O lado “musicalmente beatle” dos Stones ficava por conta do multi-instrumentista Brian Jones, que morreu cedo; uma perda tão grande para o rock quanto as de Jimi Hendrix e Jim Morrison.
Estou rondando por aqui há muitos anosroubei a alma e a fé de muitos homens.Estava por perto quando Jesus Cristoteve o seu momento de dor e de dúvida;e me certifiquei de que Pilatoslavasse as mãos e selasse o seu destino.
Nem tudo eram banquetes: o fotógrafo dos Stones lembra que na noite anterior à sessão de fotos a casa de Brian Jones tinha sido invadida pela polícia, em busca de drogas (não acharam nada), e ele, sempre o mais emocionalmente instável da banda, estava ainda abalado.
O repertório do disco, curiosamente, não fica batendo na
tecla da ostentação. Há várias canções quase totalmente acústicas, fugindo às
muralhas de som do heavy-metal
nascente.
“Factory Girl” é uma homenagem às garotas que trabalham
em fábricas, cantada pelo sujeito que a espera do lado de fora (quase um “Três
Apitos” de Noel Rosa), uma garota “com joelhos gordinhos, com um lenço em vez
de chapéu, e uma roupa com um zíper quebrado atrás”.
“Salt of the Earth” é outra canção proletária, se se pode
dizer isto. A banda ergue um brinde “aos humildes de berço... aos que trabalham
duro... ao soldado raso que se mata de trabalhar, à sua esposa e filhos que
acendem fogos e aram a terra... vamos beber a esses milhões de pessoas que
precisam de líderes, mas só lhes chegam especuladores...” Aqui, os ecos se
propagam até “Working Class Hero”, da carreira solo de John Lennon.
Ou seja: por mais que fossem milionários recentes os
Stones não cortavam seu cordão umbilical de classe, das origens não-milionárias
de cada um. E mesmo quando decolavam num dos seus rocks mais pesados e rebeldes
dessa fase, “Street Fighting Man”, eles perguntam:
Mas afinal, o que pode um rapaz pobre fazera não ser cantar numa banda de rock?Porque nesta sonolenta cidade de Londresnão há lugar para guerreiros de rua.
Então... o meu nome é Distúrbio,eu vou gritar e ululareu vou matar o reie passar o rodo nos seus servidores.
Keith Richard comenta que a rapaziada inglesa de então (lembrem-se, o ano era 1968) via com certa inveja as agitações estudantis francesas que fecharam a Sorbonne e pararam Paris no mês de maio. Richard lembra que as frases iniciais desta música (“Ev’rywhere I hear the sound of marching charging feet, boy..”) se baseia na sirene de duas-notas dos carros de polícia franceses. Uma inspiração semelhante à que teve John Lennon ao compor “I Am The Walrus” (“Mister-City-p’liceman-sittin’-pretty-little-p’liceman-in a row...”).
Comparada à Paris de Daniel Cohn-Bendit e de Jean-Luc Godard, Londres devia parecer uma grande Boston. Talvez por isso mesmo a banda tenha convidado Godard para filmar a gravação de “Sympathy for the Devil” no estúdio – parafraseando Chico Buarque e dizendo: “pra ver se o fogo deles, guardado em ti, nos contagia um pouco”.


