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terça-feira, 6 de outubro de 2015

3938) Espontaneidade aparente (7.10.2015)




(o datiloscrito de On the Road

Uma vez perguntaram ao contista Luiz Vilela se a naturalidade dos diálogos em seus livros vinha de um gravador ligado embaixo das mesas de bar. Ele explicou que parecer espontâneo dá muito trabalho. O bom escritor deve ter ótima memória, por certo, mas não é só isso. Deve saber recriar o modo como as pessoas falam (e não me refiro a regionalismos ou gírias): diálogos entrecortados que voltam atrás, que deixam frases incompletas, que se repetem... E por cima dessa base que poderíamos chamar de jornalística ou documental o autor projeta os efeitos propriamente literários, os subentendidos, os equívocos, a tensão e as emoções dos falantes, as elipses.

Quem já tenha precisado transcrever entrevistas gravadas acaba percebendo o quanto o nosso discurso oral é acidentado, cheio de falsos começos, de lacunas, de coisas ditas pela metade porque são completadas por um gesto, uma expressão facial, um simples olhar.  A imprensa reconhece isto, e hoje em dia usa-se muito a inserção de ressalvas tipo “risos”, “longa pausa”, “com veemência”, etc. para dar conta desse lado visual da oralidade, que as palavras nunca cobrem por inteiro.

Tudo isso é um retrabalhamento do que no ponto de partida era espontâneo, mas tosco. O espontâneo-mesmo geralmente é fraturado, semi-coerente, porque em geral as pessoas estão improvisando, ou estão tensas, com pressa, esquecidas, etc.  A frase a que chamamos de “espontânea” é geralmente coloquial, tem bom ritmo, cai bem no ouvido, parece verdadeira (porque corresponde a um ideal subconsciente nosso a respeito de como uma frase deveria ser). Isso é resultado de muito corte e costura, mesmo que no fim, como no caso de Luiz Vilela e de tantos outros, o tecido resultante pareça liso, como a “túnica inconsútil” de Jesus.

Já vi na Web fotos do imenso rolo de papel onde Jack Kerouac datilografou a primeiríssima versão de On the Road.  Há edições desse texto original, pré-revisão, edição voltada justamente para mostrar a gênese e as variantes do texto clássico. Aposto sem ver que este é mais espontâneo e mais incoerente do que o texto definitivo. Toda (tudo bem, nem toda) espontaneidade em arte é na verdade uma imitação polida, refinada. Num certo sentido, as frases límpidas de Vilela talvez deem tanto trabalho quanto as frases coruscantes de Guimarães Rosa, só que as duas vão em direções opostas. Do mesmo modo, é possível achar que para Rosa aquela fala que ele está inventando, mesmo com tanto esforço físico e psíquico, tinha a espontaneidade desabrida de quem se envolve, delira, vibra e se diverte quando sente que descobriu a relação ideal entre emoção e mente, cavalo e cavaleiro.




segunda-feira, 1 de março de 2010

1728) Os colecionadores de sonhos (25.9.2008)




Quando eu era pequeno havia na minha casa um costume de eventualmente contarmos uns aos outros o que havíamos sonhado à noite. Minha tia Adiza, que morou muitos anos na casa dos meus pais, costumava perguntar o que a gente tinha sonhado, e às vezes contava seus próprios sonhos. 

Uma coisa que desde cedo me chamou a atenção era o tempo verbal em que os sonhos eram contados (pelo menos na minha família), que era sempre o imperfeito do indicativo. A gente não dizia: “Eu entrei numa casa, encontrei Fulano, ele me entregou um pacote”. Era assim: “Eu entrava numa casa, encontrava Fulano, ele me entregava um pacote...” 

Acho que essa mudança de tempo ficava subentendida porque no início se colocava o ato de sonhar no pretérito perfeito: “Eu sonhei que entrava numa casa...”, e daí todo o resto mudava.

Muitos autores que admiro (Graham Greene, Georges Perec, Jack Kerouac, William Burroughs, etc.) publicaram coletâneas de seus próprios sonhos. Outros incluíram relatos desse tipo em volumes autobiográficos ou ensaios (Freud, Jung, Luís Buñuel, Jorge Luís Borges, R. L. Stevenson, etc.). 

Em muitos casos os sonhos serviram como ponto de partida para contos, livros, filmes. Os três maiores clássicos do terror foram baseados em pesadelos dos seus autores: o Frankenstein de Mary Shelley, O Médico e o Monstro de Stevenson e o Drácula de Bram Stoker.

No prefácio de A World of my Own (1992), sua coletânea de sonhos, Graham Greene comenta que alguns dos seus contos (“Dream of a Strange Land”, “The Root of all Evil”) saíram direto do sonho para a página, com pequenas alterações. Conta também que sonhou com o naufrágio de um navio na noite em que o Titanic afundou. 

Esta observação nos leva ao assunto dos sonhos proféticos, que são objeto de um dos livros mais fascinantes que já li, Man and Time de J. B. Priestley (1964). Priestley acreditava nas teorias expostas por J. W. Dunne em seu clássico visionário An Experiment with Time (1927). A teoria é basicamente de que existem “camadas de tempo” superpostas umas às outras. Quando dormimos, nossa mente se liberta da camada em que está nosso corpo e se transfere para uma camada imediatamente superior, de onde é capaz de vislumbrar fatos futuros.

Eu acho que a teoria tem um grão de possibilidade, mas o sonho de Greene não tem nada a ver com ela. O Titanic era, como se sabe, o maior navio construído no mundo naquela época. Sua construção, seu lançamento e sua primeira partida para o mar foram alvo de grande cobertura da imprensa. 

Ele afundou em abril de 1912; Greene tinha, então, oito anos incompletos. Para mim é perfeitamente explicável que um garoto imaginativo ouça falar na partida iminente de um navio proclamado “não-afundável” e, à noite, sonhe que o navio afundou. Imagino que quando a Apollo 11 partiu para a Lua em 1969 muita gente deve ter sonhado com variados desastres. Como a nave foi e voltou, os sonhos passaram em branco.






domingo, 11 de outubro de 2009

1298) Máquina de escrever (11.5.2007)




Daqui a um milhão de anos, os arqueólogos da futura Humanidade estarão desenterrando, junto com ossadas de iguanodontes e crânios de tiranossauros, os arcabouços enferrujados das máquinas de escrever do século 20. Simpósios e mais simpósios serão organizados para discutir qual a serventia que teriam tido aquelas engenhocas tão intrigantes e perturbadoras quanto o Mecanismo de Antikhytera. 

Mal saberão eles que foi em cima dessas barulhentas contrapções que milhões de escritores gemeram, suaram, sofreram, viveram, se desesperaram, atravessaram os sete céus e os sete infernos de que fala o poeta.

Sofrimento de tal ordem que deu origem a um dos clichês cinematográficos mais desgastados em filmes sobre escritores: o cara datilografa, pára, começa de novo, pára, arranca a folha de papel, amassa, joga do outro lado do escritório, bota outra folha, amassa de novo... aí depois de fazer isso algumas vezes se desespera – e arremessa a máquina pela janela! 

Todo filme mostra esse clichê, e eu duvido que na vida real algum escritor já tenha feito isso.

Penso em Jack Kerouac pegando um rolo de papel contínuo com centenas de metros, enfiando a ponta dele na máquina e escrevendo On the Road do início ao fim, ao longo de três semanas, na base do café e da benzedrina, sem precisar trocar de folha. 

E penso em Raymond Chandler aos cinqüenta anos, um executivo desempregado tentando virar escritor, e mandando para a editora manuscritos (ou datiloscritos) em que ele se preocupava em alinhar todas as linhas na margem direita, porque pensava que se não fosse assim o livro poderia ser recusado.

Uns com tanta intimidade, outros com tão pouca. Intimidade com máquina de escrever se conquista aos poucos, através dos olhos, das mãos, dos dedos, ganhando-lhe a confiança e retribuindo-a com carinhos, como dizia Mário de Andrade, ao escrever na máquina uma carta para Manuel Bandeira em 1925: 

“E agora já sabe: quinze minutos que seja de descanso, estou na frente da Manuela batendo tipo sem parar. Manuela é o nome da máquina, por causa de você. Inventei agorinha mesmo isso. Não refleti nem nada: ficou Manuela”. 

Em pleno Modernismo nossos escritores tateavam com timidez no mundo high-tech do teleco-teco do teclado, isso quando Mark Twain já tinha se tornado em 1883 o primeiro autor a submeter um “manuscrito” à editora sob a forma de um texto datilografado (o livro era Life in the Mississipi, e Twain não datilografou ele próprio o texto, pagou alguém para isto).

E não só os escritores devem sua vida a ela; a partir de certa época, também os personagens. 

Já em 1897, Bram Stoker fazia sua personagem Mina Harker, a vítima principal do Conde Drácula, ter à sua disposição uma máquina de escrever onde ela registra em 62 páginas tudo que lhe aconteceu, com todas as informações necessárias para que o Conde seja descoberto, e diz, no Capítulo 26: “Oh, como sou grata ao homem que inventou a máquina de escrever Traveller’s!”



sábado, 8 de março de 2008

0098) Como recordar um sonho (15.7.2003)



A primeira coisa é não abrir os olhos, não fazer o menor movimento. No instante em que você perceber que acordou, tem que continuar imóvel. Qualquer alteração física irá cortar o processo que ocorre na sua mente. 

Você já sabe que acordou, sabe em que posição está, ouve ao seu redor vozes, ruídos da rua, etc. Esqueça tudo e pense no sonho, que está se esvaindo. Um programa mental chamado Aqui-e-Agora acaba de ser ativado, e o sonho não se encaixa nele.

Esqueça quem é, e onde está. Repasse as imagens do sonho, sem tentar verbalizar, apertando o botão FF e verificando se está tudo ali. Tente fazer um balanço total do sonho. 

Sonhos têm um caráter segmentado. Às vezes recuperamos dois ou três episódios, mas havia muito mais. Quando tiver pescado o máximo possível, dê uma repassada na versão total, devagar. Depois outra, agora já tentando verbalizar alguma sensação difusa (“Eu estava querendo ir para minha casa, e era na véspera de uma data importante”) ou registrar uma ambiguidade (“Eu estava na casa de Fulano, só que era um enorme salão cheio de móveis empoeirados”). 

O importante neste momento é fazer com que a ascensão da mente, de 100% sonhando para 100% desperta, seja lenta e gradual, trazendo à tona o que foi possível salvar do sonho.

Convém ser lento ao sentar na cama, abrir os olhos, começar os gestos rotineiros. Já vi sonho dar um pipoco e sumir no vácuo só porque perdi alguns segundos procurando o chinelo. (Destino mais trágico é o dos que são guilhotinados pelo toque do telefone.) 

O sonho ainda deve ser ruminado e fortalecido durante o lavar o rosto, o tomar café, o trocar as primeiras frases com a família. Depois, se achar que vale a pena. anote.

Muitos publicam livros contando o que sonharam: Jack Kerouac (Book of Dreams), George Perec (La boutique obscure), William Burroughs (My Education). 

O mais conhecido dos poemas sonhados é o “Kublai Khan” de Coleridge, mas os exemplos literários são incontáveis. Stevenson sonhou o Médico e o Monstro, Mary Shelley o Frankenstein, Bram Stoker o Drácula. Talvez porque na época destes autores o principal analgésico era o láudano, que tem efeitos alucinógenos.

O que fazer com o sonho? Ninguém sabe, portanto cada um pode fazer dele o que lhe der na telha. O sonho é um jogo-de-Acaso. É como jogar búzios ou arcanos, só que os elementos manipulados pelo Acaso são pedaços de pensamentos nossos. 

Há quem interprete sonhos, extraia deles todo tipo de presságio, de inspiração, de justificativa. Costumo anotar os meus, porque tenho facilidade para escrever. 

Há pessoas que numa noite sonham décadas inteiras de outra vida. Há pessoas que quando dormem lembram-se de tudo sobre o mundo da vigília, e quando acordam esquecem do que sonharam. Há músicos que têm sonhos musicais, sonhos sem história, sem imagens, sem aquis, sem agoras, sonhos de harmonias que não têm limite e melodias que não têm fim.