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segunda-feira, 20 de julho de 2026

5245) Copa 2026: futebol tem lógica (20.7.2026)



 

Espanha 1x0 Argentina! 
 
E pronto, a Espanha tornou-se, pela segunda vez, campeã do mundo. Na minha cabeça, isto desmente pela milésima vez o antigo clichê dos coleguinhas comentaristas esportivos: “Ah, futebol não tem lógica!...”. 
 
A lógica do futebol não é uma lógica exata, é uma lógica de Ciências Humanas, e sendo assim só pode funcionar por aproximação, ou probabilisticamente. 
 
Se, no jogo deste domingo, a Argentina conseguisse fazer 1x0 na prorrogação e ganhasse o título, o resultado também teria por trás de si uma lógica implacável, mesmo que dolorosa. Quem não faz, leva. Com a Argentina não se brinca. Com Messi em campo, tudo pode acontecer. 
 
A Ciência é forçada a lidar com esse tipo de lógica difusa (“fuzzy logic”).  Não há certezas. Mesmo uma tendência esmagadora na direção “A” pode ser revertida bruscamente na direção “B” por um fator inesperado, dificilmente previsível. E isso está na raiz do jogo de futebol. 
 
A Espanha foi campeã, mas na cabeça de muita gente esta Copa ficará conhecida como “a Copa de Cabo Verde” – essa seleção desconhecida e inesperada que não perdeu para a seleção campeã, e só foi derrotada pela vice-campeã Argentina depois de muito suor, num jogo equilibradíssimo que facilmente poderia ter tido um placar inverso. 


(foto: Chandan Kanna)
 

Toda Copa do Mundo produz uma dúzia de narrativas épicas: o grande time que fracassou na hora H, o jogador obscuro que fez o gol do título, o time azarão que aplicou uma zebra num favorito, o erro do juiz que até ele mesmo concordou, o zagueiro que fez um gol contra e foi assassinado, o potentado que tentou mudar o resultado de um jogo, o acidente lamentável que pode ter cortado pelo meio uma carreira... 
 
Cabo Verde trouxe para a Copa 2026 a aventura improvável vivida por uma ilha minúscula. Ela saiu “pegando no laço” jogadores do mundo inteiro com algum vínculo genealógico, e montou um time medianamente competitivo. Mostrou em campo que esses atletas (que não jogam no país) eram capazes de muito mais garra e determinação do que seleções consagradas e elencos com milionários contratos de publicidade. 
 
O grande jogo da Copa, para mim, foi Argentina 3x2 Cabo Verde, 120 minutos de um confronto em que cada palmo da grama foi disputado com sangue, suor e lágrimas, e com muito talento de parte a parte. 
 
Pertinho desse jogo eu colocaria Inglaterra 3x2 México, no caldeirão do Estádio Azteca, com belos gols, um clima sufocante, e uma resistência heróica dos ingleses reduzidos a dez homens em campo. 



O Brasil fez jogos mornos, sem grande brilho e sem grandes emoções. O melhor jogo nosso foi a virada sobre o Japão, não por ter mostrado um grande futebol, mas pelo sofrimento de começar perdendo, conseguir o empate, e depois fazer o gol da vitória no último minuto. 
 
Nossa Seleção joga sem alma. Joga com a tensão acabrunhada (ou com a empáfia postiça) de quem já começa devendo e sabe que não tem com que pagar. 
 
Tem um técnico que se adapta bem ao material humano de que dispõe. Foi assim que Carlo Ancelotti ganhou tudo pelo Real Madrid, mas veio parar, coitado, num covil de raposas que é a CBF, a política brasileira, a publicidade brasileira, a imprensa brasileira e as redes sociais brasileiras. Desejo-lhe sorte da próxima vez, mas sem muita esperança. Metade desta Copa ele perdeu na convocação. 
 
A Espanha foi campeã jogando esse jogo de cerca-cerca, tocando bola e chegando aos poucos. Não é o meu futebol preferido. Gosto de times rápidos, que esticam passes em profundidade... Jogadores que entram na área driblando quem aparece pela frente... Times que chutam em gol de qualquer ângulo e de qualquer distância... Sou o último romântico. 
 
Admiro a tática e a técnica, mas gosto mais da garra, daí que mesmo a contragosto aplaudi a via-crucis da Argentina e a admirável presença de Lionel Messi. Nestas últimas partidas, Messi parecia um jogador radioativo. Pegava a bola na ponta-direita e os adversários ficavam a três metros de distância. Ninguém queria partir pra cima do toureiro. 
 
E o jogo avança no formato de sempre: a bola vai para a ponta-esquerda, é tocada para o jogador mais à direita, deste para o próximo, até chegar na ponta-direita, e ai recomeça tudo no sentido inverso, num semi-círculo de passes à frente da área, à espera de um deslocamento milagroso, uma rachadura no muro da represa. 
 
É o jogo do City de Guardiola, time que admiro (também a contragosto), porque sei o quanto aquilo exige inteligência e habilidade de quem faz a bola circular daquele jeito. É só uma questão de gosto, mesmo. Gosto de times que, quando se apossam da bola, partem a toda velocidade na direção do gol, três, quatro, cinco jogadores ao mesmo tempo, como se o jogo fosse acabar daí a dez segundos. 
 
A Copa teve seus momentos baixos, claro. As absurdas intervenções do presidente dos EUA na arbitragem, e na foto da premiação. E o tratamento vergonhoso dispensado pelo Estado policial norte-americano a jogadores da África e principalmente do Irã. 



É uma coisa meio surrealista você saber que dois países estão em guerra (mesmo uma guerra não oficialmente declarada, pois o Congresso dos EUA não a autorizou) e um deles tem que receber a seleção (e os torcedores) do outro. Parece um roteiro a quatro mãos entre Douglas Adams e George Orwell. 
 
Lembro de Orwell porque o autor de Animal Farm tem um ensaio famoso contra o futebol, escrito logo após a II Guerra, quando os ódios nacionalistas da Europa ainda não tinham arrefecido. 



Aproveitando uma excursão do Dínamo de Moscou pela Inglaterra, para enfrentar times britânicos, Orwell arregaçou as mangas e mandou ver.
 
Agora que a breve visita da equipe de futebol do Dínamo chegou ao fim, é possível dizer publicamente o que muitas pessoas lúcidas vinham afirmando em privado, antes mesmo da chegada do Dínamo. Ou seja: que o esporte é uma fonte inesgotável de animosidade, e que se uma visita dessa natureza teve algum efeito nas relações anglo-soviéticas foi o de torná-las um tanto pior do que já estavam.
(“The Sporting Spirit”, 1945, Essays, Penguin, 2000, trad. BT)
 
Orwell vê essas disputas, compreensivelmente, não como um enfrentamento meramente esportivo, mas como símbolos do espírito de cada nação.
 
O detalhe mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude do público e, para além do público, das próprias nações, sujeitas a ataques de fúria a propósito desses embates absurdos, e que acreditam seriamente – pelo menos por curtos períodos de tempo – que o ato de correr, pular e dar pontapés numa bola são testes para as virtudes nacionais.
 
Ele não vê muitos elementos redentores no esporte:
 
O esporte levado a sério não tem nenhuma relação com “jogo limpo”. Ele é repleto de ódio, ciúme, arrogância, desprezo pelas regras, além do prazer sádico na contemplação da violência. Em outras palavras, é a guerra, só que sem disparos de armas de fogo.
 
Acho que isso coloca em perspectiva, inclusive, o papel do Brasil dentro da história do futebol mundial. Quando começou a II Guerra, tinham acontecido apenas três Copas: 1930 (campeão Uruguai), 1934 e 1938 (bi-campeã Itália). E o conflito cancelou, obviamente, as Copas que poderiam ter acontecido em 1942 e 1946.


 
Depois de uma guerra sangrenta e um hiato de doze anos, o Brasil construiu “o maior estádio do mundo” para acolher equipes do mundo inteiro. Foi uma espécie de Woodstock da paz. Num clima de muita politicagem e demagogia, mas, enfim – foi uma grande Copa, e podemos mesmo considerar que foi uma espécie de recomeço. A moderna Copa do Mundo começou em 1950.
 
O Brasil deu chocolates memoráveis nos europeus (7x1 na Suécia, 6x1 na Espanha). João Saldanha, que não se iludia facilmente, afirmava: “A juventude da Europa foi estraçalhada pela guerra. Daqui a uma ou duas gerações a coisa vai mudar”.
 
Mas o Maracanã inteiro cantou “Touradas em Madri” fazendo Braguinha chorar na arquibancada, e o time do Uruguai introduziu, no jogo final, o pulo-do-gato da “fuzzy logic” que deixaria perplexos tantos observadores, fossem cartesianos ou marxistas.
 
Eu vejo essas coisas como torcedor, ou seja, na condição de quem compartilha uma fantasia coletiva, e toda fantasia coletiva se parece com uma Realidade. Já o bravo George Orwell não conta conversa:



(Orwell, by Baptistão) 

 
A maior parte dos esportes que hoje praticamos tem origem na Antiguidade, mas o esporte não parece ter sido encarado muito a sério entre a era romana e o século 19. Mesmo nas escolas públicas britânicas o culto aos jogos não floresceu senão a partir de meados do século passado. (...) E então, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os jogos começaram a se constituir numa atividade com pesado financiamento, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção começou a se alastrar pelos demais países. E são os esportes mais violentos, o futebol e o boxe, os que mais se espalharam. Sem dúvida isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, ao lunático hábito moderno de um indivíduo se identificar com grandes estruturas de poder e passar a enxergar todas as coisas pelo ângulo da competição e do prestígio.
 
O autor dessas linhas estava se preparando para escrever sua obra final, 1984, com seus conflitos globais entre Lestásia, Eurásia e Oceania, com seus “dois minutos de ódio” em salões coletivos, seu culto à personalidade, sua vigilância eletrônica.
 
E o nosso VAR, esse sistema misto de câmeras e computação gráfica, não acaba virando uma espécie de reescritura dos fatos e de reescritura da História pelo “Ministério da Verdade” orwelliano, em que as notícias dos jornais passados são reescritas e os jornais reimpressos, de modo a que fique valendo a versão imposta por quem detém o poder tecnológico de fornecer informação?
 
Bem, desculpem a digressão, acabei me distraindo e perdendo o fio da meada. Parabéns Espanha, parabéns Lamine Yamal e Cubarsí, jogam muito, esses garotos.



 
 





quarta-feira, 1 de julho de 2026

5242) À sombra das chuteiras imortais (1.7.2026)



 
Era este o título de uma série de crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol, no jornal O Globo, que eu lia com devoção, tanto quanto lia o “Meu Personagem da Semana”, a página dupla mantida por ele na antiga Manchete Esportiva que meu pai não só colecionava como encadernava. 
 
Não sei onde Nelson foi buscar essa frase, que é sonora, imponente, bem àquele estilo de tribuno nordestino amante dos gestos largos e da voz estentórica. Ele e seu irmão Mário Filho (que deu o nome ao estádio do Maracanã) eram iguais e antípodas ao mesmo tempo. Iguais no amor à literatura e ao futebol; antípodas no modo de ser e de escrever. 
 
Nelson tinha era um escritor cheio de veemência, de barroquismo. Mário era um espírito lúcido, pausado, preciso; escrevia com a elegância de um Machado e o bom humor de um Verissimo. 


(Nelson Rodrigues e Mário Filho) 

 
Resultado: Nelson marcou gerações inteiras com sua personalidade conturbada, cínica, emotiva, e sua linguagem cheia de exageros retóricos. Quanto a Mário Filho... poucos o leem hoje, e os outros não sabem o que estão perdendo. 
 
Nelson marcou para sempre o jeito de se escrever sobre futebol, e curiosamente ele mesmo dizia que não entendia muito de esquemas táticos ou sutilezas estratégicas. Sua matéria-prima era a emoção do futebol. Eram os destinos e as vicissitudes do sucesso e do fracasso; os grandes dramas e as grandes comédias, o lado épico e o lado picaresco do esporte bretão. E a tudo isto Nelson respondia com um vocabulário imprevisível, e com um impagável senso crítico sobre a comédia humana. 



 
Reza a lenda que certa vez um jornalista amigo de Nelson o abordou, um tanto enciumado de seu sucesso.
 
-- Puxa vida, Nelson, você escreve bem pra caramba, mas se repete muito.
 
-- Eu me repito? Qual nada.
 
-- Claro que se repete. Volta e meia você está reutilizando seus próprios clichês.
 
-- Isso é um absurdo, eu não tenho clichês.
 
-- Como não tem? “O olho rútilo e o lábio trêmulo...” “Uma granfina com narinas de cadáver...”  “Calçar as sandálias da humildade...” “Até uma cambaxirra paraplégica teria conseguido fazer esse gol...” “Subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional...” “Gorda e patusca como uma viúva machadiana...” Reconhece tudo isto?
 
-- Está vendo? – disse Nelson, triunfante. – Se eu não repetisse, você não teria se lembrado.
 
Não sei se o teor da conversa foi este, mas a lição de Nelson não foi outra. Quando a gente produz uma frase memorável, não deve atirá-la à vala comum do “uma só vez”. É preciso repeti-la, porque na vez seguinte dez pessoas a reconhecerão e duzentas estarão sendo apresentadas a ela somente agora. E assim por diante. As grandes tiradas afundam na areia movediça da desmemória coletiva se não forem resgatadas e postas a trabalhar de novo, vez em quando. Repita a frase, colega. Ela é sua. 



Nelson deixou marcados esses seus bordões porque era o homem da página de jornal e do palco de teatro, não o do livro capa-dura com lombada gravada a ouro. Sua literatura era uma literatura de feira-livre onde os produtos têm prazo de validade curto, mas podem ser substituídos na semana que vem por um equivalente perfeito. 


 
Nelson, fluminense roxo, ou melhor, verde-branco-grená, dizia que “o Fla-Flu começou a existir cinco minutos antes do Gênesis”. Na verdade, aposto que não foi bem isto que ele disse, mas já li de tantas formas e em tantas variantes que não importa mais: importa a idéia de grandeza cósmica que ele tenta aplicar ao jogo que mais mexia com as suas coronárias. 
 
E é assim que os grandes achados verbais perduram e se propagam: eles usam palavras inesperadas para comunicar uma idéia nova, e quando são bem sucedidos a idéia se fixa de tal modo na cabeça de quem ouve que na vez seguinte as palavras nem precisam ser as mesmas. 
 
Vale, também para as frases, aquele princípio essencial dos roteiristas de cinema sobre as histórias: história que dá filme é aquela que você pode recontar com suas próprias palavras e produzir o mesmo efeito, sem depender do léxico ou do fraseado do autor. 
 
O léxico e o fraseado de Nelson, porém, eram impagáveis, porque ele usava a língua portuguesa, ou a língua brasileira (tá bom, tá bom: a língua PB) como lhe dava na telha. No Brasil, os exemplos e os modelos do “escrever bem” se concentram em torno de Machado de Assis, de Guimarães Rosa, de Gilberto Freyre, de Antonio Cândido... Todos escrevem maravilhosamente, pelos meus critérios pessoais, mas dou graças aos céus dos agnósticos por ter assimilado doses maciças de Nelson na adolescência. “Escreva do jeito que você anda”, diria ele; “escreva com o que você tem.” 



 
E a “sombra das chuteiras imortais”? Estou aqui me coçando para ver se encomendo na Livraria Folha Seca o volume que tem esse título, porque meu pai o achava a coisa mais bonita do mundo, e eu, como sempre, ia no seu rastro. Não foi senão muito depois que comecei a questionar muita coisa, e no meio disso as tais sombras das chuteiras. 
 
Como é a sombra de uma chuteira? Bem, se alguém já as pendurou, a sombra se projeta oblíqua na parede. Mas se não é o caso, a sombra de um par de chuteiras tem exatamente o formato delas duas, dos seus solados com travas, em cima da grama onde pisam. É só isso que um jogador tem. 

O campo de futebol tem medidas vastíssimas, mesmo pelos parâmetros do futebol superatlético de hoje em dia. É um latifúndio, e a parte que cabe a um jogador, nesse latifúndio, é a parte onde pousam seus pés, onde pousa a sombra das chuteiras imortais. 
 
Estamos em tempo de Copa do Mundo, e esta é sempre uma época em que eu sinto o espírito de Nelson baixar sobre mim. 
 
Gosto de acompanhar futebol internacional, agora que tudo está no YouTube e equivalentes. Jogos da Champions League, jogos dos campeonatos inglês e espanhol (os dois que me interessam), algumas disputas de seleções (Eurocopa, etc.). 


 
(foto: Ina Fassbender) 
 

Não torço por ninguém, e não acho que o futebol só possa ser fruído, saboreado, se a gente torcer por um dos times. Acho que o espetáculo vale por si, o drama vale por si. Eu sou aquele cara que centenas de vezes na vida ligou a TV de tarde para ver o videotape de XV de Jaú vs. Ponte Preta. Por que? Sei lá. Porque em qualquer jogo de futebol pode acontecer uma coisa genial a qualquer instante. 



Quando chega Copa do Mundo, no entanto, menos do que o lance genial ou o gol de placa eu passo a acompanhar o sonho, o drama, o paraíso, o pesadelo. Não é um clube, é um país inteiro que está ali. E sinto isso muitíssimo mais forte quando se trata de pequenos países, de seleções sem muita tarimba. 
 
Esta Copa, com seu despropositado número de 48 participantes, tem essa atenuante: está trazendo seleções que nunca, ou raramente, disputaram uma fase de grupos, quanto mais um mata-mata. 
 
E em momentos assim eu viro uma espécie de Nelson Rodrigues, esqueço o gol de placa e me concentro no épico improvável de uma vitória do Equador ou do Paraguai (que começou a Copa tão mal) diante da Alemanha, ou de um empate de Cabo Verde com a Espanha, ou do heroísmo do Marrocos diante da Holanda. 
 
Acho que o brasileiro tem uma certa tendência a torcer pelo “underdog”, pelo time mais fraco. E por cima disso vem a identificação com essas torcidas (a maioria gente mais endinheirada do que eu, mas não importa) que está lá de joelhos, chorando, rezando, cuspindo, esbravejando, vivendo algumas semanas de vitórias impossíveis e derrotas insuportáveis. 
 
Cabo Verde virou a “cinderela” da Copa, a história que todo mundo gosta de ouvir contar. Pouco importa se não joga um futebol coletivo tão bem encaixado quanto o da Argentina, ou se não tem um elenco “Ocean’s Eleven” como o da França. Não vemos seus jogos em busca de novidades táticas ou de um novo Messi. Vemos para prestar homenagem a quem está vivendo um sonho, e para fazer parte desse sonho feliz antes que ele acabe. 



(foto: Chandan Kanna) 



 
 








quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

4898) Nove detalhes sobre Pelé (29.12.2022)



1
Eu nunca vi Pelé pessoalmente, nem mesmo no gramado. Me arrependo de não ter dado uma fugida da farra, do trabalho ou do passeio para ir ao estádio numa das vezes em que ele jogou pelo Nordeste, ou visitou o Maior São João do Mundo. Nunca vi Pelé. Vi (no estádio) alguns de seus companheiros de geração jogarem: Garrincha, Djalma Santos, Rivelino... Pelé, nunca.

Muitos anos atrás li um artigo, de algum cineasta talvez, explicando que na nossa memória formam-se dois aposentos contíguos de lembranças: a) o das experiências vividas diretamente, em primeira mão, em carne e osso, presencialmente; e b) o das experiências a que temos acesso de forma indireta, por imagens, fotos, filmes, gravações, textos, relatos de outras pessoas... 
 
É interessante tentar avaliar qual desses aposentos é maior, qual deles está mais entulhado de referências. A verdade é que nossa “memória de carne e osso” funciona a todo vapor, 24 horas por dia, registrando coisas, mas apenas nos ambientes aonde nosso corpo nos conduz. E a “memória de imagem, ou de palavras” nos dá acesso ao planeta inteiro, ao mundo virtual ou ficcional inteiro, aos milênios de História, às galáxias. É uma memória construída, ficcionalizada, maior (talvez) do que a outra.
 
Philip K. Dick, nas suas impagáveis divagações, dizia que muitas partes do mundo na verdade não existem – são construídas às pressas quando vamos fisicamente para lá. Como no Show de Truman, ou como num videogame, em que a paisagem se recompõe (ou se cria) magicamente no horizonte, enquanto avançamos.
 
Eu e Pelé jamais existimos no mesmo universo físico, jamais estivemos no mesmo lugar ao mesmo tempo. 
 
2
Falei acima que Pelé já jogou na Paraíba. Meus amigos de outros Estados talvez não saibam que um dos orgulhos ficcionais dos paraibanos é o fato de que Pelé marcou seu gol número 1.000 em João Pessoa, num amistoso noturno com o Botafogo-PB, cobrando um pênalti. O famoso gol marcado no Maracanã, contra o Vasco, é a “versão chapa-branca” do fato, a lenda que se publica quando a realidade é menos cativante. Para a imprensa brasileira, era muito mais cativante que esse gol fosse feito no Maior Estádio do Mundo, diante do Vasco (time de coração do Rei), num goleiro argentino que fez o possível para alcançar aquela bola.... A lenda, sem dúvida, dá mais Ibope. 
 
No jogo com o Botafogo, a imprensa afirmava que Pelé tinha naquele momento 998 gols. Toda vez que Pelé dava um passe em profundidade para um atacante do Santos os jogadores do “Belo” se afastavam da bola, na esperança de que ela fosse direto para o gol. Nunca ia. Cometeram um pênalti, em desespero de causa. Longas confabulações. Pelé bateu, fez o gol, e foi substituído. Era (de acordo com a imprensa) o gol 999. No domingo seguinte, jogou contra o Bahia na Fonte Nova, e um zagueiro do tricolor salvou uma bola em cima da linha. No meio da outra semana, veio o gol no Maracanã.
 
Refizeram as contas depois, havia um gol antigo que não tinha sido computado... Mas quem vai reescrever a História só para dar uma glória dúbia ao Botafogo de João Pessoa? Eu, pelo menos, acho desnecessário.
 
3
Um episódio sem nada a ver com futebol é o encontro improvável entre Pelé e John Lennon. Os dois estavam morando em Nova York nessa época – Pelé recém-contratado pelo Cosmos, e Lennon em sua politizadíssima fase pós-Some Time in New York City. Encontraram-se casualmente nos corredores de uma escola de idiomas. Pelé estava aprendendo inglês. Lennon estava fazendo aulas de japonês, algo que certamente teve vontade desde que começou a viver com Yoko Ono. 
 
Consta que os dois se cumprimentaram cordialmente, aquele papo de “sou muito fã seu”, normal entre gente que vive sob os holofotes da fama (e gente que percebe, no outro, a genialidade que os fãs do outro às vezes nem entendem direito). E Lennon confidenciou que, quando a Copa do Mundo de 1966 foi realizada na Inglaterra, os Beatles, então se preparando para lançar Revolver, tiveram a idéia de fazer uma visita à Seleção Brasileira, então bicampeã mundial – mas a burocracia da CBD os desaconselhou. 
 
E eu fico imaginando um universo paralelo onde exista uma daquelas fotos com dois grupos misturados, intercalados: os Beatles e a seleção com Pelé, Garrincha, Gilmar, Bellini, Gérson...
 
Uma pequena digressão: é interessante que nenhum dos quatro Beatles, todos eles liverpudlianos, tenha sido um torcedor fervoroso de futebol. O único futebolista na capa do Sgt. Pepper’s é Albert Stubbins (1919-2002) – do Liverpool, claro. Ao que se diz, alguém sugeriu colocar um jogador de futebol, e Lennon o escolheu porque quando garoto achava o nome dele engraçado. Stubbins é, na famosa capa do disco, o sujeito de rosto rubicundo logo abaixo de Karl Marx e um pouco acima de Marlene Dietrich. 
 
4
Outro encontro improvável de Pelé, que sempre me fez divagar, foi o que ocorreu em Araraquara, numa tarde de domingo de 1960. Numa praça central da cidade, cruzaram-se dois grupos que se entreolharam à distância. Um deles acompanhava Pelé e o time do Santos, que se encaminhava para um jogo com a famosa Ferroviária de Araraquara. O outro acompanhava os escritores Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que se dirigiam, por sua vez, para uma palestra na Faculdade de Filosofia local. 
 
Já escrevi com maiores detalhes a respeito desse encontro inusitado:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2008/03/0045-um-encontro-em-araraquara-1452003.html
 
 
5
A violência no futebol é como a violência em qualquer esporte de contato, de disputas corporais acirradas. Varia de acordo com o estilo dos jogadores e dos técnicos, com o ambiente, com o peso das ambições transformando um simples jogo numa batalha de vida ou morte. Há grandes jogos em que a violência campeia de parte a parte, e grandes jogos em que se vê futebol-arte do começo ao fim, sem nenhuma falta mais ríspida. Tudo isto faz parte da vida. 
 
Tenho duas imagens de Pelé que se não são “um exemplo para as gerações futuras” ilustram bem o lado “testosterona pura” do futebol. 
 
A primeira é a caçada que Pelé sofreu no histórico jogo Brasil 1x3 Portugal, que tirou o Brasil da Copa de 1966 ainda na fase de grupos. Portugal mereceu a vitória, porque a Seleção daquele tempo era aquilo que os coleguinhas da crônica esportiva gostam de chamar “um amontoado de jogadores”. Mas o que Pelé apanhou não está no gibi, e em grande parte não são as faltas comuns, na disputa brusca pela bola, na imposição de uma força sobre outra força. São faltas planejadas, onde o jogador pensa “vou pegar no joelho”, e o faz. Naquele tempo o futebol não permitia substituições. Pelé ficou mancando em campo, só para fazer figuração, até o fim.
 
Na Copa seguinte, em 1970, há outro episódio (que tal como o outro pode ser encontrado no YouTube) no jogo Brasil 3x1 Uruguai. Pelé sofre uma falta, rola no chão. Enquanto está caído, um uruguaio passa por ele, assim como quem não quer nada, e pisa no seu joelho. Pelé marca o cara, e logo depois, quando os dois perseguem uma bola longa lá na ponta esquerda, espera que ele se aproxime, e mete o cotovelo na sua testa, com toda força, antes de rolarem os dois pelo chão. O juiz não viu nada. Deu falta a favor do Brasil. 
 
Isso é feio? Sim, a vida é feia. Todos nós sonhamos com a possibilidade de um mundo futuro onde não existam a violência, os terremotos e as baratas. Viver não é apenas perigoso, viver é cruel.
 
6
O melhor livro sobre Pelé (não que eu tenha lido muitos) talvez seja Viagem ao Redor de Pelé, de Mário Filho, que li adolescente. Foi numa época em que meu pai comprava todos os livros sobre futebol que apareciam na Livraria Pedrosa. Mário Filho escrevia brilhantemente a última página, enorme, da Manchete Esportiva. Eu lia e relia todas.  Juntamente com seu irmão Nelson Rodrigues e com João Saldanha, ele encarna a simplicidade e a riqueza imagística de quem sabe escrever sobre o futebol brasileiro. Destes três, para mim, derivaram todos os que contam histórias futebolísticas e interpretam o mundo fantasioso do futebol, cada qual com sua paleta própria, e a todos li com prazer: Sandro Moreira, Armando Nogueira, Eduardo Galeano, Fernando Calazans, Juca Kfouri, etc. 
 
7
Tem um provérbio segundo o qual “Dinheiro pouco é problema muito, e dinheiro muito é problema muito também”. Pelé ganhou rios de dinheiro, tal como os Beatles. E, tal como os Beatles, poderia ter ganho o dobro ou o triplo se desde o começo a sua fortuna crescente fosse administrada por alguém que tivesse essa rara combinação de qualidades: honestidade, lealdade pessoal e competência.
 
Tem um personagem, hoje obscuro, na história de Pelé, que era conhecido como “Pepe Gordo”. Foi empresário ou contabilista das empresas de Pelé durante anos, e deixou um rombo gigantesco. A imprensa da época dizia que Pelé tinha abandonado o futebol mas teve que voltar, e assinar com o Cosmos, para tapar o buraco deixado por Pepe Gordo.
 
Virou uma expressão de gíria entre alguns amigos meus. Às vezes algum conhecido nosso ficava rico, arranjava um empresário, e alguém comentava: “Ih... o cara tem um jeitão de Pepe Gordo...”  Alguns anos atrás, o bardo Leonard Cohen, com 70 anos de idade, tinha deixado a administração de seus negócios na mão de uma empresária de confiança, Kelley Lynch, a qual raspou o fundo do tacho e sumiu com a grana. E quando eu li a notícia pensei: “Pepe Gordo ataca novamente”. 
 
8
Muita gente criticava Pelé pelo seu hábito de se referir a si próprio na terceira pessoa: “Ah, o Pelé acha isso, o Pelé acha aquilo...”  Para muita gente, é sinal de vaidade, de auto-engrandecimento. Muita gente famosa adquire esse cacoete, que desperta antipatia nas pessoas. 
 
Eu acho meio chato também, mas entendo que isto nasce da consciência de que o personagem admirado pelas multidões é uma coisa, e o “eu”, “a minha pessoa”, é uma coisa diferente. É sempre assim. Pelé fazia com frequência a distinção entre “o Pelé” e “o Edson”. Ele sabia que o público precisa do personagem para fantasiar seus próprios desejos, suas expectativas, seus sonhos, seus medos, seus preconceitos a-favor ou contra... E sabia que a pessoa é sempre um mero portador do personagem. 

9
Uma das expressões mais vívidas sobre a época de ouro do Santos foi uma declaração do próprio Pelé. O Santos, nos anos 1960, era um assombro futebolístico comparável ao que foram em épocas recentes o Barcelona (na era entre Romário e Messi), ou o Real Madrid “galáctico”. Clubes pelos quais a gente não torcia, mas fazia questão de acompanhar os jogos porque sabia que coisas memoráveis iam acontecer naquela tarde, naquela noite. 
 
Era o Santos que tinha a famosa linha atacante com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.  Não somente esses. Havia o atacante Pagão, que era o preferido de Chico Buarque. Havia Toninho, um artilheiro nato, matador, no estilo de Pedro (Flamengo) ou Germán Cano (Fluminense). O Santos era um assombro.
 
O jornalista perguntou a Pelé, já idoso, quais as coisas de que ele sentia saudade da época do futebol. E Pelé respondeu: “Eu tenho saudade da sensação que a gente tinha no início de todos os jogos, quando as equipes tomavam posição, a gente botava a bola no centro, se preparava para dar a saída, e então eu levantava a cabeça e olhava o time adversário. E via o medo nos olhos deles. O medo que eles tinham do Santos.” 
 
 
 
 
 
 






terça-feira, 15 de novembro de 2022

4883) Os esquemas da Fifa (15.11.2022)


 
A Copa do Mundo se aproxima. Mesmo estando meio distanciado do futebol, eu decidi me presentear com um spoiler do que vem por aí – e fui assistir no Netflix a série-documentário Esquemas da Fifa, dirigida por Daniel Gordon.
 
Em quatro episódios, a série descreve o escândalo que estourou em 2015, quando altos dirigentes da Fifa foram presos, numa operação simultânea em vários países – por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa... O cardápio habitual de quem mexe com muita grana.
 
Dizem que toda honestidade tem seu preço; algumas são meramente mais caras do que outras. O mundo do futebol não é necessariamente composto por gente mais honesta ou desonesta do que o mundo da indústria automobilística, o mundo dos cosméticos, o mundo do rock ou o mundo das telecomunicações. Qualquer lugar onde role muito dinheiro torna-se um terreno fértil para a desonestidade. O restante vai ser determinado pelo formato interno dessa indústria, ou comércio, ou mercado, etc. Pelas relações de produção, pelos freios e contrapesos junto aos governos, imprensa, público, etc.
 
O formato interno da Fifa, a confederação internacional de futebol, revelou-se extremamente propício para a roubalheira. O documentário mostra os primórdios da entidade e o espírito meio ingênuo, quase amadorístico, que ela manteve até a gestão de Sir Stanley Rous. O qual foi substituído pelo brasileiro João Havelange, uma raposa no pleno sentido da palavra.


(João Havelange e seu sucessor Joseph Blatter)
 
Havelange assumiu em 1974 e passou a transformar o futebol internacional, injetando nele dois modelos de conduta: o big business e a política. Não poderia dar certo, e não deu. A Fifa se transformou em um enorme instrumento de enriquecimento ilícito e corrupção moral.
 
Praticamente todos os entrevistados falam idealisticamente sobre o impulso de desenvolver o esporte em todos os países – principalmente nos mais pobres, onde a juventude vive aos deusdará. O esporte pode ensinar lições de vida (concordo). Pode ensinar o valor do talento individual e o valor do espírito coletivo (concordo). Pode aproximar culturas diferentes, até mesmo num contexto de competição e rivalidade, mas diluindo estes dois aspectos em benefício de um ideal maior, o esporte (concordo). Mas... No papel tudo é bonito, e no microfone tudo soa bem.
 
Contratos bilionários, pesadas comissões e subornos cada vez mais explícitos são revelados ao longo dos quatro episódios. Curiosamente, a série aborda com destaque a decisão da Fifa de votar simultaneamente os locais das Copas do Mundo de 2018 (deu Rússia) e 2022 (deu Qatar). Há todo um detalhamento do envolvimento político dos xeiques do Qatar, que os documentaristas praticamente espremem no canto da parede, exigindo explicações.


Nem uma palavra é dita sobre a Copa da Rússia. Talvez porque já tenha acontecido, e (como se diz por aí) não adianta dar chute em cachorro morto. Talvez.
 
Lembro muito bem de quando Ronaldo Fenômeno teve um piripaque no dia da decisão da Copa de 1998, na França. As mais mirabolantes teorias da conspiração foram propostas. Desde as explicações de mero suborno (cheguei a ver listas apócrifas, com o preço de cada jogador: Fulano, X mil dólares; Sicrano, Y...) até explicações que envolviam extraterrestres reptilianos e controle mental via satélite (o que explicava as cabeças raspadas de vários jogadores).
 
Li há muitíssimos anos num livro policial qualquer, provavelmente de Agatha Christie ou alguma aventura do Padre Brown, de Chesterton, o detetive explicando: “Muitos suspeitos de um crime mentem, mesmo sendo inocentes. O assassino não é o único a mentir. Alguns inocentes mentem por medo, outros por conveniência, outros por hábito.” E a conclusão: “Quando vemos todo mundo mentindo, a verdade fica irreconhecível.”
 
A corrupção política, tal como os crimes investigados por Hercule Poirot, não é um samba de uma nota só. Não acontece sempre pelos mesmos motivos, nem seguindo os mesmos processos. Cada caso é um caso. Em outro livro policial, vi um mafioso, um tipo Don Corleone, explicando ao seu braço-direito: “É preciso saber o ponto fraco de um homem, para poder suborná-lo. Homens honestos, que rejeitariam horrorizados um milhão de dólares, podem entregar tudo em troca de um fim de semana com uma chacrete que admiram à distância”.



Um dos temas repetidos mais insistentemente em Os Esquemas da Fifa é o da sensação de poder e a certeza da impunidade. A Fifa levantou quantidades astronômicas de dinheiro ao longo de décadas. De uma hora para outra, os dirigentes do futebol de 120 países se viam projetados num universo de carros de luxo, hotéis 6 estrelas, restaurantes finíssimos, presentes caros, mulheres lindas e aquiescentes, salas Vip, tapete vermelho, jantares com primeiros ministros e presidentes. Muitas vezes nem era preciso o suborno. Bastava o cargo – e a liturgia do cargo.
 
Só que o uso do cachimbo deixa a boca torta, e lá pelo terceiro episódio da série chegamos à parte decadente e farsesca: os famosos envelopes de papel pardo com milhares de dólares dentro, entregues numa suite de hotel, enquanto os outros esperam sua vez na ante-sala. É como dar um salto brusco de São Conrado para Rio das Pedras.
 
O produtor da série, Miles Coleman, declara: “O grande problema é que numa entidade como a Fida não existe voto direto, voto popular. São os delegados das federações que votam. Então... basta você convencer 120 pessoas, e você pode se perpetuar no poder, por um longo tempo.”
 
Eu sou impregnado de futebol desde a infância, é algo que está nos genes de meu pai ou no feijão da minha mãe. Lá em casa todo mundo tem time. Já fui jornalista esportivo, já fiz parte de torcida organizada, já fui funcionário do meu clube do coração. Conheço conversa de vestiário, de sala de reunião, de bastidores. Sempre soube que o futebol é todo contaminado de safadeza. E daí? Nesta vida, neste mundo, o que não é?
 
Meus amigos leigos me veem reclamando das diretorias corruptas, dos juízes desonestos, dos jogadores mercenários, do VAR, da bandeirinha de córner, do gandula. Perguntam: Por que continua torcendo, se sabe que tudo aquilo é um teatro, e que muitas vezes o resultado do jogo (e do campeonato) foi acertado de antemão?
 
Não sei. O futebol é uma coisa tão fascinante que a gente consegue, quando o juiz faz “pí!...” esquecer de tudo e acreditar que o jogo é somente o jogo. Como quando vai num show musical num estádio repleto, e faz de conta que não está vendo aqueles logotipos coloridos piscando, mostrando quem paga pelo espetáculo e quem manda em você. Ou quando assiste a novela de TV fingindo que aquilo é de verdade, e faz de conta que não dá atenção aos comerciais.
 
A mente humana não foi programada para aceitar doses muito grandes de realidade. Temos necessidade de acreditar que “apesar de tudo existe uma fonte de água pura”. Sabemos que não existe. Mas sabemos também que só deixará mesmo de existir quando a gente não acreditar mais nela.


(by Chappatte)
 





domingo, 25 de novembro de 2018

4408) Visse? (25.11.2018)




(foto: Vanderlei Almeida)

Ainda não consultei a tabela, e não sei se o Flamengo já é “de fato” vice-campeão brasileiro, após a vitória de 2x0 sobre o Cruzeiro e a vitória de 1x0 do Palmeiras sobre o Vasco.

Um vice-campeonato por pontos corridos parece menos doloroso do que um vice num campeonato eliminatório por chaves como a Copa do Brasil ou a Libertadores. Aquele campeonato que a gente perde no derradeiro jogo.

Num destes torneios melodramáticos, de reviravoltas impossíveis e campanhas incontroláveis, você pode ser o oitavo dos oito classificados para a chave decisiva, e acabar sendo o campeão, como acho que já aconteceu com o Santos.

Tudo se decide num jogo, às vezes num lance, numa bola na trave, num gol perdido, num pênalte de Schrodinger, naqueles lances que no futuro virarão um “o empurrão em Sicrano” ou “a bola de Fulano que não cruzou a linha”. Esses mistérios que, à falta de outros registros e novos relatos, vão se perpetuar na eterna nuvem do “já que não se pode nunca saber como foi, pode-se afirmar qualquer versão que nos convenha”.

Um campeonato de pontos corridos tem também suas quedas bruscas e suas subidas estonteantes, mas é como se tudo acontecesse em câmara-lenta, as tendências de desempenho das equipes levam semanas para se delinear.

Num campeonato de pontos corridos, o que existe é um fluxo de desempenho único, do primeiro ao último jogo. Cada ponto vai contar, cada gol tem peso, e tudo o mais. É como se fosse um gigantesco jogo dividido em 38 fatias de noventa minutos.

Já num campeonato eliminatório, cada chave da parte decisiva está zerada em relação aos pontos ganhos e perdidos antes. Não tem mais contagem de pontos. Bate-se o martelo com o resultado dos jogos de ida e volta. É o mesmo jogo, só que menos gigantesco, tem apenas 180 minutos, dividido em dois segmentos de noventa.

É claro que do ponto de vista narrativo esta segunda modalidade é folhetim puro, é uma tragédia ou uma epopéia por semana, um dobrar de apostas em bases cada vez mais altas. Esta modalidade agrada quem está em busca de emoções, de folhetim, de melodrama, de corações e mentes se dilacerando em busca da vitória.

O campeonato de pontos corridos é feito aquelas poupanças onde você deposita um real a cada graça recebida e reza para que exista alguém lastreando seu saldo. Tudo nele é longo prazo, tudo nele pode ser projetado ao longo de 38 fortalezas de pedra ligadas por extensas passarelas como na Muralha da China, esticando-se até a parte inferior do calendário do ano.

Se você perde um campeonato de pontos corridos porque ficou 1 ponto (digamos) atrás do campeão, é inevitável pensar que “os pontos que precisamos agora foram os perdidos no jogo A, no jogo B, etc”.

É muito raro um campeonato de pontos corridos ter no último jogo, decidindo campeão e vice, os dois clubes mais bem colocados. Aí sim, haveria uma disputa pelo título travada dentro de campo, na grama, um contra o outro.

Literariamente, o campeonato por chaves e confrontos eliminatórios tem o suspense e o sem-fôlego dos folhetins de Alexandre Dumas e Maurice Leblanc, e se assemelha em estrutura aos relatos mitológicos dos trabalhos de Hércules. Uma sucessão de desafios, onde a cada dois passos o herói colapsa na vida ou na morte.

Já o campeonato de pontos corridos parece aquelas sagas históricas a longo prazo, contando gerações sucessivas de uma mesma família, século entrando em século. Aquelas trilogias de Érico Verissimo ou aqueles catataus de Balzac. Um modelo que Garcia Márquez retomou numa chave de magia para contar suas famílias colombianas.

Também literariamente o campeonato eliminatório pode ser visto como uma coletânea de contos, ou como uma novela de capítulos sucessivos que são unidades dramáticas em si mesmas. O campeonato de pontos corridos é um romance de dimensões dickensianas, jorgeamadianas, tolkienianas.

Ou mais até, porque diferentemente da maioria dos livros esse campeonato é um barco onde todos os personagens entram juntos e ficam todos juntos até o dia da última rodada, não sai ninguém de cena até a cortina fechar.

Isso são comentários meio ao correr de pena e ao sabor da viração, motivados pelos resultados de hoje. Quem gosta de futebol gosta por uma infinidade de razões diferentes, que nem sempre são as mesmas do nosso vizinho do lado.

Uma das coisas que me dão prazer, independentemente de torcer por algum time, é acompanhar campeonatos e ver como se desenvolvem. Vale também para campeonatos de vôlei, basquete, tênis, qualquer coisa. (Não sei se nesses, internacionalmente, usa-se muito o sistema de pontos corridos.)

Este ano de 2018 tivemos uma Copa do Mundo com uma narrativa morna, e os grandes momentos, de verdadeira emoção, só aconteceram por inevitabilidade estatística.

Já o Campeonato Brasileiro de 2018 começou com o Flamengo se sustentando numa liderança que não visitava há anos, controlando jogos difíceis, derrubando adversários. A parada do meio do ano para a Copa do Mundo não fez bem ao time (que já nem terminou no mesmo pique o chamado “primeiro turno”). O São Paulo aproveitou esse baque e assumiu a ponta, por algumas semanas, acho.

E então o grande Felipão ressurgiu das cinzas, e logo no Palmeiras. A grandeza de um técnico ou de um atleta às vezes não é pela genialidade técnica ou pela grande figura humana, mas apenas por ser um cara capaz de obter o impensável e desmoralizar o impossível. Depois da derrota de 2014, achava-se que ele não voltaria mais, e ele voltou.

O Flamengo, este ano, promoveu mais um jovem craque (Lucas Paquetá) e vendeu dois (Paquetá e Vinicius Jr.). A defesa é de pouca conversa, dá suas cabeçadas, tanto a favor quanto contra. O time continua sem ataque. Henrique Dourado parece às vezes que está jogando a partida que está passando noutro canal.

O grande número de gols marcados pelo time não resulta de ele ter bons atacantes, resulta do volume de jogo que a equipe consegue exercer, e aí o gol pipoca de qualquer ponto.

O goleiro César tem aparecido muito bem. Diego jogou menos do que no ano passado, e este ano quem melhorou muito foi Everton Ribeiro, que é bom armador e bom finalizador. O time nunca é o ideal, mas dá pro gasto.











quinta-feira, 14 de junho de 2018

4357) Meus planos para a Copa do Mundo (14.6.2018)



(ilustração: Alison Mees)

Vieram me perguntar se eu ia torcer pela Seleção Brasileira nesta Copa do Mundo. Eu respondi: “Vou torcer para que Salah fique bom da contusão, jogue, o Egito enfrente a Espanha e ele faça o gol da vitória”.

Para quem não sabe: Salah é o jogador egípcio que foi deslealmente machucado por um jogador espanhol, no jogo decisivo da Liga dos Campeões.

Quanto à Seleção Brasileira, desejo-lhe boa sorte, pelas inocentes alegrias que suas prováveis vitórias darão aos que encontram, nessas vitórias, uma razão para festejar.

Li dias atrás uma coluna de Luiz Antonio Simas, no Globo, onde ele cita o folclórico sambista Beto Sem Braço: “O que espanta a miséria é festa”. É uma grande verdade; e é uma frase que só vale na boca de quem sabe o que é a miséria. Nós, do lado de fora, podemos usá-la apenas entre aspas.

Vou acompanhar a Copa, sim. Vou ver os jogos no bar da esquina ou na casa dos amigos. (Não tenho mais televisão em casa.)

Quem se der o trabalho de vasculhar meu blog verá o quanto já me deixei arrastar pelo entusiasmo futebolístico. Tanto em função dos meus times de coração (Treze, Flamengo, Sport, Atlético Mineiro) quanto pela Seleção.

Continuo gostando de futebol. Gosto de ver “the beautiful game”, que nós brasileiros estamos praticando cada vez menos. O futebol bem jogado é uma mistura de balé e xadrez: o balé dos jogadores e o xadrez dos técnicos. Mas existe uma versão contemporânea que é um misto de arruaça e burocracia, respectivamente.

Gosto de ver as grandes decisões, as situações-limite em que pessoas de talento fora do comum dão tudo de si para conquistar um título numa disputa leal.

E gosto de ver quando um daqueles joguinhos chinfrins de meio de semana, noite chuvosa, dois times da série C, se transforma – por circunstâncias do momento – numa batalha épica de emoções fortes, de heroísmo, de façanhas impossíveis.

O bom do futebol é que mesmo no jogo mais medíocre entre os times mais fuleiros pode surgir a qualquer instante um lance perfeito, inesquecível, tão extraordinário quanto o gol de bicicleta de Gareth Bale naquela mesma final da Liga dos Campeões. É como na poesia: no meio de um livro totalmente banal pode brotar a qualquer instante um verso de gênio. Por isso a gente não desiste.

O futebol está cada vez mais se transformando em “Big Business” – um Business que só interessa a quem é Big. Não é o meu caso. Gosto do lado plebeu do futebol, porque sou de origem plebéia. Pra ser sincero, futebol só presta com laranja chupada ou bola de meia. Esse negócio de chuteira e bola de couro estragou o jogo. (Tou brincando.)

Futebol está no sangue da gente lá em casa. Fui jornalista esportivo com 16 anos, fui membro dos Esporões do Galo (a torcida (des)organizada do Treze), fui secretário do Treze (era eu quem datilografava os contratos e pagava o bicho dos jogadores, na gestão Zé Agra). Ainda hoje sou capaz de me interessar por um videoteipe de Ituano x Bragantino às 3 da manhã.

A Copa de 2014 contribuiu para arrefecer esse meu entusiasmo, sem extingui-lo. Não por causa do 7x1, que pra mim foi uma derrota previsível (apenas o placar foi “um tanto elástico”, como dizem os coleguinhas da crônica). Mas naquela vez parece que tudo que tem de ruim no futebol se juntou.

Foi a rapinagem deslavada, as propinas, os conchavos políticos, a repressão aos protestos, os elefantes brancos e inúteis que estão aí até hoje dando prejuízo dos Estados que caíram no conto do vigário das “coisas de Primeiro Mundo”. Millôr Fernandes dizia que transformar sua cidade em atração turística é o mesmo que botar a mãe na zona.

E agora a polícia e a imprensa descobriram, finalmente, que havia corrupção na CBF.  Engraçado, eu sabia disso desde que era a CBD de João A-Ver-Longe.

O futebol se igualou ao rock, ao cinema blockbuster. É big business. A arte é um efeito colateral, que eles incluem como isca e ainda não descobriram como descartar, mas o farão, quando descobrirem um modo de ganhar mais grana com isso.

Minha primeira Copa como torcedor foi a de 1962, que ouvi pelo rádio. E nem sempre torci pelo Brasil. Em 1974, por exemplo, torci pela Holanda, e comemorei na casa de Jakson e Marcos Agra a vitória da Laranja Mecânica sobre o Escrete Canarinho por 2x0. Por causa da ditadura? Em parte. Mas porque a Holanda era o futebol, e eu gosto mais do futebol do que dos meus times.

A Copa me irrita porque grande parte da imprensa aproveita para se lambuzar de ufanismo ilusório, de servilismo diante dos ricos e mandões. Na Copa, muito jornalista tenta compensar nosso “complexo de vira-lata” afirmando que não somos vira-latas, somos lulu de madame.

É uma época que deveria nos ensinar alguma coisa, mas acaba revolvendo camadas profundas do nosso inconsciente coletivo e revelando o lixão de História mal resolvida sobre o qual estamos edificando nossos shoppings e nossas arenas.












quinta-feira, 17 de julho de 2014

3553) A entropia do futebol (17.7.2014)



Há um livro, se não me engano de Neil Gaiman, em que o mundo está passando por um aumento da entropia.  Entropia é a medida da desorganização do Universo, em que há uma dissipação da energia e todas as coisas vão ficando mais caóticas e indiferenciadas. Quando a gente deixa uma xícara de café em cima da mesa, ela se degrada, esfria sozinha, perde energia. No mundo descrito por Gaiman, as fitas cassete com música gravada (clássica, popular, etc.) se guardadas por mais de duas semanas sem ninguém mexer nelas, se degradam – transformam-se todas em The Best of Queen.

O que me lembra um clássico da FC: Ubik de Philip K. Dick.  No universo em que vive o protagonista, acontece algo semelhante. O universo está involuindo, está sofrendo um aumento de entropia que faz as coisas se tornarem progressivamente mais antigas, mais atrasadas. A história se passa no futuro mas à medida que a entropia aumenta o personagem anda na rua e as pessoas começam a aparecer com roupas dos anos 1940, os carros viram carros daquela época, e assim por diante. Quando ele toma o remédio chamado “Ubik”, uma espécie de tônico miraculoso, aí tudo bem: carros, roupa, arquitetura, anúncios nas ruas, tudo volta a pertencer à época em que a história acontece.

Posso estar sendo pessimista, mas acho que estamos passando por um período ubikiano no futebol.  Esta Copa mostrou grandes times campeões do mundo jogando um futebol muitíssimo abaixo do que praticavam pouco tempo atrás, inclusive o Brasil.  Há uma diferença ubikiana entre nossa Seleção da Copa das Confederações e a da Copa do Mundo. O que dizer da fortíssima Espanha, campeã mundial em 2010, que chegou no Brasil e virou saco de pancadas, como se fosse uma espécie de Íbis?  Os grandes craques como Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta, etc., todos estavam atuando na Copa como versões bizarras de si mesmos. E não me venham falar dos poucos times ou poucos craques que jogaram bem. São a exceção que confirma a regra. (Se eu fosse rico destinaria alguns milhões de dólares ao sujeito que inventou essa frase, um 171 filosófico que permite à gente afirmar qualquer coisa e escapar impune.)

Nosso futebol, em especial, está passando por uma degradação espontânea, uma entressafra sem fim, uma fase Ubik, e urge descobrir o tônico fantástico que nos trará de volta ao jogo bonito que poderíamos estar praticando em 2014. Esta regressão entrópica, da qual nem a Seleção Brasileira escapou, está fazendo com que mesmo algumas das melhores equipes do mundo pisem no gramado para praticar um futebol bumba-meu-boi digno dos melhores (piores) momentos de algumas peladas da Concacaf ou da Oceania.


terça-feira, 15 de julho de 2014

3551) Alemanha Ano Zero (15.7.2014)




Em mais uma Copa que não teve uma grande seleção (tipo Brasil em 82 ou Holanda em 74), venceu a mais aplicada e de futebol mais ofensivo, embora com altos e baixos. A Alemanha, merecidamente campeã, teve o melhor ataque, com 18 gols contra 4. A vice-campeã Argentina fez 8 gols contra 4, no total. Fez menos gols na Copa inteira do que a Colômbia fez na fase de grupos (nove).

Valeu a simpatia dos alemães, que estudaram o ambiente e a população e souberam se cercar de um clima positivo. A Argentina promoveu a maior invasão de torcedores; foi a seleção que teve mais torcida, se bem que o Brasil deve ter sido a que teve mais espectadores-a-favor. A Holanda bateu na trave mais uma vez: começou goleando e tirando o sono dos adversários e foi minguando ao longo da competição. Seu ataque, tão talentoso (Robben, Van Persie, Sneider), lhe faltou em jogos decisivos contra Costa Rica e Argentina (0x0).

Dentre os times menores, as melhores surpresas foram a Colômbia, a Argélia, o Chile e a Costa Rica, que acabou virando o “segundo time” de todo mundo. Os grandes que decepcionaram foram a Espanha, a Inglaterra, a Itália, Portugal e Brasil.  Alguns times estão numa escalada de qualidade que vale a pena vigiar, como é o caso dos EUA e da Bélgica.  Os times africanos, desta vez, vieram muito fracos, e somente Gana e Nigéria mostraram algum futebol.

Foi uma Copa com excelente média de gols na primeira fase, prejudicada por uma série de 0x0 e 1x0 no mata-mata final. Uma Copa dos goleiros, sem dúvida, e eu escolheria Tim Howard dos EUA como representante da categoria. Uma Copa de más arbitragens, mostrando (para alegria do meu preconceito) a incompetência da Fifa na sua preparação e escalação. Justiça seja feita, a Fifa se redimiu introduzindo duas coisas que deverão se consolidar: o tira-teima eletrônico para saber se a bola entrou no gol, e o spray de espuma para marcar a posição da barreira (que o Brasil já usa há séculos).

Uma Copa que se abriu e se fechou com duas goleadas para entrar na História: os 5x1 da Holanda sobre a campeã Espanha, e os 7x1 da Alemanha sobre o Brasil, jogo sobre o qual ainda vão correr alguns atlânticos de tinta. Houve pelo menos uma dúzia de jogos de altíssima voltagem emocional. Nenhuma violência desmedida, embora a truculência que houve pudesse ter sido bem menor se as arbitragens tivessem um melhor nível. A classificação final foi justa, embora uma justiça amarga para a Argentina, que apostou tudo em Messi e o viu atuando aquém do esperado, e para o Brasil, que como dono da festa mandou a campo uma das seleções mais jovens, menos preparadas e mais emocionalmente equivocadas de toda sua história.