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sexta-feira, 14 de novembro de 2025

5207) Quem é Susan? (14.11.2025)



 
É um meme que circula por aí há muito tempo, e cada ver que emerge na tela eu solto uma gargalhada. O texto é em inglês. Alguém aplica uma prova para crianças, com problemas simples de Matemática. 
 
O problema destacado na foto diz: 
 
Jane tem 12 lápis, e Kim tem 7 lápis. Quantos lápis Susan tem a mais do que Kim? 
 
E no espaço para a resposta a criança escreveu: 
 
Quem é Susan? 
 
Este pequeno episódio gera tantas idéias que chega dá uma vertigem. 
 
A primeira coisa que me ocorre é: a resposta da criança foi considerada certa? A criança perdeu o ponto? Sei de muitos colégios, e já vi muitos exemplos, em que uma criança questiona uma pergunta-de-prova. Questiona de uma maneira totalmente aceitável, mas perde o ponto e ganha uma repreensão. 
 
(O que, no-fundo-no-fundo, é muito mais educativo do que passar-lhe a mão na trunfa e proclamá-la inteligentinha. A punição por questionar a autoridade avisa: “Filhota, o mundo funciona assim, caia na estrada e perigas ver.”) 
 
A segunda coisa é a pena que eu tenho da professora que elaborou a prova. Esse texto deve ter sido preparado tarde da noite, após um dia estafante, um jantar conflituoso ou às pressas, uma pilha de provas para corrigir, outra prova para preparar, e chega um momento em que as perguntas envolvem tantas “Susans” e “Marys” e o escambau... Não há como não errar, e como não ter pena de quem erra. 
 
A terceira coisa é a quebra existencialista. A criança está crescendo, aprendendo a ler, a escrever, a fazer contas, e é nesta fase que começa a ser-lhe vendido, em suaves e eternas prestações, o enorme Falso Bilhete Premiado da Loteria que é a entrada no mundo adulto. “Estude, pra se formar, arranjar um bom emprego, ganhar dinheiro e casar.” E a venda desse bilhete depende terrivelmente da idéia de que a vida é bela, o mundo é justo, o país vai pra frente, a felicidade é para todos, a honestidade é recompensada... 
 
Enfim: é uma cartela inteira de bilhetes que a criança está comprando com seu esforço. 



 
E de repente, no meio daquilo, aparece o equivalente à cara de um palhaço estirando a língua, botando os polegares nos ouvidos e agitando os dedos. Tem um erro na prova. A realidade está bugada. O mundo é falso. Os professores erram. Os padres pecam. Os jornalistas mentem. A polícia comete crimes. 
 
Quem é Susan? 
 
Esta Susan invisível e intrusa é o sexto lado do Pentágono, a terceira margem do rio? Algo que não podia existir, mas está ali? 
 
Por trás de uma contazinha aritmética inofensiva (12 – 7 = 5) foi introduzida uma serpente daninha e perniciosa no Éden da Matemática: o elemento humano. Enquanto se tratasse apenas de Jane e de Kim, que por definição já faziam parte do problema, tudo se resumia a fazer as contas, de forma impessoal e não-envolvida. Você tem tantos, e você tem tantos. Mas de repente aparece um nome não previsto na equação. Um elemento humano intruso, não-convidado, que não estava na ficha técnica do mundo. 
 
Os problemas escolares de Matemática são assim: não admitem o elemento humano, que está ali só para ilustração. “Joãozinho comprou 50 melancias na feira, mas no trajeto perdeu 8; quantas melancias Joãozinho trouxe para casa?...” Ninguém ousará perguntar: “Mas para que Joãozinho queria tantas melancias? E ele estava sozinho? Ele trouxe as melancias num carrinho, num táxi, num cesto?...”  Essas questões são proibidas. A única função da existência do hipotético Joãozinho é ajudar a entender que 50 – 8 – 42. 
 
Quem é Susan? 
 
Susan é um clinâmen, um salto quântico inesperado, uma mutação não prevista. Alguém que não estava nos cálculos mas de repente irrompeu problema adentro, estraçalhando tudo com sua existência intrusa. 
 
É o “J. Pinto Fernandes” que não estava na história mas chega de repente e arrebata consigo a sapeca Lili, no poema de Carlos Drummond (“Quadrilha”). 
 
Ou então é alguém parente do sujeito que vai passando na rua e alguém lhe grita: “Manuel, tua mulher está passando mal na tua casa em Niterói!...” e ele dispara na carreira, pega um táxi, e quando está no meio da ponte pensa consigo: “Mas... espere aí... eu não me chamo Manuel, eu sou solteiro, e eu não moro em Niterói!...”. 
 
Georges Perec (a quem devo a dica do conceito de clinâmen, já comentado aqui no blog) dizia que o uso de uma “contrainte” na literatura, ou seja, o uso de uma regra auto-imposta pelo autor, deve sempre permitir uma exceção. O sujeito pode dizer: “Vou escrever um texto em que todas as palavras começam pela letra C”, e ele deve ser capaz de obedecer a essa regra; mas no final, depois do texto impecavelmente pronto, ele deve (diz Perec) inserir discretamente, sutilmente, uma palavrinha que não obedece à regra. Uma exceção proposital, que ele poderia perfeitamente ter evitado. Por que? 
 
Veja aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/search/label/clin%C3%A2men
 
Respondo: para contaminar de realidade e de imprevisto esse “constructo” artificial que é a literatura. Para contar (digamos, hipoteticamente) a história completa da família Buendía, com seus prenomes maniacamente repetidos, mas poder, a certa altura, dizer algo como: 
 
Nesse instante, bateram na porta da frente, a avó Úrsula disse: “Aureliano, tem gente batendo, vá ver quem é”. Aureliano abriu a porta para uma moça loura, de olhos azuis. “Quem é a senhorita?”, perguntou. E ela disse: “Eu sou Susan”. 

 




 
 




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

5157) "Ainda Estou Aqui" (27.2.2025)




O filme de Walter Salles Jr. é um filme sobre a memória, o apagamento, o esquecimento, etc., porque afinal de contas trata-se da adaptação do livro em que Marcelo Rubens Paiva conta como se deu o sumiço do seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, em 1971, por obra e graça da ditadura militar. 
 
Marcelo, aliás, surgiu com outro livro de memórias, Feliz Ano Velho, em que narrava um pouco dessa história mas, principalmente, o período que se seguiu ao acidente que o deixou tetraplégico. O livro é excelente, foi um best-seller da década de 1980, é um livro formador para minha geração – e aí tenho que fazer uma traquinagem nas contas numéricas, porque Marcelo Rubens Paiva, apesar de mais novo do que eu, publicou primeiro, e seu livro fez parte das minhas “leituras formadoras”. 




Não é só memória, no entanto, ou melhor, é isso – e tudo o mais que está enganchado nisso, emaranhado, grudado, acumulado, fazendo parte disso. 
 
A cabeça de quem escreve é uma mistura de xadrez, tômbola, e biscoito-da-sorte. Um pensamento desencadeia algumas reações imprevisíveis, associações de idéias ou de imagens, e a gente escreve, como quem copia um ditado, sem ter tempo de enxergar quem está ditando. 
 
Isto talvez ajude a explicar uma palavra aleatória que usei no primeiro parágrafo deste texto. Comecei pensando em ir noutra direção, mas agora vou pegar essa transversal, depois volto à avenida. 
 
A palavra é “sumiço”, uma palavra que uso rarissimamente, e que só aparece no meu vocabulário quando pretendo me referir ao livro do francês Georges Perec La Disparition (1969), frequentemente citado neste blog. 



 
É o famoso “romance onde não aparece a letra E”. O livro foi publicado em inglês como A Void, em italiano como La Scomparsa e no Brasil, em tradução de Zéfere, como O Sumiço (Ed. Autêntica, 2015). 
 
O livro conta o desaparecimento de um indivíduo chamado Anton Voyl e a busca desesperada de seus amigos para localizá-lo. Aos poucos, um dos significados da história vai se esclarecendo: Voyl significa “voyelle”, (“vogal”). O livro acontece em um mundo de onde a letra “E” desapareceu e todo o resto das coisas que existem teve que se desarrumar e arrumar de novo, se reorganizar, se recombinar, para preencher aquela ausência. 
 
O livro tem muitas outras coisas, mas para o presente caso serve como ilustração. Quando se subtrai algo essencial ao idioma, à fala, à vida, à conversa humana (à literatura...), e essa subtração é irreversível, não tem jeito a dar. O mundo inteiro tem que se arrumar de novo para preencher aquela ausência, aquela desaparição, aquele vazio, aquele sumiço. 
 
E mais: sem ter plena consciência do que aconteceu – sabe-se apenas que tudo agora é assim e talvez tenha sido sempre assim. O mais cruel de um sumiço é quando todo mundo precisa se acostumar a essa ausência e acaba mesmo pensando que “é, foi sempre assim, está tudo normal, não sumiu nada nem ninguém”. 
 
Daí (voltando à avenida principal) a importância da história central contada em Ainda Estou Aqui. 




(Eunice Paiva) 

 
Não li o livro de Marcelo Rubens Paiva e não sei os contextos em que a frase do título aparece. Quando soube do filme e todo o fuzuê que ele gerou em torno de si (milhões de ingressos, indicações ao Oscar, etc.) compreendi que essa frase era uma frase-símbolo de Eunice Paiva, a viúva-sem-ser, a mulher que passou décadas infernizando a vida dos militares, da polícia, do sistema judiciário, da imprensa, como quem diz: “Não, não fui embora, ainda estou aqui. Olha eu aqui de novo. Vim reclamar outra vez. Vim bater na porta outra vez. Tem resposta? Tem explicação pra mim? Tem justificativa? Alguém pode me contar de verdade o que aconteceu? Alguém pode me fazer a fineza de dizer o que aconteceu com meu marido?. 
 
A interpretação de Fernanda Torres é excelente e merece todo o reconhecimento que tem obtido. Não pude deixar de lembrar dela em Terra Estrangeira, meu filme favorito na obra de Walter. Duas personagens, dois mundos tão distantes e parecidos. 
 
Por outro lado, gostei muito de Selton Mello como Rubens Paiva, com uma semelhança notável com o personagem. Bonachão, tranquilo, sorridente, sério, firme, ele ocupa a primeira meia hora de filme (mais ou menos), construindo uma presença maciça sem esforço. Selton Mello é um dos atores mais descontraídos que há, larga as falas como se estivesse improvisando tudo, naquele mesmo instante.




E é essa presença tão carismática que é subtraída ao filme a partir da chegada dos policiais da repressão, e sua partida para o quartel. Aliás, uns policiais extremamente plausíveis para quem viveu aquela época. Não são soldados com farda do Exército e cabelo à escovinha. Não. É aquele contingente dos lumpen-repressores, cabeludos, barbudos, desconfortáveis. O tipo do executor pegado-no-laço para fazer trabalhos sujos e depois sumir.
 
Perguntado sobre sua ocupação, um deles diz: “Sou especialista em parapsicologia”. Gente com alguma escolaridade, mas sem planos além da sobrevivência, gente sem ideologia além de leituras ao acaso e meia dúzia de preconceitos herdados sem refletir. Gente facilmente cooptável por qualquer tipo de regime, em troca de algum salário e – principalmente – em troca do Poder de amedrontar outras pessoas.



 
Depois que Rubens Paiva desaparece, quebra-se aquela felicidade familiar que orbitava em torno dele. (E aí não é preciso dizer que todo passado é utópico para quem escolhe recordá-lo assim. Por que não posso achar que algum dia já fui feliz?!...)   
 
E nesse momento o título do filme muda da origem e de tom. Não é mais Eunice quem fala. É como se fosse o marido e o pai dizendo, do outro lado de sabe-se-lá-que-abismo: “Ainda estou aqui. Ainda estou com vocês, pelo menos enquanto vocês lembrarem de mim. Continuem falando em mim, para que eu continue a estar com quem não esqueceu”.



E a luta da família fica não somente como uma luta pela Justiça, mas uma luta pela Presença, pela continuação daquela presença que para eles era preciosa.
 
Uma presença que vaza, de fora para dentro, mesmo em imagens onde o personagem não aparece. Eunice é conduzida encapuzada pelos corredores escuros do quartel, e ouve os faxineiros derramando baldes de água no chão do corredor e esfregando o piso com rodos. Esfregando o que?  Sangue, mas de quem?
 
Na hora da mudança forçada para São Paulo, uma das filhas some, e a mãe vai encontrá=la sozinha, na areia da praia, olhando em despedida o mar de Ipanema. Sim, é um adeus a Ipanema, por alguém que provavelmente gostaria de jamais ir embora de Ipanema. Mas é a presença do pai no mar, vazando para dentro da cena. Será que foi neste mar que jogaram meu pai?



 
Também muito se falou da reconstituição “de época” do filme, e imagino o trabalhão que deu compor aquelas ruas, fachadas de lojas, móveis, automóveis, roupas, detalhe de arquitetura. Vim ao Rio de Janeiro pela primeira vez em 1970, já cineclubista e universitário, olhos arregalados para aquilo tudo, sem imaginar que viveria aqui mais da metade da minha vida. Existe algo de aconchegante na visão daqueles fuscas, daquelas camionetes, daqueles cabelos. O mundo já foi assim.
 
Por outro lado, o “clima de época” se solidifica em outro tipo de cena. As cenas dos olhares de esguelha quando passa um caminhão de soldados, quando se percebe uma blitz lá adiante, quando a TV anuncia mais um atentado, quando os amigos se reúnem num apartamento para trocar novidades em voz baixa.
 
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
(Carlos Drummond, “Nosso Tempo”, A Rosa do Povo)

Tempos que nunca passarão de todo, infelizmente, porque não há utopia alguma no horizonte futuro do radar.
 
Vendo o filme de Walter Salles me veio à mente um filme iraniano recente, A Semente do Figo Sagrado (Mohammad Rasoulof, 2024). Ali se vê também a imagem de uma mãe e uma filha, encapuzadas, sendo levadas pelos corredores sem luz de uma prisão estatal, para interrogatório. É também uma tragédia familiar, mas de outra natureza. O pai é juiz, recebe uma promoção no Tribunal Revolucionário de Teerã, e a família dá um pulo bacana em estilo de vida, moradia, roupas, etc.
 
Só que aos poucos a mãe e as filhas ficam sabendo que, para isto, o marido aceitou assinar sentenças de morte (contra os inimigos do regime) sem sequer examinar os autos. A filha precipita a tragédia final ao trazer às escondidas para dentro de casa uma amiga, “estudante subversiva”, ferida durante uma manifestação. E o pai descobre.
 
Cada família infeliz é infeliz à sua maneira, dizia um escritor. Só que nem toda família a quem sobrevém uma tragédia é necessariamente uma família infeliz. Uma tragédia que não pode ser revertida precisa ser assimilada. A família tem um milhão de coisas práticas para resolver, tem uma memória para salvar, tem uma Presença para manter junto a si. A imprensa quer uma foto, mas precisa (ah, imprensa) de uma foto triste. Eunice diz: “Sorriam”.
 



 






quarta-feira, 24 de julho de 2024

5085) A exceção e a regra (24.7.2024)

 


 
Uma expressão popular diz que “toda regra tem exceção”. Há mesmo uma derivada desta: “Fulano é a exceção que confirma a regra”. 
 
Georges Perec usou de maneira muito pessoal esse conceito ao conceber seus romances sujeitos a regras arbitrárias e asfixiantes, aquilo que os franceses chamam de “contraintes”, ou restrições.


 
No imenso romance A Vida Modo de Usar (1978) Perec concebeu e executou uma porção de regras e as seguiu de maneira obsessiva. As regras são arbitrárias, ou seja, ninguém o obrigou a empregar essas regras e não outras; mas ele as criou e obrigou-se a segui-las, por impulso estético, por desafio intelectual, por divertimento maníaco. 
 
Como alguém que diz: “Vou escrever uma carta onde todas as palavras têm que começar com a letra C”. Guimarães Rosa escreveu uma carta assim para seu amigo João Cabral de Melo Neto.  Ninguém o obrigou a fazer isso. 
 
Leia aqui, na página do Templo Cultural Delfos, a “Carta ao Cônsul Cabral”:
https://www.elfikurten.com.br/2016/03/joao-guimaraes-rosa-carta-ao-consul.html
 
A literatura tem espaço para desafios desse tipo, e o maior desafio é produzir com isto uma história que se torne interessante para o leitor, que o faça ter vontade de continuar lendo sem parar, e não fechar o livro dizendo: “Ah, entendi. A regra é essa, e ele vai fazer isso até o fim... Tchau!...”. 
 
Não é só a regra. É o modo como a vida humana, mesmo submetida a regras bizarras, continua sendo a coisa mais interessante em um romance.  
 
Perec dizia, contudo, que não é apenas a regra que é obrigatória, mas a exceção. Nesse livro, por exemplo, ele descreve um edifício parisiense com dez andares e dez aposentos por andar; em tese, o livro deveria ter 100 capítulos, mas só tem 99.  Por que?  É a exceção obrigatória. 
 
Perec escreveu o famoso La Disparition (1969; traduzido no Brasil por Zéfere como O Sumiço) sem empregar a letra E em momento algum.  É possível, contudo, que em algum ponto do livro apareça, leve, serelepe, demente, uma letra E para ser essa famosa “exceção que confirma a regra”. Eu ainda não a encontrei. 
 
Perec comparou esse tipo de recurso à idéia do “clinâmen”, um nome latino atribuído a um conceito da filosofia grega, acho que formulado por Epicuro. 



(Epicuro)


A teoria dos gregos dizia que os átomos se movimentavam no espaço afastados uns dos outros, e num movimento uniforme, inalterável. Desse modo (questionava alguém) como os átomos poderiam ter começado a se misturar, produzindo a matéria como a conhecemos? 
 
A resposta é que em algum momento um átomo se desviava imprevistamente e se chocava com os átomos mais próximos, e daí começava um amontoamento, um turbilhão de choques, os átomos se recombinavam e a matéria surgia desse processo. Isto era o “clinâmen”. 
 
Ou seja: para que haja ordem é necessária a presença de um fator de desordem, de contradição, de desobediência à regra, de voluntarismo. 
 
Isto talvez não se aplique à Ciência e à moderna teoria atômica, mas é interessante quando aplicado à literatura, onde as regras são outras e, o que é melhor: são inventadas pelos escritores, e não impostas pela Natureza.
 
Siga a regra: mas deixe uma portinhola aberta para que por ali se infiltre a exceção. Para que? Para tornar a regra mais nítida. Como naqueles filmes em preto-e-branco onde “do nada” surge uma imagem de um objeto colorido (O Selvagem da Motocicleta, A Lista de Schindler, etc.). 



E também para mostrar que o mundo não comporta apenas o previsível, mas o inesperado. A natureza não consiste apenas numa Ordem, mas numa sucessão de Ordens e Desordens, equilíbrios e desequilíbrios, onde o excesso de um é compensado pelo surgimento do outro. 
 
Numa entrevista de 1981, Perec assim justificava a necessidade de “temperar” suas regras exigentíssimas com alguns deslizes propositais: 
 
É preciso, e isto tem muita importância, destruir o sistema das restrições, das regras. Esse sistema não tem que ser rígido, ele tem que conter um elemento de jogo... É como se diz: tem que ranger um pouco. Ele não tem que ser completamente coerente, é preciso que haja um clinâmen – algo que aparece na teoria de Epicuro sobre os átomos: ‘O mundo funciona porque, no seu início, existe um desequilíbrio’. Segundo Paul Klee, ‘o gênio é um erro no interior do sistema’”.
 
Uma grande parte das explicações do mundo o descreve como uma luta eterna entre o Bem e o Mal. A literatura vem glosando essa “batalha” há milênios: heróis e vilões, mocinhos e bandidos, gente do Bem e gente do Mal... 
 
Tudo isto existe, é claro, mas o mundo não se resume a isto. O Bem e o Mal são conceitos que se aplicam à vida humana, mas não ao universo como um todo. 
 
Não existe bem ou mal nas reações nucleares que fazem brilhar as estrelas, nem na força da gravidade, nem nas aglomerações de matéria que produzem planetas, cometas, etc.  O que existe ali é um cabo-de-guerra permanente entre a Ordem e a Desordem. 
 
A Ordem (vista do ponto de vista humano) pode ser uma coisa boa ou uma coisa ruim; a Desordem, idem. Os interesses humanos, sejam coletivos ou individuais, vivem mergulhados nessa oposição. 
 
Quando há um excesso de Desordem, é preciso que alguém imponha ali um pouco de regras, para que haja algum tipo de comunicação, de união coletiva, de esforço coordenado, de redução de esforços e otimização de resultados. O excesso de Desordem, o caos, leva à Entropia: à dissipação de energia do universo. 
 
Quando há um excesso de Ordem, é preciso que surja algum elemento perturbador, que desequilibra o que está imóvel, que vem “desafinar o coro dos contentes”, que pega aquela ordem adormecida e a desperta, extrai reações, faz com que ela volte à vida. O excesso de Ordem, o imobilismo, leva à Entropia: a dissipação de energia do universo. 
 
A Ordem absoluta não se distingue muito do Caos absoluto. Falta a ambos o elemento de contradição que põe o universo em movimento. 
 
A Vida (o surgimento de seres vivos) pode ser o clinâmen do universo. 




 
 


sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

5021) Algumas leituras de 2023 - 3 (12.1.2024)

 

(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. Se eu fosse incluir todos os livros bons que comecei mas não li por completo, não ia ter espaço que coubesse.)
 


 
O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2023), de Luiz Antonio Simas
O Rio de Janeiro que me atrai, e que mais me ensina, não é o do Pão de Açúcar, é o da Pedra do Sal. O Rio se divide entre a Rua e o Resto. O que mantém coesa esta cidade partida é sua cultura das ruas, o caldeirão fumegante de heranças e memórias, o canjirão farto e compartilhado, de coração aberto, com quem compartilha de coração aberto. Esta coletânea de crônicas é um pequeno clássico contemporâneo, já em 12ª. edição; Simas é um dos que mexem nesse caldeirão, e sei que posso chamá-lo de “professor de rua”, no sentido em que existem “músicos de rua”. Trabalhando sem pausa na zona crepuscular entre a memória oral-familiar-grupal e o ensino formalizado pelas escolas e pelas editoras, Simas é um dos muitos operários da missão de explicar “uma cidade fundada para expulsar franceses que um dia resolveu ser francesa para esconder que é profundamente africana”. 
 
 


“Un episodio en la vida del pintor viajero” (2000), de Cesar Aira
Aqui no Rio de Janeiro há um fã-clube informal deste escritor argentino, mas todas as vezes que me aproximei em busca de informações fui gentilmente escorraçado sob o pretexto de ser um leigo total. Fico feliz em afirmar que tal obstáculo foi removido. Este livro curtinho e intenso relata (glosa, amplifica, interpreta) um evento trágico na vida do pintor Rugendas, muito conhecido aqui dos brasileiros, mas que também viajou pintando por toda a América Latina. Cruzando o pampa argentino, Rugendas sofreu um acidente com seu cavalo e ficou com o rosto totalmente despedaçado, sendo forçado a usar máscara e a tomar doses enormes de morfina e outros remédios. César Aira conta essa história como uma espécie de delírio psicodélico desse alemão que entrou para a História do Brasil. 
 



Lunário Encourado (Itatiaia, Ed. do Autor, 2022), de Adiel Luna
Adiel é violeiro, embolador de coco, enredador de rimas, mestre-pastor de palco embandeirado, e tudo o mais que se imaginar; inclusive autor deste livro que Pedro Américo, na contracapa, descreve como “uma narrativa com 20 cantos ou movimentos”. Numa série de poemas com formatações variadas, mas sempre dentro da prosódia sertaneja, ele constrói passo a passo a vida de um vaqueiro, usando com abundância a terminologia local. Tal como Elomar Figueira de Melo, tem a precaução de acompanhar tudo com um glossário em doses medidas, página a página. Mais que um longo poema, é uma longa suíte de canções de apartação, de vaquejada, de cavalo rompe-mato, de namoro e dança. Como diz o narrador a certa altura (p.79): “Meu branco, regule! Tem cousa que munta gente diz: não consta no mundo. Já ôto chega e dí: -- Consta no mundo!”. 



Nací (Je suis né) (2022), de Georges Perec
Todo ano faço minha romaria à obra de Perec e leio um livro que não conhecia ainda. Li este ano Nasci, na tradução espanhola (Anagrama, Barcelona). É livro póstumo (Perec morreu em 1982), reunindo material inédito e disperso. Alguns textos são textos preparatórios para sua memória W ou a Memória da Infância (1975). Há transcrição de uma carta dele a Maurice Nadeau (um dos historiadores do Surrealismo), na qual ele enumera os projetos em que trabalha na época (1969); uma entrevista a Frank Venaille, e outros artigos curtos sobre literatura e memórias. “Los lugares de uma fuga” narra na terceira pessoa um episódio em que um garoto (ele) foge de casa, mas só se lembra disso depois de adulto; é calmo e arrepiante. “El salto en paracaídas” é um longo monólogo de improviso (gravado ao vivo, numa reunião, em 1959) em que ele compara o lançamento de uma revista a um salto de paraquedas. 
 
 
 
A arte do nevoeiro indelével (Campina Grande, Papel da Palavra, 2023), de Maxwell F. D.
Tenho observado cada vez mais a convivência pacífica, principalmente nos livros dos novos poetas, entre o verso livre/branco e o verso metrificado/rimado. Desde que me entendo de gente vejo um dos dois convidando para a missa de 7º. dia do outro, e por sorte continuam vivos e bulindo. Como vivem e bolem neste livro de estréia de Maxwell F.D., onde as formas fixas convivem em paz com o verso solto, algumas brincadeiras gráficas e trocadilhísticas, mas sempre denotando algo essencial e que nem sempre está presente em quem publica livros: o gosto pela palavra, a curiosidade pela palavra, o sabor de manejar a palavra e indagar tudo que ela pode dizer: “a luz que tinha era pouca / bruxuleava a chama / donde a fumaça emana / onde há fumaça há fogo / então vou lá descobrir / cavar, olhar, confundir / ao deixar tudo desnudo / eu sem querer clareei / as incertezas do mundo”
 


 
Chêne et Chien (1937), de Raymond Queneau
Outra romaria anual me leva todo ano à obra de Raymond Queneau (1903-1976), o intelecto mais bem-humorado da literatura francesa, que tende a ser tão constipada. O título “Chêne et Chien” alude às palavras de que se origina seu nome de família: “carvalho” e “cachorro”.  O livro é descrito pelo autor como um “romance em versos”, e é uma espécie de autobiografia psicológica numa série de poemas de formatos variados: livres, metrificados, com e sem rima. Queneau reconta sua vida com auto-ironia, e há uma sequência de poemas em que ele se reporta aos seus anos de psicanálise, de forma impagável: “E vejam que esse sacripanta / quer me fazer pagar por estas sessões. (...) Eu, o doente, insisto / em julgar esse psicanalista: / é um sedento, um rapinante, / um pobretão ávido de lucro / uma ratazana cheia de audácia / um salteador de estradas!”. 
 



O irreal e a suspensão da credulidade (Arribaçã, 2023), de W. J. Solha
W. J. Solha é um poeta privilegiado, um sibarita das letras, pois (ele mesmo o confessa) sua enorme e excelente produção literária é bancada integralmente por um circunspecto funcionário público, o bancário Waldemar José Solha, a quem o Banco do Brasil muitos serviços deve. Sua série de poemas-livro, caudalosos, whitmanianos, faz uma espécie de recenseamento das correspondências, relações, filiações, ecos e diálogos entre a pintura, a religião, a poesia, a história... Tenho comentado todos eles em meu blog, e este aqui é mais uma catadupa de imagens, de descobertas, de premonições: “E a humanidade – sempre antevendo o apocalipse – se sente, agora, a um lapso de ser eliminada pela Inteligência Artificial, / como o Homo Sapiens fez com o / Neandertal. / É a Terra se encaminhando / a seu objetivo / final”. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4990-o-real-irreal-de-w-j-solha-9102023.html
 
 
 
Os gatos quando os dias passam (Ed. 34) – Thiago E
Livro de poemas com tema único é sempre um desafio arriscado. Sinto um livro de poemas como algo que vai aos poucos se ramificando em várias direções, ao invés de convergir para uma só. E atesto que Thiago Eh saiu-se com láureas dessa tarefa de encontrar novos dizeres e novas maneiras, em cada um desses poemas dedicados à raça alienígena que devagarinho está nos amansando. Como ele diz: “sem ser notado, um gato te acompanha / desde o parto – escondido pelo sangue / entre ombros e quadris em crescimento / fortaleceu alguns grupos de músculos /das pernas, do abdômen e dos braços / a fim de pôr teu corpo em quatro apoios / no chão, e assim brincar equilibrista / a criança descalça, hoje esquecida / que um felino lhe deu coordenação / quando bebê, enquanto nem podia / sequer supor o mais vago sentido / desta infantil palavra: engatinhar.” 
 


 
The Housekeeper and the Professor (2003), de Yoko Ogawa
Está sendo publicada aos poucos no Brasil a obra desta escritora japonesa. Ogawa tem uma forma oblíqua e interessante de contar suas histórias. Em muitos casos, elas abordam a relação entre uma mulher mais jovem e um homem mais velho, cada vez com diferentes dosagens de adoração, sadomasoquismo, vassalagem. Neste caso, uma governanta precisa cuidar de um cientista que sofreu um acidente e só lembra o que lhe aconteceu na última hora e meia. A dependência mútua entre eles cria uma afetividade gradual e distante, numa dinâmica relatada com voz impassível, e bruscas surpresas de vez em quando. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4991-empregada-e-o-professor-12102023.html
 



Fábulas cabulosas e outras histórias subversivas (Rocco, 2022), de Henrique Rodrigues
O título dá uma idéia bastante próxima dessas historietas em que o autor revisita, da maneira irreverente, as mais conhecidas histórias infanto-juvenis, arrancando-as da noite aconchegante de seu contexto folclórico e trazendo-as, cara amassada, cabelo em desalinho, olhos piscando, para o meio-dia implacável do mundo atual. Atualizar histórias infantis tem sido um passatempo das décadas mais recentes, inclusive no campo da fantasia e do horror. Henrique Rodrigues as leva para o campo da crônica urbana atual, e as recheia com todo o linguajar (e conceitos) que atulham as redes sociais. De um lado temos Pinóquio, Branca de Neve, Pequeno Polegar e outros personagens, e de outro o jargão lacratório das redes: suas aventuras estão polvilhadas de “empoderamento”, “pertencimento”, “autoajuda”, “inclusivo”, “desconstrução”... O contraste entre arquétipos e clichês sempre rende boas risadas e boas reflexões. 
 

Transversais (Belém, Floresta Urbana, 2023), de Adriano Abbade
Uma das coisas que o Modernismo de cem anos atrás nos explicou foi que poesia lírica e registro prosaico podem ser complementares, fortalecendo-se mutuamente: a proximidade e o contraste faz ressaltar o que cada um tem de sensorial e de concreto. Adriano Abbade alterna poemas que lembram certas “notícias de jornal” de Bandeira ou Drummond, resgatando a beleza crua do banal da vida, e poemas de delicada percepção visual e sonora: “a poesia não está nesses versos / mas na cena que estes pretendem evocar / fim de tarde numa fazenda / generique miles davis a rolar / depois do vinho e da ganja / hae-mi levanta-se querendo dançar / despe o casaco / e a blusa branca / com as mãos cria uma ave /e tensiona com ela voar / seios beijando o vento / braços qual asa a planar / nua da cintura para cima / corpo de gaze aspirando ao luar / balé sem lastro / neste atordoante som / a leste cai a noite / em dourado azul neon.” 
 



Era apenas um presente para o meu irmão (Todavia, 2023), de Bruno Ribeiro
Um dos crimes mais cruéis da história recente da Paraíba? Pode ser, mas a concorrência a este título é tão grande que é preferível usar o termo consagrado junto à imprensa e ao público: “a Barbárie de Queimadas”. Em fevereiro de 2012, nessa cidade, um filho de uma família importante local ofereceu uma festa de aniversário ao irmão, e convidou algumas moças bonitas da cidade. O que elas não sabiam é que havia um “presente” para o aniversariante: no meio da noite, um bando de encapuzados invadiu a festa e começou uma longa sessão de estupros, de que o aniversariante e o organizador participaram. Duas das moças acabaram sendo mortas a tiros. Bruno Ribeiro usou este episódio para escrever uma reportagem corajosa (eu pelo menos não teria tido coragem de escrevê-la) sobre o mundo de hoje. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/09/4979-barbarie-de-queimadas-692023.html
 


Veja também:

Algumas Leituras de 2023 - parte 1

Algumas Leituras de 2023 - parte 2 


 






terça-feira, 12 de dezembro de 2023

5011) Um Louvre dentro de um Titanic (12.12.2023)




As leituras da obra de Jules Verne são hoje em dia, tanto tempo após sua morte (Verne morreu quando Machado de Assis ainda estava vivo), as mais variadas possíveis. Curiosamente, na França multiplicam-se as leituras místicas, ocultistas e esotéricas de seus livros, apelando para simbologia alquímica, magia ritual, sociedades secretas... A obra de Verne, vista por esse ângulo, renderia um novo Pêndulo de Foucault a Umberto Eco. 
 
Verne escreveu metodicamente, abundantemente, produzindo livros de aventuras empapados de ciência, com a regularidade de um mecanismo de relojoaria. Dois romances por ano. A leitura de seus livros em sequência nos revela a sua curiosidade sobre o conhecimento científico, o seu otimismo tecnológico, o seu senso de aventura “aconchegante e confortável”... 
 
Uma leitura específica que sempre me esclareceu foi a que Roland Barthes faz em Mitologias (1957) sobre o Capitão Nemo e suas aventuras (“Nautilus e Bateau Ivre”).




Barthes vê com olho esperto o Capitão Nemo e seus ideais de herói romântico; tendo rompido com a humanidade, ele na verdade nem quer destruir nem consertar o mundo, apenas afastar-se dele. 
 
A descrição de Barthes é toda cheia de simpatia irônica: 
 
A imaginação da viagem corresponde em Verne a uma exploração da clausura, e o bom entendimento que existe entre Verne e a infância não provém de uma mística banal da aventura, mas, pelo contrário, de um gosto comum pelo finito, que se pode encontrar na paixão infantil pelas cabanas e tendas: enclausurar-se e instalar-se, este é o sonho existencial da infância e de Verne. O arquétipo deste sonho é esse romance quase perfeito, A Ilha Misteriosa, no qual o homem-criança reinventa o mundo, povoa-o, fecha-o e nele se encerra, coroando este esforço enciclopédico com a postura burguesa da apropriação: pantufas, cachimbo e lareira, enquanto lá fora a tempestade, isto é, o infinito, uiva inutilmente
 
(Mitologias, Difusão Européia do Livro, trad. Rita Buongermino, Pedro de Souza e Rejane Janowitzer, p. 118)
 
Barthes estabelece um contraste interessante entre este herói romântico introvertido e os heróis românticos extrovertidos de tantos romances europeus de aventura, exploração e conquista. 
 
Jules Verne escrevia para jovens, e mantinha em seus enredos a pulsação excitante de toda aventura de peripécias. Outros autores, contudo, na época dele e depois dele, usavam essas aventuras em lugares exóticos para criar parábolas onde não enxergamos propriamente o entusiasmo colonialista de ocupar novos territórios, mas a narração de uma aventura geográfica com ressonância mais profundas – ressonâncias simbólicas onde as terras e as ilhas desconhecidas são as partes inexploradas da alma humana. 



Como René Daumal e seu famoso Mount Analogue (que tem como subtítulo “Romance de aventuras alpinistas, não-euclidianas, e simbolicamente autênticas”), em que um grupo de exploradores é arregimentado por um cientista com a finalidade de descobrir uma ilha misteriosa no Pacífico Sul, tornada invisível por uma anomalia gravitacional. 
 
Ou as excursões insólitas dos romances de Georges Perec (W, ou a Memória da Infância; A Vida, Modo de Usar) e Harry Matthews (Conversions), em busca de objetivos ligeiramente absurdos, demandas sem  utilidade aparente, em que o explorador sente-se como que obedecendo a uma força superior.
 
É um gesto aventureiro diferente do gesto de Verne com seu Capitão Nemo:
 
Verne não procurava de modo algum distender o mundo conforme as vias românticas da evasão ou de planos místicos de infinito: procurava incessantemente retraí-lo, reduzindo-o a um espaço conhecido e fechado, que o homem poderia em seguida habitar confortavelmente. (p. 119)
 
O que torna fascinante a obra do criador de Phileas Fogg é justamente a possibilidade de ver nela este duplo impulso. 
 
Por um lado, um impulso para fora, de aventura, descoberta e conquista, característico da literatura do século 19, de um colonialismo triunfante decidido a ocupar e mapear os menores recantos do mundo. E ao mesmo tempo a recusa a uma expansão infinita; o comodismo de dizer “pronto, game over,já conquistamos o mundo, agora vamos ignorar o resto”. 
 
Culturas como a Europa e os Estados Unidos de hoje se parecem com o “Nautilus” de Nemo, um imenso repositório de riquezas culturais arrecadadas por todos os cantos do mundo e remetidas para a capital do império. Um imenso Louvre ou Museu Britânico obtido através das conquistas militares, econômicas e políticas. 
 
E ao mesmo tempo um Louvre que está sendo remetido para dentro de um Titanic, de um receptáculo que mesmo gigantesco parece destinado ao naufrágio, fadado a suicidar-se pelo seu próprio peso. 
 
O gesto profundo de Júlio Verne é portanto, incontestavelmente, o da apropriação. A viagem do barco, tão importante na mitologia de Verne, não contradiz este gesto, muito pelo contrário: o barco pode ser o símbolo da partida; mais profundamente, é o sinal da clausura. O gosto pelo navio é sempre a alegria do enclausuramento perfeito, do domínio do maior número possível de objetos, do ato de dispor de um espaço totalmente finito: amar os navios é, antes de mais nada, amar uma casa superlativa, porque fechada sem remissão, e de modo algum as grandes e indeterminadas partidas. O navio é uma ação do habitat, antes de ser um meio de transporte. 
(p. 121)
 




sexta-feira, 18 de novembro de 2022

4884) A vergonha de Annie Ernaux (18.11.2022)

 


O Prêmio Nobel é bom quando celebra um autor que a gente gosta. Me lembro de que comemorei os nomes de José Saramago, William Golding, Mario Vargas Llosa. 

Também é útil quando nos revela nomes que a gente desconhecia. Quando a francesa Annie Ernaux ganhou o prêmio semanas atrás, houve muita troca de comentários nas redes sociais, e em função disso acabei tendo acesso a livros dela, cuja obra eu nunca tinha lido.
 
O que me chamou a atenção foram os comentários de que ela escreve parecido com Georges Perec, uma ficção meio autobiográfica mas narrada com distanciamento, sem nostalgia ou sentimentalismo. Perec tem alguns livros assim, e o seu W, ou a Memória da Infância é uma complexa experiência em que se misturam ficção especulativa e memória.
 
Peguei para ler La Honte (1997), já traduzido no Brasil (A Vergonha, Fósforo Editora, trad. Marília Garcia). É um relato curto onde ela aborda um fato crucial de sua juventude: o dia em que seu pai tentou matar sua mãe, em 15 de junho de 1952. (Annie Ernaux nasceu em 1940.)
 
Depois de um almoço do domingo, o casal discute sem parar. O marido está alterado, tremendo convulsivamente, e começa a bater na mulher. A filha sobe correndo para seu quarto, apavorada. A mãe grita por socorro, a menina desce e vê os dois ainda brigando, na adega, enquanto o pai ergue uma foice.
 
“Foi tudo muito rápido”, como se diz, e Annie lembra apenas que depois estão os três distanciados, ela chorando, o pai sentado à janela, a mãe perto do fogão. Trocam frases ásperas, mas parece que tudo se dilui, como em tantas brigas domésticas; e os três saem para passear de bicicleta, como fazem todos os domingos. Diz ela: “E nunca mais se tocou naquele assunto”.
 
Como é de esperar, esse episódio (até moderado, se a gente pensar no que acontece por aí) fica incrustado na memória da menina e logo nas primeiras páginas a autora, agora adulta, confessa que está escrevendo sobre aquilo pela primeira vez.


(Annie Ernaux)
 
A prosa de Annie Ernaux, neste livro pelo menos, é uma prosa cristalina; tem do cristal tanto a clareza quanto a rigidez, tanto a luminosidade quanto a crispação íntima. Não se desmancha em queixas nem em melodrama. Os franceses, tão emotivos! – conseguiram desenvolver um tipo de prosa distanciada para analisar os próprios sentimentos, traumas, emoções turbulentas. Será o resultado de quatro séculos de cartesianismo e cem anos de psicanálise?
 
La Honte se anuncia como o relato de um evento traumático, “vergonhoso”. Uma briga de casal como milhões de outras, uma violência da parte mais forte sobre a mais fraca. Annie Ernaux descreve com objetividade cinematográfica o ambiente, o local, o momento, os detalhes que a memória conseguiu salvar. Uma cena, apenas – e desta cena o livro inteiro se desdobra, como um pop-up.
 
Porque a partir daí ela recua, vai se afastando desse nódulo problemático, deixa-o meio que para trás. Vai mostrando a pessoa que era o pai, a pessoa que era a mãe. Comenta fotografias de infância – que na literatura são sempre um excelente pretexto para a produção de fantasias afetivas. Descreve o lar, uma típica combinação de vida privada e trabalho público, pois a família administra um pequeno café-mercearia, e mora no restante da casa; ali, misturam-se o espaço de atendimento aos fregueses e a residência privada.
 
Descreve a cidadezinha de “Y”, seu espaço físico, seu espaço social – ali moram os ricos, aqui os remediados, ali os pobres. Comenta a mentalidade local, as fofocas, a vigilância recíproca, as maledicências a meia voz, o medo de “cair na boca do povo”. Impossível não ver o que há de profundamente nordestino (brasileiro?) nesse vilarejo da Normandia, que surge no livro como se eu já o conhecesse. Junto com a mãe, a menina Annie lê romances de M. Delly e de Max du Veuzit, os mesmos que eu, adolescente, via às dezenas nos sebos de Campina Grande e do Recife.


Começa uma longa descrição da vida escolar da garota, que parece ao leitor, num primeiro momento, uma mudança de assunto, uma virada de página, deixando para trás o episódio violento. À medida que ela avança no relato, no entanto, começa a revelar um contexto social que remete o tempo inteiro à infelicidade do pai e da mãe.
 
Annie foi matriculada (sabe-se lá a que custo) numa escola particular de freiras católicas, e não na modesta escola pública que caberia à filha de um pequeno comerciante, ex-camponês, ex-operário. É a única da família que teve a chance desse upgrade social, sem dúvida por esforço de sua mãe, que tem devaneios de ascensão (o pai é rústico e ressentido). 
 
Nessa escola católica e emproada a menina tem acesso às incontáveis pequenas humilhações de quem percebe o tempo inteiro o quanto é mal vestida, inadequada. E brota nela um sentido mais amplo de vergonha, que não é apenas a vergonha do que o pai tentou fazer à mãe, mas a vergonha de serem todos três aquilo que inevitavelmente são.
 
O ponto alto desse pesadelo gelado é a excursão de ônibus ao santuário de Lourdes, quando ela e o pai são repetidamente humilhados pela desatenção dos garçons, o esnobismo dos companheiros de viagem, e a constatação de que são “pobres”, não pertencem àquele mundo.



(No destaque, o País de Caux)
 
Logo nas primeiras páginas vi que a autora chamava apenas de “Y.” a cidadezinha onde morava com os pais. Achei normal, e segui adiante. De repente, ela diz:
 
Em junho de 52, eu nunca havia saído daquele território a que se dá o nome, de maneira bem vaga, mas compreendida por todos “aqui entre a gente”, como o país de Caux, à margem direita do Sena, entre Le Havre e Rouen. (trad. BT)
 
Caiu uma ficha do tamanho do Louvre. “Y” era então Yvetôt!... Porque essa região que ela descreve é a região de Arsène Lupin, na costa da Normandia: Rouen, Dieppe, Le Havre, Étretat... É ali que se passam algumas das aventuras mais célebres do “ladrão de casaca”: A Agulha Oca... A Condessa de Cagliostro... O Mistério do Rio do Ouro... 

É o território que Lupin conhece como a palma da mão, onde travou suas maiores batalhas contra inimigos poderosos, onde decifrou enigmas seculares da história da França, onde esconde os seus tesouros.
 
E assim, por uma dessas magias da literatura, toda a pequena e dolorosa aventura de Annie Ernaux tornou-se mais real para mim. Mais real ainda do que me havia sido revelado pelo bisturi de sua prosa. Eu conheço (de minha infância também, de meus doze anos também) aquelas cidades antigas encarapitadas entre morros e vales, aquelas igrejas em ruínas, aqueles camponeses surrados pelo tempo, de cenho franzido, de queixo duro. Aqueles rochedos místicos e sangrentos. Aquela Normandia sisuda, arraigada em si mesma, suspeitosa do mundo lá de fora. Um povo de segredos enterrados. Um povo que presenciou crimes e que poderia contá-los, mas só à força de bisturi.



(As falésias de Étretat; o país de Lupin)