólogos Edificantes”, “As Libertinas”, “Anais da Câmara de Vereadores”. Tornei-me capitão, e entrei para um grupo de jovens oficiais progressistas que lutam discretamente pelo fim do banimento.

Visados pelo Governo, temos que dobrar nossas precauções para que não encontrem nossos tesouros. Compro tudo que me aparece pela frente. Somente nesta semana um traficante vendeu-me vinte páginas de um livro do célebre Nabokov, a história marítima da caça a uma baleia; outro, um conto de Baudelaire intitulado “O poço e o pêndulo”; de um terceiro adquiri sonetos de Homero. 

Nomes que evocam memórias de um tempo mítico em que a cultura era acessível a todos. Tesouros que guardo num cofre por trás de uma parede secreta, feliz em saber que por mais que as ditaduras massacrem a cultura e o saber não há como destruir as grandes obras do pensamento humano.





sexta-feira, 21 de setembro de 2012

2982) Escrever e respirar (21.9.2012)



(Londres, 1940)


Suponhamos que daqui a 100 anos a atual crise ambiental se agravou a um tal ponto que a poluição envenenou a atmosfera de modo irremediável. Para sobreviver, a humanidade construiu imensas usinas produtoras de cilindros de oxigênio, que são acoplados aos nossos narizes desde o momento em que o cordão umbilical do bebê é cortado na maternidade. Todo ser humano vive feito um mergulhador, com aquele trambolho de metal numa mochila às costas e os tubos flexíveis conduzindo aos pulmões o gás indispensável à vida.  É de graça? Quem dera. As indústrias e os governos cobram, e cobram caro por isso. Mas todo mundo paga, ou melhor, quem está vivo é porque consegue pagar. Os que não conseguiram não pertencem mais à paisagem.

Um belo dia, um grupo de indústrias independentes inventa um processo químico de limpar a atmosfera e num piscar de olhos, em 20 ou 30 anos, o ar volta a ser uniformemente respirável, ou pelo menos fica igual a este ar que respiramos em 2012. E agora? O mundo entra em crise.  Dezenas de milhões de desempregados superlotam a Praça Tahir, a Plaza de Mayo, Wall Street, o Vale do Anhangabaú. “Queremos de volta a indústria do oxigênio”, bradam eles, arquejantes (e meio bêbados, claro, seus pulmões não estavam acostumados àquela overdose). Os governos arrancam os cabelos porque vão ficar sem os 71% de impostos que cobravam sobre a indústria respiratória. Filósofos ponderam: “Respirar de graça empobrece o senso de responsabilidade dos cidadãos. E esse desperdício de oxigênio não-respirado, francamente!”.

É uma crise assim que a tecnologia digital está precipitando num mundo que estava deixando de ter Cultura para ter Indústria Cultural. Os aspectos industriais e suas prioridades tomaram a frente, e a gente criou este universo surrealista em que a Cultura, que é o compartilhamento livre de informações e contatos entre as pessoas e os grupos, virou uma “commodity”, e nos preocupamos mais com a geração de empregos do que com a geração de idéias. É uma grave crise para todo mundo que ganhava dinheiro com música, filmes e livros – por uma coincidência sinistra, as três coisas com que eu próprio ganho a vida. O que fazer?  Ser contra? Não, amigo. Descobrir maneiras alternativas de ganhar dinheiro. Cultura é oxigênio, não pode ser nem estatizada nem privatizada, pertence aos animais individuais que somos, e não a Instituições. Na nossa cultura, aceitamos como normal que não se ganhe dinheiro para pular carnaval ou para fazer sexo.  Por que essa atitude não pode ser estendida a outras atividades?  Por que tudo tem que ser medido em termos de dinheiro?  Há mil outras maneiras de ganhar dinheiro.